Ano 1 - Volume 7.5
Capítulo 4: O Turbulento Encontro Duplo
O DIA DE NATAL HAVIA CHEGADO. No passado, essa data não significava muita coisa para mim, mas este ano era diferente. Pela primeira vez na vida, eu passaria o Dia de Natal com alguém do sexo oposto. Perguntava-me se Satou ia gostar de sair comigo. Por mais que eu desejasse isso, ainda não nos conhecíamos tão bem.
Eu nunca tivera um encontro de verdade, daqueles de um-a-um. Isso deveria ser significativo, mas havia muita coisa que eu ainda não entendia.
— Ah, vou só deixar as coisas fluírem, eu acho.
Saí do quarto e desci de elevador até o saguão. Se bem me lembrava, Satou e eu iríamos assistir a um filme. Combinamos de nos encontrar às 11h30, mas decidi chegar um pouco mais cedo.
*
Infelizmente, o dia estava nublado, e prometia continuar assim. Cheguei ao ponto de encontro dez minutos antes, mas quando ergui o olhar após checar a hora, vi Satou vindo na minha direção.
Ela parecia um pouco inquieta enquanto observava o entorno. Então nossos olhos se encontraram e ela abriu um sorriso.
— Bom dia, Ayanokoji-kun! — chamou ela, apressando o passo.
Quando se aproximou, não pude deixar de notar que ela cheirava bem.
— Você chegou cedo — observei.
— Você também, Ayanokoji-kun. Será que eu te deixei esperando?
— Nada disso, acabei de chegar.
Um clichê, mas verdadeiro.
— Sério? — Satou inclinou o corpo para frente, me encarando de um jeito brincalhão, como um gato que avista um rato.
Assenti, já me sentindo um pouco sobrecarregado. Ainda faltavam alguns minutos para o horário marcado, mas talvez devêssemos começar logo. Eu estava pronto para irmos embora, mas por algum motivo, Satou voltou a olhar em volta.
— Vamos? — perguntei.
— A-Ah, sim. D-D-Desculpa, só um minuto. — Ela enfiou a mão na bolsa e começou a remexer, murmurando alto o bastante para eu ouvir: — Será que eu esqueci…?
— Você esqueceu alguma coisa? — perguntei.
— Não, desculpa. É que eu estava me perguntando onde meu celular foi parar.
Olhando para a bolsa, notei uma caixa longa e estreita, embrulhada para presente. Virei o rosto discretamente.
— Eu posso ligar para o seu celular — ofereci.
— Ah, obrigada. Você é muito gentil, Ayanokoji-kun.
Ajudar alguém a encontrar o celular não parecia exatamente gentileza excepcional. Qualquer um faria o mesmo.
Satou continuou a falar, ainda meio sem jeito.
— Se bem me lembro, hoje de manhã…
Ela parou. Então deu um gritinho:
— Ahh! Achei!
Boa notícia. Ela ergueu o celular e o colocou no bolso, rindo.
— Desculpa te fazer esperar! Vamos?
Mas então…
— Bom dia, Ayanokoji-kun.
Virando-me, vi Hirata Yousuke, tão radiante e simpático quanto sempre. Acenei de volta. Ao lado dele estava sua "namorada", Karuizawa Kei. Estariam num encontro de Natal? Eu sabia que o relacionamento deles era falso, mas talvez estivessem fazendo isso para manter as aparências. Bem esperto.
— Bom dia, Karuizawa-san — disse Satou.
— Bom dia — respondeu Karuizawa, sorrindo.
— É raro ver vocês dois juntos — comentou Hirata.
— Vocês também estão em um encontro? — perguntei.
— Sim. Eu não marquei nenhum compromisso de Natal, só por precaução — explicou ele.
Então ele deixara o dia livre por causa de sua namorada de fachada, Karuizawa. Hirata sempre colocava os outros antes de si mesmo. Embora eu o admirasse, reconhecia que aquilo não era nada fácil.
— Achei que algum amigo ia te convidar para sair. Não? — perguntei. Ele era popular entre nossos colegas e até entre os veteranos do clube de futebol.
— Não, acho que quiseram nos deixar um tempo a sós — disse ele, olhando para Karuizawa.
Por fora, Hirata e Karuizawa pareciam o casal perfeito. Ninguém queria atrapalhar um casal feliz no Natal. Porém, enquanto esse relacionamento falso continuasse, Hirata não poderia se aproximar de outra garota. Eu sentia uma certa pena dele. Mesmo que gostasse de alguém, nunca faria nada que magoasse ou constrangesse Karuizawa.
Não admira ela ter escolhido ele como seu protetor.
— A Karuizawa-san sempre foi popular entre as meninas da classe, mas eu não sabia que ela era tão próxima da Satou-san — sussurrou Hirata, olhando para as duas com carinho, como se fossem irmãs mais novas.
— Achei que elas saíam juntas com frequência, tipo nos dias de folga. Não é o caso? — perguntei.
— Bom, eu não achava — disse ele.
— É mesmo?
— O que você acha que está acontecendo?
— Sei lá.
De qualquer forma, achei que não deveríamos segurar Hirata e Karuizawa por mais tempo. Chequei meu celular. Já eram 11h40, quase na hora do filme. Deveríamos ter ido ao cinema, mas Satou e Karuizawa estavam entretidas demais conversando, aparentemente se divertindo. Elas cochichavam, então eu não conseguia ouvir nada.
Sentindo-me perdido, encontrei o olhar de Hirata. Ele pareceu perceber o problema e interrompeu Karuizawa:
— Karuizawa-san, talvez seja hora de deixarmos eles se divertirem. Vamos?
— Ei, quando vocês começaram a sair juntos, afinal? — perguntou Karuizawa. Uma pergunta bem natural.
— Hã? N-Não é como se estivéssemos realmente namorando nem nada, certo?! C-Certo, Ayanokoji-kun? — disse Satou, nervosa. Balancei a cabeça.
Karuizawa, porém, nos observava com desconfiança evidente.
— É? Digo… vocês estão num encontro no Dia de Natal. Isso significa que estão saindo, né? Não acha, Hirata-kun?
— Bem… acho que é isso que as pessoas assumiriam, sim.
— Isso, é… hã… eu só convidei o Ayanokoji-kun para sair — disse Satou, mexendo nas mãos, tímida. — T-Tudo bem para você, A-Ayanokoji-kun? Passar o Natal comigo?
— Se eu não quisesse, teria recusado — respondi.
— Heehee! — Satou coçou a bochecha de leve.
— Hmm. Então isso significa que você está interessado na Satou-san, Ayanokoji-kun? — provocou Karuizawa.
— P-Para com isso, Karuizawa-san — disse Satou, corando profundamente. Ela abanou o rosto, como se tentasse esfriar o calor. Mas Karuizawa não parou.
— E por que vocês simplesmente não começam a namorar de uma vez? Natal é época de romance.
— Eu realmente acho que não cabe a nós dizer isso a eles, Karuizawa-san — Hirata tentou acalmá-la gentilmente.
— Tá, tá. Estou sendo intrometida, né? Desculpa, Satou-san.
— Ah, não, tudo bem. Eu não me importo — respondeu Satou.
— Ei, vocês não acham que um encontro duplo seria divertido? — perguntou Karuizawa.
— Um encontro duplo? — respondi. Hirata e eu trocamos um olhar.
— É, é! Eu e o Hirata-kun podemos ir com vocês dois. Não parece divertido? Pensei que não seria uma má ideia sairmos juntos, sabe?
Se tivéssemos combinado isso antes, seria uma coisa. Mas Karuizawa propor um encontro duplo de repente me deixou confuso. Os planos que Satou e eu havíamos feito iriam por água abaixo. Pelo rosto do Hirata, ele sentia o mesmo. Porém, Satou não demonstrou nem um pingo de surpresa.
— Acho que esses dois já têm outros planos — disse Hirata para Karuizawa, mas suas palavras não surtiram efeito.
Ela continuou, imperturbável:
— A Satou-san acabou de me dizer que achou a ideia divertida. Não é?
— É, parece divertido — respondeu Satou. Aparentemente, elas já tinham conversado sobre isso.
Mesmo assim, Hirata parecia preocupado.
— Que tal deixarmos isso para a próxima? Se a gente for fazer um encontro duplo, acho melhor planejar antes.
— Bom, pode ser. Mas justamente por não estar planejado é que fica divertido, não acha? — disse Karuizawa, animada, como se tivesse decidido que o encontro duplo iria acontecer de qualquer jeito.
Diferente de Hirata e de mim, que ficávamos ansiosos sem um plano definido, Karuizawa parecia prosperar no improviso. Talvez ela estivesse buscando um pouco de emoção justamente porque o romance dela era falso? Não tinha tanta certeza.
Eu a conhecia bem o suficiente para duvidar que isso fosse realmente tão divertido para ela. Ainda assim, por que mais ela sugeriria um encontro duplo?
— Lembre-se, é Natal — disse Hirata, com uma expressão preocupada.
— Você não quer ir, Hirata-kun? — perguntou Karuizawa, direta.
— Eu, pessoalmente, estou bem com isso. Mas não seria melhor deixar para Satou-san e Ayanokoji-kun decidirem? — respondeu ele.
Satou lançou para Karuizawa um olhar que parecia dizer "Espero que isso não dê trabalho demais, né?". Fiquei imaginando como ela realmente se sentia sobre o encontro duplo.
— Pode ser meio repentino, mas eu gostaria de tentar… acho — disse ela.
Talvez Satou simplesmente não conseguisse recusar uma proposta vinda de Karuizawa, a abelha-rainha da Classe D. Mas não era isso que parecia.
— O que você acha, Ayanokoji-kun? — perguntou Satou.
Primeiro o bastão passou de Hirata para Karuizawa, de Karuizawa para Satou, e agora de Satou para mim. Não podia simplesmente deixá-lo cair.
— Bom…
Sair com uma garota já era estressante o bastante. Mas um encontro duplo? Para um novato em namoro como eu, parecia assustador. Ainda assim, não queria ser o único a discordar. Supondo que Satou estivesse disposta, eu não deveria objetar.
