Ano 1 - Volume 7.5
Capítulo 3: Como Passamos Nosso Tempo
ERA VINTE E QUATRO de dezembro. Véspera de Natal. Hoje e amanhã, mesmo casais ocupados faziam questão de passar tempo juntos. Para a maioria dos estudantes, eram dias comuns, mas eu estava curioso sobre como as pessoas iriam passá-los.
Saí do meu quarto antes das sete da manhã. Tinha compromissos separados com duas pessoas diferentes — uma a quem eu havia pedido para encontrar, e outra que me tinha convidado para sair. Bizarro. Quando deixei o dormitório, tudo ao meu redor estava completamente branco. Parecia uma verdadeira manhã de inverno.
— A neve realmente se acumula, hein? — murmurei. A natureza era, sem dúvida, incrível.
A neve caía pesada, mas, de acordo com a previsão, deveria parar por volta das sete. Mesmo que a temperatura fosse quase a mesma de ontem, a visão daquela nevasca me fazia sentir mais frio. Eu provavelmente deveria começar a usar luvas e cachecol.
Antes das sete da manhã, a maioria dos estudantes ainda dormia; o campus estava vazio quando me aproximei de um banco perto do Keyaki Mall. Limpando a neve, sentei-me. Logo, um homem apareceu.
— É falta de respeito chamar alguém tão cedo assim — cuspiu ele.
Ryuen Kakeru, o líder da Classe C — não, seu ex-líder — me lançou um olhar afiado.
— Eu precisava encontrar você numa hora em que tivesse certeza de que ninguém mais estaria por perto.
— Esse é o seu problema. Nada a ver comigo. — Era verdade. Eu tinha mais a perder sendo visto com Ryuen do que ele comigo. — Então, o que você quer?
— Pensei que poderíamos conversar um pouco.
— Hah. Uma piada bem engraçada pra uma manhã de merda dessas.
— Pensando bem, eu vi você ontem — comentei. — Você, o Ishizaki e mais alguns caras.
— O quê? Tá feliz porque me impediu de desistir da escola?
— Estou impressionado. Mesmo estando sozinho, você não está trancado no quarto, amuado.
— Eu faço o que eu quero, onde eu quero. Fica com medo de me ver por aí? Afinal, você não sabe quando eu vou me vingar.
— E depois que você se vingar, eu vou me arrepender de não ter feito você ser expulso?
Ryuen chutou a neve acumulada no banco e sentou-se ao meu lado.

— Gostaria que você adiasse isso, se possível. Prefiro viver em paz. Lutar com você de novo seria apenas um incômodo — eu lhe disse.
— Então não me chama para te encontrar! Não chame minha atenção de novo pra você.
Decidi abandonar o papo furado e ir direto ao ponto. Se eu enrolasse demais, Ryuen simplesmente se levantaria e iria embora.
— Sobre o que aconteceu no telhado outro dia… eu queria acrescentar algo àquela história — falei.
— Acrescentar algo? — Ryuen soou desconfiado. Analisar a própria derrota não seria divertido pra ele.
Ainda assim, eu precisava mostrar a ele a verdade que ele não podia encarar.
— Se você tivesse estado sozinho lá em cima, teria aguentado firme. Teria continuado lutando.
No entanto, Ibuki, Ishizaki e Albert estavam lá. A presença deles — e o fato de que seriam responsabilizados junto com ele — provavelmente apressou a decisão de Ryuen. Ele se rendeu ao perceber o que poderia acontecer depois, não apenas pela situação do momento.
Foi uma boa escolha. Claro, eu o havia manipulado para isso. Mas, no fim das contas, Ryuen tinha muito mais potencial do que demonstrava.
— Você é realmente um caso perdido, hein? — rosnou Ryuen. — Me impressiona até onde você vai só pra ferrar com as pessoas. Eu achava que isso era meu talento, mas você me deixou no chinelo.
— Só estou dizendo a verdade.
— Imagino que isso te beneficie de algum jeito, e é por isso que você usou o Ishizaki e os outros pra me impedir de desistir da escola, né?
Hmm. Eu esperava que Ryuen já tivesse percebido, mas claramente não tinha.
— Você realmente acha que ainda pode me transformar no seu fantoche? — ele exigiu.
— Fantoche? O que quer dizer com isso?
