Classroom of The Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 7.5

Epílogo: O Destino da Flecha

DIA DE NATAL. Os alunos estavam voltando para os dormitórios depois das atividades de clube. Era improvável que alguém nos visse, nem mesmo um professor. Não havia luzes suficientes acesas no prédio para chamar atenção.

— Está frio. Ele não vai vir? — perguntou Karuizawa.

— Está atrasado — respondi.

Já se passaram vinte minutos do horário combinado. Não havia ninguém por perto.

— Ele atrasa depois de te chamar? Que falta de educação — disse Karuizawa.

— Talvez esteja por perto, nos observando — respondi.

— O quê? Isso é injusto, não é? Confirmar sua identidade e depois ir embora?

— Tenho certeza de que gostaria de fazer isso, mas provavelmente ele não pode.

Eu quase tinha certeza de que essa pessoa entraria em contato comigo. Trouxe Karuizawa para servir de camuflagem. Eu pareceria estranho se aparecesse sozinho em um local isolado, mas hoje era Natal. Karuizawa e eu poderíamos passar por um casal. Mesmo que a pessoa misteriosa tentasse me ligar novamente através de um número bloqueado, meu celular estava desligado. A única forma de ter certeza da minha identidade seria falando comigo diretamente.

Enquanto Karuizawa e eu esperávamos pacientemente, um aluno solitário se aproximou. Eu já o havia visto antes. No momento em que nossos olhos se encontraram, entendi. Ele definitivamente não era quem eu esperava.

Ele não disse meu nome.

— Desculpem a espera.

— Acabamos de chegar, Vice-Presidente Kiriyama — respondi.

Seus olhos se arregalaram surpresos.

— Parece que você já conseguiu algumas informações sobre o conselho estudantil. Seu nome é… Ayanokoji, certo?

Não era estranho que o vice-presidente Kiriyama lembrasse meu nome. Ele estava por perto quando falei com Nagumo mais cedo hoje.

— Nunca imaginei que o vice-presidente, de todos, quisesse enfrentar o presidente Nagumo — comentei.

— Antes de falarmos sobre isso, me deixe perguntar uma coisa — ele olhou para Karuizawa. — Quem é ela? Eu não a conheço.

— Ela é confiável. É minha parceira — respondi.

Karuizawa ficou momentaneamente animada, antes de rapidamente recuperar a compostura.

— Confiável, hein? Bem, por que não? Essa situação já é desesperadora se eu tiver que recorrer a um calouro para ajudar — disse Kiriyama. Ele aceitou a presença de Karuizawa muito facilmente. Ou ele estava tão insatisfeito com o regime de Nagumo, ou confiava tanto no irmão da Horikita. — Podemos ir direto ao ponto? Não quero prolongar isso.

— Mesmo. Vou acabar pegando um resfriado se ficar aqui por mais tempo — disse Karuizawa.

— Nunca concordei com Nagumo nem uma vez. Entrei no conselho estudantil porque admirava Horikita-senpai. Ele era meu senpai na Turma A. Bem, costumava ser, suponho — explicou Kiriyama. Sua derrota nas mãos de Nagumo o rebaixou para a Turma B. Honestamente, fiquei surpreso Nagumo ainda o manter como vice-presidente. — Eu queria impedir Nagumo de se tornar presidente do conselho estudantil, mas era impossível. Está além das minhas capacidades.

— A história sobre o presidente Nagumo colocar todos os alunos do segundo ano sob seu controle… Quanto disso é verdade? — perguntei.

— Quase tudo. Existem os insatisfeitos, mas não o suficiente para votar contra Nagumo. Eles se resignaram à sua liderança — respondeu Kiriyama.

— Ei, Kiyotaka. Eu entendo unir sua própria turma, mas como você poderia fazer as outras turmas se tornarem aliadas? Todos estão competindo para chegar à Turma A, não é? — perguntou Karuizawa.

— Tenho certeza de que o Vice-Presidente Kiriyama vai explicar — disse.

