Ano 1 - Volume 7
Capítulo 1: O Som de Passos em Pleno Inverno
JÁ ESTÁVAMOS na metade de dezembro, e de repente fazia um frio cortante. Cada vez mais alunos apareciam de cachecol, luvas e meias altas. Nuvens pesadas cobriam o céu. Parecia que ia nevar.
Pensando bem, eu nunca tinha visto neve antes. Já a tinha visto na televisão e lido sobre ela em livros, mas nunca a tocara, nunca sentira sua textura na pele. Decidi que queria experimentar isso.
Yukimura Keisei, Hasebe Haruka, Sakura Airi e eu — todos da Classe D — nos encontramos no Keyaki Mall depois da aula. (O nome verdadeiro de Keisei era Teruhiko, mas começamos a chamá-lo de Keisei porque ele preferia assim.) Seus rostos estavam se tornando uma presença familiar. Tínhamos ficado mais próximos ultimamente e agora nos reuníamos com frequência só para conversar, sem nenhum motivo específico.
Às vezes ficávamos juntos por mais de duas horas; outras vezes, nos separávamos em trinta minutos. Eles eram um grupo casual, tranquilo, que vinha e ia como queria. Geralmente nos encontrávamos às sextas-feiras, porque o quinto membro do grupo, Miyake Akito, sempre tinha um compromisso no horário.
— Eu realmente achei que a Classe C já teria tentado alguma outra coisa. As questões que eles nos deram não foram nada fáceis — disse Keisei, justamente quando algumas garotas da Classe C passaram por nós.
— A Classe C não parece ter mais capacidade de estudar do que nós — respondeu Haruka, com os olhos no celular. — O Miyacchi disse que já está vindo. Parece que acabou de sair do clube.
Ela estava trocando mensagens com a própria pessoa por quem esperávamos. Akito era o único do grupo que participava de um clube, então não podia vir direto depois da aula.
— Mas é bom que a gente tenha passado por essa prova, não é? Além disso, eu não quero ver ninguém ser expulso, mesmo que seja de outra classe — disse Airi. Ela não tinha estômago para crueldade.
— Bom, sim. Eu entendo que você queira se dar bem com todo mundo, mas isso é difícil com o jeito que a escola funciona. Subir no ranking significa derrubar outra classe — disse Haruka.
— Exatamente — disse Keisei, impressionado. — Entendo o que você quer dizer, Airi, mas aqui é comer ou ser comido. Eu não quero ser comido.
— Suponho que sim… — respondeu Airi, desanimada.
— Espera aí. E se, depois do exame final, as quatro classes tivessem exatamente o mesmo número de pontos? Aí todo mundo poderia se formar na Classe A… Brincadeira. Isso nunca vai acontecer — disse Haruka.
— Mas acho que seria maravilhoso — disse Airi.
— Infelizmente, é impossível — disse Keisei.
— Como pode ter tanta certeza?
— Ouvi os veteranos falando sobre isso. Se todas as classes terminassem com a mesma pontuação depois do exame final, a escola aplicaria um exame especial extra para determinar o ranking — explicou ele.
— Que tipo de exame?
— Quem sabe? Só ouvi rumores. Aparentemente, isso nunca aconteceu.
— Ainda acho a ideia interessante — disse Haruka.
— Então só uma classe pode ser Classe A no fim, hein? — perguntou Akito, chegando para se juntar a nós.
— E aí, Miyacchi. Como foi o treino hoje? — perguntou Haruka.
— Como foi o quê?
— Você sabe. Como você manejou o arco, ou sei lá.
— Normal. Nem muito bem, nem muito mal. Você não precisa fingir interesse — disse Akito.
— Ah, qual é, não custa perguntar, né? É só uma conversa casual entre amigos.
— Bom, você sabe alguma coisa sobre arco e flecha? — perguntou Akito. Ele se sentou, olhando meio desconfiado para Haruka.
— Você só precisa acertar o alvo com o arco, né?
— Não… mas acho que essa é a ideia geral. Esquece isso.
