Ano 1 - Volume 7
Capítulo 2: Encontros e Despedidas
— O QUE DIABOS há com aqueles caras?! — resmungou Sudou, irritadíssimo, quando entrou na sala no dia seguinte. Ele passou direto pela própria carteira e foi até Horikita. A expressão em seu rosto deixava claro que estava muito irritado. — Ei. Tem um minuto, Suzune?
— O que foi? — Horikita não podia simplesmente ignorá-lo quando ele a encurralava na mesa.
— Aqueles idiotas da Classe C! Aquele tal de Ryuen e os capangas dele. Estão me seguindo desde de manhã, tentando arrumar briga. Eles até bloquearam meu caminho no corredor. Estão me irritando pra valer!
— Você não gritou insultos nem tentou acertar eles, certo? — perguntou Horikita. Ela lançou a Sudou um olhar severo, arrancando sua resposta imediata.
— Claro que não. Eu ignorei eles totalmente.
— Entendo. Parece que você seguiu minhas instruções direitinho — respondeu Horikita.
— Que instruções? — perguntei a Sudou.
— Ah, a Suzune me disse que sempre que eu topar com algo que não consigo lidar direito, é pra simplesmente ignorar — disse Sudou. Era um conselho sensato. Se Sudou respondesse aos alunos da Classe C, só colocaria mais lenha na fogueira.
— Bom… acho que esbarrei no ombro deles quando forcei passagem — ele acrescentou. — Mas os alunos das outras classes viram que eu estava cercado, então não tem perigo, né?
— Não acho que eles tentariam nada, não — disse Horikita.
Eles já tinham envolvido a escola e o conselho estudantil antes, causando um tumulto. Se Sudou socasse alguém, seria ruim, mas só empurrar para sair do aperto deveria ser aceitável.
— E o que eles disseram? — perguntei.
— Me chamaram de macaco, idiota, essas besteiras. Tavam tentando me provocar pra brigar.
Smack! Sudou bateu o punho na palma da mão. Fiquei me perguntando se isso era um desdobramento dos planos da Classe C, como quando apareceram no clube de arco e flecha ontem.
— Alguns caras da Classe C também seguiram o Akito… quer dizer, o Miyake — informei a Sudou e Horikita.
— Miyake-kun? Parece que a Classe C anda bem ativa ultimamente — comentou Horikita.
— Cê acha que eles tão planejando outra briga, tipo daquela vez que tentaram me ferrar? — perguntou Sudou.
— Difícil dizer. Não posso afirmar nada ainda. Mas, por precaução, vou pensar em contra-medidas. Se eles se aproximarem de você de novo, certifique-se de não partir para a violência — disse Horikita.
— Entendi. Não vou quebrar minha promessa pra você. Mesmo que eles partam pra porrada, eu vou manter a calma — afirmou Sudou.
Ele parecia mais maduro, e Horikita acreditou em suas palavras. Depois de terminar seu relato, Sudou voltou satisfeito para sua carteira e começou a conversar casualmente com Ike e Yamauchi.
Observando-o, Horikita murmurou:
— Será que Sudou-kun finalmente se tornou uma pessoa normal e bem ajustada?
— É — respondi. — A fala dele ainda é um pouco rude, mas isso não tem problema.
— Parece que chegou a hora de ele dar o próximo passo.
Com esse comentário enigmático, Horikita pegou um caderno e começou a escrever.
— Do que você tá falando? Que próximo passo? — perguntei. Quando tentei espiar, ela fechou o caderno rapidamente.
— Assunto para outra hora. Além disso, temos problemas maiores do que apenas Sudou-kun — disse ela.
Eu não sabia do que ela estava falando, e honestamente não me importava muito. Ultimamente, Horikita estava pensando e agindo de forma cada vez mais independente de mim. Também tinha melhorado sua comunicação com Sudou, Hirata e os outros.
— De qualquer forma, Ryuen-kun anda bastante ocupado — ela continuou. — Mal terminamos o Paper Shuffle. O que será que ele está tramando agora?
— Não há provas no horizonte imediato — comentei.
— Pense na época em que eles atacaram o Sudou-kun. Agora, parece que Ryuen está mirando na Ichinose-san e na Classe B. Ele aparentemente gosta de desafiar seus inimigos justamente quando não há provas envolvidas — disse Horikita, lançando-me um olhar afiado, como se dissesse "Você já deveria saber disso".
Finjo não ver e dou de ombros.
— Me pergunto o que ele quer dessa vez…
— Você realmente não sabe? Ou só está fingindo? — ela perguntou.
— Do que está falando?
— Ele está procurando a pessoa que controla a Classe D nos bastidores.
— Em outras palavras, ele está procurando por você?
Horikita me encarou com uma intensidade esmagadora.
— Você não pode usar eu como escudo para se esconder do Ryuen desta vez.
— E por que você acha isso?
— Se ele acreditasse que eu era a estrategista da Classe D, teria vindo falar comigo diretamente. Mas ele não fez nada disso — explicou Horikita.
— Talvez sua estratégia durante o Paper Shuffle tenha sido mais eficaz do que ele esperava. Pode estar agindo com mais cautela agora, eliminando os obstáculos primeiro — sugeri.
— Talvez. Mas não acho que seja isso. É mais como se ele tivesse perdido o interesse em mim.
— Isso quer dizer que você sente falta da atenção do Ryuen? — provoquei.
— Isso quer dizer que você quer que eu te chute?
— Eu não quero ser chutado.
E ela realmente chutaria.
— Talvez o líder clandestino da nossa classe tenha chamado atenção demais para si mesmo. Finja ignorância se quiser, mas você realmente quer discutir isso aqui e agora? — perguntou Horikita.
Era pouco antes da chamada, e todos os nossos colegas, inclusive Kushida, estavam em suas carteiras. Não parecia que alguém estava ouvindo, mas não era uma conversa apropriada para ser arriscada.
— De qualquer forma, você claramente entende o Ryuen muito bem. Não estou zombando — acrescentei, rápido, quando ela voltou a me lançar um olhar gelado.
— O modus operandi dele não mudou quase nada. Se ele repete os mesmos truques, vou acabar aprendendo, mesmo sem querer. Foi assim que previ que ele usaria a Kushida-san no Paper Shuffle. Claro, nem preciso dizer que eu preferiria que isso não tivesse acontecido, mas… — Horikita deixou a frase morrer.
Ninguém gostava de um traidor. Horikita provavelmente pensava que não teríamos passado por tantas dificuldades se Kushida não tivesse nos traído.
No entanto, Ryuen só estava tão confiante justamente por causa da ameaça interna que Kushida representava. Para o bem ou para o mal, ela nos permitiu compreender os padrões de ataque do inimigo.
— Esse não foi o único erro de cálculo do Ryuen-kun. Eu pretendia puxar o tapete dele durante o Paper Shuffle — continuou Horikita.
— Mas não foi isso que aconteceu?
— Sim. Honestamente, alguns dos alunos com notas mais baixas da Classe C deveriam ter sido expulsos, mas não parece ter sido o caso.
Se você conseguia colocar as mãos em um conjunto completo de perguntas e respostas, não precisava estudar. Horikita estava dizendo que não seria surpreendente se alguns alunos da Classe C tivessem sido expulsos por baixarem a guarda. Keisei e os outros pareciam pensar da mesma forma.
— A Classe C deve ter algumas pessoas inteligentes, certo? Alunos que atuam como suporte para seus colegas, ao contrário do Ryuen — comentei.
— Provavelmente. Se estão se esforçando tanto assim, estão fazendo um bom trabalho — disse Horikita. — De qualquer forma, imagino que os truques dele só vão piorar a partir daqui.
— Isso não é problema meu. É seu.
— Eu sei. Ser o seu chamariz parece ser meu destino.
— Você está surpreendentemente conformada.
— Porque não tenho escolha além de aceitar. Não é como se você fosse desistir agora, não é?
Esse otimismo não era algo ruim. Horikita era perspicaz. Tinha bastante potencial. Se melhorasse suas habilidades de comunicação até o nível de Hirata, ela poderia figurar entre os melhores.
— Então, qual é o seu plano? — perguntou Horikita.
— Plano… pra quê?
— Você tem alguma estratégia para lidar com a caça do Ryuen-kun para expor você?
— Não.
— Aí vamos nós de novo — ela bufou, irritada. — Vamos mudar de assunto. Você ainda está participando daqueles encontros?
— Encontros? Quer dizer, com Keisei e os outros? Aconteceu algum problema?
— Não consigo imaginar muito benefício em fazer parte daquele grupinho. Esse grupo de estudos foi formado especificamente para ajudar Hasebe-san e Miyake-kun em certas matérias, correto? Agora que a prova acabou, ele não é mais necessário.
— Não é uma questão de necessidade. Eu simplesmente me sinto à vontade quando estou com eles — respondi.
A vida de Horikita girava completamente em torno da meta de ascender à Classe A. Era tudo do que ela falava. Como eu não compartilhava do seu entusiasmo, não tinha motivo para passar tempo com ela da mesma forma que passava com Keisei e os outros.
Se algum dia Horikita viesse falar comigo sobre algo que não fosse problema de classe, talvez eu pudesse me relacionar com ela da mesma maneira.
— Vai cooperar comigo? — perguntou Horikita.
— Vou. Tanto quanto puder — respondi.
Ela não pareceu muito convencida.
*
A última aula da manhã terminou, e era hora do almoço. Enquanto eu pensava em encontrar Akito e Keisei, Horikita ficou me encarando.
— O quê? Queria continuar o assunto de hoje cedo? — perguntei.
— Não. Tenho um pedido.
— Se for algo trabalhoso, vou recusar.
— Não deve levar muito tempo. — Horikita enfiou a mão na bolsa e tirou um livro da biblioteca. — Você não disse semana passada que queria ler isto?
— Farewell, My Lovely, hein? — Uma obra-prima de Raymond Chandler. Eu estava interessado fazia um tempo, mas o livro parecia estranhamente popular; vivia emprestado. Já tinha desistido de pegá-lo.
— Estou impressionado que conseguiu reservá-lo. Está me oferecendo pra ler?
Tecnicamente, Horikita deveria devolvê-lo para o próximo da fila. Mas parecia o jeito mais garantido — embora meio duvidoso — de colocar as mãos nele.
— Se quiser. Ele também vence hoje. Eu queria que você o levasse à biblioteca por mim e então o pegasse emprestado para você — disse Horikita.
— Isso é porque você não quer ter trabalho de devolver? — perguntei.
— Mesmo que eu devolvesse pessoalmente, você ainda teria que ir à biblioteca pegar o livro. Do ponto de vista da eficiência, este é o procedimento correto — ela respondeu.
Era verdade. Isso apenas poupava o tempo e esforço dela. Você precisava do cartão de estudante para fazer empréstimos, então pegar algo no nome de outra pessoa era impossível. Por outro lado, para devolver, não precisava apresentar nada.
— Se você recusar, eu mesma vou à biblioteca. Mas não sei quando você vai conseguir colocar as mãos nesse livro extremamente popular e tão escasso.
Me perguntei se aquilo era o jeito torto de Horikita demonstrar consideração, já que sabia que eu queria ler o livro.
— Certo. Eu levo — respondi.
— Obrigada. — Ela me entregou o volume. — Não me importa quando vai devolver, desde que seja ainda hoje. Se eu ouvir que está atrasado, vou atrás de você.
— Eu sei. — Nunca tinha pego um livro emprestado, mas conhecia o processo. Se estivesse atrasado, pontos privados eram descontados da conta. — Bem, sem tempo a perder. Vou agora mesmo.
*
A biblioteca estava surpreendentemente vazia na hora do almoço, como um refúgio aconchegante. Era proibido comer ali, então poucas pessoas apareciam, o que garantiria um processo rápido.
— Já que estou aqui, posso checar outro livro — murmurei.
Com Farewell, My Lovely numa mão, fui até a seção de mistério, torcendo para encontrar outra obra de Raymond Chandler. Ao chegar, vi uma estudante tentando pegar um livro numa prateleira alta. Era Wuthering Heights, de Emily Brontë — a irmã do meio entre as três lendárias irmãs Brontë.
Uma sinopse convencional poderia fazê-lo soar como um mistério, mas ele certamente caberia melhor na seção de romance.
O livro estava inclinado num ângulo estranho, quase ao alcance, talvez por isso ela não estivesse usando o banquinho. Fiquei diante dela e peguei o exemplar.
— Desculpa, não quero me intrometer, mas… — Olhei para ela e parei. — Espera… Você é da Classe C. Você é…

Shiina Hiyori. Eu a tinha visto com Ryuen há pouco tempo. Ela também parecia ter me reconhecido.
— Você é Ayanokoji-kun, certo? — ela perguntou.
— Sou, sim. Ah… aqui — disse, entregando o livro.
— Muito obrigada.
— Você gosta da obra dela? Da Brontë? — perguntei.
— Eu não gosto ou desgosto do livro. Ele estava na seção errada, então achei melhor devolvê-lo ao lugar certo — respondeu ela.
— Entendi.
— Aliás, esse livro que você está segurando — Farewell, My Lovely, certo? É maravilhoso — disse Shiina. Os olhos dela começaram a brilhar.
