Ano 1 - Volume 7
Capítulo 5: Pensamentos que se Cruzam
CERCA DE DUAS HORAS antes de Karuizawa sair para ver Ryuen, Chabashira-sensei nos deu uma palestra sobre pontos importantes para lembrar durante as férias de inverno.
— Partes da escola passarão por reformas, então essas áreas estarão interditadas. Além disso, todos os clubes terão folga após a cerimônia de encerramento. Certifiquem-se de voltar para casa o quanto antes.
Por algum motivo, nossa professora lançou um olhar silencioso ao redor da sala depois de terminar de falar. Esperamos, mas ela não mostrou sinal de que nos dispensaria.
Ike, claramente impaciente para ir embora, ergueu a mão.
— O que houve, Sensei?
— Imagino que muitos de vocês já estejam cientes, mas sua promoção para a Classe C está praticamente garantida. Muito bem.
— U-Uau. A Sensei acabou de elogiar a gente. Isso é raro.
Ike não era o único surpreso. Eu tinha certeza de que o resto da classe estava igualmente chocado.
— No entanto, não relaxem. Se vocês se meterem em encrenca durante o recesso, isso pode afetar seus pontos de classe. Não se esqueçam de que, mesmo nas férias, vocês representam a escola.
Com isso, Chabashira-sensei nos dispensou, encerrando o segundo semestre.
— Isso realmente é incomum — comentou Ike. — A Chabashira-sensei sendo gentil e dando um aviso, quero dizer.
— É, pode ser — respondi.
Enquanto guardava meus livros na mochila, lancei um olhar a Karuizawa, que conversava com algumas garotas. Ela virou-se e olhou de volta para mim.
Naquela manhã, eu havia recebido uma mensagem dela no endereço de e-mail que eu reservava para emergências. A mensagem dizia que Ryuen a havia chamado para encontrá-lo no telhado às duas da tarde e que isso tinha relação com Manabe e suas amigas.
Como eu já havia recebido uma mensagem do próprio Ryuen sobre esse encontro, não fiquei surpreso. Ele não se importava se Karuizawa fosse contar algo. Seu único objetivo era me atrair.
Eu não respondi à mensagem de Karuizawa. Mesmo assim, ela deixou a sala com as amigas parecendo satisfeita, talvez porque estivesse confiante de que eu havia recebido seu recado. Talvez ela planejasse sair e depois voltar à sala. Contudo, uma hora depois, quase todos os alunos já haviam deixado o prédio.
— Ei, estávamos pensando em ir ao Keyaki Mall. O que acha? Quer vir? — perguntou Keisei.
— Claro — respondi. — Não tenho nada planejado. Vou depois que terminar de me arrumar.
— Vamos esperar no corredor.
Talvez eu devesse levar alguns livros de volta ao dormitório, só por precaução? Eu poderia precisar deles durante o recesso.
— Ei. Você está ocupado hoje, por acaso? — Satou chamou, com um tom meio tímido.
— Sim. Prometi ao Yukimura e aos outros que iria sair com eles — respondi.
— A-Ah, entendo. Azar o meu então — disse Satou, com os ombros caídos.
— Hoje não dá, mas você está livre durante as férias de inverno? — perguntei.
— Hã?
— Digo… Me sinto mal por ter recusado você duas vezes. Se você estiver bem com isso, Satou, eu pensei que…
— S-Sério?!
— Sim.
Satou me abraçou sem aviso, me pegando totalmente de surpresa.
— É-É um encontro! — disse ela, pulando de alegria enquanto corava profundamente.
Por que ela estava tão interessada em mim? Eu não estava reclamando, exatamente, mas ainda havia gente na sala. Era um pouco embaraçoso.
— Qualquer horário amanhã ou depois serve — eu disse. — Te mando uma mensagem com mais detalhes.
— Certo! Até mais, Ayanokoji-kun!
Radiante, Satou voltou para junto de Shinohara e do grupo, que me lançaram olhares suspeitos antes de partir. Fui até Keisei e os outros, que estavam reunidos no corredor conversando. Eu já podia imaginar o tópico, considerando o sorriso sinistro da Haruka e a expressão desanimada da Airi. Haruka parecia pronta para começar a provocar assim que começássemos a andar, então resolvi me adiantar.
— Não está acontecendo nada.
— Nem perguntei nada ainda — disse Haruka. — O que foi?
— Nada. Você estava prestes a perguntar alguma coisa, só isso.
— Bom… É. Só de olhar para a Satou-san, não é difícil imaginar que algo está rolando, certo?
— Você é um playboy mesmo, Kiyotaka. Primeiro a Horikita, agora a Satou? — disse Keisei, parecendo estranhamente irritado.
Resolvi esclarecer.
— Ela só me convidou para sair, só isso.
— Uma garota convidando um garoto é raro, né? Deve ter algo aí — comentou Haruka.
— V-Você não acha que a S-Satou-san gosta do Kiyotaka-kun, acha?! — perguntou Airi, desesperada. Já tínhamos passado por essa conversa antes.
— Não sei como responder isso… — murmurei.
— Tentativa final de arrumar um romance a tempo do Natal? Ah, céus — acrescentou Haruka. — Que reviravolta incrível!
— Enfim, para onde vamos? O shopping deve estar lotado hoje. Como o recesso começa amanhã, deve ter um monte de alunos por lá até tarde — disse Keisei, apressando-nos a decidir.
— Bom, não podemos só… sei lá, andar por aí? Não precisamos correr — respondeu Haruka.
Enquanto conversávamos, Akito caminhava em silêncio, com uma expressão séria. Parecia concentrado no que vinha atrás de nós, como se estivesse procurando alguém.
— Nenhum sinal de alguém seguindo a gente — murmurou, aliviado.
Parecia que Ryuen planejava resolver tudo hoje. Ele devia ter decidido que nos seguir não era mais necessário.
— Ei, sabe… mesmo que o Keyaki Mall tenha praticamente tudo, acho que quero sair do campus mesmo assim — disse Haruka, olhando para a entrada principal ao longe. — Eu queria muito ir para Shibuya ou Harajuku, ou ver as luzes em Omotesando, sabe?
— Suponho que o campus não seja um bom substituto para esses lugares, tirando o interior do Keyaki Mall… — A escola nem havia decorado as vias internas para a ocasião, então tudo parecia igual ao usual.
— Eu estou bem ficando aqui… — disse Airi. — Além disso, o campus tem quase tudo que precisamos. Você sente o mesmo que a Haruka, Kiyotaka-kun? Sobre sair do campus?
Ao contrário de Haruka, Airi definitivamente não me parecia o tipo de pessoa que gostava de sair pela cidade à noite. Acho que, desta vez, tudo bem não me deixar levar pela maré.
— Eu estou feliz em ficar por aqui, Airi. Mas entendo por que as pessoas querem sair do campus — respondi.
— Eu sei que isso faz parte das regras da escola, mas dizer que não podemos contatar nossas famílias por três anos não é meio extremo? Quer dizer, você pensaria que elas se preocupariam com seus filhos, né? — Talvez esse fosse um assunto delicado para Akito, porque ele estava carrancudo. — Minha mãe é superpreocupada. Deve estar ficando ansiosa.
— Ouvi dizer que a escola cuida disso. Aparentemente, eles enviam boletins e outros relatórios regularmente.
— Isso… pode deixá-la ainda mais preocupada. Acho que eu deveria estudar um pouco mais — disse Akito.
— Os pais provavelmente se preocupam mais com as meninas do que com os meninos, né?
— Ah, sem problemas. Não é o meu caso. Minha família está bem — disse Haruka, desviando do tópico com naturalidade. Parecia haver algo ali que ela não queria tocar. — Então, vamos para o karaokê? Pode estar um pouco cheio.
— Não vamos jogar aquele jogo de punição de novo, né? — perguntou Keisei.
— Mas é claro que vamos. Assim o Yukimuu pode se vingar.
Enquanto todos conversavam sobre para onde iríamos em seguida, eu parei no meio do caminho.
— O que foi, Kiyotaka-kun?
— Desculpa — respondi. — Vou voltar.
— Mas ainda são duas horas — disse Akito, olhando a hora no celular.
— Para falar a verdade, virei a noite acordado e estou meio acabado. A gente pode sair de novo durante o recesso de inverno.
Airi pareceu desapontada, mas eu confiava que Haruka cuidaria para que ela se divertisse mesmo sem mim ali. Me despedi do grupo e fui embora, tirando o celular do bolso para ligar para Chabashira-sensei quando já estava a uma distância segura.
— Alô. Preciso conversar com você sobre algo. Tem um momento?
— O que você está planejando? Você não tinha lavado as mãos de mim? — respondeu Chabashira-sensei.
— Sim, mas ainda há algumas pontas soltas. Gostaria de conversar pessoalmente. Podemos nos encontrar na escola?
— Vou esperar na sala de aula.
— Entendido. Estarei aí em alguns minutos.
Voltei para a nossa sala, agora vazia. Chabashira-sensei estava perto da minha carteira, olhando pela janela.
— Se for como nos anos anteriores, provavelmente vai nevar — ela disse.
— Você gosta de neve?
— Eu gostava. Depois cresci e passei a odiar — respondeu, fechando as cortinas e se virando para mim. — Você disse que tem algo a discutir. O que quer comigo?
— Só queria entender. Por que você deseja tanto chegar à Classe A, a ponto de usar a mim para isso? — Imaginei que uma professora hesitaria em mentir e manipular um aluno sem uma razão forte.
— Esta escola foi projetada para fazer professores, assim como alunos, competirem entre si. É natural desejar subir de posição.
— Não posso imaginar que seja só isso. Se você realmente mirasse na Classe A desde o começo, nunca teria colocado a Classe D em desvantagem como fez.
Durante nossa primeira prova de meio de período, Chabashira-sensei havia deliberadamente omitido informações essenciais.
— Isso é diferente. É pessoal. Não tenho nada a dizer sobre isso — ela respondeu.
— Você hesitou, não foi? Não tinha certeza de que esta classe realmente tinha capacidade de mirar na Classe A. Não sabia nem se valia a pena tentar.