Mas ainda restavam problemas. Satou e eu planejamos ver um filme, e eu não sabia se isso ainda seria possível, já que talvez não conseguíssemos lugares lado a lado. Ou talvez desistir dos planos fizesse parte dessa tal espontaneidade?
O encontro não estava indo como eu esperava. Ainda assim, não podia dizer que um encontro duplo seria totalmente ruim. Poderiam haver momentos constrangedores de silêncio se eu estivesse sozinho com Satou, mas Hirata e Karuizawa poderiam manter a conversa fluindo. Além disso, embora Haruka tivesse dito que garantiria que Airi não esbarrasse em nós por acaso, isso ainda poderia acontecer. Nesse caso, seria mais natural que estivéssemos em quatro, não apenas eu e Satou.
— Se vocês três estiverem de acordo, não tenho objeções — eu disse.
Karuizawa agiu imediatamente:
— Certo! Para onde vocês dois estavam indo agora, afinal?
Satou pareceu um pouco aliviada. Talvez ela também estivesse nervosa? Talvez estivesse ansiosa por ficar a sós comigo.
— Hm, bem… Ayanokoji-kun e eu planejamos ver um filme — disse ela.
— Aquele que estreou hoje? — perguntou Karuizawa. — Ah, que sorte! Nós também íamos ver. Uau — parece que escolhemos até a mesma sessão! Incrível!
As duas ficaram animadíssimas com a coincidência. Mas eu não pude deixar de notar a expressão tensa da Satou.
— Que coincidência, né, Ayanokoji-kun? — Até Hirata parecia surpreso. Como o filme havia acabado de estrear, era realmente sorte.
— E o que fazemos com os assentos marcados? Não dá para trocar, dá? — perguntei. Era hora de ver se as coincidências continuariam.
— Não, não dá. Deixa eu ver — disse Karuizawa, mexendo no celular.
— E então, Karuizawa-san? — perguntou Satou, espiando.
— Parece que… vamos sentar em lugares diferentes. Paciência. — Karuizawa mostrou os assentos para Hirata. Estávamos em pontos totalmente distintos. Aí as coincidências pararam.
— Ok, acho que está na hora de irmos, Ayanokoji-kun! — disse Satou.
Quando encontramos ela pela primeira vez hoje, Satou parecia tímida e nervosa. Ao reencontrar Karuizawa e Hirata, porém, recuperou sua energia habitual e grudou em mim enquanto caminhávamos. Bem perto.
Os quatro, agora oficialmente em um encontro duplo, seguimos em direção ao cinema. Caminhávamos lado a lado pelo shopping: eu, depois Satou, depois Karuizawa, e por último Hirata.
— Uou. Vocês dois combinam bastante — murmurou Karuizawa, olhando para mim e Satou.
— S-Sério? — perguntou Satou.
— Sim. Quer dizer, vocês parecem um casal que está acostumado a passar o Natal juntos. Sabe, vocês passam uma vibe bem quentinha, fofa — disse Karuizawa.
— Hihi! Ela disse que parecemos um casal, Ayanokoji-kun. Não é meio constrangedor? — perguntou Satou.
— Acho que sim — respondi. Bem, estávamos em um encontro de Natal. Fazia sentido.
— Mas vocês não estão oficialmente namorando, né? — perguntou Karuizawa. — Ou estão, hmm?
— N-Não, não estamos! De verdade. Não é esse tipo de relação! — disse Satou, apressada.
— Reeeealmente? Se estiverem escondendo algo, é melhor contarem — provocou Karuizawa.
Ela obviamente estava brincando, mas Satou não parecia se incomodar. Na verdade, parecia até gostar. No começo era difícil entender, mas quanto mais eu pensava, mais fazia sentido. Se achassem que eu estava saindo com uma das garotas mais bonitas da escola, eu também ficaria constrangido com as provocações… mas, ao mesmo tempo, lisonjeado. Ainda assim, eu duvidava que Satou sentisse algo tão forte assim por mim.
— Isso me lembra, Satou-san. Você ainda não tem namorado, certo? — perguntou Karuizawa.
— S-Sim, é isso mesmo.
Karuizawa não aliviava. Eu escutava metade do que diziam, ocupado pensando em como sobreviver a esse encontro duplo com minha dignidade intacta. Quando percebi, já estávamos no cinema.
— Bom, acho que vamos ter que nos separar um pouco. Não liguem pra gente, vocês dois — disse Karuizawa.
Era isso? Ela simplesmente ia embora? Normalmente eu conseguia prever o comportamento da Karuizawa, mas tanta coisa estava acontecendo que eu não estava entendendo nada. Então, mesmo sendo um encontro duplo, ficaríamos só eu e Satou por um tempo? Não fazia sentido para mim, mas decidi seguir o fluxo.
O problema maior era que eu não sabia o que dizer para Satou. Eu praticamente não sabia nada sobre ela. Tentei juntar algumas informações nos últimos dias, mas não consegui nada. Não tinha conseguido conversar com ela desde antes das férias de inverno. Eu tinha certeza de que ela estava tão perdida quanto eu.
Eu até tinha preparado algumas perguntas genéricas, coisas como comidas favoritas, hobbies e tal. Mas, agora que o momento tinha chegado, todas evaporaram da minha cabeça. Não queria que ela pensasse algo do tipo: "Nossa, esse cara segue exatamente o que os guias de autoajuda da internet mandam fazer."
Enquanto eu sofria pensando no que fazer, meus olhos encontraram os de Karuizawa.
"Você tá bem quieto, né? Não é difícil fazer o tipo silencioso num encontro?"
"Eu não tô fingindo um tipo. Eu realmente não faço a menor ideia do que fazer."
Conseguimos nos comunicar só com esse olhar. Ou talvez eu só estivesse imaginando que era isso que a Karuizawa queria dizer. Os segundos continuaram passando e ninguém falava nada.
— Satou-san, talvez o Ayanokoji-kun não saiba sobre o que conversar? — disse Karuizawa, cortando nosso silêncio como uma flecha.
Satou pareceu aliviada.
— Você gosta de idols, Ayanokoji-kun? — perguntou ela. Talvez também estivesse tentando achar algo para perguntar.
Ela tinha jogado a bola da conversa para mim — uma jogada leve, fácil de receber.
— Idols? Para ser sincero, não conheço muito. Não gosto nem desgosto. E você gosta, Satou? — perguntei.
— Gosto, bastante. Eu gosto das idols do tipo "cool", mas acho que os grupos femininos estão mais na moda agora. Você já ouviu falar de alguns? Tem, tipo, um monte deles.
— É. Estão na TV todo dia. Você quer dizer aqueles grupos que fazem coreografia e músicas originais, né?
— Isso! Eu adoro esse tipo. Tem muitas músicas boas.
— Hm.
Assenti enquanto Satou falava animada sobre idols.
— Ah! E eu amo demais o single de estreia de um grupo! Eu posso te emprestar o CD — disse Satou.
— Obrigado.
Eu tinha cometido um erro. A conversa ia desmoronar se eu só respondesse "hm" e "obrigado". Satou acabaria fazendo todo o trabalho. Ela havia me jogado a bola; eu precisava devolvê-la.
— Que tipo de música você costuma ouvir? — ela perguntou.
Desta vez, eu precisava mandar a bola de volta direito. Que tipo de música eu ouvia? Era uma pergunta simples, mas a resposta ficou presa na minha garganta. Se eu revelasse meus gostos e hobbies, como ela reagiria? Quero dizer, se eu mencionasse Beethoven ou Mozart, seria um desastre. Por outro lado, falar que eu gostava de "sons naturais", como chuva ou pássaros cantando, ia parecer bizarro.
Eu não deveria falar sobre meus gostos. Ela queria que eu falasse de música atual, né?
— Teve aquele filme super popular este ano, né? — perguntei.
— O anime?
— Ahn, sim. Aquele de romance. Foi bem emocionante, né?
— Eu tenho ouvido as músicas daquele grupo… sabe, o grupo que cantou o tema do filme. Esse tipo de coisa. — Eu não lembrava o nome da banda, mas tinha escutado aquela música tema centenas de vezes. Esperava que isso mantivesse a conversa de pé.
— Ah! Eu conheço essa banda! Eu também gosto muito deles! — disse ela.
Eu tinha devolvido a bola, e Satou a recebeu. Porém, não podíamos ficar nesse assunto por muito mais tempo.
— Você realmente sabe bastante sobre eles — Satou comentou.
— Você acha? Eu só sei o básico.
As meninas eram muito melhores em conversar do que eu imaginava. Talvez fosse por causa daquelas expectativas antigas sobre papéis de gênero.
— Você não faz parte de nenhum clube, né? Antes você não era do atletismo? — perguntou Satou.
Esse assunto era fácil de entender; provavelmente por causa da minha participação no revezamento durante o festival esportivo.
— Não, nunca participei de nenhum clube — respondi.
Eu fazia parte do clube "ir para casa direto depois da aula" desde que me conhecia por gente.
Ainda assim, minhas habilidades de corrida claramente impressionaram Satou.
— Sério?! Mesmo sendo tão rápido?! Isso é incrível! Você foi até mais rápido que o presidente do conselho estudantil! — disse ela, animada.
Talvez por causa da empolgação de Satou, Karuizawa entrou na conversa:
— O presidente do conselho estudantil não era só lento? Tipo uma corrida entre duas lesmas — provocou.
— Eu não acho isso nada verdade, Karuizawa-san — respondeu Satou. — Os dois eram muito rápidos.
— Hmm. Difícil de acreditar. O Ayanokoji parece alguém que seria horrível numa briga. Além disso, ele é um cara tão frio, sabe? Tipo… se alguém próximo dele pegasse uma gripe forte, ele nem iria visitar — disse Karuizawa, com a voz cheia de sarcasmo.
Ela tinha mencionado briga totalmente do nada. Mas agora eu entendia o motivo da irritação dela. Karuizawa estava ressentida porque achava que eu não me importava com ela. Depois do horror que ela passou com Ryuen no telhado, ela poderia ter ficado muito doente. Talvez ela tivesse sugerido o encontro duplo justamente para atrapalhar meus planos.