— Nagumo prometeu reformas — explicou Kiriyama. — Ele disse que alunos capazes seriam promovidos à Turma A, não importando de onde começaram. Há muitos insatisfeitos nesta escola que sentem que foram colocados na turma errada.

Karuizawa parecia um pouco confusa. Eu esclareci:

— Ele se refere a pessoas como Horikita e Yukimura.

— Entendi. Mas isso não seria suficiente, certo? — perguntou Karuizawa. — Quero dizer, a maioria dos alunos das turmas inferiores não é tão talentosa.

— Nagumo diz que todos os alunos terão uma chance — explicou Kiriyama. — Ainda não tenho detalhes concretos.

— Não é meio suspeito?

— Sim, mas esses são os termos dele. Qualquer um na Turma B ou abaixo já sente a pressão aumentando. A diferença de pontos entre a Turma A e todos os outros está crescendo.

— Vice-Presidente Kiriyama, você não deveria aproveitar a oportunidade para voltar à Turma A? — perguntei. — Quero dizer, você se opõe ao presidente e perde, isso nunca vai acontecer, certo?

— Se eu acreditasse que a ideia de Nagumo realmente funcionaria, sim. Mas não creio que ele dará uma chance justa a todos de subir na hierarquia. Simplesmente não há como. Ele não pode garantir isso.

— Você não pensou em se demitir do conselho estudantil quando Nagumo se tornou presidente? Ninguém quer trabalhar com alguém que se opõe, certo?

— Se eu saísse, e então? Nagumo ficaria ainda mais livre para causar problemas. Achei melhor me infiltrar no círculo interno dele e coletar informações… tentar encontrar uma brecha que eu pudesse explorar. Se eu passar essas informações para Horikita-senpai, tenho certeza de que ele poderá fazer algo com elas.

Embora Kiriyama falasse de forma impassível, a frustração transparecia em suas palavras.

— Você entende como isso é difícil para mim? Ter que ficar calado e ranger os dentes, sabendo que se eu não conseguir impedir isso, a escola está perdida? — perguntou. Infelizmente para ele, eu não entendia. — Bem, suponho que não haveria como você entender. Não existem calouros como Nagumo. Mas isso não significa que você está seguro. Nagumo está observando Horikita-senpai e os terceiros anos por enquanto, mas quando eles se formarem… os calouros serão seu próximo alvo.

— Ugh. Ele parece o pior — disse Karuizawa.

Ela disse… mas eu podia enxergar vantagens em seguir Nagumo. Se ele conseguia fazer antigos rivais se alinharem tão facilmente, ele tinha que ser competente e persuasivo.

— Bem, esqueça lutar ou qualquer coisa. Não seria estranho nos intrometermos nos assuntos do conselho estudantil? — perguntou Karuizawa.

— Até agora, sim — respondeu Kiriyama. — Mas vocês vão ver muito mais dos alunos veteranos a partir de agora. Quando o terceiro semestre começar, a escola realiza um exame especial que reúne todos os três anos. Passei por isso no ano passado. Primeiro, segundo e às vezes até terceiros anos competem entre si.

Ou seja, nossa turma teria contato com veteranos em janeiro.

— É também quando Nagumo começará a montar sua lista de pessoas de interesse entre os calouros — acrescentou Kiriyama. Alunos que poderiam ameaçar o reinado de Nagumo.

Eu teria preferido passar despercebido. Infelizmente, tinha a sensação de que meu desejo não seria atendido.

— O que aconteceu no exame do ano passado? — perguntei.

— Provavelmente nada parecido com o exame deste ano. A maioria dos exames especiais é projetada para ser completamente diferente a cada ano.

— Mesmo assim, informações sobre o exame do ano passado poderiam ser vantajosas.

— Talvez. Mas não posso te dar. Mesmo se Horikita-senpai te endossasse, não posso violar as regras da escola. Se alguém descobrisse, eu seria expulso.

Fazia sentido. Se Kiriyama fazia parte da facção de Horikita, isso significava que ele respeitava muito as regras da escola.

