Ano 1 - Volume 9
Capítulo 3: Intenção Inabalável
NAQUELA QUINTA-FEIRA, avistei Ichinose enquanto voltava para os dormitórios. Normalmente, ela ficava cercada por um grupo de alunos — tanto garotos quanto garotas —, mas agora parecia estar sozinha, o que era raro. Por algum motivo, eu também não sentia sua habitual energia radiante.
Imaginei que ela estivesse sozinha não por coincidência, mas porque estava se afastando propositalmente dos amigos. No momento, ela era a pessoa sob o foco mais intenso de atenção em toda a escola, independentemente do ano; qualquer um que se envolvesse descuidadamente com ela poderia acabar sofrendo danos colaterais. Não me surpreenderia se ela tivesse decidido se isolar um pouco por causa disso.
Lembrei-me da conversa entre Kanzaki e Hashimoto no outro dia.
Deveria chamá-la?
Pensei nisso, mas então percebi a presença de alguém atrás de mim e desisti. Tirei o celular do bolso, liguei a câmera e troquei para a lente frontal, usando a tela para observar discretamente o que estava às minhas costas.
Dois alunos caminhavam na direção dos dormitórios do primeiro ano, como eu. Um deles era Hashimoto. Ele andava normalmente, mas depois do que acontecera dias atrás, não podia assumir que fosse coincidência. Estaria me seguindo?
Enquanto eu tentava confirmar, a outra estudante se aproximou sem hesitação. Fechei o aplicativo da câmera e guardei o celular justo quando ela chegou perto.
— E-Er… com licença, Ayanokoji-kun. Você tem um minuto…?
Era minha colega de classe, Wang Mei-Yu. As pessoas costumavam chamá-la de Mii-chan, já que seu nome era difícil de pronunciar, embora eu achasse um pouco estranho chamá-la assim até mentalmente.
— Você… tem um tempinho agora? Eu queria conversar com você sobre uma coisa — disse ela.
Ela queria falar comigo? Nós mal havíamos tido qualquer contato até então. Na verdade, essa era praticamente a primeira vez que ela me dirigia a palavra diretamente. E não parecia haver ninguém mais por perto a quem ela pudesse estar se referindo…
Enquanto isso, Ichinose continuava se afastando, sem perceber minha presença. Se eu corresse atrás dela agora, pareceria estranho.
— D-Desculpa… você deve estar ocupado, né…?
— Não, eu só estava voltando para o dormitório. Tudo bem.
Mii-chan pareceu se iluminar com minha resposta, soltando um suspiro aliviado. Hashimoto passou por nós sem olhar para mim, seguindo na direção dos dormitórios sem dizer nada.
— Então… você disse que queria conversar comigo? — perguntei.
— Bem, falar aqui vai ser meio desconfortável… — Mii-chan olhou ao redor, inquieta. Pelo visto, o assunto não era algo para se tratar casualmente ali.
— Entendi. — Naturalmente, eu não podia simplesmente dizer "Ah, já que estamos perto dos dormitórios, que tal você ir ao meu quarto?". Ir ao quarto dela seria ainda mais absurdo. — O que você prefere fazer?
Deixei a decisão para Mii-chan. Ela pensou por um momento e sugeriu:
— S-Seria… tudo bem se fosse no café? Talvez a gente volte um pouquinho tarde depois, mas…
Se era o que ela queria, eu não tinha motivo para recusar. E "um pouquinho tarde" significava apenas cinco ou dez minutos a mais de caminhada — nada demais.
Seguindo sua sugestão, fomos até o Café do Keyaki Mall. Como não tínhamos muita intimidade, caminhamos um pouco afastados um do outro, e não lado a lado.
*
O café estava sempre lotado, e hoje não era diferente. Até eu, com minha falta de bom senso sobre os detalhes da vida normal no ensino médio, entendia o porquê. O lugar era extremamente popular, especialmente entre as garotas, e pertencia a uma grande empresa do mundo exterior. As bebidas eram caras — caras demais para a maioria dos estudantes comuns se darem ao luxo de frequentar mais do que algumas vezes por mês, a menos que tivessem um emprego de meio período.
Mas os alunos desta escola recebiam mesadas baseadas nos pontos da classe, o que significava que muitos podiam ir ao café quantas vezes quisessem, desde que não estivessem passando por dificuldades. Como resultado, o café vivia apinhado, dia após dia.
Ainda assim, conseguimos encontrar assentos vagos e nos sentamos de frente um para o outro. Mii-chan encarava a bebida que havia pedido, sem tentar olhar nos meus olhos.
