Classroom of The Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 8

Capítulo 3: Um Pressentimento de Derrota

NORMALMENTE TÍNHAMOS os sábados de folga, mas as aulas ainda aconteciam nesta escola ao ar livre. No entanto, o cronograma era ligeiramente diferente do dia de semana: as aulas aconteciam apenas pela manhã. Quando terminavam, tínhamos tempo livre.

O exame especial começou na quinta-feira. Já era o terceiro dia do acampamento, e a discórdia começava a se manifestar no grupo. Tudo começou cedo, logo após as cinco da manhã.

— Ah, estou tão cansado! — gritou Ishizaki na área de cozinha ao ar livre.

— Todo mundo está. Ah, por favor, meçam os ingredientes corretamente — não errem a quantidade de missô — disse Keisei, folheando o cardápio de café da manhã fornecido pelos professores.

— Cale a boca. Por que eu tenho que ajudar a fazer comida em primeiro lugar?! — resmungou Ishizaki, enquanto continuava mexendo o missô para dissolvê-lo.

— Olha, não temos escolha. Podemos ser penalizados se nosso grupo inteiro não estiver presente.

— Que se dane, cara, como se eu me importasse. Droga. Ah.

— O que foi isso?

— Nada.

— Não, foi alguma coisa. Onde está o sal que você estava segurando?!

— Coloquei tudo.

Keisei apagou o fogo em pânico. Provou a sopa e engasgou.

— Você colocou sal demais! Argh! Nem dá pra comer.

Se tivéssemos dado essa sopa para os veteranos, seria alvo de muitas críticas. Sem contar que provavelmente era até prejudicial à saúde.

— Vocês terão que recomeçar.

— Que se dane. Faça você. Ou e o Koenji?

— Não é como se eu soubesse!

— Vocês estão na mesma turma, não estão?!

Hashimoto lançou um olhar por cima do ombro para os dois brigando pelo missô, mantendo as mãos ocupadas manuseando habilidosamente uma frigideira no fogão do acampamento.

— Cara, você é muito bom.

— Sempre cozinhei minhas próprias refeições — disse Hashimoto, sem traço de arrogância. Enquanto continuava a cozinhar, Albert se aproximou silenciosamente, carregando uma tigela cheia de ovos batidos.

— Obrigado. Se não for muito incômodo, posso pedir para cortar alguns vegetais também?

Apesar de seu corpo volumoso, Albert manejou habilmente a faca na tábua de corte, picando os vegetais com facilidade. Teríamos que alimentar muitas pessoas, então Hashimoto continuou a fritar ovos sem parar. Claramente, ele e Albert eram nossas cartas na manga na cozinha.

Enquanto isso, eu tive sorte de ficar com a tarefa fácil de preparar os vegetais crus e os utensílios. Havia muitos vegetais para preparar e, embora eu não pudesse ajudar na fritura, pelo menos podia ajudar a cortar e picar. Fiquei ao lado de Albert e tentei me comunicar silenciosamente apenas com os olhos

Can you handle cutting? Vegetables?

Probably, yeah.

De algum modo, conseguimos nos entender — pelo menos o suficiente para Albert me entregar uma faca. Felizmente, morar no dormitório me deu alguma habilidade com facas. Comecei a cortar os vegetais, acompanhando o ritmo de Albert.

Onde teria ido Koenji, afinal? Já fazia meia hora que ele tinha ido ao banheiro. As turmas A e B enviaram um aluno cada para procurá-lo, mas como não voltaram, era seguro dizer que não o encontraram.

No fim, Koenji só retornou na hora do café da manhã. Quando voltou, tudo o que disse foi que estava trancado no banheiro por causa de uma dor de estômago. Nem preciso dizer que sua relação com Ishizaki estava irremediavelmente arruinada neste ponto.

*

 

Algo aconteceu enquanto eu estudava Moral durante a terceira aula naquele sábado. Ouvi a voz alegre de uma garota lá fora e, ao espiar pela janela da sala do terceiro andar, vi Ichinose correndo animadamente pelo pátio. Ela havia tido dificuldades para coordenar os grupos no primeiro dia, mas agora parecia contente.

Sakayanagi havia declarado com entusiasmo que esmagaria Ichinose, mas eu não vi sinal de que isso fosse acontecer. Claro, eu só podia enxergar o que estava na superfície.

Enquanto observava, consegui discernir, até certo ponto, quem eram os membros do grupo de Ichinose. Surpreendentemente, só consegui identificar uma pessoa da Classe C entre eles. Os alunos da Classe B eram todos desconhecidos para mim, exceto Ichinose. Teriam seguido a mesma abordagem dos garotos — escolher o mínimo de pessoas da Classe B para garantir uma mistura equilibrada de alunos das quatro classes?

Eu não tinha certeza de quem eram os alunos das Classes A e D, mas consegui ver a garota que havia sofrido um ferimento sério ao colidir com Horikita durante a manobra de Ryuen no Festival Esportivo. Felizmente, ela parecia totalmente recuperada, correndo sem problemas.

A única aluna da Classe C, por sua vez, era uma garota chamada Wang Mei-Yu. Ela viera da China para o Japão durante o ensino fundamental e permanecera aqui desde então. Pelo menos, era o que eu tinha ouvido. Seu apelido era Miichan, embora apenas amigos próximos a chamassem assim. Tudo o que eu sabia era que ela se saía bem na escola e tinha grande habilidade em inglês.

Embora houvesse pequenas diferenças em suas notas, no geral, ela era tão acadêmica quanto Keisei. Curiosamente, também era tão atlética quanto ele — o que significava que, naquele momento, estava em último lugar com folga, apesar de se esforçar desesperadamente para acompanhar o grupo. Ela cambaleava, respirando com dificuldade, olhando para o céu, parecendo prestes a desabar.

Ichinose percebeu Miichan ficando para trás e desacelerou. Ela ajustou seu ritmo para correr ao lado da garota, incentivando-a. Pouco depois, outra garota se juntou a elas. Era Shiina Hiyori, da Classe D. Ela também não parecia especialmente atlética, mas tinha um sorriso no rosto enquanto corria com as outras meninas.

Segundo Ryuen e seus seguidores, Shiina assumira o papel de líder das garotas da Classe D. Se isso fosse verdade, eu estava observando um grupo de garotas com duas líderes de classe nele. Pensando nisso, não seria estranho se Horikita e Sakayanagi estivessem juntas também — mas aparentemente estavam em grupos diferentes.

Sentindo uma onda de curiosidade sobre como aqueles grupos haviam se formado, continuei olhando pela janela em vez de prestar atenção à aula. Quando o instrutor começou a falar, percebi que as coisas estavam prestes a ficar difíceis.

— Vamos começar agora as apresentações. No entanto, vocês não estarão apenas se apresentando. Tenham em mente que isso fará parte da sua aula. A partir de agora, vocês farão um discurso todos os dias. Os temas vão variar entre as séries, mas os quatro critérios fundamentais para avaliação serão: volume, postura, conteúdo e comunicabilidade.

