Ano 1 - Volume 4
Epílogo: Cada Pequena Diferença
TÍNHAMOS CHEGADO ao último dia do teste. Diferente da ilha, o tempo passava rápido a bordo daquele navio cercado de luxo. Enquanto Ryuen se concentrava em seu ataque frontal unificado e Katsuragi avançava com sua estratégia de fortaleza de ferro, Ichinose Honami, da Classe B, ainda não havia pensado em uma contramedida.
— Argh! Tirei essa carta de novo! Sou mesmo tão ruim assim em Mico-Peão? — Ichinose espalhou as cartas restantes e desabou diante de mim.
Mesmo sendo nosso quinto período de discussão, Ichinose mais uma vez sugeriu jogar cartas. Eu até poderia questionar essa abordagem, mas ninguém da Classe A se envolvia na conversa, então ninguém a impediu. Um pequeno grupo decidiu que era melhor gastar o tempo jogando cartas do que não fazendo nada.
Eu estava um pouco preocupado que Manabe e suas amigas tentassem confrontar Karuizawa, mas parecia que a foto que eu tinha enviado surtira o efeito desejado. Elas estavam obedientes. Karuizawa também agia normalmente.
Do ponto de vista de Manabe, ela provavelmente pensava que a pessoa que lhe enviou aquelas mensagens misteriosas pelo chat devia ser eu ou Yukimura — alguém que estava presente durante o incidente na escada de emergência. Claro, quando enviei a foto, acrescentei que a tinha recebido de um colega. Ela podia imaginar que alguém enviou a foto para outra pessoa, e assim circulou.
No fim, Manabe não podia concluir com absoluta certeza que tinha sido eu. Isso significava que ela e suas amigas não poderiam agir contra mim. Não havia sentido em procurar quem tirou as fotos.
— Será que está tudo bem ficar só sentado assim? — suspirou Yukimura. Ele estava ao meu lado, decepcionado e melancólico.
— Você está muito pessimista hoje, Yukimura-kun. Devia jogar com a gente e espantar essa nuvem negra. Vamos lá, revanche! — insistiu Ichinose.
— Passo. Não estou com vontade. Mas sério, isso está certo, Ichinose-san? Ficar fazendo isso até o teste acabar? Pensei que você estivesse liderando o grupo.
Ichinose parou no meio do embaralhar das cartas.
— Essa desculpa não é conveniente demais, Yukimura-kun? Se você realmente quer vencer, não acha que deveria confiar em si mesmo, e não nos outros?
— É… ponto justo — respondeu ele.
Yukimura entendia muito bem que não conseguiria lidar com aquele tipo de responsabilidade. Mesmo assim, queria encontrar um jeito de mudar tudo aquilo. Se o teste fosse medido apenas pela capacidade acadêmica, Yukimura estaria no topo de qualquer grupo. Porém, ser talentoso nos estudos não o tornava um líder nato, nem garantia que conseguiria ter ideias novas. Havia coisas que não podiam ser resolvidas apenas memorizando palavras e fórmulas.
Nos dois testes que tivemos durante as férias de verão, todos experimentaram a sensação amarga da própria impotência — até Horikita. Eu me perguntava se Ichinose e Machida estavam irritados por estarem presos naquele impasse. No entanto, essa frustração podia virar força, desde que não quebrasse o espírito.
*
— Bem, o teste acaba depois da nossa próxima reunião. Como estão as coisas do seu lado, Ayanokoji-kun?
Eu estava tendo minha última reunião com Horikita. O mundo lá fora já estava mergulhado na escuridão. Falar pelo chat deixaria registros rastreáveis. Para evitar isso, nos encontramos pessoalmente.
— Não houve nenhuma mudança significativa. Do jeito que está, parece que o VIP vai escapar. E você?
Eu não esperava muita coisa de Horikita, mas então…
— Eu vou vencer — respondeu ela, sem rodeios.
— Tem certeza de que não errou em nada? — perguntei.
— Não sei quem pode estar ouvindo, então não vou entrar em detalhes. Só peço que acredite em mim. Vai dar tudo certo.
Eu já tinha ouvido de Hirata que Kushida era o VIP do grupo Dragão. Imaginava que Ryuen e Kanzaki tinham feito de tudo para descobrir isso, mas parecia que Horikita havia superado as dificuldades. Se ela estava tão confiante, provavelmente não havia motivo para preocupação. Agora era só esperar os 500.000 pontos caírem na nossa conta. Você poderia chamar isso de uma vitória sólida para nós.
— Queria consultar algo comigo? — ela perguntou.
— Não precisa. Faça os movimentos que achar melhor.
Mesmo se ela me contasse sobre o grupo Dragão, eu não poderia ajudar muito.
— Então, sobre o que queria falar? Achei que concordamos em evitar contato desnecessário.
Talvez estivesse… preocupada com Ryuen, que a perseguia incessantemente?
— Você não pode ficar com medo de Ryuen para sempre, sabe? — eu disse.
— Do jeito que você falou, imagino que consiga fazer algo a respeito?
Ela parecia não esperar muito de mim, já que ficou surpresa quando confirmei com a cabeça.
— Consegui trazer o Hirata para o nosso lado. Acho que veremos bastante cooperação da parte dele.
— Eu não queria isso — retrucou ela.
— Tudo bem. E não estou dizendo que você precisa se envolver com o Hirata. Eu cuido disso e mantenho tudo sob controle. Você só precisa acompanhar.
— Não gosto de como você age livremente nas sombras — respondeu.
Eu já imaginava que ela diria algo assim.
— Nesse caso, apareça quando discutirmos as coisas. Mesmo que não fale nada, dá pra acompanhar, certo?
— Suponho que sim — suspirou ela.
Ela soava insatisfeita, mas ao dar a Horikita a opção de participar, não haveria motivo para ela reclamar. Além disso, Hirata tinha uma influência enorme na classe. Depois de ver suas habilidades de liderança em ação, Horikita provavelmente entenderia.
— Depois quero te apresentar alguém. Ao Hirata também. Reserve um tempo antes do anúncio dos resultados — eu disse.
— Certo, eu realmente não gosto disso. Não quero que você simplesmente saia recrutando pessoas como bem entende — resmungou ela.
— Pense nisso como uma compensação por se colocar na linha de frente. De qualquer forma, essa pessoa será útil para nós.
— Tenho uma ideia geral do que você está pensando, mas… Bem, tudo bem. De qualquer forma, vamos nos encontrar aqui de novo depois que o teste terminar.
Com isso, olhei para o relógio. Faltava meia hora para a discussão final.
— Eu me pergunto quantos traidores vão se revelar neste teste — disse Horikita.
— Quem sabe? Fiquei surpreso que o teste tenha acabado tão de repente para o grupo Vaca, mas não consigo imaginar que isso se repita. No fim, o resultado mais provável é que os VIPs escapem e o tempo acabe.
— Sim, eu também acho — Horikita desviou o olhar por um instante, aquele tipo de gesto inconsciente que as pessoas fazem quando estão preocupadas com algo.
— O que houve? — perguntei.
— Nada. É só que, bem… Algo neste teste não faz sentido. Mas não deveria haver erros. Eu definitivamente não posso perder — respondeu ela.
Parte da ansiedade de Horikita finalmente começou a transparecer. Mesmo que eu oferecesse palavras de apoio, ela diria que não eram necessárias, então apenas permaneci em silêncio.
*
O grupo Coelho estava prestes a entrar no nosso sexto e último período de discussão, ainda sem qualquer esperança de conseguir um avanço. Eu queria reunir meus pensamentos de forma tranquila e cuidadosa, então, quando Hirata e os outros saíram da nossa sala, fui sozinho para a reunião. Como ainda faltava cerca de meia hora para a discussão começar, supus que ninguém estaria lá ainda. No entanto, minhas expectativas foram frustradas pela presença de alguém.
— Ela deve ter chegado cedo, hein? — perguntei em voz alta.
Ichinose dormia profundamente no chão. Por que a simples visão dela despertava algo no coração de um homem assim? Ah, isso era perigoso; realmente ruim. Como ela estava deitada de lado, eu conseguia ver suas coxas mais cheias com mais clareza do que o normal.
Mesmo sabendo que não deveria, não consegui evitar olhar para suas coxas, depois suas pernas, depois seu rosto, e então para seus seios. Em seguida, voltei para suas coxas. Enquanto meus desejos adolescentes me dominavam, algo próximo à parte de trás da cabeça dela chamou minha atenção. Era o celular de Ichinose. Ela devia estar usando-o pouco antes de adormecer.
