Ano 1 - Volume 7
Capítulo 4: Hora de Acertar as Contas
— CHEGAMOS AO fim da aula, — disse o professor Sakagami, responsável pela Classe C. — Gostaria de lembrar a todos que se comportem da melhor forma possível, mesmo durante as férias de inverno, e que usem bem seu tempo. Só isso.
Peguei meu celular enquanto ouvia suas palavras gentis, porém vazias. Hoje era o dia da cerimônia de encerramento — o último dia do segundo semestre. As aulas terminaram mais cedo, deixando-nos livres pela tarde. Também não haveria atividades de clube. A escola incentivava os alunos a voltar cedo para os dormitórios, então quase ninguém ficaria no prédio.
Em outras palavras, finalmente era hora de agir.
— Eliminei todos os que pude, mas ainda restam uns dez possíveis candidatos — murmurei para mim mesmo. Alguns eram pessoas com quem eu nunca havia sequer falado, mas não havia como evitar. Eu preferia resolver isso sem usar Karuizawa, mas X continuava me escapando.
— Bem… acho que isso só significa que vou me divertir ainda mais.
Para ser honesto, havia uma pessoa específica em quem eu vinha de olho o tempo todo, mas ainda não podia chegar a conclusões. Seria muito mais divertido confrontar X com a mente limpa e sem dúvidas.
Após o Paper Shuffle, tomei certas providências. Mobilizei todos os alunos da Classe C e atribuí alvos para eles espionarem. Claro que seguir pessoas dificilmente me aproximaria muito da identidade de X. Excluí os fracos, reduzindo minha lista a delinquentes como Sudou e Miyake, e conservadores como Hirata.
Os valentões da Classe D perceberam que estavam sendo seguidos — exceto Sudou, tão burro e desligado que precisei mandar meus subordinados provocarem-no diretamente. Mas ser notado não tinha importância. Eu queria que eles soubessem que eu estava observando. Queria que X passasse os dias em constante medo, apavorado com a possibilidade de ser descoberto.
Ainda assim, continuavam usando Suzune como disfarce, teimosamente mantendo-se ocultos. Significava que eu tinha de apertar o laço.
Mais uma coisa: embora eu praticamente tivesse avisado X de que miraria Karuizawa, ainda não havia feito nenhum movimento. Eu tinha certeza de que eles estavam tensos nas últimas duas semanas, imaginando como e quando eu contataria Karuizawa, e como extrairia informações dela. Provavelmente perguntavam a ela todos os dias se algo estranho havia acontecido. A incerteza os desgastaria. Confundiria. Estariam exaustos, paranoicos, assustados com sombras, imaginando que eu respirava em seu pescoço.
O que fazia de hoje o dia perfeito para atacar. Agora, eu estava preparado para encurralá-los.
Embora tivessem se passado apenas alguns minutos desde o fim da aula, mais da metade da classe já tinha ido embora. O relógio na parede parecia marcar o tempo mais devagar que o normal.
— Heheheh…
Meu coração acelerava. Havia anos que não sentia esse tipo de excitação.
Ibuki havia perguntado por que eu arriscava tanto só para identificar X. Disse que era inútil. Ela estava certa ao dizer que eu não me importava com nada além de descobrir a identidade de X. Achava que eu ficaria decepcionado quando descobrisse quem era. Talvez isso fosse verdade para pessoas normais, mas lutar contra a Classe D me fizera perceber que X pensava e agia como eu. Eu nunca tinha conhecido alguém como eu antes. Essa fascinação me impulsionava.
Perguntava-me como me sentiria ao encarar X frente a frente, e qual seria meu próximo objetivo. X vinha me entretendo há tanto tempo. A simples ideia de encontrá-lo fazia meu pulso acelerar — quase como um primeiro amor.
Eu faria qualquer coisa, usaria qualquer meio para encontrá-lo. A mensagem que enviei a X esta manhã já aparecia como lida. Eles sabiam o que aconteceria hoje. O que fariam, então? Que plano elaborariam?
— Ryuen-kun, — disse Shiina Hiyori, sentada ao meu lado.
— O quê?
— Todos parecem bem inquietos hoje, não? — perguntou ela, observando a sala. Os alunos que restavam aproximavam-se mais de mim. — O que você está planejando?
— Vou confrontar minha presa divertida dos últimos meses. Quer vir?
— Não, vou recusar. Não consigo ver como isso seria divertido.
Shiina fez uma pausa e então disse:
— Você realmente precisa caçá-lo?
— Hã?
— Nada. Suponho que isso cabe a você decidir, como líder da classe — disse ela, levantando-se. — Estarei na biblioteca. Se houver algum problema, por favor, me avise.
— Não que você vá ser útil, vai?
— Suponho que esteja certo. Bem, tenha boas férias de inverno.
Disse isso com calma, sem um traço de medo, e saiu. Hiyori era inteligente, mas detestava conflitos, o que a tornava inútil como peça. Pessoas que me seguiam obedientemente eram muito mais fáceis de usar.
Terminei meus preparativos finais e reuni meu grupo.
— Chegou a hora, não é, Ryuen-san? — disse Ishizaki, inquieto.
— Vamos aproveitar bem o dia — respondi.
Entreguei a Ishizaki uma bolsa com certos itens indispensáveis.
Ibuki e Albert também se levantaram. Eu não precisava de grandes números. Precisava de pessoas discretas, porque estávamos prestes a fazer algo que chocaria esta escola tão correta e bem-comportada até a raiz.
*
Meia hora após o fim da aula, as férias de inverno haviam começado. O campus estava praticamente deserto. Como no verão, os alunos correram de volta aos dormitórios, deixando quase ninguém para testemunhar nossos movimentos ousados.
— Então, pra onde estamos indo? Para de enrolar e fala logo — disse Ibuki.
Eu não explicara minha estratégia para ninguém, a fim de evitar espiões como Manabe e suas amigas. Ibuki e os outros apenas sabiam que eu mandara Ishizaki e alguns rapazes vigiarem Miyake e mais algumas pessoas. Portanto, eles não sabiam o verdadeiro motivo pelo qual eu pressionara Koenji.
Não tinha dúvida de que X faria de tudo para manter sua identidade oculta. Assim, escondi meus planos o máximo possível para melhorar minhas chances de encurralá-lo.
— Preocupada, Ibuki?
— Você me deixa nervosa, me arrastando para essas suas idiotices.
Ishizaki também devia estar curioso, porque se aproximou mais.
— Você lembra da Karuizawa, certo? — perguntei. — Ela é o motivo de Manabe e suas amigas terem sido forçadas a espionar a gente para a Classe D.