A palavra "discurso" já havia aparecido no cronograma que recebemos no ônibus, confirmando que esse seria um dos tópicos em que seríamos testados no exame especial. Aposto que cada membro do nosso grande grupo terá que apresentar um discurso que ele mesmo compôs em algum momento. Esta parte do exame seria um inferno para quem não tivesse habilidades para falar em público.

O instrutor avisou que os calouros fariam discursos sobre o que aprenderam no primeiro ano e o que gostariam de aprender nos próximos anos. Os alunos do segundo e terceiro ano teriam que falar sobre seus planos para o futuro, como ir para a universidade ou conseguir um emprego.

— Sério? Que merda de exame — resmungou Ishizaki. Entendi como ele se sentia, mas estava sendo excessivamente alto. Até o professor pareceu ouvir, embora não o repreendesse. Poderíamos fazer o que quiséssemos, mas precisávamos lembrar que nossas ações afetariam o grupo.

Quando o horário de intervalo chegou, um jovem se aproximou do grupo de calouros. Ishizaki, que estava com as pernas esticadas sobre a mesa, imediatamente se endireitou. O novo chegado era Kiriyama, da Classe B do segundo ano, vice-presidente do conselho estudantil sob Nagumo Miyabi. Ele costumava estar na Classe A, mas fora rebaixado após perder para Nagumo e, no fundo, parecia desejar a queda de Nagumo. O irmão de Horikita nos colocara em contato.

— Acho que vocês deveriam ajustar um pouco a postura — disse ele.

— C-Certeza. Bem, eu não estava causando nenhum problema ou nada do tipo.

— Não estou falando apenas de você, Ishizaki. Isso vale também para você, Koenji.

Por mais que desejasse a queda de Nagumo, Kiriyama ainda precisava cumprir o papel de vice-presidente. Ele tinha que lidar com qualquer coisa que pudesse afetar as notas gerais do grupo.

— Seremos avaliados com base no teste do último dia, certo? Não acho que levar essas aulas a sério seja tão importante.

— O teste escrito não é tudo neste exame especial. Você não pensou que os instrutores poderiam levar em conta o comportamento de vocês nas aulas? E como exatamente planeja tirar boa nota se não levar as aulas a sério?

— Simples é melhor. Estamos falando de mim, não é?

— Entendi. Você quer dizer que tirar uma nota alta é fácil para você, né? Bem, vamos ver se consegue cumprir essas promessas quando o exame especial chegar. Você faz parte deste grupo — não deveria querer evitar comportamentos que deixem seus colegas desconfortáveis?

— Um grupo que se sente desconfortável com minhas ações é um grupo sem valor.

— Você não decide isso, Koenji.

— Então, quem decide, posso saber?

— Ninguém sozinho. Todo o grupo decide. Cada aluno aqui decide.

Ishizaki não pôde deixar de sorrir ao ouvir isso, provavelmente porque gostava de ver Koenji ser repreendido. No entanto, o bom senso não funcionaria contra Koenji.

— Valho muito mais que todos vocês juntos. Uma pessoa comum não consegue julgar o excepcional corretamente.

— Você é ignorante e infantil demais para ser chamado de estudante do ensino médio — disse Kiriyama.

Koenji não recuou, mas, antes que eu percebesse, quase metade dos alunos do segundo ano começou a nos cercar. Até o sorriso de Ishizaki desapareceu, seu rosto ficou rígido. Podiam-se ouvir palavras ameaçadoras sendo sussurradas ao nosso redor.

— Além disso, não é só Koenji. Há vários de vocês causando problemas.

Provavelmente se referia a Ishizaki, mas honestamente eu não conseguia pensar em mais ninguém. Todos estávamos levando as aulas a sério, cada um à sua maneira. Kiriyama provavelmente nos agrupava para nos fazer focar, deixando claro que provocar a ira dos veteranos teria consequências. Koenji era apenas a gota d’água.

— Acho que já basta, Kiriyama.

Incapaz de apenas assistir à situação, Ishikura, um aluno do terceiro ano, interveio para ajudar.

— Eu sei que você só está tentando orientá-los, mas do jeito que está fazendo, pode parecer bullying. Se isso acontecer, quem vai se complicar é você. Os calouros entendem bem a situação, não é?

Ishikura olhou para nós em busca de confirmação, e todos nós, inclusive eu, assentimos. Exceto Koenji, é claro.

— Excelente, Ishikura-senpai. Você realmente tem o controle da situação, não é? — disse Nagumo alegremente. Ele estava observando tudo acontecer de fora. — Você é bom demais para estar na Classe B. Talvez você só seja azarado mesmo, Ishikura-senpai.

— Azar, hein? Por mais que eu odeie admitir, acho que é só que minhas habilidades não estão à altura.

— Não acho que seja isso. A única razão de você não ter subido para a Classe A é porque há um gênio como Horikita Manabu no seu caminho. Sei que você se esforçou por três anos. Há uma diferença de 312 pontos entre as Classes A e B agora. Mesmo com a formatura chegando, acho que você está se aproximando deles.

— Está dizendo que vai liderar este grupo à vitória?

— Exatamente. Se você estiver disposto a confiar em mim, Ishikura-senpai, vamos vencer este exame especial. E, como tenho certeza que isso vai te alegrar, vou te ajudar a chegar à Classe A. Talvez até consigamos tirar Horikita-senpai da escola. Hein?

— Infelizmente, Horikita não parece ser representante de grupo. E você também não é, Nagumo, certo? Não há nada que você possa fazer que seja suficiente para derrubá-lo.

— Não importa se ele é representante ou não. Existem muitas maneiras de derrotá-lo — disse Nagumo, rindo.

— Desculpe. Mas não posso confiar em você. Não com o destino da Classe B.

— Que pena.

Nagumo simplesmente expôs todos os seus planos na frente de todos. Ele realmente era tão ingênuo assim? Ou estava apenas tentando parecer ingênuo? Eu duvidava que fosse a primeira opção.

*

 

No jantar, decidi fazer alguns movimentos discretos.

Ou assim eu digo, embora tudo o que eu realmente estivesse tentando fosse entender melhor a situação das garotas. Ichinose e Shiina estarem no mesmo grupo havia me pegado de surpresa, e eu queria compreender como estavam os outros grupos.

Queria entender melhor a situação das garotas, porque Ichinose e Shiina estarem juntas me surpreendeu. Precisava descobrir como estavam os outros grupos.

Kei estava comendo no mesmo lugar de sempre desde o início, o que facilitava o contato. Eu nem havia pedido para ela fazer isso. Ela realmente era confiável. Eu, por outro lado, vinha pegando lugares aleatórios que estivessem livres, querendo evitar engajar-me abertamente com Kei, por precaução.

Poucos estudantes sabiam da minha relação estranha com Ryuen e outros membros da Classe D, ou com Kiriyama e Kei. Além disso, havia inimigos internos com os quais eu precisava ter cuidado. Verifiquei meu timing e sentei-me perto de Kei. Justo quando eu pensava em como faria para ela notar minha presença.