Ela me lembrava Airi. Se eu a pressionasse sem querer, provavelmente ficaria ainda mais difícil para ela dizer o que queria. Decidi não tentar quebrar o gelo. Para dar a ela espaço para organizar seus pensamentos, disse que iria pegar um pouco de açúcar.
Fui até o balcão e peguei um sachê. Sem deixar meus olhos vagarem pela sala, confirmei que Hashimoto também tinha vindo parar no café.
Duvidava que tivesse sentido uma súbita vontade de tomar café. Ele estava me seguindo, sem dúvida. Será que Sakayanagi tinha pedido para ele me vigiar? Não, isso não parecia certo. Sakayanagi não queria que informações sobre mim se espalhassem. E, se quisesse me seguir, usaria sua marionete, Kamuro. Supondo que ela entendesse que tipo de pessoa Hashimoto era, saberia que ele não era o tipo ideal para esse tipo de tarefa. Ela evitaria dar informações sobre mim a ele, apenas para ele acabar vazando para algum terceiro.
Então ele estava me seguindo por conta própria? Não me lembrava de ter feito nada durante o acampamento escolar que justificasse isso. Eu devia ter parecido apenas mais um integrante do grupo.
Ryuen, Ishizaki e Albert, e Ibuki. Pensei se algum deles poderia ter falado comigo, mas descartei essa possibilidade. Bem, eu não ia resolver esse mistério agora. Mas parecia ser um problema que eu teria de enfrentar em breve.
Decidi ignorar isso por enquanto e continuar a conversa com Mii-chan. Já fazia cerca de um minuto desde que eu me levantara, então voltei ao meu assento. Assim que o fiz, Mii-chan quebrou o silêncio.
— U-Um… É sobre o Hirata-kun.
Sobre o Hirata, hein?
— Eu queria que você me esclarecesse algumas coisas… — continuou ela.
— Nós não somos tão próximos assim — respondi quase imediatamente, como quem toma cuidado. Mas Mii-chan me olhou surpresa.
— Então por que o Hirata-kun me disse que você é a pessoa mais confiável da classe, Ayanokoji-kun?
— Foi mesmo?
— Sim. Ele disse que você é o mais confiável da sala. Ele falou muito bem de você.
Embora eu realmente ficasse feliz em ser elogiado pelo Hirata, se esse tipo de comentário começasse a circular, seria um problema. Ainda assim, entendia por que Hirata tinha dito meu nome. Havia vários alunos confiáveis, mas se você restringisse a busca à Classe C, as coisas ficavam complicadas. Se restringisse ainda mais para apenas garotos, então não era tão estranho que Hirata tivesse me escolhido.
Mas… ela queria falar sobre o Hirata. Considerando a conversa anterior com Haruka, eu podia imaginar aonde isso ia chegar.
— Então, um… O Hirata-kun e a Karuizawa-san… Bem… Eles terminaram recentemente. Você sabia?
— Sabia, claro — respondi, fingindo não entender por que ela estava trazendo isso à tona.
— B-Bem, um… — Mii-chan hesitou algumas vezes e, finalmente, foi direto ao ponto. — V-Você sabe se existe alguém que o Hirata-kun gosta agora?

Pronto. Era isso. Qual era o curso de ação correto numa situação como essa? Pensei por um momento e decidi que o melhor seria dar uma resposta honesta.
— Não acho que sim.
— S-Sério?
— Não posso dizer com absoluta certeza, claro. Mas, até onde eu sei, não, não tem ninguém. Além disso, ele acabou de ser largado pela Karuizawa. Provavelmente é cedo demais para ele já ter sentimentos por outra pessoa — respondi.
— Isso é verdade — disse Mii-chan, parecendo se acalmar.
— Posso te perguntar uma coisa, só por curiosidade?
— S-Sim.
— Quando você começou a gostar do Hirata?
— Hããã?!
Foi uma pergunta estranha? O rosto de Mii-chan ficou vermelho na hora. Ela parecia completamente desnorteada.
— P-P-P-Por que você tá perguntando isso?
— Bem, se você não quiser responder, não precisa…
— Acho que foi logo depois da cerimônia de entrada — respondeu ela, me interrompendo.
Então ela contou mesmo assim, hm.
— Eu sou meio desajeitada… — Mii-chan continuou, falando com sinceridade que havia se apaixonado pelo Hirata na primeira vez em que o viu. — Eu acho. É o que parece, pelo menos.
— É mesmo? — Eu não entendia muitas coisas sobre isso, mas tinha certeza de uma: ela tinha sido encantada pela gentileza do Hirata.
— Mas… — ela ainda estava corada de quando falou sobre conhecer o Hirata, mas agora sua expressão ficou nublada, como se tivesse voltado à realidade. — Eu… eu não acho que alguém como eu possa ser namorada do Hirata-kun…
— Por quê? — perguntei, sem entender como ela podia ter tanta certeza.