— Consegui pegar emprestado de uma amiga hoje.
— Uau, que sorte. Parece que Raymond Chandler é bem popular entre os alunos do segundo ano. Eu também queria reler esse livro, mas não consegui achar um exemplar hoje.
— Acho que foi meio errado da minha parte pegá-lo emprestado de uma amiga — falei, um pouco culpado.
— Tudo bem. Eu já li. Além disso, tive a sorte de encontrar outro bom livro enquanto procurava por esse. A biblioteca da escola é bem grande. Se eu tentasse ler tudo o que tem nas prateleiras, provavelmente me formaria antes de terminar — disse Shiina com um pequeno sorriso, apertando o livro da Brontë contra o peito.
— É. Você provavelmente está certa. Desculpa te atrapalhar, aliás.
Ela tinha vindo à biblioteca no intervalo do almoço, então provavelmente não queria perder tempo conversando com alguém de outra turma. Resolvi deixá-la em paz.
— Se você veio só para devolver Farewell, My Lovely e depois pegar ele de novo, podia ter feito isso direto no balcão. Você está procurando outro livro para emprestar? — perguntou Shiina, me fazendo parar.
— Pensei em voltar outro dia e ver com calma, então… — respondi. Mas ela já estava analisando a seção de mistério. — Ei, o que você está fazendo? — perguntei.
— Você já leu Dorothy L. Sayers? — perguntou ela.
— Não. Já li Christie, mas Sayers, não.
— Nesse caso, eu sem dúvida recomendo Whose Body?. É o primeiro livro da série do Lord Peter. Se você ler esse, inevitavelmente vai querer ler o resto.
Ela puxou vários livros da estante e os entregou para mim.
— Uh… — O jeito dela me deixou desconcertado. Eu não sabia como reagir.
— Desculpe, acho que estou falando demais. Estou te incomodando?
— Não — respondi. — Só fiquei um pouco surpreso. Já que estou aqui, posso aproveitar e pegar mais alguns livros.
— Certo.
Shiina ficou radiante. Ela sorriu tão amplamente que os olhos até se fecharam.
— O intervalo ainda não acabou, certo? Quer almoçar comigo?
— Hã?
Isso era ainda mais estranho do que receber recomendações de livros. Provavelmente Ryuen tinha pedido para ela me abordar. Mas, aceitasse ou não, a opinião dela sobre mim dificilmente mudaria. Eu só precisava garantir que ela me visse como alguém neutro e difícil de ler.
— Ninguém na Classe C gosta de ler, então eu não tenho muito com quem conversar — acrescentou ela, talvez para quebrar o silêncio.
— Isso não vai causar problemas? — perguntei. — A Classe C está perseguindo alguém da Classe D, certo? Acho que estou na lista de suspeitos.
Shiina provavelmente tinha ouvido que Keisei ou eu éramos os principais candidatos a sermos o "cérebro" por trás da Horikita. Muito provavelmente era por isso que ela estava tentando conversar comigo agora.
Em alguns aspectos, Shiina Hiyori era ainda mais assustadora que Ryuen. Ela era um completo mistério. Eu até poderia tentar obter informações usando a Karuizawa, mas seria arriscado demais agora que ela era alvo de Ryuen. Keisei, Haruka e Horikita, claro, seriam péssimos espiões. Hirata talvez fosse uma opção, mas ele era fundamentalmente neutro.
— Por favor, não se preocupe. Eu só faço o mínimo para que o Ryuen não me incomode. Nunca me interessei por conflitos. Ou… você acha que apenas conversar comigo pode causar algum problema? — perguntou Shiina.
— Não, nada disso. Não tenho nenhum problema pessoal com você.
— Que bom. Eu não gostaria que nossas turmas entrassem em conflito por algo tão trivial. Preferia que todos nos déssemos bem — disse ela.
"Entrar em conflito", hein? Considerando que a escola era projetada para incentivar competição, o desejo dela estava condenado desde o início. Ainda assim, muitos estudantes agiam como se estivessem em um colégio comum. Hirata e Kushida, por exemplo, eram populares porque tratavam todos igualmente.
— Bem, vamos? O tempo está passando — disse Shiina.
— Só preciso ir ao balcão cuidar desses livros antes — respondi.
Quem diria que tudo isso ia acontecer só porque decidi visitar a biblioteca?
*
Shiina e eu fomos até a cafeteria. Já tinham se passado vinte minutos do intervalo, e o lugar estava lotado. A maioria dos alunos já estava comendo, então quase ninguém estava na fila para comprar ticket de refeição. Eu escolhi o prato do dia, mas Shiina parecia incapaz de decidir. O dedo dela pairava sobre os botões enquanto ela examinava todas as opções com atenção.
— Desculpa, desculpa… — ela murmurou. Esperei mais dois minutos. No fim, ela acabou escolhendo o mesmo prato que eu. — Desculpa. Sou tão indecisa.
— Sem problemas. Não tinha ninguém atrás da gente mesmo.
Depois de entregarmos os tickets, as duas refeições foram colocadas no balcão. Shiina teve dificuldade para ajustar a mochila e pegar a bandeja.
— Sua bolsa está no caminho — eu disse. — Aqui, deixa comigo.
— Ah, não, não quero te incomodar…
— Relaxa. Você não quer tropeçar e derrubar tudo.
— Desculpa. — Ela me entregou a mochila, que era surpreendentemente pesada. Será que ela carregava todos os livros do dia ali? — É muita coisa, né? Muito obrigada.
Fugimos da multidão, achamos lugares vazios e sentamos um de frente para o outro, começando a comer o almoço atrasado.
— Você costuma comer na cafeteria? — perguntei.
— Não. Normalmente compro algo na loja de conveniência de manhã e como na sala. E você, Ayanokoji-kun?
— Não gosto muito da comida da loja. Acho que a comida fica melhor quando é feita na hora.
Shiina ergueu a comida com os hashis de forma elegante. Eu a observei, impressionado com a delicadeza dos movimentos.
— Hmm, entendo. A comida daqui é realmente deliciosa, não é? Vou levar isso em consideração — ela respondeu.
— Essa não é sua primeira vez aqui, é?
— Parece que fui descoberta.
— Suspeitei, já que você teve dificuldade para escolher no painel de tickets. Estamos no fim do segundo semestre; é raro alguém nunca ter usado a cafeteria.
— Eu sempre quis vir, mas quando você perde a chance inicial, fica meio difícil tentar depois, sabe? Achei que essa era uma boa oportunidade — disse Shiina.
Eu entendia esse sentimento. Você não queria que os outros percebessem que não sabia fazer algo que todos achavam óbvio. Orgulho deixava a gente cauteloso — como quando eu evitava comprar café coado na loja de conveniência.
— Então vai vir de novo? — perguntei.
— Sim.
Continuamos conversando enquanto comíamos. Como chegamos tarde, a maioria dos alunos terminou e saiu antes da gente. Alguns ficaram por ali conversando ou saboreando a refeição com calma.
Shiina colocou a mochila na mesa com um baque.
— Acho que vou voltar para a biblioteca. Você já leu algum desses, Ayanokoji-kun?
William Irish, Ellery Queen, Lawrence Block e Isaac Asimov.
— Uau. Você tem bom gosto.
— Você conhece?
— Conheço. Gosto de romances de mistério.
— É mesmo? — Shiina riu e bateu palmas de leve.
Então percebi algo estranho sobre os livros.
— Espera. Esses livros não são da biblioteca, são?
— São da minha coleção pessoal. Eu tenho andado com eles na mochila, esperando encontrar alguém que compartilhe dos meus gostos e queira pegar emprestado. Comecei levando só um, mas acho que fui acumulando mais e mais enquanto esperava encontrar "a pessoa certa" — explicou Shiina.
— É mesmo? — Aquela garota era definitivamente… esquisita.
— Por favor, não se acanhe. Pegue o que quiser.
— Bem… Acho que vou ficar com Ellery Queen, já que nunca li nada dele.
— Vá em frente.
Se Shiina estava fingindo, era uma atuação e tanto. Mas eu tinha a sensação de que ela simplesmente gostava de livros, de verdade. Acabei fazendo uma conexão estranha em um lugar igualmente estranho. Eu continuaria alerta, é claro — caso fosse um plano da Classe C —, mas realmente parecia coincidência. Depois que prometi devolver os livros, o sinal tocou, indicando o fim do intervalo de almoço.
*
Quando as aulas terminaram, recebi a notificação de sempre do nosso grupo de mensagens:
"Se puder, venham ao Keyaki Mall. No lugar de sempre."
Uma mensagem casual e animada da Haruka.
Quando comecei a digitar uma resposta, Horikita disparou palavras afiadas contra mim:
— Esse seu sorrisinho está me dando arrepios.
— De quem?
— De você. Não me diga que precisa que eu aponte isso diretamente para ter algum mínimo de autoconsciência, certo?
— Eu não estava sorrindo.
Não me lembrava dos cantos da minha boca sequer se movendo.
— Vai bancar o idiota de novo? Estou falando do seu eu interior — disse Horikita. Aparentemente, ela farejava minha alegria como um cão de caça. — Encontrou um cantinho aconchegante para você, não foi?
Com isso, ela pegou a bolsa e saiu da sala, indo sozinha para os dormitórios.
— Então eu estava sorrindo, hein? — murmurei.
Claro, era bom ser chamado por um amigo. Mas… Horikita não deveria ficar feliz com isso? Será que ela realmente queria que continuássemos como dois solitários?
Arrumei minhas coisas e deixei a sala. A maioria dos grupos se reuniria ali mesmo antes de ir ao Keyaki Mall, mas nós éramos preguiçosos demais para isso. Quando cheguei ao nosso ponto de encontro, todos já estavam lá.
— Akito, você não tinha coisa do clube?
— Estou pulando hoje.
— Parece que aqueles caras da Classe C apareceram no arco e flecha de novo. Não parece que brigaram ou fizeram alguma provocação, pelo menos.
— Falei para os veteranos que estava desconcentrado e ia tirar o dia de folga. O clube é bem tranquilo — explicou Akito. Direto como sempre. Imagino que não teria conseguido inventar que estava doente e, depois, vir encontrar a gente.
— E se a gente falasse com o professor? — sugeriu Haruka.
Akito balançou a cabeça.
— Não tem nada que o professor possa fazer. Se a Classe C invadisse lugares privados do clube, seria outra história, mas eles são livres para observar o treino.
— Argh. A Classe C é irritante demais, né? Ah, e falando nisso. Eu vi. Eu vi. Que comportamento deplorável o seu, meu caro — disse Haruka, imitando uma aristocrata antiga enquanto me cutucava com o cotovelo.
— Viu o quê? — perguntei.
— Como assim "o quê"? Eu vi você almoçando com a Shiina-san da Classe C, Kiyopon! A Airi ficou tão preocupada que até derrubou arroz em cima dela mesma.
— Wah! Você prometeu que não ia contar, Haruka-chan! — choramingou Airi.
— Ah, prometi? — disse Haruka. — Então, Kiyopon, finja que eu não disse nada.
O que era impossível, claro. Mas agora eu entendia a situação.
— Não me diga que você está correndo para um romance de última hora antes do Natal? — Haruka provocou.
— Sério, Kiyotaka? Não achei que você fosse esse tipo de cara — disse Keisei, um pouco irritado.
— Ingênuo. Muito ingênuo, Yukimuu. Tudo sempre acaba em romance. Os jovens hoje em dia vivem num ritmo muito mais acelerado — disse Haruka.
— Acelerado? Como assim acelerado? Estamos no primeiro ano do ensino médio — retrucou Keisei.
— Olha, se seu primeiro amor acontece no ensino médio, você já está atrasado. Na minha época, alguns colegas do fundamental já namoravam gente do ginásio ou até do ensino médio.
A boca de Keisei caiu aberta.
— E-Eu nunca ouvi nada disso.
— Só significa que você nunca prestou atenção, Yukimuu. A maioria das garotas não se interessa por meninos infantis.
Bem, mas crianças do fundamental são infantis, naturalmente. De qualquer forma, eu precisava cortar aquilo antes que piorasse.
— Odeio estragar o entusiasmo de vocês, mas não tem nada acontecendo — expliquei.
— Sério? Não está só dizendo isso para esconder a vergonha?
— E-Eu disse! — protestou Airi. — Eu falei para você, mas você não acreditou, Haruka-chan!
— Eu tinha umas coisas para resolver na biblioteca, então fui no almoço. Acabei esbarrando na Shiina lá. Acho até que ela estava me espionando, igual o Ishizaki e o pessoal no clube do Akito. Fez várias perguntas. Se eu rejeitasse ela de cara, só ia chamar mais atenção — expliquei, tentando deixar a história mais convincente. E não era totalmente mentira. Mesmo que o encontro tivesse sido acidental, era provável que a Shiina estivesse me observando.
— Então você também foi marcado, Ayanokoji. Esse Ryuen odeia tanto a ideia de perder para a Classe D assim? — perguntou Akito, parecendo um pouco ressentido, como se deixasse de ser especial por não ser o único alvo.
Keisei, porém, tinha outra visão.