— Bom, como posso dizer? Não é como se eu tivesse interesse em arco e flecha. Nunca tive. Só quero saber que desvio juvenil te levou a gostar disso, sabe? — disse Haruka.
— É, pensando bem, por que arco e flecha? O clube daqui nem é famoso, certo? — perguntou Keisei.
— No ensino fundamental, um veterano com quem eu era amigo fazia parte do clube de arco e flecha. Então pensei em tentar também. Só isso. Nada profundo — respondeu Akito.
— Ah, então esse veterano fez você querer entrar? — Airi vinha participando mais das conversas ultimamente. Era uma surpresa, mas agradável.
— Airi, você usa câmera digital, né? Isso tá na moda hoje em dia, hm? Acho que entendo por que você prefere algo como fotografia — disse Haruka.
— O quê? Tipo postar fotos no Instagram? Isso é mais um hobby de menina, eu acho. Não entendo muito — disse Keisei, com um tom crítico.
— Ei, isso é sexista — disse Haruka. — Tem um monte de cara no insta hoje em dia.
— Sério? Eu acho arriscado ficar expondo suas informações pessoais assim.
— E você, Kiyotaka? Gosta de fotografia?
— Não. Não sei nada sobre o assunto — respondi.
Afinal, naquela escola não podíamos nos comunicar com o mundo exterior. As únicas pessoas que veriam você nas redes sociais seriam os outros estudantes.
— O Kiyopon não parece mesmo o tipo. Na verdade, se ele usasse Instagram, eu ficaria super surpresa. Você é secretamente o tipo que tira foto impulsivamente quando tá numa festa, ou na piscina à noite? — perguntou Haruka. — Ou quando tá com um sorvete na mão fazendo uma carinha fofa… Faz algo assim?
— Não. — Não queria que ela me imaginasse desse jeito. — E você usa? Instagram?
— Nah. Dá trabalho, e eu não gosto de me exibir — respondeu ela.
— Concordo com você — disse Keisei.
Airi ficou quieta, mas parecia magoada com aquela rejeição. Apesar de estar dando um tempo, seu hobby era posar para fotos e postá-las na internet.
— Bom, é muito popular no mundo todo. Não é um hobby estranho — eu disse. Não queria deixar Airi triste. Ela provavelmente tentava esconder seus verdadeiros sentimentos, mas era óbvio que se importava com o que eu dizia.
Ela sempre reagia quando eu a ajudava, e Haruka e os outros perceberam isso imediatamente.
— Bom, eu não sou a pessoa certa para perguntar o que é legal hoje em dia. Peço desculpas a quem gosta de Instagram e coisas do tipo — disse Haruka.
— Só porque não combina comigo não quer dizer que eu deva desprezar algo de que outras pessoas gostam. Isso foi culpa minha. Não pensei antes de falar — Keisei se desculpou com Airi.
Airi levou a mão ao peito e soltou um suspiro de alívio.
— Desculpa mudar de assunto, mas eu estava pensando em uma coisa — disse Akito, quando a conversa se acalmou. Ele parecia um pouco irritado. — A Classe C não está estranha ultimamente?
— Classe C? Eles sempre são estranhos. Do que você tá falando? — Haruka inclinou a cabeça.
Eu sabia do que Akito estava falando. Ele se referia às pessoas que vinham nos seguindo nos últimos dias. Mesmo naquele momento, um deles nos observava de seu esconderijo: Komiya, aluno da Classe C e capanga de Ryuen. Ele claramente monitorava nosso grupo, mas se mantinha longe o bastante para fingir que era só coincidência. Se fôssemos confrontá-lo, correríamos o risco de parecer os agressores. Akito entendia que ainda não tínhamos nenhuma prova concreta.
Mais importante ainda, havia outra pessoa observando nosso grupo naquele momento. Alguém que Akito ainda não tinha notado.
— Durante nossas sessões de estudo, aqueles alunos da Classe C vieram mexer com a gente, certo? — ele perguntou.
— Você quer dizer o Ryuen-kun e a Shiina-san? São eles de novo?
