Ano 1 - Volume 8
Capítulo 2: A Natureza Humana Posta à Prova
ERAM PASSADAS seis da manhã quando uma música animada começou a reverberar pelo quarto pelos alto-falantes, claramente um sinal para sairmos da cama. O quarto ainda estava escuro. Eu nem conseguia ver a luz do sol através das cortinas finas.
— Que diabos? Deus, cala a boca.
Os resmungos de Ishizaki foram as primeiras palavras que ouvimos. Alguns estudantes ficaram na cama mesmo depois de ouvir a música, mas a maioria de nós começou a se mexer lentamente, sentando-se, colocando os óculos e assim por diante.
— Acho que estamos começando — murmurou Hashimoto, suspirando.
— Por enquanto, é melhor todos nós levantarmos. Se faltar até um de nós, teremos dedução de pontos — disse Keisei, vestindo sua camisa. Enquanto compartilhássemos o quarto, a responsabilidade coletiva era inevitável.
— Ei, o Koenji não está aqui.
— Bom dia, rapazes. Estavam me procurando? — disse Koenji, entrando no quarto coberto por uma leve camada de suor, com um sorriso agradável. Aparentemente, ele havia se levantado antes mesmo de nós.
— Não parece que você foi ao banheiro ou qualquer coisa assim.
— Heh. A manhã estava tão agradável que resolvi treinar um pouco.
— Que treino? Não temos ideia do que enfrentaremos hoje. Não posso aprovar que você gaste sua energia à toa — disse Keisei. Não que Koenji estivesse ouvindo. Pelo contrário, ele retrucou com alegria.
— Mesmo depois de uma sessão completa de treino, ainda tenho reservas de energia inimagináveis. Isso não é nada, de verdade. Além disso, se você está tão preocupado com a energia, não deveria ter avisado o grupo ontem?
— Eu não… pensei que teria algum tipo de treino.
— Não, não. Receio que isso não seja suficiente. Lembro de compartilhar o quarto com você no cruzeiro. Certamente você se lembra de que sou o tipo de homem que nunca pula treino algum — disparou Koenji, como se fosse absurdo Keisei ter esquecido algo assim.
— Chega de se achar superior, Koenji — disse Ishizaki. Ele não estava defendendo Keisei — todos já estavam fartos de Koenji, que agia egoisticamente desde o início. Provavelmente, ele estava acostumado a ser um elemento disruptivo.
Não tínhamos tempo para isso agora. O que mais queria evitar era chegar atrasado no primeiro dia. Alguém como Hirata teria colocado o grupo em ordem, mas sem um líder claro…
— Chega! Promete que vai cooperar.
— Como assim, "prometer"? Juraram lealdade a este grupo escolhido aleatoriamente? Não vejo dessa forma.
— Pois eu também não quero cooperar — disse Ishizaki, olhando pelo quarto e inadvertidamente fixando seu olhar em mim.
— Por causa da Classe A? É por isso que você odeia isso? — perguntou Hashimoto, descendo da beliche para ficar ao meu lado. O olhar de Ishizaki se voltou para ele.
— Tch. Não é só por causa da A. É por todos — disse Ishizaki. Ele voltou-se para Koenji.
— Você parece estar seguindo o mesmo caminho delinquente do Red-Hair-kun — disse Koenji. — Tem sido divertido assistir, mas agora que lidei com você diretamente, sinceramente já tive o suficiente. Não deveria ir logo para o local de encontro? Vá antes que sua incompetência seja exposta.
O fato de a única pessoa aqui que entendia o que estava acontecendo ser Koenji só aumentou a tensão. Ele escolhia as palavras para irritar Ishizaki, e estava funcionando.
— Tudo bem, então! Yaaaah! — gritou Ishizaki.
Keisei olhou para o relógio enquanto Koenji mencionava o tempo e começou a entrar em pânico.
— Não temos nem cinco minutos para a assembleia. Deixem a briga para depois.
— Não é problema meu. Se atrasarmos, a culpa é dele!
Parecia que nenhuma quantidade de água conseguiria apagar o fogo da raiva de Ishizaki agora. Pelo contrário, as chamas só cresciam. Keisei podia ver o que estava acontecendo, mas não sabia como lidar com a situação de forma a encerrar isso.
— Você tem uma mente estreita. Provavelmente é por isso que foi rebaixado para a Classe D — comentou Yahiko, só jogando mais lenha na fogueira. Os alunos da Classe B apenas observavam, esperando a situação se acalmar.
— Isso é lamentável. Não sei se vamos conseguir com esses idiotas — suspirou Hashimoto. — Bem, acho que não tem jeito.
O jeito que disse me fez pensar que ele estava se lavando das responsabilidades, mas então bateu com o punho na madeira da cama. Todos, exceto Koenji, reagiram ao som.
— Calma, pessoal. Tudo bem brigar, mas este é o pior lugar e hora possível. Entenderam? Se nosso mobiliário se estragar, seremos responsabilizados. E se alguém se machucar, teremos problemas por isso, certo?
Ao cortar o silêncio com um som diferente da sua voz, Hashimoto disse o que precisava ser dito. Ishizaki, que estava gritando que os problemas dele não nos diziam respeito, tinha que entender que agora ele também estava se colocando em risco.
— Ei, Quatro-Olhos-kun. Qual é o seu nome mesmo?
— Yukimura.
— Isso mesmo. É como o Yukimura-kun disse. Não há tempo. Então, que tal enterrar essa raiva bem, bem fundo e irmos para a assembleia? Se ainda estiver com raiva depois do café da manhã, vocês decidem se querem se enfrentar. É disso que se trata estar em grupo, certo?
— Deveria estar feliz, Koenji. Você vai viver um pouco mais.
— Oh, sim. Sou pacifista, sabe — disse Koenji.
Exatamente o que se espera da Classe A, né? Eu não sabia exatamente qual era a posição de Hashimoto na hierarquia da classe, mas ele resolveu o problema de forma magistral. O fogo ainda queimava, mas estava contido por enquanto. Saímos do quarto, carregando uma bomba com o pavio aceso.
Os garotos das três séries se reuniram em uma sala de aula. Aproximadamente quarenta pessoas, mais ou menos. Quase dava para dizer que formávamos uma única turma. Os alunos do primeiro ano cumprimentaram brevemente os do segundo e terceiro anos. Logo depois, o professor entrou na sala.