Nossos celulares atribuídos continham bastante informação. Não só desempenhavam um papel vital neste teste, mas também permitiam confirmar detalhes, como a quantidade de pontos que alguém tinha. Claro, para confirmar isso, era necessário o ID e a senha de cada aluno. Mas, para evitar a trabalheira de fazer login toda hora, alguns estudantes simplesmente salvavam suas informações. Em outras palavras, se eu desse uma olhada no celular de Ichinose agora, poderia ser possível descobrir vários tipos de informação: sua situação de moradia, a quantidade de pontos que tinha, etc. E eu havia confirmado anteriormente que Ichinose salvou seu ID e senha no aparelho.
Aproximei-me com cautela, passo a passo.
— Ooh… ah…
À medida que fechava a distância entre nós, Ichinose se mexeu levemente, talvez percebendo alguma mudança no ar. Mas adormeceu novamente, e sua respiração se acomodou. Parecia que eu não a tinha acordado. Tentei me aproximar mais uma vez.
— Mmm…

O que diabos eu estava fazendo? Mesmo que fosse uma forma eficaz de obter informações, se alguém me visse, pensaria que eu era um pervertido. E se Ichinose acordasse? Seria um enorme mal-entendido. Mesmo que estivesse tudo bem entrar na sala meia hora mais cedo, era estranho ficar ali esperando tão abertamente enquanto uma garota dormia.
Bem, eu não tinha nada com que me sentir culpado. Portanto, permaneceria calmo. Passo a passo, aproximei-me de Ichinose.
— Ooh… hum… — ela murmurou algo ininteligível.
Isso não era bom. Cada vez que eu me movia, Ichinose começava a despertar. Como teste, tentei mover meu pé para frente e para trás no mesmo lugar, sem avançar. Se Ichinose reagisse, eu assumiria que ela era uma pessoa de sono extremamente leve. Dizem que muitos de sono leve são muito tensos…
Creak, creak. Coloquei o pé direito à frente e depois voltei à posição original.
Deus, que patético.
Por que eu tinha que me esgueirar assim? Com certeza me rotulariam de pervertido se alguém me visse agora. Percebendo que minhas ações eram completamente estúpidas, desisti de tentar espiar o celular dela e, em vez disso, me afastei. Sentei-me do outro lado da sala. Daqui, não conseguia vislumbrar o lugar escondido além das coxas dela. Também não pensei que a acordaria acidentalmente.
O mais importante é que ainda era cedo. Mas que diabos ela estava fazendo aqui? pensei.
Cerca de vinte minutos antes do início do período de discussão, uma música com som fofo começou a tocar pela sala. Vinha do celular de Ichinose.
— Mmm… — ela murmurou.
Ichinose, ainda de olhos fechados, pegou o celular. Destravou a tela e parou a música, que aparentemente era o alarme do aparelho. Ainda parecendo sonolenta, começou a se sentar. Quase imediatamente, percebeu minha presença.
Eu me perguntava se ela ficaria enojada com minha presença, mas ela não parecia se importar nem um pouco.
— Ah, bom… bocejo… ver você, Ayanokoji-kun. Desculpe, meu alarme te assustou? — ela perguntou.
— Oh, não. Parece que você dormiu bem.
— Hahaha, desculpe por isso. Apenas desmaiei; dormi como um tronco. Mas você chegou cedo, hein. Não temos vinte minutos até a discussão começar? — ela perguntou.
— Acho que deveria te fazer a mesma pergunta. Quando você chegou?
— Há uma hora, eu acho. Queria um pouco de paz e silêncio. Como meus amigos entram e saem do meu quarto, fica meio barulhento.
Aparentemente, este era o melhor lugar para cochilar.
— Além disso, eu queria organizar meus pensamentos — acrescentou. Em vez de parecer revigorada pelo cochilo, parecia tomada por uma súbita inspiração.
— Algum resultado? — perguntei.
— Mais ou menos.
Ela se levantou. Então, por algum motivo, Ichinose se aproximou e sentou-se ao meu lado. Os dois estávamos sozinhos na sala. O espaço entre nós estava diminuindo. Embora eu não conseguisse esconder meu nervosismo, Ichinose parecia não perceber.
— Ainda falta um tempo até a discussão começar. Que tal conversarmos um pouco? Se não for incômodo, é claro — disse ela.
— Ah, não, não é incômodo. Não me importo.
— Certo. Para falar a verdade, Ayanokoji-kun, quero te perguntar algo. Já fiz essa pergunta a todos os meus colegas de classe, incluindo os meninos. Mas há um tempo tenho pensado em perguntar às outras classes também. Só fiquei curiosa. Ayanokoji-kun, você quer subir para a Classe A?
Eu me perguntava o que ela iria me perguntar, mas a questão era surpreendentemente comum.
— Bem, sim. Claro que quero. Já pensei em chegar à Classe A. Não, espera… acho que seria mais preciso dizer que devo mirar na Classe A.
— Por causa da garantia de faculdade ou carreira? — ela perguntou.
Em nossa escola, os alunos das Classes A a D competiam entre si. O maior privilégio — ter garantido acesso a qualquer universidade ou carreira — era limitado apenas aos da Classe A. Muitos poderiam achar que isso parecia um truque. O folheto da escola era bastante ambíguo, então os detalhes eram obscuros.
— Hoje em dia, não se entra na faculdade ou consegue um emprego assim tão facilmente. Principalmente empregos — disse eu.
— Também penso assim. Mas você não acha perigoso confiar demais no sistema? Há algo nesse 99,9% que eles não estão nos contando. Algo perigoso — disse Ichinose.
Ichinose referia-se à taxa de "99,9% de colocação em universidades e empregos" que a escola divulgava. Ela tinha razão sobre os riscos ocultos. Digamos que eu quisesse ser jogador de beisebol profissional, mas não tivesse experiência no jogo. Como a escola faria para me tornar profissional? Mesmo com conexões profissionais, eram limitadas. E mesmo que jogasse regularmente na escola, isso não garantiria que eu virasse profissional. Mesmo que me formasse na faculdade ou seguisse para pós-graduação, isso não garantiria nenhum futuro concreto.
Na verdade, apenas uma fração das pessoas realmente consegue realizar o que planejou.
Estatisticamente, apenas um em cada seis alunos consegue atingir seus sonhos. A princípio, pode parecer uma porcentagem alta, mas os dados são ambíguos e as estatísticas imprecisas. Ser jogador profissional de beisebol não é o mesmo que se tornar um jogador titular de destaque. Se você reunisse todos que qualificam como jogadores profissionais, incluindo aprendizes, seriam cerca de 900 a 1.000 pessoas. Porém, se o sonho é jogar como titular e derrotar os adversários logo de cara, talvez no máximo umas cem pessoas consigam. E, mesmo garantindo a vaga como titular, é preciso continuar competindo contra os rivais, sempre sendo um pilar essencial da equipe.
Em outras palavras, não importa o que você escolha, é improvável alcançar seu sonho. E é algo extremamente difícil de realizar. Muitos estudantes apenas continuam vivendo vidas monótonas e tediosas, pagando apenas lip service aos sonhos conforme os anos passam. Para realmente realizar um sonho, é preciso muito esforço e sorte.
— Mas esta escola… Bem, ela tem uma influência incrível, não é? A maioria das pessoas que chega a algum lugar na vida consegue porque alguém influente ajuda. Ou você não se interessa por isso, Ichinose?
— Não, não é isso. Quero me formar na Classe A. Tenho um sonho que quero tornar realidade — respondeu ela.
Mesmo sorrindo, seus olhos eram firmes e sérios.
— O sistema escolar é bom e tal, mas se você não consegue se formar na Classe A, isso vira uma marca de fracasso. Esta escola é baseada na habilidade; se suas aptidões não te sustentam aqui, dificilmente você será rotulado como elite. Os alunos são ranqueados pela suposta superioridade ou inferioridade. Agora, entre nós dois, Ayanokoji-kun, só um pode realizar o sonho. Ah, mas também pode acontecer dos dois ficarmos sem nada.
Mesmo conversando como amigos, só um de nós poderia vencer.
— Você já ouviu falar que há exceções às regras, porém.
— Hmm? Você quer dizer quando alguém consegue acumular vinte milhões de pontos?
— Isso. Não houve nenhum aluno na história da escola que tenha conseguido, mas teoricamente é possível.
— Ah, sim, claro. Supondo que isso aconteça, acho que ambos poderíamos nos formar na Classe A — respondeu ela.