— Eu não vejo ele assim. Eu acho que o Ayanokoji-kun é uma pessoa gentil — disse Satou.
— Hã? Sério?
— Eu também acho o Ayanokoji-kun gentil — disse Hirata.
— Agora parece até que vocês estão se juntando contra mim — reclamou Karuizawa. Apesar do tom irritado, eu tinha a sensação de que ela estava me provocando justamente para que Satou viesse em minha defesa. Como se quisesse nos empurrar para virarmos um casal de verdade.
— E-Eu… é que… sabe? É… — Satou começou a gaguejar. Ela não estava mais sorrindo. Parecia querer dizer algo, mas não conseguia formular.
— H-Hm, tem algo que você gostaria de me perguntar, Ayanokoji-kun?
Bom, a conversa tinha sido bem unilateral por um tempo. Era justo que eu participasse.
— Sabe como não podemos entrar em contato com ninguém de fora enquanto estamos na escola? Isso não te incomoda? — perguntei.
Satou pensou por alguns segundos.
— Incomoda, sim. Eu tenho me preocupado com várias coisas — respondeu. Depois de mais um momento, continuou: — No ensino fundamental, eu tinha um gato. Acho que minha mãe está cuidando dele por mim, mas não poder vê-lo tem sido bem difícil.
Fazia sentido que ficar longe da família fosse difícil para a maioria das pessoas. Não poder ver um animal de estimação querido também devia ser duro — quase como um pai que não vê o filho.
— Não ver seu gato por três anos realmente parece difícil.
— Você tinha algum pet, Ayanokoji-kun?
— Uh, não. Eu queria um cachorro, mas meus pais não permitiram.
Isso era verdade.
— Entendi. Falando em cachorros, eu vi um filhotinho no campus outro dia — disse Satou.
— Hã? Sério? — perguntou Karuizawa. Ao que parecia, ela havia decidido que já era o suficiente de conversa entre Satou e eu. Ela realmente tinha prestado atenção em tudo.
— Sim! Era o cachorrinho de alguém — respondeu Satou. — Era tão fofo!
— Já que os alunos não podem ter pets, provavelmente era de algum funcionário ou professor — disse Hirata. Era verdade; um cachorro não andaria solto pelo campus.
— Seria tão legal ter um pet — disse Karuizawa. — Seria a melhor coisa do mundo.
— Concordo — respondeu Satou. — Seria ótimo ter uma pet shop por aqui.
— Por que a gente não pode ter animais, afinal?
— Né? Não faz sentido nenhum!
As duas começaram a se animar, enquanto Hirata e eu seguíamos em silêncio. Embora animais ajudassem muito na saúde emocional, havia vários motivos para a escola não querer que eles ficassem nos dormitórios. Mesmo um por pessoa já significaria centenas no prédio. Além disso, se todo mundo deixasse o pet sozinho metade do dia para ir às aulas…
Mas as garotas não estavam interessadas em lógica naquele momento. Estavam mais ocupadas com o fato de que cachorros e gatos eram fofos.
Eu estava sendo um mala, e meio irracional. Até eu sabia disso. Que pensamento idiota. A lógica não era o ponto ali. Se eu lembrasse às meninas que não podiam ter pets, só estragaria o clima.
— Eu gostaria de ter um coelho. Eles são relativamente fáceis de cuidar, e são dóceis — disse Hirata, entrando na conversa com naturalidade. As duas sorriram. Homens que sabiam conversar sobre qualquer assunto sempre faziam sucesso.
Antes que eu percebesse, chegou a hora de mudar de assunto. Enquanto pensava no que dizer, meus olhos encontraram os de Satou.
— E-Ei, Ayanokoji-kun. É que…
Satou tinha estado bem um minuto antes, mas agora voltava a gaguejar. Seus nervos sempre pareciam fraquejar quando ela realmente queria perguntar algo. Será que ela era assim com todo mundo, ou apenas com o sexo oposto? Ela parecia pronta para falar, mas fechou a boca de novo. Provavelmente era uma pergunta difícil.
— Então, qual é o seu tipo, Ayanokoji-kun? Em garotas, quero dizer? — Antes que Satou conseguisse formular, Karuizawa lançou a pergunta.
— T-Também estou curiosa — disse Satou, aliviada. Talvez fosse exatamente o que ela queria perguntar. Nesse caso, talvez esse encontro duplo não tivesse sido tão coincidência assim. Eu já tinha essa suspeita desde o começo.
De qualquer forma, eu precisava responder. Que tipo de garota eu gosto, hein?
— Isso é complicado — respondi. Os olhos de Satou brilharam, mas Karuizawa me lançou um olhar cortante. Já Hirata parecia se divertir.
— Acho que… alguém animada? — respondi por fim. No instante em que falei, percebi que não era exatamente a palavra certa. Muitas — talvez a maioria — das garotas poderiam se considerar "animadas". Satou e Karuizawa também não pareceram muito satisfeitas.
— Hmm. Não achei que você fosse do tipo que gosta de garotas assim, Ayanokoji-kun — comentou Karuizawa.
Seriam Satou e Karuizawa do tipo animado? Com certeza não eram tão fechadas quanto Horikita. Mas Kushida e Ichinose também eram animadas. Certo?
— Espera, você acha que só existem dois tipos de garota, Ayanokoji-kun? As animadas e as quietas e gentis? — acrescentou Karuizawa.
— É isso mesmo? — perguntou Satou.
— Não, não é. É só que eu sou relativamente quieto, então achei que seria legal namorar alguém meio oposto. Se me expressei mal, retiro o que disse — falei para Satou e Karuizawa. Tinha a sensação de que podia tê-las ofendido.
— Então… o que está rolando entre você e a Horikita-san? Qual é a dela? — perguntou Karuizawa.
Ainda com o interrogatório. Eu queria dizer que não era da conta dela, mas a expressão de Satou tinha mudado visivelmente. Talvez fosse outra pergunta cuja resposta ela também queria saber.
Poucas pessoas entendiam meu relacionamento com Horikita, mas eu sabia que Karuizawa entendia. Por isso, ela estava perguntando por causa de Satou. Se Satou tinha alguma afeição por mim, deve ter confidenciado isso a Karuizawa, resultando no encontro duplo. Em outras palavras, Satou deve ter pedido a ajuda de Karuizawa, e ela estava cavando informações, ajudando no que podia.

Não sabia qual das duas tinha tido a ideia do encontro duplo, mas presumi que Karuizawa tivesse planejado os detalhes mais elaborados.
— Não tem nada rolando entre mim e a Horikita. Digo… nós dois vamos passar o Natal separados, cada um fazendo suas coisas.
Como dizem, a prova está nos fatos.
— Mas isso não significa necessariamente que não esteja rolando nada, né? — perguntou Karuizawa. Ela realmente não ia largar esse assunto. — Vai ver você gosta da Horikita-san, mas ela não gosta de você. Talvez você não tenha coragem de chamar ela pra sair. Hein, Ayanokoji-kun?
— Suponho que seja possível.
Quero dizer, qualquer coisa era possível.
— E-E-Então… sair comigo foi um incômodo? — perguntou Satou, nervosa.
— Como eu disse, se eu não quisesse, teria dito não.
— Entendi. Fico aliviada em ouvir isso.
— Mas existe total aquele tipo de cara que tenta manter as opções abertas quando a garota que ele realmente gosta não gosta dele. Sabe, ele tem outra garota como reserva, caso o crush não dê certo — disse Karuizawa.
Era uma coisa bem desagradável de se dizer. Se eu respondesse algo como "Eu pareço alguém com tanta malandragem assim?", ela provavelmente diria "Sim", e eu estaria encrencado. Será que ela estava me pressionando daquele jeito por causa da Satou? Eu me sentia como se estivesse tentando atravessar um rio cheio de crocodilos.
— Eu pareço alguém com tanta malandragem assim? — perguntei.
— Parece, sim.
— Ei.
Como eu pensei… pulei no rio e fui devorado instantaneamente.
— Talvez você esteja perdidamente apaixonado pela Horikita-san, mas passeando com a Satou-san como se ela fosse uma opção de consolação, né? — disse Karuizawa. Agora ela só queria me fazer parecer um idiota. Talvez ela não quisesse que as coisas dessem certo entre mim e Satou.
— Eu não acho que o Ayanokoji-kun seja o tipo de pessoa que faria isso — disse Satou. — Né, Ayanokoji-kun?
— Não sou tão esperto assim — respondi.
No momento em que falei, Karuizawa mudou o ângulo do ataque.
— Você não é bem próximo da Kushida-san também, Ayanokoji-kun?
— S-Sério?! — Satou deu um pulo, como se nunca tivesse reparado com quem eu andava.
— Acho que a Kushida se dá bem com todo mundo — respondi. Os crocodilos já não estavam mais só no rio. Eles tinham saído da água e estavam voando atrás de mim.
— Mas não é verdade que a maioria dos garotos é apaixonada pela Kushida-san? — comentou Karuizawa.
— O que você acha, Hirata? — perguntei. Eu precisava que ele me salvasse daqueles crocodilos voadores.
— A Kushida-san é bastante popular, mas não acho que todos necessariamente queiram namorar com ela. De qualquer forma, duvido que o Ayanokoji-kun tenha sentimentos por alguém em particular — respondeu ele.
Hirata, o salvador. Ele entrou em cena e resolveu todos os meus problemas, exatamente como eu esperava.
— Se o Yousuke-kun está dizendo, então deve ser verdade — disse Karuizawa. Ainda parecia insatisfeita, mas recuou. As palavras de Hirata tinham peso demais para serem ignoradas.
Vai, vai, Hirata.
— Ei, vocês quatro. Um minuto? — Estávamos prestes a entrar no cinema quando alguém nos chamou. Viramos para olhar. — Você é o Ayanokoji, certo?
— Sou, sim.