— Sou Onodera, o instrutor responsável pelo terceiro ano, Classe B. Vamos chamar a presença agora, e depois vocês irão limpar suas áreas designadas. Em seguida, limparão todo o prédio da escola. Essas tarefas de limpeza farão parte da rotina matinal de vocês durante a próxima semana. Caso chova, estarão dispensados de trabalhar fora, mas não de trabalhar; passarão o dobro do tempo limpando dentro. Quanto às aulas — elas não serão ministradas apenas por instrutores da escola. Haverá pessoas que virão ensinar sobre diversos tópicos. Por favor, recebam-nos adequadamente e comportem-se.
Com essa breve explicação, nosso grupo partiu para a limpeza.
*
O cheiro de esteira de tatame ticklava minhas narinas. O espaço à minha frente me trazia uma estranha sensação de nostalgia. O professor nos havia levado a um dojo espaçoso, onde pareceria que trabalharíamos ao lado de outros grupos.
— A partir de hoje, vocês praticarão zazen aqui, de manhã e à noite.
— Zazen? Eu mesmo nunca participei de tal atividade — disse o Professor do outro lado do dojo.
O responsável, ouvindo o comentário, aproximou-se do Professor.
— Q-Que quer comigo, alguém como eu? — perguntou o Professor, olhando para cima. Ele parecia desconcertado pela aura silenciosa e quase intimidante do homem.
— A forma como você fala… isso é algo que nasceu com você ou é dialeto da sua cidade natal? — perguntou o homem.
— Talvez eu diga que não seja o caso…
— Você não é um viajante do tempo do Período Muromachi ou Edo, é? — perguntou o homem.
— Hã? Não, claro que não… Eu nunca usufruí do luxo de viajar no tempo…
— Entendi. Não sei muito bem o que você acha que está conseguindo falando assim, mas aqui vai um conselho: corrija esse padrão de fala ridículo e cresça.
— Q-Que?
— O que alguém pensaria de você se falasse assim na primeira vez que se encontrassem? Precisa explicar?
Não sabia por que o Professor optava por falar assim, mas até eu percebia que era uma afetação deliberada. Certamente, ele não seria permitido a falar dessa forma no mundo real, ou, no mínimo, em um ambiente formal. Não havia regras contra, é claro, mas ia contra códigos socialmente aceitos de moral e etiqueta. Poderia-se insistir que era um traço pessoal, mas pouquíssimas pessoas conseguiriam se safar com isso.
— Muito bem, escutem com atenção. Há pessoas por aí que espalham palavras e ações sem considerar os outros, tentando se destacar. Mostrar que são especiais. Isso não vale apenas para jovens, mas também para os mais velhos — disse nosso instrutor com firmeza. — Vocês não precisam mudar a personalidade para fazer parte da sociedade. Podem expressar sua individualidade, claro, mas devem considerar os sentimentos dos outros ao se aventurar pelo mundo. Essas lições ajudam a cultivar essa mentalidade, usando técnicas como o zazen. Ao parar seus movimentos e palavras, vocês se unirão às pessoas ao redor, fundindo-se ao grupo. Considerem os outros e, finalmente, reflitam: que tipo de pessoa sou eu? O que posso fazer?
Ele direcionou o olhar deliberadamente para o Professor, como quem diz: "Entendeu agora?"
— Eu-eu senti… fe—droga, preciso tomar cuidado.
Ele talvez não conseguisse se livrar do padrão de fala de imediato, mas praticar zazen poderia ensiná-lo a olhar para dentro de si mesmo — por exemplo, por que havia vacilado naquele momento.
Os grupos foram posicionados individualmente e receberam uma breve explicação. A sala chamava-se dojo de zazen. Enquanto estivéssemos ali, deveríamos fechar uma das mãos em punho e envolver a outra ao redor dela. Era preciso manter essa posição ao andar ou ficar de pé. Além disso, a altura das mãos devia ser no plexo solar.
Essa postura é conhecida como shashu. Dependendo da seita, havia diferentes regras sobre como formar as mãos.
Recebemos explicação sobre mais uma coisa relativa ao zazen: simplesmente, era uma forma de meditação. Praticar zazen não era esvaziar a mente, mas formar uma imagem. Havia também algo chamado Dez Touros, uma série de poemas com imagens que ilustravam o caminho para a iluminação.
Eu mesmo era novo nesse negócio de zazen.
— Depois de cruzar as pernas, coloquem os pés sobre as coxas. Pratiquem bastante, porque sentar na posição de lótus afetará os resultados do exame.
— Ai. Espera, sério? Eu nem consigo levantar uma perna.
— Se não conseguirem no início, podem usar a posição meio-lótus, cruzando apenas uma perna.
O responsável demonstrou a posição. Eu consegui cruzar as pernas sem problemas, então optei pela posição de lótus. Surpreendentemente, muitos alunos não conseguiam… embora Koenji, que começava a me intrigar, cruzasse as pernas com facilidade. Ele sorria levemente, como se já estivesse em estado de zen.
Como sua postura não precisava de correção, o responsável passou por ele sem reclamar.
— Ele realmente consegue, hein — disse Tokitou em voz baixa. Ele também conseguiu a posição de lótus.
— Ele não parece desgostar desse tipo de coisa. Que alívio.
— É.
Nosso instrutor parecia intimidador, mas, afinal, esse era Koenji. Ele poderia simplesmente ter se recusado a participar da lição.
Agora que todos haviam compreendido a ideia geral, começou o tempo de zazen. No entanto, como já passamos um bom tempo recebendo explicações, a primeira sessão foi limitada a apenas cinco minutos.
*
Depois da limpeza matinal e do zazen, eram cerca de sete horas — hora do café da manhã. Mas fomos levados para fora em vez de para a grande cafeteria que usamos ontem à noite. Lá, encontramos uma ampla área de refeições preparada para nós. Vários grupos já haviam chegado.
— A escola fornecerá a refeição hoje, mas a partir de amanhã, desde que o tempo esteja bom, vocês farão o café da manhã com seu grupo. Devem discutir como dividir o trabalho entre todos.
— Sério? Eu nunca cozinhei na vida — resmungou Ishizaki.
Mas se essa era a regra, não havia como evitá-la. Os preparativos do café já estavam em andamento enquanto recebíamos instruções sobre como preparar a comida a partir de amanhã. Parecia que o cardápio já havia sido definido e estavam distribuindo folhetos explicativos. Ao menos saberíamos o que cozinhar.
— Ugh, só isso?
A refeição era simples: café da manhã japonês, com sopa, arroz e três outros pratos. Para alunos com apetite grande, isso não seria suficiente. Embora parecesse que poderíamos substituir alguns pratos, teríamos que preparar tudo sozinhos.