— Bem, desta vez eles mandaram outras pessoas. O Komiya e o Ishizaki apareceram hoje no clube de arco e flecha. Disseram que vieram observar, e os veteranos aceitaram isso sem hesitar. Mas eles ficaram me encarando o tempo todo — disse Akito.
Então Komiya estava seguindo Akito, hein? Ishizaki provavelmente não estava com ele para não chamar atenção demais. De todos nós, Akito era claramente o mais incomodado pela vigilância de Ryuen.
— Talvez eles estejam interessados no clube? — arriscou Airi, que não podia nem imaginar as maquinações de Ryuen.
— Seria bom se fosse isso. Mas não parece — disse Akito. Ele girou os ombros, como se estivessem rígidos.
Ryuen continuava pressionando nosso grupo — e ultimamente, com mais força. Eu quase podia ouvir sua risada arrogante, ouvi-lo dizer: "Mais cedo ou mais tarde, vocês vão ceder."
— Eles fizeram algo com você? Tipo te provocar, ou espirrar pra te distrair na hora de atirar? Ou jogar pedras em você? — perguntou Haruka.
— Não poderiam fazer nada disso na frente dos treinadores ou dos veteranos, obviamente. Eles foram embora quando o treino estava acabando — disse Akito.
Embora nada tivesse mudado para mim pessoalmente, Ryuen e seus capangas claramente nos marcaram desde a última prova. Eu tinha que supor que Karuizawa também fora marcada. Eles provavelmente já tinham reduzido a lista de suspeitos a alguns nomes — e eu tinha certeza de que o meu estava lá. Faltava apenas uma peça final de evidência para concluírem que eu era o alvo, e Karuizawa Kei poderia fornecer essa peça.
O fato de Ryuen estar agindo com cuidado era prova de que ele estava pensando muito bem em seus movimentos. Como ele procuraria obter esse pedaço final do quebra-cabeça? Observando suas ações até agora, não era difícil adivinhar. Era uma questão de quando, não de se.
Enquanto eu ponderava isso, Akito e os outros continuaram conversando.
Keisei deu sua opinião sobre o motivo de a Classe C estar nos incomodando.
— Talvez tenha a ver com o crescimento da Classe D. Tivemos zero pontos logo depois de começar o ano, mas agora estamos perto da Classe C. Considerando o resultado do Paper Shuffle, há a chance de ultrapassarmos eles no terceiro semestre. Eles devem estar apavorados — ele analisou.
— É isso aí. Vamos ultrapassar eles. Nós, as mesmas pessoas de quem eles ficavam tirando sarro!
— Mas… isso não deveria ser impossível? — perguntou Airi, claramente lembrando-se do anúncio dos pontos.
— Correto — disse Keisei. — Quando a escola anunciou os pontos no começo de dezembro, a Classe D tinha 262, e a Classe C tinha 542. Eram 280 pontos de diferença.
A Classe D enfrentara a Classe C no Paper Shuffle e vencera de forma decisiva. Cem pontos foram transferidos de C para D, reduzindo a diferença total em duzentos. Agora, a diferença era de apenas oitenta pontos.
A Classe C ainda estava na frente. Porém, algo fora das provas estava acontecendo na Classe C.
— Parece que a Classe C fez algo que violou gravemente as regras. A escola está mantendo os detalhes em segredo, mas eles perderam cem pontos.
— O que será que fizeram? Bem, tem cara de Classe C mesmo — disse Haruka, divertida… não que a Classe D tivesse muita moral para comentar. Tínhamos perdido mil pontos no primeiro mês de aula.
— Seja qual for o motivo, o conflito interno deles está causando um grande estrago. Se continuar assim, nossa classe pode subir depois das férias de inverno — disse Keisei, sem soar arrogante.
— É por isso que a Classe C começou a mexer com o Miyacchi? — perguntou Haruka.
— Acho provável — respondeu Keisei.
Do ponto de vista de Ryuen, como líder da Classe C, ser rebaixado devia ser insuportável. Ele provavelmente estava procurando algum ponto fraco na Classe D que pudesse explorar para manter sua posição. Pelo menos, isso era coerente com suas ações anteriores.