— Seja como for, conseguir de fato vinte milhões de pontos é outro problema. Mesmo se você mandasse bem nas provas e guardasse os pontos, provavelmente não seria suficiente.
Pelo que se viu só neste teste, parecia possível ganhar muitos pontos, dependendo do quanto se esforçasse, mas até agora só tivemos duas provas assim. A partir daqui, é possível que o número de exames desse tipo diminua, e as chances de sofrer punições aumentem.
— Isso é verdade. Mesmo sendo extremamente econômico, é improvável alguém conseguir poupar nem a metade disso — ponderou Ichinose.
— Pois é. A situação financeira da Classe D está especialmente péssima. Mesmo com Horikita se esforçando ao máximo, os pontos do teste da ilha ainda não foram creditados. Na verdade, é totalmente possível que os percamos neste teste — disse eu. — Você é uma pessoa econômica, Ichinose? Não me parece alguém que esteja apertado.
— Hmm, não sei bem. Pessoalmente, às vezes uso pontos e às vezes economizo, como qualquer um. Mesmo estando na Classe B, não tenho muitos pontos guardados — respondeu Ichinose com naturalidade. Não vi indícios de que ela estivesse me escondendo algo, mas...
— Ayanokoji-kun.
— Hmm?
Ichinose voltou-se de repente para mim. Olhou direto no meu rosto.
— Parece que você viu, há um tempo — comentou.
Não consegui desviar o olhar daqueles olhos bonitos. Era quase como se me puxassem para dentro. Ichinose era ainda mais perspicaz do que eu imaginara. Suponho que ela tenha visto através dos meus planos.
— Desculpe. Quando você estava usando o celular mais cedo, eu acabei olhando para a tela. Fiquei um pouco curioso, por isso pensei em te perguntar sobre isso.
— Haha, não precisa se sentir culpado ou nada. Não é como se eu estivesse te culpando. Quero dizer, é bastante pontos, não é?
Sim, era. Antes do fim do primeiro semestre, Ichinose já havia acumulado uma quantidade insana de pontos. Mesmo se eu juntasse todos os pontos da classe distribuídos no primeiro de cada mês e não gastasse nenhum, ainda assim não teria guardado tanto.
— Mas não posso te dar detalhes. Desculpe — acrescentou ela.
— Não precisa se desculpar.
— Claro, mas se você conseguiu obter essa informação, Ayanokoji-kun, e mesmo que a compartilhasse com a Horikita-san, não sairia contando para todo mundo, né? Quero dizer, mesmo que você tenha visto meu celular, se outra pessoa perguntasse, você não diria — perguntou ela.
— Não pretendo contar para ninguém. Além disso, posso estar enganado. Não vou bisbilhotar.
Mesmo que eu bisbilhotasse, não seria como se eu obtivesse uma resposta satisfatória.
— Você encontrou um caminho para vencer isso? — perguntei.
— Hmm, acho que sim. Pelo menos, acho que encontrei uma pista.
Eu não esperava uma resposta tão direta, mas Ichinose soava relaxada e confiante. Parecia o tipo de pessoa que age por iniciativa própria e não perde tempo.
— Nesse caso, essa competição vai acabar sendo uma disputa entre a A e a B, suponho.
— Só saberemos no final. Meu caminho para a vitória é—
Bem antes de ela terminar a frase, os membros do nosso grupo começaram a entrar na sala, um após o outro. Os alunos da Classe A foram os primeiros a chegar, mas tomaram lugar sem nos cumprimentar.
— Oh, o que é isso? Você já está aqui, Ayanokoji?
— Sozinho com a Ichinose-dono? Ora, que suspeito. Um encontro clandestino, não diria?
Yukimura e o Professor me bombardearam de perguntas ao entrarem juntos na sala. Eu não conseguia dizer se estavam impacientes ou desanimados, mas parecia que tinham perdido a esperança de vencer. Por outro lado, os alunos da Classe B pareciam relativamente tranquilos.
— É o fim do caminho, né? Então, você achou alguma pista? — perguntou Hamaguchi, falando comigo com gentileza enquanto esperávamos o início da discussão final.
— Pra ser honesto, eu não faço ideia. Não conseguimos realmente conversar, então não conseguimos nos engajar — respondi.
Essa foi minha resposta oficial, mas eu já havia executado a estratégia que vinha planejando desde o começo do teste. Meu plano envolvia os celulares que recebemos da escola. Eu havia trocado os aparelhos dos VIPs como forma de camuflagem. Kushida era a VIP do grupo Dragão, mas e se Kushida e Horikita tivessem trocado de celular? Se alguém bisbilhotasse o telefone dela, suspeitaria que Horikita era a VIP.
Aí, se um traidor colocasse o nome de Horikita como resposta, cometeria um erro. Nós ganharíamos.
— Boa noite. Que bom ver todo mundo — disse Ichinose calorosamente.
Ela sorria, como sempre. Eu montei a armadilha imediatamente. Afinal, não sabíamos quem mais tinha segundas intenções. Eu estava esperando Ichinose falar, e decidi intervir antes que ela recomeçasse.
— Hum, com licença. Se todo mundo estiver de acordo—
— Eu tenho algo que gostaria de perguntar—
Hamaguchi e eu começamos a falar ao mesmo tempo.
— Ah, desculpe. Vai em frente, Ayanokoji-kun.
— Oh, não. Pode falar você primeiro. Não me importo — disse eu.
Que irritante. Bom, isso não atrapalhava meu plano, mas qualquer problema inesperado poderia tornar as coisas instáveis. Decidi deixar Hamaguchi falar primeiro. Eu interviria depois, pensando bem. Então, Hamaguchi frustrou meus planos de uma forma inesperada.
— Nos últimos três dias estive pensando em como poderíamos alcançar o Resultado nº 1 — disse ele. Hamaguchi iniciou a explicação do plano que, surpreendentemente, era bastante parecido com o meu.
— Existe uma maneira de todos aqui conseguirem o Resultado nº 1 — continuou.
Uma tênue réstia de esperança brilhou nos olhos de todos
— Isso é mesmo verdade, Hamaguchi?
— Sim. Tive essa ideia depois de ouvir todo mundo aqui, inclusive Ichinose-san e Machida-kun.
— Nem acredito. Não há como chegarmos ao Resultado nº 1 sem discussão — resmungou Machida.
— Vamos ouvi-lo primeiro. Hamaguchi-kun não é do tipo que fala sem pensar — ofereceu Ichinose.
— Vou mostrar meu e-mail para vocês. Claro que a escola mandou um e-mail para todos nós. Acho que vocês entendem o que quero dizer, né? Como somos proibidos de manipular ou falsificar os e-mails que recebemos, não há como enganar um ao outro. Por isso a resposta é simples: nós mostramos nossos e-mails e aí descobrimos quem é o VIP. Assim descobriremos a verdade.
— Isso é idiota. Por que alguém mostraria o celular só porque você pediu? Alguém pode trair todo mundo no momento em que mostrarmos os e-mails. Ninguém faria isso — respondeu Machida, seco.
Era um plano desesperançoso. Naturalmente, Machida-kun ficou boquiaberto.
— É verdade que, se o VIP souber que pode ser traído, ele não mostraria o celular. Porém, do ponto de vista de quem não é VIP, não há risco em expor sua identidade. O teste acaba logo. Se não fizermos nada, perdemos a chance de vencer. Suponha que exista uma turma inteira agindo em conluio para proteger o VIP. É certo que nenhum deles vai mostrar o celular. Mas assim é possível reduzir a lista de candidatos.
— Mesmo que você descubra a identidade do VIP ou a que classe ele pertence, no instante em que alguém decidir trair, acabou. O problema não foi resolvido. Ou você está sugerindo que o primeiro a trair ganha? — retrucou Machida.
Pela estratégia de Hamaguchi, era possível eliminar com sucesso o VIP. Mas só isso. No fim, as pessoas não iam se comportar bonitamente.
— Nesse caso, fiquem quietos e só observem. Se você não participar, Machida-kun, tudo bem também — respondeu Hamaguchi.
Hamaguchi mostrou a todos o e-mail que havia recebido.
— Concordo com o Hamaguchi-kun. Eu também vou mostrar o meu.
Depois que Hamaguchi mostrou o celular, Beppu, da Classe B, fez o mesmo. Aquilo não parecia uma ideia de última hora. Parecia uma estratégia que Ichinose havia pensado. Estranhamente, o plano dela era exatamente igual ao meu. No entanto, eu não sabia o quanto ela havia raciocinado sobre isso, nem quais seriam seus passos. Se ela simplesmente acreditava que todo mundo colaboraria, era, pura e simplesmente, imprudente.