— Graças àquela prova na ilha, isso é luxo — disse Keisei, aliviado, enquanto começava a comer.
— Se vamos fazer isso de forma justa, que cada série se revezasse na cozinha — disse um rapaz do terceiro ano que parecia ser um representante, propondo a rotação ao Nagumo.
—Sim. Não tenho objeções. Gostaria de começar com os calouros.
— Que tal, calouros? Alguma objeção?
Não havia como alguém se opor. Supondo que tivéssemos tempo bom pelo resto do período, faríamos o café da manhã seis vezes. A ordem em que cozinharíamos seria diferente, mas isso não era motivo suficiente para reclamar. Não diria que era algo que os calouros deveriam aceitar cegamente, mas eu estava de acordo.
— Aceitamos — disse Keisei.
— Já que vamos preparar o café da manhã, a que horas devemos acordar amanhã?
— Para garantir que tenhamos tempo suficiente, vamos acordar duas horas mais cedo — propôs Keisei.
Ishizaki rejeitou vigorosamente a ideia. A proposta de Keisei significava que ele teria que estar pronto às 4h da manhã.
— Mesmo assim, não temos escolha. Se não prepararmos o café, vai ser um desastre.
— Então façam vocês. Eu vou dormir.
Ishizaki nunca havia feito declarações assim quando estava sob Ryuen. Mas neste grupo, ele já havia subido ao topo da hierarquia. Era interessante como seu comportamento mudara quando seu status mudou. Ser celebrado como um dos poucos que derrubaram Ryuen provavelmente influenciou nisso.
Eu realmente não podia culpá-lo por ser distante comigo, considerando que eu sabia o que realmente tinha acontecido. Além disso, ser colocado no mesmo grupo que eu devia tê-lo abalado. Suas ações e palavras não machucavam apenas os outros; também o prejudicavam.
Ishizaki e Albert não eram feitos para ser líderes ou estrategistas. Eram mais adequados para serem terceiros no comando, os que coordenam o restante dos estudantes. Ryuen deveria ter garantido que mantivessem esses papéis — embora, para ser honesto, Keisei e Yahiko fossem parecidos.
Eles não eram tão imprudentes quanto Ishizaki, mas também não estavam qualificados para liderar.
Eu teria pensado que a Classe B teria um papel mais ativo, mas eles estavam incomumente quietos até agora. Talvez não fossem tão proativos quanto eu imaginava, exceto por certos indivíduos como Kanzaki e Shibata.
Isso fazia de Hashimoto a pessoa mais qualificada para manter o grupo unido. Sua posição prestigiada na Classe A, junto à habilidade de avaliar situações com clareza e se comunicar efetivamente, eram essenciais. No entanto, ele não parecia disposto a liderar.
*
Depois do nosso café da manhã — saudável, devo dizer — começaram as aulas de verdade. Nosso grande grupo se reuniu em uma sala um pouco mais espaçosa que as da Escola. Me perguntei se deveria se assemelhar a uma sala universitária.
Não havia lugares marcados, então era inevitável que alunos do mesmo ano se agrupassem em pequenos grupos. Você podia sentar-se sozinho em um canto, mas isso poderia atrair atenção indesejada de outros anos. Poderia até receber uma advertência. Como os pequenos grupos de segundo e terceiro ano ainda não haviam chegado, nós, calouros, tínhamos liberdade para escolher os assentos.
— Seria melhor sentar na frente?
— Não, provavelmente deveríamos esperar antes de escolher os lugares. Os veteranos não deveriam sentar primeiro e depois pegamos o que sobrar?
Keisei não queria correr o risco de levar bronca.
— Não seja egoísta de novo, Koenji. Você pode acabar sentado sozinho.
— Se somos livres para escolher nossos lugares, acredito que vou sentar onde eu quiser.
Apesar de dizer isso, Koenji não mostrava sinais de se sentar. Então ele não era completamente um agente do caos. Ele realmente ouvia quietamente durante as aulas normais também. O homem apenas vivia pelas próprias regras.
— Parece que vocês, calouros, estão tendo dificuldades — disse um aluno do segundo ano. — Precisam de ajuda?
— Estamos bem — respondeu Keisei, fazendo uma leve reverência. — Ugh. Por que eu tenho que ser o representante? — murmurou.
Afinal, comunicar-se com os alunos do segundo e terceiro ano era responsabilidade do representante. Keisei parecia sob grande estresse. Se eu o deixasse assim, seria apenas uma questão de tempo até ele explodir.
*
À tarde, tivemos Educação Física — ou melhor, condicionamento físico básico. Disseram que o foco principal seria treino para maratona e que uma corrida de revezamento de longa distância estava programada para o último dia, sem dúvida parte do exame final. Treinaríamos fora por alguns dias e depois na pista.
— Huff huff — arfava Keisei.
As várias tarefas que já havíamos realizado desde manhã haviam esgotado nossa resistência, e ele estava sofrendo. Eu poderia ajudá-lo em problemas teóricos, mas quando se tratava de condicionamento físico, não havia nada a fazer além de assistir.
Surpreendentemente, Ishizaki e Albert tinham mais resistência que o estudante médio. Conseguiram completar o treino facilmente, talvez porque, apesar de delinquentes, não fumassem.
— Tudo o que eu fiz desde manhã foi analisar as coisas.
Por algum motivo, eu estava ficando cansado disso. Deixando de lado se eu pretendia assumir um papel ativo ou não, percebi que queria melhorar o desempenho do grupo o suficiente para nos manter seguros contra expulsão. Se ficássemos em último e pontuássemos abaixo do mínimo estipulado pela escola, Keisei seria expulso.
A probabilidade de ele me arrastar junto era quase infinitesimal, mas não zero. Se perdêssemos, ele poderia me culpar por não oferecer ajuda apesar de me ver lutando. Deveria fornecer o mínimo necessário para salvá-lo? Ou trabalhar para colocar o grupo no caminho certo? Talvez eu devesse apenas observar e torcer para que o problema se resolvesse sozinho? Não — rapidamente eliminei essa última opção.
A presença de Koenji também seria motivo de preocupação. Provavelmente deveria agir mais cedo do que tarde. Diminui a velocidade para correr ao lado de Koenji, que trotava tranquilamente. Mesmo ao me aproximar, ele nem olhou para mim. Não sairia de seu próprio mundo a menos que eu o forçasse.
— Ei, Koenji. Não dá para pegar mais leve com eles?