Eu não me importava com seus sentimentos secretos. O importante era saber se ela podia ser útil para mim.
— Parece que isso é perda de tempo. Vou voltar ao trabalho.
Falei novamente quando ela virou para sair:
— Se não responder, então é melhor desistir de tentar me usar.
— É disso que se trata? Achei que você já tivesse escapado das minhas mãos.
— Isso é crucial. Se você não agir agora, a Classe D nunca chegará à Classe A. Na verdade, é improvável até que cheguemos à Classe C.
— Do que você está falando?
Olhei para o relógio na parede, deixando claro que estava checando a hora.
— Já são duas da tarde. Ryuen está fazendo um espetáculo e tanto agora mesmo, depois de chamar Karuizawa para o terraço.
— Ryuen chamou Karuizawa?
— Então nem você sabe, Sensei? Karuizawa foi terrivelmente intimidada no passado.
— É a primeira vez que ouço isso.
— Essa informação provavelmente estará espalhada pela escola inteira amanhã. Quando isso acontecer, Karuizawa vai se fechar e talvez até largar a escola voluntariamente. Se conseguirmos provar que a Classe C foi responsável, talvez possamos revidar, mas o dano para cada classe será incalculável.
Eu não sabia qual seria a punição para a Classe D se alguém desistisse, mas provavelmente seria pesada — e isso dava para perceber só olhando o rosto de Chabashira-sensei.
Mas ela logo recuperou a compostura e voltou a me encarar com seu olhar intenso habitual.
— Já vejo seu motivo oculto. Você não consegue resolver isso sozinho, mas uma professora tem poderes que você não tem. Eu poderia ocultar seu envolvimento. Uma solução perfeita, não é?
— Então você vai me ajudar? — perguntei.
— Não se empolgue, Ayanokoji. Não tenho a menor intenção de cooperar com você.
— Natural.
— A escola não vê com bons olhos professores interferindo em problemas entre alunos.
Verdade. Uma professora indo sozinha até o terraço, não apenas para impedir Ryuen de intimidar Karuizawa, mas também para evitar que o passado dela fosse exposto… seria um cenário perfeito demais para ser real.
— Você pode mesmo se dar ao luxo de me recusar? — perguntei. — Não há garantia nenhuma de que eu não vá sabotar a Classe D no futuro, certo? Sou perfeitamente capaz de garantir que nunca subamos de posição.
— Pensar que um aluno ameaçaria uma professora… As coisas definitivamente se inverteram.
— Se fizer isso para mim, prometo não atrapalhar nem sabotar a Classe D daqui em diante. Acredito que isso seja significativo, não acha? — perguntei.
— Se recusar ajudar você significa que nunca chegaremos à Classe A, então que seja.
Muito bem. Parecia que Chabashira-sensei não iria ceder. Felizmente, depender de um professor nunca fez parte dos meus cálculos.
— Relaxe — eu disse. — Eu não tinha a menor intenção de recrutar a sua ajuda.
— O quê?
— Só estava testando você, só isso. Então, que tal vir observar o desfecho desse pequeno drama?
*
Se tudo estivesse acontecendo de acordo com minhas previsões, cerca de meia hora já deveria ter passado desde que Karuizawa fora ao terraço. Chabashira-sensei e eu aguardávamos a uma distância segura do lugar onde Yamada Albert fazia guarda, observando Ishizaki descer as escadas em pânico e voltar com baldes de água. Pelo tanto que havia sido derramado no chão, ele provavelmente repetira isso várias vezes. Deviam ser preparativos do plano de Ryuen para forçar Karuizawa a reviver seu trauma e fazê-la confessar.
No entanto, ela aparentemente não havia revelado nada de imediato, pois nem ela nem os alunos da Classe C mostravam sinais de retornar. Era possível que as coisas estivessem se desenrolando de forma um pouco diferente do que eu imaginara. Ainda assim, deixando de lado minhas suposições iniciais, isso era uma mudança para melhor.
— O que você está planejando, Ayanokoji? Quanto tempo pretende esperar? — perguntou Chabashira-sensei.
Só mais um pouco. Já tinha chegado tão longe; não precisava agir com pressa. Quanto mais deixasse a situação no terraço se desenvolver, maior a chance de tudo seguir do meu jeito. Chegar tarde carregava seus próprios riscos — mas era necessário.
— Vamos conversar — eu disse.
— Agora? — perguntou Chabashira-sensei, incrédula.
Ignorei sua reação.
— Quero falar sobre algo que aconteceu pouco depois de começarmos as aulas, quando pedimos que você nos vendesse um ponto para a prova do Sudou.
— Sim, eu me lembro. Você e Horikita pagaram cem mil pontos por isso.
Já fazia mais de seis meses. O tempo realmente passava rápido.
— Não há nada que não se possa comprar com pontos privados. Foi isso que você disse, não foi? — perguntei.
— Sim. E Sudou não foi expulso, foi?
— Se comprar pontos fosse sempre permitido, então nunca haveria expulsões, certo? Sempre que alguém tirasse nota baixa, outra pessoa poderia cobrir, como fizemos.
— Não é tão fácil assim conseguir pontos privados. A Classe D deste ano acumulou uma quantia razoável, mas isso foge ao padrão. Na maioria dos anos, a Classe D tem metade disso. Além disso, nem todos os alunos se dão bem o suficiente para usar seus pontos privados para salvar um colega, mesmo que isso signifique perda de pontos de classe — rebateu ela.
— Verdade. Mas isso é uma falha do sistema, não é? Se a salvação por pontos privados está sempre ao alcance, o perigo de expulsão por desempenho cai drasticamente — argumentei.
— Pode ser… — Chabashira-sensei não negou, mas também evitou olhar nos meus olhos.
— Quando pedi que vendesse aquele único ponto, você atribuiu um valor a ele, Chabashira-sensei.
— Acha que foi caro demais? — ela perguntou.
— Não, não é isso. Quero saber se trocar um ponto de prova por cem mil pontos privados foi algo que você inventou na hora, ou se havia alguma base para aquele preço. Na época, pareceu improvisado, mas desde então comecei a duvidar que você o tenha decidido arbitrariamente, sem consultar a escola.
— O que está tentando dizer, Ayanokoji?
— Esta escola regula rigorosamente, por escrito, tudo relacionado a pontos, certo? Não seria estranho pensar que ela antecipou a possibilidade de alguém tentar comprar aumento de pontuação. Eu acreditaria nisso.
— Em outras palavras, está perguntando se o preço que mencionei para você e Horikita foi algo determinado pela escola de antemão? — ela perguntou.
— Exatamente. Se puder responder, por favor.
Houve uma pausa. Até então, Chabashira-sensei tinha uma resposta pronta para tudo — mas agora permanecia calada.
— Não posso responder todas as perguntas que você faz — disse ela por fim.
— Devo interpretar isso como um "não posso responder"? — perguntei.
— Pense o que quiser.
— Muito bem. Farei minhas próprias conclusões. A escola preparou um manual para lidar com todo tipo de situação. Ficou determinado de antemão que custa cem mil pontos privados para comprar um ponto de prova. A partir disso, surge a dúvida: podemos comprar mais de um ponto, repetidas vezes, por cem mil cada?
— Especule o quanto quiser, mas essa é uma conversa estranha, considerando as circunstâncias. Karuizawa está—
Interrompi Chabashira-sensei.
— A taxa de cem mil pontos por ponto de prova só vale por um tempo limitado após a matrícula? O preço sobe a cada compra? Ou só é permitido comprar uma vez? Quanto mais penso, mais perguntas surgem. Diga-me se estou certo.
— Basta. Acha que posso responder isso? Mesmo que pudesse, você não teria como confirmar a verdade.
— Há sim. Eu só preciso perguntar diretamente para a senhora, Sensei. — Ela tentou desviar o olhar, mas eu não recuei. — Quantos pontos eu precisaria para comprar um ponto de prova no próximo exame intermediário, agora?
Chabashira-sensei ficou completamente em silêncio.
— Como professora, a senhora é obrigada a responder, certo? Se não responder, vou perguntar a outro professor. E, se eles me responderem, vou relatar à escola que a professora responsável da Classe D está nos discriminando. Não se esqueça de que eu posso fazer isso — eu disse.
Claro, era possível que os outros professores também estivessem proibidos de responder. Nesse caso, eu conseguia imaginar diversas possibilidades: talvez houvesse uma regra determinando que eles só poderiam vender pontos uma única vez, ou apenas se alguém estivesse prestes a ser reprovado.
Mesmo assim, sua incapacidade de responder já era uma resposta. Ela me dizia que havia um procedimento estabelecido para situações como essa.
— Está tentando encontrar uma brecha nas regras? — perguntou Chabashira-sensei.
— Alguns alunos já estão fazendo isso, não é? Olhe para Ichinose e Ryuen, acumulando pontos privados. Ambos estão tentando encontrar uma estratégia que beneficie suas respectivas classes, passando por um processo diário de tentativa e erro.
— Entendido. Muito bem, vou responder. É verdade que a chave para derrotar o sistema está em compreender as regras reais sobre o uso dos pontos privados. Alunos dos anos anteriores já abordaram esse problema de várias perspectivas, assim como você está fazendo agora. Mesmo a Classe D, o grupo dos "produtos defeituosos", não é exceção. Alguns alunos foram mais rápidos que outros para perceber isso. Além disso, a escola estabeleceu milhares de regras detalhadas para cobrir todos os cenários possíveis. Compra e venda de pontos, encobrir incidentes violentos, impedir expulsões — há um valor definido para cada uma dessas ações. Contudo, os professores têm muitas limitações quanto ao que podem revelar ou insinuar. Na verdade, somos proibidos de divulgar a maior parte dessas informações. Pode até haver regras que nós, professores, nem conhecemos ainda.
— Então, a senhora realmente não pode responder à minha pergunta?
— Correto.
Mistério resolvido. Nossos professores só podiam revelar os usos especiais dos pontos privados quando certas condições fossem cumpridas. Em outras palavras, o preço para comprar um ponto no próximo exame já estava definido; eu apenas não havia cumprido as condições para que Chabashira-sensei pudesse me informar. Agora que eu sabia disso, podia começar a elaborar contramedidas — embora a ambiguidade nos impedisse de agir de forma imprudente.