Eu ia perguntar quem ele era, mas as palavras travaram. Havia um olhar afiado em seus olhos e um algo a mais na sua presença. Já o tinha visto em várias ocasiões. Provavelmente não existia aluno naquela escola que não conhecesse Nagumo Miyabi, do segundo ano, Classe A.
Vários alunos estavam com Nagumo — provavelmente amigos. Entre eles, membros do conselho estudantil: os secretários Mizowaki e Tonokawa, e o vice-presidente Kiriyama. Havia também uma aluna do primeiro ano: Ichinose Honami, da Classe B. Quando notei sua presença, ela apenas me deu um sorriso gentil.
Com a chegada de veteranos tão importantes, a atmosfera do nosso encontro duplo ficou tensa. Os membros do conselho estudantil não prestaram nenhuma atenção em mim, continuando suas conversas.
Uma das veteranas, porém, olhou para mim. Eu a reconheci — era a garota que tinha deixado cair o pingente do celular quando nos cruzamos algum tempo atrás.
— Você é do primeiro ano, né? Amigo do Miyabi?
— Nunca falei com ele, na verdade — respondeu Nagumo.
— Você não lembra? Ele foi o aluno que correu contra a Horikita-senpai no revezamento.
— Ah, tá. Sabia que reconhecia de algum lugar.
— Ei, podemos conversar um minuto? Você tem um tempo, né? — perguntou Nagumo.
Era óbvio que nós quatro estávamos juntos ali. Mesmo assim, ser chamado por um veterano — e ainda por cima o novo presidente do conselho estudantil — era algo que eu não podia recusar. Satou encolheu um pouco, e Karuizawa pareceu um tanto irritada.
Hirata deu um passo à frente. Provavelmente era o único no nosso grupo que podia encarar Nagumo. Ainda assim, ele não podia simplesmente dizer "fica pra outra hora" para um veterano. Eu me perguntava como ele resolveria aquilo.
— Bom dia, Nagumo-senpai.
— Oi, Hirata. Como anda o futebol?
Antes de assumir o cargo de presidente do conselho estudantil, Nagumo jogava no clube de futebol. Hirata claramente pretendia usar isso a seu favor.
— Estamos dando o nosso melhor. Você devia treinar com a gente algum dia. Com licença, senpai, mas o Ayanokoji-kun fez algo de errado? — perguntou Hirata.
— Hein? Ah, não. Eu não incomodaria um kouhai meu, incomodaria? Só queria conversar com ele, só isso — disse Nagumo, rindo. Mas pelo olhar dele, parecia algo mais sério. Se eu não interviesse logo, podia piorar.
— Posso ajudar com alguma coisa? — perguntei, rígido e formal.
— Ah, relaxa. Bom, acho que isso é pedir demais. Vocês vão na frente — disse Nagumo aos amigos. Talvez achasse que a multidão me intimidava.
— Se apressa, hein?
— Pode deixar.
Nagumo despachou sua comitiva. Quando os vimos se afastar, ele voltou a falar:
— A gente vai pro karaokê. Querem vir com a gente depois?
— Bom, eu—
— Tô brincando. Se alguém como você fosse junto, ia estragar o clima — respondeu com uma risada de deboche. — Então, você é o aluno em quem Horikita-senpai tá tão fixado. Só tô seguindo os rumores.
— Está falando da corrida de revezamento, Senpai? — perguntou Hirata, entrando na conversa com maestria.
— É. Você viu também, né?
— Sim. Eu já sabia que o Ayanokoji-kun era muito rápido. — Mentira, mas Nagumo não tinha como saber. — Além da corrida, o que fez você reparar nele?
— Por fora, ele é um aluno comum, tirando a velocidade. Hmm — disse Nagumo, com expressão séria. Ele agarrou meu braço.
Satou, Karuizawa e Hirata ficaram chocados. Parecia que estávamos prestes a brigar. Até Hirata, que conhecia Nagumo, congelou.
— Presidente Nagumo, você é totalmente maluco — riu Karuizawa, claramente tentando aliviar o clima.
— Ah, te assustei? Foi mal. Minha culpa — respondeu Nagumo, simpático com ela, mas sem soltar meu braço. — Eu realmente respeito o instinto do Horikita-senpai — disse para mim. — Se ele vê algo em você, deve ter algo especial aí.
— Você deve confiar muito na opinião dele. No presidente do conselho, quero dizer — respondi.
— Ex-presidente. Depois que ele se formar, ainda tenho um ano inteiro aqui. Não quer brincar comigo?
Eu sabia que a relação entre o Horikita mais velho e Nagumo era tensa, mas não imaginei que fosse a ponto de Nagumo me atacar preventivamente. Achei que ele fosse do tipo que ficava satisfeito só por ver os outros felizes. Mas parecia que isso não era mais verdade. Ele queria demonstrar força, como um aviso.
— Posso perguntar uma coisa? — falei. Até então, eu tinha sido completamente passivo. Nagumo sorriu. — Quando virou presidente do conselho estudantil, você disse que as coisas iam ficar mais interessantes na escola. Que alunos talentosos iriam subir ao topo. O que você está planejando?
Já que eu estava ali mesmo, podia perguntar.
— Imagino que vocês, do primeiro ano, tenham feito umas provas bem merdas até agora. Eu já tô de saco cheio desses joguinhos banais. E se tivéssemos um exame especial baseado em um jogo online famoso? Não acha que seria bem mais interessante? — perguntou.
— Um… jogo online? — pisquei, surpreso.
Nagumo riu.
— Não leva tudo tão a sério. — Soltou meu braço, ainda rindo, mas com olhos completamente frios. — Foi mal interromper o encontro de vocês. Até mais.
Com isso, Nagumo seguiu atrás dos amigos rumo ao karaokê. Ficamos todos em silêncio por um momento.
— Ufa… Pois é, aquilo foi intenso, né? — disse Hirata, aliviado que nada tivesse acontecido.
Satou, que estava completamente muda até agora, explodiu de empolgação.
— I-Isso é incrível, Ayanokoji-kun! Que–quem diria que o presidente do conselho pensa tão bem de você!
— Não é grande coisa — respondi, mas Satou continuou brilhando de admiração.
— Sei lá. Tipo, a única qualidade do Ayanokoji-kun é que ele corre rápido — disse Karuizawa, sorrindo para Hirata. — O Yousuke-kun é cem vezes mais incrível. Ele é super rápido, o mais rápido, aliás. E é muito inteligente também. Se o Nagumo fosse reparar em alguém, seria no Yousuke-kun, né? Isso tá bem estranho.
— Eu acho mesmo que o Hirata-kun é incrível, mas… mas… mas eu não acho que ele venceria o Ayanokoji-kun! — disse Satou, gaguejando.
Era bacana ela acreditar em mim, mas não precisava exagerar. Além disso, ela só ia deixar a Karuizawa irritada.
— O Yousuke-kun não venceria ele? Hã? As notas do Ayanokoji-kun não são péssimas comparadas às do Yousuke-kun? — disse Karuizawa.
— I-Isso é… Ele ainda é mais inteligente que eu! — disse Satou.
Ela não estava errada — mas eu preferia que ela não anunciasse isso com tanto orgulho.
— Não é ótimo, Ayanokoji-kun? A Satou-san gosta tanto assim de você. Mas é estranho você receber tanta atenção só porque corre rápido — comentou Karuizawa.

— Acho que sim — respondi. Ah, Karuizawa. Minha maior fã.
Eu tinha a nítida sensação de que ela ia ser assim o dia inteiro.
*
O cinema estava ainda mais cheio do que no outro dia, o que fazia sentido, já que haviam consertado o problema no equipamento e lançado alguns filmes novos muito esperados. Eu não vi Ibuki. Talvez ela não estivesse interessada em uma animação americana, ou talvez estivesse apenas evitando a multidão, planejando ver o filme mais tarde.
Todos pegaram seus ingressos e entramos.
— Ah, é mesmo… Karuizawa-san, você pode vir comigo ao banheiro? — pediu Satou.
— Claro. Mas o filme vai começar logo, então vamos rápido.
Satou arrastou Karuizawa para o banheiro, deixando-me com Hirata.
— Como posso dizer isso? Mandou bem — disse Hirata. — Karuizawa-san foi a primeira colega que eu tentei salvar, sabe?
Ele estava desperdiçando o Natal em um encontro falso com Karuizawa. Será que ele realmente tinha sentimentos por ela? Não. Sua expressão neutra deixava claro que não era o caso. Tudo que eu via era Hirata Yousuke, alguém que sempre colocava os outros antes de si mesmo.
— Sou realmente grato pelo que você fez por Karuizawa-san, Ayanokoji-kun.
— Eu não fiz tanto assim.
— Fico feliz que você e Karuizawa-san tenham ficado no mesmo grupo durante o teste do navio. Agora ela consegue se manter firme sozinha, sem mim.
— Mas ainda não completamente, certo?
— Quer dizer porque eu ainda estou fingindo ser o namorado dela?
— É.
Karuizawa havia crescido. Estava mais forte e mais resistente, e Hirata percebia isso. Mas ela só estaria realmente livre quando se separasse dele.
— É só questão de tempo, acho — disse Hirata. — Mal conversamos hoje em dia. Tirando os planos dela para hoje, acho que ela já não precisa mais de mim.
— Isso pode soar direto demais, mas você está realmente bem com desperdiçar seu Natal com isso? — perguntei.
— Sim. Afinal, eu sou o namorado da Karuizawa-san. Digo, eu também nunca quis namorar outras garotas. E provavelmente não vou querer no futuro.
— Sério?
— Veja bem, Ayanokoji-kun… se todo mundo está feliz, então eu estou feliz.
— Então você não precisa de romance?
— Não preciso. Pelo menos é assim que eu me sinto agora.
Hirata era abençoado com boa aparência, boa personalidade e talento de sobra. Que desperdício.
— E você, Ayanokoji-kun? Quer namorar a Satou-san? — ele perguntou.
— Bom… — Na verdade, não. Mas dizer isso seria como negar o encontro inteiro. — Não sei. Não posso dizer ainda.