— Por "eles", você se refere ao grupo, Ayanokoji-boy?
— É. Eles estão confusos. Nem todos são incríveis como você.
— Hahaha, certamente sou único. No entanto, não seria a maior estupidez me segurar para acompanhar a ralé comum?
— Bem… não sei se isso está certo. Mas…
— O que você quer dizer?
— Seria bom se o grupo conseguisse pontuar razoavelmente bem. Quero evitar a expulsão.
— Se é isso que você quer, então deve se esforçar para que aconteça, hmm?
— Estou dizendo isso a você porque pretendo me esforçar.
Koenji não respondeu, deixando apenas o som de nossos pés batendo. Ele voltou para seu próprio mundinho. Conversar com ele, afinal, era esforço desperdiçado.
Ameaças ou súplicas meia-boca eram inúteis com Koenji. Refletir sobre tudo que havia acontecido até agora me deixou claro isso. Não importava se a turma se unisse para implorar ou se os professores interviessem — se ele não quisesse fazer algo, assim seria. Ele era obstinado e completamente egocêntrico.
*
Talvez por ser nosso primeiro dia de aulas, ou porque o treino para a maratona havia sido tão exigente, o restante das aulas consistiu apenas em explicações sobre o que esperar desta semana. Ficou, no entanto, bem claro que o objetivo principal dessas aulas era nos ensinar habilidades de socialização.
É claro que os calouros não faziam ideia do que isso significava. Os alunos do segundo ano, por outro lado, pareciam levar tudo com calma. A diferença de experiência entre nós era impossível de ignorar.
— Ugh.
Nossa última aula da tarde, zazen, havia terminado. Keisei desabou, incapaz de se mexer.
— Você está bem?
— Eu gostaria de dizer que sim, mas minhas pernas estão todas dormentes. Por favor… me dê um minuto.
Parece que a aula havia sido mais pesada do que o esperado para Keisei. Ele permaneceu rígido e imóvel por cerca de dois minutos, esperando até que o formigamento nas pernas passasse. Ishizaki também não se saiu tão bem com o zazen. Ele se inclinou para frente, em agonia.
— Droga. Ok, comida e banho. Sim, banho. Me ajuda, Albert.
Albert se aproximou de Ishizaki, pegou seu braço e o puxou para cima.
— Gah! Mais devagar! Solta! — Thud! Ishizaki desabou.
— Gaaah!
Não pude deixar de me divertir assistindo àquela interação. O resto do nosso grupo, no entanto, apenas achava Ishizaki e semelhantes um saco. Keisei se preparou para sair, ignorando-os, mas eu intencionalmente permaneci no meu lugar.
— Eles são uma dupla divertida, hein? — perguntei, deliberadamente chamando a atenção de Keisei.
— Kiyotaka, deixa eles em paz. Estão apenas brincando. Não olhe muito para eles ou vai atrair atenção — Keisei se colocou à minha frente, bloqueando minha visão. — Ele pode não ser tão ruim quanto Sudou, mas Ishizaki ainda é do tipo que bate primeiro e faz perguntas depois. Isso pode acabar sendo como Ryuen de novo.
— Ainda assim, estamos no mesmo grupo. Tenho certeza de que eles não se importam com um certo contato, certo?
Apontei. Ishizaki nos percebeu e lançou um olhar furioso. Keisei se encolheu, mas Ishizaki apenas saiu do dojo, arrastando Albert consigo.
— O quê? — perguntei.
— Você é surpreendentemente ousado, Kiyotaka.
Isso porque eu sabia o que realmente estava acontecendo com Ishizaki e sua turma. Queria encontrar uma forma de indicar a Keisei indiretamente para não se preocupar tanto com isso. Enquanto ele estivesse no comando do nosso grupo, precisaria manter um certo controle sobre os alunos das outras classes.
— Keisei, precisamos descascar mais uma camada desta escola.
— Uma camada? Que quer dizer com isso?
— Talvez precisemos nos aproximar de Ishizaki e Albert, pelo menos até certo ponto.
— Isso é ridículo. Estamos no mesmo grupo, mas ainda somos inimigos. Não posso me aproximar deles.
Como Keisei, eu também acreditava que classes rivais nunca poderiam se dar bem quando entrei aqui. Na verdade, a escola nos incentivava a competir uns com os outros. Ultimamente, no entanto, comecei a imaginar outro caminho.
— Parece que o Presidente do Conselho Estudantil, Nagumo, conseguiu unir as pessoas, independentemente da classe — disse eu.
— Isso é… porque ele é carismático — disse Keisei. — Ou ele é especial. Eu não tenho esse tipo de talento… Na verdade, isso não é algo que alguém fora da Classe A conseguiria fazer, certo? Não sabemos o que o Nagumo-senpai está planejando, ou se seus métodos vão funcionar até a formatura. Mas não importa o quanto ele una os alunos do segundo ano, quem se formar na Classe A terá a última palavra. O resto ficará em lágrimas.
Dito isso, Keisei deixou o dojo.
*
Após o jantar, decidi voltar para o quarto antes dos outros. Havia algumas pessoas reunidas no corredor, tanto garotos quanto garotas, o que me fez pensar que algo estava errado.
— Desculpa, desculpa. Você está bem? — perguntou Yamauchi, um colega da minha turma, estendendo a mão de forma apologética.
— Sim. Não há motivo para preocupação.

Pelo que parecia, ele havia esbarrado em Sakayanagi Arisu, do primeiro ano da Classe A. Ela não aceitou a mão de Yamauchi e, em vez disso, tentou se levantar sozinha.
Ela não conseguiu se levantar sozinha, porém, então pegou sua bengala que estava no chão. Em seguida, apoiando-se na parede, levantou-se lentamente. Não demorou muito, mas com todos olhando para ela, provavelmente pareceu um tempo interminável para Sakayanagi.
Yamauchi retirou a mão de forma constrangida.
— Então, eh… Acho que vou indo? — disse ele.
— Sim. Não se preocupe comigo.
Sakayanagi sorriu levemente e desviou o olhar de Yamauchi. Todos começaram a se dispersar, aliviados pelo problema não ter se agravado.
— Sakayanagi-chan é realmente bonita, mas também desajeitada — murmurou Yamauchi. Ao que parecia, nem passou pela cabeça dele que ela poderia ter caído porque ele esbarrou nela.
De algum modo, o olhar de Sakayanagi encontrou o meu.
— Você está bem? — perguntei enquanto me aproximava.