— Acho que é uma estratégia surpreendentemente boa. Não tenho objeções — disse Ichinose.
Sorrindo, Ichinose enfiou a mão no bolso esquerdo da saia e pegou o celular.
— Venho sofrendo com isso há muito tempo, mas depois de ouvir o plano do Hamaguchi, entendi.
Ichinose tirou o celular do bolso. Decidi intervir antes que ela executasse sua estratégia.
— Você está falando sério, hein? Bom, se todos vão apostar nisso, acho que eu também vou entrar — disse eu.
Antes que Ichinose pudesse mostrar o conteúdo do e-mail, saquei meu próprio celular e o ofereci. Mas não era realmente meu aparelho; eu o havia trocado com o de outra pessoa.
— Ayanokoji-kun... você tem certeza disso? — Ichinose perguntou.
— Claro. Depois de ouvir o Hamaguchi, honestamente não vejo outra opção. Eu me dou mal em comunicação, então tudo que posso fazer é mostrar a verdade — respondi.
— Espera, Ayanokoji. Não acredito que esse tipo de estratégia vá funcionar — disse Yukimura.
Ele tentou me deter, mas eu mostrei a todos o e-mail no meu celular. Todo mundo viu que eu não era o VIP. Uma quantidade incrível de água vinha sendo represada atrás dessa comporta invisível. Se até mesmo um mínimo furo se abrisse, a barragem cederia, e ficaríamos com um rastro lamacento. Minhas ações abriram esse furo.

— Certo. Então você não é o VIP, Ayanokoji-kun.
— Ok. Eu também vou mostrar o meu.
Entre o grande número de pessoas ainda debochando da estratégia de Hamaguchi, uma garota solitária concordou. Era quem eu menos esperava: Ibuki Mio.
— Você está louca? Não ganhamos nada com isso! — gritou Manabe.
No entanto, a resposta de Ibuki era bem fundamentada.
— Qualquer um que não seja o VIP ou que não esteja na mesma classe do VIP não ganha nada se as coisas continuarem assim. A Classe B entende isso. Se ficarmos paradas, não alcançaremos as classes acima. É por isso que eles estão mostrando seus celulares. Concordo com a ideia deles — respondeu ela.
— Isso é—
— Ou talvez você seja o VIP — disse Ibuki.
Ibuki não falou com Manabe como se fosse uma aliada; falou como se estivesse dirigindo-se a um inimigo.
— N-Não. Eu…
— Nesse caso, mostre seu celular para todos.
As palavras de Ibuki ameaçavam seus colegas. Manabe e seus amigos, como se acatassem a ordem de Ibuki, mostraram seus celulares. A caça ao VIP havia começado. Karuizawa tirou seu celular, que tinha uma alça, e o entregou.
— Espera. Não é só Ayanokoji-kun? Você vai junto com isso, Karuizawa? Concorda com isso? — Yukimura parecia confuso.
— Estou fazendo isso por mim mesma. Quero aqueles pontos privados — disse Karuizawa.
O e-mail dela mostrava que não era a VIP. Karuizawa estava em segurança.
— Hum, e agora, o que eu faço? — murmurou o Professor.
— Pense por si mesmo, Sotomura. É voluntário.
— Uh… bem, não quero me envolver demais, então vou apenas cumprir logo.
O Professor, vendo como a maré havia mudado, foi pegar seu celular. Yukimura agarrou seu braço e o deteve.
— Você realmente acha que mostrar seu celular para todos é a jogada certa? — perguntou.
— Sabe, você está muito nervoso. Não é o VIP, né? — Ibuki perguntou.
A expressão de Yukimura ficou rígida.
— Sério mesmo?
— Yukimura não é o VIP. Eu ouvi isso antes — disse eu.
No entanto, alguns alunos caíram na risada.
— Espera que a gente acredite nisso? Você pode estar mentindo — disse Manabe, lançando um olhar de dúvida para Yukimura.
Se eu continuasse negando que ele era o VIP, só aumentaria a desconfiança. Mas ainda não podia agir. Isso porque Yukimura estava…
— É cedo demais para tirar conclusões. Yukimura-kun tem razão — disse Ichinose. Mais uma vez, ela colocou a mão no bolso e tirou seu celular.
— Me envolvi um pouco antes e perdi minha chance, mas agora vou mostrar — disse ela.
Ichinose provou que não era o VIP.
— Espera, Ichinose. Antes você disse que ficaria quieta sobre algo até agora? — Machida claramente não havia esquecido.
— Ah, isso? Eu tinha na cabeça a mesma coisa que Hamaguchi disse antes e queria falar sobre isso. Só isso.
— A mesma coisa?
— Como representante da Classe B, fiquei um pouco com ciúmes de Hamaguchi-kun ter me adiantado.
A essa altura, todos, exceto os alunos da Classe A e Yukimura, já haviam provado que não eram o VIP.
…
Todos entenderam o significado do longo silêncio de Yukimura. Machida e os outros alunos da Classe A o observavam curiosos.
— Certo. Vou mostrar. Só preciso mostrar, certo? — murmurou ele. Yukimura, já não suportando a pressão, tirou o celular.
— Antes de mostrar, quero que me prometam uma coisa — disse ele.
— Prometer? O que quer dizer, Yukimura-kun?
— Não quero que ninguém aqui se torne um traidor. Principalmente vocês, Classe A. Quero que tirem os celulares e os coloquem à frente de vocês. Isso vale para todo mundo. Todo mundo, coloque os celulares onde eu possa ver — exigiu.
Ele direcionou a afirmação a Machida, que respondeu com um resmungo.
— Do que você está falando?
— Exatamente o que eu disse. Nada mais, nada menos.
— Bom, tudo bem. Se quer ver meu celular, aqui está.
Os alunos da Classe A, que estavam sentados a uma certa distância, vieram calmamente e colocaram seus celulares sobre a mesa. Depois disso, Yukimura fez seu movimento, parecendo abatido. Tirou o celular e ligou-o. Digitou a senha de seis dígitos e fez login. Yukimura abriu o e-mail da escola e levantou para todos verem.
— Desculpe por ter mentido para você, Ayanokoji — murmurou.
A Classe D foi a mais surpresa com a revelação.
— Eu sou o VIP.
Um e-mail diferente dos demais apareceu na tela.
— Q-Que… Yukimura-dono, você é o VIP?! — o Professor gaguejou, parecendo atônito, como se não pudesse acreditar no que via. Isso basicamente significava que havíamos perdido os 500.000 pontos que a Classe D havia ganho. No entanto, eu havia trocado secretamente de celular com Yukimura.
— Se eu soubesse que isso ia acontecer, teria falado desde o início…
Karuizawa parecia genuinamente chocada e desconfortável. Ao olhar para ela e o Professor, parecia que jamais poderiam imaginar que Yukimura fosse o VIP. Machida se levantou e olhou o celular de Yukimura.
— O e-mail parece autêntico. Todos os outros e-mails pessoais são do Yukimura, então não há margem para erro.
Machida, após conferir o e-mail e os registros de chat privados de Yukimura, confirmou a verdade. Ainda parecia duvidoso, e Ichinose tentou explicar a situação com calma.
— Não há como ser falso. Afinal, a escola explicou as regras, certo? Copiar ou transferir o e-mail é proibido. Desde que o e-mail tenha sido enviado do endereço oficial da escola, há 0% de chance de ser falso.
Ela estava certa. Criar informações falsas era estritamente proibido. Se alguém quebrasse essa regra, a expulsão seria certa. Portanto, tudo que estava exposto ali precisava ser a verdade.
— Então isso significa que é definitivamente o Yukimura-kun.
Manabe assentiu. O mais importante aqui era o processo que levou à revelação de Yukimura. Se a pessoa segurando aquele celular era realmente a dona legítima dele era irrelevante. Em outras palavras, julgar se aquele celular pertencia ou não a Yukimura era uma tarefa surpreendentemente difícil. A ideia de que alguém tivesse trocado de celular não estava fora do campo das possibilidades.
No entanto, mostrar para todos o processo de digitar a senha de seis dígitos e desbloquear o celular era uma história completamente diferente. Não havia como um estudante conhecer a senha do celular de outro. Todos, inconscientemente, reconheceram que Yukimura devia ser o dono do aparelho. Isso não era resultado de dedução, mas sim de preconceitos.