— Porque tem rivais demais… E além disso, eu nunca me apaixonei antes ou nada assim…
Então, apesar de transbordar sentimentos, ela não tinha coragem de agir? Eu não queria acreditar que falta de experiência fosse necessariamente uma desvantagem… mas também não podia afirmar que não influenciava.
— Bom, Mii-chan… Espera, talvez eu não devesse te chamar assim, né?
— Ah, não, tudo bem. Todo mundo me chama assim. Mesmo meus pais sendo chineses, eles gostam do apelido japonês, então me chamam de Mii-chan também.
Ou seja, ela não era mestiça.
— Você está estudando no exterior? — perguntei.
— Um, bem, quando eu estava no primeiro ano do ginásio, meu pai veio ao Japão a trabalho — respondeu ela.
Então ela se mudou junto com a família?
— Você encontrou alguma dificuldade? Tipo questões de idioma, por exemplo.
— No começo foi bem difícil. Eu estava mais preocupada em fazer amigos do que em aprender o idioma… Mas tinha muita gente que falava inglês bem na escola onde entrei, então eu consegui me enturmar — explicou.
Isso me lembrou: eu já tinha ouvido que a Mii-chan era boa em inglês. Além disso, ela dominou perfeitamente o japonês em três anos de ginásio. Eu tinha ouvido que estudantes chineses precisavam se esforçar muito para conseguir acompanhar uma sociedade muito mais competitiva que a japonesa. Provavelmente foi justamente por ter recebido uma educação tão rigorosa que ela conseguiu se adaptar tão bem ao Japão. Agora, só faltava melhorar suas habilidades de comunicação, como a Airi.
— Eu me pergunto se alguém como eu tem alguma chance…
— Não quero dizer nada irresponsável, mas acho que você tem uma boa chance. Não acha?
— Sério?
— Não estou mentindo. Mas…
— Mas…?
Embora isso pudesse deixá-la mais ansiosa, eu precisava mencionar a parte mais complicada da situação.
— O Hirata é um cara legal, né?
— Sim.
— Então, não acha que justamente por isso, da próxima vez que ele namorar alguém, ele vai ser muito cuidadoso? Sabe? Ele pode até sentir que tem culpa pelo que aconteceu, como se não tivesse conseguido fazer a Karuizawa feliz, ou algo assim.
— Entendo… — disse ela, assentindo. — Você tem razão. E eu… eu também não conseguiria me confessar logo de cara.
— Você pode estar preocupada com a concorrência, mas se agir com pressa e se declarar cedo demais, a chance de ser rejeitada é muito alta — eu disse.
Sugeri que ela fosse com calma. Ela teria de perguntar ao Hirata como ele realmente se sentia antes de ter certeza de qualquer coisa, mas não conseguia imaginá-lo entrando em outro relacionamento tão cedo sem pensar. Era muito mais provável que ele rejeitasse a maioria das garotas que se declarassem agora. Nesse sentido, Mii-chan teria mais chances se esperasse.
— Acho que talvez eu tenha me enganado sobre você, Ayanokoji-kun.
— Enganado?
— Bem, é que você normalmente não fala muito. Ou nada, na verdade. Você passa uma vibe meio assustadora. Mas depois de te encontrar cara a cara e conversar assim, sinto que você é super fácil de conversar. Parece até que você realmente se importa com os meus problemas…
Apesar dos elogios dela, a verdade era que eu não estava realmente ouvindo. Seria mais preciso dizer que eu estava analisando a nossa conversa inconscientemente, examinando cuidadosamente qualquer informação que pudesse ser útil mais tarde, ou algo que eu pudesse usar. Se eu parecia alguém que realmente se importava com seus problemas, então isso era apenas um bônus conveniente.
Será que eu deveria ir um pouco mais longe? Parecia uma boa oportunidade para perguntar sobre algumas outras coisas.
— Oh? Mii-chan e… Ayanokoji-kun, são vocês?
Bem quando eu abri a boca, Shiina Hiyori, da Classe D do primeiro ano, apareceu ao lado da nossa mesa. Fechei a boca sem dizer uma palavra.
— Olá, Hiyori-chan — disse Mii-chan. Pelo jeito como se chamavam, eram próximas.
— Vocês dois estão num encontro, por acaso? — perguntou Hiyori.
— N-N-Não, não é nada disso, Hiyori-chan! — disse Mii-chan, em pânico, levantando-se rapidamente. Ela balançou os braços na frente do corpo para negar a ideia, com um gesto tão expansivo que o corpo inteiro balançou junto. Ela negar com tanta força assim… doeu um pouco.