— Essa conversa tem algo a ver com o que está acontecendo agora? — perguntou Chabashira-sensei.
— Nada. Só estava tendo um bate-papo amigável — respondi. Chabashira-sensei não fazia ideia das minhas verdadeiras intenções. — Acho que está na hora, não acha? Hora de acabar com esse jogo.
Chequei meu celular e vi que já eram mais de 14h40. Enviei uma mensagem para uma certa pessoa, instruindo-a a vir imediatamente.
— Eu não entendo completamente o que está acontecendo, mas sei que Karuizawa está sofrendo terrivelmente nas mãos da Classe C. Se você não pretende fazer nada, deveria chamar outra pessoa — disse Chabashira-sensei.
— Estou indo para o telhado — respondi.
Chabashira-sensei não conseguiu esconder o choque.
— Você enlouqueceu? Se fizer isso, a escola inteira vai saber sua identidade.
— Não importa. Mesmo que Ryuen descubra que fui eu quem orquestrou todas as estratégias da Classe D até agora, ele não ganha mais nada com isso. Se bobear, ele pode até presumir que eu esteja envolvido da próxima vez… e acabar se sabotando.
— Se fizer isso, será o assunto da escola toda. Vai destruir qualquer chance de levar uma vida tranquila aqui.
Eu conseguia imaginar o pensamento queimando na mente dela. Chabashira-sensei provavelmente acreditava que, enquanto minha identidade permanecesse oculta, ela teria alguma vantagem para me manipular. Mas se eu me revelasse para a Classe C, Ryuen saberia com certeza que eu era o X. E mesmo que não tivesse certeza absoluta, tudo acabaria assim que ele decidisse que eu era seu principal suspeito.
Chabashira-sensei desviou o olhar.
— Talvez eu tenha me enganado — disse ela.
— Se enganado?
— O presidente Sakayanagi me falou sobre você antes de você ingressar. Disse que era um aluno extremamente especial. Superior. E que precisávamos protegê-lo. Que você foi criado em um ambiente distante de qualquer afeto. O presidente e eu concluímos, após muita discussão, que queríamos que você se sentisse ligado a esta escola, que quisesse permanecer aqui. Então eu lhe disse que seu pai queria sua expulsão. Não era verdade na época… mas parece que agora é — explicou.
— Entendo. Bem, você certamente acertou ao dizer que é mais fácil alguém se apegar a algo quando tem um objetivo pelo qual lutar. Mas não precisa se preocupar. Eu escolho ficar aqui. Não tenho intenção de voltar para o controle daquele homem.
— Então meu erro foi tentar usá-lo de forma tão descuidada, hmm? Acho que me deixei levar pela fantasia de ver a Classe D ultrapassar a Classe A — disse Chabashira-sensei, cuspindo essas palavras com resignação. Ironia: desistia rápido demais de suas ambições.
— Não é uma fantasia. A Classe D está prestes a subir para Classe C. Logo, Horikita vai unificar nossa turma. Tenho certeza disso.
— Suponho que sim. Vocês já conseguiram o que classes anteriores não conseguiram. Mas você realmente acha que Horikita pode fazer isso?
— Esse tipo de ceticismo não combina com uma professora. Horikita é mais do que capaz de liderar a Classe D.
Para Chabashira-sensei, Horikita não passava de um meio para me manipular. Nada mais.
— No fim das contas — continuei — Horikita está começando a amadurecer. Assim como muitos dos nossos colegas. Continue a guiá-los como professora, e nossa posição como Classe C estará garantida… e talvez também o caminho para a Classe A. Claro, vamos precisar de habilidades bem diferentes para chegar até lá.
— Você está mesmo planejando recuar?
— Sim.
Os professores quase certamente eram proibidos de manipular emoções dos alunos para satisfazer suas próprias ambições. Chabashira-sensei sabia disso. Eu não a chamara ali como um seguro; eu queria provar, de uma vez por todas, que estava recuando de minha atuação direta na competição entre classes.
— Voltando ao assunto — disse ela. — Você é livre para fazer sua grande entrada e expor sua identidade. Mas isso realmente vai resolver o problema?
— Não posso garantir. No máximo, posso dizer que vou lidar com a situação com base na minha avaliação da personalidade e do comportamento de Ryuen.
Vi a pessoa para quem havia mandado mensagem se aproximando. Chabashira-sensei estava livre para ir embora, se quisesse. Não me impediria mais.
— Então, muito obrigado por me acompanhar até aqui — disse.
Nesse momento, a pessoa para quem eu havia mandado mensagem se juntou a nós.
— Desculpe a demora, Ayanokoji — disse Horikita Manabu, o ex-presidente do conselho estudantil.
Chabashira-sensei ficou chocada ao vê-lo.
— O que está acontecendo?
— Ele está aqui como testemunha. Afinal, Ryuen tentará vencer por qualquer meio necessário, e eu gostaria de evitar que isso se tornasse violento.
Ter um professor como testemunha seria a carta na manga ideal, é claro, mas pouco viável. Eu optara pelo segundo melhor recurso.
— Você pretende que Horikita vá ao telhado em seu lugar? — perguntou Chabashira-sensei.
— O ex-presidente do conselho estudantil parece alguém que faria esse tipo de coisa?
Chabashira-sensei olhou para o irmão mais velho de Horikita por um momento e logo concluiu que era impossível.
— Haverá uma pessoa no telhado que testemunhará o que acontecer lá. Enquanto isso for garantido, estaremos bem — concluí.
Foi para esse fim que eu havia feito um acordo com o irmão de Horikita. Não que isso fosse relevante agora.
— Alguns minutos depois que eu subir, gostaria que você parasse no meio da escada. Não precisa falar com os alunos que descerem do telhado, nem puni-los. Apenas certifique-se de que eles o vejam ao descer. Preciso que saibam que você esteve aqui.
— Tudo bem, mas não se esqueça do nosso acordo, Ayanokoji — respondeu ele.
— Claro. Se eu quebrar minha palavra, você pode escolher esquecer tudo o que acontecer aqui hoje — disse.
— Contanto que você compreenda. Tente terminar isso rápido.
— Espere, Ayanokoji. O que teria feito se Horikita não aceitasse ajudar? — perguntou Chabashira-sensei, enquanto eu começava a caminhar pelo corredor que levava ao telhado.
— Hmm. Quem sabe?
Provavelmente teria usado Sakayanagi, já que ela sabia sobre mim. E se isso não fosse possível… bem, não havia sentido em pensar em planos que eu não precisaria mais.
— Estarei de volta em dez ou vinte minutos.
*
Subi as escadas passo a passo. Uma sombra surgiu à minha frente, bloqueando o caminho para o telhado. Era Yamada Albert, o guardião perfeito para a tarefa. Eu não sabia muito sobre ele, além de ser um dos subordinados de Ryuen.
Ele me avaliou como se estivesse me medindo.
— Posso passar? — perguntei.
Ele continuou me observando, imóvel. Seu silêncio significava recusa ou falta de compreensão? Suas grandes mãos rapidamente retiraram o celular.
— Don’t panic. I’m the one you want — disse em inglês.
(Não se preocupe. Eu sou quem você quer.)
Albert parou, mas não disse nada.
— I’m ending this today. No one else will interfere — acrescentei.
(Vou acabar com isso hoje. Ninguém mais vai interferir.)
Ele pareceu pensar por um instante. Moveu-se para o lado e silenciosamente me sinalizou para passar, aparentemente reconhecendo minha autoridade. Mas eu ainda precisava dele no telhado para o que viria a seguir.
— Pretendo esmagar Ryuen. Ele não tem chance sem sua ajuda — disse, voltando ao japonês.
Albert olhou mais uma vez para baixo. Depois de confirmar que não havia mais ninguém por perto, me seguiu até o telhado, parando junto à porta e me observando de trás.
As nuvens cinzentas no céu ameaçavam chuva. Vi Karuizawa perto da cerca, encurvada e afastando-se da porta. Percebendo a porta se abrir e fechar, Ishizaki e Ibuki olharam para mim, assim como Ryuen. Verifiquei a área em busca de câmeras de vigilância, notando que a única lente estava pintada de preto.
Ele a havia coberto com tinta spray, hein?
Voltei meu olhar para Ryuen.
— Ayano…koji? — perguntou Ibuki, incrédula. Ela foi a primeira a falar.

Karuizawa havia me notado. Ela não disse nada, mas dava para perceber que estava chocada e se perguntando por que eu tinha vindo.
— Desculpe pelo atraso — disse a ela.
— Por… que… você veio? — Karuizawa conseguiu dizer com dificuldade.
— Como assim, "por quê"? Eu fiz uma promessa, não fiz? Prometi que iria salvá-la.
— R-Ryuen-san, isso significa que Ayanokoji é X?! — Ishizaki entrou em pânico.
— Nunca. Definitivamente não é ele — Ibuki negou antes que Ryuen pudesse falar. — X está apenas usando Ayanokoji. Não se deixem enganar, Ryuen. X provavelmente avisou Karuizawa antes que enviaria alguém para salvá-la!
— Cale-se, Ibuki.
Ryuen riu, colocando distância entre ele e Karuizawa enquanto se aproximava de mim. Parou a cerca de cinco metros, claramente cauteloso.
— Ora, ora. Quem temos aqui? É aquele que não desgruda da Suzune. Ayanokoji, hein? O que te traz sozinho ao telhado neste lindo primeiro dia de férias de inverno?
— Karuizawa me mandou e-mail. Ela disse que queria que eu a salvasse — respondi. Deliberadamente deixei de mencionar que Ryuen também me contatou. Por que eu estava aqui? Porque Ryuen, achando-se o caçador, havia tola e fatalmente me convidado para o campo de caça, tornando-se presa em vez de predador.
— Oh?
— É obviamente uma mentira — disse Ibuki. — Você veio aqui por ordem de outra pessoa, Ayanokoji.