— Desculpe, Yukimura-kun. Isso aconteceu porque tive essa ideia de última hora — murmurei.
— Não, tudo bem. Provavelmente foi o melhor a fazer. Achei que poderia me safar com uma mentira, mas estava errado. Tenho certeza de que você, Sotomura e Karuizawa concordariam que foi melhor assim — disse Yukimura.
Agora todos o viam como alguém que só queria garantir pontos para si mesmo.
— Bem, agora todo mundo sabe a resposta. Sou eu — disse Yukimura.
Se todos nós completássemos o teste juntos, todo mundo do nosso grupo receberia 500.000 pontos. O Resultado nº 1, que a princípio parecia impossível, agora parecia ao nosso alcance. Ichinose assentiu e implorou para a Classe A com mais intensidade do que antes.
— Por favor. Cooperem conosco. Não deixem a coragem do Yukimura-kun ser em vão. Não quero que nos traiam.
— Desde o início estamos agindo conforme as instruções de Katsuragi-san. Não faremos nada por conta própria — respondeu Machida.
Ele dizia isso, mas o grupo se dispersaria pouco antes do fim do teste. Durante esses trinta minutos, teríamos que confiar não só nos colegas de classe, mas também nos alunos das outras classes.
— Quero acreditar… Não, eu acredito em todos vocês — suplicou Yukimura fervorosamente.
Ele implorava a todos, de todas as classes. Eu me perguntei se os alunos que passaram tanto tempo juntos nesses últimos dias começaram a formar laços de amizade. Me perguntei se eles aceitariam os desejos de Yukimura e se todos trabalhariam juntos.
Não, não fariam. Eu tinha certeza disso.
Alguém iria trair. Não havia dúvida.
E se isso acontecesse, então aqueles que haviam trocado de celular — a Classe D — levariam a vitória.
Yukimura também devia acreditar nisso. Eu imaginava que ele estava praticamente morrendo de segurar o riso. No entanto, sua alegria desapareceu quando o celular começou a vibrar com uma ligação. Entrando em pânico, Yukimura avançou para pegar o aparelho, mas o deixou cair. Por pura coincidência, o celular caiu com a tela para cima.
Como o celular estava no silencioso, a mesa tremeu enquanto ele continuava vibrando. A identificação da chamada dizia "Ichinose". Ichinose, segurando o celular no ouvido, olhou para Yukimura e para mim.
— O que você está fazendo, Ichinose? Não faz sentido ligar para o celular do Yukimura agora — disse Machida, desconfiado.
Só Yukimura e eu entendemos o que estava acontecendo. Ela desligou silenciosamente.
— A escola disse que alterar ou copiar os e-mails é proibido, isso é verdade. Por isso o e-mail que vimos era real. Porém, não há regra dizendo que você não pode enganar alguém usando o próprio celular. Entende o que quero dizer? — Ichinose pegou o celular e me entregou.
— A pessoa a quem este celular pertence, o verdadeiro VIP… é você, não é? Ayanokoji-kun? Eu liguei para você agora, não para o Yukimura-kun.
Eu havia trocado números com Ichinose algum tempo atrás. E mesmo que ela não soubesse disso, teria pesquisado apenas para garantir.
— M-Mas isso não é estranho? Yukimura desbloqueou o celular bem na nossa frente. Eu conferi o histórico de e-mails privados dele só para ter certeza — disse Machida.
— Isso tudo era falso. Ele poderia ter conseguido a senha com facilidade, apenas perguntando a você, Ayanokoji-kun. Além disso, é possível replicar histórico de chamadas, e-mails, apps e assim por diante, embora dê um pouco de trabalho — disse Ichinose.
O rosto de Machida mudou, tomado por raiva. Ele arrancou o celular das minhas mãos.
— Não é fácil mentir assim, especialmente quando o objetivo está ao alcance. Nos últimos momentos, seja por descuido ou nervosismo, sempre deixam alguma brecha. Yukimura-kun mentiu, e seus gestos e comportamento pareciam diferentes do normal.
Ichinose havia enxergado completamente minhas tentativas de subterfúgio. Yukimura empalideceu enquanto ela falava. Era duvidoso que ele tivesse realmente ouvido.
— Nós também estávamos pensando nisso há algum tempo. Se o VIP estivesse na sua classe, uma opção seria trocar de celular. Você poderia enganar as pessoas mostrando a senha para desbloquear o aparelho.
Aparentemente, Ichinose e os outros haviam chegado à mesma estratégia que eu.
— Mas vejam, há um ponto fraco nessa estratégia: o número do celular. Mesmo que você duplique perfeitamente tudo, do histórico de chamadas aos apps, não pode mudar o número. Hamaguchi e eu já tentamos trocar os chips uma vez para ver o que aconteceria, mas os chips são travados nos celulares designados. Se você os tivesse trocado, eu não poderia ligar para você. Não importa quem troca com quem: assim que eu ouvir o celular tocar, consigo identificar o dono. Se isso não fosse possível, eu nem teria proposto a ideia em primeiro lugar — disse Ichinose.
Ichinose e Hamaguchi estavam dois passos à frente. Provavelmente orquestraram tudo, concordando que Hamaguchi fosse o responsável por iniciar o assunto. Em um segundo, a verdade veio à tona.
— Vocês fizeram quase tudo perfeitamente. Mas não esperavam que nossos chips estivessem travados nos aparelhos, né? — Ichinose se gabou.
Um anúncio pelos alto-falantes informou que restavam cinco minutos antes do fim do período de discussão. Devíamos encerrar e voltar para os quartos.
— Droga! — gritou Yukimura.
— Que pena, Yukimura. Foi uma tentativa surpreendentemente boa, no entanto — disse Machida. Ele e os outros riram, intensificando a zombaria.
Eles olharam para mim, cúmplice nesse plano.
Yukimura ainda estava visivelmente abalado e tremendo, assim como o restante da Classe C. As Classes C e A pareciam chocadas. Eu tinha certeza de que tinham muitas perguntas, mas as regras proibiam mais conversas.
— Enfim, confirmamos que Ayanokoji-kun é o VIP. Machida-kun, prometa que vamos mirar no Resultado nº 1 e que ninguém vai trair ninguém — insistiu Ichinose.
— Sim, claro. Pode confiar em mim. Vamos nessa — disse Machida.
Os três alunos da Classe A saíram da sala imediatamente, antes de qualquer outra pessoa.
— Há tanto a ganhar trabalhando juntos. Por isso nunca vamos trair. É por isso que eu quero que vocês, da Classe C, façam o mesmo. Por favor, apenas aguentem por trinta minutos — pediu Ichinose.
Manabe e os outros assentiram e saíram da sala. Yukimura olhou para o celular que eu segurava.
— Eu errei em seguir o seu plano. Isso é uma droga — resmungou.
Um por um, todos deixaram a sala, me deixando sozinho com Ichinose.
— Agora tudo o que podemos fazer é confiar em todos — ela disse.
— É. Acho que sim — respondi.
— Você está bem calmo, Ayanokoji-kun. Não está preocupado?

— Não especialmente. De qualquer forma, não posso fazer nada além de acreditar. Estou indo para o meu quarto.
Não havia nada a ganhar ficando aqui.
— Ei, espere um instante.
Ichinose colocou a mão no meu ombro. Naquele instante, senti a tensão entre nós.
— Quem teve a ideia de trocar os celulares? — perguntou ela.
— Horikita, é claro.
— Entendi. Por favor, diga algo para Horikita-san por mim. Diga a ela que o plano dela foi um enorme sucesso.
— Um enorme sucesso? Não queria dizer uma derrota esmagadora? Nós falhamos, feio. Você viu tudo.
— Hahaha. Você não esperava que tivéssemos tido a mesma ideia, não é?
— Desculpe. Desculpe por tentar enganá-la assim, especialmente depois de eu ter concordado em ser seu aliado. Está brava?
— Claro que não. Nós seguimos com nosso próprio plano sem te contar, então estamos quites.
— Entendi. Se você diz isso, tenho certeza de que Horikita vai se sentir aliviada.
Peguei meu celular e fui em direção à saída.
— E-Ei, espere um segundo. Ainda não chegamos à parte crítica — disse ela.
— A parte crítica?
— Vamos lá. Você é surpreendentemente ruim lidando com pessoas, Ayanokoji-kun. É verdade que os chips SIM estão bloqueados para seus respectivos aparelhos. Mas há um jeito de liberar esse bloqueio, não é? Verifiquei com a Hoshinomiya-sensei para confirmar. Ela disse que, com pontos suficientes, você pode desbloquear o aparelho imediatamente — disse Ichinose.