— Muito obrigada pela preocupação. Mas não foi nada grave.
— Vou falar com Yamauchi mais tarde.
— Bem, ele não fez por mal. Eu apenas caí, só isso — disse Sakayanagi, com um riso leve. Mas seus olhos não sorriam. — Bem, então. Com licença.
Kamuro geralmente estava ao lado dela, mas não estava presente. Provavelmente havia sido colocada em outro grupo. Eu não tinha como saber como as coisas estavam indo com as garotas, e, na verdade, nem me importava. No entanto, quando Sakayanagi começou a se afastar, parou e olhou para trás na minha direção. Será que percebeu que eu estava a observando?
— Lembrei de algo que queria discutir com você, Ayanokoji-kun.
Ela tocou a bengala uma vez, com um leve sorriso nos lábios.
— A Classe B está bastante unida. Ichinose Honami-san conquistou a confiança de seus colegas dando o seu melhor. Mas, e se eles estiverem confiando demais nela?
— Isso não tem nada a ver comigo — respondi.
Mas Sakayanagi continuou, sem se importar com o que eu dizia.
— Há um boato sobre ela. Dizem que possui uma quantidade enorme de pontos, apesar de não ter grandes conquistas — pontos suficientes para, inclusive, justificar uma investigação da escola, ouvi dizer. Não deveria ser possível um único estudante acumular tantos pontos sozinho. Ela provavelmente é a tesoureira da Classe B. Não acha?
— Quem sabe? Só Ichinose ou os colegas dela poderiam responder isso. Por que me contar isso?
— Estou dizendo: é sensato confiar a ela todos esses pontos privados? Por exemplo, se de repente ela precisasse de muitos pontos para se proteger depois de algum erro, ou para salvar um colega, ninguém a culpária por isso. Talvez ela esteja agindo como tesoureira justamente por esse motivo.
— Provavelmente, sim.
— No entanto, se ela desperdiçasse uma grande quantidade de pontos apenas para seus próprios objetivos, a escola poderia investigar por fraude.
De qualquer forma, isso não tinha a ver comigo. Não se aplicava a mais ninguém além de Ichinose e dos alunos da Classe B. Se Ichinose realmente estava agindo como tesoureira, então os estudantes que depositaram seus pontos com ela seriam os únicos com direito de reclamar.
— Não consigo imaginar Ichinose usando pontos privados por motivos egoístas — disse eu.
— Acho que isso é verdade. Ao menos, ninguém duvida dela. Ainda. — Em outras palavras, ela insinuava que isso poderia mudar. — Estou realmente ansiosa para terminar este exame especial e voltar para a escola.
Parecendo satisfeita, Sakayanagi se virou e foi embora sem olhar para trás.
*
Faltava cerca de uma hora para as dez horas, que era a hora de apagar as luzes. Nenhum de nós tinha realmente algo para conversar, então ficamos sentados no quarto compartilhado em silêncio. Quebrar o gelo estava se mostrando surpreendentemente difícil.
Mesmo se você fizesse um esforço para iniciar uma conversa com alguém de outra turma, podia facilmente parecer forçado. O ideal seria que alguém trouxesse um assunto sobre o qual todos pudéssemos participar, mas parecia que isso seria pedir demais. Tentar forçar a conversa seria desagradável. Quem ao menos começasse a falar…
Bateram à porta. Aparentemente, tínhamos um visitante.
— Quem será?
Todos olharam perplexos.
— Ishizaki, talvez seja um professor — disse sem interesse.
Era certamente uma possibilidade. Keisei se levantou, foi até a porta e perguntou quem era. A resposta foi surpreendente.
— Vocês ainda estão acordados?
— Presidente do Conselho Estudantil Nagumo! Aconteceu alguma coisa? — perguntou Keisei.
— Vim verificar como vocês estão, já que estamos no mesmo grupo. Posso entrar? — perguntou Nagumo.
Provavelmente não havia um único calouro corajoso o suficiente para recusar. Keisei imediatamente concordou. Aparentemente, Nagumo não veio sozinho. O vice-presidente Kiriyama e dois outros estudantes do terceiro ano o acompanhavam: Tsunoda e Ishikura, da turma B.
Já dentro do quarto, Nagumo observou tudo.
— Parece que todos os quartos são idênticos, senpai — disse para Ishikura, com um sorriso.
— Parece mesmo. Agora, como exatamente você planeja aprofundar nossos laços de amizade trazendo-nos para o quarto dos calouros? — perguntou Ishikura.
A pergunta era direcionada a Nagumo, mas Keisei, sem entender o que ele quis dizer, falou:
— Laços de amizade?
— Já disse, não disse? Vim verificar como vocês estão, já que estamos no mesmo grupo. Não temos TV, computadores ou smartphones. Não há nada remotamente parecido com entretenimento. Mas não é como se não tivéssemos com o que brincar — disse Nagumo, tirando uma pequena caixa do bolso da camisa.
— Cartas?
— Você provavelmente está pensando: "Cartas, nos dias de hoje?" Pois é, cartas são um jogo essencial em acampamentos como este.
Nagumo se sentou em um lugar aleatório, retirou a fita plástica da caixa selada e a abriu.
— Sentem-se, senpais. Desculpem, calouros, mas não há muito espaço. Fiquem nas camas — disse Nagumo, enquanto alguns calouros começavam a se levantar.
— Eu não vou jogar — disse Tsunoda, virando as costas para Nagumo.
— Vamos, não diga isso. Vamos jogar. Pode nos ajudar a conversar um pouco mais livremente — disse Nagumo.
Tsunoda parou, aparentemente desistindo, e se sentou. Ishikura se sentou ao lado dele.
— Devemos apostar algo para tornar o jogo mais emocionante. Alguma ideia?
Os calouros, nervosos na presença dos veteranos, não disseram nada. Não sabiam como se dirigir ao presidente do conselho estudantil, e Nagumo, claro, já esperava que eles recuassem assim.
— Decidimos a ordem em que as pessoas vão preparar o café da manhã, certo? — disse ele. — Vamos apostar nisso. Por exemplo, se você perder constantemente, terá que cozinhar até o fim do acampamento. Por outro lado, se nunca perder, nunca precisará cozinhar.
— Ei, Nagumo. Não deveríamos discutir isso com todo o grupo? — disse Ishikura.
— É só a tarefa do café da manhã. Vamos lá, me dê isso. Por favor.