— Talvez não seja isso. Vocês ouviram o boato de que temos um estrategista de alto nível escondido na Classe D, certo? Talvez por isso o Ryuen esteja seguindo a gente. Ayanokoji, que tipo de perguntas a Shiina te fez?
— Várias, mas ela perguntou sobre o "mentor por trás de tudo" — respondi.
— E-Entendo. Então não era um encontro.
Airi colocou a mão no peito e suspirou aliviada.
— Eu não tinha muito o que responder, então acabei não dizendo nada. Para ser honesto, não foi muito divertido — acrescentei.
— Mesmo assim, parecia que você estava se divertindo — disse Haruka. — Hmm.
— Eu não podia deixar ela perceber desgosto, certo? Ela ainda é da Classe C.
Haruka ainda desconfiava, mas Keisei mudou de assunto:
— Deixando o romance imaginário da Haruka de lado, a Classe C está virando um problema. Me sinto mal por ter ouvido a conversa, mas parece que o Sudou se meteu em algo e pediu conselhos para a Horikita.
Ah — então o Keisei tinha ouvido a conversa deles de manhã.
— Você está bem, Keisei? — perguntou Akito.
Keisei ficou pensativo.
— Nada aconteceu comigo até agora, mas ainda estou preocupado. Tenho visto alunos da Classe C por perto com frequência, e todos eles são capangas do Ryuen. Provavelmente também sou alvo.
— Entendo. Mas comigo não aconteceu nada — disse Airi, levantando a mão timidamente.
— Comigo também não — disse Haruka, imitando Airi.
— Bem, talvez alguém esteja observando a gente e só não percebemos ainda — respondeu Airi.
— Hein? Tipo um stalker? Creepy.
Obviamente, um cara seguindo garotas podia causar muitos problemas. O Ryuen provavelmente estava usando garotas como intermediárias.
— Observando a gente, hein? Talvez… — Akito levou a mão ao queixo, como se tivesse lembrado de algo. — Eu geralmente termino o clube e encontro vocês meio tarde, certo?
— Sim. Geralmente depois das seis ou sete.
— E sempre tem gente demais da Classe C por perto, considerando o horário. Quando encontrei vocês outro dia no Keyaki Mall, o Komiya estava lá. Ele está aqui hoje também — disse Akito.
Akito era o mais perspicaz do nosso grupo. Seu senso de observação era afiado. Haruka tentou olhar ao redor, de forma extremamente óbvia, mas ele a deteve.
— Não faça isso. Não sabemos o que eles querem. É melhor não reagir — disse.
Se Akito não tivesse parado Haruka, eu teria feito isso. O ideal era evitar jogar lenha na fogueira naquele momento.
— Que nojo — cuspiu Haruka, olhando para Komiya sem disfarçar o desgosto. — Então é verdade essa história de um mestre dos bastidores escondido na Classe D?
— Não sabemos se essa pessoa existe ou não — respondeu Akito. — Ryuen mente com a mesma facilidade com que respira.
No entanto, Keisei pensava de outra forma.
— Ryuen tem gente nos seguindo justamente porque acredita que essa pessoa existe. Mas, se há mesmo um manipulador por trás de tudo na Classe D, como ele diz, quem poderia ser?
— O quê? Você acha que essa pessoa existe?
— Se não existir, nada do que a Classe C está fazendo faz sentido.
Akito não parecia totalmente convencido.
— Isso é assumir que existe lógica no modo como Ryuen pensa — rebateu. — O que você acha, Kiyopon?
— Deixando de lado se o cérebro da Classe D existe ou não, provavelmente é por causa disso que a Classe C está nos seguindo — respondi.
Haruka cruzou os braços.
— Então estamos falando de alguém que não é a Horikita-san e que vem nos ajudando em todas as provas até agora? Tipo o Yukimuu, talvez? Ele é inteligente. Na verdade, sempre fica no topo da classe nas provas.
— Não sou eu. Só ajudei no teste da ilha e no jogo do zodíaco — disse Keisei, soltando um suspiro profundo, como se o assunto o irritasse.
— Nesse caso, que tal o Koenji-kun? — sugeriu Haruka. — Quero dizer, a personalidade dele é, bem… esquisita. Ele é brilhante, atlético, perfeito em tudo.
— Impossível — respondeu Keisei. — Como você disse, ele é insuportável. Acha mesmo que faria algo pela nossa classe?
— Talvez seja só um disfarce? — perguntou Haruka.
— Você quer dizer que aquela personalidade ridícula é fachada?
— Talvez ele seja um estrategista frio e calculista. O que acham?
Todos balançaram a cabeça.
— Nem ferrando — disse Akito. — Ele é maluco.
— Além disso, Koenji se retirou no primeiro dia do teste da ilha — acrescentou Keisei, confiante. — Ele não teria como saber o que estava acontecendo com a gente. Se houve outro cérebro naquela ilha além da Horikita, não foi ele.
— Ohh, entendi. Você é bem persuasivo, Yukimuu.
— Mas tudo isso é especulação baseada na ideia de que realmente exista um mestre dos bastidores, como o Ryuen acredita. Mesmo que exista, não sabemos se ele esteve envolvido em todos os testes.
— É… você tem razão.
— Mas eu acho que ele existe — concluiu Keisei.
— Por que acha isso? — perguntou Akito.
— Intuição. Acho que é por causa do rápido progresso da Classe D.
— Mas como o Ryuen-kun pode ter certeza de que o cérebro não é a Horikita-san?
— Talvez o Hirata-kun seja o cérebro — sugeriu Keisei. — Quando estávamos na ilha, acho que ele recebeu alguns conselhos da Horikita-san.
— Então o Hirata que dá as ordens? — perguntou Akito.
— Não parece ser o tipo, mas não é impossível.
— Ele com certeza está na lista do Ryuen.
— Acho que o Ryuen está de olho em umas dez pessoas.
Alguém da Classe C provavelmente estava seguindo Hirata também. Mas ele era neutro e evitava conflitos. E eu mal falava com ele ultimamente. Não iria arriscar nada enquanto Ryuen e seus capangas estivessem à solta.
— E-Ei, Kiyotaka-kun? — Airi falou timidamente.
— Hmm?
— Por favor, não fique bravo, mas eu queria te perguntar uma coisa. É possível que… talvez… você seja o cérebro?
Os outros membros do grupo todos olharam para mim ao mesmo tempo.
— Por que você acha isso? — perguntei.
— B-Bem… é que você é calmo, inteligente e… confiável, então… eu pensei que você dava vários conselhos pra Horikita-san, e… — Airi gaguejou.
— O Kiyopon tira notas boas? — perguntou Haruka.
— Pelo que lembro, nem ótimas, nem ruins — disse Keisei, empurrando os óculos.
— D-Desculpa. É só que… por algum motivo, eu pensei nisso. Talvez porque você deu aqueles conselhos, e o Ryuen-kun pode estar atrás de você. Fiquei com pena de você…
Eu supunha que era da natureza dela fazer perguntas honestas como essa. Não parecia ter segundas intenções.
— Infelizmente, sou eu quem sempre recebe conselhos da Horikita.
— Bom, o Kiyopon tem mesmo um ar misterioso, sabe? E também, como ele é próximo da Horikita-san, é natural suspeitar — disse Haruka a Airi.
— Pensando bem, pode ser isso mesmo. Talvez seja por isso que a Shiina o confrontou — comentou Akito.
— Certamente faz sentido desconfiar do Ayanokoji. Mesmo que não exista um cérebro, só o fato de ele ser próximo da Horikita já faria as pessoas suspeitarem.
— Se isso for verdade, é péssimo pra você, Kiyopon — disse Haruka.
— É, realmente.
— Que saco. Ei, se eles te incomodarem, pode falar com a gente — disse Akito, colocando a mão no meu ombro.
— Claro. Eu falo — respondi.
Essa vigilância não podia continuar para sempre. Assim que encontrasse sua oportunidade, Ryuen certamente atacaria.
*
Uma pessoa inesperada se aproximou de mim depois da aula no dia seguinte: Satou, da Classe D. Sua saia balançou levemente com a brisa enquanto ela parava diante de mim.
— Ei, Ayanokoji-kun. Você está livre hoje? Se estiver, gostaria de tomar um chá ou algo assim antes de voltar para os dormitórios? — Ela girava uma mecha do cabelo no dedo, como se fosse macarrão num garfo. Era ousada — e claramente estava me chamando para um encontro.
Horikita, que sentava ao meu lado, não pareceu se importar. Depois de juntar suas coisas, deixou a sala. No entanto, eu sentia os outros membros do Grupo Ayanokoji me observando. Por que uma garota popular como a Satou está falando com o Ayanokoji?, eles provavelmente se perguntavam. Haruka parecia especialmente interessada.
— Bem…
Eu realmente não tinha planos. Sair com o nosso grupo não era obrigatório, então eles não se importariam. Mas eu estava um pouco preocupado com o modo como todos me encaravam.
— É uma hora ruim? — Satou parecia um pouco ansiosa.
— Desculpa, Satou. Hoje não é um bom dia para mim — respondi.
Foi uma decisão difícil, mas recusei — principalmente por causa da fonte do meu desconforto desde cedo. Meus ombros estavam tensos por causa daquela pessoa que passara o dia inteiro me encarando. Seus olhos permaneciam fixos em mim mesmo agora, enquanto eu falava com Satou.
Chabashira-sensei ainda estava na sala. Fingindo mexer em papéis, mas era falso — sem dúvida, estava esperando para falar comigo.
— E-Eu entendo — disse Satou. — Bem, até mais tarde, Ayanokoji-kun.
Eu me senti mal por deixá-la triste, mas era péssimo timing. Saí da sala como se estivesse apenas acompanhando Satou, e assim que o fiz, Chabashira-sensei veio atrás de mim pelo corredor. Claramente, eu estava certo ao pensar que ela tinha algum assunto comigo.
Evitei o corredor principal e me dirigi para as escadas. Quando já tínhamos certa privacidade, Chabashira-sensei me chamou:
— Ayanokoji.
— A senhora quer alguma coisa? — perguntei.
— Sim. Venha comigo. Precisamos conversar.
— Vai ser difícil. Eu prometi à Horikita que me encontraria com ela — respondi, inventando uma mentira plausível.
— Como professora, não quero agir de forma imprudente. Mas, dadas as circunstâncias, isso é necessário.
Chabashira-sensei, normalmente tão inabalável, parecia estranhamente vulnerável.
— Estou com um mau pressentimento — falei.
— Infelizmente, você não pode recusar. É extremamente urgente — respondeu.
Resistir seria inútil. Decidi segui-la, e nos afastamos da área dos estudantes, indo para um lugar ainda mais isolado.
— Por que estamos indo para cá? — perguntei. — Não é cedo demais para aconselhamento sobre carreira pós-colegial?
— Você entenderá logo.
Tentei aliviar o clima com uma piada, mas parecia que ela não tinha intenção de responder às perguntas de um aluno. Porém, mais do que o que havia atrás da porta, o que me preocupava era a própria Chabashira-sensei. Ela parecia quase aflita, e isso me deixava inquieto. Normalmente, ela era sempre tão composta. Quem quer que estivéssemos indo encontrar — mesmo que fosse quem eu imaginava —, aquilo não era comportamento normal dela.
Ela bateu na porta de um escritório.
— Diretor, trouxe o Ayanokoji Kiyotaka-kun.
Ouvi uma voz suave, carregada da dignidade da idade:
— Entre.
Chabashira-sensei abriu a porta. Um homem de cerca de sessenta anos estava sentado no sofá. Era certamente o diretor — eu o vira diversas vezes, na cerimônia de entrada e nos encerramentos de semestre. Ele também não parecia calmo. Na verdade, gotas de suor escorriam por sua testa.
Havia mais uma pessoa ali, sentada de frente para o diretor.
Agora eu sabia o motivo de ter sido chamado.
— Podem conversar — disse o diretor. — Suponho que isso seja aceitável?
— Claro.
— Muito bem. Então vou me retirar por ora. Com licença — disse o diretor. Ele se curvou humildemente, apesar de a pessoa sentada diante dele ter apenas uns quarenta anos.
— Eu também vou me retirar — disse Chabashira-sensei, inclinando-se com respeito para o homem antes de sair com o diretor.
O último olhar que ela me lançou estava claramente tomado de nervosismo. Quando a porta se fechou, o único som que restou foi o leve zumbido do sistema de aquecimento. Enquanto eu permanecia completamente imóvel e em silêncio, o homem disparou suas primeiras palavras:
— Que tal se sentar? Eu vim até aqui só para falar com você, afinal.
Fazia um ano — não, um ano e meio — desde a última vez que eu ouvira a voz daquele homem. Seu modo de falar e o tom não haviam mudado.
— Não pretendo ter uma conversa longa. Prometi a alguns amigos que encontraria com eles.
— Amigos? Não me faça rir. Não há chance de você ser capaz de fazer amigos — zombou ele.
Típico. Apenas assumia isso como verdade, mesmo depois de tanto tempo sem me ver.
— Quer conversemos ou não, isso não vai mudar nada.
— Então presumo que fará o que eu disser. Não há necessidade de discutir nada; estou ocupado, afinal.
