Ano 1 - Volume 4
Capítulo 3: Dupla Pergunta
— VOCÊ ESTÁ BRINCANDO, NÉ? — A primeira coisa que saiu da boca da Horikita soou extremamente acusatória.
— Infelizmente, é verdade. O Koenji acabou de encerrar o teste para o grupo dele — falei.
— Você é idiota? Por que não o impediu? Não era sua responsabilidade como colega de quarto dele? — ela perguntou.
— Isso é uma tarefa impossível. Além disso, não há nada que eu possa fazer agora. Não adianta chorar pelo leite derramado.
O ato traiçoeiro do Koenji já tinha se espalhado pelo navio, e naturalmente as turmas estavam em alvoroço. Mesmo depois de termos conversado ontem, a Horikita quis se encontrar pessoalmente hoje. Ela parecia não acreditar nas minhas palavras, porque continuava balançando a cabeça.
— Quando eu o vir da próxima vez, vou repreendê-lo pessoalmente. Vou fazê-lo implorar por misericórdia.
— Você sabe que isso é inútil, né? Ele não vai ouvir. Só vai te confundir e desperdiçar seu tempo. Vai ser uma dor de cabeça. Por ora, é melhor nos concentrarmos nos nossos próprios grupos.
Ela continuaria me culpando pelo Koenji porque ele era meu colega de quarto. Decidi mudar de assunto.
— É verdade que meu grupo está cheio de oponentes problemáticos, mas não tenho a menor intenção de ficar para trás — disse Horikita.
Ela certamente tinha uma vontade de ferro. Bem, suponho que terei que deixar a questão nas mãos dela. Eu tinha meus próprios problemas, especialmente com a Ichinose e os outros que a professora Hoshinomiya tinha enviado secretamente para me espionar.
— Eu estava pensando. Você é uma garota, mais ou menos. Queria te perguntar uma coisa — falei.
— Eu realmente não gostei da forma como você disse isso. "Mais ou menos"? Eu sou uma garota.
A Horikita entendeu errado o que eu quis dizer. Parecia irritada e virou o rosto para o lado.
— Ah, não foi isso que eu quis dizer. Só quis dizer que tinha algo a perguntar para você, como garota.
Como ela provavelmente ficaria mais irritada de qualquer jeito, fui direto ao ponto: — Quero informações sobre a Karuizawa.
Eu pretendia entrar em contato com a Karuizawa, mas nunca havia falado com ela antes. Se ela tivesse que ranquear os garotos da classe, eu provavelmente ficaria em último.
— Você quer falar comigo sobre a Karuizawa-san?
— Sim, exatamente — assenti. — Quero saber mais sobre as pessoas do meu grupo, mas não está sendo fácil. Sobre o Professor e o Yukimura, eu consigo descobrir o que preciso, mas quanto à Karuizawa, estou completamente perdido. Depois do teste na ilha, a Karuizawa te convidou para almoçar. Certo?
— Eu recusei, no entanto. Você sabe disso. Não tenho interesse na Karuizawa-san. Se quer informações sobre ela, por que não fala com o Hirata-kun? Se ele te ajudar, será fácil entrar em contato com ela.
Isso era verdade. Infelizmente, antes do teste, eu também tinha recusado a oportunidade de almoçar com a Karuizawa. O Hirata provavelmente lembraria disso, então eu queria evitar perguntar a ele sobre isso.
— Você acha que ela é VIP? É isso que te preocupa? — perguntou Horikita.
— Tem isso, sim. Mas, mais do que isso, eu não entendo o comportamento da Karuizawa. É isso que me deixa preocupado.
— Bem, isso não é problema seu, certo? Além do mais, o comportamento dela não é lógico. Acho que é perda de tempo — rebateu.
— Horikita, não acho que seja bom descartar as pessoas assim.
— Descartar? Do que você está falando?
— Você e a Karuizawa não se dão nada bem porque vocês duas são voluntariosas, então você vê ela só como um incômodo. Mas reconhece que ela pode ter pontos fortes também, certo?
— Pontos fortes? Não consigo imaginar nenhum. Ela não é apenas... defeituosa?
Em termos de cooperação, a Horikita provavelmente estava no mesmo nível — ou até pior — que a Karuizawa.
— Quando você vê alguém pela primeira vez, faz julgamentos baseados na aparência. Pode achar que a pessoa é legal ou fofa, por exemplo. Basicamente, você avalia. Chame isso de primeira impressão. Simples. Depois, você aprende sobre o interior da pessoa conversando e observando suas ações. Dá para ver se é sociável, agressiva, passiva etc.
A Horikita cruzou os braços, como se tudo aquilo fosse óbvio. Esperou eu continuar.
— Mas isso ainda é tão superficial quanto a aparência. Os pensamentos mais íntimos não ficam evidentes de imediato. Por exemplo: a Kushida, a Ibuki, ou até eu. Há diferenças entre o eu interior e o exterior.
— Então a Karuizawa tem algum eu secreto?
— Quase todo mundo tem. Às vezes, a pessoa nem percebe. Você também.
Sempre que ela encontrava o irmão mais velho, mostrava sua fragilidade.
— Ainda não estou totalmente convencida. Mas imagino que você descubra mais se passar tempo com ela.
Claro, falar era fácil.
— Então, quais são os pontos fortes da Karuizawa-san? — perguntou Horikita.
— Ainda não consigo descrever bem, mas diria que ela consegue assumir o controle. Ela toma iniciativa. Na verdade, a posição dela na Classe D é inabalável.
Porém, no grupo Coelho, essa parte dela estava escondida — exatamente por isso eu precisava descobrir sua verdadeira natureza o quanto antes.
— Ok. Digamos, só por hipótese, que você esteja certo e que ela tenha essa habilidade. O que pretende fazer? Vai tentar torná-la sua aliada também? — perguntou Horikita.
— Hm, vou ter que pensar nisso.
Enquanto pensava em como responder, o Ryuen se aproximou.
— Ei, vocês dois. Se divertindo num encontrozinho na sombra? Deixem eu participar.
Ele não estava com a Ibuki, aparentemente. Aproximou-se com um sorriso assustador.
— Parece que você tem tempo de sobra. Não que eu me importe, mas aqui não tem nada pra você — disse Horikita.
— Isso eu que decido. Então, já pensaram em como vão encontrar VIP? — ele perguntou, sentando-se sem pedir permissão.
— Quaisquer que sejam meus planos, não pretendo te contar — disse Horikita.
— Que pena. Eu queria saber sua opinião. Porém, pelo visto, vocês não fizeram nenhum progresso na sua busca.
— Interessante você dizer isso. Está insinuando que sabe quem é o VIP?
Ryuen abriu um leve sorriso para a Horikita, como se esperasse que ela duvidasse.
— Já comecei a descobrir a identidade do VIP. Você acreditaria se eu dissesse isso?
— Não, não acreditaria. Você não tem apoio como a Ichinose-san e o Katsuragi-kun têm. Só tem inimigos. Não consigo imaginar que tenha informações confiáveis — retrucou ela.
— Bom, é verdade que eu não sou um coletor de amigos profissional, mas fazer amigos não tem nada a ver com conseguir informações. — Ele falou como um professor que repreende o aluno por errar a resposta. — Infelizmente para vocês, eu já compreendi os fundamentos deste teste. Dependendo de como as coisas forem, a Classe C vai vencer por muito.
— Não… não pode ser…
Na verdade, o que ele dizia provavelmente era verdade. A escola sempre estruturava os testes com leis ou regras fundamentais no centro. Isso valia para as provas de meio de período, finais e até para o exame na ilha. Ao entender a lógica por trás dessas regras, era possível vencer. Este teste não devia ser diferente. Ele deve ter percebido isso.
— É algo extremamente simples. Tudo o que precisa é descobrir de que classe o VIP vem. Depois, seu próximo passo é analisar o grupo — disse Ryuen.
— Entendo. Qualquer um poderia pensar nisso. Mas você realmente acha que eles vão responder honestamente? Se a escola garante o anonimato, tudo o que precisam fazer é mentir para ganhar quinhentos mil pontos, certo? — rebateu Horikita.
Ryuen continuou calmo diante das dúvidas dela.
— Você só precisa garantir uma situação em que ninguém possa mentir.
— Uma situação em que ninguém possa mentir?
— Eu tomo os celulares de todo mundo. Assim, se alguém mentir para mim, tudo o que tenho que fazer é verificar os e-mails de cada um — disse Ryuen.
— Você está louco? A escola não permite isso. Se descobrirem, você será expulso — disparou Horikita.
— Na verdade, não é problema algum. Aliás, eu estou aqui justamente porque não é um problema. Entendeu?
Era um método brutamonte que só ele poderia executar, porque era um tirano absoluto. Se ele confiscasse à força o celular de outro aluno, deveria ser punido. Mas mesmo se ele acabasse com a Classe C inteira, acreditava que ninguém o denunciaria. E se ninguém reclamasse para a escola, era como se estivessem consentindo.
A calma de Ryuen provava que o que ele dizia era verdade — ele estava operando dentro das regras. Sua estratégia era expor à força todos os segredos da Classe C. De qualquer forma, se o que dizia fosse real, Ryuen já tinha identificado três dos VIPs. Isso era um enorme avanço rumo à conclusão do teste.
Era como um quiz em que você vira a página e a resposta está escrita no verso. Se não virasse a página, ninguém saberia. Mas se virasse só um pouquinho, dava para espiar a resposta. Em outras palavras, Ryuen provavelmente já sabia os VIPs de todas as classes.
— Parece que você finalmente entendeu.
— Sim. Mas você ainda não tem a resposta. Se tivesse, já teria enviado um e-mail para a escola na hora — respondeu Horikita.
— Talvez eu só esteja brincando um pouco?
— Você não sabe quando outra pessoa vai descobrir. Não deveria ficar tão despreocupado — retrucou Horikita.
Ela não tinha provas, mas provavelmente estava certa. Se ele já soubesse a resposta, não havia benefício algum em atrasar a conclusão. Ele deveria ter encerrado o teste.
— Então… suponha que eu esteja prestes a dar xeque-mate? — disse ele.
— Ryuen-kun. Já que está aqui, quero te perguntar algo. O teste do grupo Macaco terminou ontem. O que acha disso? — perguntou Horikita.
— Não acho nada. Não me importo com ralé. Até mais, Suzune.
Ryuen se afastou. Suas últimas palavras me fizeram imaginar se ele pretendia aparecer de novo regularmente. Mostrei o dedo do meio para ele, e a Horikita fez uma careta.
— Não sei até que ponto o que ele disse é verdade — disse ela.
Enquanto ficávamos em silêncio, espiamos debaixo da cadeira onde Ryuen estava sentado. Havia um celular ali, gravando áudio. Um único chat tinha sido enviado para aquele aparelho. Não ouvimos nada porque o celular estava no silencioso. Não consegui ver tudo na tela, por causa do ângulo, mas reconheci imediatamente as palavras: "Desculpa por ontem!"
Talvez houvesse algum drama na classe deles. Não queria provocar problemas olhando mais do que deveria, então voltei à posição normal. Horikita entendeu rápido, pegou seu próprio celular e me mandou uma mensagem curta:
Se aquele celular for dele, é melhor não falarmos nada descuidadamente.
Ela não estava errada, mas quem sabia qual era a resposta certa? O problema era que, se ficássemos totalmente calados, também pareceria suspeito.
— Acha que o que o Ryuen disse é verdade? Sobre descobrir os VIPs de todas as classes — perguntei.
Horikita pareceu perplexa por um instante, mas logo entendeu onde eu queria chegar.
— Fico me perguntando. Não posso dizer que tenho 100% de certeza. Mas… existe a possibilidade. Porém, não acho que este teste consiga continuar muito mais tempo.
— Parece que tá difícil pra você também — falei.
— Tenho muito trabalho pra você. Preciso que descubra o VIP do grupo o mais rápido possível — disse Horikita.
— Fácil falar. Não é como se eu pudesse descobrir assim, do nada.
— Não vou esperar muito de você. Só quero informações sobre o grupo Coelho.
Nossa conversa apenas ressaltou a competência da Horikita e a minha suposta incompetência. Assim, as suspeitas provavelmente se afastariam de mim. De qualquer forma, Ryuen estava usando o próprio celular para tentar descobrir mais. Ele procurava por qualquer coisa que pudesse achar.
— Se você não espera muito, eu faço o que puder — respondi.
Sem dizer mais nada, Horikita se levantou, foi até o elevador e partiu. Deveria voltar para o meu quarto? Ou bolar uma estratégia para vencer o teste? Deixei o celular do Ryuen onde estava e me afastei. No fim, decidi voltar para o meu quarto. Eu poderia obter informações mais detalhadas sobre o grupo da Horikita com o Hirata, mais ou menos. Além disso, o Hirata provavelmente encararia este teste por uma perspectiva diferente da dela.
No entanto, o Hirata não estava no quarto quando entrei. Só vi o Yukimura. Ele estava sentado na beira da cama, com expressão séria.
— O que foi? — perguntei.
Ele era meu colega de quarto, afinal, então eu não podia simplesmente ignorá-lo. Yukimura percebeu minha presença, mas não respondeu. Apenas suspirou baixinho e murmurou algo para si mesmo.
— Pelo amor de Deus, por que fomos colocados nesse grupo? Por que eu estou junto com a Karuizawa e o Sotomura? Assim não dá pra vencer — resmungou.
— O que deu em você de repente? — perguntei.
— Você não ouviu? Tem um boato rolando de que eles usam diretrizes para montar os grupos. Quando ouvi que todos os alunos superiores foram colocados no grupo Dragão, soube que era verdade — respondeu.
Então era isso que o atormentava. De fato, o grupo Dragão parecia reunir apenas os melhores entre os melhores. Considerando a conversa que eu tinha ouvido entre os professores e o que o Ryuen dissera, não havia dúvida. Em termos puramente acadêmicos, Yukimura certamente não perdia para Hirata ou Horikita. Ele provavelmente estava insatisfeito por estar no grupo Coelho, que ficava ali no meio-termo.
Yukimura não mencionou certo nome, mas quando olhou para mim ficou claro que estava pensando na Horikita. Infelizmente, eu não podia ajudar. Enquanto o escutava, voltei para a minha cama e me deitei de lado. Pensei em tirar um cochilo até o Hirata voltar.
Infelizmente, senti um olhar desagradável sobre mim. Yukimura me encarava com desconfiança.
— Ayanokoji. Você não é o VIP, é? — perguntou.
— Mesmo que eu negasse e dissesse que você está errado, qual seria o sentido de verificar? — respondi.
— A cooperação é vital neste teste. Precisamos aderir a isso. Se cooperarmos, não vamos perder.
— Entendo. Infelizmente, não sou o VIP.
— Tem certeza? Não está sendo egoísta e tentando acumular pontos pra você? — Yukimura parecia duvidar de todos por padrão, então isso não me surpreendeu.
— Não sou o VIP. Posso acreditar que você também não é o VIP, Yukimura?
— Claro que pode. Eu não sou o VIP. E o Sotomura também não.
Aquilo foi quase como um aperto de mãos secreto, um contrato mágico entre aliados.
— Eu confirmei com a Karuizawa também. Ela disse que não é o VIP, mas acreditar nela já é outra história.
Yukimura normalmente nutria desprezo por Karuizawa, então não tendia a confiar no que ela dizia. Ele saberia a verdade com certeza se verificasse o celular dela, mas dado o relacionamento frágil entre os dois, isso seria complicado. Era literalmente um caso de "boas cercas fazem bons vizinhos". Eles preferiam manter distância. Não exibiriam suas vantagens um para o outro.
Yukimura pareceu satisfeito por ora, porque não continuou pressionando. Apoiei a cabeça no travesseiro e fechei os olhos. Não dava para relaxar totalmente com outra pessoa ali, mas não era tão desagradável. Quando eu realmente me esforçava para fazer amigos, podia ser tão adaptável quanto um camaleão — e parecia que até o Yukimura estava começando a simpatizar comigo.
Caí num sono leve, pontuado pelos suspiros ocasionais de Yukimura.
*
À tarde, fui para a sala de discussão do grupo Coelho.
Apesar de ser um dia claro e ensolarado, a atmosfera podia mudar completamente dependendo da companhia. Cheguei dez minutos antes do início da discussão e parecia ser o primeiro ali. A próxima a chegar foi a Karuizawa. Quando me viu, sua expressão se transformou em aparente desgosto, e ela rapidamente desviou o olhar. Depois disso, caminhou até o ponto mais distante de mim e sentou-se. Tirou o celular e começou a mexer nele.

Nós não nos dávamos exatamente bem. Não chegávamos a brigar, porém. Ela simplesmente não gostava de mim. E esse, na verdade, era o tipo mais incômodo de relacionamento. Se ela me odiasse por um motivo específico, haveria margem para melhorar. Mas, se fosse apenas antipatia instintiva, então não havia chance de avanço.
Eu poderia ter esperado no corredor até a Ichinose e os outros chegarem, mas como eu tinha chegado primeiro, pareceria estranho sair. Decidi ajustar minha postura para parecer mais masculino e digno. Que teste irritante. Como ele girava em torno de conversa, você era obrigado a participar de qualquer jeito — o que era difícil para mim. Mesmo após o fim do primeiro semestre, eu ainda não conseguia puxar conversa naturalmente.
Karuizawa claramente não pretendia passar o tempo em silêncio. Ela levou o telefone ao ouvido e começou a falar:
— Oi, Rinocchi? Como estão as coisas aí? Aqui? Ah, aqui tá um saco. Tipo, eu tô seriamente de saco cheio de tudo.