— Aquela garota barulhenta da Classe D, né? — Ibuki havia infiltrado a Classe D na ilha deserta, então a conhecia bem.
— Mandei uma mensagem para Karuizawa hoje, pedindo que viesse ao terraço. E ela sabe que fui eu quem mandou. Consegui o e-mail dela com outra garota da classe.
Evitei mencionar o nome da traidora. Não era necessário revelar ainda o papel de Kushida Kikyou.
— Hã? Terraço? De jeito nenhum a Karuizawa vai aparecer só porque você pediu.
— Ela vai, sim. Disse que, se não vier, vou expor o passado dela.
Se aquela história patética de bullying viesse a público, causaria um escândalo. A vida social dela estaria acabada. Não tinha outra escolha além de aparecer.
— Mesmo que a Karuizawa venha, você acha que ela diria quem é X?
— Normalmente, não…
"Normalmente" mesmo. X certamente prometera protegê-la de todos os inimigos.
— Mas também enviei uma mensagem para X. Disse que me encontraria com Karuizawa hoje e que arrancaria dela sua identidade. Que usaria qualquer meio necessário para conseguir o que quero. Assim, não estou apenas ameaçando Karuizawa — estou ameaçando X ao mesmo tempo.
— Mas… você mandou uma ameaça para Karuizawa, não foi? E se ela contar tudo pra escola? Se X sugerir isso, ela pode tentar — disse Ibuki, me lançando um olhar acusador.
— Ela não vai fazer isso. Se fizer, exponho tudo imediatamente. Não importa o que tente, Karuizawa não pode virar o jogo contra nós.
A única alternativa seria X aparecer no lugar dela para me confrontar.
— O pior cenário — expliquei — será se X aparecer em vez da Karuizawa. De qualquer forma, vai ser divertido ver o que Karuizawa fará.
— Não acho que vale o risco.
— Muito pelo contrário. Derrubar Karuizawa significa tirar do tabuleiro uma das peças mais valiosas de X. Ao que parece, ele a vêm usando de maneiras bem engenhosas.
— Como você sabe disso? Digo, sei que X ameaçou Manabe e as amigas para proteger a Karuizawa, mas…
Até eu só havia percebido recentemente que Karuizawa era uma peça de X. Cheguei a essa conclusão justamente por causa de certas coisas incompreensíveis que ocorreram no Paper Shuffle.
— Heh. Fique de olho, Ibuki. Deixando X de lado, você com certeza verá Karuizawa apavorada com a possibilidade de eu expor como ela foi intimidada no passado.
— Se a Karuizawa aparecer… o que você vai fazer se não conseguir arrancar a identidade de X? — perguntou Ishizaki. Ele e Ibuki pareciam preocupados.
— Segundo Manabe e suas amigas, Karuizawa sofreu agressões terríveis no passado. Pessoas que passaram por traumas assim geralmente perdem o controle quando colocadas em uma situação semelhante. Por que não recriamos essas memórias para ela? Vamos dar um espetáculo. Reencenaremos o passado dela até que diga quem é X.
— Você não pode. Isso é loucura! — exclamou Ibuki.
— Isso é extremo, Ryuen-san. Um monte de nós intimidando uma garota? E tem câmeras no terraço! — disse Ishizaki.
— Estou totalmente ciente disso. Tenho um plano.
Comecei a subir as escadas para o terraço. No meio do caminho, parei e olhei para Ibuki e Ishizaki, que vinham alguns passos atrás.
— Se não gostarem, não venham.
— Eu não vou fugir. Vou seguir você, Ryuen-san.
— E você, Ibuki?
— Depende do seu plano. Se eu achar que é perigoso, vou embora.
Ela também estava curiosa sobre a identidade de X já fazia algum tempo.
Pedi para Ibuki, Albert e Ishizaki esperarem perto da porta que levava ao terraço, pegando a bolsa das mãos de Ishizaki. Retirei as ferramentas necessárias e devolvi a bolsa.
— Isso é…
— Espera.
Abri a porta. Era raro que o terraço da escola ficasse acessível o ano inteiro. O motivo era que ele tinha tanto uma grade adequada quanto uma câmera de vigilância. Qualquer atividade perigosa seria gravada. Os alunos sabiam disso, e por isso se comportavam quando vinham aqui.
Por outro lado, o terraço também era um lugar isolado. Com seus cafés e shopping, o campus tinha pontos muito mais populares. Eu provavelmente era o único excêntrico o bastante para vir com frequência até aqui em cima.
Havia também um limite para o número de câmeras que a escola podia instalar. Havia apenas uma câmera de vigilância neste terraço, posicionada acima da porta — o único local realmente possível de instalação. Essa câmera era suficiente para capturar quase todo o terraço, deixando praticamente nenhum ponto cego. O lado ruim disso, claro, era que se essa câmera deixasse de funcionar, o terraço ficaria completamente sem monitoramento.
Era o mesmo tipo de câmera usada no prédio escolar: à prova de vandalismo, com lente de policarbonato resistente e corpo de aço difícil de danificar. Mas violência não era a única forma de desativar uma câmera.
Parei diretamente sob ela e encarei a lente. Peguei a lata de tinta spray preta que eu tinha trazido, apontei para a lente e borrifei.
— Pronto. Livres de olhos curiosos — disse eu.
Eu tinha feito minha pesquisa. Entre as centenas de câmeras instaladas pela escola, apenas um número limitado transmitia imagens em tempo real, e esta não era uma delas. As autoridades não perceberiam o que estava acontecendo aqui em cima a tempo de impedir. Eu já tinha pintado outra câmera antes, para testar minha teoria, e minha única punição ao relatar o que fizera a Sakagami foi pagar pela limpeza.
A escola provavelmente estaria com a guarda baixa hoje, quando a maioria dos alunos já tinha ido embora.
— Albert, fique de prontidão na escada. Quando a Karuizawa chegar, deixe ela passar. Se alguém inesperado aparecer, como algum professor, me avise na hora.
Albert assentiu e desceu as escadas.
— Você pintou a câmera? — perguntou Ibuki. — Isso não é punível?
— Só uma brincadeira boba. Nada demais.
— É melhor que a Karuizawa apareça mesmo.
— Ela virá. Para ela, isso é uma questão de vida ou morte.
Agora, só restava esperar.
*
Já passava um pouco das duas da tarde, quase na hora marcada para Karuizawa, quando a porta do terraço se abriu e uma estudante apareceu sozinha. A protagonista do espetáculo de hoje surgiu, encolhendo os ombros no ar gelado.