Ele era o presidente em exercício do conselho estudantil da nossa escola, e ainda assim falava de maneira tão casual, mesmo com veteranos. Os outros do terceiro ano pareciam incapazes de responder. Provavelmente sabiam da tensão entre Nagumo e Horikita Manabu e não queriam se envolver.
— Tudo bem. Então vamos decidir jogando cartas.
— Estamos bem com isso? — Keisei perguntou aos outros calouros, parecendo um pouco apreensivo. Ishizaki, Hashimoto e os outros assentiram, assim como eu. Os demais acabaram concordando também — exceto Koenji.
— Koenji, você se opõe a isso?
Nagumo deveria ter apenas ignorado. A pequena troca deles no ginásio à tarde provavelmente o fez querer provocar.
— Não aprovo nem me oponho. A maioria já decidiu.
— Não me interessa a maioria. Quero saber o que você pensa.
— Então permita-me responder, presidente do conselho estudantil. Não tenho o menor interesse nesta troca. Não me importo o suficiente para aprovar ou me opor. Isso satisfaz você?
Os comentários de Koenji pareciam feitos para causar mais problemas. No entanto, Nagumo soltou uma risada inesperadamente amigável.
— Por que você não entra para o conselho estudantil, Koenji? Adoraria ter alguém tão interessante como você. Ouvi dizer que você é bastante competente tanto nos estudos quanto nos esportes.
Todos no quarto, incluindo os veteranos, ficaram chocados. Koenji foi o único que não reagiu.
— Bem, isso é bastante infeliz. Não tenho interesse no conselho estudantil.
— Imagino que não tenha. Bem, está sempre bem-vindo. Se algum dia se interessar, me avise. Agora, que tal começarmos este jogo de cartas? — Nagumo desviou o olhar de Koenji.
— Que jogo exatamente vamos jogar?
— Algo simples. Old Maid? A pessoa que ficar com o coringa no final perde. Dois jogadores de cada ano vão participar, totalizando seis partidas.
Eu não era muito familiarizado com cartas, mas mesmo eu conhecia Old Maid.
— Os estudantes participantes podem se revezar. Apenas não troquem no meio de uma rodada — disse Nagumo, embaralhando o baralho.
Quando terminou, entregou as cartas aos veteranos para que eles também embaralhassem. Para garantir que ninguém pudesse trapacear, o baralho foi então entregue aos calouros para embaralhar. Keisei embaralhou enquanto nos olhava, buscando outro voluntário para participar. Como ninguém se ofereceu, Hashimoto levantou a mão, com um olhar de resignação.
Nosso jogo de Old Maid com calouros, segundos e terceiros anos havia começado. Cada ano estava programado para assumir duas vezes a tarefa de acordar cedo para preparar o café da manhã. Então, se você jogasse seis partidas de Old Maid com cinco vitórias e uma derrota, ainda ficaria tudo bem. Quatro vitórias e duas derrotas também seriam aceitáveis.
— Jogar em silêncio não é nada divertido. Vamos conversar — propôs Nagumo.
Ele recebeu o baralho de volta de Keisei e distribuiu as cartas.
— Eu vou distribuir a primeira rodada. Da segunda em diante, o perdedor tem que embaralhar e distribuir.
Os jogadores assentiram em concordância. Nagumo não me olhou uma única vez desde que entrou no quarto. Embora já nos tivéssemos encontrado durante as férias de inverno, eu aparentemente não existia para ele.
— Ah, calouros que não vão jogar… relaxem. Finjam que não estamos aqui. Ficar nervosos na frente dos veteranos o tempo todo vai afetar seu desempenho nesta semana.
Nagumo podia dizer isso, mas nós não conseguíamos nos sentir tão relaxados quanto alguns minutos atrás. Exceto Koenji, que os ignorou completamente e foi dormir.
Decidi observar o jogo silenciosamente até o final.
— Mesmo que seja só um jogo, não podemos perder para os calouros, senpai.
— Infelizmente, não tenho muita sorte. Se vocês esperarem demais de mim, vão se decepcionar.
— Vai dar tudo certo. Acho que meus senpais são todos bem fortes. Você não vai perder a primeira nem a segunda partida.
Apesar de ser um jogo onde o acaso determinava grande parte do resultado, Nagumo transbordava confiança. Já estávamos chegando à metade do jogo.
— Pronto.
Ishikura conseguiu se livrar de todas as suas cartas. O vice-presidente Kiriyama foi o próximo, e Nagumo, o terceiro. Os segundos anos venceram rapidamente, aumentando a pressão sobre os calouros.
— Pronto.
Hashimoto descartou duas cartas com o mesmo número, curvando-se para os veteranos ao fazê-lo. Os jogadores restantes eram Keisei e Tsunoda, um terceiro ano. Para um jogo tão tenso, os jogadores pareciam relativamente calmos. Keisei tinha duas cartas e Tsunoda uma. Isso significava que Keisei estava segurando o coringa. Se o veterano escolhesse o coringa, Keisei seria o vencedor. Mas, após alguma deliberação, Tsunoda pegou a carta vencedora.
— Está decidido.
— Perdi.
A primeira rodada terminou com a derrota de Keisei. Os calouros teriam que preparar o café da manhã pelo menos uma vez.
— Vamos manter a calma. Perder uma ou duas vezes não é grande coisa — disse Hashimoto. Keisei assentiu, mas parecia arrependido. Provavelmente estava preocupado em perder outra rodada.
— Ei, já disse, não disse? O perdedor recolhe as cartas e distribui — disse Nagumo.
— D-Desculpe — disse Keisei, recolhendo as cartas em pânico.
A segunda rodada começou em seguida. De onde eu estava sentado, conseguia ver uma das cartas do terceiro ano. Ele tinha o coringa. Manteve-o até cerca da metade da rodada, mas eventualmente passou para outro estudante.
Os dois últimos jogadores eram Kiriyama e Keisei. Keisei não conseguiu esconder o nervosismo por estar em um duelo um a um pela segunda vez consecutiva. Além disso, pelo número de cartas restantes, eu sabia que Keisei segurava o coringa.
Kiriyama pegou uma carta devagar e hesitante. Keisei tentou manter o rosto sério, mas abaixou a cabeça em derrota. Em questão de minutos, os calouros sofreram duas derrotas consecutivas. Yahiko, que estava observando, sinalizou para Keisei que era hora de trocar.
— Provavelmente é o melhor — disse Nagumo. Ao ouvir isso, Keisei trocou obedientemente e deixou Yahiko entrar.
— Não sou bom em jogos assim. Desculpe, contamos com você — disse Keisei, acomodando-se para assistir os calouros batalharem.