Naquele instante, senti uma leve corrente elétrica percorrer minha espinha.
— Depois que uma mentira vem à tona, a maioria das pessoas aceita a resposta que vem depois como a verdade. Yukimura-kun estava determinado a não ser o VIP, mesmo depois de mostrar a todos como desbloqueou seu celular usando a senha. No momento em que aquela mentira foi revelada, a verdade de que você é o VIP veio à superfície. O chip SIM foi o fator decisivo. Ninguém suspeitaria de mais ninguém como VIP agora. Mas isso era a armadilha. Eu disse que a ideia de trocar os celulares era uma estratégia imperfeita, mas isso era mentira. Trocar celulares é extremamente eficaz. Claro, deve ser uma armadilha dupla para funcionar. Nesse caso, a verdade permanece nas sombras. Ninguém teria como determinar, com 100% de precisão, a identidade do verdadeiro VIP.
Ichinose tinha percebido meu plano. Ela viu através do plano por trás do plano. Percebeu a verdade que eu mantive escondida até de Yukimura. Primeiro, ela sabia que eu não era o VIP, mas que me aproximei de Yukimura fingindo ser exatamente isso. Como prova, usei o celular do verdadeiro VIP para contatá-lo. Mas o alvo real — o verdadeiro VIP e dono daquele celular — era Karuizawa. Ela havia escondido esse fato muito bem. A única pessoa a quem contou secretamente foi Hirata. Hirata manteve isso escondido de mim e de Yukimura no começo. Por isso, ele fingiu não saber quem era o VIP quando conversamos sobre isso. No entanto, depois que descobri sobre o passado dele e de Karuizawa, Hirata me contou a verdade. Então, depois que usei Manabe para intimidar Karuizawa, aproveitei para trocar nossos celulares.
É claro que repliquei o histórico de emails e chamadas, assim como fiz com Yukimura. Naturalmente, depois usei meus pontos para desbloquear o chip SIM. Isso não era ilegal e poderia ser feito gratuitamente em qualquer grande loja. Estávamos num navio, mas tinha certeza de que a escola teria algo preparado para substituir ou consertar nossos celulares caso fossem danificados. Por isso, enquanto usava o celular de Karuizawa, consegui transferir meu número para ele também.
Então, troquei aquele celular pelo de Yukimura. Claro, eu disse a ele que era meu celular, e ele acreditou. Se minha enganação fosse descoberta, ele ficaria extremamente bravo.
Uma pessoa simples jamais perceberia que Yukimura e eu havíamos trocado os celulares. Uma pessoa esperta perceberia a troca e me acusaria de ser o VIP. Mas nunca chegaria à conclusão de que Karuizawa era o verdadeiro VIP.
— Se o VIP não estivesse na Classe D, o que você teria feito? — perguntou Ichinose.
— O mesmo que você. Eu teria tentado descobrir quem era o VIP, pegado o celular daquela pessoa e preparado outro. Então, eu teria me adiantado e me declarado o VIP.
Se o verdadeiro VIP então aparecesse para apontar a mentira, estaria tudo claro. Simplesmente acreditar que Ichinose era o VIP significava que o teste terminaria com o traidor cometendo um erro. Nessa situação, a Classe B não receberia pontos, e a diferença entre as classes aumentaria ou diminuiria.
— Então eu fui descoberto, hein?
Ichinose começou a tirar celulares dos dois bolsos. Um pertencia ao VIP de outro grupo da Classe B, e o outro era de um estudante que, provavelmente, não era VIP.
— Isso é só uma previsão minha, mas com base em como foi a discussão de hoje…
Ichinose rapidamente digitou uma mensagem curta em seu próprio celular.
— O verdadeiro VIP é Karuizawa Kei-san. Estou certa?
Ela me mostrou o celular. Aquela seria a mensagem de traição que ela enviaria à escola. Mas, antes que algo acontecesse, tanto meu celular quanto o de Ichinose tocaram ao mesmo tempo.
— O teste terminou agora para o grupo Coelho. Por favor, aguardem o anúncio dos resultados.
— Ah, acho que alguém virou traidor, hein? Me pergunto, foi a Classe A ou a Classe C?
— Por que você achou que era Karuizawa? — perguntei.
— Pelo mesmo motivo que Yukimura-kun. Ela tem se comportado de maneira estranha. Normalmente, não parece se importar muito com você, Ayanokoji-kun, mas ela ficava te observando, e seu rosto se fechava. Mas ainda há a possibilidade de ela não ser o VIP, então eu não poderia ter enviado aquele email.
Aparentemente, Ichinose havia visto completamente através do meu plano.
— Por que não disse nada? Ao menos poderia ter exposto minha mentira — disse eu.
Ichinose sorriu. O sorriso que ela tinha agora era talvez o mais genuíno que eu já tinha visto nela.
— Isso é óbvio. Se a Classe A ou a Classe C cometesse um erro, seria uma vitória para nós. Desde o começo, eu nunca quis atingir o Resultado #1, ou me tornar traidora e conseguir o Resultado #3. No momento em que soube que o VIP não estava na Classe B, sabia que deixaria outra classe nos trair. Acho que o traidor provavelmente era da Classe A — disse ela.
— Machida?
— Não, não. Morishige-kun. Ele é membro da facção da Sakayanagi. Duvido que ele simplesmente seguisse o plano da Katsuragi. Provavelmente achou que, se fosse para agir, seria melhor trair o grupo e pegar os pontos. Não acha?
Ichinose riu e se virou de costas para mim.
— Ayanokoji-kun, você é incrível. Sabe disso, não é? Nossa conversa agora mesmo prova o quão astuto você realmente é, não é?
— Você deveria elogiar a Horikita. Ela apenas me deu instruções, só isso.
Parece que eu precisava reavaliar Ichinose Honami. Ela havia conseguido evitar completamente os riscos enquanto elaborava uma estratégia que a levaria à vitória.
— Bem, então vou indo. Seria ruim se quebrássemos as regras, não acha? — disse ela.
No entanto, no momento em que Ichinose disse isso, ambos os nossos celulares emitiram um som peculiar. Ele tocou quatro vezes, rapidamente.
— Como assim? — perguntou Ichinose.
Ela parecia completamente chocada, olhando lentamente da tela do celular para mim.
*
Nosso navio flutuava sobre o mar escuro e solitário. À medida que nos aproximávamos das 23h, cada vez mais pessoas começaram a se reunir. O café, que estivera completamente silencioso, começou a se encher de gente. Eventualmente, o lugar ficou lotado. Eu garanti quatro assentos com bastante antecedência. Uma garota solitária se aproximou de mim.
— Desculpe por fazê-lo esperar — disse ela.
Karuizawa Kei se aproximou de mim de forma relativamente tímida. Algo na expressão dela parecia diferente.
— Desculpe por ligar para você tão tarde.
— Não, tudo bem.
Como eu realmente não tinha nada para conversar com ela, fiquei em silêncio contemplando a paisagem noturna. No entanto, Karuizawa parecia querer me perguntar algo. Olhei para ela.
— Ah, hum… só queria saber se tudo realmente correu bem — disse ela.
— Não se preocupe. Tenho certeza de que um dos caras da Classe A enviou um email para a escola com o meu nome — respondi.
Eu tinha mais uma carta na manga além da troca dupla de celulares. Mas, como meus planos estavam bem traçados, provavelmente não havia motivo para preocupação.
— Como você tem tanta certeza? — perguntou ela.
— Acho que você está falando sobre aquele pedaço de papel que me deu, certo, Ayanokoji-kun?
A abordagem de Hirata por trás fez Karuizawa pular de susto. Bem, isso era compreensível. Afinal, Karuizawa havia gritado com ele e dito que estavam terminando dias atrás.
— Excelente trabalho neste teste, vocês dois. Posso me sentar? — perguntou ele.
— Claro.
Karuizawa se mexeu na cadeira, claramente desconfortável. Ela olhou para o lado, mas não deu nenhum sinal de que iria recusá-lo. Eram 22h55. Em apenas cinco minutos, um email deveria ser enviado para todos os alunos.
— Está quase na hora. Horikita-san ainda não chegou? Não deveríamos contatá-la? — perguntou Hirata.
— Ela é do tipo que aparece no último segundo. Temos mais quatro minutos — disse eu.
— Ah, parece que ela chegou — disse Hirata.
Aparentemente, Horikita havia chegado antes do que eu esperava.