— Talvez não seja meu lugar dizer isso, já que eu mesmo acabei de falar que não preciso de romance… mas acho que poderia ser bom você namorar alguém, Ayanokoji-kun.
— O quê, vai mandar aquele papo de "você nunca teve namorada, melhor começar logo"?
Hirata riu.
— Hahaha! Não, não. Quero dizer, é verdade que você não parece ter tido um relacionamento antes. Mas não acho que seja por impopularidade. É porque você nunca encontrou alguém que gostasse romanticamente?
— Honestamente? Os dois. Nunca fui popular e nunca encontrei alguém.
A Sala Branca não proibia especificamente relacionamentos românticos. Simplesmente não havia como romance florescer lá. Nada de brincadeiras, feriados, diversão — tudo isso era inexistente. Estávamos sendo monitorados constantemente, exceto no banheiro e no banho. Não dava para se aproximar de alguém assim.
— Mas não é cansativo? Sempre se colocar em segundo lugar? Sacrificar-se pelo bem da classe? — perguntei.
— Cansativo? Pelo contrário, é muito mais cansativo ver a classe em desordem. Sinceramente, minha ansiedade diminuiu muito desde que entrei nesta escola.
Era verdade. Lá na ilha, quando a classe quase desmoronou, eu vi Hirata perto do ponto de ruptura. Agora que a Classe D estava se unindo, ele claramente havia melhorado.
Hirata Yousuke era um dos verdadeiros líderes da Classe D. Indispensável… mas perigosamente frágil. O teste da ilha acabou bem no final, mas eu não conseguia prever o que aconteceria com Hirata se a classe entrasse em colapso de novo… por causa da Kushida, por exemplo. No fundamental, ela havia destruído sua classe inteira. Mesmo agora, trabalhava contra Horikita e deixava claro que destruiria sua própria classe se julgasse necessário.
Se isso acontecesse… Hirata poderia quebrar. E se o coração da classe parasse de bater, quem saberia o que viria depois? Como as duas garotas não haviam voltado ainda, mudei de assunto.
— O quanto você sabe sobre o presidente do conselho estudantil, Nagumo, Hirata? — perguntei. Afinal, eles haviam sido do mesmo clube.
— Não muito, na verdade. Fora do clube, quase não interajo com ele. E desde que ele virou presidente do conselho estudantil, só nos cumprimentamos no corredor.
— Então… qual é a sua impressão dele?
— Acho que sempre o considerei um veterano interessante. Ele introduziu ideias ousadas e empolgantes, até mesmo para os treinos de futebol. Nem sempre funcionavam, mas eram fascinantes, mesmo quando deixavam o treino especialmente puxado. — Hirata riu. — De qualquer forma, ele sempre obtém resultados. Pelo que dizem, ele até liderou o time à vitória em torneios importantes.
— Então ele é o veterano perfeito, hein?
— Bem, eu não diria isso. — Hirata balançou a cabeça. — O caminho até a glória é difícil. Bastante gente saiu do clube.
— Nunca ouvi rumores sobre isso.
— Provavelmente porque esses alunos não estão mais aqui. Os veteranos do segundo ano que bateram de frente com Nagumo-senpai saíram do clube… e abandonaram a escola.
— Isso não é extremo demais?
— Eu não sei os detalhes… nem até que ponto Nagumo-senpai esteve envolvido.
Talvez Nagumo não fosse o único motivo pelo qual os alunos desistiram. Talvez tivessem razões pessoais. Mas algo me incomodava — o que o irmão de Horikita havia dito antes, sobre Nagumo remover quem ficasse no caminho.
Nagumo era a luz, e aqueles que se opunham a ele eram sombras. Ele queria erradicar completamente essa escuridão. Mas não era tão simples. Onde há luz, há sombras. Não importa quantas você elimine… sempre surgem novas.
— Você vai entrar para o conselho estudantil, Ayanokoji-kun? — perguntou Hirata. Uma dedução razoável, dado o rumo da nossa conversa.
— Não, não vou. — Fiz questão de deixar muito claro. Mesmo que Horikita rejeitasse no fim das contas, eu definitivamente não entraria. Isso seria muito mais do que um pequeno favor — teria um impacto enorme na minha vida. Tenho certeza de que poderia colocar a Karuizawa no meu lugar como uma espécie de marionete, se chegasse a isso.
Ela não era a melhor candidata, porém. Eu precisava de alguém que obedecesse minhas ordens sem questionar, que fosse talentoso o bastante para entrar no conselho estudantil por mérito próprio, e cuja presença lá não parecesse estranha. Quase ninguém da nossa classe atendia aos três critérios.
— Entendo. Acho que você se sairia muito bem se entrasse, Ayanokoji-kun.
— Quem deveria dizer isso sou eu, Hirata. Você tem perfil de conselho estudantil.
— Eu não sou um bom encaixe. Além disso, não quero largar o clube.
Ele realmente gostava de futebol.
Se Hirata entrasse no conselho estudantil, eu teria mais uma carta na manga. Mas eu não iria pressioná-lo. Eu ainda estava satisfeito atuando no segundo plano, pegando tudo que viesse na minha direção.
— Bom… deixando o conselho estudantil de lado, provavelmente teremos um período difícil a partir do mês que vem, não é? — disse Hirata.
— Quer dizer porque a escola vai nos elevar para a Classe C?
— É. A e B vão ficar cautelosas com a gente, e a nova Classe D vai tentar nos derrubar. Se errarmos, podemos voltar a ser Classe D já em fevereiro.
Era natural estar apreensivo. A pontuação das classes subia e descia o tempo todo. Até um erro trivial poderia concretizar os temores de Hirata.
— Mas acho que todos querem chegar à Classe A — disse Hirata.
— Acha que eles ainda vão querer isso quando perceberem o quão árduo é?
— Esse é exatamente o problema. Mirar o topo exige muito da classe.
Hirata ia continuar, mas as garotas nos chamaram.
— Desculpa fazer vocês esperarem, Ayanokoji-kun!
Karuizawa e Satou voltaram, interrompendo a conversa. Como o filme ia começar, seguimos para a sala de exibição.
*
Normalmente eu não assistia filmes animados, mas aquele superou minhas expectativas. Os animais eram surpreendentemente expressivos, e a história, embora simples, era emocionante. Saí do cinema com Satou, que segurava firme o suco que tinha comprado.
— Foi muito bom! — ela exclamou.
Eu não pude deixar de concordar. E eu já estava começando a ficar com fome — com timing perfeito. Hirata e Karuizawa saíram um pouco depois de nós, e seguimos apressados para nossa reserva de almoço.
Enquanto caminhávamos, Satou retomou a conversa:
— Ei, hã… Ayanokoji-kun. Você se importa se eu te perguntar uma coisa meio… insensível?
Talvez porque nós dois tivéssemos gostado do filme, Satou caminhava mais perto de mim do que antes. Não era só proximidade física. A distância emocional entre nós parecia ter diminuído meio passo.
— Pode perguntar.
Se eu pudesse responder, responderia.
— Eu também tenho uma pergunta! — Mesmo com conversas separadas, Karuizawa se meteu de novo.
Hirata falou também:
— Por que não fazemos assim? Cada um faz uma pergunta por vez.
Hmm. Não era uma má ideia. Eu poderia perguntar ao Hirata algumas coisas que estavam na minha cabeça há tempos.
— Fechado! Eu começo — disse Karuizawa. Ela imediatamente olhou para mim. — Você já saiu com alguém antes, Ayanokoji-kun?
Hirata tinha me perguntado algo parecido mais cedo. Para ser exato, ele não perguntou — ele deduziu a resposta. Difícil acreditar que o assunto surgira duas vezes no mesmo dia. Não era confortável, mas Karuizawa e Satou me encaravam.
— No momento, não.
Tentei manter a resposta vaga. Tinha a sensação de que Karuizawa só queria me provocar.
— Em outras palavras, sua idade é igual ao número de anos sem namorada — concluiu Karuizawa.
Bem direta.
— Sabe, Ayanokoji-kun, essa é a resposta exata que um cara impopular daria — ela provocou.
— Sério? Mesmo que eu tivesse tido uma namorada, no momento eu não tenho — respondi.
— Então já teve?
— Bom… não.
— Eu disse! — Karuizawa vibrou, quase pulando.
Satou também parecia contente.
— Não acho isso ruim. Tipo, se você fosse obviamente impopular, que nem o Yamauchi-kun ou o Onizuka-kun, aí tudo bem. Mas no seu caso parece só que você não tem pressa. Só isso. Né, Ayanokoji-kun?
— Você entende bem o Ayanokoji-kun, Satou-san.
— Eu queria entender, mas ainda não sei quase nada sobre ele. Por isso queria fazer umas perguntas. Ei, hã… Ayanokoji-kun, o que você gosta mais? Garotas de cabelo comprido ou cabelo curto? — Satou perguntou.
Perguntas bem diretas: o tipo de garota que eu gostava, se eu tinha namorada, e agora o tipo de cabelo. No conjunto, pareciam tentar montar a imagem de uma garota específica.
— Não me importo muito. Se combina com a garota, tanto faz — respondi.
— Resposta chata — retrucou Karuizawa. Ela adorava apontar meus defeitos.
— Eu sinto o mesmo. Seja garoto ou garota, se combina, não vejo problema — disse Hirata, entrando para me ajudar.
Karuizawa sorriu para ele.
— Para ser sincera, eu penso igual. Algumas meninas mudam o cabelo para agradar o namorado, mas é inútil se não combina com elas. Certo?
Ela sempre apoiava as opiniões do Hirata em público. Ainda assim, aquilo estava ficando ridículo. Se Karuizawa queria juntar Satou e eu, por que fazia tanto esforço para me pintar mal?
— Acho ótimo você não ligar para cortes de cabelo e tal! — disse Satou.
Longe de me ver de forma negativa, os olhos dela brilhavam. Karuizawa a encarou com algo como respeito. Por mais que tentasse me diminuir, Satou me levantava de novo.
— Ei, Hirata. Você tem noção de o quanto é popular? — perguntei.