— Nossas opções para enfrentar Nagumo são limitadas. Expulsão é o caminho certo, mas difícil de conseguir. A segunda melhor opção seria revelar a todos que ele não é apto para ser presidente do conselho estudantil. Se Nagumo fosse removido, muitos alunos do segundo ano se afastariam dele. Isso significaria que nenhum de vocês calouros, ou os novos alunos do próximo ano, sofreria dano — explicou Kiriyama.

O problema era que eu não conhecia o verdadeiro Nagumo Miyabi. Nem Karuizawa poderia me fornecer essa informação; tínhamos tão pouca interação com os veteranos. Como Nagumo acumulou tanta influência, era extremamente cauteloso e tinha o respeito e a inveja de Hirata, só podia concluir que ele não era um aluno comum.

Eu teria preferido que Kiriyama encontrasse estudantes do segundo ano que compartilhassem da opinião dele para ajudá-lo a derrubar Nagumo. Infelizmente, ele não tinha essa opção, o que significava que ele teria que incomodar os calouros.

— Espera. Fazer Nagumo ser expulso, ou removido do cargo — isso não é sério demais? — perguntou Karuizawa.

— Você não recorreria a medidas assim diante de um inimigo mortal?

— Eu nunca nem pensei em fazer algo assim.

Karuizawa parecia desconfiada, mas eu a ignorei.

Eu não sabia até que ponto podia confiar em Kiriyama. Pelo que eu havia visto, não havia dúvida de que ele odiava Nagumo. Mas também percebi que ele tomava muito cuidado com as palavras, talvez para me manipular. No momento, eu não tinha informações suficientes para chegar a uma conclusão definitiva.

Eu só havia mostrado a ele uma carta que tinha na manga: Karuizawa.

— Diga o que quer — falei. — Nós decidiremos como agir.

— Então, você não confia em mim, é isso? — perguntou Kiriyama. — Talvez eu pareça estar indo longe demais. Não preciso ser responsável por parar Nagumo. Mas não suporto ver meus kouhais passando pelo mesmo inferno que passei. Essa é a verdade.

Então ele estava fazendo isso apenas pelos kouhais, hein? Achei difícil acreditar nessa abnegação. Honestamente, se Kiriyama tivesse dito que esperava voltar para a Classe A eliminando Nagumo, eu teria confiado mais nele. Acho que é da natureza humana se fazer de santo, né?

— Pense o que quiser — Kiriyama acrescentou —, mas lembre-se disto: todo estudante que entrou na lista negra de Nagumo foi expulso. Sem exceção.

— Nesse caso, talvez eu também não devesse entrar na lista negra dele.

— Então você não vai cooperar?

— Vou. Tenho minhas razões para não recuar também.

— Tudo bem. De qualquer forma, você já está no radar de Nagumo. Desculpe, mas você vai descobrir que tipo de pessoa ele realmente é. Vou te manter informado sobre os movimentos dele a partir de agora. Desde que isso esteja dentro das regras da escola, é claro. Fora disso, você faz o que quiser.

Então, ele estava colocando o destino dele em minhas mãos?

Kiriyama parecia perceber que eu não estava tão entusiasmado quanto ele esperava.

— Para ser sincero, você é meio imprevisível para mim. Se não fosse aquela corrida de revezamento com Horikita-senpai, provavelmente eu nem pediria sua ajuda. Na verdade, foi o revezamento que fez Nagumo reparar em você — disse ele.

Se eu soubesse de Nagumo antes, não teria chamado atenção para mim durante o revezamento. Infelizmente, o que está feito, está feito.

— Se eu achar que você não consegue levar isso adiante, vou parar de entrar em contato — Kiriyama acrescentou.

— Isso não colocaria você em mais perigo, Kiriyama-senpai? — perguntou Karuizawa.

Ele apenas assentiu em silêncio.

— Não farei contato direto com você depois disso. Vou criar uma conta de e-mail aleatória e me comunicar por ela.

Bom. Comunicar-se por contas de e-mail descartáveis era a opção mais segura.

— Além disso… você sabe o que vai acontecer se sua incompetência levar Nagumo a descobrir que eu conspirei com você — ele acrescentou. Ou seja, ele me derrubaria junto com ele. Claro.