Como éramos só nós dois na sala, eu podia ouvir cada palavra, incluindo a forma como ela costurava habilmente alegria e tristeza na conversa. A situação era incrivelmente constrangedora com apenas nós dois ali. Logo após a ligação terminar, veio um momento de silêncio.
— Ah, lembrei. Você é o VIP? Parece que… o Yukimura-kun e aquele Soto…kun não são — disse Karuizawa.
Uau, ela estava falando comigo. Pelo menos lembrava o nome do Sotomura. O Yukimura tinha me feito a mesma pergunta há pouco. Suponho que fizesse sentido todos quererem confirmar.
— Não — respondi.
— Ah, ok. Tá bom.
Porém, diferente do Yukimura, ela não perguntou de novo.
— Você acredita em mim? — perguntei.
— Hã? Você disse que não é, né?
Mesmo não nos dando bem, ela parecia acreditar no que eu dizia. Bom, não havia necessidade de insistir no assunto. Eu não estava buscando mais pontos naquele teste. O importante era descobrir se Karuizawa poderia ser útil para mim.
— Vocês dois chegaram cedo, hein — disse Ichinose. Os três alunos da Classe B haviam chegado juntos.
— Bom te ver — falei, levantando um pouco a mão. Ichinose também falou com a Karuizawa, mas ela estava tão ocupada no celular que nem respondeu.
Todo mundo do grupo chegou antes da hora. No entanto, a situação não havia mudado nada desde ontem.
A Classe A mantinha distância de todos, então o restante de nós formou um círculo. Então, Karuizawa se levantou e sentou ao lado do Machida, da Classe A. Provavelmente uma medida defensiva contra Manabe. Machida não participava da discussão, mas sua presença era bem forte. Havia também uma diferença de força ali, e a Classe C — composta apenas pelas garotas como Manabe — não tinha ninguém carismático o bastante para confrontar Machida.
Se Karuizawa tivesse decidido se aproximar de alguém fraco, como eu ou o Professor, para pedir apoio, Manabe e as outras poderiam tê-la encurralado. Karuizawa definitivamente fez a escolha certa.
— Não se preocupe. Se algo acontecer, eu te ajudo — disse Machida.
— Obrigada, Machida-kun — respondeu ela.
Agora que Karuizawa tinha começado a depender do Machida, ele parecia bem consciente dela. Quer dizer, ela era uma garota muito bonita, então era compreensível que ele quisesse protegê-la. Mesmo sendo de classes diferentes.
Deixando de lado essa nova — e perigosa — afinidade, o problema era o teste. Todos entendíamos isso. Sabíamos que o que separava vitória de derrota era descobrir se a sua classe tinha o VIP.
— Enfim. Imagino que todos tenham conversado sobre isso ontem, mas acho que deveríamos tentar descobrir os VIPs, afinal — disse Ichinose.
— Isso de novo? Você não entende que algumas pessoas aqui não vão colaborar? Se nem todos participarem, não tem como achar o VIP — disse um dos alunos da Classe A, de forma zombeteira.
— Não acho que seja assim. É uma questão de confiança. Por isso, hoje eu queria que todos nós jogássemos cartas juntos. Claro, não vou obrigar ninguém. Só participa quem quiser — disse Ichinose.
Ela tirou um baralho da bolsa, sempre sorrindo.
— Hahaha! Construir confiança jogando cartas? Que idiotice!
— Você pode achar idiota, mas se tentar talvez goste. Além disso, passar uma hora inteira em silêncio absoluto parece bem chato. Por que não matar o tempo?
Naturalmente, todos os alunos da Classe B concordaram em participar.
— Eu participarei também. No momento, não tenho nenhum compromisso — disse o Professor.
Bem, o Professor tinha razão. Não tínhamos absolutamente nada melhor para fazer. Ninguém mais tinha se oferecido, então eu ergui a mão lentamente.
— Cinco pessoas, então. Bem, pensei em jogarmos Daifugō, mas alguém aqui não conhece as regras? — perguntou Ichinose.
Eu conhecia as regras até certo ponto. Sabia como funcionava Daifugō.
Ninguém parecia ter problema, então nos juntamos em um pequeno círculo e começamos a jogar. As pessoas que não estavam jogando conversavam entre si ou, de vez em quando, nos lançavam olhares indiferentes. Ichinose embaralhou o baralho e distribuiu as cartas igualmente entre os cinco.
Eu tinha um Coringa, um par de doses e mais três cartas. Considerando a mão que recebi, parecia que eu poderia esmagar os outros facilmente — mas o vencedor nem sempre era aquele com a mão mais forte. Qualquer virada mínima podia destruir sua vantagem e te levar à derrota.
Ainda assim, eu estava claramente com a melhor mão. Precisava de uma estratégia sólida para aproveitá-la. O jogo era mais profundo do que eu esperava. Além disso, as idiossincrasias de cada jogador apareciam sem esforço. Ichinose não se concentrava apenas na própria mão; ela jogava levando em conta as mãos dos adversários. Hamaguchi focava no fim do jogo. E, às vezes, se empolgava como o Professor.
— Mais uma! — dizia o Professor.
Eu teria imaginado que um grande otaku como ele fosse mais calmo. Mas, quando o assunto era jogo, ele se empolgava com facilidade. Pelo menos também esfriava rápido — assim que a partida acabava, se acalmava de imediato.
Era provavelmente isso que Ichinose queria ver. Ao aprender as características únicas do grupo, ela saberia como conversar com cada um. Não era muito, mas considerando que falar não estava rendendo nada até então, era eficaz. Isso também significava que Ichinose estava observando meu comportamento assim como eu observava o Professor.
Fiquei imaginando como eu parecia pela perspectiva dela. Objetivamente, eu devia parecer entediante. Avançava quando tinha uma boa mão, mas ficava passivo quando a situação piorava. Uma pessoa comum. Mas, em vez de mudar meu estilo e confundir a Ichinose, era melhor manter consistência. Continuei jogando como normalmente faria. Começamos com Daifugō e jogamos umas cinco partidas até mudarmos para Old Maid. A hora passou. No fim, nem a Classe A nem a Classe C se juntaram, então os cinco jogamos do começo ao fim.
— Heh, ora, ora, isso foi bem divertido. Jogar um jogo tradicional de vez em quando não faz mal algum — disse o Professor.
Ele parecia ter gostado de passar uma hora jogando em vez de conversar. Entretanto, mesmo após essa sessão de "revelações psicológicas", eu ainda não conseguia entender o plano real da Classe B. Só Ichinose tinha essa informação.
— Bem, acho que vou indo agora — disse Ichinose.
— Onde você vai? — perguntou Hamaguchi.
— Não posso deixar a Classe A escapar dessa forma.
— Vai ver o Katsuragi-kun, então?
Então era isso. Ichinose pretendia enfrentar o homem que elaborou a estratégia do "portão do castelo" da Classe A. Mesmo não sendo o tipo de pessoa sociável, eu sabia que deveria aproveitar essa oportunidade.
— Se não se importar, posso ir com você? — perguntei.
— Hmm? Claro, não vejo problema. Você também quer falar com o Katsuragi-kun, Ayanokoji? — perguntou Ichinose. Ela não parecia desconfiada de mim. Só parecia curiosa, inclinando a cabeça.
— Não é isso. A Horikita está no mesmo grupo que o Katsuragi.
— Ah, entendi. Então vamos juntos. Até mais, Hamaguchi-kun — disse Ichinose.
Hamaguchi acenou com a cabeça enquanto nos observava partir. Mesmo Ichinose sendo a líder, todos pareciam se respeitar. Nada parecido com o tipo de relação que Katsuragi e Ryuen tinham com seus "subordinados".
Se todas as discussões aconteciam no mesmo horário, então cada grupo provavelmente terminaria na mesma hora. Ichinose acelerou o passo, querendo chegar antes que o grupo Dragão se dispersasse.
— Vamos depressa — disse ela.
Ichinose aumentou o ritmo. Pelo menos as salas estavam todas no mesmo deck, então não era uma caminhada longa. Como a discussão tinha acabado há pouco, alguns alunos ainda circulavam pelo corredor. Pouco depois, chegamos à sala do grupo Dragão.
Não ouvimos vozes, mas parecia que ainda havia gente ali dentro. Paramos bem diante da porta. Talvez ainda estivessem conversando. Mandei uma mensagem para Horikita, mas duvidei que ela tivesse lido.
— Parece que estão demorando bastante — disse Ichinose.
— Não consigo imaginar o Ryuen e o Katsuragi debatendo. Talvez a Classe B esteja mostrando poder?
— Não acho. Kanzaki-kun não é do tipo que busca os holofotes. Ah, e você tem a Horikita-san lá dentro, junto com outros da sua classe, né? Ela é uma jogadora de destaque da Classe D.
Horikita, Hirata e Kushida eram todos "estrelas". Dez minutos se passaram até que, finalmente, a porta se abriu. A primeira pessoa a sair foi o alvo de Ichinose: Katsuragi. Outros alunos da Classe A vieram atrás. Katsuragi percebeu Ichinose imediatamente.
— Ichinose? O que você está fazendo aqui?
— Gostaria de falar com você, Katsuragi-kun. Tem um minuto?
— Bem, o período de testes dura três dias. Tenho vários minutos disponíveis.
Ele não a ignorou — pelo contrário, parecia feliz em conversar. Os outros alunos da Classe A entenderam e seguiram caminho.
— Está tudo bem se eu ficar sozinho, certo? — perguntou.
Ichinose assentiu. Eles se afastaram para não atrapalhar quem passava. Eu consegui me manter na conversa, então fiquei perto dela. Do ponto de vista de Katsuragi, eu era apenas um espectador — não comentou nada sobre minha presença.
— Acho que sei o que está planejando, Katsuragi-kun. Você ordenou que seus colegas se recusassem a participar das discussões, certo? Será que poderia reconsiderar? Precisamos de comunicação para passar neste teste.
Nas três discussões até agora, os alunos da Classe A haviam passado o tempo em completo silêncio. Ichinose não podia derrubar aquela muralha sozinha. Precisava que alguém abrisse o portão do castelo e a deixasse entrar. Agora, qual seria a resposta de Katsuragi?
— É extremamente razoável. Mas já ouvi essa pergunta tantas vezes que sinto que meus ouvidos vão cair. Infelizmente, Ichinose, você desperdiçou seu tempo — disse Katsuragi.
Aparentemente, a estratégia dele estava mesmo chamando bastante atenção.
— Eu tenho minha própria situação para lidar, Katsuragi-kun. Não acho que obrigar todos a ficarem quietos seja uma boa estratégia. Você poderia reconsiderar?
Katsuragi, que provavelmente vinha respondendo às mesmas perguntas repetidas vezes, foi direto ao ponto.
— A resposta sempre será a mesma. Desenvolvi essa estratégia para vencer. Meus motivos são sólidos. Você acha que este teste exige comunicação. Por isso discorda de mim, mas está errada. Este teste é sobre pensar. Ignorar isso é um grande problema. Então, para seguir o tema do exame, decidi sufocar as discussões — disse Katsuragi.
— Mas, Katsuragi-kun, sua ideia basicamente rejeita o teste em si — retrucou Ichinose.
— O que eu disse pode soar ruim, mas não é. Estou protegendo minha classe, procurando maneiras não apenas de manter nossa posição neste teste, mas nos próximos. Você concorda que não há problema nenhum em eu proteger minha classe?
— Se este teste fosse uma competição direta entre as classes, claro. Eu concordaria. Mas, neste teste, em que todas as classes são misturadas, você realmente acha isso certo? — perguntou Ichinose.
Mas a opinião de Katsuragi era válida. Havia quatro resultados possíveis nesse teste. Contanto que você escolhesse um deles, era legítimo. Katsuragi não se importava com competitividade dentro do grupo; seu foco era apenas manter a vantagem da Classe A.
— Qualquer discussão adicional é inútil, Ichinose. Você não vai mudar minha opinião — disse ele.
— Então é como diz o ditado: um objeto imóvel contra uma força imparável? — Ichinose deu um sorriso torto e dolorido, coçando a nuca. Ela não parecia decepcionada, mas provavelmente entendia que não faria Katsuragi ceder.
— Você ainda pretende lutar? — perguntou Katsuragi.
— Claro. Isso é um teste — respondeu Ichinose.
Ichinose e Katsuragi — duas forças poderosas e influentes — estavam se confrontando.
— Sinto muito, mas o resultado já está decidido. Se a Classe A não participar, não há muito o que você possa fazer. Não deveria haver forma de você vencer — afirmou Katsuragi.
Mesmo se as três outras classes se unissem, vencer não seria fácil. Se descobrissem a identidade do VIP, qualquer um poderia se tornar um traidor. Enquanto houvesse ganhos possíveis, seria difícil manter a cooperação até o fim. Se a recompensa não fosse dividida de maneira uniforme, não haveria razão para cooperar.
— Quero te perguntar uma coisa. Se você fosse o líder da Classe A, o que faria? Não adotaria a mesma estratégia? — perguntou Katsuragi.
— Hmm… fico pensando. Bem, eu não consigo realmente considerar as coisas sob a perspectiva da Classe A. Se você está sendo perseguido, acho melhor ter experiência perseguindo. Viver correndo o tempo todo é difícil, não é? — disse Ichinose.
Katsuragi fechou os olhos e cruzou os braços, como se descartasse o comentário. Depois, voltou a encará-la.
— Na minha opinião, se estivesse na minha posição, você teria criado a mesma estratégia. Se for para proteger minha classe, não me importo de ser criticado pelos outros — disse Katsuragi, olhando diretamente para ela.
Em resposta, Ichinose sorriu suavemente.
— Desculpe tomar seu tempo. Acho que entendi agora. Quer dizer… entendi seus pensamentos e ideias — disse ela.
— Fico feliz em ouvir isso. Bem, com licença.
Ichinose observou Katsuragi ir embora.
— Este teste é mais fácil para quem joga na defesa. Acho que vou ter que fazer ainda mais — murmurou.
As classes inferiores estavam tateando desesperadamente atrás de pistas, mas isso era arriscado. Se perdessem o VIP, decepcionariam a classe inteira.
— De qualquer forma, Kanzaki-kun e os outros ainda não saíram — disse ela.
Apenas Katsuragi e os alunos da Classe A tinham aparecido. Nenhum outro havia deixado a sala. Uma hora era o mínimo, mas eles podiam discutir por mais tempo.
— Vai esperar pelo Kanzaki? — perguntei.
— Você está esperando pela Horikita-san, certo? Também queria perguntar algo a ela. Vamos esperar juntos.
Ela podia falar com Kanzaki quando quisesse, mas suas oportunidades de conversar com Horikita eram mais raras. Como Katsuragi a havia rejeitado, provavelmente queria ouvir opiniões de outras classes. Mas eu não conseguia imaginar como ela planejava romper a estratégia do Katsuragi.
Esperamos por quase trinta minutos até que, finalmente, a porta se abriu. Todos os alunos da Classe C saíram, exceto Ryuen. Kushida e Hirata vieram logo depois.
— Hã? Ayanokoji-kun, o que você está fazendo aqui? Está esperando pela Horikita-san? — perguntou Kushida.
Kushida se aproximou de mim, parecendo confusa. Lembrei-me imediatamente da cena de ontem e fiquei tenso. Infelizmente, Kushida parecia ter voltado ao seu "eu" habitual, como se nada tivesse acontecido.
— Olá, Kushida-san.
— Oh! Ichinose-san! Olá. Ora, isso é estranho. Quer dizer, não esperava ver vocês dois juntos — disse Kushida.
Aparentemente Kushida não sabia que Ichinose e eu nos conhecíamos. Ela não conseguiu disfarçar a surpresa.
— Estamos esperando pela Horikita-san e pelo Kanzaki-kun. Eles ainda estão conversando? — perguntou Ichinose.
— Ah, esses dois. Ainda estão discutindo com o Ryuen-kun neste momento. Talvez vocês possam entrar — Kushida gesticulou em direção à porta, como se nos convidasse.
— Ah não, tudo bem. Se eles ainda estão no meio de algo, podemos esperar.
— Ah, acho que tá certo. Além do mais, o período do teste é só uma hora. Depois disso, podemos ir e vir quando quisermos. E pode ser que eles nem estejam falando sobre o teste — disse Kushida, abriu a porta e nos chamou para entrar.
Ichinose e eu não pudemos recusar, então entramos. Eu e Hirata trocamos um olhar rápido ao passar um pelo outro. Lá dentro, Horikita, Kanzaki e Ryuen estavam sentados, um pouco afastados — era um impasse a três.
O clima não estava exatamente tenso, mas também não era descontraído. Ao entrarmos, todos voltaram a atenção para nós. Horikita e Kanzaki mantiveram a expressão, mas Ryuen sorriu, como se aquilo o divertisse. Então ergueu a mão para Ichinose.
— E aí. Veio cá só pra fazer reconhecimento? Não seja tímida. Sente-se.
— Este é um grupo bem interessante. Quero saber do que vocês estão falando, ainda mais agora que a hora obrigatória acabou — disse Ichinose.
— Heh. Ah, claro que quer. A princípio, achei que você teria tomado o lugar do Kanzaki aqui. Mas acabou em outro grupo. E, pra completar, você foi empurrada para um grupo totalmente sem salvação. Ou talvez você seja o tipo sem salvação — disse Ryuen.
— Ora, Ryuen-kun. Você sabe que não dá pra entender as estratégias da escola. Só fazemos o melhor com as informações que temos e com a situação em que nos colocaram. Mas parece que você acha que há uma razão por trás das formações dos grupos. Acha que a escola tinha algum plano? — perguntou Ichinose.