— Hmm.

Kei fez algum tipo de som, talvez um cumprimento? Foi muito suave. Aparentemente, ela me notou, mesmo enquanto aproveitava a refeição com suas amigas. Nesse caso, eu esperaria pacientemente até que ela se despedisse delas.

Ela continuou a comer devagar, deixando suas amigas voltarem para o quarto antes dela. Eu havia considerado adiar este encontro caso houvesse chance de interrupção. Ela não podia se livrar das amigas, mas conseguiu, de maneira inteligente, fazê-las sair.

Finalmente, ninguém prestava atenção em nós, e nossa conversa podia começar. Claro, interromperíamos imediatamente caso alguém aparecesse.

— Então? Já é o terceiro dia e você finalmente decidiu pedir minha ajuda?

— Sim. Tenho informações insuficientes sobre as garotas.

— Não me surpreende. Alguém com deficiência de comunicação como a sua só consegue contatar algumas garotas.

Ela já estava me dando o ombro frio, logo de início. Um pequeno preço a pagar se isso ajudasse Kei a sentir que tinha vantagem e mantivesse nosso relacionamento... mas decidi ser um pouco maldoso em resposta.

— Então, você vai se sair bem neste exame especial mesmo sem minha ajuda?

— O-Obviamente. Quer dizer, quem você pensa que eu sou?

— Entendi. Então não há nada com que se preocupar.

— Bem, talvez você possa analisar minha situação só para ter certeza de que não há nada com que se preocupar. Pode ser? — disse Kei, parecendo ansiosa.

— Me diga como os grupos das garotas estão divididos.

— Ah, antes de falarmos sobre isso, tem uma coisa que está me preocupando.

— Seja rápida.

Se falássemos por muito tempo, as pessoas poderiam desconfiar.

— Bem, eu diria que é importante… O que está acontecendo com aquele Ryuen?

— Você está preocupada?

— Bom, sim. Até as garotas estão comentando. Tipo, por que ele parou de ser líder e tal. Ninguém sabe o que realmente aconteceu.

— Bem, eu nunca diria que Ryuen é "manso como um cordeiro", mas ele ficou um pouco domesticado.

— Então, colocá-lo contra a parede funcionou?

— Colocá-lo contra a parede?

Kei escondia sua vulnerabilidade atrás de uma fachada dura, embora seu medo aparecesse de vez em quando. Sua curiosidade provavelmente vinha da ansiedade por Ryuen conhecer sua fraqueza.

— Não se preocupe com Ryuen. Ele não fará nada descuidado. Pelo menos, ele não vai fazer nada com você, Kei — disse eu, para tranquilizá-la.

Kei não respondeu. Será que alguém estava se aproximando de nós? Eu estava em alerta caso isso acontecesse… mas não parecia ser o caso. Imediatamente percebi o que estava acontecendo.

— Desculpe. Não é nada — ela disse. Eu podia perceber que era mentira.

— Não parece nada, Kei.

— Estou dizendo, não é nada.

— Isso é mesmo verdade, Kei?

— Espera um minuto. Você está fazendo isso de propósito, não é?! — Ela não olhou para mim, mas a voz soava ameaçadora. Talvez eu a tivesse pressionado demais. — Ugh, Deus. Eu não deveria ter te dado permissão para me chamar pelo primeiro nome.

— Você foi quem começou isso em primeiro lugar.

— E-é, sim.

Mais importante, se ela estivesse satisfeita com o que eu havia dito sobre Ryuen, eu queria ir direto ao ponto. Estávamos bem escondidos em meio à confusão, mas se alguém nos notasse, poderia desconfiar do meu relacionamento com Kei.

— Bem, juntei tantas informações quanto pude, mais ou menos. Quer ouvir?

— Sim.

— Vou falar logo de cara — não consegui obter uma visão completa de todos os grupos como você queria.

— Entendo. Não esperava tanto de você.

— Ok, isso é um jeito muito rude de dizer. Mesmo alguém como você não conseguiria saber tudo sobre quem foi colocado em qual grupo, certo?

— Hmm. Fico me perguntando sobre isso.

— O quê? Está dizendo que memorizou onde cada um está?

— Não disse isso.

— Em que grupo está Shibata-kun da Classe B?

— Ele está no grupo de estudantes principalmente da Classe B, liderado por Kanzaki.

— E Tsukasaki da Classe A?

— Ele está com estudantes principalmente da Classe A, liderados por Matoba.

— E-E quanto a Suzuki-kun?

— Ele foi colocado em um grupo pequeno diferente do meu.

— Você memorizou tudo!

— Só os nomes que conheço. Mas se eu vejo o rosto de alguém, consigo lembrar a qual grupo pertence.

Eu estava grato por este exame ter me forçado a memorizar os nomes de todos os calouros. Quando terminássemos aqui, provavelmente conseguiria relacionar nomes e rostos com quase 100% de precisão. Claro, desde que eu não tivesse perdido ou entendido algo errado.

Suspiro. Como sua memória é tão boa? Não me diga que você é daqueles nerds de óculos que passa o tempo todo estudando ou algo assim.

Infelizmente, eu não tinha ideia do que Kei estava dizendo.

— Vamos ao que interessa. O que está acontecendo com o grupo de Sakayanagi e Kamuro?

— Elas estão no mesmo grupo. É formado por estudantes de três classes, com nove alunos da Classe A. A Classe A foi a primeira a montar seus grupos — explicou Kei.

Então, as garotas adotaram uma estratégia semelhante à dos rapazes da Classe A. Só que elas escolheram nove estudantes em vez de doze.

— O fato de terem apenas três classes significa que alguém não entrou. Ou talvez Sakayanagi não os tenha deixado entrar?

— Elas não aceitariam ninguém da Classe B. Rejeitaram a ideia imediatamente. Disseram que não podiam confiar em Ichinose ou algo assim. Bem, Sakayanagi não disse isso. Kamuro disse.

— Não podia confiar nela, hein?

— Acho que você não confiaria totalmente em nenhum aluno de outra turma, mas eles citaram especificamente a Ichinose. Não é meio estranho? Quero dizer, até eu só ouvi coisas boas sobre ela.

Se me pedissem para nomear um aluno confiável de outra turma de primeiro ano, eu certamente diria Ichinose. Claro, provavelmente haveria mais de uma pessoa que escolheria Kushida se perguntassem a mesma coisa… De qualquer forma, eu estimava que Ichinose estava entre as mais confiáveis do nosso ano.

Mas se o grupo de Sakayanagi e Kamuro tinha membros de apenas três classes e o número mínimo de alunos, o multiplicador de pontos seria muito reduzido. Era uma estratégia onde a vitória absoluta era impossível, mas a derrota total também.

— Isso não é justo, né? A Classe A deveria apenas se proteger. Eles foram bem rígidos ao montar os grupos.

— Parece que sim.

Uma estratégia sólida e confiável. Sakayanagi quase certamente havia elaborado aquele plano. Era surpreendente que alguém tão agressivo quanto ela adotasse uma estratégia defensiva assim.