Com essas palavras finais, Kiriyama saiu rapidamente.

— Uh, essa história toda não te dá uma sensação ruim? — perguntou Karuizawa.

— Dá.

Não havia margem para erros.

*

 

Karuizawa e eu voltamos para os dormitórios. Caminhando um pouco atrás de mim, ela falou:

— Parece que as coisas estão saindo do controle.

— O que você acha do que o vice-presidente Kiriyama disse? — perguntei.

— Uh, não sei. Quero dizer, ainda não entendo muito bem por que ele odeia tanto o presidente Nagumo.

Karuizawa e eu estávamos na mesma página. Um homem sábio não buscava perigo. Eu tinha estado temporariamente disposto a fazer de Nagumo um inimigo se isso significasse ter o irmão de Horikita como aliado, mas estava começando a achar que não era a escolha certa. Se eu conseguisse fazer Nagumo pensar que meu desempenho no revezamento fora um acaso, ele logo me esqueceria. Se as coisas tomassem um rumo errado, no entanto, ele tentaria me eliminar.

— A propósito, sobre aquilo mais cedo… — perguntou Karuizawa —, a coisa de "parceira".

— O quê, você não gostou?

— Se você simplesmente me faz sua parceira de forma arbitrária, não é como se eu pudesse fazer alguma coisa, certo?

— Quer que eu volte atrás? — perguntei.

— Se você quer que eu seja oficialmente sua parceira, então tem que mostrar apreciação — respondeu ela.

— Pode me explicar especificamente o que quer dizer com "apreciação"?

— Dinheiro?

— Ei.

— Estou só brincando. Quero dizer, você não parece estar em posição de me emprestar muitos pontos, Kiyotaka — provocou ela.

Eu já esperava que ela dissesse isso. Graças ao resultado da prova no navio de cruzeiro, Karuizawa tinha mais pontos privados do que eu.

— Espere um segundo. A Horikita-san está de acordo com isso? Digo, ela seria uma parceira melhor para você, Kiyotaka. Certo?

— Ela só senta ao meu lado na sala. Nada mais, nada menos.

Quantas vezes eu precisava repetir isso?

— Então eu sou a única pessoa que realmente conhece você? — perguntou Karuizawa.

— Você é capaz. Isso me ajuda.

— O-Ok.

Horikita também era capaz, mas eu queria que ela desempenhasse outro papel. Eu queria vê-la desenvolver qualidades de uma verdadeira líder. Liderada por Horikita, com Hirata e Karuizawa a apoiando, a Classe D poderia se tornar uma força a ser respeitada. Se isso aconteceria ou não, porém, dependia de Horikita.

— Bem, acho que não tenho escolha. Vou ser sua parceira — disse Karuizawa. — Ficar com você pode acabar sendo bom pra mim.

— Não crie expectativas. Você pode acabar sendo pega no fogo cruzado junto comigo, sabe?

— Você quer dizer… pelo presidente do conselho estudantil?

— Principalmente, sim.

— Bem, você consegue lidar com ele. Certo, Kiyotaka? Quero dizer, estamos falando de você.

— Se dependesse apenas de força física ou habilidade acadêmica, duvido que eu perdesse.

— Eu imaginei — respondeu Karuizawa com um sorriso.

— Mas não dá pra saber quais serão as próximas regras de engajamento que a escola vai impor — acrescentei. — Se Nagumo estiver disposto a sacrificar seus próprios aliados ou destruir outros, ele pode nos derrotar e nos expulsar.

— Destruir outros?

— Bem, pense naquela briga entre o Sudou e os caras da Classe C — Ishizaki e seus amigos. Se o presidente do conselho estudantil tivesse apoiado aqueles garotos da Classe C, o destino do Sudou poderia ter sido completamente diferente.

— Hm, eu não prestei atenção nessa história de briga.

— Entendo. Bem, não se preocupe com isso. No fim das contas, é relativamente fácil fazer alguém ser expulso — desde que você esteja disposto a sacrificar o que for preciso pra que isso aconteça.