— Não se faz de idiota. Tô falando de me usar pra derrubar as outras classes. Por que mais você me manteria nesta escola?
— Você é um homem que gosta de batalha, não é? — perguntei.
— Mesmo que, só por hipótese, eu esmagasse as Classes A e B — com você aqui, não significaria nada.
Uma afirmação bem definitiva.
— O quê? Eu te quebrei tanto assim com apenas uma derrota? — perguntei.
A raiva brilhou nos olhos de Ryuen.
— Quer brigar? Aqui e agora?
— Falei demais. Me desculpe.
Se o incidente no telhado não tivesse acontecido, provavelmente Ryuen já teria me dado um soco. Esse cara não conhecia o medo.
Mas ele o conhecia agora.
Mesmo assim, Ryuen provavelmente lutaria comigo aqui mesmo se eu o provocasse o suficiente. Ainda assim, ele precisava evitar abandonar a escola ou ser expulso se quisesse amadurecer.
— Já resolvemos nossas contas — falei. — Não vou mais mencionar o telhado depois disso. Prometo que é a última vez. Então, vamos conversar.
Claro que Ryuen não acreditou em uma palavra.
— Conversar é inútil. Não vejo o que eu ganho com isso. Tô indo embora.
Ele se levantou, irritado.
— Você pode conseguir algo útil — respondi, fazendo-o parar.
Ryuen sentou-se de novo sem olhar para mim. Provavelmente se levantara só para arrancar alguma coisa de mim. Ele não tinha intenção de sair dali de mãos vazias.
— Interprete como quiser, mas você não acha que essas batalhas simples já estão ficando entediantes? — perguntei.
Ryuen franziu a testa.
— Batalhas simples, é?
— Classe D vence a C, depois a B e, por fim, a A. Então Horikita e o resto de nós viramos Classe A. Parece roteiro de filme de grande orçamento. Mas não precisamos seguir essa estrutura óbvia, certo?
A vida real não seguia narrativa. Podíamos atacar a Classe A antes da Classe B, ou até mesmo nos aliar aos inimigos — a Classe C.
— Curiosamente, parece que a Classe A vai atacar a Classe B quando o terceiro semestre começar. Poderíamos derrubar a Classe A com um único golpe enquanto eles estão focados nisso — eu disse.
Ryuen de repente pareceu interessado.
— Quão confiável é essa informação?
— Eu diria que uns cinquenta por cento.
Eu ainda precisava considerar se Sakayanagi estava blefando. Mas, se eu a tivesse lido bem, havia noventa por cento de chance de ser verdade.
— Se for sólida, é uma bela oportunidade. Mas eu pensei que vocês, da Classe D, tinham um acordo de não agressão com a Classe B? Atacar a Classe A até que faz sentido, mas eles esmagariam a Classe B nesse meio-tempo. A Ichinose não vence a Sakayanagi — disse Ryuen.
— Não me importo quem ganha ou perde. Não pretendo me envolver.
— Então você vai só assistir ela queimar, é isso?
— Se a Sakayanagi esmagar a Ichinose, isso me poupa trabalho. Pode limpar o caminho da Classe D até a Classe A. Além disso, estamos falando da Sakayanagi. Talvez seja hora de eu verificar quais infrações levam à expulsão.
— Tem muita coisa aí que eu não gosto. Você não tem ambição de subir. Não quer ficar invisível? — perguntou Ryuen.
— Quero, mas se as pessoas ao meu redor agirem por conta própria… bem, tudo bem. Não sou contra a ideia de subirmos para Classe A com facilidade — respondi.
— Então você vai só sentar e observar?
— Preciso que um problema seja resolvido. Tem alguém bem complicado na minha classe.
— Kikyou, né? — Ryuen não precisou nem pensar. — É, ela tá te dando bastante trabalho. Do jeito que essa escola funciona, ter um inimigo dentro da própria classe é péssimo.
Kushida estava atualmente mirando na Horikita, causando tantos problemas que, em vez da ascensão à Classe A, ela se tornara minha preocupação principal. Depois do que eu fiz no telhado, eu não podia me dar ao luxo de fazer inimigo o Horikita Manabu, o ex-presidente do conselho estudantil. Se Horikita Suzune, sua irmã, fosse expulsa enquanto ele ainda estivesse na escola, ele não me perdoaria.
Eu queria evitar qualquer coisa que ameaçasse a tranquilidade da minha vida escolar.