— E agora, o que devo fazer? Armar uma armadilha ou algo assim?

— Truques baratos não funcionam neste exame. Mas há algumas pessoas que eu gostaria que você observasse — respondi, citando alguns dos jogadores principais.

— Hmm. Vai ser bem difícil, mas eu vou tentar.

Ela obedeceu sem questionar. Esse era um dos pontos fortes de Kei.

— De qualquer forma, o que há com este exame? Precisamos mesmo nos preocupar com coisas como etiqueta e ética?

— Eu me pergunto. Se isso fosse uma história, eu diria que é quase como um MacGuffin.

— Hã? MacMuff—

— Não foi isso que eu disse.

— Eu sei disso. Então, o que é?

Ela não fazia ideia.

— É um elemento importante porque motiva os personagens, mas que não é realmente relevante para a história em si.

— Não entendi. Olha, sei que você é inteligente, Kiyotaka, então explique de um jeito fácil de entender.

— Estou dizendo que etiqueta e ética podem ser necessárias, mas não são importantes por si mesmas.

O jantar estava quase no fim. Os alunos começaram a se dispersar.

— Mas este exame… Digamos apenas que uma tempestade está chegando.

— Uma tempestade? O que quer dizer? Está dizendo que algo ruim vai acontecer?

— Relaxa. Pelo menos, eu digo que nada de ruim vai acontecer com você. — As coisas provavelmente não ficariam tão ruins para os calouros desta vez. Peguei minha bandeja e me levantei. — Se eu precisar de você de novo, chamarei.

— Entendido.

Com isso, decidi voltar para o quarto.

*

 

Quando a noite caiu no nosso terceiro dia, entrei no grande banheiro.

Vários rapazes estavam reunidos em um canto; vi não apenas Yamauchi e Ike, mas também alguns alunos da Classe B, como Shibata. Troquei olhares com Kanzaki, que entrou no banheiro ao mesmo tempo que eu.

— Essa é uma combinação de pessoas bem incomum — disse Kanzaki, surpreso ao observar o grupo.

— É, parece mesmo.

— E seu grupo? Algum problema?

— Não sei. Mas não posso dizer que está indo muito bem — respondi honestamente.

Kanzaki não pareceu surpreso.

— Bem, se você tem um grupo pequeno formado por um número desigual de alunos de quatro classes diferentes, é normal que haja tensão.

— Quem me dera fosse só isso.

— Moriyama e os outros me contaram. Parece que vocês realmente têm problemas com o Koenji.

Uma suposição natural, dadas as circunstâncias.

— Estou fazendo o meu melhor como colega, mas não tenho absolutamente nenhum controle sobre ele — disse eu.

— Falando em controle, você ouviu o que está acontecendo com Ryuen?

— Não, não ouvi nada.

Faziam três dias desde que Akito entrou no grupo de Ryuen. Embora nos víssemos no banho, a caminho do banheiro ou nas refeições, raramente conversávamos.

— Se ele estivesse tramando algo, haveria boatos. Mas não ouvi nada.

Se Kanzaki — o vice da Classe B — dizia que não havia rumores, então provavelmente era verdade. Como alguém que conhecia a situação completa, duvidava que Ryuen tentasse algo, mas os outros alunos provavelmente não baixariam a guarda por um tempo. Muitos suspeitavam que ele armaria algum tipo de plano até o final do exame.

— Se você estiver em apuros, procure-me. Quero que nossa boa relação com a Classe C continue. Ichinose pensa o mesmo, é claro.

— Agradeço de verdade.

— Ichinose parece ter uma opinião muito alta sobre Horikita. Mais por sua honestidade do que por sua habilidade, porém.

— Sua honestidade? Hã.

Não sabia se eu chamaria Horikita de "honesta", mas a definição de Kanzaki provavelmente era um pouco diferente da minha. Ele provavelmente queria dizer que ela tinha integridade. Ela era firme em cumprir suas promessas. Não se podia esperar nada assim de Sakayanagi ou Ryuen.

— Oh, Kanzaki! Ei, aqui! — Shibata acenou.

— Ayanokoji! Venha também! — Yamauchi sinalizou para mim. Não pude recusar nas circunstâncias, então fui.

— O que houve? — perguntou Kanzaki a Shibata.

— Só nos divertindo com Yamauchi e os caras aqui. Sendo totalmente honestos e falando sobre algo meio estranho.

— Meio estranho?

— Estamos falando sobre quem tem a maior coisa do nosso ano.

— Que coisa?

— Cara, não é óbvio? Você sabe, lá embaixo — disse Shibata, rindo e apontando para o centro da toalha branca enrolada em sua cintura.

— Entendi. Parece que estão se divertindo.

Kanzaki soltou um suspiro exasperado diante da competição infantil em que Shibata se envolveu.

— Quero dizer, sim, é infantil. Mas, ei, é surpreendentemente divertido.

Kanzaki e eu não entendíamos o que havia de divertido nisso. Trocamos olhares e decidimos manter distância. Quando Shibata e os outros retomaram a conversa, Kanzaki se afastou. Logo depois, eu também me levantei para sair. No entanto—

— Então, quem é o atual rei do tamanho? — Sudou, provavelmente ouvindo a conversa, apareceu. Irradiava confiança e me segurou pelos ombros, impedindo minha fuga.

— Não faço ideia.

Desviei da pergunta. Enquanto a maioria de nós usava toalhas, Sudou estava orgulhosamente nu.

— Ah. Era o que eu esperava de Sudou — disse Shibata. Eu podia perceber que ele estava ansioso.

— Kaneda, da Classe D, é o atual rei.

— Kaneda? Aquele quatro-olhos magricela? — Sudou passou por Shibata.

— Sai da frente — disse, antes de se juntar a Yamauchi e aos outros. Kaneda, que parecia não querer participar, parecia desconfortável.

— Oh, cara, Ken, você veio! Você é o único em quem podemos confiar!

— Deixe comigo.

Sudou, representando a Classe C, confrontou Kaneda, que parecia perplexo por ser arrastado para essa competição.

— Você usa óculos até no banho?

— Se não usar, não consigo enxergar.

— É mesmo?

Não era uma competição agressiva. Eles simplesmente se posicionaram lado a lado. O resultado do confronto foi decidido em um instante.

— Caramba!

Sudou bateu o punho com confiança enquanto posava. Ele gritou em triunfo, sua voz ecoando pelo banheiro. Kaneda fugiu, com a expressão "Finalmente, o jogo acabou" estampada no rosto. Eu senti pena de ele ter sido arrastado para isso.

— Isso resolve! Eu sou o rei! — declarou Sudou.

Era improvável que alguém o desafiasse, depois de ver o poder que ele demonstrava. Eu esperava que essa competição inútil tivesse acabado, mas…

— Rei? Não me faça rir, Sudou — disse Yahiko, desafiando-o com uma risada alta.

Sudou apenas olhou para a região nua de Yahiko antes de descartá-lo.