— O que há de errado, Ibuki? — perguntou Ryuen. — Parece que você quer acreditar que Ayanokoji não é X.
— Não se trata do que eu quero acreditar. Estou dizendo a você: ele não pode ser. Ele é… Esse cara é absurdamente bondoso. É mole. Além disso, provavelmente ele nem sabe sobre Karuizawa, sobre X, e sobre tudo mais — não acha?
— Bondoso? O que te faz dizer isso? — perguntou Ryuen.
— Quando estávamos na ilha, escondi a roupa íntima da Karuizawa na bolsa de um garoto para sabotar a Classe D. Todo mundo imediatamente desconfiou de mim, já que sou da Classe C — exceto Ayanokoji. Ele até me disse diretamente que não achava que eu tivesse feito isso.
— Isso te deixou feliz?
— Pare de brincar. Claro que não me deixou feliz; eu realmente era culpada pelo crime. Apenas me mostrou que ele é um aluno incompetente que não sabe como duvidar de alguém claramente suspeito.
Em outras palavras, ela não conseguia imaginar que alguém assim fosse capaz de manipular a Classe D das sombras.
— Você acredita nisso, Ryuen-san? Que Ayanokoji é o X? — perguntou Ishizaki.
— Eu tenho observado o Ayanokoji desde o começo. Ele vive grudado na Suzune, que também tem uma reputação de ser excepcional.
— Mas isso é tão óbvio… não seria exageradamente evidente para alguém que quer esconder sua identidade?
— Certamente. Eu entendo o que você quer dizer, Ishizaki. Por isso reduzi minha lista de suspeitos com muito cuidado. Depois que soube do incidente com Manabe e suas amigas, alguns candidatos voltaram a chamar minha atenção. Quando considerei a velocidade e o modo como o caso de bullying contra a Karuizawa foi resolvido, concluí que só podia ser o Ayanokoji ou o Hirata.
— Para de se achar. Você nem mirou no Ayanokoji ou no Hirata até muito tempo depois daquilo, não foi? — retrucou Ibuki.
Bem, era uma situação estranha. Eu havia admitido ser o X, mas a Classe C estava dividida entre acreditar ou não.
— Justamente por ser o mais suspeito que agi daquela forma. Ou talvez porque eu não tinha outro método além de usar a Horikita — respondi.
— Mas—!
Decidi jogar uma frase vaga, mas útil, para provocar.
— Eu sou a pessoa que vocês estavam procurando.
— Hah! Isso não soa suspeito? — acrescentou Ibuki. — O X realmente diria isso tão direto?
Era uma reação compreensível. Fazia sentido que duvidassem de mim, já que eu vinha escondendo minha identidade até agora.
— Também acho isso estranho. Ele pode ter sido instruído a aparecer e se declarar o mestre por trás de tudo como parte de algum truque — disse Ishizaki.
— Você disse que tinha previsto que o X não apareceria, certo? — continuou Ibuki, apoiando Ishizaki e tentando sacudir a confiança que Ryuen mostrara momentos antes.
— Sim, eu disse — respondeu Ryuen. — E isso aqui parece um péssimo movimento da sua parte, Ayanokoji. Sua melhor opção teria sido abandonar Karuizawa Kei, não entrar numa armadilha óbvia. Eu até entendo por que Ibuki e Ishizaki não acreditam em você. Se você é mesmo o X, diga-me como pretende sair desse dilema.
— Estou em um dilema? — perguntei.
Ryuen e seus capangas ficaram claramente irritados com minha pergunta.
— Eu só vim porque a Karuizawa pediu ajuda. Se querem prova de que sou o X, basta esperar o próximo exame e ver o que faço — completei.
— Isso não é verdade. Nós já sabemos sua identidade. Também sabemos o segredo da Karuizawa. Coisas horríveis vão acontecer amanhã se você sair daqui sem fazer o que mandamos — afirmou Ryuen.
— Coisas horríveis?
— Chega. Pare de se fazer de idiota e me mostre o que vai fazer.
— O que eu vou fazer? Não há nada que eu possa fazer.
— Aposto que o Sudou e os outros estão esperando ali perto — disse Ishizaki, olhando para a porta entreaberta.
— Não — disse Ryuen, seco.
— Sério? — balbuciou Ishizaki.
— Se os colegas dela descobrissem o passado miserável da Karuizawa, a vida social dela acabaria sem que eu precisasse dizer uma única palavra. Tente usar o cérebro.
— E-Eu entendi.
— Mesmo assim, tenho que dizer… você realmente se acha importante, vindo aqui e ainda fingindo ser inocente.
— Chega, Ryuen. Não tem como o X simplesmente aparecer aqui sozinho — disse Ibuki.
— Bem, isso é um problema. Ibuki e Ishizaki parecem não acreditar que você é o X — disse Ryuen, dando de ombros com um ar cansado enquanto os observava.
Ele se virou para mim, sorrindo amplamente.
— Você diz que não pode fazer nada, Ayanokoji? Mas eu preciso confirmar a verdade. Para isso, acho que deveria deixar esses dois entenderem tudo. Tudo bem para você?
— Já admiti. Mas se ainda não acreditam, então deixe-me explicar, Ibuki — respondi, olhando diretamente para quem mais insistia em duvidar. — O exame da ilha. Você recebeu instruções para tirar fotos do cartão de líder da nossa classe, mas sua câmera digital acabou danificada de alguma forma. Estou errado?
— C-Como você sabe disso?!
— Fui eu. Usei água para causar um curto-circuito na câmera sem deixar danos visíveis. Quando encontrei você na floresta, Ibuki, seus dedos estavam cobertos de terra. Havia sinais de que você tinha cavado algo ali. Quando voltei ao local mais tarde naquela noite, encontrei um transceptor sem fio. Para se comunicar com o Ryuen, certo?
Mesmo dentro da Classe C, poucos sabiam da existência daquela câmera digital. E só eu, Yamauchi e Airi vimos as mãos sujas de terra da Ibuki. Ou seja, isso era prova definitiva.
— Agora você tem que admitir, Ibuki — disse Ryuen. — Ayanokoji é o X.
— E-Espera aí. Sim, ele pode ser bem esperto, mas isso não basta para dizer com certeza que ele é o X, certo?
— Sério, existe algum motivo para continuar debatendo isso? — disse Ryuen, ainda mais exasperado.
— Não faz sentido! Se Ayanokoji é mesmo o X, o mestre por trás de tudo, por que ele apareceria aqui?! Ele arruinou todos os seus planos até agora, não arruinou?!
— Ele provavelmente tem algum truque na manga. Um milagre além da nossa imaginação. Se não tiver… então ele é um idiota.
— Truque? — repeti. — Não existe truque que eu possa fazer numa situação como esta. Vocês já sabem o grande segredo da Karuizawa. Eu entendo perfeitamente o que aconteceria se eu fosse imprudente. Você tomou todas as precauções para me encurralar. Certo?
— Exatamente. Então, o que vai fazer sobre isso? Posso revelar sua identidade quando quiser. E ainda tenho a ameaça de expor o passado da Karuizawa contra você. Você está impotente.
— De fato. Também não posso simplesmente relatar para a escola o que você acabou de fazer com a Karuizawa — respondi.
Casos de violência entre estudantes durante exames resultavam em expulsão, mas o mesmo não valia necessariamente para conflitos fora desses períodos. Mesmo que eu conseguisse apresentar provas, era improvável que eu pudesse causar algum dano real ao Ryuen ou à Classe C.
— E se você tentar contar à escola o que fizemos aqui em cima, vamos deixar a Karuizawa totalmente desamparada em retaliação — disse Ryuen.
Então era isso: se eu tentasse qualquer coisa, os dois lados queimariam juntos — e a Classe D provavelmente cairia ainda mais fundo. Ryuen havia mudado de usar o passado da Karuizawa para atacá‑la, para usá‑lo como defesa contra mim.
— De qualquer jeito que você veja, eu venço — declarou ele.
— Certo. Bem, está satisfeito? Se estiver, vou levar a Karuizawa de volta comigo — respondi.
— Ora, não seja tão anticlimático. Você veio até aqui. Podemos muito bem aproveitar o momento.
Ryuen agarrou o braço da Karuizawa e a puxou para cima.
— Agh! — ela arfou.
— Você não revelaria sua identidade sem um motivo. O que está planejando? — Ryuen estendeu a mão para mim, como se me desafiasse.
— Desculpe, Ryuen. Não posso corresponder às suas expectativas.
— Hã?
— Eu estava apenas dançando na palma da sua mão. Só isso.
Ninguém ali poderia imaginar que X diria algo assim. Eles esperavam ou um homem cruel que abandonaria Karuizawa para proteger sua identidade, ou um aluno brilhante que apareceria para salvá‑la enquanto ainda permanecia escondido.
Pela primeira vez desde que cheguei ao terraço, o sorriso de Ryuen começou a desaparecer.
— Todo esse tempo alimentando o mistério sobre o tal "X", e ele não passa de conversa fiada. Que decepção. Talvez aquela coisa da câmera digital tenha sido só sorte — disse Ibuki.
Mesmo sendo aliada, Ibuki sempre desconfiara de Ryuen; por isso ousava questioná‑lo abertamente. Vendo a oportunidade, fiz meu movimento.
— Eu posso ter me revelado, mas isso não significa que estou em apuros. Apenas Horikita e Karuizawa, na Classe D, sabem quem eu sou. Então, se essa informação chegar a outras classes, vou saber que alguém aqui vazou — declarei.
— E daí? — exigiu Ibuki.
— Se espalharem qualquer coisa sobre minhas ações, vou relatar tudo que aconteceu aqui para a escola — respondi.
— Nós acabamos de estabelecer que te encurralamos porque você não pode fazer isso.
— Posso, sim. Só preciso sacrificar a Karuizawa.
— Hã?
— Desde o início, vocês presumiram que eu a abandonaria. Mas quando apareci aqui, começaram a falar como se achassem que eu não faria isso. Estou errado? — perguntei.
— Espera aí, isso não faz sentido — disse Ryuen. — Você poderia ter continuado escondido se tivesse sacrificado ela logo de cara. Você veio aqui justamente porque não podia sacrificá‑la. Não tente me enganar.