Ichinose fingiu não notar nada, mas Ryuen não era do tipo que acreditasse numa mulher tão facilmente. Com um riso contido, ele se aproximou de Ichinose. Não prestou atenção em mim — o que estava ótimo.
— Se ainda não percebeu, eu explico. Os professores decidiram de propósito como dividir os grupos. É óbvio, não acha? Se for assim, significa que você foi colocada no grupo dos perdedores mesmo sendo a líder da Classe B — disse Ryuen. — Tem que haver um motivo.
— Hum. Então não era aleatório? Eles nos separaram de propósito? Notei que seu grupo tá cheio de gente excepcional, Ryuen, mas imagino que os outros grupos também foram feitos por alguma razão. Obrigada pelo conselho útil. Mas será que devia mesmo me dar tanta informação? — respondeu Ichinose.
Ela reagiu prontamente, como esperado. Notei a mudança na face de Ryuen, porém. Normalmente, ao receber uma informação surpreendente, alguém demonstra choque, confusão ou dúvida. Ichinose, no entanto, manteve a calma e ainda agradeceu o conselho. Não era uma resposta comum.
Claro que ela podia estar escondendo algo de propósito. Considerando o jeito iluminado e animado da Ichinose, alguém poderia achar que ela não sabia mentir. Eu não sabia o quão perspicaz Ryuen era, mas ele provavelmente percebeu que havia algo acontecendo. Foi uma conversa breve, mas ambas as partes tiraram bastante informação.
De todo modo, o que Ichinose sabia ou não sobre os planos da escola não era o essencial. O importante era que ela mantinha silêncio. Ichinose e Ryuen tentavam se sondar.
— Mesmo assim... — disse Ryuen, exasperado, voltando-se para mim. — Sabe, eu adoro correr atrás de mulher, mas você tá em outro nível. Primeiro a Suzune, agora a Ichinose. Tá sempre farejando alguma garota, né?
Eu não podia negar completamente o que disse. Além disso, Ryuen provavelmente não estava tão interessado em mim, já que não comentou mais nada.
— Bem, você veio na hora certa, Ichinose. Tenho uma proposta interessante — disse Ryuen.
— Uma proposta? Vou ouvir. O que é? — perguntou ela.
— É completamente estúpida. Ouvir ele é perder tempo — Horikita devia já ter ouvido a proposta, porque logo instou Ichinose a rejeitá-la.
— Uma proposta para esmagar a Classe A. Não acho tão ruim. A Suzune e o Kanzaki discordam, porém — disse Ryuuen.
— Como assim? — perguntou Ichinose.
— Já disse pra Suzune mais cedo, mas eu já sei todas as identidades dos VIPs da Classe C — declarou Ryuen.
Lá estava. Assim como Katsuragi tinha sua estratégia, Ryuen aparecia com um plano bem no estilo dele. E parecia que as coisas avançavam além do que tinham sido pela manhã.
— Três classes vão trocar informações sobre todos os VIPs. Assim, burlamos as regras da escola — disse Ryuen.
Ou seja, ele queria que nós três fizéssemos uma aliança.
— É uma ideia ousada, mas não acho realista. Como temos certeza de que você sabe mesmo os VIPs da Classe C, Ryuen-kun? — perguntou Ichinose.
— É natural não confiar. Nesse caso, por que não fazemos um contrato? Comprometemo-nos a compartilhar as identidades dos nossos três VIPs e atacar a Classe A. Assim, nossas três classes se beneficiam, e a Classe A não.
Se a recusa da Classe A já era complicada, essa proposta só aumentava o potencial de inimizade por toda a escola.
— Um contrato não vale nada, já que não sabemos quem pode trair quem. Se a Classe C nos trair, acabou tudo — respondeu Horikita.
A rejeição seca dela era previsível. Parecia que Ryuen já andava aliado à Classe A há um tempo. Além disso, no teste da ilha Ryuen não hesitara em trair os outros. Isso por si só mostrava o quão astuto ele podia ser. A estratégia não era necessariamente ruim — o problema era o próprio Ryuen.
— Seu raciocínio é sólido, Horikita-san. Se não temos garantia de que o Ryuen tá falando a verdade, isso não adianta — disse Ichinose.
— Não adianta mais bancar faz de conta, né? Não é como se você não tivesse noção do que rola na Classe B — retrucou Ryuen.
Os dois sorriam, mas o clima mudou. Ficou tenso, e parecia que estávamos todos na ponta da cadeira.
— Você está me dando crédito demais. As pessoas não confiam tanto assim em mim. Além disso, sua proposta tem alto risco e baixo retorno. Não posso aceitar — disse Ichinose.
— Ser reservada é prudente, mas às vezes você precisa agir.
— Talvez do seu ponto de vista. Você está lançando uma rede bem ampla e reunindo informações. Nunca sonhou em subir para a Classe B? — perguntou Kanzaki.
— Horikita-san rejeitou sua proposta. Portanto, esse plano já começou mal — acrescentou Ichinose.
— Bem, isso é inegável. Mesmo que a Suzune quisesse concordar, há um motivo pelo qual ela não pode — disse Ryuuen.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Horikita.
— Você já sabe do que estou falando, não sabe? Para essa estratégia funcionar, é preciso entender perfeitamente a própria classe. Para a Classe D, que não tem espírito de trabalho em equipe, isso é impossível. Certo? Também é impossível para a Classe A, já que eles estão divididos em duas facções.
A atmosfera mudou de novo. Desta vez, o ar ficou pesado, como antes de uma tempestade.
— Mas eu posso fazer essa estratégia funcionar, porque eu mando na minha classe. E também faz sentido para a Ichinose, já que ela é incrivelmente popular com a classe dela. Originalmente, pensei numa aliança entre as três classes, mas também é possível com apenas duas. As chances de um resultado perfeito caem, mas como estamos falando de mim, eu dou conta. Se conseguirmos, as Classes A e D ficarão expostas e sem nada — disse Ryuen.
Ele estava disposto a deixar as Classes A e D na poeira.
— Você realmente me superestima.
O fato de Ryuen ter compartilhado a ideia abertamente e ter pedido para a Classe B nos trair, bem na frente de mim, Horikita e Kushida, era perturbador. Mesmo que o plano não fosse perfeito, Ryuen estava trabalhando ativamente para descobrir os VIPs de cada classe — e conseguiria sem muita dificuldade.
Se era assim, então este era um momento crítico para a Classe D.
— Posso estar indo além, mas duvido que você consiga fazer isso dar certo — disse Horikita.
Eu achava que seria mais inteligente ficar calado, apenas observando, mas parece que Horikita pensava diferente. Mesmo que Ichinose decidisse se aliar à Classe D, não tínhamos ideia de até que ponto poderíamos confiar nela. E a possibilidade de Ichinose e Ryuen se unirem era extremamente perigosa.
— Então entende a situação agora, parasita? — Ryuen zombou de mim, mas não caí na provocação. Em vez disso, ofereci minha opinião sincera.
— Supondo que as Classes B e C se aliassem… isso não significaria que as Classes A e D fariam o mesmo? Admito que a Classe D é desunida, mas se estivermos diante de uma derrota certa, acho que nos uniremos. Creio que a Classe A faria o mesmo.
— Ichinose e eu ainda não formamos aliança nenhuma, então você não tem como saber disso. Tem certeza de que Katsuragi cooperaria com você? — perguntou Ryuen.
Katsuragi era extremamente cauteloso. Provavelmente não se moveria sem provas. No entanto, como também havia sofrido perda por causa do Ryuen, haveria espaço para negociação. Depois de me ouvir, Horikita também percebeu que não podíamos deixar uma aliança entre as Classes B e C se formar.
— Não há sentido em continuar essa discussão. No fim, ambas as partes só acabariam se destruindo — disse ela.
— Como assim, Suzune? — perguntou Ryuen.
— Quero dizer exatamente o que Ayanokoji disse antes. Se você insistir em agir como se isso fosse uma reunião estratégica, vamos assumir que essa é sua intenção e responder de acordo.
— Como quiser. Estou ansioso para ver se você consegue ou não unir sua classe — respondeu Ryuen.
Apesar de sua hostilidade aberta, Ryuen ousava estender a mão para pedir cooperação. Horikita, por sua vez, mostrava sua determinação em lutar até o fim. Isso também servia como aviso para Ichinose: se ela nos traísse ali, naquele momento, seria marcada como traidora por todas as classes. Seria vista como alguém que abandona aliados quando conveniente, por uns poucos pontos.
Se Ichinose carregasse esse tipo de reputação, isso a perseguiria por muito tempo — provavelmente por todo o ensino médio.
— Sinto muito, Ryuen-kun. Mas você feriu pessoas da Classe B com suas ações. Mesmo que fosse possível conseguirmos mais pontos, não posso me aliar a você só por isso — disse Ichinose.
— Bem, é uma pena — respondeu Ryuuen.
Ele não parecia nem um pouco decepcionado — parecia até que já sabia desde o começo que o plano não iria dar certo. Ryuen se levantou e saiu, passando por nós. Ao sair, lançou um último olhar para mim. Nossos olhos se encontraram.
— Não pode ser — murmurou.
Claro, não respondi. Ryuen balançou levemente a cabeça.
— Ah, eu preciso ir. Minhas amigas estão me chamando — disse Kushida.
Ela deixou a sala rapidamente. No fim, sobramos eu e meus parceiros de sempre.
— Ufa. Acho que ele me percebeu — disse Ichinose. Mesmo sem parecer abalada, ela soltou um suspiro profundo.
— Isso vai ser difícil. Ele está atrás de nós — disse Horikita.
— O Ryuen pode achar que é um dragão, mas na verdade é uma cobra. É tão persistente que, quando encontra sua presa, vai a qualquer extremo para derrubá-la. Mas você não está pior do que eu, Horikita-san? Ryuen-kun naturalmente desconfia da Classe A. Provavelmente acha que a Classe B será inimiga dele um dia. Mas agora, quem está na mira dele é você — disse Ichinose.
Bem, isso era verdade. A Classe D tinha ficado presa no fundo por muito tempo, mas o teste da ilha nos permitiu subir um pouco. Por isso, talvez estivéssemos nos tornando uma ameaça real.
— Não se preocupe. A Horikita não é do tipo que entra em pânico sob pressão. Não é? — falei.
— Naturalmente — respondeu Horikita.
Bom, por fora ela parecia assim. Mas mesmo que fosse apenas fachada, em algum momento ela mostraria seu verdadeiro eu. Eu só não sabia quando — talvez hoje, ou talvez daqui dez anos. A maioria das pessoas não chega a se tornar quem deveria ser.
— Horikita-san, Ayanokoji-kun. Queria perguntar algo. Vocês acham que este teste vai criar confiança entre pessoas de diferentes classes?
— Ninguém quer fazer inimigos, mas unir pessoas assim sempre será difícil. Mesmo que duas classes fiquem mais próximas, não será suficiente. Precisaríamos de cooperação absoluta entre todos das Classes D e B, e eu não sei como criar essa aliança — disse Horikita.
— Sim. Como eu esperaria de você, Horikita-san. Você entende muito bem este teste. Ryuen-kun só fala da boca pra fora. Escolhi o lado certo — disse Ichinose, satisfeita por ficar ao lado de Horikita.
— Isso mesmo. O plano do Ryuen-kun vai fracassar. Provavelmente é melhor nem se preocupar com ele. O verdadeiro problema é a estratégia de fortaleza impenetrável do Katsuragi-kun. O que você acha dela agora que conversou com ele?
— Eu disse isso ontem, mas o Katsuragi é completamente inacessível. Ele vai falar com você, mas não recua nem um milímetro. Duvido que vá mudar de ideia antes do final do exame. A essa altura, acho que toda a Classe A está adotando a mesma postura. Não acha? — perguntou Kanzaki.
— Sim. Acho que é impossível também. Não temos escolha a não ser encontrar outra forma — disse Ichinose.
Restavam três períodos de discussão. Depois disso, cada grupo teria que enviar suas respostas. Trabalharíamos a favor da nossa classe? Ou do nosso grupo? Ou agiríamos por interesse próprio?
— Bem, vou voltar para o meu quarto — disse Horikita, em tom seco.
Como o restante do grupo Dragão já havia saído, Horikita foi embora sem dizer mais nada. No caminho, encontrou Hamaguchi, que parecia estar esperando por ela. Ichinose observou Horikita sumir no corredor e depois voltou-se para mim.
— Você pode andar comigo um pouco? — perguntou.
— Claro. Não me importo.
Saí caminhando com Ichinose e mais dois alunos da Classe B. Ficou um pouco apertado. Depois de nos separarmos do Kanzaki e chegarmos ao convés do navio, nos misturamos a uma grande multidão de estudantes. Todos pareciam ter se livrado da pressão do teste e estavam no clima para se divertir.
— Eu entendo o que a Horikita-san disse antes, mas acho que ainda há espaço para cooperação — disse Ichinose.
— Cooperação?
— Sim. Fiquei surpresa quando a Classe A se isolou, mas acho que ainda temos uma chance. Só que, para isso funcionar, talvez tenhamos que revelar tudo.
— Tudo?
— O teste inteiro se resume a descobrir o VIP. Esse é o objetivo, certo? Se jogarmos conforme as regras, aumentamos nossas chances ao diminuir a lista e descobrir quem não é o alvo. Então, posso te dizer agora mesmo: eu não sou o VIP. Mas pretendo descobrir quem é e levar meu grupo à vitória.
Ichinose disse isso com confiança, olhando diretamente nos meus olhos. Ela continuou:
— Você pode pensar que, se eu fosse o alvo, eu só estaria escondendo minha identidade. Mas, Ayanokoji-kun, o motivo para eu não ser o VIP é simples. Tudo o que faço é pelo bem da Classe B — disse Ichinose.
As palavras dela tinham algo misterioso, difícil de explicar. Considerando seu comportamento até agora, restava só um pequeno resquício de dúvida em mim. Se ela quisesse minha cooperação total, bastaria ir um passo além. Se ela me mostrasse o celular por vontade própria, naquele instante, ganharia minha confiança completa.
No entanto, ela não demonstrou intenção nenhuma de fazer isso. Nem sequer tocou no celular. Eu deveria aceitar suas palavras como a simples promessa ingênua de uma garota comum? Ou havia algo por trás delas? Eu não conseguia dizer. E era justamente por isso que aquilo soava misterioso. Ainda assim, provavelmente seria mais seguro aceitar suas palavras.
— Deve parecer estranho — comentou Ichinose, um pouco descontente com meu silêncio.
— Ah, não. Desculpa. Não acho estranho, de verdade. Só fiquei um pouco surpreso por você ter falado assim, tão direta. Você disse que, se fosse o VIP, escolheria liderar sua classe à vitória — respondi.
— Eu não estou mentindo. Acho que mentir pode ser necessário em competições, mas gosto de ser honesta sempre que possível. Quero que minha classe vença de forma justa. Achei que o caminho para a vitória estava em descobrir quem é o VIP. Ah, você não precisa me dizer nada se não quiser, Ayanokoji-kun. Só queria explicar meus sentimentos. Achei que, se dissesse isso, as coisas se tornariam mais fáceis.
— Mesmo que cooperação total seja impossível, tentar criar relações sólidas não é uma má ideia. Se eu não responder agora, isso pode prejudicar nossa relação mais tarde.
— Não, não, acho que não — ela respondeu, um pouco atrapalhada. Mas não era hora de me esconder.
O que Ichinose dizia fazia sentido. Mesmo que ela me enganasse e me atraísse para uma armadilha, seu ganho seria pequeno. Romper a trégua com Horikita e explorar a Classe D seria irracional. Claro, eu não tinha 100% de certeza de que ela não nos trairia. Mas também não tenho 100% de certeza de que não serei atingido por um meteoro amanhã. Ninguém devia viver pensando em tudo que pode dar errado. Decidi ser honesto.
— Eu não sou o VIP. E o Yukimura também não é, disso tenho absoluta certeza. Infelizmente, não sei ao certo sobre a Karuizawa ou o Professor… digo, o Sotomura. Ainda não está claro. Pessoalmente, concordo com você em princípio.
Eu tinha ouvido do Yukimura que Karuizawa e o Professor não eram VIPs, mas achei melhor não mencionar isso. Se eu falasse bobagem e um deles fosse o VIP, eu perderia a confiança de Ichinose. Já Yukimura, concluí que não era VIP pelo comportamento e atitude.
— Desculpa. Parece que forcei sua resposta — disse Ichinose.
Ela abaixou a cabeça, como se estivesse carregando culpa. Não precisava se desculpar. Eu é que provavelmente deveria pedir desculpas a ela um dia, pensei.
— Ei, Hamaguchi-kun. Tem um minuto? — chamou Ichinose.
— O que foi, Ichinose-san?
Hamaguchi se aproximou, descontraído. Ichinose o colocou a par da situação. Surpreendentemente, ela escondeu sua relação de cooperação com a Classe D. Considerando sua personalidade, eu teria pensado que ela pediria aprovação da classe primeiro.
— Se o Ayanokoji confirmou, então não tenho motivo para recusar. Eu não sou o VIP — disse Hamaguchi.
Levando em conta a relação dele com Ichinose, eu acreditava. Não havia ganho real em mentir — isso poderia até quebrar a trégua com Horikita. No entanto, se quiséssemos uma estratégia que eliminasse riscos, poderíamos fazer algo melhor que isso.
— Você ainda não confirmou com o restante da sua classe — observei. Ichinose certamente conseguiria unir a turma dela sem ter que recorrer às táticas intimidatórias de Ryuen.