— Eu não sei o que o senhor quer de mim — respondi.
Ele foi direto ao ponto:
— Já preparei os documentos necessários para você abandonar a escola. Conversei com o diretor sobre isso. Só preciso que você diga sim.
— Não tenho razão alguma para abandonar a escola — falei.
— Para você, talvez não. Mas eu tenho meus motivos.
Ele me fitou pela primeira vez naquele encontro. O brilho afiado em seus olhos não havia desaparecido — se é que um dia desapareceria. Na verdade, parecia ainda mais cortante. Seu olhar era uma lâmina, ameaçando cortar até o âmago. Eu tinha certeza de que aquele olhar já ferira muitas pessoas.
— Um pai tem o direito de arruinar a vida do próprio filho por puro egoísmo? — perguntei.
— Pai? Você nunca me reconheceu como seu pai antes — rebateu.
— E o senhor está certo — respondi.
Duvidava que aquele homem algum dia tivesse me considerado seu filho de verdade. Na prática, só nos reconhecíamos como pai e filho no sentido mais técnico possível.
— O fato é que você tem se comportado de maneira egoísta. Eu ordenei que permanecesse de prontidão — declarou o homem, sem mais me instar a sentar. — Você me desobedeceu e se matriculou nesta escola. É natural que eu diga para você abandonar os estudos imediatamente.
— Suas ordens são absolutas dentro da Sala Branca. Mas fora dela, não existe necessidade de eu fazer o que você manda. Certo? — retruquei.
Era lógica simples. Claro que ele não se deixaria convencer.
— Você ficou bem mais falante nesse curto tempo desde a nossa última conversa. Suponho que seja influência desta escola absurda, hmm? — O homem apoiou o queixo na mão, olhando para mim como se eu fosse menos que sujeira.

— Responda à minha pergunta anterior, hmm? — insisti.
— Quer dizer aquela pergunta inútil sobre não precisar mais obedecer às minhas ordens? Você é minha propriedade. Um homem pode fazer o que quiser com sua propriedade. Mantê-lo vivo ou matá-lo cabe apenas a mim — respondeu friamente. Poder dizer algo assim em um país regido por leis, e ainda por cima acreditar nisso, mostrava o quão temível ele era.
— Pode me pressionar o quanto quiser. Eu não vou abandonar a escola — respondi.
Poderíamos continuar discutindo, mas não adiantava. Não chegaríamos a um acordo. Ele sabia disso e detestava perder tempo em conversas inúteis. Então, o que faria?
Claro, preparou seu próximo ataque.
— Não se pergunta como está o Matsuo? A pessoa que lhe falou sobre esta escola e lhe deu a ideia de se matricular?
— Não especialmente.
A imagem de Matsuo surgiu imediatamente na minha mente.
— Eu o contratei para cuidar de você durante um ano, como mordomo, mas ele escolheu ir contra o próprio empregador.
Ele disse tudo de uma vez, sem pausa — e então parou abruptamente após a palavra empregador, uma pausa calculada para gravar aquele último termo no coração do ouvinte. O tom de voz e a pausa dramática anunciavam o início de uma conversa séria. O olhar sombrio, projetado para me amedrontar. Para me levar a imaginar o quão ruim tudo poderia se tornar.
— Ele lhe contou sobre esta escola como uma forma de você escapar do meu controle. Você ignorou a vontade do seu verdadeiro pai e se matriculou sem minha permissão. Um ato verdadeiramente tolo. — Ele pegou sua xícara de chá e bebeu um gole. — Um ato ultrajante e imperdoável. Naturalmente, Matsuo teve de ser punido.
Não era uma ameaça. Ele apenas enunciava fatos.
— Você provavelmente já adivinhou o que vou dizer — continuou ele. — Matsuo foi disciplinado e demitido.
— Se ele foi contra seu empregador, é uma punição adequada — respondi.
Meu mordomo, Matsuo, tinha quase sessenta anos. Era excepcionalmente bom em cuidar das pessoas, e muito amigável. Qualquer criança gostaria dele.
Casou-se jovem, mas não teve filhos de imediato. Teve seu primeiro filho depois dos quarenta, mas perdeu a esposa no parto. O menino tinha mais ou menos a minha idade, e era o orgulho e a alegria de Matsuo. Eu nunca o conheci pessoalmente, mas Matsuo dizia que o filho estudava diligentemente todos os dias para realizar grandes feitos e retribuir os sacrifícios do pai. O sorriso dele dizendo isso ainda estava gravado na minha memória.
— Você sabe sobre ele, suponho. O filho de Matsuo, o orgulho e a alegria dele.
Ele já havia previsto meu raciocínio. Enxergou meus pensamentos com facilidade.
— Quando você se matriculou nesta escola, o filho de Matsuo também conseguiu passar no difícil vestibular de um maravilhoso e prestigiado colégio particular. Ele trabalhou excepcionalmente duro, e conquistou tudo sozinho.
Ele fez uma pausa.
— Mas agora ele foi expulso.
O significado era claro. Ele obrigara a escola a rescindir a aceitação do garoto como forma de retaliação. Esse era o tipo de poder que ele detinha.
— E daí? Para um homem como você, isso é uma punição leve — respondi com sarcasmo.
— O filho de Matsuo era forte. Mesmo tendo sido expulso da escola em que depositara suas esperanças, a determinação dele não desapareceu. Ele se reergueu e imediatamente tentou ingressar em outras escolas. Fiz o que era necessário para esmagar todas as suas tentativas. Fiz com que desistisse. Fiz o mesmo com Matsuo. Manchei sua reputação, tornando-o incapaz de conseguir trabalho. Seu filho também perdeu o rumo e agora está desempregado — disse o homem.
Matsuo e seu filho perderam tudo por causa do meu egoísmo. O homem à minha frente não estava inventando nada. Suas palavras eram quase certamente verdadeiras.
Se ele veio até aqui só para despejar essa conversa ridícula em mim, então estava prestes a se decepcionar.
— Imagino que você não esteja surpreso com nada disso. Porque Matsuo agiu contra mim, era necessário que eu o retribuísse na mesma moeda. Entretanto, parece que isso foi mais do que ele podia suportar. Matsuo sempre foi um homem gentil e consciencioso, que perdeu a esposa cedo e criou o filho sozinho. Consumido pela culpa de ter destruído o futuro do próprio filho, Matsuo concluiu que havia apenas uma maneira de salvá-lo. Ele implorou que eu deixasse o menino em paz e, no mês passado, cometeu suicídio por autoimolação.
Então era isso que ele viera me dizer. Que minhas ações egoístas levaram um homem à morte.
— Agora, o filho dele trabalha meio período, ganhando o suficiente apenas para sobreviver, sem garantias de futuro. Sem sonhos. Sem esperança. A tragédia dessa família é culpa sua. O garoto certamente guarda um profundo rancor de você. Mesmo morto, Matsuo não o perdoaria.
Os cantos da boca do homem se ergueram em um sorriso desprezível.
— O homem que cuidou de você, que salvou você, morreu. E você não reage. Se Matsuo pudesse vê-lo agora, estaria cheio de arrependimento.
Que piada.
Mortos não sentiam arrependimento. O homem diante de mim era o motivo de Matsuo e seu filho terem perdido tudo — o motivo de Matsuo ter tirado a própria vida — e ele nem sequer tentava me fazer sentir culpa. Apenas deixava claro que não tinha piedade de quem o desafiava. Era isso que ele queria transmitir.
— Antes de tudo, não há evidência de que o que você diz seja verdade — argumentei.
— A morte de Matsuo já foi registrada. Se necessário, posso enviar a documentação.
Ele praticamente me desafiava a pedir as provas.
— Se ele realmente morreu, então isso é ainda mais razão para eu permanecer na escola. Matsuo me ajudou a me matricular, mesmo sabendo que você o puniria. Devo honrar sua vontade.
Uma resposta ridícula para uma história ridícula.
— Você mudou bastante, Kiyotaka.
Eu sempre segui suas ordens. Ou melhor: segui as ordens da Sala Branca. Era todo o meu mundo. O único erro dele foi o ano em que me deixou com Matsuo.
— O que aconteceu naquele ano? O que fez você querer tanto vir para esta escola? — perguntou.
— É verdade que você me deu a melhor educação possível — respondi. — Mesmo que tenha usado métodos que jamais poderiam vir a público, não posso negar o que a Sala Branca ofereceu. Não pretendo revelar meu passado a ninguém, nem fazer nada que possa colocar você em perigo. Porém, eu sou o resultado da sua busca absoluta por um ideal. Esse foi o seu erro.
Eu era apenas um estudante do primeiro ano do ensino médio. Só tinha dezesseis anos, mas meu conhecimento superava o que uma pessoa normal aprenderia em toda a vida. E foi justamente isso que me permitiu perceber a infinitude da curiosidade humana.
— Você nos ensinou todo tipo de coisa. Não apenas artes liberais e ciências, mas artes marciais, técnicas de autodefesa, e inúmeros fragmentos de sabedoria mundana. Aprender me fascinava. Eu queria conhecer o mundo comum, cotidiano, que você considerava inútil e desprezível — continuei.
— Foi isso que o levou a fugir?
— Acha que eu poderia aprender o que aprendi nesta escola se tivesse ficado com você? O que é liberdade? O que significa não ter correntes? Eu jamais aprenderia isso na Sala Branca — respondi.
Essa parte, nem ele poderia negar. A Sala Branca podia ser a instalação mais eficiente do mundo para educar e treinar alguém, mas não se podia aprender tudo ali. Era um lugar que eliminava tudo o que julgava desnecessário. De forma extrema.
— Matsuo me disse que esta escola era o único lugar no Japão onde você não poderia me alcançar.
Se eu não tivesse escolhido esta escola, se apenas tivesse esperado como ordenado, ou optado por outra coisa, provavelmente teria sido recolocado na Sala Branca. Eu absolutamente não iria abandonar a escola.
— Não entendo completamente, mas parece que não tenho escolha senão aceitar. Suponho que suspender temporariamente as atividades da instalação tenha sido um erro. Pensar que um plano de dezesseis anos poderia ser arruinado em apenas um ano… — murmurou ele.
O fechamento temporário da Sala Branca seria um golpe duro para aquele homem. Mas se ele finalmente decidira entrar em contato depois de mais de seis meses, algo mais devia estar acontecendo nos bastidores.
— Entendo o motivo de você estar aqui — continuou. — Mas se acha que o assunto está encerrado, está sendo ingênuo. Assim como fiz com o filho de Matsuo, posso obrigá-lo a desistir.
— Não imagino como você faria isso, considerando que o governo apoia esta escola — respondi.
— Essa é uma afirmação sem provas.
— Primeiramente, não vejo nenhum dos seguranças que normalmente o acompanham. Você nunca deveria ficar sem eles, já que tantas pessoas guardam rancor contra você. Mas eles não estão nesta sala, nem no corredor — retruquei.
O homem engoliu o resto do chá morno.
— Não há necessidade de trazer seguranças para visitar uma escola.
— Isso seria descuido, considerando que você é do tipo que precisa de escolta até para ir ao banheiro. Não, você não poderia trazê-los mesmo que quisesse. As autoridades não permitiram.
Se ele não obedecesse, não teria sido autorizado a entrar.
— Ainda assim, você não tem provas.
— Em segundo lugar, se você tivesse o poder de simplesmente forçar minha expulsão, já teria feito isso imediatamente. Mas não fez. Veio até aqui tentar me convencer a desistir. Tem algo errado.
Ele não havia se encontrado diretamente com o filho de Matsuo. Apenas colocou pressão sobre ele, por assim dizer.
— Mais uma coisa. Você poderia facilmente considerar esta escola como território inimigo. Se tomasse qualquer ação agressiva aqui e o público descobrisse, seus sonhos de voltar à ativa desapareceriam para sempre, não é?
— Matsuo colocou essa ideia na sua cabeça? Mesmo morto, ainda está me atrapalhando.
— Eu nunca poderia deduzir tudo isso a partir do que Matsuo disse. — Eu não ouvira nenhum detalhe de Matsuo, mas podia facilmente imaginar o que estava acontecendo. — Deixando de lado a suspensão temporária da instalação, há outro problema que você nunca considerou. Não importa o quão perfeitamente se treine alguém, cedo ou tarde, uma fase de rebeldia acontece.
Quinze anos de educação não poderiam se sobrepor às tradições antigas gravadas em nosso DNA. A rebeldia adolescente era parte de todos nós.
— Por que alguém como você sairia do caminho? Você foi ensinado desde o começo que não havia sentido em aprender coisas desnecessárias.
— Por causa da minha curiosidade insaciável, do meu espírito inquisitivo. E também porque quero decidir meu próprio caminho. É simples assim — respondi.
— Bobagem absoluta. O único caminho neste mundo é aquele que preparei para você. Um dia, você me superará e se tornará a pessoa que guiará o Japão para o futuro. Por que não consegue entender isso?
— Essa é só uma história que você conta a si mesmo.
— Parece que não consigo fazer você entender.
— Pelo visto, concordamos nesse ponto.
Nossas declarações apenas giravam em círculos; não se encontravam. Jamais veríamos as coisas da mesma forma.