— Tudo bem. Se eles já sabem sobre você, Kiyotaka, podem ir em frente e contar a quem quiserem sobre meu passado — disse Karuizawa, olhando para mim enquanto se levantava devagar do chão.
Mantive meus olhos fixos em Ryuen.
— Você ouviu. Acredite no que quiser, mas se espalhar meu segredo para outras classes, será guerra — finalizei.
— Hm… — murmurou Ishizaki. — Bem, agora sabemos quem é o X. Talvez isso seja suficiente?
— Concordo. O Ayanokoji pode muito bem sacrificá‑la — disse Ibuki. Claramente, nenhum dos dois queria continuar com aquilo. Haviam desentocado X, e estavam satisfeitos com isso.
— Heh, heh, heh! — Ryuen levou a mão à cabeça e riu. — É isso mesmo. Se qualquer um dos lados abrir a boca, será guerra total.
Ambas as classes sairiam feridas nesse conflito, fossem feridas profundas ou superficiais. Além disso, não havia garantia de que Karuizawa seria arruinada. A imagem de uma garota que enfrenta o bullying de cabeça erguida era poderosa.
Se Ryuen declarasse que aquilo era o fim, tudo se encerraria. Mas ele jamais escolheria essa opção.
— Cara, que anticlimático. Você não só entregou sua identidade tão fácil, como ainda deixou a decisão nas minhas mãos, seu inimigo! Mesmo assim, não tenho dúvidas de que Ayanokoji é X — o cara que tem me divertido até agora. E eu estaria desperdiçando tudo se não o fizesse me divertir até o fim. Não é, Ishizaki?
— S‑Sim.
— Viu? Tudo é um jogo para mim. Não só chegar à Classe A, mas esmagar a Ichinose; esmagar a Suzune; esmagar as Classes D e B; e, por fim, esmagar a Sakayanagi, que deixei guardada como o prato principal… Tudo isso é só meu jeito de espantar o tédio.
Ainda rindo, Ryuen agarrou o cabelo da Karuizawa. O rosto dela se contorceu de dor, mas não havia medo em seus olhos.
— Heh. Há pouco você estava afogada em desespero, mas agora seus olhos mostram fé absoluta no Ayanokoji. Aposto que até revelaria seu passado sozinha se isso o protegesse, não é? Relaxa. Seu papel aqui acabou — disse Ryuen.
Parecendo perder o interesse por ela, soltou seu cabelo e a empurrou de lado.
— Você realmente me divertiu, Ayanokoji. Pode ser só mais um defeito da Classe D, mas desvendou meus planos várias vezes. E além disso… você pensa como eu. Como eu poderia não querer te arrancar das sombras? Eu não pensei no que faria depois. Achei que decidiria isso quando te encontrasse. — Seu tom ficou quase agradável. — Agora eu decidi.
— O que você pretende fazer? — perguntou Ibuki.
— Por que está tão irritada, Ibuki? — retrucou Ryuen.
Ibuki se colocou ao lado dele, fitando‑o diretamente nos olhos, sem qualquer traço de medo.
— O que você está prestes a fazer coloca a Classe C em risco — disse ela.
— Heh. Você, a eterna loba solitária que nunca se importou em cooperar com a classe, falando em risco para a Classe C? Não me faça rir — zombou Ryuen.
— Eu cooperava porque achava que você agia pelo bem da classe. Mas isso já é demais. Ayanokoji claramente não tem nada preparado. — A voz de Ibuki parecia despejar meses de frustração acumulada. — Não vou fazer parte do que você está prestes a fazer.
— Você acha que sabe o que eu vou fazer? — perguntou Ryuen.
— Sim, porque venho te observando desde abril. Você vai machucá‑lo, não vai?
Assim que Ibuki disse isso, o corpo de Ishizaki ficou rígido.
— Ishizaki. Komiya. Kondou. Até o Albert. Você espancou todos eles até que estivessem prontos para te obedecer sempre — continuou Ibuki.
— A violência demonstra melhor do que qualquer coisa a diferença de poder entre nós.
— Essa diferença já não está clara o bastante?
— O Ayanokoji tem sido uma pedra no nosso sapato. Precisamos retribuir — disse Ryuen.
— Estou dizendo, esse tipo de pensamento vai colocar nossa classe em perigo! — gritou Ibuki.
BANG! Ryuen a atingiu no rosto, e ela imediatamente ficou em silêncio.
— Enquanto eu me divertir, não me importa — disse ele. — Violência é fácil de entender.
Como ele acabara de demonstrar. Então, essa era a resposta dele, hein? Suponho que o desfecho fosse inevitável depois que passamos do ponto em que ainda poderíamos nos iludir.
— Ouçam, o que importa agora é o que cada lado fará com a informação que obteve. Ayanokoji quer encerrar as coisas aqui sem que ninguém descubra o que aconteceu, incluindo sua identidade e o passado da Karuizawa. Também é verdade que chantageamos a Karuizawa e despejamos água gelada sobre ela. Se isso vazar, seremos punidos. Em resumo, enquanto ambos os lados mantiverem em segredo o que aconteceu aqui, ninguém precisa saber.
Uma conclusão lógica, considerando tudo que aconteceu até agora.
— Não importa o que aconteça, ambos os lados não têm escolha a não ser ranger os dentes e aceitar — continuei.
E ainda assim, nem todos na Classe C pensavam assim.
— Acho que entendo por que você revelou sua identidade tão tarde no jogo — disse Ryuen. — Para que não possamos levar essa briga para outro lugar. Fecha a porta, Albert.
Albert fechou a porta que levava da escada até o terraço.
— Mas, no fim das contas, ainda foi uma jogada ruim — continuou Ryuen. — Você pode ter pensado que essa luta terminaria aqui, mas não vou deixar as coisas assim.
Todos presentes sentiram na pele o que estava prestes a acontecer. Ryuen não mudaria seus métodos.
— Minha rota de fuga se foi, hein? Bem, acho que você conseguiu o que queria — falei.
— Primeiro, vou apagar esse olhar calmo do seu rosto e substituí‑lo por medo. Você está me subestimando, não é? Acha que eu não vou fazer isso.
— Você vai realmente recorrer à violência?
— Guerra não é só batalha de intelecto, sabe? Você pode vencer tanto assassinando o líder de um exército quanto superando seu estrategista. Violência é a força mais poderosa do mundo. Não importa o quão esperto você seja — a violência vai te colocar na linha.
Mesmo agora, com a confusão prestes a explodir, olhei rapidamente para Ryuen, Ibuki, Ishizaki e depois Albert.
— Vou gravar na minha mente a imagem do seu corpo desajeitado e espancado. E então, a partir do próximo semestre, darei um jeito na Ichinose — disse Ryuen.
— A violência é uma ferramenta poderosa. Não posso contestar isso. Contudo, você precisa ser mais forte que seu oponente para que funcione a seu favor. Entendeu? — perguntei.
— Hã?
— Vocês quatro não serão suficientes para me deter.
— O quê…? — Ibuki ergueu uma sobrancelha incrédula.
— Heh, heh, heh.Hahahahaha! — Ryuen se segurava de tanto rir. — Oh? Acho que o Ayanokoji está dizendo que não vai se submeter à violência de gente como nós. Então me mostre do que é capaz. Ishizaki.
— T‑Tem certeza? — Ishizaki hesitou. Seria uma coisa se seu oponente fosse alguém como Sudou, conhecido por se envolver em brigas, mas eu era um aluno comum. Sua resistência era compreensível.
— Não se segure. Acabe com ele.
— Mas—
— Se dermos uma surra completa no Ayanokoji, não haverá mais nada com que se preocupar.
— Espera! — gritou Karuizawa enquanto Ishizaki se aproximava de mim. — Por que estão fazendo algo tão estúpido?! Não vão ganhar nada espancando o Kiyotaka!
— Ei, ei. Fique fora disso, Karuizawa. Você cumpriu seu papel aqui. Graças ao sacrifício do Ayanokoji, seu segredo está seguro. Mostre um pouco de gratidão.
Ryuen agarrou o cabelo de Karuizawa novamente.
— Guh!
Ele a empurrou.
— Fique fora disso.
Mesmo assim, Karuizawa mostrou os dentes para Ryuen por minha causa. Levantou-se e tentou pular em cima dele.
— Não se preocupe, Karuizawa — disse, parando-a no meio do movimento.
— M‑Mas—
— Não há nada com que se preocupar.
— É isso mesmo. Quem deveria se preocupar é você — disse Ishizaki, avançando. — Eu não sou um cara mau, Ayanokoji. Só estou seguindo as ordens do Ryuen-san.
— Não me importa — respondi.
Tudo estava indo conforme o planejado. Ishizaki desferiu um soco em minha direção — não, era mais como um tapa que se dá em uma criança travessa. Um movimento lento e monótono que até um aluno do ensino fundamental poderia ter evitado. Seu punho direito veio em um arco amplo, e eu o peguei com minha mão.
— Hã…?
— Se vai fazer isso, é melhor levar a sério — avisei.
Ele não pareceu entender a dica, mesmo eu tendo bloqueado completamente seu golpe, talvez porque fosse tão preguiçoso de início. Então, apertei seu punho. Com minha mão direita ainda segurando a dele, apliquei mais e mais pressão.
— Hã? Ah…ugh…hã?! — O rosto de Ishizaki ficou tenso, e seus joelhos tremeram.
— Qual é o problema, Ishizaki? — perguntou Ibuki, percebendo que algo estava errado.
— Ah…ngh…ah! P‑Pare…! — Ishizaki cedeu nos joelhos e caiu. Incapaz de suportar, agarrou meu braço e tentou se soltar, mas foi inútil.
Albert foi o primeiro a compreender a situação. Ele não esperou a ordem de Ryuen e desferiu um golpe com seu braço grosso, do tamanho de um poste elétrico. Atacou do meu lado esquerdo, mesmo eu estando livre nesse lado, provavelmente prevendo que eu adotaria uma postura defensiva depois que Ishizaki se soltasse. Ele se enganou. Eu poderia ter desviado do ataque, mas, em vez disso, firmei-me e peguei o soco de Albert com a mão esquerda, preparado para sofrer algum dano.