— Heh. Eu sabia que você viria, Karuizawa.
Desliguei o celular e o guardei no bolso. Ibuki e Ishizaki ficaram de frente para ela, ambos um pouco nervosos.
— A mensagem que você mandou — disse Karuizawa. — O que aquilo significa?
— Não precisa nem perguntar. Você está aqui exatamente porque entendeu o significado.
Minha mensagem dizia: "A Manabe e as amigas dela me contaram tudo sobre seu passado. Venha ao terraço depois da aula, sozinha. Se falar com alguém, seu passado vai se espalhar por toda a escola."
Só mencionar Manabe e suas amigas era o suficiente para garantir que Karuizawa entendesse. Ela não tinha escolha a não ser entender.
— Imagino que você não tenha contado a ninguém, como eu mandei? Bom, não que você tivesse opção. Não pode deixar qualquer um saber sobre o seu passado, afinal.
Karuizawa talvez tivesse entrado em pânico e avisado X, já que provavelmente apenas X sabia seu segredo, mas isso já não me importava. Como eu disse a Ibuki e aos outros, eu mesmo tinha enviado uma mensagem para X.
Hoje, eu daria meu veredito sobre Karuizawa. E então, a pressionaria até descobrir a identidade de X. Não importava se ela tivesse pedido ajuda ou não — o resultado seria o mesmo.
— Você veio sozinha, no fim das contas, hein?
— Você mandou, não foi?
— Heh. Suponho que sim.
Não era do feitio de X — que tanto se esforçava para esconder sua identidade — aparecer aqui de forma descuidada. E Karuizawa não podia pedir ajuda a ninguém além de X, porque, se o fizesse, seu passado poderia ser exposto. O mesmo valia para X, que queria manter sua identidade oculta. Em outras palavras, ambos tinham as mãos atadas.
— Olha… eu realmente não faço ideia do que você tá falando, mas aqui tá frio. Quero terminar logo com isso.
Karuizawa esfregou os braços, como se pudesse fingir que não sabia do que se tratava. Era uma péssima atriz.
— Nesse caso, por que veio? Devia ter me ignorado.
— Bem, é que… eu não queria que nenhuma mentira começasse a circular.
Ela tentava com todas as forças parecer calma, mas eu a desmascarei facilmente.
— Mentiras, hein? Todos aqui sabem a verdade… que você sofreu bullying antes de entrar no ensino médio.
— Ah…
Ao ouvir isso, seu comportamento mudou.
— Foi sorte que Manabe e as amigas descobriram. Se quiser culpar alguém, culpe a si mesma por não ter lidado com elas melhor.
— O que você quer? O que você ganha me ameaçando?
— E o que você faria se eu dissesse que estou só matando tempo?
Mesmo com tantas cartas na manga, Karuizawa já não tinha opções.
— Se você fizer alguma coisa comigo… e-eu vou contar para a escola — gaguejou.
— Você veio sozinha porque sabe que não pode fazer isso.
— Você não acha que tá exagerando, Ryuen? Ela pode ter alguma carta na manga — disse Ibuki. Ela ainda suspeitava que havia algo estranho, já que Karuizawa tinha vindo sozinha ao terraço.
— Karuizawa não pode fazer nada além de depender de X. Não precisamos ter tanta cautela. Mesmo que ela grave a conversa, não tem como usar isso. Ter seu passado exposto é seu maior medo. Enquanto tivermos essa carta, ela está à nossa mercê.
— Mas—
— Chega. Cala a boca.
Eu já sabia o que Ibuki queria dizer. Ela diria que Manabe e suas amigas tinham sido ameaçadas com provas de que estavam intimidando Karuizawa. Elas foram obrigadas a recuar, forçadas a prometer que não contariam nada a ninguém e, depois disso, coagidas a cavar a própria cova, entregando informações sobre a Classe C.
Ibuki temia que provas do que estávamos fazendo aqui em cima pudessem ser usadas contra nós da mesma forma, mas isso não aconteceria. Eu garantiria isso.
O passado de Karuizawa era nossa arma. Enquanto eu a utilizasse bem, não havia razão para temer nada. Qualquer um que tentasse nos encurralar estaria fazendo o mesmo com Karuizawa. E esse tipo de perigo ia nos dois sentidos. Era uma espada de dois gumes.
Eu precisava usar as informações que tinha para causar o máximo de impacto possível, mas se eu expusesse completamente o passado de Karuizawa para a escola, não teria mais nada com que ameaçá-la. Eu a destruiria, mas X escaparia. Eu precisava localizar a pessoa escondida por trás de Karuizawa. Precisava descobrir a verdadeira identidade de X aqui e agora — e, para isso, era essencial medir a força da conexão entre os dois.
— Vamos parar de rodeios. Você quer que eu te deixe em paz, certo? Então me diga a identidade da pessoa que está escondida atrás de você. Se fizer isso, eu fico quieto sobre o seu passado.
— Eu não, tipo… entendi o que você quer dizer.
Karuizawa parecia abalada. Ela sabia que eu procurava o responsável por trás da Classe D, mas provavelmente só agora percebeu que tínhamos descoberto a ligação dela com essa pessoa.
— X salvou você de Manabe e suas amigas, não foi?
— Hã? Você está enganado.
— Não adianta esconder. Eu tenho provas.
— Provas?
Pelo visto, X tinha omitido mais detalhes de Karuizawa do que eu imaginava. Eu aplicaria pressão lenta e metódica até encurralá-la completamente.
— Como você acha que X te protegeu delas?
— Eu não faço ideia. Além disso, elas nem estavam me intimidando. Mesmo que você diga essas coisas sobre X, ou seja lá quem for—
— Certo, certo. Entendi. Se você não quer confessar, eu mesmo digo.
Ela não ia abrir a boca enquanto eu não colocasse os fatos na mesa.
— X ameaçou expor Manabe e suas amigas por bullying contra você caso elas não obedecessem. Foi assim que ele fez elas calarem a boca.
Karuizawa não respondeu. Apenas me encarou.
— Heheheh. Entendi… Então você sabia como X manteve Manabe e suas amigas na linha.
— E-Eu não disse nada.
— Não mesmo. Mas seus olhos disseram a verdade por você.
Continuei:
— Se isso fosse tudo que X fez, eu não me importaria. Mas não parou por aí. X também obrigou Manabe e suas amigas a me trair durante o festival esportivo. Fez com que se tornassem espiãs e vazassem informações, ameaçando expor o bullying que cometeram contra você.