Claro, Yahiko provavelmente estava nervoso por enfrentar veteranos. No entanto, talvez por estar acostumado a tratar Katsuragi com a deferência devida a um aluno mais velho, parecia relativamente calmo. Ainda assim, a compostura podia não ajudar muito em Old Maid. Não sabia quanta habilidade o jogo exigia, mas provavelmente era preciso alguma sorte para não pegar o coringa.
— Acho que é hora de deixar os calouros ganharem uma — disse Nagumo, talvez sentindo-se um pouco mal por termos perdido várias vezes seguidas. — A propósito, Ishikura-senpai. Como anda o clube ultimamente?
— Achei que você não se interessava por basquete.
— Não, eu me interesso. Quer dizer, não tanto quanto por futebol.
— Alguns calouros bem atléticos entraram, então podemos esperar coisas boas no próximo ano. Não conseguimos muita coisa este ano, patético admitir isso como capitão.
Vários calouros tinham entrado, mas ele provavelmente se referia a Sudou, cuja habilidade havia chamado até a atenção de um veterano aposentado do terceiro ano.
— Estou ansioso por isso.
— Parece que você está dedicando todo o seu tempo ao conselho estudantil. Não tem nenhum vínculo com o futebol?
— Eu não planejava ser profissional nem nada. Além disso, posso continuar jogando futebol em qualquer lugar. Ser presidente do conselho aqui era realmente atraente.
— É bom que você se esforce como presidente, mas não gosto de você provocar o Horikita.
— Não quero provocar. Só quero que meus senpais me reconheçam, especialmente porque o admiro há muito tempo.
Ishikura lançou um olhar a Nagumo, mas depois desviou o olhar.
— Eu começo desta vez — disse Ishikura, colocando suas cartas viradas para baixo.
— Eu entro também — disse Yahiko logo em seguida, colocando suas duas cartas finais. Para os calouros vencerem, Hashimoto precisava se sair bem. O número de cartas na mão dele diminuía, mas o que realmente importava era quem segurava o coringa.
— Tudo certo.
Após outro estudante do segundo ano ficar em terceiro lugar, Hashimoto também se livrou de suas cartas.
— Oh, ho, parece que os calouros sobreviveram desta vez. Parabéns.
— Muito obrigado, Nagumo-senpai.
Os jogadores finais eram Nagumo e Tsunoda. No entanto, Nagumo tinha vantagem, com cinquenta por cento de chance de vitória.
— Vamos lá — disse Nagumo, pegando a carta da direita.
No entanto, ele havia pego o coringa.
— Que pena.
Nagumo estendeu as duas cartas na mão. Tsunoda pegou a carta da direita, exatamente como Nagumo havia feito.
— Está decidido.
No final, Nagumo ficou com o coringa, e os segundos anos sofreram uma derrota.
— Parece que fui derrotado. Tudo bem, vamos começar a quarta rodada? — Nagumo começou a distribuir as cartas, sem demonstrar frustração. — Vocês, calouros, finalmente ganharam uma rodada, então que tal perder desta vez? Quero dizer, somos seus veteranos. Quero que assumam nossas tarefas.
— Se não me engano, Sudou é da Turma D. Quem aqui é da Turma D? — perguntou Ishikura, olhando ao redor.
— Ah, somos colegas de Sudou — disse Keisei, olhando para mim. — Ah, e acabamos de ser promovidos para a Turma C — acrescentou.
Não esperava que eles se importassem muito com o que acontecia em outras séries, mas quando Keisei disse isso, Ishikura ficou impressionado.
— Promovidos de D para C, hein? Impressionante.
— Parece que a antiga Turma D ficou sem pontos de classe logo após começar nesta escola, porém.
— Ainda assim, conseguiram ser promovidos. Qual é a diferença entre vocês e a Turma B?
Quando alguém fez a pergunta, Ishikura interrompeu Keisei antes que ele pudesse responder.
— Esqueça. Este grupo inclui todas as turmas; não devo jogar gasolina no fogo — disse ele.
Certamente não era o melhor assunto — e não seria uma conversa divertida para Ishizaki, o resto da Turma D ou a Turma B. No final, os calouros praticamente não falaram, enquanto Nagumo e os veteranos mantiveram a conversa fluindo.
Era a quarta rodada. Depois que quatro dos seis jogadores terminaram, Nagumo chamou o fim da rodada.
— Os dois jogadores restantes são calouros. Não há necessidade de terminar, certo?
Não importava quem ganhasse, ainda seria nossa derrota. Yahiko e Hashimoto colocaram suas cartas restantes de volta no baralho. Conseguimos vencer os segundos anos apenas uma vez e perdemos três.
Até então, só tínhamos tido que preparar o café da manhã duas vezes, mas agora, graças a esta rodada de Old Maid, o número havia aumentado. Quanto mais perdíamos, pior se tornava nosso fardo.
— Talvez eu deva sair — disse Hashimoto. Ninguém parecia disposto a substituí-lo, com a sensação de derrota pairando no ar.
— Não importa quem entre. Qualquer um serve. Você — disse Nagumo, me chamando.
Eu queria recusar, é claro, mas obviamente não podia. Independentemente de ele ter me chamado de propósito ou aleatoriamente, eu tinha que aceitar.
— Desculpe, Ayanokoji. Fica por sua conta.
— Tudo bem.
Bem, três calouros já haviam jogado. Não era tão estranho que eu também tivesse sido escolhido. Além disso, era só por diversão. Vencer ou perder, era apenas um jogo normal.
Enquanto trocávamos de lugar, Yahiko me pediu para distribuir as cartas. Embaralhei o baralho e comecei a distribuir de forma desajeitada.
— Certo, este é o quinto jogo. Acho que já está na hora dos terceiros anos perderem. Vamos, calouro — disse Nagumo, tentando nos motivar.
Abri minhas cartas e analisei minha mão. Tinha várias cartas do mesmo número e o coringa. A menos que eu passasse aquela carta para um segundo ou terceiro ano, não teríamos chance de vencer. Eu não era muito familiarizado com jogos de cartas, mas fiquei curioso sobre uma coisa.
De certa forma, pegar o coringa logo no início podia ser algo bom. Quando terminei de analisar minha mão, o jogo começou e as pessoas fizeram suas jogadas na ordem certa. Parecia que ninguém iria tirar o coringa de mim. De vez em quando, algum dos veteranos colocava os dedos sobre a carta, mas rapidamente retirava a mão.