Karuizawa me lançou um olhar afiado. Satou fez uma expressão estranha.
— Você devia fazer perguntas para a Satou-san, não para o Yousuke-kun — reclamou Karuizawa.
— Isso mesmo. Parece até que o Ayanokoji-kun e o Hirata-kun vão pedir um ao outro em casamento — brincou Satou.
— Certo, mas… — murmurei.
Como Satou não conhecia toda a minha longa história com Karuizawa, eu não podia simplesmente começar a falar com ela. Ainda era difícil para mim puxar conversa com Satou, já que eu não a conhecia muito bem. Por isso, recorri a Hirata. Não importava quão delicada fosse a situação, Hirata saberia lidar. Além disso, havia coisas que eu queria saber sobre ele.
— Pode me perguntar qualquer coisa, Ayanokoji-kun — disse Satou.
— Vamos ver…
Enquanto eu lutava para escapar daquele pesadelo, chegamos ao restaurante. A conversa cessou, para minha imensa satisfação. Como Satou tinha feito uma reserva antes, fomos guiados imediatamente até nossos assentos. A mesa tinha toalhas de mão e hashis descartáveis… para quatro pessoas.
— Hã? São quatro? — A reserva era para dois. Deveria ser apenas Satou e eu.
— Ah, eu perguntei sobre esse lugar para a Satou-san quando fomos ao banheiro. Pedi para acrescentarem mais dois lugares. Né, Satou-san? — disse Karuizawa.
— S-Sim.
— Você realmente sabe lidar com isso, hein? — falei.
— Ah, acho que sim. Quando se trata dessas coisas, tenho bastante experiência. Pode-se dizer que sou uma veterana endurecida pela batalha — disse Karuizawa.
"Mentira", eu a repreendi silenciosamente com os olhos.
Ela devolveu o olhar, fulminante. "Não venha com essa, Kiyotaka. Você nunca saiu com ninguém na vida!" Seus olhos diziam tudo.
— Tem algo que você queira perguntar para a Satou-san, Ayanokoji-kun? — insistiu Karuizawa. Pelo visto, eu não escaparia daquela conversa.
— O que você costuma fazer nos seus dias de folga? — perguntei.
Karuizawa reagiu com choque escancarado.
— Sério? É isso que você consegue perguntar?
Até Hirata pareceu confuso com a irritação que emanava de Karuizawa naquele momento. Provavelmente ela se perguntava por que eu não estava usando nenhuma das informações que ela havia me ajudado a reunir sobre Satou. No entanto, eu não tinha pesquisado com a intenção de usá-las para fazer o encontro dar certo ou algo assim. Eu só queria saber mais sobre Satou como pessoa. Só isso.
— Tudo bem, Karuizawa-san. Fico feliz que o Ayanokoji-kun tenha me perguntado alguma coisa — disse Satou, sorrindo. — Hmm. Bem, eu gosto de sair com amigas, acho. Ficar sozinha é meio chato.
Ela provavelmente falava sobre seu grupo de amigas. Consigo imaginá-las perfeitamente andando juntas.
— Mas, às vezes, gosto de ler algumas coisas sozinha. Como design de moda, por exemplo — continuou Satou, meio envergonhada. — Acho que seria bem legal ser designer.
— Oh? É a primeira vez que ouço isso. Então você é uma dessas, né, Satou-san? — disse Karuizawa. Eu não fazia ideia do que ela queria dizer. Parecia que garotas tinham um código secreto compreensível apenas entre elas.
Satou assentiu.
— Pensei que, se eu me formasse na Classe A, poderia entrar em algum lugar bom.
Não era ruim almejar a Classe A, mas Satou também deveria pensar no que fazer caso se formasse na Classe B ou abaixo.
— Você já pensou no que quer fazer no futuro, Ayanokoji-kun? — perguntou Satou, devolvendo gentilmente a pergunta.
Como eu nunca tinha pensado seriamente no futuro, dei uma resposta segura.
— Faculdade, eu acho.
— Argh, nem pensar. Isso não é pra mim. Eu definitivamente não quero estudar ainda mais — disse Satou. — Quero dizer, a educação obrigatória termina no fundamental, mas parece que só termina mesmo depois do ensino médio, né? As pessoas zoam você se parar no fundamental.
Era verdade que a norma social era concluir o ensino médio. Nesse sentido, ainda era quase uma educação obrigatória.
— Acho que vou para a universidade também. Os clubes da faculdade parecem bem divertidos — disse Karuizawa, surpreendendo-me por não rejeitar a ideia do ensino superior. A resposta dela também era vaga, mas parecia que todos estavam pensando no futuro.
Era divertido passar o dia com um grupo com o qual eu normalmente não convivia — mas também exaustivo. Fazer isso todos os dias seria extremamente cansativo.
*
Depois que terminamos de comer, demos uma volta pelo Keyaki Mall. Já passava das quatro, e o encontro duplo — que já durava quase cinco horas — estava quase no fim. O dia tinha sido surpreendentemente divertido, apesar das tentativas de Karuizawa de complicar tudo. Ainda assim, eu não queria repetir a experiência.
— E então, o que fazemos agora? — perguntei. Sabia que havia a possibilidade de Satou querer acrescentar mais uma parada ao nosso encontro.
— Bem, talvez devêssemos voltar, né, Yousuke-kun? — disse Karuizawa, passando de me provocar alegremente para, de repente, ser atenciosa. A partir dali, o objetivo dela era deixar Satou e eu sozinhos. Eu conseguia ver ela e Satou trocando sinais com os olhos.
Hirata assentiu.
— É, está ficando tarde. Vamos voltar, Karuizawa. Foi divertido passar o dia com você hoje, Ayanokoji-kun. Até mais. Você também, Satou-san.
Passar o dia inteiro com Hirata me convenceu de que ele era realmente uma pessoa de caráter nobre. Um santo. Hirata conseguia se dar bem com qualquer um. Se aquele encontro duplo tinha dado certo, era inteiramente graças a ele.
— Muito obrigada a vocês dois — disse Satou.
Hirata e Karuizawa se afastaram rapidamente. Satou acenou para eles.
— Então, o que vamos fazer agora? — perguntei.
— Ah, hum… que tal fazermos um pequeno desvio no caminho de volta? — ela sugeriu.
Sem nenhum motivo específico para recusar, eu concordei.
— Tudo bem, então vamos.
Voltamos para o caminho que levava aos dormitórios. Satou, que vinha tagarelando sem parar até alguns instantes atrás, ficou quieta.
— Desculpa por isso ter virado um encontro duplo e tal — ela disse.
— Fiquei surpreso no começo — admiti.
— Aqueles dois são incríveis, né? É como se fossem feitos um para o outro — disse Satou. — Eu realmente admiro eles, sabe?
— Com certeza.
Mesmo caminhando tão perto um do outro, nossas mãos não se tocavam. Nem um pingo da ousadia que Satou mostrara na frente de Karuizawa e Hirata permanecia ali. Não estava exatamente desconfortável, mas o clima tinha mudado, com certeza.
— Obrigado por me convidar hoje. Eu me diverti — falei.
Por algum motivo, Satou ainda parecia ansiosa.
— Ei, Ayanokoji-kun… você não se divertiu de verdade hoje, né?
— Não, eu me diverti. — Eu estava sendo sincero, mas, por algum motivo, Satou não acreditou.
— Mas…
— Por que você acha isso? — perguntei.
— Bem, é que… você não sorriu nem uma vez hoje, Ayanokoji-kun.
— Eu não sorri?
Satou continuou:
— Eu queria ter visto você sorrir pelo menos uma vez, mas… — Ela parecia realmente chateada. Eu não tinha nenhuma reclamação sobre como o dia tinha sido, mas, enquanto eu pensava em como explicar isso, Satou voltou a falar: — Isso tem a ver com o fato de que eu já quis zoar a Horikita-san?
Ela parecia ansiosa, como se estivesse prestes a chorar.
No começo do ano, a Horikita era meio isolada, e tinha uma tendência forte a zombar dos colegas. Naturalmente, isso não fez com que Satou gostasse dela. Na verdade, Satou chegou a sugerir em um grupo que a gente mexesse com a Horikita. Eu recusei a ideia, mas Satou claramente se lembrava disso.
— Eu realmente não me importo — falei. — Eu já tinha até esquecido disso.
— Sério?
— Bem, não é surpresa que as pessoas não gostassem da Horikita naquela época. Além disso, ela nem estava no grupo quando você mencionou isso, e não é como se você realmente tivesse feito algo contra ela. Eu não julgaria alguém por uma coisa tão trivial — expliquei.
Todo mundo fofocava. Desde que ninguém machucasse de verdade a pessoa, não era um grande problema.
— Sério mesmo? — perguntou Satou.
— É. Sério.
— Mas você ainda não se divertiu, né? Quero dizer… você não sorriu.
— Bom, eu só sou realmente ruim em sorrir, só isso.
Não fazia ideia se Satou acreditava em mim. Provavelmente achava que eu estava dizendo aquilo apenas para consolá-la. A verdade é que eu talvez ainda a decepcionasse. Eu simplesmente não sentia por ela o que ela claramente sentia por mim e, de certo modo, sua preocupação sobre eu não ter me divertido não estava totalmente errada. Eu tinha gostado de sair com ela, mas não da forma que Satou esperava.
— Você não está convencida? — perguntei.
— Não é que eu não esteja convencida, mas… — Satou parou. Virou o rosto um pouco, pegou algo na bolsa e escondeu atrás de si. — H-Hm… — Ela firmou o olhar, como se reunisse toda a coragem para uma grande missão. Aparentemente, ela estava prestes a confirmar meus temores. — Hm… p-por favor, namore comigo, Ayanokoji-kun!
Um vento forte passou por nós.
Foi a primeira confissão romântica que eu já tinha recebido.
Pelo canto do olho, percebi alguém escondido nos arbustos, mas ignorei por enquanto. Prolongar aquilo só faria Satou sofrer mais. Escolhi minhas palavras imediatamente, sendo o mais honesto possível, como respeito pela coragem dela.