— Do que você está falando? Sério, eu não tenho a menor ideia—
— Seus olhos estão inquietos, percebe? Parece que esta é a primeira vez que você ouve sobre o festival esportivo.
Não podia ser, pensei. Talvez Karuizawa realmente não soubesse quem era X? Se X sempre entrava em contato usando um endereço anônimo, então…
Não. Eu não achava que Karuizawa obedeceria alguém que não conhecia e nunca tinha visto. Se realmente não soubesse quem era X, por que não admitir que cooperou até certo ponto, mas não sabia mais nada? Se ela negava tudo, devia haver um motivo.
— Tudo que eu quero é o nome de X. O nome da pessoa que tem me atacado. Eu sinceramente não dou a mínima para o seu passado. Não seria mais sensato simplesmente cooperar?
— Não importa quantas vezes você pergunte, minha resposta é a mesma. Eu não sei de nada. E sério, está muito frio aqui…
Ela usava roupas finíssimas. Talvez não tivesse planejado ficar aqui fora por muito tempo.
— Pois é, está frio mesmo, não é? Não quer terminar logo nossa conversa e voltar para dentro?
— Não tenho nada a dizer.
— Entendo. Se você insiste em encobrir X, então não tenho saída. Está bem se eu expor todo o seu passado?
— Eu…
Karuizawa estava realmente sem saída. Não importava que tipo de ataque eu fizesse, ela não podia fazer nada além de manter a boca fechada. Qualquer escolha que fizesse significaria ganhar um inimigo. Pensasse o quanto quisesse, só perderia tempo.
— Não adianta lutar contra mim — continuei. — Você não vai pensar em uma solução. Sabe que suas opções são limitadas. Se quer se salvar, sabe que a escolha certa é me dizer o nome dessa pessoa.
— S-Se existe mesmo alguém escondido nas sombras assim, você não tem como saber se o nome que eu disser é mesmo da pessoa que você está procurando, certo? — perguntou Karuizawa.
Ishizaki, talvez por também estar preso a essa ideia, decidiu interferir sem permissão:
— Ryuen-san, ela tem razão. Não temos como saber se ela está falando a verdade.
O idiota estava oferecendo uma rota de fuga a Karuizawa. Lancei-lhe um olhar para que se calasse. Percebendo o erro, ele fechou a boca de imediato.
— Se eu descobrir que você mentiu, exponho você depois — avisei a Karuizawa.
— Isso—
— A única forma de se salvar é me contar tudo que sabe.
Ri dela, mas Karuizawa apenas me olhou de lado e rebateu:
— Eu não sou tão burra assim. Não importa se eu disser a verdade agora ou se mentir. De qualquer jeito, você vai tentar usar isso contra mim mais tarde. Desculpa, mas eu não vou ser uma peça que você usa quando quer.
— Heh. Sim, suponho que esteja certa. Não há garantia de que eu não vá continuar usando isso contra você, como X fez com Manabe e suas amigas. Ainda assim, que escolha você tem?
— Não posso confirmar nem negar que existe alguém por trás de mim. E também não vou simplesmente jogar um nome para você. Em outras palavras, eu não tenho resposta nenhuma.
Ao que parecia, Karuizawa tinha decidido que o silêncio era a única resposta possível. Não era uma opção ruim, mas definitivamente não era a melhor.
— E se eu te expuser por causa disso? — perguntei.
— Você acha que alguém está controlando a Classe D pelas sombras, mas não teria me procurado se não tivesse falhado em descobrir a identidade dessa pessoa até agora. Nesse caso, eu sou sua única pista, e você não pode se dar ao luxo de me descartar.
— Entendi. Então, se eu expor o seu passado antes de conseguir algo de você, estou ferrado, é isso? Você não vai me contar nada, e minha caçada pela identidade de X vai ser atrasada ainda mais — concluí.
Karuizawa desviou o olhar, como se dissesse: "Sim, é exatamente isso que eu quis dizer."
— Sinceramente, não me importo muito se eu descobrir a identidade de X por você ou não. Posso levar o tempo que for para descobrir por conta própria. Acha mesmo que não terei muitas oportunidades para capturar X no futuro? — perguntei.
— Isso se X vier atrás de você de novo. Se essa pessoa perceber que você está tentando descobrir sua identidade, não vai ficar ainda mais cuidadosa daqui para frente? — ela rebateu.
Ela era mais esperta do que eu imaginava. Uma garota afiada, de língua rápida. Se a mente de X realmente funcionava como a minha, provavelmente escolheu Karuizawa porque considerava sua influência social dentro da Classe D uma ferramenta útil. X não tinha escrúpulos em usar pessoas — o que também significava que não teria escrúpulos em abandoná-las.
Não havia dúvida de que X estava agindo para elevar a Classe D. Mas eu não podia descartar a possibilidade de que, se forçado a escolher, X priorizaria esconder sua identidade em vez de ajudar sua classe. Se eu expusesse Karuizawa agora, poderia nunca descobrir quem ele era. E isso, francamente, estragaria toda a diversão.
— Você realmente preparou boas medidas de autodefesa, hein? Tudo por conta própria? — perguntei a Karuizawa. Eu supunha que ela tinha pensado muito para chegar a isso. Era possível que X tivesse lhe dado algumas ideias… mas parecia improvável.
— Entendeu agora? Não acha que a melhor opção seria simplesmente me deixar ir? — ela retrucou.
Chequei meu celular. Nenhuma mensagem. Será que minha tentativa de contatar X havia dado errado?
Bom, não é como se eu estivesse esperando que fosse fácil cercá-lo. Decidi que era hora de levar as coisas ao próximo nível.
— Escuta, tudo que você precisa fazer é me dizer quem é X — falei para Karuizawa. — Você sabe, e eu vou arrancar essa informação de você de um jeito ou de outro.
A culpa é sua, X. Este é o resultado de tentar ter tudo: salvar Karuizawa e esconder sua identidade.
— Se suas ameaças não funcionam, como pretende me fazer falar? — ela perguntou.
— É óbvio, não é? Tortura é uma tradição antiga.
— Ryuen-san, você está falando sério? — disse Ibuki.
— Ibuki, segure a Karuizawa.
— Eu? Faz você mesmo — protestou Ibuki, hesitante.
— Faça — ordenei.
— Eu não vou ser cúmplice disso. É arriscado demais — disse ela.
— Patética. Está arregando depois de me decepcionar tantas vezes? — Agarrei o braço rebelde de Ibuki e a puxei para perto. — É assim que você recupera minha confiança. Eu assumo toda a responsabilidade pelo que acontecer aqui. Não se segure.