— Prefiro deixar meus colegas agirem autonomamente. Há pessoas na minha classe que querem pontos. Não posso simplesmente pegar para mim os direitos do VIP — disse Ichinose. — Isso pode parecer atrevido, mas vou confirmar pessoalmente com a última pessoa. Se essa pessoa for honesta comigo, te aviso depois, Ayanokoji-kun.
— É gentil da sua parte, mas não é como se eu tivesse te contado tudo sobre a Classe D. Ainda não estabelecemos uma relação realmente aberta e honesta, e não há garantia de que eu te disse a verdade absoluta — falei.
— Ah, não se preocupe. Enquanto eu contar com a sua cooperação, Ayanokoji-kun, já estou feliz — respondeu Ichinose.
E assim, a cooperação real dentro do grupo Coelho começou. Eu tinha certeza de que nem Ichinose, nem Hamaguchi, nem eu éramos o VIP. Considerando o comportamento e a atitude de Yukimura, também estávamos convencidos de que ele não era o VIP. Excluindo nós quatro, restavam dez suspeitos. Um deles era o VIP.
Seria tão difícil quanto encontrar o líder na ilha deserta — talvez ainda mais. O VIP certamente sentiria pressão e faria de tudo para se esconder. Embora o teste inicialmente parecesse absurdo, a escola encontrara uma forma de equilibrar tudo.
— Como você pretende encontrar o VIP? Mesmo que perguntemos diretamente, duvido que alguém admita. Vai ser difícil convencer só com palavras — disse Hamaguchi.
— Bem, não é esse o objetivo do teste? Descobrir? — disse Ichinose.
Ela estava certa. Era uma prova excepcionalmente difícil. Você precisava extrair informação de alguém que queria esconder a verdade. Com Ichinose agindo, a situação antes desesperadora começava a mudar.
*
A menos que você fosse psíquico, encontrar o VIP não seria fácil.
As pessoas nascem mentirosas. Se alguém afirma viver sem contar uma única mentira, provavelmente a vida dessa pessoa é a própria mentira. As mentiras são uma parte inevitável de nós. Mentiras gentis também são mentiras.
Em algum ponto desse grupo de estudantes estava o VIP. Ainda tínhamos tempo até o início da discussão. Como da última vez, cheguei primeiro — vim mais cedo para observar o comportamento de todos.
Um grupo de garotas da Classe C foi o primeiro a entrar. Elas conversavam alto, divertindo-se. Mas, ao me verem, baixaram o tom na hora, com expressões de desgosto. Sentaram-se longe de mim de propósito.
Yukimura entrou logo depois, com um sorriso no rosto. Nossos olhares se cruzaram brevemente e ele sentou perto de mim. Parecia o mesmo de sempre.
Depois chegaram os alunos da Classe A: Machida e Takemoto. Morishige entrou sozinho. Como haviam decidido não discutir nada, sentaram-se novamente no canto oposto da sala, perto das garotas da Classe C.
— Ei, Machida-kun. Quando terminarmos aqui, quer sair com a gente? Nós três estávamos pensando em nos divertir um pouco.
— Entendi — respondeu Machida.
Mesmo sem participar da discussão, todas as garotas batiam o olho nele. Exceto Ichinose e Ibuki, as outras pareciam bem interessadas. Eu não estava particularmente com ciúmes… tá, talvez só um pouco. Provavelmente elas o chamaram porque já tinham desistido de encontrar o VIP — ou talvez fosse parte de algum plano. Era assim que homens e mulheres formavam relacionamentos?
Machida não parecia incomodado. Na verdade, parecia bem satisfeito.
Depois chegaram os outros alunos da Classe D: o Professor e Karuizawa. Não tinham vindo juntos — só coincidiram de chegar ao mesmo tempo. Karuizawa parecia abertamente enojada com a presença do Professor. Assim que entrou, foi direto para o fundo da sala.
— Ei, você não está sentando no meu lugar? — disse Karuizawa. Apesar de ter chegado tarde, lançou um olhar hostil para as garotas da Classe C. Tendo visto como estavam animadas conversando com Machida, parecia ainda mais irritada.
— Eu não faço ideia do que você está falando. Como assim, "seu lugar"? É só sentar em qualquer lugar. Qualquer assento serve.
— Bem, é aquele assento que eu quero. É o meu lugar. Anda, sai — insistiu Karuizawa.
— Hã? Estou falando com o Machida-kun agora. Ele prometeu sair comigo hoje à noite — disse Manabe.
— Ei, Machida-kun. Pode dizer para ela que você me quer ao seu lado?
Machida pareceu um pouco incomodado, hesitando sobre qual delas escolher. Mas Karuizawa rapidamente se enfiou entre Manabe e Machida e segurou a mão dele.
— Que tal passarmos um tempo juntos, só nós dois? Ou você prometeu a ela que iria com ela? Odeio gente que fica em cima do muro. Se você vai brincar com aquela garota, então por mim acabou — disse Karuizawa.
Uau. Fiquei impressionado que ela conseguisse dizer isso com a cara mais limpa do mundo, considerando que já estava namorando o Hirata.
Mas o "só nós dois" realmente pareceu atingir o coração de Machida. Ele claramente tomou uma decisão.
— Com licença, mas você pode se levantar? Esse é o assento onde a Karuizawa costuma sentar — disse Machida.
— Hã? Como é que é? Argh, isso é um absurdo — resmungou Manabe.
As garotas, incomodadas, se levantaram e saíram. Karuizawa tomou o lugar vazio. Na verdade, ela se aproximou tanto que praticamente ficou colada em Machida. Sério, estavam um ao lado do outro, com os corpos encostados. Para mim, suas ações não pareciam fúteis ou infantis — provavelmente porque eu já sabia muito bem que tipo de pessoa ela era.
Karuizawa namorava Hirata. Independente de Machida saber disso ou não, parecia que ele começara a se apaixonar por ela. Visualmente, ela era sem dúvida muito bonita. Além disso, para alguém com um interesse crescente, fazia sentido querer protegê-la.
O interessante era que, apesar de o grupo ter sido formado há pouco tempo, já tínhamos desenvolvido nossa própria hierarquia, incluindo dinâmicas de poder. Os solitários continuavam solitários, os populares eram populares, e os organizadores permaneciam organizadores. Mas nem tudo funcionava como sempre. Por exemplo, se houvesse dois organizadores no mesmo ambiente, um acabava assumindo a liderança e o outro era deixado de lado. Era como um microcosmo da selva: sobrevivência do mais apto.
A pessoa que perdia essa disputa era rebaixada na escala social. Em alguns casos, podia acabar no nível mais baixo, quase invisível para o resto. Eu mesmo era um exemplo claro disso.
O curioso deste exame era que ele fazia pessoas que normalmente se evitariam trabalharem juntas. Ichinose podia ser extremamente popular em sua própria classe, mas entre pessoas que eram claramente rivais, sua influência diminuía. Será que Hirata conseguiria nos organizar melhor?
— Olá, pessoal!
Falando nela. Ichinose chegou, trazendo vida para aquela sala deprimente. O clima estava especialmente pesado hoje, mas achei melhor não comentar nada. Ainda assim, o comportamento de Karuizawa parecia exagerado e até um pouco desconcertante. Mesmo que ela quisesse se aproximar de Machida, não precisava provocar abertamente as garotas da Classe C.
No entanto, aquela situação estranha não parecia ter tanta relevância para o exame em si.
Por eu conhecer a verdadeira Karuizawa, já conseguia enxergar como sua personalidade guiava suas ações. Fiquei imaginando se ela sempre desejava estar no topo — seja na classe ou no grupo. Claro, não era fácil para uma garota ocupar esse lugar. Se fosse alguém como Ichinose, extremamente carismática, tudo bem. Mas sem aptidão natural, era impossível.
Na vida escolar, porém, relacionamentos definem se alguém sobe ou desce no sistema de castas. Com seu comportamento dominador, Karuizawa se tornara líder das garotas da Classe D. E ao se tornar namorada do Hirata, acumulou bastante influência entre meninos e meninas.
Aplicando isso ao agora, tudo ficava claro: ela tinha se jogado para cima do garoto mais confiante da sala — Machida — e, com ele em suas mãos, tomou o controle do ambiente. Por isso as estudantes da Classe C não puderam enfrentá-la e deixaram o assento contrariadas.
Se você não liga de ser odiado, o que ganha dominando tudo? Superioridade? Satisfação pessoal? Vontade de ser o centro das atenções? Eu ainda não conseguia entender a raiz do comportamento dela.
— Isso não é bom.
— É. Se continuar assim, o VIP vai escapar — murmurou Yukimura ao meu lado.
Resolvi apenas acompanhar.
— Então, a Classe A não vai participar desta vez também? — perguntou Ichinose.
— Claro que não. Fiquem à vontade para conversar entre vocês, mas nossa política não mudou — respondeu Machida.
Ao lado dele estava Morishige, com o rosto totalmente destituído de emoção. Eu já o havia visto antes deste exame. Segundo rumores, a Classe A estava dividida em duas facções — uma liderada por Katsuragi e outra por Sakayanagi. Morishige era um dos que tinham se voltado contra Katsuragi na prova da ilha.
Em condições normais, provavelmente não obedeceria Katsuragi. Mas como Sakayanagi estava doente e não participando da viagem, sem sua líder presente, Morishige não teve escolha senão cumprir ordens.
Achei que Katsuragi teria perdido influência após o prejuízo no exame da ilha. Mas parecia que ele não iria cair tão facilmente. Morishige ficara calado por dois dias — parecia claro que ele não tinha alternativa senão obedecer.
— Já que seria desperdício passar uma hora em completo silêncio, que tal jogarmos cartas novamente? — sugeriu Ichinose.
Ela tirou o baralho na mesma hora. A forma de abordar o objetivo era crucial neste teste. Ela queria reduzir a lista de suspeitos por meio de conversas abertas. Já Katsuragi buscava estabilidade eliminando toda conversa. E Ryuen queria transformar todos em inimigos enquanto tomava controle total da sua classe. Ele dizia ter entendido o segredo por trás da prova. Mas eu ainda não estava convencido.
No fim, ficamos tão focados no jogo de cartas que a hora passou rapidamente, e então o grupo se dispersou. Yukimura procurou freneticamente alguma pista, mas parecia que não encontrou nada sobre o VIP — assim como o resto dos alunos.
Mesmo conversando, não é como se o VIP fosse se revelar espontaneamente. Observei a ordem em que todos saíam. As garotas da Classe C geralmente eram as primeiras, mas não se moveram. Enquanto isso, os alunos da Classe A, normalmente os últimos, foram os primeiros a sair. Bem, nem todos — Machida ainda estava lá, trocando contatos com Karuizawa.
Yukimura e o Professor se levantaram.
— Acho que está na hora de voltarmos. Você vem, Ayanokoji? — perguntou Yukimura.
— Vou, sim.
Enquanto conversávamos, Karuizawa atendeu ao telefone e saiu da sala rindo e falando animadamente sobre algo engraçado. Logo depois, as três garotas da Classe C passaram por mim e saíram.
— Ei. Você sentiu um clima estranho vindo delas agora há pouco? — perguntou Yukimura, olhando para mim com expressão confusa.
— Você acha? Eu não notei nada disso — respondeu o Professor, com aquele tom pomposo ridículo de sempre.
Apesar do comentário dele, eu achava que Yukimura estava certo. As garotas da Classe C pareciam mesmo irritadas. Yukimura e eu espiamos pelo corredor para ver o que estava acontecendo. As três garotas seguiam Karuizawa de perto. Sozinha, ela estava em desvantagem. Aquilo me preocupou. Além disso, Ibuki — que talvez fosse capaz de conter as outras — não estava por perto.
— Será que elas têm algum problema com ela? — perguntou Yukimura.
— Vamos segui-las. Não acho que vá rolar violência, mas isso pode virar confusão — respondi.
— Droga de Karuizawa. Ela sempre faz as pessoas odiarem ela. Era pra gente usar esse tempo precioso pra achar o VIP — reclamou Yukimura.
Enquanto o Professor voltou para o quarto, Yukimura e eu seguimos as quatro garotas discretamente. Ao virarmos a esquina, ouvimos o clack da porta da saída de emergência batendo. Os elevadores nem estavam cheios — então não havia motivo para usarem as escadas. Tinha que haver outro motivo para entrarem ali.
Abri a porta e ouvi vozes.
— Ei! Por que vocês me trouxeram pra um lugar desses?!
— Para de bancar a sonsa! Foi você que empurrou a Rika, não foi? Começa a falar.
— H-Hã? Eu já falei, vocês estão confundindo!
As três garotas cercavam Karuizawa, encurralando-a contra a parede. Estavam impedindo que ela escapasse. Mesmo assim, Karuizawa não pediu desculpas. Continuou negando tudo. Talvez estivesse falando a verdade.
— Olha, eu tenho compromisso depois. Podem sair da frente, por favor? — disse Karuizawa.
— Beleza, vamos confirmar agora. Vou ligar pra Rika. Se não foi você, a gente te perdoa.
— Eu não faço ideia do que vocês estão falando. Vou chamar o professor.
— E vai dizer o quê, exatamente? Não estamos encostando um dedo em você. Além disso, se chamar um professor, a gente conta também. Vamos dizer que você empurrou a Rika. Aí você também se ferra.
Nenhum dos lados parecia disposto a recuar.
Karuizawa tentou sair, mas as garotas seguraram seu braço e a empurraram contra a parede. Uma delas pegou o celular, provavelmente para ligar para Rika.
— Espera! — pediu Karuizawa, desesperada.
— O quê? Por que deveríamos esperar?
— Acabei de lembrar de uma coisa. Eu esbarrei naquela garota antes.
— Mentirosa. Você lembrou dela desde o começo, né? Mas tanto faz. Então, vai pedir desculpa pra Rika direito?
— Nem pensar. A culpa foi dela. Ela é uma cabeça de vento completa.
Eu teria imaginado que Karuizawa fosse assumir responsabilidade — mas ao contrário, ela se recusou. Mesmo sabendo que isso deixaria as outras furiosas.
— Você tá deixando a gente com muita raiva. Talvez a gente te perdoasse se pedisse desculpa para Rika. Mas agora? Agora é impossível.
A garota pressionou ainda mais o ombro de Karuizawa.
— Tanto faz. Vocês provavelmente nunca tiveram a intenção de me perdoar mesmo — cuspiu Karuizawa.
Depois disso, uma das garotas — Yamashita — perdeu a paciência.
— Shiho-chan. Já deu. A Karuizawa é imperdoável.
— Também acho. Ela devia entender como a Rika se sentiu. Que tal a gente intimidar ela de verdade? — disse Shiho.
Ela empurrou o ombro de Karuizawa com um pouco mais de força.
Yukimura estava prestes a abrir a porta, mas eu o segurei pelo braço. Mesmo que intervíssemos agora, Karuizawa seria ameaçada de novo mais tarde. Mas se elas deixassem escapar qualquer violência enquanto estávamos observando, poderíamos usar isso como dissuasão para o futuro. Dependendo do que acontecesse, poderíamos até ameaçar denunciá-las à escola.
Mais importante, Karuizawa Kei parecia estar começando a mudar.
— Ahh… ahh… — Ela ofegava como se lhe faltasse ar. Levou as mãos à cabeça, como se estivesse com dor.
Quando Manabe e as outras viram o sofrimento dela, não sentiram pena.
Pelo contrário. Aquilo as irritou ainda mais.

— Pode agir o quanto quiser como princesinha, nós ainda não vamos te perdoar.
Elas puxaram o cabelo de Karuizawa, forçando sua cabeça para trás.
— Eu sempre odiei a sua cara, Karuizawa. Sério, vocês não acham ela horrível? — disse Manabe.
— Totalmente. Dá até vontade de arranhar esse rosto — disse outra.
— P-Para. Para com isso — pediu Karuizawa.
— "P-Para com isso", ela diz. Cadê aquela pose toda? — zombou Yabu.
Quanto mais você inveja seu inimigo, mais o odeia — a ponto de querer destruir as vantagens dele. Em termos de aparência, Karuizawa superava todas. Mas Manabe, Yamashita e Yabu não ficariam satisfeitas até rasgarem sua beleza com palavras. Karuizawa tremia, assustada. Estava à beira das lágrimas, totalmente paralisada.
As pessoas mostram seu verdadeiro eu quando estão acuadas. Um pouco mais, e eu descobriria quem era a verdadeira Karuizawa Kei. Porém, Yukimura não aguentou mais. Escancarou a porta. As três garotas se assustaram com a aparição repentina dele. Já Karuizawa olhou para Yukimura como se ele tivesse salvado sua vida.
— O que vocês estão fazendo?! — gritou Yukimura.
— O quê? Nada. Né? Só estávamos conversando com a Karuizawa-san. Não é? — disse Manabe, lançando um olhar ameaçador para Karuizawa, como se dissesse "não abra a boca".
Mas Karuizawa não era do tipo que encolhia.
— Yukimura-kun, essas meninas me sequestraram e começaram a ficar violentas. Elas são o pior, né? Estavam me irritando muito, então mandei elas sumirem — disse Karuizawa.
Normalmente ela nem falaria com Yukimura, mas agora parecia grata. Enquanto isso, as garotas da Classe C encaravam Yukimura, como se dissessem: "Não se meta."
— Bem, eu só estou falando com a Karuizawa sobre o problema dela, sobre o que ela fez com a Rika. Você ouviu como a Karuizawa trombou com ela, né? — disse Manabe.