BANG! Um choque quase elétrico percorreu meu cotovelo até o ombro.
— Exatamente como eu pensava. Isso dói — murmurei.
Era difícil ler a expressão de Albert por trás dos óculos escuros, mas ele provavelmente estava começando a entender.
— Não pode ser… Vocês não estão brincando, estão? Albert? Ishizaki? — perguntou Ibuki, incrédula.
Talvez ela não conseguisse perceber que Albert realmente havia desferido um golpe com toda sua força, ou que Ishizaki estava sentindo dor. Ou talvez simplesmente não quisesse acreditar no que via. Soltei Ishizaki, que se agachou segurando o braço.
— Faça isso, Albert — ordenou Ryuen.
Albert avançou contra mim, seus punhos poderosos balançando. Eu o deixei acertar o primeiro golpe de propósito, mas não poderia aguentar muitos outros daquela intensidade, então desviei por baixo do seu golpe e parti para um ataque frontal, acertando-o no estômago. Não me contive; não seria prudente subestimar um oponente cujas habilidades ainda eram, em grande parte, desconhecidas para mim.
Pela leve mudança na expressão inalterada de Albert e pela força com que seu corpo sentiu meu punho, julguei que havia causado pouco dano. Ele claramente treinou bem o corpo — mas ainda possuía todas as fraquezas de um corpo humano. Isso significava apenas que eu precisaria me esforçar um pouco mais para derrotá-lo. O corpo humano tinha inúmeros pontos vulneráveis — o plexo solar, por exemplo, era uma região que não se podia fortalecer com treino. No máximo, podia-se acostumar com a dor para suportá-la melhor.
Ele deve ter percebido que eu miraria seu plexo solar no próximo golpe, pois torceu o corpo para escapar. No entanto, eu estava fingindo, antecipando exatamente isso, e rapidamente ataquei sua garganta com a palma da mão, como se fosse uma lâmina.
— Ghh! — Albert engasgou, sentindo dor.
— Ayanokoji! — gritou Ishizaki, avançando contra mim.
— Se vai vir, não grite — disse, exasperado.
Ao menos ele me poupou algum trabalho. Chutei o joelho esquerdo de Ishizaki, derrubando-o no chão. Ele era tão previsível. Albert também havia caído de joelhos, então girei e desferi um chute no rosto dele, usando o impulso para acertar Ishizaki na mandíbula na volta. Ele desabou, e tudo ficou em silêncio no terraço.
Ryuen, Ibuki e Karuizawa encaravam, gravando aquela cena inacreditável em suas mentes.
— Bem, acho que subestimamos ele. Agiu com tanta confiança porque estava seguro de suas habilidades, hein? Não esperava por isso — disse Ryuen.
— E-Então, você está dizendo que o Ayanokoji virou o jogo contra vocês? — gaguejou Ibuki.
— Sério, Ibuki? — perguntei.
— Hã?
— Ryuen sempre foi do tipo que recorre à violência. Você acha que eu permitiria voluntariamente que ele arquitetasse uma situação em que pudesse causar estragos sem sofrer consequências?
— Hm? — Ibuki inclinou a cabeça, confusa.
Ryuen também parecia ter dúvidas.
— Espera um minuto, Ayanokoji. Agora nem eu estou entendendo. Eu organizei essa reunião.
— Ainda não percebeu, não é? — suspirei profundamente. — Nosso confronto aqui foi planejado há muito tempo. Eu sabia que, diante de um impasse, Ryuen Kakeru recorreria à violência para resolver as coisas.
Ryuen pensava que tudo o que havia acontecido até agora fora por causa dele. Ele não poderia estar mais enganado.
— Se eu nunca tivesse pretendido revelar minha identidade, não teria usado a Manabe durante o festival esportivo. Eu sabia que você a identificaria como a culpada óbvia ao ouvir aquela gravação. Foi isso que te trouxe aqui, certo? Eu antecipei que você os questionaria e descobriria que eu estava chantageando-os pelo bullying à Karuizawa — expliquei.
Ryuen não podia negar uma única coisa que eu havia dito, naturalmente.
— Você estava convencido de que havia um vínculo entre Karuizawa e eu. Teve Ishizaki, Komiya e os outros vigiando os alunos da Classe D, e agiu abertamente contra Koenji você mesmo, achando que isso pressionaria X. Imagino que tenha se divertido de verdade, mas, na verdade, me deu tempo para pensar.
— Heh. Agora você está dizendo umas coisas interessantes. Então, você fez parecer que eu tinha você na palma da minha mão?
— Para ser mais preciso, era você quem estava dançando na minha — respondi.
— Permita-me pedir desculpas, Ayanokoji. Você é realmente esperto. A vantagem que eu achava ter se foi, e agora estou em apuros. O que faremos, Ibuki? — Ryuen sorriu, satisfeito.
— Sério, qual é o problema de vocês dois?! — Ibuki resmungou, furiosa.
Algo pareceu se romper dentro dela, liberando toda a frustração. Ela desferiu um chute contra mim, aparentemente sem se importar que eu pudesse ver sua roupa íntima. Bem, provavelmente era mais do que isso: ela nem havia pensado nisso em sua fúria. Dei um passo para trás e desviei calmamente do chute.
Era como se um interruptor tivesse sido acionado dentro dela. Ibuki avançou alguns passos, diminuindo a distância entre nós, e chutou novamente, deixando-me pouco espaço para esquivar. Ela era boa. Mesmo que Horikita estivesse em plena forma durante a luta na ilha, Ibuki teria vencido.
E ainda assim, eu desviei de todos os chutes dela. Ibuki parou de atacar e estalou a língua, aparentemente frustrada.
— Sério, o que você…?
— Você realmente não sabe? — respondi.
— Você me deixa realmente irritada. Não sei por quê, mas você me deixa furiosa!
Ela saltou em minha direção mais uma vez. Desta vez, em vez de desviar, fechei a distância imediatamente.
…?!
Não era aversão brincar com Ibuki, mas também não queria prolongar isso mais. Agarrei-a pelo pescoço e a derrubei no chão, sem chance de esquiva ou defesa. Seus olhos se arregalaram, e ela parou completamente de se mover. Bater a cabeça teria sido ainda mais eficaz, mas essa não era uma luta até a morte.
— Violência não é uma ferramenta que apenas você e seus capangas possuem — eu disse a Ryuen.
Ibuki, Ishizaki e Albert — todos os homens de confiança de Ryuen — estavam caídos no chão. Karuizawa não conseguia emitir uma palavra.
— Estou impressionado que ainda mantenha a calma depois de ver isso — acrescentei.
— Você não é apenas esperto, mas também capaz de recorrer à violência quando necessário. Eu te subestimei — disse Ryuen, aplaudindo com genuíno respeito enquanto se aproximava. — Sabe o que eu gostaria de dizer agora, Ayanokoji?
— Não.
Ele soava calmo, como se não percebesse a gravidade da situação. Provavelmente não era blefe. Era uma característica de Ryuen; algo no qual ele se destacava. Era isso que o permitia se mover com tanta confiança por tanto tempo.
— Força física sozinha não determina vitória ou derrota. Você precisa ser forte por dentro também! — disse Ryuen.
Ele ajustou sua postura para ficar mais próximo do chão e então lançou o punho esquerdo na minha direção, mirando não no meu rosto, mas no meu abdômen. Saltei para trás para desviar, e ele veio logo atrás, avançando com o braço direito.
— Desculpa, mas não vou deixar você me acertar — avisei.
Desviei dele mais uma vez e agarrei seu cabelo com a mão esquerda. Ele reagiu no mesmo instante, afastando meu braço. No momento em que sua atenção se fixou nesse movimento — dei um forte chute em seu flanco.
— Gah! — Ryuen imediatamente abriu distância para evitar meus ataques seguintes.
— Nada mal, Ryuen.
Ele superava Ishizaki em força geral, de longe. Eu estava sinceramente impressionado. Tinha levado um golpe sério, mas não demonstrava estar prestes a cair. Ainda assim, eu não conseguia imaginá‑lo como um igual a Albert.
— Isso é tão divertido! — Ryuen riu ainda mais alto. — Virar o jogo depois de ser arrastado ao fundo do poço! Isso não é o suficiente pra mim. Eu quero mais, Ayanokoji.
Ele avançou outra vez, sem segurar nada. Seus movimentos não eram os de um artista marcial treinado, mas claramente os de alguém autodidata, moldado por inúmeras brigas de rua. Eu não poderia desviar de todos os seus ataques para sempre.
— Por que você não mostra suas habilidades de luta mais vezes? — exigiu Ryuen.
— Tenho meus motivos.
— É mesmo? Depois que eu te derrotar, que tal me contar?
— Você acha que vai ganhar?
— Você acha que não pode perder?
— Não consigo imaginar isso, desculpa.
— Claro, você pode até vencer agora. Mas e amanhã? E depois?
— Então você está dizendo que, se continuarmos repetindo isso, você vencerá eventualmente? — perguntei.
— E quando você estiver mijando? Ou cagando? Eu vou atrás de você quando menos esperar — disse Ryuen.
— Não tem medo de perder?
— Eu não sinto medo. Nunca senti medo na vida.
— Nenhum medo, hein? — Aquilo era interessante. Provavelmente era dali que vinha sua confiança.
— Você vai entender quando conhecer a dor — disse Ryuen. — Para pessoas comuns, a dor vira medo.
— Então me ensine sobre a dor.
— Com prazer! — Ryuen segurou meus ombros e me acertou uma joelhada no estômago.
— Kiyotaka! — Karuizawa gritou. Mas eu tinha recebido o ataque de propósito. Nada com que se preocupar.
— Só mais uns golpes e você vai entender!
Ryuen avançou para me dar um chute, mirando o mesmo ponto de antes. Ele encurtou a distância e eu protegi meu rosto com a mão esquerda. Ele golpeou com o braço direito e, ao puxá‑lo de volta, me atingiu novamente com o joelho. Foi seu golpe mais forte até então. Cambaleei, sentindo a dor se espalhar pelo corpo.