— Tch… — Ibuki estalou a língua, mas se aproximou de Karuizawa.
— O quê…? — guinchou Karuizawa.
— Olha, eu tenho meus próprios problemas. Foi mal — disse Ibuki. Ela foi para trás de Karuizawa e segurou suas mãos.
— Ai! — gritou Karuizawa.

Apesar da relutância inicial, Ibuki a manteve presa com facilidade. Karuizawa não podia fazer nada contra alguém com treinamento em artes marciais.
— Ishizaki, vá encher alguns baldes com água. Comece com dois. Há dois baldes de limpeza no banheiro masculino um andar abaixo. Ninguém deve estar usando agora.
— Hã? Água? Para quê?
— Vai me desafiar também?
— N-Não! Já vou! — Ishizaki entrou em pânico e correu, quase tropeçando nos próprios pés.
— Certo, vamos aproveitar um bom bate-papo até ele voltar — eu disse.
— Não! Me solta! — Karuizawa se debatia desesperada, mas não conseguia se soltar da força de Ibuki. Ela provavelmente já imaginava o que estava por vir — e era exatamente por isso que eu fazia Ibuki segurá-la. Não para impedir uma fuga, mas para aumentar o medo dela do que viria.
— Se você encostar um dedo em mim, eu vou contar para todo mundo! — gritou Karuizawa.
— HehEheh. Foi bem ousado da sua parte aparecer aqui. Achou que o tal X viria te proteger desta vez também? — perguntei.
Não importava quantas vezes eu perguntasse, a resposta era sempre a mesma. Ela se recusava teimosamente a admitir se esse tal X realmente existia.
— Vou arriscar um palpite: X, o mentor oculto da Classe D, prometeu te proteger de situações como esta. Acertei? — continuei.
Os olhos de Karuizawa dispararam para os lados. Talvez ela achasse que estava escondendo seus pensamentos, mas eles estavam escancarados.
— Caso contrário, nada disso faz sentido. Se o seu passado viesse à tona, sua atitude mandona e metida só serviria para virar todo mundo contra você — até garotas de outras classes. A Manabe e suas amigas não seriam as únicas a te mirar — afirmei.
Ibuki desviou os olhos de Karuizawa e olhou para mim.
— Você deve passar todos os dias aterrorizada com a possibilidade de descobrirem a verdade. Mas conseguiu chegar até aqui sem que seu segredo vazasse. Por quê? Só existe uma explicação: por causa da pessoa que te salvou e te apoiou.
— E você acha que essa pessoa é X? — perguntou Ibuki.
— Por enquanto. Mas isso só aconteceu recentemente, certo? — perguntei a Karuizawa. — X só descobriu a verdade sobre seu passado depois da sua briga com a Manabe e as outras. Você fez o Hirata fingir ser seu namorado para se proteger, não foi?
As pupilas de Karuizawa se dilataram.
— V-Você está enganado…
— Mas não estou, estou? Não minta para mim, Karuizawa — encarei seus olhos, como se pudesse enxergar a escuridão escondida lá no fundo. X provavelmente tinha feito o mesmo.
— Ah…?! — Ela estava realmente em pânico agora. Quase fofo.
— Como você sabe disso, Ryuen? — até Ibuki parecia chocada.
— Experiência. Já lidei com muita gente podre na vida — respondi.
— Ugh… o-of… D-Desculpa pela demora… — Ishizaki voltou carregando dois baldes quase cheios de água, respingando enquanto andava.
Ibuki voltou a me bombardear com perguntas ao ver os baldes:
— Você disse que havia dois baldes. Como sabia? Investigou tudo antes?
— Sabe quantas câmeras de vigilância existem nesta escola? Aposto que você nem imagina.
— Hã? Claro que não.
— Você nunca vai saber se não investigar. Mas se pesquisar, começa a compreender tudo ao seu redor — respondi.
Todos os dias, pouco a pouco, eu havia mapeado cada lugar da escola onde havia câmeras. Como resultado, também descobri sobre os baldes guardados naquele banheiro específico.
— Um dos experimentos que usei para descobrir tudo isso foi quando mandei o Ishizaki e os outros atacarem o Sudou — continuei. — Como eles são idiotas, parece que havia uma testemunha da Classe D lá na hora.
Por causa do testemunho, Ishizaki e os outros foram enganados e confessaram diante de uma câmera falsa. Ishizaki ficou com expressão envergonhada enquanto eu mencionava o incidente. Se não fosse pela testemunha, a Classe C teria lucrado bastante naquela ocasião.
— Já te disse antes, Ishizaki: nunca admita nada.
— S-Sim… é q-que eu só… bem, aquilo me abalou um pouco… — gaguejou.
— A escola parece aplicar um código de conduta rígido, mas isso não é totalmente verdade. Existem brechas que permitem métodos mais… contundentes, se você souber jogar — expliquei. Havia pistas espalhadas no nosso dia a dia que deixavam isso claro. — Tenho certeza de que vocês não percebem, mas os alunos mais inteligentes são aqueles que testam constantemente os limites do que a escola permite.
A primeira coisa que fiz depois de entrar nessa escola misteriosa foi procurar suas "regras" — e como quebrá-las. A segunda coisa foi algo essencial para entender o sistema: testar a importância dos pontos privados.
— Por exemplo — continuei — vocês já notaram algo estranho em todos esses exames? A prova da ilha deserta, o cruzeiro, o Paper Shuffle… Não acham que os veteranos poderiam nos dar conselhos? Mas se tentarem perguntar, nenhum deles dá uma resposta satisfatória. Por quê?
— Talvez porque os exames sejam diferentes todo ano? Tipo, talvez as regras mudem.
— Sim. Não acho que as provas sejam exatamente iguais todo ano. Mas, para ser preciso, diria que as regras para cada série são diferentes.
— Como assim, Ryuen-san?
Se fosse possível passar nos exames com dicas dos veteranos, eles não seriam exames — seria só uma competição idiota para ver quem puxava mais o saco dos mais velhos. Precisava haver regras para impedir isso.
— E se existisse uma regra suplementar dizendo que "qualquer aluno do segundo ou terceiro ano que vazar conteúdo do exame será expulso imediatamente"?
— Isso… Eles nunca falariam nada.
— Exato. Mesmo que um calouro perguntasse, eles ficariam mudos. Quem passou um ano inteiro evitando expulsão não arriscaria tudo com um comentário descuidado. Inclusive, tentei subornar alunos do segundo ano com pontos privados e falhei miseravelmente. Prova de que falar é arriscado demais.