— Não acha melhor deixar isso pra lá? As duas esbarraram uma na outra. Não foi culpa da Karuizawa — disse Yukimura.
— Cala a boca. Isso não tem nada a ver com você.
…
Sob o peso dos olhares delas, Yukimura se calou. Karuizawa olhou para ele como se achasse sua atitude patética. Então tirou o celular.
— Me deixem em paz. Se não saírem, eu vou ligar pra alguém.
— Vai ligar pra quem? Pro Hirata-kun? Pro Machida-kun? Uma vadiazinha como você deve ter uns cem caras na discagem rápida, né?
Brigas entre garotas costumavam ser particularmente cruéis. Ao contrário dos garotos, violência física raramente era usada — mas psicologicamente era muito pior. Era difícil assistir àquilo.
— Um professor passou por aqui agora há pouco. Acho melhor vocês irem embora — eu disse.
Não tive escolha a não ser intervir. A Classe C provavelmente não queria atrair atenção desnecessária.
— É melhor você se curvar e pedir desculpa para a Rika.
As garotas da Classe C continuaram pressionando Karuizawa, que tentava manter uma postura firme. Mas era claro que sua confiança tinha desaparecido. E elas sabiam disso — e continuavam avançando.
— Você está bem? — perguntou Yukimura, incapaz de deixá-la assim. Ela estava quase hiperventilando.
— Me deixa em paz! — Quando Yukimura se aproximou, Karuizawa deu um tapa na mão dele.
— Ei, qual é? Só vim ver como você estava!
— Cala a boca! Ninguém pediu nada pra você!
A respiração de Karuizawa ficou ainda mais descompassada. Yukimura recuou, dominado pela situação. Eu também decidi não cutucar mais e dei um passo atrás. Karuizawa me lançou um olhar furioso enquanto abria a porta do escape de emergência e a batia com toda força ao sair.
— Cara, qual é o problema dela? Ela vive causando problema pros outros! — reclamou Yukimura.
Eu entendia perfeitamente sua frustração. Karuizawa de fato era uma fábrica de problemas. Exausto, Yukimura foi embora sem dizer mais nada. Fiquei sozinho no corredor, refletindo sobre ela. A líder das garotas da Classe D havia mostrado seu lado vulnerável. No entanto, não era exatamente o medo das ameaças que a estava destruindo — havia algo mais.
*
Era o meio da noite do segundo dia. A piscina, lotada durante o dia, estava silenciosa novamente. Não havia ninguém ali. Peguei meu celular para fazer uma ligação. Como os números dos professores já estavam registrados, entrar em contato com Chabashira-sensei era fácil.
Embora fosse verão, estávamos em pleno oceano, e o vento noturno no convés era surpreendentemente frio.
— Desculpe a demora, Ayanokoji — disse Chabashira-sensei ao chegar.
— Tudo bem. Eu que peço desculpas por ligar tão tarde.
— Um instrutor tem a obrigação de atender um aluno. Nada de incomum. Além disso — para o bem ou para o mal — essa é a primeira vez que você realmente me liga.
Chabashira-sensei certamente não era carinhosa com a Classe D. Não era querida pelos alunos. Mesmo que alguém tivesse problemas, dificilmente recorreria a ela.
— Eu queria perguntar uma coisa, sensei, mas… Você está pálida.
No começo não notei por causa da escuridão, mas Chabashira-sensei estava tão pálida que parecia doente.
— Não se preocupe. Problemas de adulto. Enfim, o que queria perguntar?
Pelo cheiro de álcool que vinha dela, era fácil entender a situação.
— Você disse que podemos usar nossos pontos para comprar qualquer coisa, mas ainda existem exceções, certo?
— Sim. Naturalmente, existem. Por exemplo, se pedir para comprar a vida de um professor ou de um estudante, não podemos atender.
— Então eu queria saber… qual foi a coisa mais cara que alguém já comprou com os pontos?
Enquanto eu falava, senti a presença de outra pessoa se aproximando.
— Yoohoo, Sae-chan! Tudo bem aí?
Hoshinomiya-sensei apareceu. Coincidência? Pouco provável. Ela provavelmente tinha seguido Chabashira-sensei.
— Você está bêbada, não está? — disse Chabashira-sensei.
— Hm? Ah, claro que não, claro que não, imagina! Eu só estava agindo meio sonolenta, sabe?
— Nossa. Você realmente aguenta bem a bebida. Hoje você estava inteira, e agora também está ótima — comentou Chabashira-sensei.
Pelo visto, Hoshinomiya-sensei tinha um fígado de ferro.
— Boa noite, Ayanokoji-kun. Como você está? — disse Hoshinomiya-sensei, aproximando-se de mim de forma exageradamente íntima.
Ela colocou a mão no meu ombro e me puxou para um abraço tão apertado que eu podia sentir nitidamente o cheiro de álcool em seu corpo e sua respiração. Para alguém menor de idade como eu, aquilo era quase sufocante — e sinceramente, só aquele cheiro já me fazia não querer beber nunca.
— Estou bem. Se não estivesse, não estaria aqui — respondi.
— Essa resposta foi tão nada fofa que até me impressionou! Então, Ayanokoji-kun, você gosta do tipo irmã mais velha tsuntsun, tipo a Sae-chan? — perguntou ela, provocando.
— Pare de se pendurar em um aluno. Você está atrapalhando meu trabalho — cortou Chabashira-sensei.
Felizmente, Chabashira-sensei agarrou Hoshinomiya-sensei pela nuca e a puxou para longe. Lembrei-me da conversa entre professoras que eu havia ouvido no outro dia. Até entre os instrutores havia rivalidade, sabotagem e disputa. Talvez a competição por classes melhores significasse aumento salarial, ou talvez fosse apenas uma rixa antiga entre as duas, desde os tempos de escola.
Eu não tinha dúvidas de que a escola mantinha tudo justo. Vazar respostas seria um escândalo. Então era quase certo que Ichinose tinha sido colocada no grupo Coelho sem saber o motivo. Mas, com a visão afiada e o senso de observação que ela possuía, cedo ou tarde perceberia que algo estava errado — e que havia um motivo específico para ela estar naquele grupo.
E se Ichinose descobrisse que havia sido colocada ali para investigar Ayanokoji Kiyotaka… o que eu deveria fazer? Enquanto refletia, comecei a traçar meus próximos passos.
— Então, o que vocês dois estavam conversando no meio da noite? Isso por si só já não é um problemão? — perguntou Hoshinomiya-sensei.
— Um problemão? Como professora, é natural conversar com alunos e aliviar suas preocupações — respondeu Chabashira-sensei, impassível.
— Se é assim, não seria melhor fazer isso com mais gente por perto? Agir às escondidas assim… parece bem suspeito, sabe?
Mesmo com as provocações de Hoshinomiya-sensei, Chabashira-sensei permaneceu calma.
— Ayanokoji pediu este local. Ele queria falar comigo em particular — disse ela, direta.
— Hmm. Bom, acho que vocês não estão quebrando nenhuma regra — murmurou Hoshinomiya-sensei.
— Ótimo. Agora vá embora. Eu mesma já vou voltar.
— Tá, tá. Mas lembra: nada de safadeza, hein? — provocou Hoshinomiya-sensei, indo embora e deixando aquele comentário completamente desnecessário para trás.
— Desculpe. Ela é um problema — disse Chabashira-sensei.
— Tudo bem — respondi.
Chabashira-sensei não comentou nada sobre estar sendo investigada. Talvez fosse só um assunto pessoal entre elas. Não tinha relação comigo.
— Enfim, retomando o assunto. Eu queria saber qual foi a maior quantidade de pontos que alguém já gastou.
Chabashira-sensei assentiu, pensativa.
— Só posso falar pela minha experiência, mas foi quando alguém pediu para alterar uma regra da escola. Claro que dentro de limites realistas. Por exemplo, mudar o horário de início das aulas para evitar atrasos — disse ela.
Chabashira não deu exemplos concretos, apenas possibilidades teóricas.
— Pode me dar exemplos mais específicos?
— Você está insatisfeito com a minha resposta?
— Não, tudo bem. Eu entendo como o sistema funciona — respondi.
Dependendo de como usasse seus pontos, podia alterar até pequenos aspectos do sistema escolar. Em outras palavras, as possibilidades eram grandes. Os pontos privados tinham, de fato, um peso enorme.
— Você podia ter me mandado essa pergunta por e-mail. Não entendi por que quis que eu viesse até aqui.
— Se eu enviasse por e-mail, ficaria registrado. Eu queria evitar isso.
E deixei assim. Me virei e caminhei na direção oposta de onde Hoshinomiya-sensei havia ido. Ainda tinha perguntas, mas isso bastava por ora.
— Vou pedir um favor a você em breve — avisei.
Ao olhar para trás, vi Chabashira-sensei me encarando com desconfiança.
*
Era por volta das duas da manhã quando meu colega de quarto acordou silenciosamente. Tomando cuidado extremo para não despertar as outras três pessoas no quarto, Hirata deslizou para fora da cama. Como os alunos eram obrigados a dormir com o uniforme esportivo, ele saiu ainda vestido com ele.
Depois de confirmar que ele não estava indo ao banheiro, peguei meu cartão-chave e também saí da cama. Não havia garantia de que ele faria algum movimento hoje, mas parecia que meus esforços começavam a dar resultado. Quando ele percebeu que eu estava acordado, trocamos olhares — sem dizer uma palavra.
Sem desviar os olhos, fiz sinal de que precisava falar com ele. Ele disse que me esperaria no corredor. Então saiu.
Encontrei Hirata no hall, com uma expressão preocupada.
— Eu te acordei? Ou você já estava acordado? — perguntou.
— Já estava. Imaginei que você sairia hoje à noite — respondi.
— Por que pensou isso? É a primeira vez que saio do quarto nesse horário.
Tentar enganá-lo só teria o efeito contrário. Melhor ser direto.
— A Karuizawa entrou em contato com você, não entrou?
Hirata entendeu exatamente onde eu queria chegar — como esperado. Sua capacidade de compreensão era impecável.
— Você sabe de alguma coisa sobre isso? — perguntou.
— Bem, estou no grupo dela. Não sei o quanto ela te contou, mas entendi a situação.
Hirata esperou que eu continuasse. Considerando que eu o segui no meio da noite, provavelmente parecia urgente.
— Você disse que queria servir de ponte entre a Horikita e o resto da classe, certo? Isso tem a ver com isso — expliquei.
— Entendo. Então a Horikita-san pediu para você falar comigo, Ayanokoji-kun?
Ele acabou economizando metade do meu trabalho. Não precisaria explicar muita coisa.
— Ela me pediu para relatar tudo que acontece no grupo Coelho, incluindo o caso da Karuizawa. Quando ouvi sobre o que aconteceu com ela, a Horikita me pediu para ficar de olho em você também, Hirata. Para te seguir. Mas como você disse que queria ser essa ponte, achei que essa era a chance de fazer isso acontecer.
— Que tipo de informação ela quer? — perguntou.
— Tudo que você souber sobre a Karuizawa. E também o que conversou com ela.
Hirata provavelmente não entendia por que eu precisava de informações sobre Karuizawa, mas parecia compreender o peso daquilo.
— Sinceramente, não sei o que posso te contar. Preciso considerar os sentimentos da Karuizawa-san.
Dizendo isso, Hirata começou a andar. Decidi apenas segui-lo, sem pressa.
Mesmo tendo dormido por cerca de duas horas, meu cabelo não estava amassado. Eu normalmente não ligava muito para aparência, mas sabia que precisava me preocupar com isso quando estava com outras pessoas. Não queria deixá-las desconfortáveis.
— Ayanokoji-kun, tenho certeza de que você não vai dizer nada desnecessário, mas o que vou te contar é extremamente delicado. E pode ser que Karuizawa-san simplesmente se recuse a conversar e volte para o quarto. Entenda isso antes de tudo — disse Hirata.
Eu poderia espioná-los, claro, mas Hirata definitivamente não gostaria. Se Karuizawa o chamou no meio da noite, era porque não queria que ninguém mais ouvisse. Ele jamais aceitaria que eu escutasse escondido. O melhor era ser honesto.
O local do encontro era diante da máquina de bebidas perto da área de convivência do segundo andar. Ficar ali, no centro do corredor, permitia ver quem se aproximava. E também dificultava que alguém escutasse escondido.
Karuizawa já estava esperando, sentada no sofá com o uniforme esportivo. Quando viu Hirata chegando, sorriu imediatamente — mas ao notar que eu vinha um pouco atrás, sua alegria virou raiva. Ela se levantou.
— O que você tá fazendo aqui, Ayanokoji-kun?!
— Eu pedi para ele vir — disse Hirata.
— Pediu, Hirata-kun? Por quê? Eu disse que queria falar sozinha.
— Eu sei. Mas, Karuizawa-san, fiquei preocupado com o que você me contou antes. Achei que seria bom trazer o Ayanokoji-kun, já que ele entende a situação. Desculpe não ter te avisado antes.
Ela parecia contrariada, mas não a ponto de explodir com Hirata.
— Mas… eu disse que queria falar sozinha, só nós dois — insistiu.
— Se quiser, podemos ficar sozinhos. Mas quando conversamos antes, você não disse que precisava ser só nós dois.
Eu imaginava que isso tinha relação com o problema com as meninas da Classe C, mas queria ver como Karuizawa abordaria o assunto. Se fosse apenas para desabafar raiva, não precisava ser em segredo. Significava que ela não falaria se eu estivesse ali.
Talvez por impaciência, ou por achar que silêncio era inútil, Hirata decidiu adiantar o assunto.
— Você me contou que brigou com a Manabe-san da Classe C. É verdade? — perguntou.
Karuizawa abriu a boca para responder, mas hesitou ao notar minha presença. Hirata retomou a conversa.
— Ayanokoji-kun, você sabia sobre a briga com a Manabe-san e as outras?
— Mais ou menos.
Como a conversa não avançava, Hirata mudou a abordagem — passou a me fazer perguntas, talvez para forçar Karuizawa a falar depois. Ela parecia irritada, mas ouviu.
— Pelo que a Karuizawa-san me disse, parece que as garotas inventaram acusações. Levaram ela para um lugar isolado e começaram a pressionar por respostas. Estavam prestes a partir para a violência — disse Hirata.
— Sim. É tudo verdade. Eu vi. O Yukimura também viu — confirmei.
— Entendo…
Hirata fechou os olhos, pensativo. Eu me perguntava o que ele faria. Chamaria Manabe e suas amigas para conversar e repreendê-las? Ou reportaria ao colégio?
— Se a Manabe-san e as amigas dela foram violentas com você, precisamos agir. Eu não posso permitir violência — continuou ele.
Quando Karuizawa ouviu as palavras justas de Hirata, por um instante esboçou um sorriso. Mas, ao me ver olhando para ela, a expressão voltou a ficar zangada.
— Karuizawa, elas foram tão cruéis que você ficou completamente sobrecarregada e não aguentou, certo? — perguntei.
— Não.
Karuizawa tentou responder, mas aparentemente não conseguiu. Ficou apenas me encarando, sem dizer mais nada. Não pude mentir, então contei a Hirata o que eu tinha visto. Ao que parecia, Karuizawa e uma garota chamada Rika tinham tido um problema no passado. Manabe e as amigas queriam que Karuizawa se desculpasse. Mas então quase partiram para a violência contra ela. Hirata, depois de ouvir toda a história, assentiu como se eu tivesse preenchido algumas lacunas.
— Entendi. Então é por isso que você contou a mim — disse ele.
— Contou o quê? — perguntei.
— A Karuizawa-san me pediu para me vingar da Manabe-san e das amigas dela.
Não esperava ouvir algo tão perturbador. Por outro lado, do ponto de vista de alguém que fora ameaçado fisicamente, devia mesmo parecer uma situação de vida ou morte. Depois que Hirata falou, Karuizawa finalmente quebrou o silêncio.
— Por que você contou a ele? — perguntou.
— Porque isso não é a sua cara, Karuizawa-san. Você não é uma pessoa violenta — respondeu Hirata.
— Mas sua namorada está sofrendo, não está? Você deveria querer me ajudar.
— Sim, eu quero. Mas não acredito em olho por olho. Você sabe disso, não sabe?
As diferenças fundamentais entre eles começaram a se chocar.
— Vamos pensar com calma. Se possível, vamos tentar encontrar um jeito de conviver com a Manabe-san e as amigas dela — disse ele.
— Isso é impossível, não é? Quer dizer, elas me odeiam sem motivo nenhum. Por favor, você tem que entender! — implorou ela.
— Sem motivo? Isso não começou porque você teve um problema com a Morofuji-san, Karuizawa-san? — Hirata disse Morofuji, mas provavelmente quis dizer Rika — devia ser o sobrenome dela. Era impressionante quanta informação ele tinha.
— Mas eu... eu não tive escolha! A Shinohara e as outras estavam lá e—
— Então porque a Shinohara estava lá você não teve escolha? O que isso quer dizer? — perguntei.
— Cala a boca! — ela gritou. A voz ecoou pelo corredor. — Por favor, eu imploro. Me ajuda. Hirata-kun. Você disse que me protegeria, não disse?
— Claro que vou te proteger. Mas eu não posso machucar a Manabe-san e as amigas dela sem um motivo real. Vamos tentar resolver as coisas pacificamente, conversando.
— Eu estou te dizendo, não é possível! Se eu pudesse fazer isso, eu não precisaria da sua ajuda!