No entanto, durante a quinta rodada, alguém finalmente pegou o coringa de mim. O veterano que o pegou me olhou por um instante, mas imediatamente recuperou a compostura e continuou o jogo. Desta vez, Yahiko foi o primeiro a terminar, e eu terminei em segundo. Os calouros haviam acabado.
— Os calouros saíram por cima desta vez, hein? Talvez a maré tenha virado.
O jogo ficou restrito a um duelo um a um entre os terceiros anos restantes. Exatamente o que Nagumo provavelmente esperava.
Restava apenas um jogo. Como calouro, eu queria evitar perder novamente.
— Este próximo jogo é o último.
— Eu vou distribuir — disse Ishikura. Enquanto fazia isso, Koenji falou:
— Presidente do Conselho Estudantil Nagumo.
— O que foi, Koenji? Finalmente decidiu participar?
— Estou um pouco curioso, suponho. Como você prevê que este último jogo vai terminar?
Nagumo ignorou o tom pomposo de Koenji, concentrando-se apenas na pergunta.
— Como eu prevejo? — disse Nagumo.
Nagumo lançou um olhar sobre os participantes.
— Mesmo sendo só um jogo, os veteranos são experientes. É improvável que os calouros vençam — disse ele.
Koenji fechou os olhos e sorriu, como se estivesse satisfeito.
A maioria provavelmente não entendeu a intenção por trás da pergunta de Koenji. Apenas os veteranos tinham noção da situação. Eu agonizava sobre o que deveria fazer. Se confiasse apenas na sorte, quase certamente perderia. No entanto, se tentasse influenciar o resultado, poderia chamar a atenção de Nagumo.
Verifiquei minhas cartas. Uma delas era o temido coringa. Eu precisava me livrar dele se quisesse evitar a derrota.
— Gostaria de deixar os calouros com três derrotas. Mas quatro também está bem — disse Nagumo. Eu não podia imaginar que essa afirmação fosse aleatória.
A rodada final começou, as jogadas sendo feitas em sentido horário. Cada jogador descartou duas cartas. Em um ou dois minutos, o resultado seria decidido.
— DESCULPE, CALOUROS, mas eu terminei primeiro — disse Tsunoda.
Kiriyama foi o próximo a terminar. Isso nos deixou, os calouros, Nagumo e Ishikura. O coringa ainda estava em minha mão. Eu já havia desistido de vencer, então deixei o jogo continuar. Yahiko terminou em seguida, suspirando aliviado, a mão no peito.
Logo depois, Ishikura terminou. O confronto final ficou entre Nagumo e eu.
— Você não parece estar se divertindo, Ayanokoji.
— Não é isso. Só tenho dificuldade em me expressar.
— Sério? Você parece meio pálido desde que começamos. Está segurando o coringa esse tempo todo?
As observações de Nagumo não eram estranhas. Como ele não tinha o coringa e eu era o único jogador restante, ele obviamente sabia o que isso significava.
— Você pode estar certo sobre isso — respondi, tentando ser evasivo. Envolver-me diretamente poderia ser arriscado.
Eu sabia o que Nagumo queria de mim, afinal. Ele queria que eu respondesse como Koenji havia feito.
Silenciosamente, ofereci a ele as duas cartas em minha mão. Uma era o coringa, a outra exatamente a carta que Nagumo precisava para vencer. Muito provavelmente, ele pegaria a carta vencedora. Mas eu não entendia a expressão no seu rosto.
Nagumo sorriu e estendeu a mão.
E então…
— Você deve estar contente, Ayanokoji. Parece que conseguiu escapar — disse Nagumo, que havia pego o coringa.
— Que surpresa. Eu tinha certeza de que você pegaria a carta vencedora — disse Ishikura para Nagumo.
— No fim, jogos de cartas dependem da sorte. Quando você perde, você perde. — Nagumo embaralhou as duas cartas em sua mão e me ofereceu. — Tudo bem, escolha uma.
Do ponto de vista de um observador, eu tinha cinquenta por cento de chance, mas não era bem assim. Mesmo tendo tirado as cartas de uma caixa selada, Nagumo foi o primeiro a distribuir. Provavelmente foi nesse momento que ele marcou o coringa. Quase imperceptível, havia uma pequena mossa na carta.
Cheguei a essa conclusão analisando a sequência de vitórias. Nas cinco partidas até então, Nagumo tinha previsto os resultados com antecedência, mesmo com calouros inexperientes, quando não deveria haver como prever o desenrolar do jogo. Mas Nagumo era evasivo, apenas dizendo qual equipe tinha alta probabilidade de vencer e qual não.
Os veteranos que perceberam o truque… não, que foram informados sobre ele… tinham uma vantagem esmagadora. Repugnante. De onde eu estava sentado, a carta da direita estava marcada — era o coringa. Não havia como enganar.
Se eu pegasse a outra carta, o que aconteceria? A resposta era simples: nada. Eu simplesmente teria ganhado por cinquenta por cento de chance.
— Não consigo distinguir uma da outra, por mais que tente, então vou escolher aleatoriamente. Lá vai — disse, estendendo a mão. Mas Nagumo puxou as cartas de volta.
— Pense bem antes de escolher.
— Não sei se pensar vai adiantar.
— Mesmo assim, tente — insistiu ele.
— Entendi. Vou pensar — disse, olhando para as cartas.
Claro, eu não estava realmente pensando. Depois de uns dois segundos, peguei uma carta.
— Gosto da da direita. Vou pegar essa — disse.
Uma razão tão boa quanto qualquer outra. Nagumo não me impediu desta vez, e eu peguei a carta vencedora.
— Desculpe — disse, mostrando que havia vencido.
— Você perdeu. Huh, Nagumo?
— Acho que sim. Bem, já estávamos programados para cozinhar café da manhã duas vezes de qualquer forma, então não me importo. — Ele reuniu as cartas espalhadas. — Foi divertido, não foi? Acho que você e eu podemos nos dar muito bem, Ishikura-senpai.
— Quem sabe — respondeu Ishikura, ignorando as palavras aparentemente amigáveis de Nagumo e saindo abruptamente do quarto.
— Tudo bem se começarmos com os calouros, certo? Cuidem do café da manhã amanhã.
— S-Sim. Muito obrigado — disse Keisei.
Os veteranos guardaram as cartas, levantaram-se e saíram.
— Sabe, nem interagimos direito com eles — murmurou Ishizaki. Eu entendi o que ele quis dizer.
No fim das contas, o jogo não havia feito nada além de aumentar levemente as responsabilidades dos calouros.
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