— Troca de posições entre as classes, por mais caótica que seja, é inevitável pela forma como a escola funciona. Mas acho que também é algo que não acontece com frequência. O crescimento da Classe D após aquela queda enorme no início do ano deve estar deixando a Classe C em pânico. É natural que eles queiram descobrir o motivo do nosso avanço.
— O Ryuen-kun age todo metido, mas ainda é o líder deles. A reputação dele vai pro fundo do poço se a gente ultrapassar eles.
— Consigo entender o desespero dele — disse Akito, parecendo satisfeito com a ideia do orgulho de Ryuen despencando.
— Ainda assim… a Classe D não mudou tanto assim, mudou? Quer dizer, diminuímos a diferença, mas por quê? Foi porque a Classe C pisou na bola?
Era verdade que a maioria dos alunos da nossa classe apenas enfrentava as provas que apareciam, sem perceber as batalhas nos bastidores. Era compreensível que não soubessem ao certo por que a diferença entre as classes diminuíra.
— Derrotamos todas as outras classes no exame da ilha. O Ryuen derrotou a gente no teste do zodíaco, mas nos recuperamos no Paper Shuffle. Enquanto isso, a Classe C vem gastando os pontos da classe de forma descuidada — explicou Keisei. — Até na prova da ilha deserta, eles queimaram todos os pontos rapidinho.
— Então, em outras palavras… a Classe C está se autodestruindo?
— Você poderia ver dessa forma. A violação de regras deles recentemente foi certamente autodestrutiva.
O exame especial na ilha desabitada havia sido realizado logo no início das férias de verão. Cada classe havia recebido 300 pontos para usar durante o exame, e precisávamos administrar esses pontos ao longo de uma semana para concluir o teste. Depois, os pontos restantes seriam somados ao total de pontos da classe quando o exame terminasse. Todas as classes, inclusive a D, fizeram de tudo para terminar ao menos com um ponto, mas, como Haruka tinha dito, a Classe C gastou rapidamente todos os 300 pontos que possuía.
— É por isso que a Classe D conseguiu reduzir tanto a diferença? — perguntei.
Apesar de a Classe D ter enfrentado muitos percalços, conseguimos economizar 225 pontos.
— Provavelmente é isso. Além disso, fico me perguntando se a Classe C sequer fez algo para tentar nos enfrentar. Eles pareciam estar realmente aproveitando as férias. Talvez eu esteja até um pouco com ciúmes, porque não faziam ideia do que tivemos que aguentar.
— O Ryuen é só imprudente. Um pirralho idiota que acha que fazer o inesperado torna ele legal. Por isso ele não liga se a classe dele perde — disse Keisei, com seu raciocínio lógico afiado.
Do ponto de vista dele, gastar pontos de maneira tão irresponsável devia parecer algo completamente incompreensível. Porém, Ryuen não havia desperdiçado os pontos. Não apenas usou tudo, como também entregou todos os equipamentos da Classe C para a Classe A durante o desafio da ilha — incluindo banheiros, barracas e mantimentos extras. E com certeza não fez isso por bondade. Coisas como confiança ou amizade não significavam nada para Ryuen; se ele ajudou a Classe A, era porque recebeu algo em troca, provavelmente pontos privados.
Poucos estudantes sabiam da verdade. E Keisei parecia fazer parte do grupo que não sabia.
— Nossa, deve ser bom ser garoto — disse Haruka. — Vocês têm a vida tão fácil. Não acha, Airi?
— S-Sim. Muitas meninas passaram maus bocados na ilha por causa... daquela época do mês. Se tivesse durado mais, acho que eu teria problemas também — sussurrou Airi, com as bochechas vermelhas.
— Por que você teria problemas se o teste continuasse? — perguntou Keisei, claramente sem entender o básico sobre o corpo feminino.
— B-Bem, é que… — Airi desviou o olhar, incapaz de explicar.
— Sabe, Yukimuu? É fofo o quanto você consegue ser ingênuo, mas você precisa aprender a hora de calar a boca. Entendeu? — rebateu Haruka, irritada.
— Como assim?
Querendo encerrar aquilo, Akito deu um leve tapinha no ombro de Keisei.
— As pessoas têm vários problemas, cara.