— E então? Entendeu agora?
— Infelizmente, não entendo nada — respondi. — Isso é só dor.
— Está querendo dizer que é igual a mim? Que não sente medo?
— Não é isso, Ryuen. Não é o que estou dizendo.
Eu conhecia muito bem o medo nascido da dor. Conhecia o terror e a miséria de ser derrotado. Já tinha visto pessoas destruídas por isso, repetidas vezes, diante dos meus olhos. Mas, eventualmente, deixei de sentir medo. Restou apenas o frio — porque percebi que, não importava quanto sofrimento ou desespero os outros enfrentassem, aquilo nunca aconteceria comigo.
Se você tem meios de se proteger, isso é tudo o que precisa. Se consegue se manter a salvo de qualquer dano, você vence.
— Então vamos brincar mais um pouco! — Ryuen me bombardeou com golpes, concentrando os ataques no abdômen. Baixei meu centro de gravidade, interceptando seu chute. — Tsc! Percebeu, hein?
Eu lidaria com aquilo desviando e mantendo a calma. De modo algum permitiria ferimentos críticos.
— O que foi? Não vai brincar, Ayanokoji? Por que não desviou daqueles golpes fáceis no começo, hein?
— Eu estava testando uma hipótese. Queria ver se conseguia sentir aquele medo de que você falou — respondi.
— Você tem coragem de falar comigo com essa arrogância, sua aberração!
Ele percebeu o abismo de força entre nós, mas não se abalou. Normalmente, quanto mais confiança um lutador tinha em suas próprias habilidades, maior era o desespero quando descobria que estava em desvantagem. Mas não senti isso em Ryuen. Ele também não estava tomado por uma fúria cega que o impedisse de enxergar a realidade.
Eu o deixara acreditar que tinha controle da situação para então virar a mesa e quebrar seu espírito — mas subestimei sua resiliência. Um erro de cálculo da minha parte. Claro, avaliar mal seus limites superiores era algo trivial. Significava apenas que tudo isso levaria mais tempo. Ryuen teria de suportar ainda mais dor.
— De onde você tirou essa força? Isso não é normal, Ayanokoji.
Era verdade. Não se obtinham habilidades como as minhas apenas em brigas de rua. Permaneci calado e reduzi a distância entre nós. Ryuen estava claramente esperando para revidar, seus olhos afiados fixos em mim.
— Você tem todo esse poder, mas esconde? — perguntou. — Você sente prazer em olhar de cima para os meros mortais? Isso te excita? Te faz sentir bem?
— Nunca olhei ninguém de cima. Se outras pessoas têm sucesso ou fracassam, isso não tem nada a ver comigo.
Ryuen pareceu não gostar dessa resposta. Passou a mão pelo cabelo e riu, como se rejeitasse completamente a ideia de que uma pessoa pudesse ser tão apática.
— Impossível. Humanos são feitos de ganância.
Claro que eu experimentava ganância, entre muitas outras coisas. Mas isso era irrelevante. Indulgi-lo não mudaria nada. Assumi minha postura mais uma vez, preparando‑me.
— Muito bem, então. Vou te bater até você sentir medo! — ele rosnou.
Já chega, Ryuen.
Quando ele se moveu, preparando-se para acertar meu rosto com o joelho, agarrei seu braço esquerdo e puxei-o com força para perto. Em seguida, desfiri um violento gancho de direita diretamente em seu rosto.
— Gah! — gritou.
Aquele golpe teria deixado outra pessoa inconsciente, mas Ryuen apenas foi arremessado para trás. Eu não pretendia derrubá‑lo com um único soco, de qualquer forma. Ele atingiu o chão de concreto, e em um instante eu já estava sobre ele, desferindo socos em seu torso desprotegido.
— Você disse que nunca sentiu medo, não foi, Ryuen?
— Ah… ah… heh, é isso mesmo. Eu não conheço o medo. Nunca conheci.
O rosto já machucado, os olhos quase inchados a ponto de se fecharem, Ryuen ainda lutava. Mas sua força praticamente havia acabado — tudo o que ele conseguia fazer era balançar o braço no ar, fraco. Respondi com um golpe forte e preciso em seu plexo solar, e sua expressão ficou rígida.
— Ugh… ugh! Eu sou um lutador confiante, mas não é como se eu nunca tivesse perdido antes. Não, é justamente porque eu apanhei mais vezes do que a maioria das pessoas que— gah!
Acertei-o de novo e de novo, alternando socos de esquerda e direita em rápida sucessão. Sangue escorria da boca de Ryuen.
— Gah! …Ah, droga, tá ficando difícil falar de novo.
E ainda assim, ele não demonstrava sinais de medo.
— A violência mostra quem as pessoas realmente são. Os que batem… e os que apanham. — Ele fechou os olhos e riu fracamente. Era como se estivesse me provocando, me desafiando a bater nele o quanto quisesse. — Ah… ahh… heh. Ha… isso deve ser divertido pra você, né, Ayanokoji? Com uma força dessas, dá pra ser arrogante. Você é livre. Pode fazer o que quiser. Mostra pra mim, Ayanokoji…
Ele abriu os olhos. Acertei-o novamente, mirando seu rosto já inchado. Agora ele sangrava livremente, por dentro e por fora — e, ainda assim, não vi medo algum nele. Um sentimento que deveria ser instintivo simplesmente… não estava lá.
— Isso não é o bastante, Ryuen? — perguntei. Mas é claro que ele não aceitaria isso.
— Heh. Qual o problema, Ayanokoji? Eu ainda não desisti. Vai lá, esmaga a minha garganta.
Ele me provocava. Basicamente oferecendo a própria vida de bandeja. Acertei outro soco, e seu rosto se contorceu de dor por um instante.
— Ow… isso dói. Mas é só isso… apenas dor.
Seus olhos permaneciam iguais. Ele acreditava que poderia perder a batalha, mas vencer a guerra. Não tinha dúvidas.
— Mesmo que você ganhe hoje, eu vou continuar vindo atrás de você, não importa quantas vezes seja preciso — ele provocou. — Não importa onde você esteja na escola, vou encontrar uma brecha e atacar. E, eventualmente, eu vou vencer.
Provavelmente sobrevivera até ali graças a esse tipo de virada. Nenhum oponente, por mais forte que fosse, era invencível. A autoconfiança de Ryuen parecia enraizada em sua capacidade de revidar e encontrar o ponto fraco do adversário. Ele usava a violência para encher o coração das pessoas de medo.
O medo de que, ao torná-lo seu inimigo, você nunca saberia quando ele atacaria de novo — ou o quanto iria te machucar.
— Vá em frente. Aproveite essa alegria temporária. Sua vitória está bem aí na sua frente, Ayanokoji — ele zombou. — Isso é bom, né? É bom enfrentar alguém mais fraco, né? E escondido por baixo desse prazer está… o medo!
Medo? Escondido por baixo?
— Você quer vencer? Quer perder? O que você está sentindo, Ayanokoji?
Quero vencer?
Quero perder?
— Tá rindo de mim agora que tá por cima? Tá com raiva? Animado? Feliz? Talvez frustrado? Me diz!
Eu não fazia ideia do que ele estava falando. Eu não podia ver meu próprio rosto, nem ler minha expressão — mas tinha certeza de uma coisa: algo tão insignificante jamais me abalaria. Eu não sentia emoção alguma. E com certeza não sentia medo.
Atingi o rosto de Ryuen novamente. Já havia perdido a conta de quantas vezes o golpeara, mas continuei, socando repetidamente enquanto seu rosto se contorcia de dor.
É isso, Ryuen. Agora você entende, não é?
Ele tinha de entender, naquele momento, que o sentimento chamado medo certamente existia dentro dele.

Desferi o último golpe — mais forte que todos os anteriores — e Ryuen finalmente perdeu a consciência. Ele queria brincar com minhas emoções. Infelizmente para ele, não havia nada ali. Não havia coração para manipular.
Levantei-me lentamente do corpo inerte dele e fiquei de pé. Não podia deixar Karuizawa no frio por mais tempo.
— Desculpa. Coloquei você numa situação realmente difícil. Você se machucou? — perguntei.
— Eu tô… bem. Só tô com frio. Perdi um pouco da sensibilidade em alguns lugares…
Estendi a mão para Karuizawa, que permanecera ali sentada o tempo todo, observando tudo do início ao fim. Quando ela segurou minha mão, seus dedos estavam gelados como gelo.
— Você tá desiludida comigo agora? — perguntei.
— Claro que tô. Você me traiu desde o começo.
— É… acho que você tem razão. Então por que não me entregou para o Ryuen?
— Pelo meu próprio bem. Só por isso — respondeu, antes de desabar nos meus braços, tremendo. — Eu tava com medo. Com muito medo!
— Não pense mais nisso. O que aconteceu hoje, o que aconteceu até agora… você pode pensar nisso depois. A única coisa certa agora, neste momento, é que a sua maldição foi quebrada. Manabe… não, ninguém mais vai desenterrar seu passado. Quanto ao futuro, você pode continuar vivendo do jeito que sempre viveu — disse a ela.
Karuizawa dependia de mim para manter o corpo ereto; talvez ela simplesmente não tivesse força para se sustentar. Do ponto de vista dela, aqueles tinham sido meses desastrosos. Primeiro, sofrera bullying de Manabe e suas amigas por puro azar; depois, fora alvo de agressões intencionais. Por fim, Ryuen desenterrara as cicatrizes de seu passado, e ela percebera que tudo, de alguma forma, estava ligado a mim.
Seu espírito devia estar despedaçado. Ela devia estar emocionalmente instável, exausta.
— Você conseguiu superar o passado e construir uma identidade como a pessoa que é hoje — falei. — A partir de amanhã, você pode simplesmente retomar de onde parou.
Estamos falando de Karuizawa Kei. Ela conseguiria. Eu tinha certeza disso desde o momento em que a encontrei no terraço.
— Eu te machuquei. Não vou pedir que me perdoe. Mas por favor lembre-se de uma coisa. Se algo parecido com o que aconteceu hoje acontecer de novo, eu vou salvar você.