— Desculpa, Satou. Eu não posso ser isso para você.

— A-Ah! E-Eu entendo. Acho que é inútil, né? — Satou, claramente lutando para não desabar, me deu um sorriso fraco. — B-Bem… só para saber, você poderia me dizer por quê? Tem alguém que você gosta?
— Não é isso. Eu só não estou pronto para um relacionamento. O problema sou eu, não você — respondi. — Não importa quem me pedisse agora, minha resposta seria a mesma… fosse você, Satou, ou alguém como a Horikita ou a Kushida. Eu não posso namorar alguém se eu não corresponder aos sentimentos dela.
Eu daria a mesma resposta à Airi, se algum dia ela decidisse me contar o que sente.
— Isso pode parecer meio bobo, mas eu nunca senti nada por ninguém ainda. Não estou rejeitando você como pessoa. Eu só… não amadureci o suficiente para lidar com romance — disse.
— Entendi.
Não havia mais nada que eu pudesse dizer.
— Talvez eu tenha me precipitado. Não é como se a gente realmente conhecesse alguém depois de apenas um encontro — ponderou Satou. Ela assentia como se estivesse conversando consigo mesma. Francamente, uma confissão tão honesta exigia uma coragem enorme da parte dela.
— Talvez eu tenha perdido minha chance — disse baixinho. Eu havia rejeitado uma garota honesta e corajosa. Uma parte de mim sentia que estava cometendo um erro. Era a parte que queria uma vida escolar divertida e normal, incluindo encontrar uma namorada. Mas não disse nada.
Meu celular vibrou no bolso. Eu não sabia quem estava ligando, mas não podia atender naquele momento.
Satou guardou a caixinha embrulhada de presente na bolsa.
— Obrigada por tudo hoje, Ayanokoji-kun.
Ela entendeu que minha resposta e meus sentimentos não mudariam. Mesmo que Satou gostasse de mim naquele momento, talvez não sentisse o mesmo amanhã. Talvez encontrasse um novo amor. No entanto, eu jamais esqueceria que Satou foi a primeira a me dizer que me amava.
— Posso… pedir para sairmos de novo? — perguntou ela.
— Claro. Eu me diverti com você, Satou. Também gostaria de sair — respondi, de coração.
— Certo — Satou assentiu.
Mesmo com o constrangimento ainda pairando, as coisas rapidamente voltavam ao normal. O frio do inverno nos atravessava.
— Está congelante. Vamos voltar? — perguntei. Não podíamos ficar parados aqui para sempre. No entanto, quando comecei a me mover, Satou permaneceu firme no lugar.
— Satou? — Olhei para trás e vi lágrimas se formando em seus olhos. Ela rapidamente as enxugou com o braço e sorriu para mim. — Desculpe. Acho que vou indo na frente!
Com isso, Satou correu pela neve, me deixando para trás.
Eu a observei em silêncio.
— Acho que entendi.
Esperei até que ela desaparecesse de vista, garantindo que não nos cruzássemos no saguão do dormitório, antes de retomar meu caminho para casa.
Se não houvesse problemas com o conselho estudantil ou com meu pai, talvez eu tivesse respondido diferente a Satou. Se ela tivesse me contado seus sentimentos antes do revezamento e da visita do meu pai, talvez eu tivesse aceitado. Ironicamente, foi justamente o revezamento que a fez desenvolver sentimentos por mim.
Um garoto normal do primeiro ano poderia ter aceitado a primeira garota que lhe oferecesse carinho. Mas eu não era normal. Melhor manter as coisas simples.
— Agora então… — pensei. Eu precisava resolver alguns assuntos pendentes antes de encerrar a noite. Quando me dirigi a um ponto de arbustos, meu celular tocou novamente. Na tela, apareciam as palavras "chamada desconhecida". Por um instante, considerei ignorar, mas acabei atendendo e aproximando o telefone do ouvido.
O misterioso interlocutor permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Alô? — disse. Mas não houve resposta.
— Vou desligar.
— Posso confiar em você? — veio a voz do outro lado.
— Quem é você? Por que eu deveria confiar? — devolvi a pergunta.
— Sobre o que a Horikita-senpai falou. Derrubar o Nagumo. Você está disposto a ajudar?
Ah. Então, o irmão da Horikita contou sobre mim para aquele estudante do segundo ano que mencionei antes. Ainda assim, ligando de um número desconhecido? Essa pessoa era realmente paranoica.
— Qual é o seu nome? — perguntou. O irmão da Horikita lhes deu meu número, mas não meu nome? Bem, se tinham meu número, poderiam descobrir o resto com uma pequena investigação.
— Acho que você não precisa disso agora — respondi.
— Tudo bem. De qualquer forma, já tenho uma boa ideia de quem você é. Reconheci sua voz.
Isso também limitava as opções de quem poderiam ser. Poucos estudantes do segundo ano conheciam minha voz tão bem.
— Quero te encontrar agora — continuou.
Eu esperava isso.
— Não deveria tomar mais cuidado com isso? — perguntei. Já estava quase anoitecendo. Logo ficaria escuro.
— Está tudo bem. Você pode me encontrar imediatamente?
Olhei para os arbustos.
— Sim. Você também tem sorte.
— Sorte?
— Para ser honesto, se fosse em outro momento, eu teria recusado.
Tenho certeza de que o interlocutor achou isso estranho.
— Há um lugar isolado perto do prédio da escola — disse. — Me encontre lá em dez minutos.
— Desculpe, mas preciso resolver um assunto rápido. Podemos nos encontrar em vinte? — perguntei.
— Tudo bem.
A ligação terminou. Não levaria mais de cinco minutos para chegar ao local, mas eu me dei um pequeno tempo de margem. Isso significava que eu deveria concluir meu assunto nos próximos quinze minutos. Alguém estava me esperando, e estava frio.
— Se você ficar aí, vai congelar — falei para a pessoa nos arbustos.
Ninguém respondeu.
— Tenho que ir. Posso te deixar aqui? — perguntei.
Finalmente, uma voz respondeu hesitante:
— Quando você me notou?
— Desde o começo. Você ouviu Satou confessar seus sentimentos, certo, Karuizawa? — perguntei.
— N-Nem tanto. Só ouvi um pouco. — Karuizawa se levantou de seu esconderijo. Como tinha se escondido nos arbustos, a neve cobria seus ombros. — Brr… que frio.
— E o Hirata? — perguntei.
— Não sei. Provavelmente foi para casa. — Ela entrou no caminho, tirando a sujeira e a neve do corpo. Tinha esperado tanto no frio que o nariz já estava vermelho.
— Está congelando, né?
— Acho que sim.
Ainda tentando manter a pose de durona. No entanto, algo preocupava Karuizawa mais que o frio da noite.
— Enfim, por que você recusou a Satou-san?
— Como assim? Você mesma disse, não disse? É desprezível sair com alguém por quem não se tem sentimentos de verdade.
— Sim, mas… não dizem algo como "quem não come, não pega palito"?
— Ah, acho que a expressão que você procura é "não comer a refeição que está à sua frente é uma vergonha para o homem". É vergonhoso rejeitar a iniciativa de uma mulher — respondi. — Mesmo assim, Satou é uma garota normal. Ela quer um romance normal. Você realmente acha que posso dar isso a ela?
— Isso… bem, é meio difícil de imaginar.
Karuizawa me entendia melhor que a maioria. Ela sabia o quanto eu realmente queria uma vida normal. Mesmo assim, eu não podia dar a Satou o que ela queria. Mesmo se eu a forçasse a namorar comigo, eu só desperdiçaria o tempo dela. Aqueles poucos anos na escola eram um recurso precioso.
— Olha, talvez eu não devesse dizer isso, mas não acha que está sendo um pouco humilde demais? — perguntou Karuizawa.
— Humilde?
— Quero dizer, você não é como os caras normais, Kiyotaka. Além disso, você finge ser alguém que não é, certo?
— Acho que é mais que eu escolho não revelar tudo — respondi.
— Então é, algumas garotas provavelmente ficariam desapontadas ao descobrir quem você realmente é. Mas quando alguém está realmente apaixonado, essas coisas não importam, sabe? Quero dizer, acho que a Satou-san teria te aceitado como você é — disse Karuizawa.
— É isso que você quis dizer com "humilde"?
— É. Bem, já que você a rejeitou, suponho que não possa voltar atrás. Mesmo eu tendo me esforçado tanto para atirar a flecha do amor em você. Nem errei; ela simplesmente ricocheteou em você.
— Flecha do amor?
— Esquece. Não importa — disse, dando uma risadinha travessa. — As garotas superam essas coisas rápido. Satou-san provavelmente vai se interessar por outro cara em breve, não acha?
— Não tem nada que eu possa fazer sobre isso.
— Uau. Acho que ouço um pouco de arrependimento na sua voz.
— Para com isso. Essa foi minha decisão.
Karuizawa parecia não estar convencida.
— Você não poderia ter tentado sair com ela para ver como seria? Tenho certeza de que você sabia dos sentimentos dela por você. Convidar alguém para sair no Natal não é algo que alguém que é "apenas seu amigo" faria. Quando você aceitou o convite, não sabia o que ela queria?
— Não é possível que o encontro tenha me permitido perceber que não sou compatível com a Satou? — perguntei.
— Isso é… Bem, sim. Mas, pelo que vi, parecia que as coisas estavam indo bem. Você parecia se divertir bastante.
— Para ser totalmente honesto, não sou completamente contra a ideia de namorar Satou.
— V-Viu? Eu sabia!
— Eu provavelmente poderia ter me divertido com ela — disse.
Karuizawa agora parecia irritada.
— Como assim, "se divertir"?
— Quero dizer, explorar coisas. Até o fim. Sabe? — tentei amenizar a ideia o máximo possível.
Karuizawa entendeu o que eu queria dizer.
— Hã?! V-Você quer dizer que sairia com ela por um motivo tão nojento?! — gritou.
— Você nunca quis fazer isso? — perguntei.
— E-Eu não sei! Eu não sei nada sobre essas coisas! É um mundo totalmente diferente para mim!