— Eu não faço ideia do que você está falando. O que quer dizer com "vários problemas"? — insistiu Keisei, sempre determinado a entender tudo. Akito mudou de assunto.
— A Classe D venceu porque a Horikita percebeu a estratégia do Ryuen, certo? — perguntou, olhando para mim.
Assenti.
— Se ela não tivesse percebido, teríamos perdido.
— Tudo o que a Classe C fez foi festejar. Eles fingiram que precisavam se retirar, mas por que o Ryuen-kun ficou na ilha? Ele é o líder deles. Não deveriam ter deixado alguém menos chamativo? — questionou Haruka.
A lógica dela não era totalmente equivocada, mas qualquer pessoa poderia ter sido indicada como líder para o teste. Não havia como descartar a possibilidade de um aluno mais discreto da Classe C estar escondido.
— Ei, Kiyotaka, conta pra gente as informações que você recebeu da Horikita — disse Keisei, sério.
— Do que você está falando?
— O que o Ryuen está pensando e planejando? Depois de tudo que aconteceu no festival esportivo e no Paper Shuffle, precisamos trabalhar juntos como classe daqui pra frente.
— Concordo. Me arrepia ser seguido pelo Ishizaki e aqueles caras — disse Akito.
Parecia que eles estavam finalmente entendendo que cooperação era mais importante do que nunca. Até Akito e Haruka, que normalmente ignoravam os problemas da classe, pareciam dispostos a colaborar.
— Posso só contar o que ouvi de segunda mão, mas… — comecei.
Eu pretendia sugerir ligar para a Horikita, mas Keisei me interrompeu:
— Tudo bem. Só fala o que você sabe.
Os quatro me encararam. Era bastante pressão.
— Certo. Mas não me culpem se eu errar alguma coisa.
Com esse aviso, contei o que tinha acontecido na ilha, desde o começo. As ações que descrevi eram minhas, claro, mas a história oficial creditava tudo à Horikita.
Expliquei como Ryuen usou um rádio para se comunicar com um espião enquanto permanecia escondido na ilha. Como, além da Ibuki, outros espiões tinham se infiltrado nas demais classes. Como Ryuen estava obcecado com a Horikita desde o exame no navio. Contei a estratégia que ele usou no navio e como venceu, mas omiti o fato de ele ter planejado esmagar a Horikita no festival esportivo. Também não mencionei a traição da Kushida.
— De modo geral, foi isso. Não é muito diferente do que vocês já sabiam, Keisei — concluí.
Ele cruzou os braços, refletindo.
— Então, como a Haruka disse, por que o Ryuen ficou na ilha?
— A Horikita acha que é porque ele não confia em ninguém — respondi. — É provavelmente a opção mais plausível. Reunir informações sobre as outras classes e descobrir a identidade dos líderes era importante demais para ele delegar a outra pessoa, não acham?
Seria necessário comandar espiões, usar raciocínio dedutivo e sobreviver vários dias na ilha com o mínimo possível. Além disso, a pessoa precisava ter ligação com a Classe A para trabalhar com eles. Não era exagero pensar que apenas Ryuen seria capaz disso.
Se os líderes tivessem sido escolhidos depois de todos se reunirem, talvez Ryuen tivesse seguido outra estratégia. Mas o manual distribuído na ilha desabitada afirmava claramente que a nomeação seria feita imediatamente após a chamada no último dia — antes de cada classe se reunir. Ele provavelmente elaborou aquele plano por causa disso.
Keisei e os outros ponderaram em silêncio.
— É exatamente o que eu esperaria da Horikita. Eu jamais pensaria tão longe.
— Tivemos problemas com racionamento e higiene, alguém queimou nosso manual, e até roubaram a roupa íntima de alguém. A Classe D estava um caos completo. Não tínhamos tempo nem energia para investigar outras classes — disse Akito.
— Foi bem ruim, não foi?
— A Horikita-san é incrível.
— Ela realmente é. Imaginar que ela descobriu tudo aquilo... — disse Airi, genuinamente impressionada.