— Mas… Bem, acho que faz sentido. Komiya e Kondou falaram algo parecido um tempo atrás. Tentaram pedir dicas para veteranos e não conseguiram nada. Parecia até que eles nem tinham permissão de perguntar.
E foi justamente essa sensação que indicava que a proibição existia há gerações. As regras reais provavelmente eram mais detalhadas, mas descobriríamos eventualmente.
— Sempre tentei empurrar o limite entre o que é permitido e o que é violação — expliquei. Pesquisar câmeras, subornar veteranos e fechar aquele acordo nos bastidores com a Classe A eram parte do meu experimento para descobrir o que eu podia fazer. — O que estamos prestes a fazer com a Karuizawa também é um desses experimentos.
Karuizawa começou a tremer de frio.
— Traumas podem ser despertados mais fortemente pelos sentidos do que pelas palavras — acrescentei.
De acordo com o que Manabe e suas amigas me haviam contado, a feroz Karuizawa desabaria rapidamente se submetida a isso. Dei um sinal para Ishizaki com um olhar. Ibuki empurrou Karuizawa para a frente e então se afastou. Seguindo minhas ordens, Ishizaki virou um balde de água sobre a cabeça dela.
— Ah!
Ser encharcada ao ar livre, no meio do inverno, gelaria qualquer um até os ossos. Karuizawa desabou, tremendo, abraçando o próprio corpo. Sua coragem desapareceu, levada embora por um único balde de água.
— Lembra do batismo que recebeu na sua antiga escola? — perguntei.
— N-Não! — Ela cobriu os ouvidos e ficou ali sentada, tremendo da cabeça aos pés, como uma garotinha com medo de fantasmas.
— Vamos lá, estamos só começando. — Tirei o celular do bolso e comecei a gravar. Afastei sua franja molhada dos olhos, observando seu espírito começar a se partir. Provavelmente estava revivendo as cenas de quando foi intimidada. — Se você não falar, eu vou espalhar esse vídeo pela escola inteira.
Era mentira, mas Karuizawa já não estava em condições de perceber.
— Vamos, grite. Suplique por misericórdia.
— N-Não!
Quanto mais profundas as cicatrizes, mais elas doíam quando você as expunha novamente.
— Não consigo assistir isso. Eu sabia que não devia ter te ajudado — disse Ibuki, desviando o olhar.
— Intimidar os fracos é divertido, não é? Dá até um prazer especial.
Pensei em uma situação antiga, quando algumas pessoas haviam me atacado. Um cara, em especial, começou todo cheio de confiança, mas terminou chorando como um bebê quando virei o jogo.
O caso de Karuizawa era um pouco diferente.
— Mesmo tendo sido intimidada tão persistentemente, você se manteve firme na Classe D. Estou impressionado — disse a ela. — Não é fácil conseguir isso. De certo modo, talvez você seja uma garota com espírito suficiente para me enfrentar.
Apesar de ser tão fraca, ela havia mantido a cabeça erguida. Criou uma nova identidade para si mesma e sustentou essa posição usando Hirata — e a proteção de X.
Mas bullying torna as pessoas submissas. Uma vez vivido, o trauma é facilmente despertado. Era simplesmente assim que funcionava. Ajoelhei ao lado do corpo trêmulo de Karuizawa e continuei a provocar:
— A natureza humana é assim. As pessoas não mudam. Você nasceu para ser intimidada, não para intimidar. Lembre-se disso.
Peguei o outro balde e despejei a água sobre ela.
…!
Sem emitir som algum, ela soltou um grito silencioso e se encolheu, reduzindo-se a uma pequena bola de puro medo.
— Ishizaki. Traga mais.
— Sim — respondeu ele, pegando os dois baldes vazios e descendo as escadas.
— Quem está te protegendo e mantendo a Manabe e as outras caladas? — exigi.
— N-Não tem… ninguém… Ninguém, ninguém, ninguém! — gritou Karuizawa. Ela sacudia a cabeça com força.
— Heh. Ainda tentando esconder? Acho que você realmente tem espírito. Ou talvez esteja tão acostumada a ser intimidada que isso nem conta mais como bullying pra você.
Agarrei o braço dela e a puxei para que ficasse de pé.
— Não consigo ver isso — repetiu Ibuki.
— É agora que começa a diversão — declarei.
— Você é desprezível. Isso é nojento. — Mas Ibuki não saiu. Encostou-se à porta. — Eu vou embora quando você arrancar um nome dela.
— Por mim, tudo bem.
Eu não estava fazendo aquilo para entreter Ibuki. Estava quebrando Karuizawa por puro prazer.
*
Eu estava congelando.
Água gelada escorria do meu cabelo. Já tinham jogado água em mim quatro vezes. Meu uniforme estava encharcado; até minha roupa íntima estava molhada. Mas o que me assustava não era o frio que fazia meu corpo tremer sem controle.
O que me assustava era o gelo no meu coração.
Eu encarava uma escuridão profunda, tão intensa e amarga que me fazia odiar o mundo inteiro.
Por que estão fazendo isso comigo?
Aos poucos, meus pensamentos viraram: Por que eu existo? O que eu fiz de errado?
Comecei a me culpar. Meu coração congelava, e meu corpo parecia ser devorado por dentro. As cicatrizes profundas gravadas em mim começaram a pulsar outra vez, como se queimassem.
— Vamos lá. Já chega, Karuizawa. Facilite as coisas para você. Não precisa continuar sofrendo — zombou Ryuen.
Mas aquilo era um beco sem saída. Se eu contasse sobre o Kiyotaka, talvez ganhasse uma trégua temporária, mas não havia garantia alguma de que Ryuen não tentaria me chantagear novamente. Ele poderia até mandar que eu traísse a Classe D. Como nos finais trágicos que passavam na televisão, tudo o que aguardava pessoas que traíam os outros era miséria.
Eu me agarraria à esperança até o fim. Acreditaria nas palavras de Kiyotaka, em sua promessa de que me protegeria. Essa era a minha última defesa antes que meu coração fosse engolido pela escuridão.
— Eu sei o que você está pensando. Se entregar X, vai perder a proteção dele. Vai perder toda a sua esperança — disse Ryuen.
Meus dentes batiam tão forte por causa do frio que transformavam meu pavor em som. Eu lutava desesperadamente para parar, mas minha mente já havia me abandonado. Memórias repugnantes se agitavam dentro da minha cabeça. O passado e o presente se sobrepunham.
— Você quer morrer agarrada à esperança? Está bem em voltar a ser como antes? — as palavras cruéis de Ryuen me atravessaram. — X não pode te salvar. Eu posso, se você me der o nome dele.