— Se ele não tiver medo de jogar sujo, isso pode ser péssimo pra você, hein, Kiyotaka?

Karuizawa tinha acertado em cheio.

— É. Exatamente isso.

Não havia como estar completamente protegido contra a derrota. O melhor que eu podia fazer era investir em estratégia inteligente e bons aliados.

— Se chegar a esse ponto, eu vou te salvar — disse Karuizawa.

— Você é muito gentil.

— Você realmente quer dizer isso?

— Sim.

— E-Eu entendo. Enfim, Kiyotaka, eu estava pensando… como você era no ensino fundamental? Quer dizer, você não era uma criança normal, né?

— Por que você diz isso? Eu poderia ter sido um aluno completamente comum, mediano.

— Nem pensar. Se você é normal, então o mundo enlouqueceu. — Karuizawa fez um gesto dramático, como se afastasse a ideia da minha normalidade. — Você é inteligente, bom de briga, mas é super quieto. Às vezes parece ingênuo sobre como o mundo funciona… e às vezes faz umas coisas bem esquisitas.

— Com base no que já viu, como acha que eu era no fundamental? — perguntei.

— Tô perguntando porque eu não sei — disse ela, fazendo biquinho.

— Arrisque um palpite. Quero ouvir a resposta.

— Hmm. — Karuizawa cruzou os braços e inclinou a cabeça. — Digo, se a gente estivesse num mangá ou algo assim, eu diria que você era, tipo, algum agente secreto criado em uma instalação intensa desde a infância. Sei lá. Não consigo pensar em mais nada. — Ela olhou para longe. Estava muito mais perto da verdade do que imaginava. — Argh. Não faço ideia. Qual é a resposta?

— É segredo.

— Q-Quê?! Ah, qual é, você não vai me contar?

— Eu nunca disse que contaria.

— Eu definitivamente vou te fazer explicar tudo um dia.

— Não é uma história muito interessante. Não crie expectativas.

Karuizawa parecia não estar ouvindo o que eu dizia.

— Ah! Está nevando.

E estava mesmo. Depois de olhar para o céu, baixei o olhar ao perceber que Karuizawa me observava.

— Isso me lembra… A Satou-san não acabou te dando nada, né? Um presente de Natal?

— Não sei.

— Não adianta tentar me enganar. Você percebeu o presente no momento em que encontrou com ela? — perguntou Karuizawa.

Ela tinha me conhecido bem demais. Estava certa; no instante em que encontrei Satou, vi um presente aparecendo na bolsa dela e soube que provavelmente era para mim. Algo que Satou pretendia me entregar se sua confissão romântica desse certo.

— Como se sente por ter perdido isso? — provocou Karuizawa. — Você provavelmente nunca ganhou um presente, né? Quero dizer, estamos falando de você.

Ela tirou um pequeno embrulho da bolsa e me entregou, evitando olhar nos meus olhos.

— É um presente de Natal meu para você. Aceite, e seja grato.

— Tem certeza?

— Pense nisso como um prêmio de consolação por não ter começado um relacionamento hoje. Ah, e me pague o dobro do valor dele depois — ela brincou.

— Isso meio que parece um golpe.

Aceitei o presente.

— Você comprou isso para mim?

— Obviamente não. O Yousuke-kun e eu supostamente estamos namorando, então eu comprei caso precisasse fazer algum gesto público. Fui às compras de Natal com outras meninas, então não foi perda de tempo total.

— Você não perde nada, hein? Não devia ter dado isso ao Hirata?

— Acho que teria. Normalmente. — Karuizawa estava um pouco evasiva. E imediatamente mudou de assunto. — Ei, Kiyotaka. Desculpa incomodar com isso, mas… já que tocamos no assunto do Yousuke-kun mais cedo…

— Hmm?

— Se eu… por acaso… terminasse com o Yousuke-kun… eu deixaria de ser útil para você?

— É por isso que você não deu seu presente para o Hirata?

— É. Tem algo de errado em falar sobre isso, já que não deu certo com a Satou-san?