— Nesse caso, tudo bem se eu me juntar a vocês?
— Claro, por mim tudo bem. …E você, Ayanokoji-kun?
— Tudo bem.
— Muito obrigada. — Hiyori se sentou ao lado de Mii-chan, exibindo um sorriso largo e alegre. — É bem incomum ver vocês dois juntos. Sobre o que estavam conversando?
— A-Ah, bem… — Mii-chan hesitou, incapaz de admitir que estávamos falando sobre o cara que ela gosta.
— Eu estava dizendo que tenho interesse na China, então estava perguntando algumas coisas pra ela — respondi.
— N… na China?
— Sim. É um país que eu gostaria de visitar algum dia, então pensei em conversar com a Mii-chan, que é chinesa.
Lancei um olhar para Mii-chan, praticamente dizendo "Né?" com os olhos. Ela assentiu várias vezes, rápido.
— A China é realmente incrível, não é? Também me interesso muito, especialmente pela Muralha da China — disse Hiyori, juntando as mãos na frente do corpo, ainda sorrindo. Surpreendentemente, parecia ser um assunto que ela realmente gostava.
— Acho que é impossível falar da China sem mencionar a Muralha. Mas, pessoalmente, eu gostaria de visitar a Cidade Antiga de Ping Yao — respondi.
— Ping Yao?
Pelo visto, Hiyori nunca tinha ouvido falar. Por outro lado, os olhos de Mii-chan se arregalaram de surpresa ao ouvir eu mencionar o lugar.
— Uau. É um Patrimônio Mundial, mas mesmo assim… tô impressionada que você conheça — disse ela.
— Só ouvi falar por acaso, só isso.
— A propósito, vocês dois são… amigos? — perguntou Mii-chan, vendo Hiyori e eu conversarmos tão naturalmente.
— Sim. Somos parceiros de leitura.
— Bem, você não tá errada — eu disse.
— Parceiros de leitura…? — repetiu Mii-chan. Ela pareceu confusa por um instante, sem entender o que queríamos dizer, mas imediatamente transformou a confusão em positividade. — É maravilhoso ter amigos de outras classes, não é?
Provavelmente ela nunca tinha tido amigos fora da própria classe antes do acampamento escolar.
— Acho que sim. Acho que a vida escolar tem mais a oferecer do que só ficar antagonizando os outros — disse Hiyori.
Competir com outros alunos era uma parte fundamental de como o Colégio funcionava. Muitos estudantes aqui tinham uma forte tendência a ver pessoas de outras classes como rivais. No entanto, agora que já estávamos nesse ponto, mais e mais estudantes estavam começando a se abrir para pessoas de outras classes.
Dito isso, a escola ainda escondia partes de sua agenda de nós. Caso contrário, não teria implementado regras como as do acampamento de treinamento. Eu não podia afirmar com certeza que esse contato entre classes não teria um impacto negativo no futuro. Se chegasse o momento em que fôssemos forçados a competir, um relacionamento meia-boca poderia fazer mais mal do que bem.
*
— Obrigada por tudo hoje, Ayanokoji-kun — disse Miichan.
— Não, eu que devo agradecer, já que fiquei dominando a conversa te perguntando sobre a China e tudo mais.
Agradeci a Mii-chan por reflexo, fazendo com que ela coçasse a bochecha com o dedo, parecendo envergonhada.
— A-Ah, b-bom, suponho que sim… — respondeu ela.
— Vou subir depois de verificar minha correspondência — falei, virando de costas para Mii-chan e Hiyori enquanto elas entravam no elevador.
Eu checava o conteúdo da minha caixa de correio uma ou duas vezes por semana, como muitos outros estudantes provavelmente faziam. A maior parte do que chegava era da própria escola, mas às vezes recebíamos coisas por correspondência pessoal. Havia também situações em que produtos comprados pelos alunos eram entregues por meio da escola.
Mas eu não estava verificando minha caixa por algo tão comum.
— Nada hoje também, hein?
Eu tinha começado a checar minha correspondência regularmente desde que meu pai apareceu na escola, antecipando que ele pudesse tentar me contatar. Vendo que não havia nada importante, voltei para o elevador. Quando cheguei lá, encontrei Hiyori me esperando.
— Tem um minuto? — ela perguntou.
— Tenho.
Seguimos até o sofá no saguão, um pouco afastado do elevador.
— Tinha algo que eu queria te perguntar mais cedo, mas como você estava com a Mii-chan… — disse Hiyori, parando no meio da frase. Ela deu uma olhada ao redor para ver se havia alguém por perto e então continuou: — Você ouviu algo sobre a Ichinose-san?
— O que exatamente? Se estiver falando daqueles boatos absurdos, sim, eu ouvi.