— Ahh… quando vejo vocês, não consigo evitar suspirar — murmurou Horikita.
— Você finalmente chegou. Ei, quem é aquele atrás de você? — perguntei.
— Ignore-o. Pense nele como um fantasma grudado nas minhas costas — disse Horikita, de forma direta.
— Ah, vamos, não diga isso, Horikita. Eu só achei que você poderia estar nervosa durante o teste, então me preocupei com você. Por isso vim verificar — disse Sudou Ken. Eu não o via há vários dias. Ele estava tão próximo de Horikita que pareciam praticamente colados.
— Você está no caminho. Sai daqui — ela cuspiu.
— E-Ei, não diga isso. Eu dei tudo de mim neste teste, sabia? — disse ele.
— Nesse caso, acha que vai conseguir bons resultados?
— Eu estava apenas um passo atrás, só isso. Parece que alguém enviou o email antes de mim — murmurou ele.
Horikita parou de prestar atenção às desculpas fracas dele e se sentou no assento vago. Sudou rapidamente foi pegar uma cadeira de uma mesa próxima.
— Você está no caminho — resmungou Horikita.
— Vamos lá. Tá tudo bem, não é? Eu só vou ouvir. Você não excluiria um colega, certo? — respondeu ele.
Esse era um grupo de pessoas bastante incomum. Sudou não parecia se interessar em ouvir ninguém além dele.
— Enfim, sobre a sequência de emails que recebemos mais cedo — começou Horikita.
— Sim. Eu também fiquei preso nisso — disse eu.
Estávamos falando sobre o que havia acontecido duas horas antes. Pouco antes de me separar de Ichinose, recebemos quatro emails quase ao mesmo tempo, em rápida sucessão. Eles nos informavam sobre o fim do teste para vários grupos. O teste havia terminado para os grupos Rato, Cavalo, Galo e Porco. Todos tiveram traidores.
— Minami-kun era o VIP do grupo Cavalo, certo? — perguntou Horikita.
— Sim. Alguém descobriu sua identidade — raciocinei.
— Alguém de nós enviou um e-mail para os outros grupos? — perguntou Horikita.
Ela estava ansiosa. Se acertasse errado, as penalidades eram pesadas.
— Eu fiquei um pouco apreensivo sobre isso, então fui perguntar para as pessoas dos grupos individuais mais cedo. Nenhum dos caras disse que virou traidor — respondeu Hirata.
Espero que não tivessem mentido para ele. Achei que poderíamos confiar neles até certo ponto.
— Yamauchi está bem? — perguntei.
— Ah, ele provavelmente está. Yamauchi-kun estava no grupo Galo. Parece que ele tentou enviar um email, mas hesitou demais. O teste terminou antes que ele pudesse enviá-lo de fato — disse Horikita.
— Não sei quem foi, mas trair o grupo antes que ele pudesse foi uma jogada inteligente — disse eu.
Horikita havia previsto que, se Yamauchi enviasse o email, ele provavelmente teria errado a resposta. Ela provavelmente estava certa. Ele podia se achar um cara ousado, mas no momento em que hesitou em enviar o email, tudo acabou para ele. Ele não era o sujeito confiante que imaginava.
— Mas não sei quanto às garotas — disse Horikita.
— Já conferi. Ninguém enviou email — disse Karuizawa, sem hesitar. Como responsável pelas garotas da Classe D, ela podia ter tanta certeza quanto Hirata sobre suas informações.
— Entendi — respondeu Horikita, de forma direta. É claro, como Horikita não tinha a influência social necessária, não teve escolha a não ser aceitar o que lhe disseram.
— Ainda assim, fico me perguntando por que apenas um pequeno grupo de pessoas recebeu explicações sobre este exame, no fim — murmurou Hirata, como se ainda tivesse dúvidas persistentes que não conseguia afastar.
— Este exame tinha tudo a ver com testar nosso raciocínio. Não é como se cada pergunta tivesse uma resposta — disse Horikita.
Talvez só conseguíssemos compreender tudo depois de enxergar através de todos os blefes sem sentido. A verdade se escondia entre tantas dúvidas.
— O que me preocupa é que aqueles quatro emails chegaram quase ao mesmo tempo. A escola disse que tínhamos um prazo de trinta minutos no final do teste para trair alguém, mas todos os emails chegaram com um ou dois segundos de diferença — disse Horikita.
— Isso não é apenas uma coincidência? — perguntou Sudou. Aparentemente, da perspectiva dele, tudo era coincidência.
— Quando Koenji-kun enviou o email para trair seu grupo, a escola respondeu sem demora. Se você pensar na velocidade, deve ter sido automático — começou Horikita.
— Então é provável que todos os emails tenham sido enviados juntos. Ou seja, os emails de traição vieram todos de uma única classe — completou Hirata.
Era isso. Não conseguia pensar em outra explicação.
— Talvez tenham enviado os emails ao mesmo tempo como uma forma de exibir sua supremacia — acrescentou Hirata.
— Sim. E há apenas uma pessoa que consigo imaginar fazendo algo assim — disse Horikita.
Horikita e Hirata tinham uma sintonia natural. Eu fiquei grato por eles conseguirem conduzir isso sem que eu precisasse intervir. Marcar esse encontro neste café específico, um lugar que já usamos tantas vezes, fora um movimento deliberado da minha parte.
— Então, no fim das contas, todos vocês estão aqui, hein? — disse Ryuen.
Era para que eu pudesse convidar um sexto participante específico a se juntar a nós.
— Ryuen!
Sudou, ao perceber Ryuen, levantou-se como se fosse ameaçá-lo, mas Ryuen nem ligou. Ele simplesmente pegou uma cadeira vazia, a jogou com força ao lado de Horikita e sentou-se.
— Pensei em aproveitar para ver os resultados com todos vocês. Obrigado por se reunirem em um lugar tão fácil de encontrar — disse ele, em tom de deboche.
— Sim. Escolhi este lugar porque até um idiota como você conseguiria encontrá-lo facilmente. Deveria ser grato — respondeu Horikita.
— Enfim, Suzune, você está com um grupo consideravelmente grande. Ficou mais sociável? — murmurou Ryuen, olhando para as quatro pessoas sentadas ao redor da mesa e ignorando Sudou por completo.
— Eu não gostei do seu assédio persistente. Estava conversando com eles sobre isso — disse Horikita, de forma direta.
— Não se encoste em Horikita! — rugiu Sudou.
— Sudou-kun, fique quieto — Horikita respondeu de forma ríspida.
— Oh — murmurou ele, abatido. Sudou obedientemente afundou de volta na cadeira. Ele estava surpreendentemente dócil.
— Eu não imaginava que você realmente tivesse amigos — provocou Ryuen.
Essa era uma estratégia defensiva que eu havia criado especificamente para lidar com Ryuen. Ao aumentar o número de pessoas no círculo social de Horikita, eu havia configurado um "alvo falso". Com mais gente para vigiar, ele não conseguiria observar tudo. Ficaria negligente.
— Os resultados serão anunciados a qualquer momento. Estão esperando algum resultado? — perguntou ele.
— Mais ou menos. Você parece bastante relaxado — disse Horikita.
— Heh. Eu não estaria aqui se não estivesse. Parece a mesma turma da última vez — respondeu Ryuen.
— E eu me lembro que, da última vez que anunciaram os resultados, você estava todo convencido. Mas então perdeu feio — provocou Sudou, apontando um dedo para Ryuen e rindo.
Horikita, como se concordasse com Sudou, lançou um olhar de desprezo para Ryuen.
— Pare com isso, Suzune. Se você se empolgar agora, só vai se envergonhar depois. Eu já sei quem é o VIP do nosso grupo — disse Ryuen.
Se ele estava mentindo ou não, Horikita não se abalou nem um pouco. Ela estava convencida de que não perderia para Ryuen.
— Fico muito feliz em ouvir isso. Estou ansiosa pelos resultados — respondeu ela com confiança.
— Não há necessidade de esperar pelo anúncio. Quer que eu diga quem é o VIP do grupo Dragão? — perguntou ele.
— Desculpe, mas estou ouvindo o choramingo irritante de um perdedor. O teste já terminou, e ninguém do grupo Dragão se tornou traidor. Isso só pode significar uma coisa — respondeu ela. O exame havia terminado sem que Ryuen descobrisse que Kushida era o VIP.
— Se você entendesse a profundidade da minha misericórdia, ficaria comovida. Tão comovida que… bem, você ficaria molhada entre as coxas — Ryuen riu, como se aquele linguajar vulgar fosse engraçado.