— A Sala Branca retomou as operações. Desta vez, meus planos são perfeitos. Nada vai atrapalhar. Estou preparado para recuperar o tempo perdido — disse ele.
— Nesse caso, deve ter vários candidatos para sucedê-lo. Por que se fixar em mim?
— É verdade que as coisas estão indo bem. Porém, não há ninguém que demonstre o seu nível de talento.
— Devo presumir que um pai não pode mentir para o próprio filho?
— Esta será minha última pergunta, Kiyotaka. Pense muito bem antes de responder. O que prefere? Sair desta escola por vontade própria ou ser obrigado a sair pelo seu pai?
Esse homem estava determinado a me arrastar de volta para lá. Eu não sabia quais medidas pretendia tomar, mas não queria ouvir mais nada. Depois de um longo e mortal silêncio, ele concluiu:
— Então você não tem planos de voltar?
— Não sei se há alguma esperança para alguém como você, mas não tenho intenção de desistir. Esta escola desenvolve o talento dos alunos, ainda que de um modo diferente do seu. Espero aprender muito aqui — falei.
— Que tolice. Esta escola não passa de um celeiro cheio de ralé comum. Tenho certeza de que sua própria classe está repleta desses inúteis sem salvação.
— Inúteis sem salvação? Não. Este é um lugar onde posso descobrir se os seres humanos nascem iguais ou não. Acho isso muito interessante.
— Você acha que até idiotas incompetentes podem ficar lado a lado com gênios?
— É o que eu espero.
— Então você quer destruir meus ideais.
— Devíamos terminar isso. Sabemos que, por mais que conversemos, nunca vamos concordar.
Nesse instante, alguém bateu à porta.
— Com licença.
Um homem na casa dos quarenta abriu a porta devagar. Sua expressão ficou sombria ao ver nosso visitante inesperado.
— Faz bastante tempo, Ayanokoji-sensei — disse ele, curvando-se como um subordinado diante de um superior.
— Sakayanagi. Ver você me traz uma onda de nostalgia. Já fazem o quê, sete, oito anos? — perguntou o homem.
— Suponho que sim, desde que sucedi meu pai como presidente do conselho escolar. O tempo voa — respondeu o visitante. Sakayanagi? Como Sakayanagi Arisu, da Classe A. — Você deve ser o filho do Ayanokoji-sensei… Você é Kiyotaka-kun, não é? Prazer em conhecê-lo.
— Já terminamos de falar, então vou indo.
— Ah, poderia esperar só mais um momento? Eu gostaria de conversar com vocês dois, Ayanokoji-sensei. Por favor, sentem-se.
Eu não tinha como recusar o pedido de um terceiro — e ainda por cima, do presidente do conselho. Sentei-me. Ele se sentou ao meu lado.
— Já ouvi pelo diretor. O senhor pretende fazê-lo abandonar a escola, hmm? — perguntou Sakayanagi ao homem.
— Exato. Já que esse é o desejo do pai, a escola deve tomar medidas apropriadas imediatamente.
Os olhos do presidente encontraram os de meu pai.
— Receio que isso não esteja correto. É verdade que os pais têm grande influência sobre a permanência de um estudante aqui, mas devemos examinar os motivos pelos quais desejam que o filho abandone a escola. Por exemplo, se um aluno sofresse bullying terrível, certamente levaríamos isso em conta. Você está sendo intimidado, Kiyotaka-kun?
— De forma alguma.
— Isso é uma farsa. Quero que ele pare de frequentar uma escola na qual se matriculou sem a permissão do pai.
— O ensino médio não é considerado educação obrigatória, e a frequência não é mandatória. Os alunos são livres para frequentar qualquer escola que desejarem. Se os pais pagassem mensalidades, seria diferente, mas o governo cobre todas as taxas desta escola. A autonomia dos alunos é nossa maior prioridade — disse Sakayanagi.
Finalmente entendi o que Matsuo quis dizer ao afirmar: "Se você for para essa escola, poderá escapar da Sala Branca." Ele disse isso por causa de Sakayanagi, que agora falava com meu pai sem um pingo de covardia.
Ao contrário do diretor, que se curvava diante de figuras de autoridade, Sakayanagi se mantinha firme.
— Você também mudou. Onde foi parar o velho você, que não discordava de nada? — perguntou meu pai.
— Ainda o respeito, Ayanokoji-sensei. Porém, justamente porque compartilho a visão que meu pai tinha para esta escola, pretendo seguir seus passos. Tenho certeza de que o senhor entende isso muito bem. Nenhuma dessas políticas mudou desde o tempo dele.
— Pode suceder seu pai e continuar seus ideais. No entanto, se essa é sua intenção, por que permitiu que Kiyotaka entrasse nesta escola? — inquiriu o homem.
— Por quê? Porque determinamos que ele se qualificou com base em sua entrevista e nos resultados do exame.
— Não desconverse. Esta escola é fundamentalmente diferente das escolas comuns. Kiyotaka nunca deveria ter sido um candidato adequado. Sei que as entrevistas e os exames são apenas fachada — rebateu o homem.
Até então, o presidente mantivera um sorriso agradável. Mas, ao ouvir essas palavras, sua expressão mudou.
— Mesmo aposentado, o senhor continua impressionante, Ayanokoji-sensei. Está muito bem informado — disse Sakayanagi. — Ele foi recomendado secretamente. No momento em que isso aconteceu, sua aceitação já estava decidida. Em outras palavras, é estranho que qualquer aluno, independentemente de quem seja, seja automaticamente desclassificado se não tiver recomendação. Não estou certo?
Parecia que discutiam assuntos que um aluno como eu jamais deveria ouvir.
— Kiyotaka nunca deveria ter sido um dos candidatos. É anormal que vocês não o tenham desclassificado.
— De fato, ele não estava originalmente na lista de alunos planejados para admissão. Normalmente rejeitamos inscrições inesperadas e usamos entrevistas e exames para camuflar isso. Ele é o único aluno que aprovei exclusivamente com base em meu próprio julgamento. Sei que veio aqui para levá-lo de volta, mas ele agora é um de nossos estudantes, sob nossa responsabilidade. Tenho o dever de protegê-los. Mesmo que esse pedido venha do senhor, receio que terei de recusar. Desde que o próprio Kiyotaka não deseje desistir, é claro — disse Sakayanagi, olhando em minha direção.
— Não brinque comigo — cuspiu o homem.
No entanto, o presidente continuou falando:
— Se ainda deseja que o expulsemos, organizaremos uma conversa entre você, Kiyotaka-kun e um representante da escola até chegarmos a um acordo.
O presidente essencialmente havia rejeitado minha expulsão. O homem não tinha mais cartas para jogar.
— Se é assim, encontrarei outro meio.
— O que pretende fazer? Se for algo extremo, então—
— Eu entendo. Não tenho a menor intenção de exercer qualquer pressão sobre vocês — disse o homem. — Você não terá do que reclamar se Kiyotaka for expulso de acordo com as regras da escola, correto?
— Sim. Posso garantir que a escola não dará tratamento especial apenas porque ele é seu filho — disse Sakayanagi.
— Nesse caso, terminamos. Com licença.
O homem se levantou do sofá.
— Quando nos veremos de novo?
— Certamente não aqui.
— Eu o acompanho.
— Não é necessário.
— Se você se chama de pai, por que não aparece na escola de vez em quando? — falei.
— Vir a um lugar como este uma vez já é mais do que suficiente.
Com essas palavras cortantes, ele deixou a sala.
— Ufa — disse Sakayanagi. — A gente fica mesmo com a sensação de pisar em ovos quando o Ayanokoji-sensei está por perto, não fica? Você deve ter tido tempos difíceis.
— Nah, nem tanto — respondi.
Agora restávamos apenas nós dois. O presidente Sakayanagi me olhou com olhos gentis.
— Na verdade, já sei sobre você há muito tempo — disse ele. — Nunca falei diretamente com você, mas o observei. Sensei sempre falou muito bem de você.
— Ah, então foi assim que aquele mecanismo foi removido.
— Mecanismo? Do que está falando?
— Nada. Mais importante, presidente Sakayanagi, o senhor conhece uma aluna da Classe A que—
— Arisu, certo? Ela é minha filha.
— Entendo.
— Oh, mas ela não está na Classe A só por ser minha filha. Nossas avaliações são justas.
— Sem dúvida. Só queria perguntar uma coisa. — Pelo menos agora eu entendia como ela me conhecia. — Estou curioso sobre o que aquele homem… digo, o que meu pai… disse mais cedo.
— Sobre sua admissão nesta escola?
— Exatamente.
— Entendo. Bem, é como o Ayanokoji-sensei disse. Só admitimos alunos que acreditamos merecer o lugar. Trabalhamos em conjunto com administradores de escolas do ensino fundamental II para conduzir pesquisas preliminares e determinar quem é qualificado. A entrevista e o exame são apenas para aparência. Um aluno pode fazer palhaçada na entrevista, ou tirar zero na prova, mesmo com a admissão já decidida. Claro, estudantes do país inteiro se inscrevem aqui, então os testes servem como uma conveniente cortina de fumaça — explicou Sakayanagi.
Então, mesmo que alguém tirasse 100 pontos ou fosse perfeito na entrevista, ainda assim poderia ser recusado. E não havia como um aluno rejeitado descobrir a verdade. Fazia sentido. Estudantes fracos como Sudou e Ike, e aqueles com passados problemáticos como Karuizawa e Hirata, conseguiram entrar apesar de seus históricos. Era claro que notas altas e desempenho acadêmico não eram tudo para esta escola.
— No momento em que decidi admiti-lo, sua vaga estava garantida. Tirar exatamente cinquenta pontos em todas as provas não teve qualquer efeito em sua aprovação ou reprovação — continuou ele.
Esta era uma escola excepcionalmente peculiar. Eu duvidava que houvesse outra como ela em todo o Japão.
— Imagino que tanto você quanto o Ayanokoji-sensei tenham dúvidas. Vocês entenderão com o tempo. Verão a política de formação que buscamos e o efeito que esperamos produzir — disse Sakayanagi, com a voz cheia de confiança. — Não posso dizer mais do que isso. Afinal, você é um aluno, e eu sou quem administra a escola.
Ele provavelmente só me disse tudo isso porque aquele homem estava me pressionando.
— Como responsável, protegerei meus alunos de acordo com as regras. Entende?
Em outras palavras: se eu não seguisse as regras, Sakayanagi não poderia me ajudar.
— Claro. E também entendo o que aquele homem vai tentar fazer agora. Com licença.
— Muito bem. Continue se esforçando.
Com isso, deixei a sala de recepção. Ao sair, vi Chabashira-sensei um pouco distante. Ela claramente estava esperando a conversa terminar. Fiz uma leve reverência e tentei passar por ela, mas ela passou a caminhar ao meu lado, acompanhando meu ritmo.

— Como foi com seu pai? — perguntou ela.
— É inútil tentar me sondar de forma tão desajeitada. Eu entendo tudo — respondi.
— Entende o quê, exatamente?
— Quase tudo o que você me disse foi uma mentira, Chabashira-sensei.
— Do que está falando? — Ela evitava olhar nos meus olhos.
— Chabashira-sensei. Quase tudo o que me disse foi uma mentira.
— Do que está falando?
— Você está tentando esconder o quanto está abalada, mas isso é óbvio só de olhar para você — falei.
O fato de não me encarar. Suas escolhas de palavras. Ela tentava esconder suas emoções de qualquer observador externo o máximo possível, mas, ainda assim, não conseguia disfarçar totalmente sua inquietação.
— Aquele homem nunca entrou em contato com você. E ele também não a pressionou a me expulsar.
— Hã… não. Seu pai queria minha cooperação. Eu estou tentando fazer você ser expulso.
Era verdade que meu pai estava pressionando para que eu abandonasse a escola. No entanto, julgando pelo comportamento dele e pelo fato de esta ser a primeira vez que punha os pés no campus, eu tinha quase certeza de que ele jamais havia falado com um professor. Embora faltasse uma prova concreta.
— Olha, pare de mentir. O presidente Sakayanagi me contou tudo. Ele a informou sobre mim no momento em que a escola me admitiu.
— O presidente lhe contou? — ri de forma irônica.
No mesmo instante, Chabashira-sensei percebeu seu erro.
— Ayanokoji, você me enganou?
— Sim. O presidente não disse nada sobre você, Chabashira-sensei. Mas sua participação nisso ficou bem clara.
Assim que Sakayanagi mencionou que sabia que eu tinha deliberadamente tirado cinquenta pontos em todas as provas, tive certeza.
— Permita-me explicar — continuei. — Primeiro, eu queria vir para esta escola. O presidente Sakayanagi sabia sobre mim e agiu por conta própria para confirmar minha matrícula, assim como minha designação para a Classe D. Ele me colocou na Classe D porque você, Chabashira-sensei, não demonstra qualquer real motivação para subir no ranking das classes. Pelo menos na superfície. Todos os outros professores querem desesperadamente promover suas classes.
Eu chamaria atenção demais em uma classe de alto desempenho. Sakayanagi queria me colocar em um lugar onde eu pudesse ficar discreto.