O que ela disse podia soar absurdo, mas eu entendi o que ela sentia. A posição de Karuizawa era mais perigosa do que eu imaginava. As coisas podiam muito bem terminar em violência. Por exemplo, aqui os alunos não podiam fumar, como em muitas outras escolas do mundo. Mas havia muitos estudantes que fumavam e se safavam. Nem tudo pode ser regulado por lei ou regras — o bullying era uma dessas coisas.
Hirata parecia preocupado com Karuizawa, mas também com Manabe e suas amigas. Ele queria pensar numa solução que resolvesse tudo de forma pacífica. Não tratava Karuizawa como sua namorada preciosa, mas como uma amiga.
— Não importa qual seja a razão. Não posso fazer o que você quer. Você é uma das minhas colegas de classe, Karuizawa-san. Se você estiver em apuros, eu vou te ajudar, te proteger. Mas eu não posso ferir outra pessoa por isso, mesmo que sejam da Turma C — disse ele.
— Mentiroso! Você disse que me protegeria! — ela gritou.
— "Mentiroso"? Você sabia desde o começo qual era a minha postura. — Ele se levantou. As próximas palavras que saíram da sua boca deviam pegar todos os alunos da Turma D de surpresa. — Eu te disse desde o início que nós não somos de verdade namorado e namorada. Não me importo de fingir que estamos ficando, mas definitivamente não vou travar uma guerra por você.
Ao que parecia, o relacionamento deles era uma grande mentira.
— O quê?! Por que você está dizendo tudo isso agora?! — Karuizawa ficou horrorizada com o que ouvira.
Entendi as intenções de Hirata. Parecia que ele usava Karuizawa para extrair informação como uma homenagem à Horikita. Pelo menos era essa a impressão.
— Porque precisamos de uma nova opção agora. Eu quero te ajudar — disse ele.
Ele não estava abandonando Karuizawa. Estava tentando ajudá-la, à sua maneira. Aproximou-se dela, que agora parecia realmente abalada, mas nem sequer tentou tocar seu ombro fino e delicado. Eu esperava que ele pelo menos fizesse isso.
— Então você está dizendo… que é melhor eu partir pra violência com elas? — ela perguntou.
— Não é isso que estou dizendo. Vou fazer o que puder para te ajudar. Quando amanhecer, pretendo conversar com a Manabe-san e as amigas dela. Vou dizer para pararem de te perseguir, Karuizawa-san. Você provavelmente não vai gostar, mas também direi que você vai se desculpar.
— Eu não quero! — Karuizawa tinha procurado Hirata para se vingar de Manabe e suas amigas, e isso revelava muito de sua verdadeira personalidade — seu eu real. Mais que tudo, Karuizawa estava com medo.
— Se for assim, então não posso te ajudar. Sinto muito.
Hirata estava calmo. Mesmo agora, mantinha a compostura. Mas ele também era extremamente confiável, e para alguém como Karuizawa, que dependia dessa confiabilidade, perdê-la era praticamente uma sentença de morte.
— Ayanokoji-kun, você tem alguma ideia? — perguntou Hirata. Parecia querer me empurrar para um papel mais ativo nessa história.
— Tanto faz! Se você não vai me ouvir, então eu não preciso de você! — Karuizawa arremessou a lata de suco que segurava pelo corredor. O conteúdo se espalhou, e o barulho ecoou longe.
— Nosso relacionamento acabou. Acabou! — gritou.
Com isso, Karuizawa nos abandonou e fugiu. Hirata parecia irritado não pelo fato de o relacionamento falso ter sido revelado, mas por não conseguir ajudá-la. Não demonstrou qualquer intenção de correr atrás dela. Ela não era a prioridade dele.
— Ayanokoji-kun. Eu tenho meus limites. Não posso fazer tudo. Por favor, entenda isso — ele disse.
Eu tinha planejado usar Hirata para extrair informações sobre Karuizawa. No entanto, parecia que ele havia me usado em vez disso, aproveitando a situação para me encarregar de salvar Karuizawa de seus problemas.
— Você disse que queria ser uma ponte para conectar as pessoas, mas isso é mentira, não é? Você é aliado de todo mundo.
— Sim. Eu sou aliado da Karuizawa-san, e também sou seu aliado, Ayanokoji-kun. No entanto, minhas prioridades podem mudar dependendo da situação. Você é muito mais capaz do que todos pensam — observou Hirata.
— Você me superestima demais.
— Sério? Eu sou bom em ler as pessoas. É por isso que eu entendo.
Eu queria perguntar mais sobre essa suposta habilidade, mas decidi que devíamos resolver o problema primeiro.
— Seu relacionamento com a Karuizawa parece ter sido só fachada. Isso é verdade? — perguntei.
— Quando você coloca dessa forma, parece que já suspeitava.
— Vocês estão juntos há quase quatro meses, mas o relacionamento não progrediu. Pensei que talvez vocês mantivessem algo puro e platônico, mas mesmo assim, vocês sempre mantiveram distância. Ainda se chamam pelos sobrenomes.
Mesmo que não tivessem se aproximado fisicamente, deveriam ao menos ter ficado mais íntimos emocionalmente. Mas o relacionamento de Hirata e Karuizawa não apresentava qualquer mudança — nem para melhor, nem para pior. Em um namoro, essa estagnação era esquisita demais.
— Você está certo. Nós não estávamos realmente namorando. Saíamos juntos porque achávamos necessário. Suponho que você considere isso contraditório — respondeu ele.
Ou seja, era uma relação de benefício mútuo. Nesse caso, quem dos dois havia proposto a ideia, e quem aceitara? Bem, isso era óbvio. Karuizawa tinha pedido a Hirata que fingisse namorar com ela, e Hirata apenas atendeu ao pedido. Com isso em mente, as ações dela faziam cada vez mais sentido.
— Os rumores começaram cerca de três semanas após o início das aulas. A partir daí, a popularidade da Karuizawa disparou — observei.
Algo semelhante tinha acontecido no Grupo Coelho. Ao se associar a Machida, Karuizawa pôde se impor mais agressivamente do que o normal, e sua influência aumentou. Para Karuizawa, Hirata era como um hospedeiro, e ela, o parasita. Ele fora uma ferramenta para elevar seu status social.
— Você fez o papel de namorado da Karuizawa para melhorar o status social dela.
Eu havia chegado à verdade. Em resposta, Hirata apenas sorriu. Achei que isso fosse tudo, mas percebi que ainda não explicava completamente a situação. Além disso, Hirata não tinha admitido que eu estava certo. Karuizawa usara Hirata e Machida para subir até o topo do sistema de castas da escola? Não, isso por si só não bastava.
Afinal, por que Hirata teria aceitado tão facilmente o pedido dela? Era exigir demais dele. A atitude agressiva de Karuizawa estava ficando mais descontrolada a cada dia. Ela se comportava cada vez mais como uma agressora.
Por que Hirata permitiria isso sem criticá-la? E mais: Karuizawa realmente queria apenas usar Hirata e os outros para subir? Eu duvidava. Não podia dizer que ela usara Machida apenas para ampliar sua influência. Na verdade, ela não demonstrava interesse algum no grupo — ficava a maior parte do tempo em silêncio. Talvez inicialmente ela nem tivesse planejado usar Machida.
Nesse caso, o que a levou a se aproximar dele? Eu sentia que começava a enxergar o verdadeiro eu de Karuizawa Kei.
— É para se proteger? — perguntei. Essa era a única resposta possível. Não havia como estar errado.
— Então você entendeu. Honestamente, quando ouvi você dizer isso, até me arrepiei — disse Hirata.
— Só ouvi isso da Horikita, nada mais. Ela disse que Karuizawa tinha seus motivos para se agarrar a você e aos outros.
Mas Hirata não era ingênuo o bastante para cair na minha desculpa.
— Ayanokoji-kun. Preciso ser honesto, mas… Bem, isso vai soar rude, mas eu sinceramente te acho meio estranho. Você meio que me deixa desconfortável. Desculpe se isso te ofende.
— Te deixo desconfortável? Por que você acha isso?
— Venho te observando desde o começo do ano. O Ayanokoji-kun daquela época e o Ayanokoji-kun de agora parecem duas pessoas diferentes. Sua presença, as palavras que você usa… É como se tivesse duas personalidades.
Hirata era assustadoramente perspicaz. Era natural que percebesse algo fora do comum.
— Eu já disse, é tudo por causa dos conselhos da Horikita. Eu já dei a ela um relatório detalhado sobre o meu grupo. Só estou seguindo as ordens dela. Igual aconteceu na ilha. A Horikita tomou as decisões certas e levou a Turma D à vitória. Graças a ela conseguimos tantos pontos. Quero dizer, isso também é bom para mim. Ela só é péssima em se comunicar com os outros, tem medo de tentar, sabe? Ela me disse para falar com você e reportar de volta.
Passei muito tempo com a Horikita. Por causa disso, o Hirata provavelmente não duvidaria das minhas palavras.
— Hum. Suponho que a Horikita-san deve ter decidido que salvar a Karuizawa-san vai dar vantagem para nossa turma — ele raciocinou.
— É.
— Mas eu acho que você é incrível, Ayanokoji-kun. Você é diferente do Ike-kun e do Yamauchi-kun.
— Eu sou pior do que eles.
— Mesmo que você esteja apenas seguindo as ordens da Horikita-san, é você quem está falando comigo agora, Ayanokoji-kun. Não é como se a Horikita te tivesse dado um roteiro com respostas prontas. Acho que você demonstra lógica clara e bem fundamentada. Isso não é algo que se finja ter.
O Hirata era mais esperto do que eu imaginava. Embora eu tivesse algumas reservas sobre seu desejo constante de salvar todo mundo, ele possuía habilidades extraordinárias.
— Você já disse isso, mas aceitei fingir ser o namorado da Karuizawa-san para que ela pudesse se proteger. Era isso que ela queria. Ela disse que queria que eu a salvasse. Pode ser difícil de imaginar, mas durante o ensino fundamental e o ensino médio ela foi vítima de um bullying brutal.
— Isso é mesmo verdade? — perguntei.
Então a hiperventilação de Karuizawa fora desencadeada por memórias do passado. Se ela sofrera um trauma tão profundo, isso explicava por que não conseguia se livrar do encontro anterior.
— Claro que só conheci a Karuizawa-san depois que ela começou a estudar aqui. Mas eu entendi. Pessoas que sofreram bullying exalam uma certa aura. Por isso aceitei namorar com ela. Assim, a Karuizawa-san poderia se libertar do passado usando sua posição como minha namorada. Não acho que a Karuizawa-san tenha nos mostrado sua verdadeira personalidade. Acho que ela está se esforçando para parecer durona.
Era por isso que ela mal controlava as emoções. Muitas pessoas que sofreram bullying tendem a ter personalidades dóceis e tímidas, como a Sakura. Por outro lado, quem demonstra confiança, agressividade e egoísmo — como a Karuizawa — normalmente são os agressores.
Portanto, a personalidade de Karuizawa era uma fachada. Uma frente. Por isso ela precisava de gente como Hirata e Machida. Com eles, conseguia adotar aquela postura assertiva.
— Espera. O que você ganhava com isso? — perguntei. O ensino médio é uma fase em que muitos vivem romances. Hirata era popular entre as garotas. Se fingisse namorar Karuizawa, não poderia se envolver com outra pessoa.
— O que eu ganhava? O fato da Karuizawa-san não estar sendo perseguida já bastava.
Não era hipocrisia nem amor. Ele não tinha impulsos egoístas.
— Eu sei que você não está convencido, mas esse foi o motivo — continuou ele.
— Acredito em você. Mas existe algum motivo mais profundo? — perguntei. Hirata não hesitaria em salvar um amigo, mas também considerava a Manabe e as outras amigas como amigas. A preocupação dele com os outros beirava o patológico.
Já que havia me contado tanto, Hirata provavelmente sentiu que precisava ver a história até o fim. Comprou algumas bebidas na máquina e me ofereceu uma, que aceitei com gratidão.
— Até o segundo ano do ensino fundamental eu era, por falta de termo melhor, um ninguém. Eu não me destacava em nada.
— Você, Hirata? Difícil imaginar.
— Bem, não diria que eu era completamente invisível. Tinha amigos. Tinha um amigo desde pequeno, um tal de Sugimura-kun. Ficamos na mesma turma por seis anos, durante o fundamental. Também éramos vizinhos. Íamos e voltávamos da escola juntos todo dia — disse Hirata, como se relembrasse algo passageiro.
— Quando entramos no ensino fundamental, pela primeira vez fomos colocados em turmas diferentes. No começo continuamos indo à escola juntos como sempre. Aos poucos, caminhávamos juntos cada vez menos. Comecei a sair só com os rapazes da minha nova turma. Essa história deve soar normal, suponho.
Era perfeitamente normal fazer novos amigos num ambiente novo. Nada de estranho nisso.
— Mas veja, enquanto eu fazia novos amigos, o Sugimura-kun estava sendo perseguido — Hirata apertou a lata que segurava. Eu entendi para onde aquilo caminhava. — O Sugimura-kun me pedia socorro repetidas vezes. Aparecia com cortes no rosto, com hematomas. Mas eu me importava mais em sair com meus amigos e nunca o levei a sério. O Sugimura-kun sempre foi cabeça-dura, brigava fácil. Eu não pensei muito no que estava acontecendo. Mas quando chegamos ao segundo ano, nos reunimos de novo. Nessa época, o espírito do Sugimura-kun estava destruído. Aquela personalidade alegre tinha sumido. Era natural depois de ser tão esmagado. Socavam e chutavam tanto que ele não conseguia nem ir ao banheiro; teve acidentes na sala.
— Então você viu isso e…
— É. Eu não fiz nada. Não pude. Tinha medo de me tornar o próximo alvo. Tinha medo de que minha vida nova e divertida fosse destruída. Então finji não ver o Sugimura-kun, meu amigo de infância. Arrumei desculpas convenientes para mim. Pensei que os agressores iam parar algum dia. Talvez quando o Sugimura-kun deixasse de ir à escola, o deixassem em paz. Ou talvez outra pessoa o ajudasse.
— E o que aconteceu com o Sugimura?
— Aquele dia ficou gravado na minha memória até hoje. Depois do treino de futebol da manhã, voltei à sala. Quando me aproximei, vi que o Sugimura-kun já estava lá, o rosto inchado. Decidi esperar um pouco antes de entrar. Para ser sincero, senti-me desconfortável. Tínhamos sido amigos que brincavam juntos desde pequenos, mas naquele momento parecia que éramos estranhos completos. Pensei: "Se eu me envolver com ele, também serei perseguido." Talvez o Sugimura-kun tenha visto o quão feio era meu coração. Ele não falou nada, mas era quase como se estivesse pedindo socorro. Aquele dia, ele pulou pela janela da sala — contou Hirata.
— Ele pulou? Ele morreu?
— Foi dado como morto cerebralmente. Mas até hoje os pais do Sugimura-kun acreditam que ele vai se recuperar. Estão esperando por ele. Aquele dia foi tão surreal que até hoje me pergunto se não foi alucinação. Eu não acreditava. Quando o Sugimura-kun pulou, percebi algo: ao focar egoisticamente nos meus próprios desejos, eu ajudei a empurrar um amigo precioso para a morte.
Esse incidente deu origem ao homem chamado Hirata Yousuke.
— Não acho que o Sugimura-kun possa ser salvo, mas eu quis me redimir. Acho que a única forma de fazer isso é salvar os outros — disse Hirata.
— Entendo o que você sente, mas o mundo não é tão simples, certo? Neste exato momento deve haver alguém sendo intimidado em algum lugar. E essa pessoa pode tentar tirar a própria vida, igual ao Sugimura-kun. Você não pode impedir tudo isso.
— Claro que eu sei. Não sou herói nem nada. Mas quero, no mínimo, salvar quem está perto de mim. Devo ajudá-los. Essa é a minha penitência pelo pecado que cometi — ele disse.
— E então o que você vai fazer? Quer salvar a Karuizawa e a Manabe, mas isso não é possível.
— Eu entendo isso. Provavelmente é por isso que você está aqui comigo agora — respondeu ele.
Aparentemente, Hirata sabia que ele mesmo era anômalo. De qualquer forma, ele era um homem em missão.
— Nunca pensei que contaria essa história a alguém. Ninguém aqui sabe a verdade. Foi por isso que escolhi esta escola — disse Hirata. Atirou a lata vazia de suco no lixo. — Você e a Horikita guardarão isso em segredo? — perguntou.
— Se você prometer não se envolver, tenho certeza de que a Horikita ficará calada — respondi.
— Então acreditarei em vocês dois. Nossas filosofias são parecidas.
Hirata prometeu não se envolver no caso Karuizawa. A partir daquele ponto, ele provavelmente recorreria a mim sempre que estivesse em apuros. Eu havia conseguido a cooperação dele, um poder que sempre quis. Tenho certeza de que ele também sentiu que ganhara algo.
— Hirata. Como você tem uma ampla rede social, tenho um favor a pedir.
Entreguei a Hirata um pedaço de papel. Ele leu e aceitou meu pedido sem sequer fazer cara de desagrado.
— Ah, Ayanokoji-kun. Tem mais uma coisa que eu estava escondendo de você. Sei a identidade do último VIP da Turma D.
*
No dia seguinte decidi agir, mas, de forma inesperada, a Sakura me chamara. Resolvi ir falar com ela.
— Parece que o teste acabou para o grupo Vaca — disse.
— É... — respondeu ela.
Chequei o e-mail que a Sakura, junto com os outros alunos, havia recebido da escola.
"O teste do Grupo Vaca está encerrado. Os alunos do Grupo Vaca não precisam mais participar. Por favor, não perturbem os demais estudantes."