— Exatamente isso. Você… por acaso sabe quem está espalhando esses rumores? — perguntou Hiyori.
— Não… tenho receio de que não.
Seria fácil mencionar Sakayanagi ou Hashimoto, mas preferi não fazer isso.
— Para ser honesta, eu realmente detesto ver a Ichinose-san sendo atormentada assim. Ela trata até mesmo alunas como eu, que não têm muitos amigos, com a mesma gentileza com que trata qualquer outra pessoa — disse Hiyori.
Se eu lembrava direito, Hiyori e Ichinose tinham ficado no mesmo grupo durante o acampamento escolar. Depois de comerem juntas e dormirem no mesmo alojamento, era natural que ela sentisse uma ligação mais forte com Ichinose do que com outros alunos.
— Ayanokoji-kun… — havia determinação nos olhos de Hiyori. — Eu detesto machucar os outros. Mas acredito que, às vezes, é necessário lutar para proteger seus amigos.
— Suponho que você esteja certa. Não dá para salvar todo mundo.
— Mesmo que a Ichinose-san seja nossa inimiga em comum, deve existir algum jeito de ajudá-la. Ainda não tenho um plano, mas… você me ajudaria?
— Ajudar, é? Nesse caso, você deveria falar com a Horikita.
— A Horikita-san? — Hiyori claramente não parecia animada com a ideia.
— Imagino que a Classe C também estaria disposta a ajudar a Ichinose — acrescentei. Se isso acontecesse, significaria que as Classes D, C e B se uniriam contra a Classe A. Mas Hiyori não parecia muito contente com essa possibilidade.
— Então você não vai fazer nada por conta própria, Ayanokoji-kun?
— Eu não tenho influência nenhuma sobre a Classe C.
— Entendo… — respondeu ela, inclinando a cabeça para o lado, com uma expressão confusa.
— Para as garotas, fale com a Horikita. Para os garotos, com o Hirata. Você vai ter que conversar com um dos dois.
— Entendo… — disse Hiyori. Seus ombros caíram, decepcionados.
— Insatisfeita? — perguntei.
— N-Não… é só que eu mal conheço a Horikita-san ou o Hirata-kun. Então pensei que, se eu fosse até você, Ayanokoji-kun… — Seus ombros murcharam ainda mais, e ela parecia desolada. A visão me surpreendeu.
— Desculpe. Se não tem nada que eu possa fazer… então não tem nada que eu possa fazer.
— N-Não, tudo bem… Foi egoísmo meu. Eu simplesmente cheguei e pedi, sem pensar em como você se sentiria — ela disse, fazendo uma pequena reverência.
— Bom, quer que eu fale com eles por você, por enquanto? — ofereci.
— Sério? Você faria isso por mim? — Mesmo sendo exatamente o que ela tinha dito antes que queria, parecia ter mudado de ideia. — Me desculpe, mas… pensando melhor, vamos conversar outra hora. Se agirmos sem cuidado, isso pode fazer os rumores se espalharem ainda mais e causar mais problemas para a Ichinose-san.
— Entendi. É, você pode estar certa.
Nesse momento, não havia como saber o que as pessoas que estavam atacando Ichinose fariam a seguir. Agir sem cautela poderia ser mais prejudicial do que útil.
Sem mencionar a possibilidade de que os rumores sobre Ichinose estivessem mais próximos da verdade do que muitos imaginavam…
*
Depois de voltar para o meu quarto, recebi uma mensagem da Horikita.
"Você tem um minuto agora?"
Não respondi, mas assim que ela viu o recibo de leitura, enviou outra mensagem imediatamente.
"Já que a mensagem que acabei de mandar foi marcada como lida, vou continuar falando. A Ichinose-san vem para o meu quarto hoje à noite. Você vem também?"
Isso foi inesperado. Eu planejava apenas ler as mensagens, mas dessa vez resolvi responder de verdade.
"O que levou a isso?"
"Temos uma aliança com a Classe B. É natural querermos ajudar quando for necessário. Mas, nesse caso, não estamos entendendo a situação completa. Então pensei em ouvir diretamente da pessoa envolvida"
Ou seja, ela entrou em contato com a Ichinose e pediu para se encontrarem pessoalmente. Uma jogada ousada.
Seria fácil recusar. Horikita provavelmente me contaria depois se eu perguntasse. Entretanto, talvez ela não conseguisse arrancar toda a verdade da Ichinose. Mesmo o Kanzaki, que era bem próximo a ela, não sabia de tudo.
Nesse caso… eu chegaria mais perto da verdade se encontrasse a Ichinose diretamente e perguntasse eu mesmo? Infelizmente, isso significaria me envolver no que viesse a seguir.