— Você não é páreo para mim.

— Não, não sou. Mas também não sou seu adversário.

— Não importa contra quem eu esteja. O resultado é o mesmo. O rei é da Classe D—

— Não, Ken, agora somos da Classe C. Classe C.

— É isso mesmo. O rei é o Sudou Ken-sama, da Classe C!

— Você é apenas mediano. Não consegue vencer Katsuragi-san, da Classe A!

Aparentemente, não era Yahiko desafiando Sudou, mas sim a pessoa que Yahiko idolatrava — Katsuragi. O homem em questão estava sentado em um banco próximo, alcançando um pouco de shampoo. Como era completamente careca, fiquei imaginando exatamente onde ele aplicaria o shampoo, mas decidi não perguntar.

— Para com isso, Yahiko — disse Katsuragi. — Não tenho interesse em tais bobagens.

— Não podemos deixar passar. Temos que vencer. É uma questão de orgulho masculino. Não, a dignidade da Classe A está em jogo!

— Que competição estúpida…

— Mas isso não é totalmente verdade, né, Katsuragi? — disse Hashimoto. Yahiko apenas fez uma expressão de nojo. — Como Yahiko disse, o orgulho da Classe A está em jogo. O que você tem faz de você o único aqui capaz de enfrentar Sudou.

Hashimoto havia conferido pessoalmente "a coisa" de Katsuragi. Ele claramente tinha confiança de que Katsuragi poderia vencer, rindo audaciosamente da possibilidade de vitória.

Katsuragi, porém, não se moveu para levantar.

— Mostre o que tem, Katsuragi.

Katsuragi permaneceu calmo diante da provocação de Sudou. No entanto, todos os outros começaram a se empolgar. Torceram, ansiosos para ver Katsuragi e Sudou se enfrentarem.

— Pelo amor de Deus. Nem consigo lavar minha cabeça em paz — disse Katsuragi.

Então isso significava que ele realmente planejava aplicar shampoo na cabeça, afinal.

— O concurso vai acabar em um segundo, Katsuragi.

— Como você quiser.

Katsuragi, decidindo que a melhor forma era aceitar o desafio, levantou-se lentamente. Todos soltaram um suspiro de admiração ao ver sua grande estatura.

— I-Isso é…?!

Yamauchi, que era o juiz, agachou-se. Ele examinou cada combatente, olhando de um para o outro, mas as diferenças pareciam quase inexistentes. Sudou elogiou seu oponente enquanto esperava o julgamento de Yamauchi.

— Muito bem, Katsuragi. É por isso que te chamam de trunfo da Classe A.

— Isso é ridículo…

— Certo, e os juízes dizem — Yamauchi se levantou.

— É empate!

Por mais improvável que fosse algo assim em uma competição como essa, Yamauchi determinou que estavam empatados. Ike, Shibata e os outros se reuniram, prontos para contestar, mas o julgamento de Yamauchi parecia correto, porque ninguém conseguia determinar quem era maior.

— Já acabamos? — disse Katsuragi.

Visivelmente cansado de ser o centro das atenções, ele passou pelos outros e voltou a se sentar.

— Odeio admitir, mas acho que nós dois compartilhamos o primeiro lugar — disse Sudou.

Não pensei que alguém iria contestar isso… mas ainda não tínhamos terminado.

— Tive a honra de assistir à sua valente batalha. Mas, meus, como vocês são ingênuos — disse Ishizaki, da Classe D.

— Hã? Não me faça rir, Ishizaki. Você não é páreo para mim — disse Sudou, com uma risada desdenhosa. Ishizaki estava praticamente no mesmo nível de Yahiko.

— Não sou seu adversário.

— O quê?

— Seu tolo! A Classe D possui a carta-trunfo definitiva!

— Não me diga. Você não quer dizer Ryuen?

— Não! — gritou Ishizaki. — Albert! É a sua vez!

No momento em que o nome de Albert foi chamado, houve um alvoroço. Todos haviam pensado em Albert, mas evitaram mencioná-lo. Agora, essa regra não escrita foi quebrada.

— Ei, isso não é justo! — Mesmo Sudou, que momentos atrás se auto-intitulava rei, não conseguiu esconder seu nervosismo.

— Aceite. Se estamos medindo quem é o número um do nosso ano, Albert está no nosso time!

Ishizaki tinha razão, mas ninguém podia negar que uma luta envolvendo um jogador internacional nos colocava em desvantagem. Jogadores profissionais japoneses de beisebol, por exemplo, eram habilidosos — mas se comparados a jogadores estrangeiros das ligas principais, a diferença física era óbvia. Estrangeiros eram simplesmente feitos de forma diferente, tanto em termos de corpo quanto de genética.

Albert aproximou-se silenciosamente. Sudou e Katsuragi eram bem desenvolvidos, mas não se comparavam à sua estrutura muscular. Além disso, por algum motivo, Albert ainda usava óculos de sol no banho. Talvez tivessem algum tipo de solução antiembaçamento nas lentes, porque ele se movia sem problemas.

— Caramba, ele é enorme…

Albert tinha uma toalha enrolada nos quadris, então as palavras murmuradas de Sudou só podiam se referir ao seu físico. Agora, vendo-os lado a lado, a diferença era clara. Era como comparar um estudante do ensino médio com um universitário. Logo, o mesmo se aplicava às "armas" que eles carregavam. Embora fosse de pouca ajuda aqui, tudo que Sudou podia fazer era torcer para que Albert não estivesse mais armado que ele.

— Vamos nessa! — gritou Sudou, mostrando nenhuma reação de medo. Como rei, ele não podia fugir.

Albert não disse uma palavra, mas mesmo assim era intimidador. Ele deixou Ishizaki remover sua toalha. O véu foi levantado. Todos, não apenas o rei Sudou, assistiam com curiosidade. Seria essa uma arma digna de um chefe final? Ou, em uma reviravolta impressionante, seria algo minúsculo?

Era um confronto entre bestas — o tipo mais primitivo de batalha.

— Vai, Albert! — torceu Ishizaki enquanto a habilidade de luta de Albert se tornava evidente.

— I-Isso é…?!

Revelada diante dos olhos do atual rei estava a verdadeira forma de Albert, que ele havia mantido escondida até então. O público silenciou.

— Eu… perdi.

Duas palavras simples do rei Sudou. Ele caiu de joelhos, lutando contra a derrota esmagadora. Diferente do concurso com Katsuragi, não havia necessidade de julgamento aqui. A diferença era simplesmente extrema.

— Isso significa que Albert é… o chefe final!

Yamauchi, Shibata e os outros se dobraram como Sudou, com o espírito destruído. Ninguém era capaz de enfrentar Albert. Os ventos do desespero começaram a uivar. Albert lentamente se abaixou, manobrando seu grande corpo enquanto pegava a toalha e se afastava. Todos caíram de joelhos, reconhecendo sua terrível derrota.

— Hahaha. Vocês estão se divertindo como crianças, pelo visto.