Eu estava com medo.
— Mas, se você não cooperar… não terei escolha a não ser destruir você.
Me salve.
— Vou listar tudo o que existe sobre você, tudo o que você finge ser, e espalhar pela escola inteira.
Eu estou com medo.
— Quando isso acontecer, você vai conseguir manter sua posição na classe? Vai continuar sendo uma líder?
Me salve.
— Não. Você só vai voltar a ser o que era antes. Vai voltar a ser a verdadeira você: aquela garota patética que sempre era intimidada.
As memórias cruéis do bullying que eu tinha sofrido muito tempo atrás começaram a rodar na minha cabeça sem parar. Eu jamais queria voltar para aquele mundo escuro e miserável, onde tudo o que eu conseguia pensar era o quanto eu queria morrer.
— Não, não, não não não! Não, não, não!
— Então facilite as coisas. Proteja a si mesma.
— Por favor, me perdoe! Por favor, me perdoe!
Meu orgulho já tinha se despedaçado. Não, isso não era verdade. Ele já tinha se quebrado antes, e eu o havia remendado de forma desajeitada com fita adesiva. A Karuizawa Kei que havia construído uma nova vida estava morrendo. Eu podia sentir minha segunda chance em uma vida escolar feliz desmoronando em pó.
— Eu não sou misericordioso como Manabe e as amigas dela — disse Ryuen. — Nós sabemos seu segredo. Mesmo que você me expulse, não sou só eu que sei. Vou espalhar rumores sobre seu passado. Seus próprios colegas vão sentir o cheiro de sangue e se voltar contra você!
— Não, não, não…
— Então lembre. Lembre o quão doloroso será voltar a ser quem você era.
Mesmo odiando, eu lembrei.
Por um momento, minha mente ficou completamente em branco. Tudo o que vi foi branco infinito. E então, logo depois, veio a escuridão.
Contra minha vontade, eu me lembrei. Lembrei do ginásio, e do inferno que eu mesma havia criado por causa das coisas mais triviais. Eu era teimosa, cabeça-dura, e logo após começar as aulas, fiz inimigas entre as meninas sem motivo. O que veio depois foi um pesadelo completo.
Rabiscaram insultos nos meus livros e jogaram meus cadernos fora? Isso era até "fofo". Jogaram água em mim enquanto eu usava o banheiro — mais de uma vez. Virou rotina. Elas me socavam e chutavam. Gravaram eu apanhando e espalharam os vídeos. Colocaram tachinhas nos meus sapatos e animais mortos na minha mesa.
Eu lembrei de tudo.
Elas puxaram minha saia na frente dos colegas. Esconderam minha calcinha e meu uniforme depois da aula de natação. Me fizeram confessar sentimentos românticos a garotos que eu nem gostava. Me obrigaram a lamber os sapatos delas. Até me fizeram pegar lixo do chão e comer.
Eu lembrei de sofrer uma humilhação atrás da outra.
Sim. Era isso mesmo.
Eu me lembrava.
Em momentos assim, a defesa de uma pessoa é simplesmente aceitar o que acontece. Depois de um tempo, eu aprendi a fazer isso. Aceitar a realidade. Aceitar que Ryuen e seus seguidores estavam me intimidando de novo.
Seria mais fácil se eu simplesmente aceitasse.
Eu realmente ia voltar àqueles dias? Se isso acontecesse, eu sabia que meu coração não aguentaria. Eu não suportaria se as garotas que agora eram gentis comigo, minhas amigas, começassem a mudar.
Minha antiga escola me abandonou. A única coisa boa que fez por mim foi me falar sobre esta escola. Jogaram-me uma tábua de salvação ao me mandar para um lugar onde ninguém me conhecia. Se ninguém me conhecia, então eu…
Ergui o rosto para o céu, com lágrimas escorrendo.

Por que eu tenho que sofrer assim?
Não. Eu não queria isso.
Esse sentimento começou a crescer dentro de mim.
Eu não queria voltar.
Ryuen disse que só queria encontrar a pessoa que procurava. Em outras palavras, se eu desse o nome de Kiyotaka, eu estaria livre. Mas não havia garantia de que ele não contaria meu passado de qualquer jeito. Amanhã isso podia ser de conhecimento público. Se isso acontecesse, eu não perderia apenas a confiança de Kiyotaka, mas de todas as minhas amigas.
Mas…
Ainda era possível. Eu podia ser salva. Se eu apenas desse o nome de Kiyotaka, era possível que essa tortura cruel e dolorosa chegasse ao fim.
Eu vou salvar você.
Kiyotaka tinha me prometido isso, mas ele não estava aqui. Mesmo que eu acreditasse nele, isso não mudava a situação atual. Será que ele não viu a mensagem que enviei? Eu também o olhei, pedi ajuda em silêncio. Nossos olhos se encontraram. Ele definitivamente me viu.
Ele disse que me protegeria. Será que eu imaginei? Fui idiota por acreditar? Eu não sabia mais. Não havia mais como ter certeza. Nosso relacionamento era superficial demais. Ele se afastou de mim sem garantir que manteria Manabe e suas amigas sob controle.
Ele deu razões egoístas, dizendo que já não precisava manipular a classe.
Eu era apenas um pensamento secundário. Fui traída? Abandonada?
— Vê alguém vindo, Albert? Eu não vejo — disse Ryuen com um suspiro leve, parado na minha frente.
— Imagino que você esteja se agarrando à esperança de que alguém venha te salvar. Mas não parece ser o caso.
Ah. Então, eu havia sido abandonada mesmo. Bem, o que eu deveria fazer agora, além de acreditar? Kiyotaka disse que me salvaria. E a verdade é que ele me protegeu de Manabe e suas amigas.
— Parece que você confia bastante em X, Karuizawa — disse Ryuen, suspirando com exasperação. — Você foi enganada.
— N-Não, isso é mentira.
— Não é mentira. Vou te contar a verdade sobre o teste do navio de cruzeiro. A verdade que X nunca te contou.
— A… a verdade?
O sorriso de Ryuen desapareceu.
— Manabe queria se vingar de você por ter sido má com a amiga dela, Morofuji, mas não encontrava uma boa oportunidade. Mesmo que tentasse te chamar para algum lugar isolado, não era como se você fosse aparecer. Mas, por algum motivo, você desceu até o último andar sozinha. Por quê?
— Isso foi… — Porque Yousuke-kun tinha me pedido. Naquele tempo, eu estava emocionalmente instável. Não tive escolha a não ser depender de Yousuke-kun, o hospedeiro ao qual eu me agarrava como um parasita. Foi por isso que fui.