— Kiyo… taka…
Apesar de tudo que enfrentara, Karuizawa não conseguia parar de se agarrar a mim como uma parasita. Ela chegara a um ponto em que não conseguiria sobreviver nesta escola sem minha presença. Não importava o que acontecesse — enquanto eu estivesse aqui, ela suportaria.
Fiquei imaginando o que teria acontecido se eu tivesse ido salvá-la mais cedo. Tinha quase certeza de que, se tivesse cumprido minha promessa rapidamente, a dependência dela só teria aumentado. Por outro lado, se eu nunca tivesse aparecido e a tivesse deixado enfrentar bullying outra vez, como em seu passado, o desespero dela teria sido muito pior.
Mas, ao atrasar minha chegada e ainda assim aparecer no fim, fortaleci a crença dela de que poderia confiar em mim até o último instante. Ao mesmo tempo, confirmei que ela não me trairia facilmente.
Claro, se ela tivesse dado meu nome ao Ryuen, acabaria se sentindo culpada — algo que eu poderia usar a meu favor. Depois de conseguir uma peça como Karuizawa, deixá-la ir seria desperdício. O quão necessária ela fosse para meus planos era secundário; o importante era garantir que ela continuasse sob meu controle.
— Alguns lances abaixo, o presidente do conselho estudantil — bem, o ex-presidente — e a Chabashira-sensei estão esperando. Eles sabem de parte do que aconteceu, então devem conseguir lidar com tudo, inclusive com seu uniforme encharcado — avisei.
— O-Okay. E você, Kiyotaka?
— Ainda tenho algumas coisas para resolver aqui. Além disso, não queremos ser vistos juntos. É melhor você ir primeiro.
Empurrei-a levemente. Karuizawa deixou o terraço e desceu as escadas, enquanto eu avaliava meu próximo passo.
— Certo então… — murmurei.
Eu não podia simplesmente deixar quatro pessoas inconscientes espalhadas pelo terraço. Ignorando Chabashira-sensei, seria um problema se outro professor as encontrasse assim. Começando por Ishizaki, dei leves tapas em seus rostos para acordá-los, deixando Ryuen por último.
— Tsc…
— Acordado, hein?
— Você acha que… isso acabou, Ayanokoji?
— Acabou — respondi. De qualquer forma que se olhasse, a luta já tinha sido decidida. — Não vai me dizer que ainda quer continuar, vai?
— Eu vou usar qualquer meio… para vencer — disse Ryuen, sentando-se lentamente. — Mesmo que seja… guerra total.
— Vai me denunciar para a escola?
— Heh. Isso seria muito, muito patético… mas é uma opção. E se eu fizer parecer que você armou uma emboscada pra gente?
— Deixe-me te dar um conselho. Eu não recomendo. O ex-presidente do conselho estudantil está esperando na escada agora mesmo. Ele pode não saber todos os detalhes, mas está óbvio que você armou uma cilada, Ryuen… especialmente porque você foi gravado pichando a câmera de vigilância. Eu, por outro lado, estava no Keyaki Mall naquela hora. Posso arrumar quantos álibis forem necessários para provar isso.
Seguro morreu de velho, afinal.
— Então você poderia ter colocado uma testemunha para ver tudo… mas não colocou? — perguntou Ryuen.
— Sim. Eu sabia que você não pararia de me atacar até eu te acertar pelo menos uma vez.
— Você realmente acha que eu vou simplesmente aceitar a derrota?
— Acho, sim. Há um motivo para eu ter te derrotado, Ryuen. Você errou na ordem dos seus alvos. Se tivesse começado enfrentando Ichinose, depois Katsuragi e Sakayanagi, talvez estivesse mais perto do meu nível quando decidisse me desafiar. Mas sua curiosidade falou mais alto. Você exagerou — falei, sem suavizar nada.
Ryuen exibiu um sorriso amargo.
— Você é bem direto, hein.
— Eu gostaria de dizer que ficaria feliz com uma revanche, mas estou encerrando qualquer atenção desnecessária daqui para frente. Mire em outra pessoa.
Eu esperava que ele revidasse, mas Ryuen apenas refletiu silenciosamente.
— Já que você fez questão de manter uma testemunha à distância, isso significa que você quer manter essa carta na manga para usar contra nós no futuro, se for preciso — disse ele. — Mesmo que isso signifique revelar sua identidade… e o passado da Karuizawa.
— Eu gostaria de evitar isso, mas sim.
— E eu não seria o único a cair se isso acontecesse. Ishizaki, Ibuki e Albert iriam junto, não iriam?
Provavelmente. Eu não tinha certeza do que exatamente aconteceria com eles, mas era seguro dizer que envolveria uma punição bem severa.
— A sua confiança excessiva em se apoiar na minha identidade e no passado da Karuizawa foi a sua ruína. Se tivesse sido menos imprudente, teria organizado um ataque em maior escala ou colocado mais vigias — eu disse.
— Em outras palavras, a Classe C está com problemas enquanto eu estiver no comando? — ele perguntou.
— Não necessariamente. Contanto que você não tente mais nos atacar, não vou usar este incidente para me beneficiar.
— Não sou ingênuo o suficiente para acreditar na sua palavra. Se a Classe C te encurralar de novo, você vai relatar o que aconteceu hoje para a escola. Não estou certo?
— Talvez — respondi. De fato, não podia prometer o contrário. Quem sabe se a Classe C seria capaz de funcionar normalmente se fosse forçada a baixar a cabeça? — Mas o que você vai fazer? Não pode desfazer o que aconteceu, Ryuen.
— Cala a boca. Minha luta com você acabou. Minha própria batalha também.
Ryuen olhou para Ibuki e os outros, depois pegou o celular e digitou algo. Em seguida, deslizou o aparelho pelo chão do terraço; o celular parou aos pés de Ibuki.
— O quê? — Ibuki, que havia ouvido nossa conversa em silêncio, lançou um olhar furioso para nós dois.
— Eu assumo a responsabilidade por tudo — disse Ryuen. — Antes disso, estou transferindo todos os meus pontos para você.
— Hã? Ryuen, o que você tá dizendo? Pirou de vez? — gritou Ibuki.
— É-É, Ryuen-san! Não é como se alguém fosse abrir a boca sobre isso — balbuciou Ishizaki. — Você não precisa assumir nada!
Nenhum dos lados podia falar publicamente sobre o que aconteceu hoje, mas a Classe D estava em posição extremamente vantajosa. Ryuen tinha percebido isso. Só havia uma forma de minimizar suas perdas.
— Ayanokoji, eu sou o único responsável por este incidente. Minha expulsão deve ser suficiente, não acha?
— Oh? Isso soa sério. Assumindo responsabilidade e tudo mais.
— Não seja idiota — rosnou Ryuen, enxugando mais sangue da boca. — Um tirano só reina enquanto seu poder tem significado. Se eu perdi depois de chegar tão longe, ninguém mais vai me seguir.
A Classe C havia permitido seus métodos autoritários até agora porque ele trazia resultados. As táticas de Ryuen eram agressivas e pesadas, mas, uma vez derrotado, ele reconhecia que não tinha mais o direito de comandar. Eu precisava reconhecer isso nele.
Parece que tomei a decisão certa ao montar esse palco e deixá-lo agir como bem queria.
— Para de brincar! Por que diabos deixaria seus pontos comigo?! — exigiu Ibuki.
— Porque você me odeia. Divida os pontos restantes com todos. Quando a escola me expulsar, aposto que Katsuragi e Sakayanagi vão anular nosso contrato, mas não há nada que se possa fazer — respondeu Ryuen. E se a pessoa nomeada no contrato abandonasse a escola, era exatamente isso que provavelmente aconteceria.
— Ryuen-san, você tá falando sério?! — exclamou Ishizaki, aflito.
— Cala a boca. Não precisa gritar, eu te ouço muito bem. — Ryuen deu uma risada curta. — Deixo o resto com vocês. Até mais.
Pelo visto, ele já tinha tomado sua decisão. Levantou-se e caminhou em direção às escadas, ignorando as últimas palavras de Ibuki e Ishizaki.
— Tem certeza? Acho que você vai se arrepender disso — eu disse, fazendo-o parar.
— Por que você se importa? — ele retrucou.
— Se você for embora sem saber por que perdeu, não vai crescer.
— Hã?
— Está mesmo satisfeito em não saber por que perdeu para mim?
— Deixa pra lá. Não adianta tentar me salvar. Você não ganha nada me poupando agora que eu sei sobre você e a Karuizawa. Eu poderia expor tudo a qualquer momento.
— Verdade. Mas, se tenho que dar um motivo para te poupar… é conveniente para a Classe D deixar que você esmague Sakayanagi e Ichinose por nós. Além disso, se seu contrato com Katsuragi continuar valendo, a Classe A continuará perdendo pontos. E, mais importante, se você abandonar a escola de repente, Sakayanagi e Ichinose vão presumir que X te derrotou. Isso seria um problema para mim mais tarde — expliquei. — Então confie: isso é do meu interesse. Mesmo que algo do que aconteceu aqui vazasse, eu não sofri ferimentos perceptíveis. Pareceria apenas que vocês brigaram entre si, não?
Ryuen me ignorou.
— Aqui está o que aconteceu — disse ele a Ibuki. — Eu tentei punir vocês quatro pelos seus fracassos, mas vocês revidaram, me espancaram e me obrigaram a recuar. É assim que fica.
— V-Você tá mesmo bem com isso? — ela perguntou.
— Permita-me acrescentar apenas uma coisa — eu disse. — Você pode abandonar a escola por vontade própria, pode duvidar de mim. Mas eu não tenho a menor intenção de contar nada sobre hoje, a menos que você me force. O ex-presidente do conselho estudantil também prometeu guardar segredo. Nada te obriga a desistir — mas se quiser, não vou impedir.
— Então não impeça. Eu não confio em você — disparou Ryuen.
Com essas palavras, ele abriu a porta e desapareceu. Ishizaki e Ibuki, deixados para trás, pareciam completamente contrários ao que ele havia decidido.
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