A voz de Koenji cortou o clima sombrio como uma faca. Ele observava a confusão de dentro da banheira.

— Que diabos, Koenji? Você não está frustrado também? Olhe para o estado em que Sudou está agora! — gritou Yamauchi. Sudou ainda estava muito abatido para se levantar.

— Eu sei. Mas Red Hair-kun deu uma boa luta.

— Que diabos, cara? Você tá querendo dizer que consegue enfrentar o Albert? — disse Sudou, sem vida nos olhos.

— Sou um ser perfeito. Como homem, possuo o corpo supremo.

— Não desvie da pergunta. O que você quer dizer, especificamente?

Koenji passou a mão pelos cabelos, sem sair da banheira.

— Não há necessidade de competição, justamente porque sei que não existe ninguém superior a mim. Portanto, não há motivo para guerrear por algo tão inútil.

— É o que você diz. Mas não é verdade, né? — provocou Yamauchi.

No entanto, Koenji não demonstrou nenhum sinal de nervosismo.

— Você realmente é um tolo. Contudo, pode ser divertido brincar um pouco com você de vez em quando. — Ele afastou o cabelo do rosto, como se estivesse pronto para aceitar o desafio. — Então, devo assumir que o Aaaalbert-kun é meu adversário nesta pequena competição?

Por que ele disse o nome de Albert assim?

— Não. É Katsuragi-san! — gritou Yahiko.

— Me deixem fora disso, Yahiko… — disse Katsuragi.

— Não há como Koenji vencer se enfrentar Albert! Pelo povo japonês, imploro, Katsuragi-san, você precisa derrotá-lo!

Bem, suponho que Yahiko e Koenji estavam no mesmo grupo. Mesmo que ele estivesse sentado perto, Koenji provavelmente não conhecia em detalhes o poder de luta que Sudou e os outros possuíam. Se Katsuragi, que era par para Sudou, entrasse em ação… talvez ele tivesse uma chance razoável de vitória.

— Pelo amor de Deus… Certo, só desta vez — disse Katsuragi, exasperado. Ele se levantou para representar o povo japonês, seu pacote balançando de um lado para o outro. Os caras olhavam para aquilo como se contemplassem algo divino.

— C-Como eu pensei, ele realmente é enorme. Quero dizer, mesmo ele não poderia enfrentar Albert, mas se Koenji—

— Heh. Entendi. Então você não é chamado de rei à toa, hein?

— Por favor, só termine com isso.

— No entanto, você não é páreo para mim.

Mas Koenji não fez nenhuma tentativa de sair da banheira.

— Ei, ei. Você não tá com medO,, né, Koenji? Ou é só conversa, escondendo sua arma na banheira? — disse Ishizaki, tentando provocar Koenji.

— Não sou tolo a ponto de direcionar minha lâmina a um adversário indigno.

— Heh. Nesse caso, vamos quebrar seu espírito até não sobrar nada. Certo, Albert?!

Albert, a grande ameaça estrangeira, estava ao lado de Katsuragi. Quando ele se posicionou, ocorreu um fenômeno estranho: o "pacote" de Katsuragi parecia pequeno em comparação. Ao ver isso, a expressão de Koenji mudou drasticamente pela primeira vez.

— Bravo! — bateu palmas. — Entendi, entendi. Como eu esperava de quem representa o resto do mundo, parece que você não é só conversa.

— Agora entendeu, Koenji? Quão ridículo você é?

— Já chega disso — disse Katsuragi. Depois de terminar de lavar o corpo, entrou na banheira e manteve distância de Koenji. Todos o ignoraram, completamente absorvidos na batalha entre Koenji e Albert.

— Normalmente, não é da minha política mostrar isso aos homens. Mas isso é um caso único.

Koenji se levantou, pegando uma toalha e enrolando-a nos quadris para esconder sua arma.

— E-Então você realmente vai fazer isso, Koenji?

O excêntrico supremo e o rei estavam frente a frente.

— Conheço o resultado desta batalha desde o início. Agora todos aqui também serão testemunhas.

Koenji assumiu uma pose enquanto retirava a toalha que ocultava a parte inferior de seu corpo. Nesse instante, uma luz deslumbrante atingiu os olhos de todos. Uma espada imensa, com uma juba loira tingida. Não, era grande demais para ser chamada apenas de espada.

Ouvi Albert murmurar suavemente em inglês ao meu lado.

— Oh, my God.

— E assim, provei que sou um ser perfeito.

Os caras que acabaram de testemunhar não conseguiram nem emitir um som.

— Você é humano mesmo? — disse Sudou. Isso foi tudo que ele conseguiu dizer diante de um poder tão avassalador, que ultrapassava fronteiras nacionais.

Se Sudou e Katsuragi fossem rifles e Albert fosse um lança-foguetes, então Koenji era um tanque. Ninguém poderia vencer um poder de fogo tão esmagador. Seu tamanho colossal, armadura e poder destrutivo derrubariam qualquer um em seu caminho. Não havia um único estudante naquela enorme casa de banhos capaz de derrotar Albert… o que significava que nenhum deles poderia enfrentar Koenji também.

Então, justo quando todos estavam prestes a lhe entregar a coroa…

— Ha. Espere, Koenji.

Uma voz surgiu próximo à banheira onde Koenji estivera momentos atrás.

— R-Ryuen…? — alguém gaguejou.

Ryuen, o ex-líder da Classe D, estava se aquecendo na banheira de hidromassagem, perto de Koenji. Havia fogo em seus olhos. Ele devia estar assistindo à batalha entre Albert e Koenji.

— Você não pode realmente achar que é páreo para mim — disse Koenji.

— Não. Nem eu consigo vencer essa coisa que você está carregando. No entanto, pode haver pelo menos uma pessoa aqui que possa te dar uma boa luta.

Todos começaram a se olhar quando ele disse isso, embora fosse impossível que tal pessoa existisse. Então percebi o que ele quis dizer.

Ryuen havia me pego em sua armadilha.

— Oh, é? E quem seria essa pessoa? — perguntou Koenji, visivelmente interessado.

— Não posso dizer. Mas, se não me engano, ainda há uma pessoa aqui se cobrindo com uma toalha, escondendo seu verdadeiro poder.

Depois de soltar essa bomba, Ryuen entrou na banheira e virou-se de costas para nós. Felizmente, apenas alguns pareciam acreditar no que ele disse… e ainda assim, os olhares de todos se intensificaram. De alguma forma, senti que não apenas os ocupantes atuais da casa de banhos, mas pessoas em todo o Japão estavam agora prestando atenção.

— Não acredito. Um cara como você? Impossível, cara — disse Yahiko, olhando para mim.

— Você realmente vai levar o que ele disse ao pé da letra? — perguntei.

— Não pretendo, mas… é curioso que você seja o único ainda se escondendo com a toalha.

— Curioso ou não, eu nunca tive intenção de entrar nesse jogo — dei um passo para trás.

— Tudo bem, mas vamos conferir, só por precaução.