— Considerando que ela percebeu toda a estratégia do Ryuen-kun, dá pra entender por que eles estão atrás dela.
— Na verdade, parece que eles ainda estão tentando atrapalhar a gente, até agora — eu disse, preferindo contar a verdade do que negar.
— Parecia que houve algum tipo de briga entre pessoas do mesmo grupo durante o teste do zodíaco também.
— Acho que consigo entender o que aconteceu na ilha e no navio. Mas por que vir até o clube de arco e flecha só pra me espionar? Isso não é normal, certo? — perguntou Akito.
Ele tinha razão. Se Horikita era o principal alvo da Classe C, por que perder tempo seguindo todos nós?
— Eles podem estar tentando achar pontos fracos na Classe D — respondi. — Afinal, parece que a Horikita não tem nenhuma fraqueza explorável. Talvez o plano deles seja destruir quem está ao redor dela.
— Faz sentido.
— Uau, a namorada do Kiyopon é realmente incrível — provocou Haruka.
— Não chama ela de minha namorada.
— S-Sim. Acho isso desrespeitoso com o Kiyotaka-kun — disse Airi.
— AhAhaha! Desculpa, desculpa.
Era insultuoso com a própria Horikita sugerir que ela estaria com alguém como eu. Sudou explodiria só de ouvir a Haruka brincar com isso.
— Mesmo que ela não seja sua namorada, você não gosta dela? — perguntou Haruka. — Ou você já tem uma namorada?
— Eu não gosto dela, e não tenho namorada.
— Entendi. Então é isso. Vamos todos ficar solitários este ano.
— Solitários?
— Olhem em volta. Já estamos quase no Natal, não é? — sussurrou Haruka.
Ela tinha um ponto. O shopping estava tão carregado de decoração natalina que era difícil acreditar que ainda estávamos dentro do campus escolar. Casais felizes passavam por onde estávamos sentados.
— Não é um dia tão especial assim, certo? — disse Keisei. — É como qualquer outro.
— Pode ser para você, Yukimuu, mas para nós meninas é importante — respondeu Haruka.
— R-Rumores podem começar a circular.
— É, é. Coisas como quem está namorando e quem não está. Ou quem passou a noite junto e quem não passou. Mesmo se você estiver solteiro só porque gosta de ficar sozinho, vão sentir pena de você — disse Haruka.
— Somos alunos do primeiro ano. Nosso foco deveria ser estudar — insistiu Keisei.
— Ah, qual é. Você nunca pensou nem um pouquinho em namorar? Você está até ficando vermelho.
— Cala a boca.
— Esse suco de manga é doce demais. Argh — disse Akito, me entregando o copo enquanto fingia vomitar.
— Mas é tão bom! — disse Haruka, chocada. — Enfim, acho que um monte de coisa vai rolar na Classe D durante as férias de inverno. Só minha opinião.
— Você quer dizer coisas como... pessoas se declarando? — perguntou Airi.
— Provavelmente. Se alguns começarem a namorar, outros vão terminar. Muita coisa acontece no Natal, afinal — disse Haruka, balançando a cabeça como alguém experiente no campo de batalha dos relacionamentos.
— Esquecendo quem pode começar a namorar, e quanto a quem pode terminar? O único casal da Classe D é o Hirata e a Karuizawa, certo? — Akito falou apertando o próprio pescoço, como se o suco doce demais estivesse o sufocando. E realmente era muito doce.
— O amor pode florescer em qualquer lugar, Miyacchi. Não é como se suas únicas opções românticas fossem as pessoas da nossa classe. Se tem uma garota que você gosta, você precisa agir antes que alguém apareça e leve ela — disse Haruka.
— Infelizmente, meu único amor é o arco e flecha — disse Akito.
— Cara, isso é patético. Você nem é tão apaixonado assim pelo clube. Super sem graça.
— Cala a boca! — Ele desviou o olhar, envergonhado. — De qualquer forma, não vou faltar ao clube nas férias. Talvez fosse diferente se eu tivesse namorada, mas eu não tenho.
— Então você gostaria de ter uma namorada? — perguntou Haruka, fingindo segurar um microfone perto da boca dele.