Era exatamente o mesmo tipo de e-mail que recebemos quando o grupo Macaco terminou. Uma mensagem breve, desprovida de contexto. Sakura olhava para mim com inquietação nos olhos.
— Eu fiz algo de errado? — perguntou.
— Não, você não. Isso só significa que alguém do grupo Vaca informou à escola quem eles acreditam ser o VIP.
Deixando de lado a vez em que o Koenji exagerou e encerrou o teste do próprio grupo, no momento parecia que as pessoas traíam umas às outras por duas razões bem distintas: ou traíam com convicção, ou traíam por impaciência.
— Sakura, você foi o VIP? Ou foi outra pessoa? — Sakura sacudiu a cabeça rapidamente. — Não, eu não sou o VIP. Mas não tenho certeza sobre o Sudou-kun ou, hum, os outros — respondeu ela. Parecia não ter a menor ideia.
— Não pense demais. Eu também não sei quem é o VIP do meu grupo.
— Obrigada, Ayanokoji-kun. Fico feliz que você tenha me dito isso.
— Como estão as coisas na Turma A? Ouvi rumores de que nenhum deles está participando das discussões.
— Sim, é exatamente como o pessoal falou. Ninguém falou nada — disse Sakura.
O Katsuragi havia sido bastante meticuloso ao executar seu plano. Se isso fosse verdade, então a Turma C devia ter sido a responsável por desencadear essa nova sequência de eventos. Mas eu ainda tinha dúvidas. O Ryuen dizia que entendia as regras da escola, e eu tinha minhas próprias ideias. Ainda assim, era impossível ter certeza se eu estava certo.
Se eu interpretasse as regras por engano, a turma se auto destruiria e sofreria um dano enorme. Até agora, o teste não havia terminado para mais ninguém além do grupo Vaca — prova de que o Ryuen também não tinha uma resposta certa. À medida que nos aproximávamos do fim deste misterioso exame, muitos alunos provavelmente se sentiam perplexos.
— Se houver mais alguma coisa, me avise. Pode falar comigo a qualquer hora — disse eu a Sakura.
— Obrigada, Ayanokouji-kun. Até mais.
Despedi-me de Sakura, que acenou de forma adorável. Em seguida dirigi-me aos níveis inferiores do navio. Desci até o nível mais baixo, onde as pessoas geralmente não iam. Embora fôssemos proibidos de entrar ali, a área não estava trancada. A tripulação provavelmente a usava. Embora fosse possível acessar salas como a da central telefônica se necessário, via de regra ninguém ia lá.
Não havia ninguém para responder se você chamasse, por mais alto que gritasse. Incluindo a entrada normal, só havia duas maneiras de entrar ou sair da sala. A outra via era uma porta que levava à escada de emergência, mas os trabalhadores aparentemente não a usavam.
Pelo pó, deu para perceber que não era usada há muito tempo.
Se eu apenas vigiasse a entrada principal, poderia monitorar a situação por completo.
Outra coisa conveniente era que os telefones pegavam quase nada ali. Embora às vezes desse para pegar um sinalzinho, enviar e-mails ou conversar era um pé no saco, e era praticamente impossível fazer uma ligação.
— Todas as peças estão no lugar — murmurei.
Só precisava garantir que tudo acontecesse na ordem certa. Primeiro, eu contataria o Hirata, e então ele ligaria para a Karuizawa. Como queria adiar as coisas um pouco, provavelmente pediria que ele a chamasse com uma hora de antecedência. Voltei aos decks superiores para fazer a ligação.
Depois da nossa conversa na noite anterior, pensei que o Hirata estaria especialmente em guarda. Mas sabia que, se ele ligasse para a Karuizawa e dissesse que queria falar com ela a sós, ela atenderia. Karuizawa dissera que estava terminando com o Hirata, mas seria ela a sofrer se isso acontecesse. Com a Manabe e suas amigas em ataque, Karuizawa precisava do Hirata para protegê-la na escola.
Recebi uma mensagem do Hirata. "Combinei de encontrar a Karuizawa-san às 16h. Vou te mandar as informações da Manabe-san."
Como esperado, Hirata havia cumprido seu papel com perfeição. De bônus, ele ainda tinha o contato da Manabe, mesmo ela sendo de outra turma. Se ele não tivesse, eu teria que correr o risco de pedir isso à Kushida. Isso me poupou um enorme trabalho.
Outra mensagem chegou: "Preciso te dizer… não quero deixar a Karuizawa-san triste."
— Você não quer deixá-la triste, é?
Se ele soubesse o que eu estava prestes a fazer, ficaria furioso. Mas isso não era problema meu. Mesmo que ela desabasse agora, estaria tudo bem desde que ele não descobrisse. É um exemplo extremo, mas mesmo se você cometer um assassinato, não pode ser condenado sem provas.
Eu digitei rapidamente uma mensagem e enviei: "Tem um minuto?"
A mensagem era curta, inofensiva. Normalmente, apps de chat permitem apenas uma conta por celular. No entanto, havia uma forma de contornar isso. Criando outra conta principal em uma rede social, o dispositivo podia armazenar uma segunda. Poucos estudantes dividiam suas contas em principal e secundária. A vantagem era mínima. Mas, ao criar uma conta nova, eu podia contatar terceiros sem revelar minha identidade.
Eu precisava proceder com cuidado. Se não cometesse erros, tudo sairia bem. Apesar de a Manabe ter recebido uma mensagem anônima, respondeu imediatamente.
"Quem é?"
Natural que perguntasse.
"Tem alguém aí com você?"
"Tô sozinha, mas quem é você?"
"Não mostre isso pra ninguém. É pro seu próprio bem."
"Olha, quem é você?"
"Digamos apenas que eu odeio a mesma pessoa que você."
Ela visualizou a mensagem, mas demorou a responder.
"Tem certeza de que não é engano?"
"Não é engano, Manabe-san. Quero falar sobre a Karuizawa-san, a pessoa que você odeia. Achei que poderíamos conversar sobre isso."
"Não sei do que você está falando. Pare de me mandar mensagens."
Ela parecia desconfiada, imaginando que eu pudesse ser um inimigo. Natural. Primeiro eu precisava conquistar a confiança dela.
"Sou colega de classe dela, e é difícil lidar com ela faz tempo. Quero me vingar, então achei que podíamos trabalhar juntas. Como estou na Turma D, não posso agir diretamente. Por isso quero sua ajuda."
"Não sei do que você está falando. Vou te ignorar."
Mesmo desconfiada, ela não encerrou a conversa. Isso mostrava o quanto a Karuizawa fazia seu sangue ferver. Era por isso que queria vingança pela amiga Rika. Pelo modo como havia arrastado Karuizawa para as escadas de emergência, o ódio dela era evidente.
"Rika-chan ainda está com medo da Karuizawa-san até agora. Você não quer ajudar ela? Dá pra ver no seu rosto que você quer vingança. Mas mesmo que quisesse, você não conseguiria, certo? Depois do que aconteceu ontem, a Karuizawa-san está super cautelosa. Não vai se afastar do Hirata-kun ou do Machida-kun por um tempo. E vai estar sempre com outras meninas, nunca sozinha."
"Não preciso da sua ajuda. Só preciso que a Karuizawa fale com a Rika. Aí vamos saber a verdade."
"Será mesmo tão simples? Não imagino ela admitindo que mentiu. Na verdade, ela provavelmente diria algo horrível e machucaria ainda mais a Rika. Ah, e tem mais. Se a Karuizawa estiver guardando rancor, pode acabar intimidando a Rika de novo."
"O que eu faço, então? Você tá dizendo que tem um jeito?"
O desejo de resolver a situação era evidente.
"Se trabalharmos juntas, podemos nos vingar com segurança."
"Que garantia eu tenho? Parece que você quer me atrair para uma armadilha e depois dedurar pra escola. Isso tem cara de conta secundária."
"Se acha que estou tentando te entregar, mostre esse chat pros professores. Você sabe que só dá pra registrar contas nos celulares da escola. Eu estou arriscando ser identificada dizendo que quero vingança da Karuizawa-san. Sou eu que estou pondo meu pescoço na linha. Tô errada?"
Manabe certamente entendeu. Nem uma conta secundária era totalmente segura. Se eu fosse exposto, receberia o castigo mais pesado.
"E se eu mostrar isso pra escola? Aí acabou pra você."
"Não acho que você seja do tipo que faria isso, Manabe-san. Confiança só existe quando alguém dá o primeiro passo."
"Tá bom. Vou te ouvir, pelo menos."
Depois disso, contei histórias familiares — sobre como eu "odiava" a Karuizawa, como queria "fazer algo mas não podia", como ouvi por acaso sobre o confronto entre elas e resolvi entrar em contato. Interpretei bem o papel da vítima.
Assim que voltássemos à terra, seria difícil contatar a Karuizawa diretamente. A escola e os dormitórios tinham câmeras. Mesmo se tentasse levá-la a algum lugar privado, provavelmente seríamos vistos. O navio oferecia a ocasião perfeita. Fiz Manabe entender que a vingança só era possível ali. Fui, pouco a pouco, alimentando sua raiva.
"Então, o que eu faço?"
Agora que Manabe entendia, finalmente revelei meu plano:
"Vou ligar pra Karuizawa-san. Aí você conversa com ela com calma e resolve as coisas."
Depois disso, enviei um mapa do nível mais baixo do navio.
"Como não tem sinal lá embaixo, ela não consegue pedir ajuda. E ninguém aparece por lá."
"Entendi, entendi. Então como você é colega dela, consegue chamar a Karuizawa-san?"
"Quero que você me diga agora se vai seguir o plano. Depois que eu ligar pra Karuizawa-san, você decide se vai se vingar. Assim não tem problema, certo?"
Ela demorou bastante — a resposta mais demorada até então. Finalmente, a mensagem apareceu. E então tive certeza de que meu plano daria certo.
Se eu não a convencesse pelo chat, tinha outro plano pronto, embora fosse arriscado: entrar em contato diretamente. Eu havia tirado fotos dela ameaçando a Karuizawa na escada de emergência; poderia chantageá-la com isso. Mas os riscos eram enormes. Eu queria evitar atrair atenção para mim a qualquer custo.
— Muito bem. Vamos ver do que a Manabe e suas amigas são capazes.
*
Às vezes, um ruído profundo e pesado ecoava pelo nível escuro. Talvez fosse o som do navio mudando de curso, ou de ter esbarrado em algo. Eu não tinha certeza. Mas uma garota solitária veio até ali, um lugar onde tudo o que se ouvia eram máquinas funcionando.
— O que está acontecendo? Não consigo conectar… Não tem sinal.
Ainda faltavam mais de dez minutos para o encontro marcado com Hirata. Talvez ela tivesse chegado cedo para se acalmar. Ao perceber que não conseguiria usar o celular, guardou-o no bolso e se apoiou na parede, aparentemente entediada. Fechou os olhos e abriu levemente a boca, murmurando algo para si mesma.
Ela falava tão baixo que eu não podia ouvir nada. O que estaria dizendo? Infelizmente, Hirata não escutaria. Quando deu quatro horas, a porta se abriu. Ouvi o som opaco do metal. Três garotas da Turma C entraram — Manabe e suas amigas. E… havia outra pessoa com elas.
Parecia tímida, como a Sakura. Provavelmente era a Rika.
— Vai ficar tudo bem — disse Manabe. Então ela avistou Karuizawa. Naturalmente, Karuizawa também às notou.
— O-O que vocês estão fazendo aqui?! — perguntou, tremendo.
Os corredores estreitos do navio não ofereciam muitas rotas de escape. Fugir seria difícil.
— Eu só vi você entrando aqui, só isso. Bem, suponho que seja a oportunidade perfeita. Deixa eu te apresentar. Esta é a Rika. Lembra dela, Karuizawa-san? — perguntou Manabe.
Manabe puxou Rika, que se escondia atrás dela, trazendo-a para frente. Agora estavam cara a cara. Karuizawa desviou o olhar, fingindo não reconhecê-la, mas seu comportamento deixava claro que lembrava sim.
— Ei, Rika. Foi a Karuizawa-san quem te empurrou, não foi? — perguntou Manabe.
— Sim, foi ela — respondeu Rika.
Após ouvir uma resposta tão clara, Manabe sorriu, radiante. Karuizawa, por outro lado, parecia cada vez mais ansiosa e confusa. Tudo o que eu podia fazer agora era observar em silêncio o desastre prestes a acontecer. Mesmo que Karuizawa fosse submetida a algo pior do que eu imaginava, eu não tinha a menor intenção de salvá-la.
— Peça desculpas para a Rika — ordenou Manabe.
— Hmm? Por que eu pediria desculpas? Eu não fiz nada de errado — disse Karuizawa.
— Ainda bancando a durona. Você é um caso perdido mesmo, hein? Mas acho que agora entendi, mais ou menos — retrucou Manabe.
— Entendeu o quê? — perguntou Karuizawa.
— Seu comportamento. Você é medrosa demais. Karuizawa-san, você sofreu bullying, não foi?
— O quê—?!
Ela tentava esconder a verdade, mas o passado a alcançara.
— Acertei em cheio, não foi? Eu sabia. Percebi desde o começo — continuou Manabe.
— N-Não, você está errada! — negou Karuizawa, mas sua voz era fraca.
Mesmo que fosse uma excelente atriz, isso não adiantava. Não é como se Manabe tivesse grande percepção. Ela sabia porque eu já havia contado tudo antes. Contei que Karuizawa sofrera bullying cruel desde a infância. Que carregava um trauma profundo.
— Se ajoelhar agora e implorar, talvez eu te perdoe. Que tal? Aposto que você é boa nisso, né? Se ajoelhar? — zombou Manabe.
— N-Não, eu não vou! Nunca fiz esse tipo de coisa! — gritou Karuizawa.
Karuizawa tentou passar por Manabe, mas ela agarrou seus longos cabelos e a puxou de volta, batendo-a contra a parede. Manabe tinha certeza de que o palco para sua vingança estava montado, então eu não podia controlá-la mais. Eu só prometera que ela "encontraria" a Karuizawa, afinal.
Ela deveria ter hesitado antes de usar violência. Mas, ao finalmente ter a chance de ficar sozinha com Karuizawa, abriu mão de qualquer contenção. Como suas amigas esperavam que ela revidasse, eu não imaginava que aquilo terminaria antes de ela descarregar uma boa quantidade de punição — exatamente o que eu pretendia.
Era como o experimento de Milgram, um estudo psicológico de 1960. Também chamado de experimento Eichmann, foi conduzido em uma instalação isolada com dois grupos de pessoas. Um fazia o papel de "professor"; o outro, de "aluno". Primeiro, o professor — o sujeito real do experimento — aplicava um choque elétrico fraco no aluno, para que ele associasse dor e medo. O aluno era colocado separado por um vidro, e o aparelho para receber o choque ficava com ele. O professor ficava com o interruptor para administrar o choque.
Em seguida, o responsável pelo experimento instruía o professor a aplicar uma série de perguntas ao aluno. Toda vez que o aluno errasse, o professor devia aplicar o choque — aumentando a voltagem a cada erro. O aparelho podia chegar a mais de 450 volts, força suficiente para matar. Já o primeiro choque tinha apenas 45 volts, algo como uma leve coceira.
O professor podia ouvir a voz do aluno. A cada choque, ouvia seus gritos de dor. Contudo, o professor não sabia que o aparelho no lado do aluno era falso. O aluno só fingia estar recebendo os choques. Mesmo assim, os gritos iam se intensificando conforme a voltagem "subia". Até que, eventualmente, o aluno ficava em silêncio.
O professor não era ameaçado. Era informado de que seria recompensado e que podia desistir a qualquer momento. Ainda assim, quase 66% deles aumentaram a voltagem até níveis supostamente capazes de matar alguém. O experimento demonstrou que, dependendo das circunstâncias, qualquer pessoa é capaz de extrema crueldade e brutalidade.
— Ai, ai! Tá doendo! Me solta! — gritou Karuizawa.
Ela chorava ao ter o cabelo puxado, implorando, mas Manabe apenas ria, como se estivesse se divertindo. Ali, no nível mais baixo do navio, um ambiente fechado, Manabe era a "professora" e Karuizawa a "aluna". Eu havia preparado o cenário perfeito para algo semelhante ao experimento de Milgram. Mesmo que as condições não fossem idênticas, pela relação que as duas tinham, a situação era praticamente a mesma. Ver Karuizawa sofrer — especialmente depois de sua postura arrogante — devia ser delicioso para elas.
— Agh! — gritou Karuizawa.
— Uau, Shiho. Não acha que está batendo demais? Nossa, você é cruel — comentou uma das amigas.
Manabe continuou acertando o joelho no estômago de Karuizawa. Claro, ela não tinha prática em bater em alguém, então seus movimentos eram lentos e desajeitados. Não deveria doer tanto. Mas a dor de Karuizawa era a maior recompensa de Manabe.
Animada, ela convidou Rika a participar. Rika estava um pouco afastada, observando ansiosamente.
— Vamos, Rika. Tenta você também — incentivou Manabe.
— N-Não. Eu tô bem assim — respondeu Rika.
— Estamos fazendo isso por sua causa, lembra? Anda, não tem ninguém por perto — insistiu Manabe.
Rika queria recusar, mas isso não era permitido naquele momento. Quando uma amiga te pressiona e incita, é difícil continuar dizendo não. Rika sabia que, se irritasse Manabe, poderia virar o próximo alvo.
— T-Tá bom. Eu tento.
Ouviu-se um tapinha fraco, patético. Pap.