— Mas Sakayanagi cometeu um erro. Você, uma professora que não mostra afeição pela própria turma e aparenta apatia, secretamente deseja alcançar a Classe A mais do que qualquer outra pessoa.
………
Chabashira-sensei permaneceu em silêncio, provavelmente porque sabia que perderia a discussão se respondesse sem cuidado. Havia mais uma coisa da qual eu queria ter certeza.
— Você é obcecada pela Classe A. No entanto, os alunos que a escola atribuiu a você até agora foram medíocres. Por isso você age de forma indiferente, escondendo seus sentimentos. Estou errado?
Ela já não conseguia mais olhar nos meus olhos.
— Isso é só especulação, Ayanokoji.
A negação dela não tinha força alguma.
— A situação mudou com a minha chegada. Embora muitos estudantes da Classe D tenham vários defeitos de personalidade, você deu sorte em alguns pontos. Horikita, Koenji, Hirata e Kushida são todos alunos que, se bem orientados, têm chance de subir para as classes superiores. Eles lhe deram esperança. Seus desejos ocultos começaram a queimar intensamente outra vez… Tudo faz sentido quando penso no comentário que Hoshinomiya fez a você por volta da época em que comecei na escola.
Hoshinomiya, que era uma velha amiga de Chabashira-sensei, conhecia seu desejo oculto de alcançar a Classe A. Lembrei-me dela provocando Chabashira-sensei sobre querer "ser dominada por um homem mais jovem", e como isso era impossível para ela. Talvez, na verdade, ela estivesse insinuando que Chabashira-sensei era incapaz de se submeter à autoridade. Que desejava que uma classe inferior tomasse o lugar de uma superior; que os inferiores derrubassem os superiores.
— Você quer que eu seja seu ingresso para a Classe A. E agora o presidente disse que vai me observar. Juntando tudo, você está à minha mercê. Tudo o que pode fazer é ficar aí parada fingindo não ouvir os insultos que estou jogando em você agora — acrescentei. — Você ficou presa à Classe D por uma eternidade, ansiando subir para a Classe A. Não pode desperdiçar essa oportunidade. Você até decidiu mentir sobre estar em contato com meu pai para me utilizar. Esse foi o motivo de ter me procurado, e Horikita não passava de uma peça no tabuleiro para você usar nesse plano. No entanto, as coisas não são tão simples.
Eu não tinha qualquer desejo de me destacar quando entrei nesta escola. Nunca tive intenção de mirar na Classe A. Mesmo sem saber ainda como me utilizar, Chabashira-sensei fez seu primeiro movimento durante a prova na ilha.
— Você sabia que precisávamos vencer quando começaram os exames especiais, ou nunca alcançaríamos as outras classes. Você entrou em pânico e inventou uma história para me contar. Suponho que, em tempos desesperados, recorremos a medidas desesperadas.
A Classe D tinha se saído bem desde então. Mas Chabashira-sensei havia calculado mal. E agora meu pai finalmente entrara em contato com a escola diretamente, revelando todas as suas mentiras.
— Provavelmente você pretendia me encurralar — disse. — Em vez disso, é você quem está contra a parede.
— Entendo — ela respondeu. — Suas habilidades certamente não são as de um estudante comum do primeiro ano do ensino médio. "Sábio além da idade" — não é assim que dizem? Acho que essa expressão combina com você.
Ela respirou fundo e assentiu. Seus ombros relaxaram, como se a compostura que ela tanto tentara manter tivesse desmoronado.
— Você está certo — continuou. — Eu nunca conheci seu pai antes de hoje. Mas eu realmente poderia expulsá-lo se quisesse. Eu poderia afirmar que você cometeu uma violação séria das regras. A expulsão é a única coisa que você quer absolutamente evitar, não?
Realmente, fazer tudo aquilo e agora ainda me ameaçar?
— Então você ainda não desistiu de suas ambições?
— Exatamente.
— Infelizmente para você, não pode me expulsar.
— Posso perguntar por que você tem tanta certeza?
Eu havia me permitido parecer agitado para descobrir suas verdadeiras intenções. Agora, recuperei a calma e retornei ao meu tom habitual.
— A situação atual. A Classe D deste ano é incomum. Comparada aos anos anteriores, estamos indo bem. Horikita e os outros estão ficando mais fortes. Podem alcançar a Classe A mesmo sem minha ajuda.
A Classe D vinha subindo havia meses. Estávamos prestes a ultrapassar a Classe C, e se a escola expulsasse alguém agora, isso arruinaria tudo. Isso colocava Chabashira-sensei de mãos atadas.
— Mesmo que eu me afaste, a disputa continuará. Você ainda tem motivos para ter esperança, Chabashira-sensei, e isso significa que você vai me deixar em paz.
— Então, mesmo sabendo de tudo agora, ainda assim vai desistir de tentar alcançar a Classe A? — ela perguntou.
Claro. A professora que tentara me manipular para mirar na Classe A não tinha conexão alguma com meu pai. Não havia mais nada a temer. Ainda assim, não destruí completamente suas esperanças. As pessoas se agarram à menor fagulha quando têm chance.
— Pelo menos, acho que terminei meu tempo no palco — disse. — Agora, por favor, fique para trás, fique quieta e apenas me observe. Se tentar me manipular novamente para atender aos seus desejos pessoais, isso só prejudicará os outros alunos.
— E se eu continuar insistindo em você? E então?
— Você nunca verá seu sonho se realizar. Não seria uma escolha inteligente.
— Permita-me reformular a pergunta. Tem tanta certeza de que eu não o derrubarei comigo quando perder toda a esperança?
— De modo algum. Certamente é possível que algo no futuro devaste nossos pontos de classe. Se isso acontecer e você perder toda a esperança, sinta-se livre para vir atrás de mim. — Ela não pararia mesmo que eu pedisse. Melhor deixá-la fazer o que quisesse. — Apenas lembre-se de que sua posição como professora também não é inabalável.
Era uma ameaça vazia por agora, mas deveria ser ao menos um pouco eficaz contra Chabashira-sensei, considerando o que ela sabia. Ao me afastar, ela não disse nada, então parecia estar sem munição.
Reencontrar meu pai não fora agradável, mas eu havia feito progressos significativos hoje. Eu não precisava mais ajudar a alcançar a Classe A. Não importava o que Ryuen fizesse daqui em diante, eu não tinha que me envolver pelo bem da Classe D. E não importava o que acontecesse com Karuizawa, isso não prejudicaria a Classe D.
Claro, minha identidade seria revelada se Karuizawa fosse capturada ou me traísse, mas e daí? Mesmo que Ryuen me caçasse, desde que eu não fizesse mais nada pela Classe D a partir deste ponto, provavelmente ainda venceríamos por pouco. Ele não conseguiria nada.
*
Ao entardecer, eu caminhava por um caminho ladeado de árvores. Olhei para cima e soltei o ar. Vapor branco escapou da minha boca e se dissipou no céu noturno.
— Frio — murmurei.
Toda vez que eu respirava, aquela névoa branca subia ao ar. Expirei e inspirei repetidas vezes. Por causa das variações extremas de temperatura de um dia para o outro, eu acabava esquecendo, mas o inverno havia chegado. No ano passado, nesta mesma época, eu sempre ficava em ambientes fechados.
Uma garota passou por mim, tremendo de frio. Conversava animadamente com alguém ao telefone.
— Sério, bem quando você virou presidente do conselho estudantil, nosso relacionamento esfriou, Miyabi. Ahahaha! Vai, tô brincando, tô brincando. E não é como se eu estivesse brava ou algo assim. Mas vou te pedir pra me pagar um jantar pra comemorar, então se prepara! — disse ela.
Suas coxas apareciam por baixo da saia. Expostas ao ar gelado, provavelmente estavam realmente frias. O cheiro perfumado de shampoo subia de seu cabelo na altura dos ombros.
— Conselho estudantil? Desculpa, mas vou recusar. Não me interesso. Além disso, você ainda nem resolveu as coisas com o ex-presidente do conselho, né, Miyabi? Espera, o quê? Por que você tá confessando seus sentimentos do nada? Ah, por favor, eu sei que você já deu em cima de várias outras garotas. Bem, se você vencer o presidente Horikita, então eu penso nisso, tá? Até mais.
Eu não queria ouvir a conversa, mas se ela falasse tão alto assim, eu não tinha como evitar. Pelo conteúdo, parecia ser uma aluna do segundo ano.
A garota encerrou a chamada e soltou um suspiro profundo, mais vapor saindo de sua boca.
— Afff, esse Miyabi. Todo convencido. Mas aquele presidente do conselho também não prestava pra nada. No fim, o Miyabi vai ganhar — disse ela para ninguém em particular.
Pensei se ela havia me notado, mas continuou andando. No entanto, quando chegou à bifurcação onde o caminho se dividia em direção aos dormitórios de cada ano, seu pé escorregou e ela levou um tombo espetacular no chão.
— Wah!
A garota se levantou imediatamente e olhou ao redor, o rosto vermelho. Foi então que ela me notou pela primeira vez, forçando um sorriso envergonhado. Não parecia ferida, e seguiu rapidamente na direção do dormitório dos alunos do segundo ano.
— Então era mesmo do segundo ano, hein? — murmurei.
Pelo visto, alunos de séries diferentes não conviviam muito nesta escola, exceto em atividades de clubes ou no conselho estudantil. Por isso eu não tinha tido muitas oportunidades de gravar seus rostos.
— Deve ser difícil ser garota no inverno — falei sozinho. Aparentemente, a escola proibia o uso de leggings por baixo das saias do uniforme, o que não fazia sentido para mim.
Este era o primeiro "inverno" que eu experimentava. Era tão frio. Havia uma música sobre um cachorro que ficava super empolgado ao ver neve pela primeira vez, e agora eu entendia aquele sentimento. Será que ia ser tão emocionante sempre que nevasse?
Soltei um suspiro profundo, pensando nos eventos do dia. Conversei diretamente com meu pai, encontrei o presidente Sakayanagi e compreendi quais políticas da escola eram inúteis. Ter desvendado as mentiras de Chabashira-sensei foi um enorme avanço. Isso me permitiria progredir bastante.
— Devo parar?
Eu havia tomado cuidado para permanecer nas sombras até agora, mas se a Classe D continuasse prosperando, eu inevitavelmente chamaria atenção. O escrutínio de Ryuen aumentaria, e, eventualmente, sua investigação chegaria a algum resultado. Embora eu tivesse tentado fazer Horikita parecer a estrategista da classe, ele já havia enxergado através disso. Sakayanagi sabia sobre meu passado, e Ichinose provavelmente tinha suas suspeitas também.
Se eu quisesse voltar atrás, esta era minha última chance.
Decisões precipitadas levam à ruína, então eu precisava considerar ambas as opções: avançar ou recuar. No momento, Ryuen era meu principal problema.
Peguei meu telefone e enviei uma mensagem para uma pessoa específica, pedindo que me ligasse assim que pudesse. A confirmação de leitura apareceu imediatamente depois que enviei — ela devia ter voltado ao dormitório cedo. Estranho. Normalmente, a essa hora da noite, ela ainda estaria com as amigas.
Digitei manualmente o número de onze dígitos e liguei.
— Alô?
A dona daquela voz um pouco desanimada era Karuizawa Kei, aluna da Classe D do primeiro ano. Sem saber, ela era uma das pessoas sob observação de Ryuen. Também sabia que eu era quem manipulava a Classe D por trás das cortinas, muito mais do que Horikita.
Claro, havia muitas coisas que ela não sabia — o quanto eu estava envolvido ou o que exatamente eu fazia. Provavelmente, nesse momento, Karuizawa me considerava alguém extremamente estranho.
— Só queria saber o que você está fazendo — eu disse.
— Você tá brincando, né? Você não ligaria sem um motivo — respondeu ela.
Eu tinha planejado começar com um pouco de conversa fiada, mas Karuizawa não colaborou.
— Você não gosta das nossas conversas?
— Se você também não gosta, essa é uma pergunta idiota.
— Suponho que esteja certa. — Ela não era líder das garotas da Classe D à toa. Sabia ler pessoas. — A Manabe e as amigas dela entraram em contato com você?
— Não. Isso não é um problema no momento. Foi por isso que você ligou? — perguntou ela, soando mais exasperada do que surpresa.
— Já faz um tempo, não? Acho que não há mais com o que se preocupar — falei.
O vento uivava, deixando meu rosto nu ardendo de frio.
— Você ainda tá lá fora — disse Karuizawa. Ela provavelmente ouvia o vento pelo telefone.
— Estou indo para o dormitório. Parece que você voltou cedo hoje também. Normalmente você fica fora até mais tarde, não é?
— Até eu tenho vontade de voltar cedo de vez em quando — disse ela, um pouco distante.
— Ah! — exclamei, percebendo algo.
— O quê? — perguntou Karuizawa, achando que a reação era para ela.
— Nada — respondi.
Na bifurcação, havia um amuleto vermelho caído exatamente onde a garota havia tropeçado mais cedo. Talvez ela tivesse deixado cair. Seria melhor simplesmente deixá-lo ali? Mas provavelmente nevasse naquela noite, e o amuleto se molharia. Como não havia sinal de que a garota voltaria para buscá-lo, decidi pegá-lo e entregá-lo ao gerente do dormitório.