— Tudo bem, então me diga. Quem é o VIP do grupo Dragão? — perguntou Horikita.
Ryuen, como se esperasse que ela perguntasse, cobriu o rosto sorridente com a mão. Espiou por entre os dedos, como uma fera na jaula. Parecia pronto para rasgar a garganta de sua presa.
— Kushida Kikyou.
— Hã? — Horikita, que até então estava despreocupada, gritou e se enrijeceu. Ela estava confiante de que ele jamais acertaria. Hirata, também do grupo Dragão, ficou estupefato.
— Desculpe, mas eu sabia que Kushida era o VIP desde o segundo dia do teste — disse Ryuen.
— Você está brincando, certo? Se fosse verdade, teria se tornado traidor e enviado um email. Mas o teste não terminou assim. Isso só pode significar que você percebeu isso depois do exame. Não há outra explicação. Estou errada? — perguntou Horikita.
— Eu simplesmente senti pena de vocês. Vocês estavam tão incrivelmente confiantes na vitória que olhavam para os outros de cima. Estavam desesperados para que tudo saísse perfeito, assumindo que ninguém acertaria. Por isso, segui o plano até o fim — disse Ryuen.
— Como você descobriu? — perguntou Hirata, sua voz misturando curiosidade e medo. Ela devia estar curiosa tanto porque protegeu Kushida cuidadosamente, quanto porque Ryuen não havia traído ninguém.
— Infelizmente, a resposta… bem, envolve você, Suzune — respondeu Ryuuen.
— Eu? — perguntou ela, boquiaberta. Horikita devia estar tentando manter a calma enquanto revivia o teste na cabeça. Quando, onde e como ele havia obtido a resposta?
— Descobri por causa do seu corpo. Os movimentos dos seus olhos e boca. Sua respiração. Seu comportamento. Seu tom de voz. Tudo em você me dizia que estava mentindo — continuou Ryuen, com uma voz sinistra.
— Pare com as brincadeiras!
— Brincadeiras? Se fosse brincadeira, como eu saberia a verdade?
— Isso… tenho certeza de que você poderia ter ouvido de outra pessoa — gaguejou Horikita.
— Entendo como se sente. Você não quer admitir que é a pessoa mais incompetente do grupo. Mas não se culpe, Suzune. Você apenas escolheu o oponente errado. Além disso, este exame deveria ser puro caos. De qualquer forma, a Classe A terá uma surpresa especialmente desagradável. Relaxe.
— O quê? O que você fez? — perguntou Horikita.
— Você vai entender em breve.
Aparentemente, Ryuen desempenhara um papel importante nos quatro emails de traição. Quando o relógio bateu onze horas, recebemos as notificações exatamente ao mesmo tempo. Todos nós, exceto Ryuen, conferimos os resultados:
Rato: Resultado #3. O traidor respondeu corretamente.
Vaca: Resultado #4. O traidor respondeu incorretamente.
Tigre: Resultado #2. A identidade do VIP não foi descoberta.
Coelho: Resultado #4. O traidor respondeu incorretamente.
Dragão: Resultado #1. Todo o grupo respondeu corretamente no final do teste.
Cobra: Resultado #2. A identidade do VIP não foi descoberta.
Cavalo: Resultado #3. O traidor respondeu corretamente.
Ovelha: Resultado #2. A identidade do VIP não foi descoberta.
Macaco: Resultado #3. O traidor respondeu corretamente.
Galo: Resultado #3. O traidor respondeu corretamente.
Cachorro: Resultado #2. A identidade do VIP não foi descoberta.
Porco: Resultado #3. O traidor respondeu corretamente.
Com base nesses resultados, o aumento ou diminuição de pontos de classe e pontos privados foi o seguinte. "Cl" indica pontos de classe e "Pp" pontos privados:
Classe A: -200 Cl; +2 milhões Pp
Classe B: 0 Cl; +2,5 milhões Pp
Classe C: +150 Cl; +5,5 milhões Pp
Classe D: +50 Cl; +3 milhões Pp
— Classe C… ficou no topo — murmurou Horikita.
Todos pareciam chocados com os resultados.
— Não é ótimo, Suzune? Graças ao seu erro, o grupo Dragão conseguiu limpar este teste com o Resultado #1. Por causa disso, todas as classes devem receber um aumento de pontos — comemorou Ryuen. Ele bateu palmas e ostentou um sorriso satisfeito. — Se implorarem, eu posso dizer a resposta. Que tal?
— Quem iria—
Horikita começou a retrucar, mas rapidamente se calou.
— Ooh, esse olhar que você tem… é bem sexy.
Ryuen tirou o celular e o colocou sobre a mesa. Na tela havia uma lista com os nomes dos VIPs da Classe A nos grupos Rato, Galo e Porco.
— Fiz alguns ajustes e cheguei à raiz do teste. Depois, apenas foquei nos alunos da Classe A — disse ele.
Ryuen conseguiu limpar o teste sem nem mirar nas Classes B ou D. Ninguém deveria ser capaz de fazer isso, mas ele conseguiu.
— Sinto muito em dizer, Suzune, mas você é meu próximo alvo. Vou atrás de você com tudo que tenho. Não vou parar até destruí-la, mente e corpo — disse ele.
Horikita, sem conseguir retrucar, apenas continuou encarando os resultados. Após conquistar um número tão grande de pontos, a Classe C havia obtido uma vantagem esmagadora. Ao observar os resultados, ficou claro que Koenji havia salvado nossas costas, mesmo que achássemos que ele estava apenas se divertindo. Se ele não tivesse agido, a vitória seria exclusivamente da Classe C. Claro, as ações de Koenji acabaram atingindo outros VIPs por tabela.
— Estou ansioso pelo segundo semestre — disse Ryuen.
Ryuen, tendo cumprido sua vingança pela ilha, afastou-se satisfeito. O resto de nós não estava exatamente em clima de comemoração. Se alguém visse nossas expressões sérias, imaginaria que havíamos sofrido uma derrota esmagadora.
— Entendo que Ryuen-kun conseguiu descobrir os VIPs da Classe A, claro, mas não estou convencido de que ele tenha algum talento sobrenatural. Ainda assim, como o Grupo Dragão conseguiu esse resultado? — perguntou Hirata.
Ninguém respondeu, talvez porque ninguém conseguia entender.
— Não é um problema realmente difícil. Se você se concentrar, é relativamente simples — disse eu a todos.
— Como assim? — perguntou Horikita.
— Deixando de lado como Ryuen descobriu a identidade dos VIPs, tudo o que ele precisava era dizer a todos "Kushida é o VIP" antes do final do teste, certo? Claro que ninguém acreditaria em alguém como Ryuen. Especialmente um grupo de pessoas tão inteligentes e talentosas. No entanto, a última meia hora foi diferente. Mesmo que alguém respondesse errado, não havia risco para os pontos de classe. Assim, até alguém que estivesse jogando defensivamente, como Katsuragi, poderia votar, certo? Se houvesse pelo menos 1% de chance de Kushida ser o VIP, eles teriam conseguido o Resultado #1, que era o mais conveniente para todos.
Se ele apenas tivesse plantado a semente antes, teria sido extremamente simples. Mas algo assim normalmente seria impossível. Era um ato de equilíbrio; algo que não poderia acontecer a menos que cada pessoa confiasse que Kushida era a resposta. Seria isso realmente possível? Enquanto pensava, ainda tinha dúvidas. Nunca imaginaria que ele poderia ter sucesso. Como ele conseguiu conquistar a confiança de todos — excluindo, é claro, a Classe D? Eu estava genuinamente curioso.
Talvez se ele tivesse uma prova absoluta?
— Horikita. Acho que podemos estar em apuros — disse eu. Não havia uma solução rápida para o nosso problema. Dependendo de como as coisas se desenrolassem, a Classe D poderia ficar presa a esses obstáculos por bastante tempo.
— Por "apuros", você quer dizer Ryuen-kun? É verdade que ele se saiu muito bem neste teste, mas não há garantia de que será perigoso no futuro. Seu grupo venceu o teste, afinal. Não foi? — perguntou ela.
— Você tem razão. Provavelmente estou pensando demais. Não se preocupe.
Talvez meus sentimentos não passassem de um pressentimento. Mas e se se tornassem realidade? Esses poderiam ser nossos primeiros passos vacilantes rumo ao desespero. Ao mesmo tempo, senti uma emoção estranha crescendo dentro de mim. Era algo como… excitação.
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