— Bom, eu não vou sair gritando pelos corredores como o Ike e aqueles caras, mas acho que meninos e meninas desejam as mesmas coisas, né?
— Bem, se meu ideal de garoto estiver por aí, eu adoraria encontrá-lo. E você, Yukimuu? O que faria se uma garota dissesse que gosta de você? — insistiu Haruka.
— O que eu faria? Dependeria da relação que eu tivesse com ela, acho.
— Ah, então você não sairia com ela só porque ela é bonita? Entendi, entendi. Um garotinho bem sério você é — provocou ela.
— Para com isso.
— Kiyotaka-kun, você tem algum plano para o N-Natal? — perguntou Airi.
— Uoooh, Airi! Isso significa que você está chamando o Kiyopon para um encontro? Que ousada! — gritou Haruka.
— I-I-Isso… não é isso! Eu não quis dizer isso!
— Então o que mais poderia ser? O Kiyopon acabou de dizer que não tem namorada.
— Não é isso que eu queria dizer. Eu só… bem… eu queria saber quais eram seus planos. É que… eu fico curiosa sobre o que você faz quando passa o Natal totalmente sozinho… — disse Airi, encolhendo-se.
— Hm, faz sentido. O Miyacchi provavelmente tem coisas do clube, mas e você, Yukimuu? O que vai fazer no Natal? — perguntou Haruka.
— Vou estudar — respondeu Keisei. — Se a escola realmente nos promover à Classe C no terceiro semestre, como planejado, teremos que mudar de subir posições para manter nossa colocação. Não temos muitos alunos fortes academicamente, então eu quero continuar na frente.
Ele queria contribuir com o que fazia melhor. Parecia mais confiante depois de orientar Haruka e Akito.
— Não sei o quanto posso ajudar na parte acadêmica. Vou deixar isso com você, Keisei — disse Akito.
— Tudo bem, mas mesmo que a gente consiga se formar na Classe A, você deveria tentar melhorar nos estudos. Suas notas vão te seguir pela vida inteira.
— É, você provavelmente tem razão. Vou despencar de novo se começar a relaxar agora.
— Você não pode relaxar e ainda assim se formar na Classe A.
— E quanto à pergunta da Airi, Kiyopon? Você vai ficar sozinho no Natal? — perguntou Haruka.
— Vou, sim. Não vou fazer nada de especial. Provavelmente vou passar o dia quieto no meu quarto.
— Natal é só um feriado normal, não é?
A cerimônia de encerramento seria no dia 22 de dezembro. O Natal estava bem perto.
— Heh. Heehee! — Airi começou a rir sozinha. Ela tentou desesperadamente segurar a risada, mas não conseguiu.
— Tem alguma coisa engraçada? — perguntou Haruka.
— D-Desculpa. Não é isso… É só que… Bem, estou me divertindo. Estou me divertindo tanto que comecei a rir.
— Você está rindo porque está se divertindo? — Haruka e os outros pareciam não entender. Eu também olhei para ela e notei lágrimas se formando em seus olhos.
— É que eu nunca me diverti tanto assim antes. Estou muito feliz — disse Airi, abrindo o coração.
— Sério? A gente só está falando bobagem.
— Tudo bem por mim. Eu gosto de conversar sobre bobagens — respondeu Airi.
— Bem, eu não entendo, mas fico feliz. Eu também estou me divertindo — concluiu Haruka.
Nosso assunto mudou novamente.
— Já que estamos todos aqui, por que não jantamos juntos antes de voltar?
Todos concordaram. Quando começamos a sair, falei:
— Ei, vou ao banheiro rapidinho. Vocês se importam de ir na frente?
— A gente espera aqui.
— Não, vai estar super lotado agora. Provavelmente é mais rápido se vocês forem entrando na fila. Guardem um lugar pra mim.
Convencidos, todos seguiram em direção ao restaurante do Keyaki Mall. Isso só era possível porque Airi já conseguia agir por conta própria, pelo menos um pouco, sem depender da minha presença.
Komiya, achando que eu estava indo ao banheiro, seguiu com eles. Eu os observei se afastarem e então caminhei na direção oposta, aproximando-me de uma garota que estava sentada sozinha enquanto meu grupo conversava.