— E você nunca pensou em explorar esse mundo desconhecido?
— Isso é… isso é, bem… Não importa com quem é seu parceiro? — ela perguntou.
— Bem, acho que você não faria isso com qualquer pessoa — respondi. Idealmente, você quer que seu parceiro seja alguém de quem realmente goste.
— Obviamente!
— Mas é isso que estou dizendo — eu ficaria bem se essa pessoa fosse a Satou.
— E-E então por que você a rejeitou?! Você poderia ter experimentado esse tal "mundo desconhecido"! — Karuizawa berrou.
— Ei, não fique brava.
— Eu não estou brava!
Ela definitivamente estava. Eu também tinha uma boa ideia do motivo.
— Se eu tivesse decidido namorar Satou, você ainda estaria aqui comigo? — perguntei.
— Hã?
— É por isso que eu não disse sim para ela.
Se eu tivesse começado a namorar Satou, a escola teria sido melhor do que nunca. Eu teria alguém para compartilhar alegrias e tristezas, e nosso relacionamento se aprofundaria com o tempo.
Mas eu sabia que namorar Satou afetaria Karuizawa. Escolher Satou significaria que seria mais difícil trabalhar com Karuizawa. Ela ficaria mais cautelosa comigo.
O incidente no telhado foi um ponto de virada para Karuizawa. A confiança dela em mim cresceu exponencialmente, e eu sabia que ela nunca me trairia. Se Ryuen, Sakayanagi ou até alguém como Nagumo se aproximassem dela, ela não cederia. A única coisa que a abalaria seria eu namorar outra garota.
Ela teria medo de não me precisar mais. Entraria em pânico. Tornar-se-ia inútil para mim, e eu não queria que isso acontecesse.
Agora, se Satou fosse uma boa substituta para Karuizawa, seria outra história. Mas depois de hoje, eu sabia que Satou não poderia ocupar o lugar de Karuizawa. Ela não tinha o carisma dela, nem era tão boa de raciocínio rápido. O encontro duplo deixou isso claro. Karuizawa lidou com a situação habilmente como se fosse coincidência, enquanto Satou lutava para manter a mentira, parecendo visivelmente incomodada às vezes.
O confronto com Nagumo confirmou isso. Karuizawa agiu para neutralizar a situação, enquanto Satou apenas ficou parada. Essa ousadia era importante. Eu podia ignorar a questão do conselho estudantil, mas não podia ignorar Sakayanagi ou meu pai. Se qualquer um deles realmente entrasse em guerra, minha vida aqui estaria em risco. Até eliminar essas ameaças, eu precisava de Karuizawa.
Além disso, havia a professora Chabashira e o presidente Sakayanagi. Eu não percebia problemas no momento, mas ainda eram alvos em potencial. Assim, Karuizawa Kei era indispensável. O presidente tinha poder sobre nós, alunos, mas eu poderia derrubá-lo usando Karuizawa como isca. Ela provavelmente hesitaria em relação a assuntos sexuais, mas ainda assim era altamente versátil.
— Talvez eu esteja louca, mas tenho a sensação de que você só vê as pessoas como ferramentas, não é, Kiyotaka? — ela perguntou.
Eu havia usado Karuizawa como ferramenta muitas vezes para negar isso.
— Eu não vejo as pessoas assim porque escolho ver — respondi.
— Ei, isso pode soar ingênuo, mas… você já se apaixonou por alguém de verdade?
— No momento, não — respondi. Eu gostaria de me apaixonar por alguém. Mas a oportunidade nunca surgiu. Talvez eu fosse incapaz de amar. Embora eu entendesse as diferenças biológicas entre homens e mulheres, todo o resto era alienígena para mim. Meu tempo na Sala Branca provou isso.
— No fim…
— O quê?
— Ah, nada.
Eu havia saído fisicamente da Sala Branca, mas uma parte de mim sempre ficaria presa lá, onde vivíamos em constante estado de defesa. Você não deveria precisar se proteger o tempo todo na vida cotidiana. Namorar Satou teria me permitido experimentar alegrias normais, um relacionamento normal… mas eu ainda não conseguia visualizar como seria "normal" para mim. Eu havia aprendido a me proteger de qualquer adversário; não sabia como parar. Ninguém mais importava, contanto que eu vencesse.
Talvez eu fosse assim até o dia em que morresse.
Enquanto caminhava, Karuizawa me seguia. Ela não andava ao meu lado, mas permanecia próxima o suficiente para conversarmos. Assim, ninguém saberia que estávamos juntos se passassem por nós.
— Ugh. Eu me esforcei tanto pelo bem da Satou-san, e acabou sendo um desperdício — reclamou. Seu tom era tão brincalhão e provocador que ninguém imaginaria que ela havia passado por uma experiência traumática poucos dias antes.
— Você está se saindo bem, considerando tudo o que aconteceu com você — disse.
— Faz anos que não sofro bullying assim — respondeu.
— Você disse que começou na escola primária, certo?
— Ah, sim. Isso mesmo. Desculpe, Kiyotaka. Eu menti um pouco sobre meu passado.
— Você mentiu?
— Eu disse ao Yousuke-kun que sofri bullying por nove anos. Isso era mentira. Achei que dizer que tinha sido desde a escola primária faria ele querer me salvar mais do que se tivesse sido apenas desde o ensino fundamental. Quero dizer, ele não queria que eu fosse vítima de ainda mais bullying constante — explicou. Ela riu e mostrou a língua de forma brincalhona.
Ah, então ela mentiu para manipular Hirata. Isso só provava sua astúcia e determinação.
— Enfim, você não vai se desculpar de novo? Por ter colocado a Manabe e suas amigas no meu caso? — perguntou.
— Agora que você mencionou, é verdade. O encontro duplo me fez esquecer totalmente disso.
— Ah, e mais uma coisa. Você disse que não ia mais me procurar, mas acabou fazendo isso. Sabe, você está me dando sinais confusos.
— Eu retiro o que disse sobre não te procurar mais. Se estiver tudo bem, eu gostaria de me desculpar com você em outra ocasião — respondi.
— Não parece que seu coração está nisso. Não vou criar expectativas, então só se desculpe agora.
— Agora? Como?
— Eu já te falei várias coisas. Agora você me diz algo, Kiyotaka.
— Sobre o quê?
— Sobre esta tarde. O presidente do conselho estudantil, Nagumo. Qual é a história? — ela perguntou. Ela queria essa informação como parte de uma desculpa? — Não sei o que te fez se esforçar tanto no revezamento do festival esportivo, mas sinto que cada vez mais pessoas estão reparando em você — continuou.
— Vou cortar isso pela raiz. Felizmente, a turma está mais unida agora. Posso dar um passo atrás.
— É, acho que sim. Mas a turma B é muito, muito mais unida que a nossa. Não conseguimos superar eles nesse ponto — respondeu Karuizawa. — Enfim, deixando a união de lado, você realmente quer apenas dar um passo atrás?
— Exatamente — respondi.
— Parece meio estranho você estar recebendo tanta atenção só por causa do festival esportivo, né? — perguntou. Ela havia notado, corretamente, que era estranho chamar a atenção de Nagumo Miyabi apenas por ser um corredor rápido.
Como se tratava de Karuizawa, eu podia dizer a verdade e me poupar de problemas no futuro.
— Lembre-se que a Horikita da nossa turma e o ex-presidente do conselho estudantil são irmãos.
— Eu já imaginei. Isso me lembra… durante a corrida de revezamento, você e o presidente do conselho estudantil — não, acho que o ex-presidente — vocês dois começaram juntos. Vocês se conhecem, Kiyotaka?
— Sim. Pela irmã dele. É por isso que ele repara em mim.
— Então, ele sabe quem você realmente é por trás da máscara? — perguntou Karuizawa.
— Por trás da máscara, hein? Não. Ele só conhece o que está na superfície. Ninguém mais nesta escola me conhece tão profundamente quanto você — disse.
— Hmm. Que chato — comentou. Ainda assim, ela não parecia infeliz. Conhecer os segredos de alguém pode ser um peso, mas também faz você se sentir especial. Karuizawa e eu conhecíamos os lados secretos um do outro.
— Além disso, o título de "ex-presidente do conselho estudantil" é útil. Eu ainda lhe devo uma dívida pelo incidente no telhado — expliquei.
— Ah, sim. Sim, eu o conheci lá.
— Ele está me pressionando para retribuir o favor.
— Isso tem a ver com o fato de o presidente do conselho estudantil, Nagumo, estar de repente prestando atenção em você?
— O irmão da Horikita e o Nagumo são rivais. O fato de o irmão dela estar falando comigo provavelmente não agrada Nagumo. Ele parecia pronto para brigar durante o revezamento.
— Uau. Isso é complicado. Então você está no meio de uma disputa entre os dois?
Agora estávamos chegando ao ponto principal.
— O irmão da Horikita quer que eu tire o Nagumo do seu trono e o destitua como presidente do conselho estudantil.
— Ele te colocou nessa missão, Kiyotaka?
— Que trabalho difícil, né?
— Se alguém pode deter esse incrível presidente do conselho estudantil, esse alguém é você.
— Você acha que eu consigo fazer isso?
— Se você não conseguir, ninguém mais consegue.
Parecia que a opinião de Karuizawa sobre mim havia melhorado significativamente num piscar de olhos. Nenhuma humildade da minha parte a enganaria agora.
— A propósito, eu deveria me encontrar com um certo estudante do segundo ano agora — disse.
— Um segundo ano? Quem?
— Não sei. A identidade dele ainda é um mistério. Ele também não confirmou quem eu sou. Só sei que é o único segundo ano que não gosta muito do Nagumo.
— Então eu estou atrapalhando? — perguntou Karuizawa.
— Se você quiser acompanhar, tudo bem para mim. O que vai fazer? — Eu sabia que ela me seguiria, mas queria confirmar.
— Eu vou junto — respondeu.
Desliguei o celular. Então, nós dois nos dirigimos ao prédio da escola para encontrar o misterioso interlocutor.
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