Yamauchi e Yahiko se aproximaram, como se tentassem me cercar. Ryuen exibia um sorriso arrogante no rosto. Eu vou te fazer provar a derrota. Era o que seu olhar e sorriso transmitiam.

Exatamente como eu imaginava… Ryuen, que não tinha como saber como era meu membro, havia armado isso de propósito. Ele estava determinado a me fazer perder, de um jeito ou de outro. Era um ataque malicioso, muito típico de Ryuen.

Eu poderia usar toda a minha força e sair correndo da casa de banhos, mas aí teria que abrir mão do banho no acampamento. Mais cedo ou mais tarde, o véu seria levantado. Eu poderia tentar virar o jogo e nocautear todos os estudantes aqui, mas essa estratégia não valia a pena. De qualquer forma, eu perderia. Não havia como evitar essa batalha incompreensível.

Koenji, vendo que eu não cedia um centímetro, riu.

— Hahaha! Não precisa ficar envergonhado, Ayanokoji-boy. Mesmo que você esteja usando proteção, isso é algo que muitas crianças japonesas fazem. É algo importante de se proteger.

— Mas você não está protegendo nada, Koenji.

— É porque possuo força avassaladora, veja. Não preciso de armadura.

Eu precisava sair dessa. Pensar. Encontrar um meio de escap—

— Vocês, façam o cântico. O cântico.

Mesmo tendo desistido da competição, Ryuen incitou todos os outros de onde estava sentado na banheira, ativando mais uma de suas armadilhas. Ele neutralizou minha estratégia, garantindo que eu não pudesse mais escapar.

— Tira! Tira! Tira!

Todos começaram a gritar, pedindo que eu tirasse. A identidade de quem os instigava não importava nem um pouco. Eu estava preso, tudo graças a Ryuen. E tudo que eu queria era apenas lavar o cansaço de um dia exaustivo…

— Tudo bem.

Às vezes, você só precisa lutar. Não havia escolha, era um desses momentos. E como homem, se você possui uma arma, deve usá-la. Vitória ou derrota não importavam, nem orgulho.

— Tudo bem, tanto faz.

— Quer que eu acabe com seu sofrimento, Ayanokoji? Que eu te leia os últimos ritos? — perguntou Sudou. Eu afastei a mão dele. Todos continuaram gritando para que eu tirasse a toalha, então removi a que estava enrolada nos meus quadris e então…

O cântico parou de repente. Havia um silêncio completo, como se o barulho indisciplinado de antes fosse apenas um sonho.

— Serio, cara? Ayanokoji, ele…

— Não acredito…

Os caras falavam em sussurros.

— Bem, bem. Estou sinceramente impressionado, Ayanokoji-boy. Pensar que existe um japonês capaz de se manter de pé contra mim. Realmente, uma margem de poucos milímetros poderia muito bem não existir.

— É como um duelo entre dois T-rexs…

Os caras observavam com admiração e espanto.

— Vocês são testemunhas vivas da história — disse Koenji, jogando a toalha sobre o ombro com uma risada. — No entanto, a vitória é minha. Se eles são ambos T-rexs, como vocês disseram, então a diferença está na quantidade de presas que devoraram. Em outras palavras: experiência.

Sem dar mais detalhes, Koenji mergulhou de volta na banheira.

*

 

Eram 1:00 da manhã, bem depois da hora de dormir, e eu estava deitado acordado na minha cama. Todos os outros dormiam profundamente. Eu deveria estar dormindo para me preparar para o dia seguinte. Mas o motivo de eu ainda estar acordado era o pequeno pedaço de papel que estava debaixo do meu travesseiro, com o número 25 escrito.

A simplicidade da anotação não deixava muito para a imaginação. O bilhete representava 25:00 — ou seja, uma hora da manhã. Eu não tinha ideia de quem tinha colocado a nota ali, mas agora estava acordado, então poderia descobrir. Se fosse apenas uma brincadeira simples ou algo completamente diferente do que eu estava imaginando, bem… então seria só isso. Eu poderia usar esse tempo para me acalmar e pensar.

O que estava no cerne deste exame especial? O quadro geral começava a se formar aos poucos. Claro, tudo isso era especulação, já que não nos haviam dito exatamente como a prova seria pontuada. Mas eu sabia com certeza que várias coisas seriam incluídas neste exame.

Zen.

Seríamos avaliados em tudo, desde nossas maneiras no início do zazen até a postura durante ele. Se nos comportássemos de forma inadequada ou fizéssemos algo que nos rendesse uma pancada do bastão de zen, provavelmente perderíamos pontos.

Corrida de revezamento de longa distância. Soava simples. Um teste de velocidade.

Discurso. Cada pessoa do grande grupo faria um discurso sobre quatro critérios, já mencionados. O sistema de avaliação para isso já havia sido divulgado.

Prova escrita. Esperava que isso focasse na ética. Parecia que seria um teste padrão baseado em redação.

Havia outras coisas que me preocupavam, como "limpeza" e "preparar refeições", mas eu ainda não conseguia determinar como seriam pontuadas. Em alguns casos, atrasos ou causar problemas também poderiam entrar na avaliação.

Muitos estudantes provavelmente estavam se perguntando como abordar esse exame especial completamente diferente. Uma estratégia, embora vital, só poderia ser elaborada depois de se compreender a verdadeira natureza das coisas. O objetivo do exame era, aparentemente, fazer com que trabalhássemos em grupo, nos apoiássemos e obtivéssemos uma média alta. Simples, à primeira vista.

Mas, embora parecesse fácil, dava para perceber só de observar a formação dos grupos que seria uma batalha difícil. Era extremamente complicado para estudantes normalmente hostis uns aos outros cooperarem de verdade. Horikita e Hirata, no nosso caso, ou Ichinose e Katsuragi, em outros grupos, provavelmente focavam em incentivar essa cooperação. Ter influência no grupo e habilidades de liderança fazia toda a diferença.

Escolher os membros do grupo era importante, claro, mas era quase impossível saber logo de cara quais estudantes seriam capazes de pontuar bem neste exame. Embora o desempenho acadêmico de Keisei fosse considerável e, portanto, ele pudesse se sair bem, ele parecia ter dificuldade até com os dois períodos de cinco minutos de zazen no primeiro dia. Alguns alunos não conseguiam sequer cruzar as pernas.

Ainda era cedo para saber se habilidade acadêmica ou atlética seria um bom indicativo de desempenho a partir dali. Os alunos mais adaptáveis seriam os que provavelmente se sairiam melhor.

Além disso, era provável que vários estudantes optassem por estratégias que se desviavam da básica de incentivar a cooperação. Eu percebi, quando as regras foram explicadas, que até a escola teve dificuldade em se preparar para este exame especial bastante não convencional. Isso era verdade para todos os exames especiais, é claro, mas sempre havia brechas nas regras a serem exploradas. Pontos cegos que a escola não conseguia enxergar. Como quando Ibuki e Horikita trocaram golpes na ilha desabitada, mesmo com a violência proibida.