O que eu deveria fazer? Depois de pensar um pouco, enviei uma resposta curta para Horikita:
"Que horas?"
"Às sete."
Era um pouco tarde. Eu teria que tomar cuidado para não ser visto por outros estudantes.
"Certo. Aviso antes de ir."
E assim, decidi me encontrar com a Ichinose junto com Horikita.
*
Passei o restante do tempo descansando no meu quarto. Às sete menos cinco, saí e fui até o quarto da Horikita. No momento exato em que saí do elevador, avistei a Ichinose.
— Ah, boa noite, Ayanokoji-kun — disse Ichinose.
Respondi com um aceno leve.
— Desculpe incomodar — falei.
— Ahaha! Imagina, eu que estou incomodando.
Com isso, Ichinose foi na frente e tocou a campainha do quarto da Horikita. O som da fechadura destravando veio imediatamente.
— Entrem, por favor.
Tínhamos combinado para as sete; não havia nada estranho em chegarmos juntos. Horikita nos recebeu sem comentar nada, e eu me sentei no chão. Já tinha visitado o quarto dela antes, e ele não parecia ter mudado desde a última vez. Simples e austero, como o meu.
— Desculpe chamá-la assim numa noite de semana, Ichinose-san.
— Você está fazendo isso por consideração a mim. Não há por que se desculpar — respondeu Ichinose.
Vendo-a assim, cara a cara, ela parecia a mesma Ichinose de sempre.
— Mas… se isso se estender demais, vai nos atrapalhar amanhã. Então pretendo ir direto ao ponto. Tenho certeza de que você ouviu alguns boatos preocupantes circulando sobre mim.
— Sim. Você sabe quem está espalhando esses boatos? — perguntou Horikita, indo direto ao assunto. Eu escutava, curioso para ver se Ichinose responderia com sinceridade.
— Não tenho provas concretas. Mas, se tivesse que apostar, diria que é a Sakayanagi.
Foi uma resposta muito mais direta do que eu esperava. Eu duvidava que Ichinose mencionasse alguém específico se não estivesse pelo menos meio certa. Ela não era o tipo que suspeitava dos outros sem motivo. Isso deixava bem claro para mim: Ichinose sabia, ao menos, quem estava por trás dos boatos.
— Sakayanagi-san… O que faz você ter tanta certeza de que é ela? — perguntou Horikita.
— Simplificando, porque ela declarou guerra contra nós. Isso não basta para convencer?
Horikita provavelmente já sabia o quão agressiva Sakayanagi podia ser. Considerando que ela foi capaz de aprofundar o racha dentro da própria classe para derrubar o Katsuragi, era fácil imaginar que miraria na líder da Classe B, Ichinose, para vencê-los.
— Sim. Isso é o bastante — disse Horikita. Ela pensava da mesma forma que eu, então não havia necessidade de insistir. — Então, ela está espalhando boatos sem fundamento para prejudicar sua reputação?
— Hm… como posso dizer…?
— Você não vai negar os boatos?
— Me desculpe, Horikita-san. Não posso responder essa pergunta. Você e o Ayanokoji-kun são meus amigos, mas pertencem a outra classe. Mesmo que digamos que somos aliados agora, ainda estamos destinados a competir um dia — disse Ichinose.
Direta no primeiro ponto, mas agora recusando a responder. Totalmente esperado.
— Não pretendo forçar uma resposta. Mas você sabe que o silêncio pode ser interpretado como uma confirmação de que os boatos são verdadeiros, certo? — disse Horikita.
— Qualquer um é livre para interpretar dessa forma, inclusive você, Horikita-san. Mas não tenho intenção nenhuma de reagir exageradamente. A estratégia da Sakayanagi é deixar a Classe B desestabilizada. Acho que a melhor resposta é permanecer em silêncio — respondeu Ichinose, sorrindo, exatamente como sempre.
Assédio desse tipo acontecia em qualquer lugar, o tempo todo. Não havia solução perfeita: reagir ou ficar calado acabaria dando margem para ainda mais especulação. Talvez fosse justamente porque sabia disso que Ichinose tinha escolhido não reagir, apenas esperar tudo passar.
— O motivo de eu ter pedido para encontrá-la hoje, Horikita-san, foi para falar sobre isso. Não quero que você se envolva. Mesmo que eu fique calada, vai demorar mais para tudo esfriar se as pessoas ao meu redor fizerem barulho. E, acima de tudo, não há motivo para a Classe C cair na mira da Sakayanagi só porque tentou me ajudar. Eu vou ficar bem — disse Ichinose, acenando com convicção, o sorriso intacto.