Então Manabe e suas amigas apareceram…
— Você realmente acha que isso foi coincidência? — mais uma vez, Ryuen enxergou através de mim. — Manabe e suas amigas não podiam te seguir o tempo todo, especialmente em um navio tão grande. Elas aparecerem ali não foi coincidência, foi inevitável.
Então Yousuke-kun tinha me enganado? Não… Isso não podia ser.
Eu percebi imediatamente que não era isso.
— Você já sabe, não sabe? X entrou em contato com Manabe em segredo e armou tudo. Enganou Manabe dizendo que também te odiava e que a ajudaria a te pegar. Você foi uma idiota por cair tão facilmente.
Eu me lembrava do quão estranho aquilo parecia. Yousuke-kun tinha me pedido para encontrá-lo ali, mas no fim nunca apareceu. Agora eu entendia que Kiyotaka tinha instruído Yousuke-kun a me levar até lá sozinha.
— X armou para você. Deixou Manabe te intimidar de propósito para poder gravar tudo e usar contra ela depois. Injusto da parte dele, não acha?
Eu queria dizer que ele estava errado. Mas o que Ryuen dizia… eu não conseguia negar tão facilmente. Então… Kiyotaka ter aparecido para me salvar também não foi coincidência?
— Você não foi salva. Você foi presa. Bem estúpido, né?
Eu… tinha sido enganada?
— Olhe ao seu redor. X está aqui agora? X está te salvando?
Kiyotaka… tinha me enganado desde o início?
— É seguro assumir que X cortou todos os laços com você quando sua identidade estava prestes a ser exposta — disse Ryuen.
Não… isso não…
Isso não podia…
Eu… não posso ser salva. Mesmo sofrendo tanto…
Eu tinha caído na armadilha de Kiyotaka. Ele me fez acreditar que poderia me salvar. Me fez ajudá-lo em tantas coisas. Mas, no momento crucial, quando eu precisei dele… ele me abandonou.
— Finalmente entendeu, né? Isso mesmo. Você só foi intimidada de novo.
Eu estava completamente envolta em escuridão. Não conseguia escapar desse ciclo interminável de bullying.
— Bem, ainda existe um jeito de você se salvar — disse Ryuen.
Um nome.
O nome de Kiyotaka.
— Isso mesmo. Tudo vai acabar — Ryuen riu novamente, como se lesse meus pensamentos. — Se você me der o nome, eu prometo nunca mais te incomodar.
Se eu desse o nome a Ryuen… tudo isso acabaria?
Tudo o que eu precisava dizer era "Ayanokoji Kiyotaka". Eu não sabia se podia acreditar em Ryuen. Mas se ele ouvisse as palavras saindo do fundo do meu coração, eu sabia que ele entenderia. Era a única coisa da qual eu tinha certeza agora.
Contra minha vontade, meus lábios trêmulos começaram a se separar. O desespero e a raiva de ter sido traída subiram para encher meu coração. Mas nenhum som saiu. Estava frio demais para falar.
— Vá com calma. Apenas diga o nome.
— K… — Eu tremia inteira, estremecendo de medo, mas finalmente consegui emitir um som.
— K…? — Ryuen repetiu o ruído.
— K…t… — Devagar, muito devagar, eu espremi mais sons para fora da garganta. Era isso. Se eu fizesse isso, estaria livre.
— Mais uma vez — disse Ryuen, aproximando o rosto do meu.
— P-Para… com isso… Não importa quantas vezes… — As palavras começaram a sair, mas não eram aquelas palavras. Eu nunca tive intenção de dizer o nome.
Porque eu… não…
— Não importa quantas vezes você pergunte… Eu nunca, nunca vou te contar… SEU TARADO!
O sorriso de Ryuen desapareceu. Parecia que um único raio de luz perfurara o céu nublado. Minhas palavras não tinham mudado, mas, com elas, eu havia feito minha escolha.
— Mesmo que eu perca tudo o que construí nesta escola a partir de amanhã… Não importa o quanto você me faça passar… — Essas palavras não eram de Ryuen nem de Kiyotaka. Eram minhas. E eram algo em que eu podia acreditar, acontecesse o que acontecesse. — Eu nunca vou te dar o nome.
Calor inundou meu peito.
— Tem certeza, Karuizawa?
Sim.
Eu estou bem com isso.
Eu posso me arrepender.
Mas… eu estou bem com isso!
— Mesmo que X só estivesse usando você, por que você ainda o protege?
Eu queria me fazer a mesma pergunta.
— Eu não sei por quê. — Mas havia uma coisa que eu sabia. — Eu quero continuar de pé até o fim!
Minha visão, que estava embaçando, de repente voltou a ficar nítida.
— Entendo. Que pena, Karuizawa. Eu não queria fazer isso, mas você não me deixou escolha. Ainda assim, você tem meu respeito. Apesar de todo o seu trauma, e mesmo depois de a única pessoa em quem podia confiar ter te traído, você não o entregou. Honestamente, eu te admiro.
Está tudo bem.
Está tudo bem.
Eu continuava repetindo isso para mim mesma. Eu ia ser destruída agora, mas, de alguma forma, não conseguia deixar de sentir orgulho de mim mesma. Mesmo ele tendo me traído, eu não o traí. Eu o protegi. Se, de algum jeito, eu pudesse ajudá-lo a encontrar a paz que procurava, não seria tão ruim, certo? Até me fazia parecer legal. Não fazia?
Minha vida nunca tinha sido muito interessante, exceto quando eu trabalhava com Kiyotaka. Ajudá-lo em todos aqueles esquemas não era tão ruim. Na verdade, era emocionante. Eu me divertia. Eu me sentia como uma atriz coadjuvante, ajudando o herói nos bastidores. Eu não entendia muita coisa do que fazíamos, mas, de algum modo, era incrivelmente divertido.
Além disso, não importava o que acontecesse, a verdade era que ele me salvou. Por isso, eu não tinha arrependimentos.
Mas… lá no fundo, eu ainda esperava que ele viesse me salvar. Aquelas pequenas e fugazes esperanças dentro de mim eram… reais, eu acho. Ah, que idiota eu era. Eu só tinha dançado na palma da mão dele o tempo todo. Bem, a gente colhe o que planta, né?
Primeiro Yousuke-kun, depois Kiyotaka, os dois me protegeram. Eu era uma garota que não conseguia fazer nada sozinha.
De alguma forma, sob o frio céu de inverno, eu me senti… grata.
Adeus, eu falsa.
Bem-vinda de volta, Karuizawa vazia e fria do passado.
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