Claro, se alguém fosse pego violando regras, as consequências seriam enormes. A maioria dos estudantes provavelmente não arriscaria, com a expulsão imediata em jogo. Além disso, a situação era complexa demais para que uma simples violação garantisse a vitória.

Você poderia encontrar um ponto cego quase inexistente, explorar uma brecha e dar um golpe que superasse os que seguiam a estratégia tradicional? Um obstáculo alto de superar. Eu já havia tentado muitas coisas nos exames especiais anteriores. Na ilha desabitada, fiz Horikita se aposentar e mudei os líderes. No cruzeiro, usei o truque do celular. Chamei atenção para mim no Festival Esportivo. E bloqueei Kushida durante o Paper Shuffle.

Mas desta vez, decidi não agir. Apenas observar e continuar coletando informações. Determinei que era isso que precisava fazer para passar despercebido e me formar como qualquer aluno comum. Mesmo que a Classe C levasse alguns golpes duros desta vez, eu não faria nada.

Também queria mostrar a Sakayanagi e Nagumo, que tinham certo interesse em mim, que eu não tinha intenção de lutar… embora duvidasse de quão eficaz isso seria. O irmão de Horikita não poderia me culpar por nada se eu apenas observasse. Contudo, havia uma medida que eu poderia tomar: defesa. Se algum aluno estivesse tentando me expulsar, seria natural me defender.

Já passava das 25:00, e eu ainda não tinha visto nada fora do comum. Se fosse assim, deveria voltar a dormir?

Mas, nesse momento, algo aconteceu. A porta do corredor se abriu levemente, e um pouco de luz entrou. Era código Morse. Eles estavam se comunicando pelo piscar da luz. Como os corredores eram extremamente escuros à noite, várias lanternas estavam disponíveis, e a pessoa lá fora provavelmente estava usando uma. Luz não faz som. O jeito perfeito de me sinalizar para ir ao encontro deles.

Levantei-me da cama silenciosamente. Nossos quartos não tinham banheiro. Levantar no meio da noite para ir ao banheiro era algo perfeitamente natural.

*

 

O corredor estava completamente escuro, mas eu podia perceber alguém se movendo pelo som fraco de passos. Segui o som, e a pessoa segurando a luz era Horikita Manabu.

— Huh, pensar que você me chamaria. Não é meio chamativo? — perguntei.

Para ele colocar um bilhete na minha cama, teria que saber onde eu dormia. Nesse caso, havia apenas algumas pessoas que poderiam tê-lo ajudado. Provavelmente Ishikura ou Tsunoda, os alunos do terceiro ano que jogaram cartas com Nagumo. Eles poderiam ter dito a Horikita qual era minha cama.

— Mais de alguns estudantes se encontram secretamente enquanto os outros dormem profundamente. Provavelmente existem duas ou três conspirações sendo implementadas durante este exame, afinal.

Todos — primeiro, segundo e terceiro anos — davam tudo de si para vencer. Ainda assim, essas reuniões clandestinas raramente levavam a algo bom.

— Sabe por que te chamei aqui?

— Porque Nagumo está agindo estranho. Não consigo pensar em outra razão.

— Exatamente. Achei que você poderia ter algo sobre ele, já que está no mesmo grande grupo. Além disso, queria responder à mensagem que você me enviou no ônibus.

— Vou dizer logo: prepare-se para se decepcionar. Não há sinais de que Nagumo esteja tramando nada estranho.

Eu estava mentindo. Havia várias coisas no comportamento de Nagumo que me preocupavam. Ele desafiou o irmão de Horikita a uma disputa diante de uma multidão, e perder seria ruim para os segundos anos. Tanto superiores quanto inferiores o veriam com ceticismo no futuro.

Se você vai lutar em público, deve fazê-lo apenas quando tiver certeza de que as chances estão a seu favor. Eu não sentia que esse fosse o caso. Como o irmão de Horikita havia instruído Nagumo a agir com justiça, eu esperava que ele fosse rigoroso em fazer todos no grande grupo prestarem atenção às nossas lições… mas não havia sinais disso.

Provavelmente, isso deixava Horikita Manabu ansioso. Caso contrário, ele não teria corrido o enorme risco de me contatar assim.

— Então você acha que Nagumo está agindo sem nenhum esquema?

— Quem sabe? Acredito que não envolver terceiros realmente limita o que se pode fazer.

Mesmo se você lembrasse as pessoas de não conversar na aula, cochilar ou se atrasar, isso não aumentaria significativamente as notas. No máximo, poderia evitar a perda de pontos.

— Atualmente, nosso grande grupo está mais unido — avaliou calmamente o irmão de Horikita.

De fato, o grupo dele era composto principalmente por estudantes da Classe A, incluindo os do primeiro ano. Qualquer que fosse o teste, havia uma forte chance de vitória. Era por isso que ele se sentia ansioso com a inação de Nagumo.

— Quais são as chances de ele voltar atrás? — perguntei. — Talvez ele queira te ver perder a qualquer custo.

— Nagumo não mostra misericórdia para quem o desafia. Ele já usou métodos ardilosos como Ryuen mais de uma vez. Também é diretamente responsável pela taxa incomumente alta de expulsão dos segundos anos. Mas ele nunca quebrou uma promessa.

— Você acredita que ele está falando sério sobre não envolver terceiros?

— Sim.

O irmão de Horikita assentiu de maneira decidida. Ele e Nagumo haviam servido juntos no conselho estudantil por quase dois anos e deviam se conhecer muito bem. Eu tinha minhas dúvidas, mas ouvir a certeza em sua voz me deu uma resposta. Uma resposta que se aplicava não apenas ao irmão de Horikita, que estava à minha frente naquele momento, mas talvez a todos os estudantes do segundo e terceiro anos também.

Após ouvir aquelas palavras de absoluta certeza, senti dúvida a princípio, mas logo cheguei à minha conclusão. Eu podia afirmar isso em relação ao irmão de Horikita, que estava diante de mim, e talvez a todos os alunos do segundo e terceiro anos.

Eu deveria dar algum conselho ao irmão de Horikita ali mesmo. Mas provavelmente não adiantaria muito. Ele já havia determinado que sua melhor defesa era confiar nos princípios de seu inimigo.

— Parece que isso foi uma perda de tempo, aparentemente — disse o irmão de Horikita, virando-se de costas para mim. — Ah, para responder à sua pergunta anterior… O conselho estudantil pode influenciar os exames especiais. O conselho deve representar a perspectiva dos estudantes e, portanto, pode fazer revisões significativas nas penalidades ou interferir nas regras. Contudo, o conselho não pode tomar essas decisões por impulso.

— Entendi.

Com isso, Horikita se afastou.

— Ele pode perder — murmurei, incapaz de me conter.

Bem, talvez "perder" não fosse a palavra correta. O irmão de Horikita não cometeria erros. Ele certamente gerenciaria bem seu grupo. Mas, ainda assim, claramente não compreendíamos totalmente este exame. Era possível que isso mudasse drasticamente o curso do nosso terceiro semestre.


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