— A-Assim? — perguntou Rika.
— Não, não, assim não presta. Tem que colocar mais força. Assim.
Whap! O som ecoou pela sala. Karuizawa claramente sentiu dor com aquele tapa.
Rika então começou a bater de novo, e de novo, conforme Manabe mandava. Seus golpes ficaram gradualmente mais fortes.
— P-P-Parem! — implorou Karuizawa.
— Haha! Isso é divertido! Haha!
Na verdade, talvez fizesse mais sentido enxergar Rika como o verdadeiro "Professor" do experimento de Milgram.
— Por favor, me perdoem! — suplicou Karuizawa.
Vê-la daquele jeito devia ser eufórico para Manabe e as outras. Rika começou a socar e chutar com força, tanto que era difícil acreditar que ela já tivera medo. Embora deixasse marcas visíveis no rosto de Karuizawa, ela se focava principalmente em locais difíceis de ver — debaixo do uniforme, sob os cabelos.
Karuizawa caiu no chão, tomada pelo medo, lágrimas escorrendo pelo rosto.
Eu me movi sem fazer barulho. Abri a porta devagar, tomando cuidado para que Manabe e suas amigas não percebessem. Elas continuariam descontando sua frustração em Karuizawa por mais um tempo — e eu não me importava nem um pouco.
Afinal, quando algo é totalmente destruído, economiza-se tempo e esforço na hora de reconstruí-lo. Fechei a porta silenciosamente e deixei de ouvir os gritos de Karuizawa.
*
Depois de confirmar que a Manabe e as amigas tinham ido embora, entrei na sala. Karuizawa devia ter ouvido a porta abrir, mas continuou encolhida no chão, chorando. Talvez não tivesse percebido minha entrada de tão dominada pelo medo. Então era assim que a líder das meninas, tão arrogante e mandona, realmente era?
Graças aos conselhos que dei à Manabe e às outras, o uniforme de Karuizawa — e as partes do corpo normalmente visíveis — pareciam intactos. Se tivessem rasgado o uniforme ou cortado o cabelo dela, seria difícil para as garotas da Turma C escaparem ilesas. Embora o bullying fosse comum, o sistema único da escola tornava muito mais difícil sair impune.
Se havia algo preocupante, eram as bochechas dela, avermelhadas pelos inúmeros tapas. Mas as marcas sumiriam até amanhã.
— Karuizawa.
Ao ouvir meu chamado, ela finalmente me notou. Levantou o rosto.
— P-Por que v-você…? — gaguejou.
Eu não deveria estar ali. Ser vista naquele estado a deixou desesperada, mas não dava para simplesmente parar de chorar e fingir que nada acontecera.
Ela acabaria se acalmando. Acabaria parando de chorar. Mas se eu saísse agora, o que eu queria que acontecesse não ocorreria. Permaneci ali, em silêncio, esperando. Depois de um tempo, os soluços dela diminuíram, e ela começou a recuperar o controle.
Quando duas pessoas ficam sozinhas num ambiente fechado e escuro, uma certa intimidade natural se cria. Mesmo que normalmente se odeiem, a distância psicológica diminui.
— Já se acalmou um pouco?
— Um pouco.
Karuizawa ainda não se levantou. Limpou as lágrimas com a manga do uniforme. Estendi a mão para ajudá-la, mas ela não moveu a dela.
— Onde está o Hirata-kun? — perguntou.
— Parece que ele deveria se encontrar com você aqui. Aposto que algum professor chamou ele. Eu estava com ele quando mencionou você, então vim no lugar dele.
Essa explicação era suficiente para convencê-la e evitar perguntas indesejadas. Não havia motivo para dizer a verdade agora. Primeiro, eu precisava fazê-la relaxar, depois preencher as rachaduras em seu coração.
— Por que você estava chorando? — perguntei.
— A Manabe e as amigas dela… Eu não vou deixar isso barato.
Karuizawa começou a tremer ao lembrar o que fizeram. Mesmo que não quisesse mostrar esse lado patético, o trauma era profundo demais para que ela conseguisse ocultar a dor.
— Você precisa manter isso em segredo. Se alguém descobrir, eu nunca vou te perdoar — avisou ela.
A fraqueza de Karuizawa era simples: ela não suportava ser vista como vítima. Se a violência de Manabe e suas amigas viesse à tona, a escola inevitavelmente revelaria detalhes sobre o que aconteceu — e por quê. Para proteger seu status social, ela não podia permitir isso. Por isso planejava usar Hirata para conter Manabe e companhia.
— Você sabe, você poderia se vingar da Manabe e das outras. Já que são meninas, até alguém como você conseguiria ganhar delas — sugeriu ela.
— Esse pedido é absurdamente insano — respondi, sem expressão.
— O quê? Está com medo de encarar a Manabe e as amigas dela? E você ainda se diz homem — provocou.
— Se você as atacar, acaba tudo. Pelo que aconteceu com o Sudou, você já devia saber que não é simples assim. Não entendeu? Olho por olho não resolve nada. As coisas só vão piorar. A escola vai investigar e chamar todo mundo. Você não quer isso, certo, Karuizawa?
— Então você vai só deitar e aceitar? — retrucou ela.
Eu sabia o que responder, mas decidi ficar em silêncio.
— Mas elas vão… vão continuar fazendo coisas horríveis comigo — murmurou Karuizawa.
Ela começou a tremer de novo. De fato, não havia garantia nenhuma de que Manabe pararia. Na escola, Karuizawa até tinha meios de fugir, mas não poderia brincar de esconde-esconde para sempre. E cedo ou tarde seus colegas perceberiam mudanças no comportamento dela.
Karuizawa queria desesperadamente resolver aquilo. E eu estava esperando exatamente esse desespero.
— Seria terrível se as coisas voltassem a ser como eram no passado. Eu entendo que você quer evitar isso — falei.
— Hã? O que você está falando?
Karuizawa já devia estar juntando as peças. Mesmo que fosse óbvio como eu sabia que Manabe a tinha intimidado, outra pergunta deveria surgindo agora: como eu sabia sobre seu passado?
— Eu quis dizer exatamente o que disse. Você conseguiu escapar entrando nesta escola prestigiada e subindo até o topo da Turma D. Mas, no fim, você não mudou. Continua sendo aquela garotinha que sofria bullying.
— D-D-Do que você está falando?! — gritou ela.
— De você, Karuizawa.
Eu agarrei seu braço e a forcei a ficar de pé.
— W-Wha, o que você está fazendo?!
Eu a pressionei contra a parede e a forcei a me olhar nos olhos.

— A Manabe te atormentou agora há pouco, não foi? Ela e as amigas puxaram seu cabelo e deram tapas no seu rosto. Chutaram seu peito, seu estômago, não chutaram? É por isso que você acabou assim: miserável, patética, chorando no chão.
— Que…?
Nossos olhos se encontraram. Ficamos nos encarando como se estivéssemos sendo sugados um pelo outro. É claro que não havia nenhum traço de amor ali. Apenas escuridão.
— Você sofreu bullying desde pequena. Foi uma vítima durante todo o ensino fundamental e o ginásio. Quis agir como alguém durona para parar de ser intimidada. Estou certo?
— V-Você ouviu isso… do Hirata-kun?
— Hirata é aliado de todos, para o bem ou para o mal. Ele vai ajudar você, como ajudaria qualquer um. Mesmo que você tenha conseguido sua posição na Classe D fingindo ser a namorada do Hirata, ele não vai servir para nada em situações como esta. Ele não é um anfitrião bom o bastante para um parasita como você.
Karuizawa era muito mais esperta do que as pessoas pensavam. Ela tinha tomado cuidado para não exagerar no grupo dos Coelhos justamente porque entendia a postura neutra do Hirata. Provavelmente foi por isso que ela agiu tão contida no começo. Porém, como forma de exibir seu status, ela acabou arranjando briga com a Rika, o que levou a essa situação atual.
— O que você… Por que você está fazendo isso, hein?!
— Por quê? É óbvio, não é? Você precisa entender a sua situação. Não sabe quem está na sua frente agora? Não é o Hirata; sou eu. Eu sei de tudo. Sei do seu passado. Sei do seu relacionamento falso com o Hirata. Sei até que a Manabe e as amigas dela torturaram você até fazê-la chorar.
Eu sabia tudo o que Karuizawa Kei queria esconder. Eu tinha o coração dela em minhas mãos. Agora, eu decidiria se ela viveria ou morreria.
— Se você não fizer o que eu disser, posso expor você — acrescentei. Karuizawa entendia melhor do que ninguém o quão aterrorizante aquilo era.
— N-Não brinca comigo! Quem você pensa que é?! — gritou ela.
— Alguém que sabe a verdade. Nada mais, nada menos.
Aproximei-me tanto que nossos rostos quase se tocaram. Quando ela virou o rosto, tentando desviar o olhar, segurei seu queixo e a forcei a me encarar. Ela queria olhar para longe, mas com a força de um homem pressionando-a, não conseguiu se mover. Fechou os olhos, como se tentasse fugir do meu olhar.
— O que… o que você quer de mim?! Você só está atrás do meu corpo, não é? — ela gritou.
— Do seu corpo, hein? Sabe, isso não parece tão ruim.
Passei a ponta dos dedos pelas coxas de Karuizawa. Ela era tão incrivelmente macia que eu nem conseguia imaginar que fosse uma pessoa como eu. Sua pele era suave como seda. A sensação era completamente diferente da minha.
— Eek!
Ela tentou fugir do meu toque. Apertei-a com mais força e obriguei-a a olhar direto para mim.
— Não fuja. Se tentar de novo, vou contar a todos na escola o que sei sobre você.
Aquelas palavras foram como um feitiço. Ela ficou rígida.
— Você… Grr… — ela resmungou.
Raiva, pânico, medo, desespero: quantos sentimentos negativos Karuizawa carregava? Agora ela percebia que eu era completamente diferente da pessoa dócil que conhecia na escola. Provavelmente achava isso aterrorizante.
— Abra as pernas — ordenei.
Karuizawa abriu as pernas lentamente, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. Mesmo sabendo que estava prestes a ser violada, ainda queria proteger sua posição. A dor que sentira ao longo dos anos sendo intimidada tinha vencido. Coloquei a mão no meu cinto e fiz de conta que o mexia. Ainda assim, Karuizawa não fugiu. Ela tentava aceitar aquilo. Olhou para mim com olhos vazios.
Não havia dúvida. Karuizawa Kei tinha se tornado uma ferramenta perfeita para mim. Eu não me importava realmente com o corpo dela; só precisava ameaçá-la para ver até onde ela iria, o quanto faria. Ela provavelmente entendia isso.
Revelar meu verdadeiro eu para ela era um grande risco. Se Karuizawa me denunciasse para a escola, eu estaria em enorme apuros. Entretanto, ela temia seu passado e perder seu status social atual mais do que qualquer outra coisa. Por isso, iria tão longe a ponto de oferecer seu corpo se alguém pedisse, contanto que protegesse seu segredo.
— Eu nunca vou me curvar a você. Não vou ser intimidada por alguém como você. Você só quer brincar comigo! Acha que pode fazer o que quiser, seu pervertido?! — ela gritou.
Karuizawa rugiu de raiva, como se isso estivesse vindo do fundo de seu coração.
— Bem, tanto faz. Não é como se fosse a primeira vez que alguém usa força contra mim. Então. Você sabia disso também? Como acha que devo agir numa situação impossível? — perguntou ela. Ainda tremendo, deu um sorriso fraco e me encarou com uma escuridão intensa nos olhos.
— Depois de um tempo, desisti de resistir. É isso mesmo; eu era vítima de todos. Fiquei fria, robótica. Eu podia chorar, gritar, espernear, mas não adiantava. Eu não podia fazer nada. Tudo que podia era aguentar.
Karuizawa, como se já tivesse aceitado tudo, levantou a saia e tocou a própria calcinha. Segurei seu braço fino e a empurrei contra a parede.
— O que aconteceu com você? — perguntei.
— O que aconteceu? De tudo um pouco. Qualquer coisa e tudo. Enfiavam tachinhas nos meus sapatos ou enchiam minha mesa com animais mortos. Quando eu ia ao banheiro, jogavam água suja em mim. Escreviam palavras como "vagabunda" no meu uniforme. Puxavam meu cabelo, me socavam e me chutavam. Basicamente qualquer coisa que você puder imaginar. Eu fui intimidada de todas as maneiras. Incontáveis vezes. O que acabei de contar é só uma fração do que vivi. E isso eram as formas "mais leves", também. Dá até vontade de rir. Então, por que você não está rindo? Por que não ri da perdedora patética que foi intimidada a vida inteira?
Mesmo depois de tudo que sofreu, ela ainda se levantou. Parecia pronta para lutar de novo. Sua resiliência a motivara a entrar nesta escola. Ainda assim… as experiências que ela havia relatado não eram suficientes para explicar tudo.
— O que mais você sofreu? — perguntei.
— Hã?
— Você me contou toda a verdade?
Eu acreditava que algo crucial tinha quebrado o espírito dela antes de tudo isso. Tinha de haver algum outro motivo por trás de seu medo anormal, algo que Karuizawa queria esconder tanto que valia até entregar o próprio corpo.
— O que você está escondendo?
— Q-Qué…?
Karuizawa virou o rosto para longe de mim e baixou os olhos, olhando para o lado esquerdo do próprio corpo. Eu, claro, percebi. Estendi a mão e toquei aquela parte, por cima do uniforme.
— P-Para! — ela gritou. Os gritos dela ecoaram dentro das paredes fechadas da sala. Agarrei o uniforme e o ergui. Ali, em sua pele bonita, havia uma cicatriz horrível. Uma cicatriz profunda, feita por uma lâmina afiada.
— É isso? Essa é a sua escuridão?
— U-Ugh!
Isso não era resultado de bullying comum. Uma cicatriz séria como aquela vinha de um ataque que ameaçava a vida. Mesmo carregando aquele passado terrível, ela continuou firme. Ela se reergueu. Nos últimos dias, eu havia observado Karuizawa Kei com atenção. Para se proteger, ela forçava as pessoas a se tornarem suas aliadas. Protegia seu status, mesmo que isso significasse ser odiada.
— O desespero vem de muitas formas. E você já experimentou o desespero. Não é? — perguntei. Os olhos sombrios de Karuizawa encontraram os meus. Pessoas que carregam escuridão são atraídas umas pelas outras. Lentamente, elas se corroem mutuamente. Quem esconde uma escuridão profunda aceita facilmente a escuridão dos outros.
— O-que você… você… — ela gaguejou. Se o passado a mantinha presa, então eu tinha de libertá-la à força de suas correntes. Mesmo que não fôssemos próximos, eu podia sentir a escuridão dela, através de sua pele. Sim. Havia coisas profundamente sombrias neste mundo que nem Karuizawa ainda conhecia.
— Prometo uma coisa. De agora em diante, vou protegê-la do bullying. Vou ser muito mais confiável que Hirata ou Machida — disse.
— Espera. Você quer dizer que consegue impedir a Manabe e as amigas dela? — ela perguntou.
— Agora, você precisa entender o que estou dizendo. Se o vento sopra, uma chama pequena se apaga. Mas uma chama maior só cresce. Fica tão forte que não se apaga nem diante de ventos violentos ou chuva pesada. Você vai me ajudar, e eu vou ajudar você. Gentileza não tem nada a ver com isso. Você tem algum problema com esse arranjo?
— Primeiro de tudo: vou eliminar suas ansiedades — acrescentei. Tirei meu celular do bolso. — Tenho um jeito de parar a Manabe e as amigas dela.
Mostrei o telefone. Na tela havia uma foto de Karuizawa sendo intimidada na escada de emergência.
— Isso é — ela começou.
— Se eu mandar essa foto para elas, não vão mais se empolgar. Se ainda decidirem incomodar você, talvez espalhando rumores, então eu vou intervir e acabar com isso. Com isto aqui.
Para Manabe e suas amigas, aquele incidente já deveria ter sido o suficiente. Se elas se empolgassem demais e tentassem machucar Karuizawa de novo, acabariam causando problemas para Ryuen. E então seriam elas as prejudicadas. Soltei o queixo de Karuizawa e falei num tom plano, sem emoção.
— Tudo o que eu quero é que as pessoas cooperem comigo. Quero que você me auxilie no futuro, fazendo o que eu precisar.
— O quê? Ajudar? O que você quer que eu faça?
— Se continuarmos assim, a Classe D nunca ultrapassará a Classe A. Embora os alunos individualmente não sejam incapazes, nos falta unidade. Nossa classe está dispersa. No entanto, se você controlar as garotas para mim, a situação vai melhorar aos poucos.
Sua influência social tornava-a uma aliada ainda mais valiosa que a Horikita.
— O que você está tentando…
Até agora, ela só me via como um cara comum, irrelevante. Ver meu verdadeiro eu deve tê-la assustado. Mas eu já tinha terminado de explicar. Além disso, quanto menos eu falasse, mais assustador pareceria. E menos ela resistiria.
— Agora, a primeira coisa que preciso. Temos que guiar nosso grupo à vitória neste exame.
— Como eu deveria ajudar a guiá-los para—
— Você pode, porque você é… Certo?
Embora eu não tenha dito a palavra-chave, Karuizawa parecia saber qual era. Ela me encarou nos olhos. A verdade ecoou fundo dentro dela, em seu coração. Ela tentou parecer confusa, mas aquilo era apenas atuação. Afinal, um parasita não vive sem um hospedeiro. Ao encontrar um novo hospedeiro, Karuizawa tinha apenas um caminho para continuar vivendo: ao meu lado.
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