— Eu sei que você tem um coração forte. Verdadeiros ou não, qualquer um ficaria abalado com boatos tão cruéis circulando por aí. Mas, mesmo assim, você não pensa em si mesma — pensa nas pessoas ao seu redor — disse Horikita.
— Eu não sou tão incrível assim — respondeu Ichinose, um pouco constrangida. — Você e sua classe devem continuar como estão, Horikita-san. Eu mesma vou resolver meu problema.
Dizendo isso, levantou-se rapidamente. Parecia que ela tinha vindo apenas para avisar Horikita a não se envolver.
— Você sabe sobre o Kanzaki e os outros? — perguntei. Talvez minha intervenção fosse desnecessária, mas decidi tentar.
— Kanzaki-kun?
— Ele confrontou o Hashimoto da Classe A outro dia, pedindo — de forma bem direta — que ele parasse com os boatos. Bom… acho que passou um pouco do "pedir", até.
— Entendo… Kanzaki-kun é realmente gentil. Eu disse a ele que não precisava fazer nada.
— Não é só o Kanzaki-kun. Tenho certeza de que outros colegas seus também estão tentando agir por sua causa — disse Horikita. Apesar de estar ouvindo isso pela primeira vez, duvidava que ela estivesse errada.
— Vou conversar novamente com o pessoal da minha classe. Podemos encerrar por hoje? — perguntou Ichinose.
— Tem certeza de que está bem com isso? — perguntou Horikita, pedindo confirmação mais uma vez.
— Claro — respondeu Ichinose, sem hesitar. — Obrigada por se preocuparem comigo. E Ayanokoji-kun, obrigada também por vir tão tarde.
— Não foi nada. Só vim junto.
Ichinose se despediu e saiu. Dessa vez, Horikita não tentou detê-la.
— Será mesmo que não devemos fazer nada? — ela murmurou.
— Quem sabe? — respondi.
Com base no que vimos, Ichinose parecia exatamente como sempre. Se eu tivesse que descrever… não era que estivesse fingindo força; era mais como se estivesse tentando não pensar no assunto. Essa era a impressão que tive.
— O que você acha que eu devo fazer? — perguntou Horikita.
— Quer a minha opinião?
— Quero. A sua opinião honesta.
— Então eu diria para não fazer nada.
— E por quê?
— Se a Sakayanagi é realmente a origem dos boatos, como a Ichinose disse, se envolver pode fazer com que ela volte os olhos para a Classe C.
— Entendo. Mas… e se a Ichinose-san for derrotada pela Sakayanagi-san? De qualquer forma, a Sakayanagi não miraria na Classe C depois?
Uma conclusão natural.
— De fato, seremos alvo mais cedo ou mais tarde. Mas, quando isso acontecer, a líder incômoda da Classe B já terá sido derrubada. Isso joga a nosso favor.
— Então você está dizendo que não se importa com o que acontecer com a Ichinose-san? Você é bem frio.
— Frio? Não foi assim que você mesma agiu no começo? Ajudar um colega é uma coisa. Mas Ichinose é de outra classe. Ela é alguém contra quem teremos que competir. A derrota dela é vantajosa para nós. Não há motivo para lamentar.
— Ela é nossa aliada no momento. Até que a Sakayanagi-san e a Classe A caiam, e reste apenas um confronto direto com a Classe B—
— Isso é bem idealista, não acha? — interrompi.
A Classe A convenientemente caindo para C, enquanto Ichinose e nossa Classe C subiam para A e B, terminando com um duelo final? Era só um sonho distante.
E além disso, Ichinose estava recusando a ajuda dos outros. Mesmo que Horikita quisesse intervir, não havia muito que pudesse fazer sem atrapalhar o plano dela.
— Você deve deixar as coisas como estão — falei.
— S-Suponho que sim… — disse Horikita, sem discutir. Isso me dizia que ela sabia, no fundo, que essa era a escolha certa.
Já tínhamos demonstrado nossa preocupação como aliados e deixado claro que estávamos dispostos a ajudar. Isso bastava. O melhor plano para a Classe C era manter um perfil discreto, ganhar a simpatia das outras classes e avançar enquanto elas se enfrentavam entre si.
Eu dei minha opinião porque ela pediu. A decisão final caberia a ela — embora eu duvidasse que fosse se envolver mais com o caso da Classe B. Não havia como ajudar sem atrapalhar.
— Vou voltar também. Um garoto não deve ficar muito tempo no quarto de uma garota — avisei. Se eu ficasse depois das oito, poderia dar problema.
— Verdade… — respondeu Horikita, distraída, nem olhando para mim.
Horikita estava mudando, pouco a pouco. No entanto, as mudanças eram um tanto extremas. Ela estava se deixando influenciar pelo ambiente ao redor e perdendo de vista seus objetivos. Eu imaginava que continuaria lutando — por si mesma e pelos outros — por um bom tempo.