— Posso falar com você um minuto? — perguntei.
Era Kamuro, da Classe A. Ela mexia no celular como se não tivesse percebido minha presença.
— Ei, estou falando com você — repeti.
— Hã? Comigo? O quê? — Seus movimentos diziam que ela só havia me notado naquele momento.
Sentei-me ao lado dela. O ar ficou pesado o bastante para ser cortado com uma faca.
— Você está me seguindo. O que você quer? — perguntei.
— Hm? Do que você está falando?
— Eu te vi ontem depois da aula. Dois dias atrás, no Keyaki Mall. Quatro dias atrás, no Keyaki Mall. Seis dias atrás, depois da aula. Sete dias atrás, depois da aula. Você estava sempre lá. Bastante coincidência, não acha? — Mostrei a ela, na tela do meu celular, várias fotos que tirei dela me espionando.
— Isso é… mas quando…?
— Você tentava ser discreta, então não conseguia me encarar quando eu olhava pra você. Não é surpresa que não tenha percebido eu tirando fotos.
— E daí se eu estou te seguindo? Algum problema?
— Não exatamente. Não está me prejudicando em nada. Também não vou mandar você parar.
— Exato. Foi só coincidência.
— Mas eu fico imaginando… o que sua chefe vai pensar quando descobrir isso? — perguntei.
— Chefe? Do que você está falando? Você vê filmes demais.
— Então suponho que eu deva contar tudo para a Sakayanagi. Dizer que você não é muito boa em me seguir.
— Espera aí — disse Kamuro, segurando meu braço quando tentei levantar.
— Você é bem dedicada, não é? — perguntei. — Quero dizer, dedicada à Sakayanagi. Ela pediu para você me seguir dia após dia, e aqui está você, cumprindo o trabalho. Devem ser próximas.
— Não me venha com essa. Não sou capanga de ninguém.
— Não precisa mentir. Você está gastando seu tempo precioso em algo tão tedioso quanto me vigiar, e está fazendo isso justamente porque confia e respeita a Sakayanagi.
— Sem chance. Eu nunca mais falaria com ela se pudesse — cuspiu Kamuro.
— Então por que segue as ordens dela?
— Isso importa?
— Se você não faz isso por boa vontade, então é porque ela tem alguma coisa contra você.
— Do que você está tentando me acusar?
— Vou relatar para a Sakayanagi o quão desajeitada você foi me seguindo. Vou expor sua incapacidade de agir por ela. Aí, aquela fraqueza sua que ela explora provavelmente vai voltar para te ferrar.
— Então você está me ameaçando também?
O "também" praticamente confirmava que Sakayanagi realmente tinha alguma coisa contra Kamuro. Ela caiu direitinho no meu blefe.
— Então qual é o seu problema? — exigiu Kamuro. — Por que a Sakayanagi está atrás de você?
— Quem sabe? Honestamente, não faço ideia — respondi.
— Você é o aluno da Classe D que o Ryuen está procurando, não é? É a única coisa que faz sentido.
— E o que você pretende fazer com isso? — Não neguei. Se Sakayanagi sabia o que eu fazia, não havia motivo para esconder.
— Você quer me intimidar, mas eu poderia dar alguns conselhos "amigáveis" ao Ryuen, se eu quisesse — disse Kamuro.
— Então você quer retribuir a ameaça, é isso? Nesse caso, que tal isso? — fiz uma proposta. — Pode me seguir o quanto quiser. Não vou falar nada e não vou dedurar você para a Sakayanagi. Em troca, quero que fique quieta. Não conte para ninguém além dela o que descobriu sobre mim.
— Essas são suas condições?
— Não acho que seja um mau acordo.
— Tem razão. Também não tenho nenhum interesse real em ajudar o Ryuen — disse Kamuro, concordando. Ela se levantou. — Estou indo pra casa. Tô cansada.
Dito isso, ela caminhou até a saída.
— Seja lá o que a Sakayanagi tem contra ela, deve ser algo grande — murmurei para mim mesmo.
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