Karuizawa estava aterrorizada com a ideia de eu valorizar a Satou mais do que ela. Na verdade, o término com Hirata apresentava certos riscos. Isso poderia diminuir sua "moeda social". Mesmo que ela se desvalorizasse, eu ainda teria utilidade para ela.

— Você não é mais a antiga Karuizawa. Mesmo sem o Hirata, sua posição atual não mudaria — disse.

— Mas terminar comigo e o Yousuke-kun não é algo que você já tenha pensado antes? — perguntou ela. Suas ansiedades claramente não eram triviais.

— Se seu valor dependesse apenas do seu relacionamento com o Hirata, eu diria para você nunca terminar com ele. O fato de eu não ter dito isso é a minha resposta.

Essa declaração foi mais reconfortante para Karuizawa do que qualquer outra coisa poderia ser. Como ela entendia meu modo de pensar, sabia que eu não mentiria. Se Hirata Yousuke fosse uma peça indispensável para mim, Karuizawa suporia que eu teria ordenado que ela protegesse meus interesses.

A verdade, no entanto, era que eu já havia previsto que Karuizawa queria terminar com Hirata. Na verdade, eu a havia empurrado nessa direção. Meu objetivo era persuadi-la a se desligar do Hirata e se apegar a um novo "hospedeiro": eu. Até então, tudo tinha saído conforme o plano. Embora ela tivesse interrompido meu encontro com Satou, isso acabou fortalecendo meu controle sobre Karuizawa.

— E-Eu entendo. Para ser sincera, eu conversei um pouco sobre isso com o Yousuke-kun. Sobre como prolongar isso provavelmente não é bom, já que é só um relacionamento de mentira. Eu estava hesitando — disse Karuizawa. — Além disso, fazer papel de namorada do Yousuke-kun me dá poder, mas também é… muita pressão.

Que mentirinha fofa.

Eu não tinha problema algum com ela terminar com Hirata, mas do ponto de vista de Karuizawa, isso era um risco. Se eu estivesse na posição dela, teria mantido algum tipo de seguro, por precaução. Teria tentado manter tanto o Hirata quanto eu por perto, caso um de nós se tornasse inútil. Dizem que prevenir é melhor que remediar.

Karuizawa entendia isso também. Ainda assim, se ela estava disposta a abrir mão de seu "seguro", tudo bem. Era melhor concentrar sua atenção em um de nós do que perder tanto Hirata quanto eu por descuido.

— Tenho certeza de que a classe vai ficar muito surpresa quando o terceiro semestre começar — ponderou Karuizawa.

— Imagino que sim.

Como casal, Hirata e Karuizawa eram algo importante. Eram conhecidos até fora da nossa classe. Hirata, em particular, teria potenciais namoradas se formando fila de uma vez.

— Você acha que ele vai sair com outra garota? — perguntei.

— Não sei. Não é como se eu soubesse tanto sobre o Yous… quero dizer, o Hirata-kun. Mas, de certa forma, ele é meio frio como você, Kiyotaka. Ele talvez nem se interesse muito por romance.

— Mesmo você tendo voltado a chamar o Hirata pelo sobrenome, ainda me chama pelo primeiro?

— Ah. S-Sim. Devo usar seu sobrenome? — perguntou Karuizawa, parecendo um pouco desapontada.

— Não era isso que eu queria dizer. Pode me chamar como quiser.

Embora eu não estivesse no mesmo nível de intimidade com todos os meus amigos, alguns me chamavam pelo primeiro nome. Isso pode ser uma boa oportunidade. Parei de andar e me voltei para Karuizawa.

— A partir de agora, vou te chamar de Kei.

— Hã? Quê…?!

— Hã, o quê?

— N-N-Nada! Esquece! Por que vai usar meu primeiro nome, Kiyotaka?!

— Fica meio estranho eu te chamar pelo sobrenome enquanto você usa meu nome — comentei.

Eu não tinha muita certeza de quanta proximidade realmente existia entre nós, emocionalmente falando, mas se Kei queria me chamar pelo primeiro nome, era natural retribuir. De qualquer forma, para todos os outros, nossa relação ainda pareceria um pouco distante — Ayanokoji e Karuizawa. Isso não mudaria.