Mas ela superaria isso e se tornaria quem realmente deveria ser?
Essa era a parte mais importante.
Depois que deixei o quarto, vi Ichinose parada diante do elevador. Enquanto eu me perguntava se ela estava me esperando, ela acenou para mim com um largo sorriso.
— Ei, por aqui! — disse ela em voz baixa, chamando-me.
Entrei no elevador, sentindo como se ela estivesse me apressando. Ela apertou o botão para o primeiro andar, levando-nos até o saguão.
— Você se importa de vir comigo por um minuto? — perguntou Ichinose.
— Não me importo, mas… Para onde estamos indo?
— Hm… Será que podemos ir lá fora um pouco?
Chegamos ao saguão. Mesmo sem ninguém por perto, seguimos para fora. O sol já havia se posto, e estava completamente escuro. Naquela escuridão, Ichinose e eu caminhamos até uma das áreas de descanso no caminho para o prédio da escola.
— Eu sei que está frio, mas… não quero atrair atenção.
— Entendo. Você está bem, Ichinose?
— Estou. Ah… Hm, como posso dizer… Sinto muito.
Eu me perguntava o que ela diria, mas a primeira coisa que saiu de sua boca foi um pedido de desculpas.
— Por que está se desculpando? — perguntei.
— Acho que por estar causando problemas para você, para a Horikita-san, para o pessoal da Classe C. Fiz vocês se preocuparem à toa com esses rumores. Por favor, não deem atenção a eles — disse Ichinose.
— Foi isso que você disse ao Kanzaki e aos outros, não foi?
— É a melhor resposta que posso dar, eu acho. Essa é a postura que vou manter até que os rumores desapareçam — disse Ichinose, olhando para mim com determinação nos olhos. Se ela havia falado desse jeito, não era de surpreender que Kanzaki e os demais apoiadores da Classe B não tivessem escolha a não ser aceitar. — Bem, era só isso que eu queria dizer… Está bem frio, não é? Vamos voltar.
— Certo.
Falamos apenas por um momento. Ichinose pediu que eu entrasse primeiro, então voltei ao dormitório antes dela.
*
A vida diária das pessoas ao meu redor tinha ficado bem agitada. Eu mesmo não estava fazendo nada de muito proativo, mas continuava sendo arrastado pelos acontecimentos. Apesar dos altos e baixos, talvez esse fosse o tipo de vida normal que eu queria ter?
Eu tinha a sensação de que logo chegaria a uma resposta.
Mas então, algo estranho aconteceu.
O telefone que eu havia deixado ao lado da cama vibrou silenciosamente. O relógio marcava pouco depois da uma da manhã. Fui ver quem poderia estar me ligando a essa hora tão incomum, mas era um número não registrado.
Não deveria ser possível receber ligação de um número externo. Os celulares fornecidos pela escola só podiam fazer e receber chamadas de outros números internos, e não havia como mudar essa configuração — uma medida para impedir que os alunos entrassem inadvertidamente em contato com o mundo exterior. Não era um recurso incomum; celulares infantis também tinham controles parentais parecidos.
Ou seja, a ligação vinha de alguém dentro da escola cujo número eu não tinha salvo. Eu não tinha como saber se era um aluno ou um professor.
— Alô?
Ainda meio sonolento, atendi o telefone com cuidado, encostando-o no ouvido esquerdo. Ninguém falou do outro lado. A única coisa que escutei foi uma respiração leve.
Ficamos ambos em silêncio por uns trinta segundos, esperando que a outra pessoa falasse.
— Se você não vai dizer nada, vou desligar — avisei, já cansado daquele silêncio.
— Ayanokoji Kiyotaka.
A pessoa do outro lado falou meu nome. Era uma voz masculina que eu não me lembrava de ter ouvido antes, mas não parecia ser um adulto. Nesse caso, era bem provável que fosse um aluno.
— E você é? — perguntei.
A pessoa ficou quieta novamente. E então, desligou.
— Me ligar só para dizer meu nome… — Eu não podia tratar aquilo como um simples engano. — Então você resolveu agir, hein…?
A identidade do interlocutor era o menor dos problemas. Eu começava a enxergar a estratégia daquele homem. Ele havia começado a se mover contra mim. Mas por que me avisar? Se o objetivo fosse me expulsar da escola, um ataque surpresa faria mais sentido.
Fazer algo assim de propósito era uma ameaça. Uma ameaça de que ele pretendia me esmagar.
Haveria algo, qualquer coisa, que estivesse fora do alcance daquele homem…?
De qualquer forma, não havia mais como voltar atrás no que havia começado.
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