— Ei — disse Karuizawa. — Já que estamos conversando, tem algo que eu queria confirmar com você.
— Algo que queria confirmar? — perguntei. Peguei o amuleto e caminhei em direção ao dormitório dos alunos do segundo ano.
— Você é inteligente e tal, então por que não deixa as pessoas saberem? Digo, a Classe D é praticamente cheia de idiotas. Se você se mostrasse, como Yousuke-kun, as pessoas gostariam mais de você, não é?
— Eu sou inteligente, é? O que faz você pensar isso?
— Como assim?
— Você não tem nada para basear essa avaliação, tem? Minhas notas são medianas. Não contribuo muito nas aulas.
— Não é disso que eu tô falando.
Claro que eu sabia o que Karuizawa queria dizer. Eu já havia pedido ajuda a ela várias vezes — como quando impedi o Trio Idiota de tirar fotos e espionar, ou durante o incidente com Kushida na Paper Suffle. Para Karuizawa, era óbvio que eu era mais do que aparentava.
— É só que, se você fosse aberto sobre o que faz, sua reputação melhoraria, não acha? Você provavelmente chamaria atenção da escola também, como aconteceu no festival esportivo — continuou ela, quase animada, mesmo que aquilo não tivesse nada a ver com ela.
— Você sabe que não sou o tipo de pessoa que quer esse tipo de atenção, certo?
— Então por que você faz tudo isso? Se não quisesse atenção, era só ter ficado quieto.
— Essa é uma boa pergunta. — Eu não tinha desejado nada daquilo. — Aconteceu algo que me forçou a agir, então eu ajudei a Classe D. Só isso.
Normalmente, eu nunca revelaria tanto. Mas hoje era um dia especial. Eu estava de bom humor.
— De certa forma, acho isso um desperdício — ela respondeu.
— Nunca quis assumir o controle. Nunca quis e nunca vou querer — disse a ela. Eu precisava deixar esse ponto claro. Não queria que as pessoas viessem pedir minha ajuda quando a Classe D enfrentasse problemas no futuro.
— É você, não é? Você é quem o Ryuen está procurando.
A vigilância da Classe C aumentava dia após dia — não eram só Sudou e Akito — e rumores se espalhavam muito além das paredes da Classe D. Comentava-se que Ryuen havia sido derrotado por alguém da Classe D e agora buscava vingança. Karuizawa provavelmente percebera desde o início que era eu.
— Isso tem a ver com o que eu queria te dizer. Eu queria pedir desculpas.
— Pedir desculpas?
— Eu estava ajudando a Classe D para que ela ganhasse pontos. Fiz isso porque algo me obrigou. Mas isso acabou.
— E daí? Você vai simplesmente parar de ajudar?
— Sim. Vou deixar tudo com a Horikita e o Hirata. Não quero o incômodo de ter o Ryuen descobrindo minha identidade; estou fora. Você foi de grande ajuda para mim — por exemplo, naquela vez no karaokê, e entrando em contato com a Kushida. Abusei bastante de você.
— Entendo. Então isso significa que eu estou finalmente livre, né? Não vou mais trabalhar com você?
— É mais ou menos isso.
Karuizawa tinha sido mais útil do que eu esperava. Por isso mesmo, pude cortá-la sem hesitação.
— Esta provavelmente será a última vez que eu te ligo — deixei claro.
— Hã? — sua resposta veio atrasada. Talvez ela não tivesse ouvido?
— Esta é a última vez que eu te ligo — repeti.
Dessa vez ela com certeza ouviu.
— É natural, já que eu não preciso mais de nada de você agora. Além disso, ninguém sabe que a gente andou conversando. Se continuarmos a ter contato sem motivo, vai ser suspeito — falei.
— É… acho que sim. Você tem razão — respondeu Karuizawa, embora parecesse estar lutando para falar. Algo a incomodava, mas eu segui adiante, de forma egoísta.
— Claro, vou te ajudar caso precise. Eu fiz uma promessa, e vou cumprir. Você pode me contatar em uma emergência, mas por favor apague todos os registros das nossas conversas. Eu já deletei seu número.
— E-Espera um pouco. Por que você está fazendo isso?
— O que você quer dizer?
— É que… é muito frio.
— Bem, nosso relacionamento sempre foi frio, não foi?
Se eu não tivesse interferido no bullying de Manabe e suas amigas, provavelmente nunca teríamos conversado. Um solitário sombrio como eu e uma garota popular como ela éramos tão diferentes quanto a noite e o dia.
— Você odiava ser usada por mim, não odiava? — perguntei.
— Bem, sim, mas… — Karuizawa começou a se enrolar cada vez mais nas palavras. Os silêncios ficavam mais longos. O melhor era não prolongar aquilo.
— Acho que terminamos. Você queria dizer algo? — perguntei, pressionando-a a falar.
— Entendi — respondeu sem entusiasmo, mas ao menos respondeu. Talvez tivesse aceitado que não havia nada que pudesse fazer. — Então, esta é a última vez que posso falar com você assim, Kiyotaka?
— Você está relutante em parar?
— Claro que não.
— Então não há problema — respondi, sem um único traço de emoção. Emoção não tinha lugar ali.
— Acho que vou desligar então… — mesmo pelo telefone, dava para perceber que Karuizawa estava tomada por alguma emoção forte.
— Até mais.
— Ah… — ela parecia prestes a dizer algo, mas apenas o silêncio veio. Após alguns segundos, desliguei, apaguei o histórico e guardei o celular no bolso.
Apegar-se a mim como um parasita devia ter dado a Karuizawa alguma sensação de segurança. A forma fria como a afastei com certeza a deixou profundamente abalada. A ansiedade e a solidão que senti em sua voz provavelmente só ficariam mais fortes. Se Ryuen fosse atrás dela nesse estado…
Era quase garantido que ela iria desmoronar.
— Bom. Dei algumas voltas, mas finalmente estou de volta ao ponto em que estava quando entrei na escola, hein? — murmurei para mim mesmo.
Horikita, Karuizawa, Ryuen e Sakayanagi agora eram irrelevantes para mim. Eu não me importava com nenhum deles. Provavelmente também não me esforçaria mais nas provas daqui pra frente. Se houvesse alguma ponta solta para resolver, não importava; talvez exigisse minha colaboração, mas nada além disso.
Entreguei o amuleto vermelho ao gerente do dormitório dos segundo-anistas e fui para casa.
*
Peguei o pano úmido que estava usando para limpar poeira e sujeira e o joguei no saco de lixo. Depois de lavar as mãos, sentei na cama, ouvindo o rangido das molas.
Como já era dezembro, decidi aproveitar o fim de semana para fazer uma limpeza de fim de ano. Eu não tinha muita coisa acumulada, então levei apenas meio dia para limpar tudo. Será que consegui deixar meu quarto como ele era quando me mudei?
— Um quarto limpo é realmente uma maravilha — murmurei.
Liguei a chaleira, pensando em fazer uma pequena pausa. Senti certa hesitação em usar a xícara recém-lavada, brilhando, mas não havia outra opção. Enquanto a água fervia, decidi refletir sobre o meu futuro. Peguei o celular, abri o aplicativo da escola e comecei a rolar sem rumo por coisas como pontos da turma e meu saldo pessoal.
Vamos começar pelo começo.
Por que eu tinha entrado nesta escola? Para não ter que voltar ao meu antigo ambiente. Não que eu tivesse uma grande insatisfação com a Sala Branca, apesar de ser um inferno em termos de direitos humanos. Ainda assim, lá eu recebia a melhor educação possível, e foi essa educação que moldou minha personalidade e habilidades.
Porém, mesmo depois de meu pai me elogiar como sua maior obra-prima, algo dentro de mim se sentia… descontente. Mesmo que eu fosse o ser humano mais superior que existia… isso era realmente algo de que se orgulhar?
Como vivi acreditando que sempre havia algo a aprender, considerava o aprendizado significativo.
Então, o que acontecia quando não restava mais nada para aprender? A vida seria insuportavelmente tediosa.
Bem, para dizer a verdade, eu não me importava muito com isso.
Eu precisava pensar no que fazer daqui para frente. Sempre soube que meu pai entraria em contato comigo algum dia. Estava preparado desde o momento em que a Chabashira insinuou que me expulsaria, embora até naquela época eu tivesse dúvidas quanto à veracidade disso. Se meu pai realmente viesse atrás de mim, Chabashira não poderia impedi-lo. Ela não era um inimigo capaz de enfrentá-lo.
Mas, conhecendo meu pai, eu não podia ter certeza de nada. Então, fiz o que ela disse e fingi cooperar, criando estratégias para ajudar a classe a subir até a Classe A.
A chaleira começou a apitar.
Até aqui, já havia confirmado que as palavras de Chabashira-sensei eram cheias de mentiras. Ironia do destino: embora tudo estivesse relacionado ao meu pai, ela não tinha absolutamente nenhuma conexão com ele. Seja qual trauma ou passado ela carregasse, estava obcecada com a ideia de chegar à Classe A — tanto quanto Horikita ou Keisei… não, na verdade, até mais do que eles. Ela jamais teria coragem de me expulsar de verdade.
No começo, eu poderia ter interpretado suas ações como uma disposição para se autodestruir se fosse necessário. Até reduzirmos a diferença de pontos na prova da ilha desabitada, a Classe D estava em uma situação terrível. Um cenário onde era difícil manter esperança. Chabashira misturou mentiras e verdades para me manipular, mas agora eu tinha enxergado a mentira escondida dentro da verdade. Com sua verdadeira face revelada, ela não tinha mais poder para me dar ordens.
Se meu objetivo era passar três anos comuns nesta escola — fosse na Classe D ou na Classe A — eu não tinha motivo para continuar me envolvendo com os problemas da classe. Pessoas como Ichinose e Sakayanagi começaram a se interessar por mim, mas se eu recuasse agora, esse interesse desapareceria.
O único problema restante era Ryuen Kakeru.
Se ele descobrisse que eu era o cérebro por trás da Classe D, provavelmente causaria alvoroço ao espalhar essa informação. O ideal teria sido manter minha identidade completamente oculta, mas isso parecia impossível agora. Mesmo cortando laços com Karuizawa Kei, ainda havia um fio invisível nos ligando. Se eu deixasse tudo como estava, cedo ou tarde, sem sombra de dúvida, Ryuen encontraria esse fio.
Ia levar uma semana? Um mês? Um ano? Essa incerteza era o que me incomodava. A chaleira desligou.
— Acho que vou tomar um chá.
Meus armários estavam lotados de saquinhos de chá, já que eu costumava receber diversas visitas. Tinha acumulado uma variedade enorme: café, chá preto, verde e torrado. Justo quando coloquei um sachê de chá preto na xícara, alguém tocou o interfone do térreo.
Se fosse um colega de classe, teria tocado a campainha do meu quarto. Quem seria? Fui checar a tela — e me deparei com um rosto inesperado. Eu poderia fingir que não estava em casa, mas decidi ser honesto. Afinal, era alguém que eu mesmo estava pensando em visitar, e ele tinha vindo até aqui.
— Gostaria de um momento do seu tempo. Ou devo voltar mais tarde? — perguntou a pessoa no interfone.
— Não, agora está bom — respondi.
Era o irmão mais velho da Horikita, o ex-presidente do conselho estudantil. Uma visita incomum. Eu o deixei entrar no prédio e despejei água quente na xícara enquanto esperava.
Pouco depois, a campainha tocou.
— Eu prefiro falar em particular, então por favor, entre — disse a ele.
— Concordo.
Se Horikita visse o irmão conversando comigo no corredor, faria um escândalo. Além disso, eu queria evitar ao máximo ser visto com o ex-presidente do conselho estudantil. Deixei o irmão da Horikita entrar no meu quarto.
Ele notou meu chá assim que entrou.
— Só pensei em preparar algo para beber — expliquei.
— Para um aluno do primeiro ano, você mantém seu quarto bem limpo — comentou ele.
— Eu só não tenho muita coisa. — Decidi não contar que havia limpado tudo naquele dia. Claro, ele provavelmente deduziu pelo saco de lixo cheio de panos úmidos. — Vir até o dormitório dos primeiros anos… Tem algum assunto comigo, ex-presidente?
— O segundo semestre acaba na semana que vem. Meu tempo nesta escola está acabando.
Verdade. Restavam pouco mais de dois meses. Passaria num piscar de olhos.
— Há algo que eu queria te dizer antes de partir. Sobre Nagumo Miyabi.
Nagumo Miyabi era do segundo ano, Classe A, e o atual presidente do conselho estudantil. Eu só havia trocado cumprimentos com ele no festival esportivo, mas ele parecia uma pessoa intensa. Seja como fosse, nada daquilo tinha a ver comigo.
— Não imagino o que você tem a dizer para mim — respondi. — Eu não faço parte do conselho estudantil como a Ichinose.
— Não pretendia discutir isso com ninguém. No entanto, as circunstâncias mudaram. Eu segui as tradições desta escola porque acredito no sistema e nas regras dela. Nagumo quer arrancar esses alicerces pela raiz. É provável que, no ano que vem, um número sem precedentes de alunos seja expulso.