— A propósito, foi você quem teve a ideia desse negócio todo de encontro duplo, né?

— O-O que você quer dizer?

Eu percebi que tinha acertado em cheio.

— Você interpretou bem seu papel, mas a Satou escorregou em alguns momentos.

— Ah. Então você percebeu, hein? Eu também achei que a Satou-san estava um pouco estranha.

Levei a mão ao bolso e toquei numa pequena sacola de papel.

— Ah, é. Tenho um presente de Natal pra você também.

— Hã? Tá brincando!

— Estou sim, brincando.

— Hã?! Quer levar um tapa?

— Bem, é só um presente comum. Talvez você ache desnecessário, mas aqui está.

Tirei a sacola de papel e entreguei a Kei.

— Espera aí. Uma sacola de farmácia? Você tá zombando de mim? — Kei tirou a fita adesiva com cuidado. Dentro, não havia nenhum acessório elegante, nem um bichinho de pelúcia fofo. — Dois tipos de remédio para resfriado e um recibo?

— Pode jogar o recibo fora.

Ela examinou o papel meticulosamente.

— Ei, espera. A data diz 10h55 do dia vinte e três.

— Depois de comprar esse remédio, eu estava voltando para os dormitórios e acabei vendo você e a Satou juntas no Keyaki Mall. Foi aí que percebi que estavam tramando um encontro duplo. Até então, eu imaginei que você estivesse doente por causa do que aconteceu no terraço. Parece que eu estava errado.

— Então… isso significa que você não me ligou pra saber como eu estava porque—

— Você nem estava usando máscara. Eu conseguia ver que estava saudável.

— S-Se você estava preocupado comigo, então… você podia ter me visitado, ou pelo menos ligado uma vez. Você não precisa fazer tudo desse jeito enrolado. Podia ter confirmado se eu estava bem.

— Não era como se eu pudesse entrar no seu quarto sem ser visto. Te ligar teria funcionado, claro, mas imaginei que você fosse só fingir que estava tudo bem. Você não gosta de mostrar fraqueza pros outros, afinal.

— M-Mas… espera, então você simplesmente desperdiçou dinheiro comprando remédio pra mim? — ela gaguejou.

— O preço não importa. Se você não quiser, posso guardar para outra ocasião.

— Agora eu me sinto uma idiota por ter pensado que você não estava preocupado comigo — disse Kei.

— Eu tive um papel enorme no que aconteceu com você no terraço. Foi cruel. Se você quisesse me dar um soco, eu não resistiria, para falar a verdade. Evitei te contatar porque achei que te estressaria ouvir minha voz. Parece que eu estava errado.

Kei se aproximou de mim.

— Sim, isso mesmo. Não me subestime.

— Então, deixe-me confirmar mais uma coisa, Kei de coração forte.

— O quê?

— Pretendo evitar chamar atenção daqui pra frente. Mas pode haver momentos em que eu precise agir secretamente. Quando isso acontecer, me ajude.

— Não é meio tarde pra pedir isso? Você devia ter falado quando conversamos sobre virar parceiros mais cedo.

— Suponho que você tenha razão.

Depois de um breve silêncio, ela suspirou alto.

— Tá bom. Eu te ajudo. Em troca, me proteja, certo? Se meu relacionamento com o Hirata-kun acabar, pode acontecer um monte de problemas.

— Claro. Eu prometo.

O sol começou a se pôr atrás das nuvens.

— O Natal já acabou, né? — disse Kei.

O que também significava que o nosso primeiro ano de ensino médio estava quase chegando ao fim.

— Acho que devemos voltar? — perguntei.

— É.

Comecei a caminhar. Kei logo me acompanhou.

Kei era a pessoa com quem eu mais havia criado laços ao longo do último ano, e provavelmente ela sentia o mesmo. Ela se tornou indispensável, de alguma forma, antes mesmo de eu perceber. Talvez, se eu almejasse a Classe A e encerrasse esse drama com o conselho estudantil, nós pudéssemos eventualmente ser amigos. Talvez até algo mais.


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