Nagumo ainda não havia tomado nenhuma atitude explícita, mas parecia ser apenas questão de tempo.
— Você já era presidente do conselho quando Nagumo estava no primeiro ano, certo? Isso não faz de você o responsável por tê-lo trazido?
— Pode-se dizer que sim — respondeu o irmão da Horikita, sem sequer tentar negar. — Cometi um erro depois de entrar no conselho estudantil. Falhei em treinar meu sucessor. Nagumo era o único em quem eu via potencial, mas a ideologia dele era diferente da minha. Agora, ele conseguiu reunir praticamente todos os alunos do segundo ano sob seu domínio.
— Isso é estranho. Eu entendo Nagumo controlar todo mundo da Classe A do segundo ano, mas para as outras classes ele deveria ser um inimigo, não?
— Ele já conquistou a escola inteira.
Hmm. Eu não sabia o que aquele cara andava fazendo, mas claramente era algo absurdo.
— Dois alunos do primeiro ano se candidataram ao conselho estudantil este ano: Katsuragi e Ichinose. Ambos são talentosos e promissores, mas decidi não aceitá-los justamente por causa desse talento. Eu temia que Nagumo os arrebatasse. No entanto, Nagumo agiu pelas minhas costas para estabelecer contato com Ichinose e acabou forçando sua entrada no conselho.
— Por que você está me dando todas essas informações internas?
— Se você não quer chamar atenção para si, use Suzune como já fez antes. Vai dar certo. Eu serei a ponte entre você e o conselho estudantil — disse ele.
— Esse pedido é bem absurdo. Se você estivesse no conselho, sua irmã entraria feliz, mas agora que você saiu, provavelmente não tem interesse. Além disso, independentemente do que Horikita faça, eu não tenho vontade de me envolver.
Aguardei alguns segundos e tomei um gole do chá.
— Tradições mudam, até aquelas que você defende ferrenhamente. É assim que o tempo funciona, não é? — perguntei.
Ainda havia muito naquela conversa que eu não entendia, mas a imagem geral começava a se formar. Horikita Manabu, agora reduzido a um aluno comum, queria atrapalhar os planos do conselho estudantil. E queria me usar para isso.
— Talvez você tenha razão — disse ele. Ele devia saber que não conseguiria me persuadir, mas parecia tão desesperado que engoliu seu orgulho e veio até aqui. — Perdoe-me por incomodar.
— Você se importaria de me passar seu número? — pedi.
— O quê?
Despluguei meu celular do carregador.
— Quero um tempo para pensar sobre colocar sua irmã no conselho estudantil e manipulá-la por trás dos bastidores.
— Então você vai considerar?
— Você veio até aqui mesmo esperando que eu recusasse, não foi? Seria rude da minha parte ao menos não pensar no assunto — respondi.
Minha mudança inesperada deve ter surpreendido o irmão da Horikita, mas ele me deu seu número sem pedir nada em troca. Isso, por si só, mostrava o quanto ele pretendia vigiar de perto o conselho estudantil de Nagumo Miyabi.
— Se eu decidir cooperar, entro em contato — disse.
— Não espero nada, mas estarei aguardando.
O irmão da Horikita deixou meu quarto sem tomar chá ou sequer se sentar.
— Ainda acho que não há motivo para se apegar tanto ao conselho estudantil — falei para mim mesmo.
Mesmo me colocando no lugar de alguém prestes a se formar em alguns meses… não havia muito o que eu pudesse fazer sobre aquilo. Ainda assim, agora eu estava um pouco preocupado.
*
A primeira neve da temporada caiu tarde da noite de sábado. Foi apenas uma camada fina, que derreteu ao amanhecer, deixando poças espalhadas pelo concreto. Apesar de ter nevado no dia anterior, a temperatura máxima daquele dia chegou a vinte e quatro graus, quase clima de verão. Estava tão ameno que dava para sair de camiseta.
— Então o segundo semestre finalmente vai acabar na semana que vem, hein? Nossa, parece que mal passou tempo nenhum.
Na manhã de domingo, fui verificar como Akito estava se saindo no clube. Depois, passei o dia com o grupo Ayanokoji no Keyaki Mall até o entardecer. Fizemos compras, conversamos no café, almoçamos e até fomos a uma sala de karaokê. Foi um ótimo dia, e eu realmente aproveitei fazendo coisas comuns que estudantes comuns fazem.
— Aliás… cof. Ah, minha garganta está doendo.
— Cantar cinco músicas seguidas é exagero, Yukimuu. Mas você é surpreendentemente bom. Eu fiquei chocada — disse Haruka.
— Minha garganta dói por causa do jogo de punição, não por cantar — retrucou Keisei, carrancudo.
O karaokê servia vários tipos de comida, algumas feitas especificamente para jogos de azar. Por exemplo, o takoyaki vinha com seis unidades, sendo que uma delas era extremamente apimentada. Quem pegasse a apimentada tinha que cantar imediatamente depois de comer a peça inteira, sem poder beber água até terminar de cantar. Eu não via muito sentido nisso, mas todos nos divertimos, então claramente tinha algum propósito.
Hilariante ou não, Keisei acabou escolhendo o takoyaki apimentado várias vezes seguidas. Decidimos ver até onde iria sua maré de azar — e ela durou cinco vezes. A probabilidade exata de isso acontecer era de uma em 7776.
— Tão azarado…
— Pelo contrário, isso não significa que você é muito sortudo? — perguntou Haruka. — Pense assim: você gastou todo o azar do ano de uma vez. Deve ter várias coisas boas te esperando no resto do ano.
— Faltam só duas semanas para acabar o ano! Você fez isso de propósito, Haruka.
— Desculpa, desculpa. — Haruka segurou a barriga, rindo alto, mas ainda assim se desculpou. — Era tão apimentado assim?
— Achei que ia começar a cuspir fogo. Eu sei que disseram "picante", mas tem que haver um limite, né? — Keisei ainda estava com a língua de fora por causa do ardor que não passava.
— Ei, eu te salvei do último. Era seriamente picante — disse Akito. Ele havia encerrado aquela maré de azar.
— Vamos fazer isso de novo da próxima vez que formos ao karaokê — disse Haruka.
Todos, inclusive Airi, olharam para ela horrorizados.
— Ok, mas você também pode pegar o takoyaki apimentado — falei. — Você sabe disso, né?
— Eu sei, eu sei. Não vou amarelar depois de sugerir que a gente faça de novo — disse Haruka.
— Você parece bem confiante com sua tolerância à pimenta — falei, tentando sondar aquela confiança eterna que ela demonstrava.
— Ah, fui descoberta?
— Nem achei que você estivesse escondendo alguma coisa…
— Eu consigo comer lámen super-ultra-apimentado sem nem suar. Na verdade, eu meio que gosto, sabe? — ela disse.
Agora parecia que não estávamos mais jogando em condições iguais.
— Eu fico imaginando se eu consigo comer algo assim… — disse Airi, que já estava nervosa antes mesmo de o jogo começar.
— Não se preocupa, não se preocupa. Se for picante demais, é só cuspir. A gente não vai forçar você a comer nada — disse Haruka. Ela estava certa. Akito e Keisei provavelmente também não forçariam Airi a fazer nada que não quisesse. — Ah, e eu já falei isso sobre o Yukimuu, mas você canta muito bem, Airi. Foi mesmo sua primeira vez no karaokê?

— S-Sim. Foi, hã… bem embaraçoso, na verdade.
Mesmo tímida até o limite, Airi tinha se esforçado ao máximo.
— Se você colocasse só um pouquinho mais de energia, ficaria perfeito.
Voltamos para os dormitórios. Nem eram cinco horas ainda, mas o sol já estava se pondo.
— Hoje fez bastante calor — disse Airi. — Todo mundo saiu com roupas bem leves, né?
— Você podia até andar de camiseta de tarde, então faz sentido.
— Eu não me dou bem com o frio — disse Haruka, com um tom melancólico enquanto olhava para o céu.
— Eu também não lido muito bem com ele.
— Bom, um friozinho é bom pra mim. Assim eu não suo no clube, o que facilita os treinos — disse Akito, sendo o único do grupo que preferia o frio.
— Parece que amanhã vai esfriar de novo.
— Acho que vou ter que comprar umas coisas pra me preparar… isso vai pesar no bolso.
Nosso ritmo foi diminuindo até virar uma caminhada despreocupada enquanto conversávamos. Então, ouvimos uma voz.
— Obrigado por sair comigo hoje, Sakayanagi-san.
— Ah, não, não. O prazer foi meu.
Ao virar, vi uma dupla bem inusitada: Ichinose e Sakayanagi. Ichinose, ao notar nosso grupo, levantou a mão e acenou. Sakayanagi não olhou exatamente para mim, mas lançou um olhar geral e superficial para todos enquanto passávamos. Mesmo tendo praticamente declarado guerra contra mim, ela não fizera nada desde o festival esportivo.
— É raro ver você nesse grupo, Ayanokoji-kun — disse Ichinose.
— Sério? — Ela achava estranho eu estar ali? Para mim, a visão estranha era ver as líderes das Classes A e B passeando juntas como amigas no dia de folga.
— Bem, pelo que já observei, você está com a Horikita-san a maior parte do tempo. Isto aqui é diferente — disse Ichinose, examinando nosso grupo com cuidado. — Ah, é verdade! Ouvi dizer que vocês venceram a Classe C na prova. Parabéns! Nós perdemos pra Classe A, infelizmente.
— Mas por uma margem mínima. Dois pontos. Acho que estávamos praticamente equilibrados — disse Sakayanagi. A disputa tinha sido apertada, e parecia que a Classe B ficara só um pouco atrás da Classe A no final. — Com essa vitória, a Classe D pode até virar Classe C no próximo semestre, não?
— Uau! A Classe B vai ter que tomar muito cuidado ou podemos ser ultrapassados! — disse Ichinose.
— Pretendemos ultrapassar vocês, sim — declarou Keisei, sério como sempre. — Vamos chegar à Classe A, eventualmente.
Sakayanagi fechou os olhos e deu uma risadinha. Keisei pareceu achar aquilo ofensivo, mas precisava lembrar que ainda éramos a Classe D. Ninguém do nosso grupo era especialmente próximo de Ichinose, e como não éramos do tipo que forçava sorrisos ou puxava conversa educada, o diálogo esfriou rapidamente.
— Ah, desculpa. Acho que estamos atrapalhando vocês. Até mais — disse Ichinose, graciosa.
Sakayanagi não falou comigo nem fez contato visual — apenas seguiu Ichinose.
— Elas são rivais, né? Aquelas duas? — perguntou Haruka.
— Sem dúvida, são inimigas — disse Keisei, observando-as com suspeita enquanto empurrava os óculos.
— Isso é bem típico da Ichinose, né? — Era de conhecimento geral que Ichinose conseguia fazer amizade com qualquer um.
— É que… como posso dizer? — murmurou Airi. — Parece que a Ichinose-san vive em outro mundo, ou algo assim.
— Como mulher, eu meio que não gosto muito dela.
— O quê? Você não gosta da Ichinose, Haruka?
— Não é que eu não goste, só que… ela é perfeita demais em tudo. Não dá pra ser humano sem pelo menos uns defeitinhos, né? Eu meio que torço para que ela seja podre por dentro.
— Você tem um ponto. Ela é tão impecável que chega a ser meio assustador. Mas desejar que ela seja podre por dentro é exagero — disse Akito.
— Verdade. Só digo que alguém perfeita e totalmente fofinha é meio chato, até em mangá — disse Haruka, enfiando as mãos nos bolsos enquanto observava Ichinose se afastar.
— E-Eu acho bom que ela seja assim. Se a Ichinose-san fosse uma pessoa ruim, como a Haruka-chan falou, ninguém acreditaria — disse Airi. Ela parecia nervosa, como se realmente não quisesse que aquilo fosse verdade.
— Pode ser. Talvez existam mesmo pessoas incrivelmente amáveis e perfeitas no mundo. Talvez a gente só não saiba reconhecê-las quando as vê — disse Haruka.
— Nós vamos chegar à Classe A. Quando isso acontecer, Ichinose será nossa inimiga. É melhor não nos aproximarmos demais — disse Keisei.
Ele tinha razão. Se Ichinose era realmente tão gentil e benevolente quanto parecia, seria difícil enfrentá-la. Alguém horrível como Ryuen não despertava simpatia alguma, mas eu me perguntava se nossa classe teria coração para esmagar Ichinose, se precisasse.
Se a nossa classe subisse, mais conflitos no futuro seriam inevitáveis. Seríamos atacados por baixo por Ryuen e pela recém-rebaixada Classe C, sedentos por vingança. E também era incerto o que aconteceria com a relação cooperativa de Horikita e Ichinose no futuro. No mundo ideal, trabalharíamos juntos com Ichinose para derrotar a Classe A. E então, quando as Classes B e D fossem promovidas para A e B, respectivamente, encerraríamos a aliança e viraríamos rivais.
Claro, duvidava que as coisas fossem tão simples assim.
— Parece que o caminho à frente está cheio de armadilhas, hein?
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