— Kikyou entrou em contato comigo outro dia, na verdade. Ela queria saber quando eu ia atacar. Infelizmente, eu estava ocupado te caçando, então não respondi. Parece que ela não desistiu de expulsar a Suzune. Tá só esperando a chance de atacar. Heh. Ela é uma bela peça — disse Ryuen.
— Se você tivesse usado bem a Kushida, poderia ter causado um grande estrago na minha classe.
— Em Suzune ou na sua classe, até. Mas a Kikyou é fraca demais pra derrubar alguém como você. Você não liga pra nada.
— Verdade.
— Então o que você tá planejando? — exigiu Ryuen. — Você pode até atrasar um câncer, mas ele não some até ser arrancado, sabia? Essa porcaria se espalha.
E então todos morreríamos.
— Eu sei disso.
— Oh? Então vamos ouvir seu plano, Ayanokoji. Como você vai acabar com a Kikyou?
— Preciso mesmo responder?
— Dependendo da sua resposta, talvez eu te ajude.
Um sorriso fraco apareceu nos lábios de Ryuen, mas talvez sua boca ainda estivesse dolorida onde eu havia acertado, porque o sorriso desapareceu na mesma hora. Estava ficando mais frio. Ficar tanto tempo ao ar livre não era prudente.
— No terceiro semestre, a Classe D vai subir para a Classe C — eu disse. — Porém, provavelmente cairemos de volta para a D quando eu fizer a Kushida Kikyou ser expulsa.
— Heheheh. Hahahaha! — Ryuen explodiu em gargalhadas apesar da dor. — Você é realmente aterrorizante. Afunda sua própria classe só pra derrubar seus inimigos, hein? Eu sabia que você tinha isso dentro de você, Ayanokoji.
— Podemos ajudar um ao outro nessa empreitada sem estabelecer uma aliança formal, concorda?
— Heh. Essa conversa sobre se livrar da Kikyou até me anima. Mas ir junto com as suas besteiras e atacar a Classe A de forma imprudente? Aí já é outra história.
— Mas poderia funcionar.
— Nem vem. Se eu for brigar, prefiro mirar em você. — Parte do vigor de Ryuen havia retornado, a julgar pelo olhar abrasador. Mesmo depois de aprender o medo, seus olhos ainda tinham aquele brilho afiado. — Parece que você planeja me usar, Ayanokoji. Mas eu não tenho a menor intenção de ser usado.
— Parece que sim. — Ryuen parecia prestes a desaparecer dos holofotes. Talvez tivesse planos para executar nos bastidores. — Deixe-me te dar um conselho — eu disse. — Seu plano com os pontos privados… não é uma estratégia ruim, mas é falha. Mesmo que uma ou duas pessoas consigam, levar a classe inteira com você é impossível.
— A Ibuki abriu o bico, né?
— Ela não contou nada. Só me perguntou se era possível juntar oitocentos milhões de pontos.
Esse provavelmente era o plano de Ryuen. Nunca na história desta escola algo assim havia funcionado. No início, eu achava que ele estava guardando pontos apenas para comprar sua própria entrada na Classe A, ou talvez promover a si mesmo e os mais próximos. Ele tinha entregado seus pontos no telhado porque pretendia abandonar a escola. Eu esperava que ele fosse agir nas sombras e juntar pontos de novo se pretendesse continuar.
Mas, pelo que Ibuki insinuou, Ryuen estava tentando encontrar uma forma de fazer a classe inteira vencer. Para ser um tirano, era preciso dar aos seguidores algum tipo de recompensa.
Claro, ele também poderia simplesmente quebrar a promessa.
— Talvez você só estivesse fingindo juntar oitocentos milhões de pontos? — perguntei.
Se ele tivesse enganado até a Ibuki, nossa conversa terminaria ali.
— Mesmo que você esgote os pontos que tem agora, o contrato com a Classe A ainda está valendo — continuei. — Se você trouxer oitocentos mil pontos por mês, vai precisar de vinte e cinco meses para alcançar a meta. Daria por pouco antes da formatura. Se considerar os pontos que precisa gastar mensalmente, vai passar raspando.
Isso tudo supondo que a Classe A não colapsasse e que Ryuen evitasse gastos desnecessários.
— Você é um sujeito esperto, Ayanokoji, mas está longe de ser perfeito.
Ryuen não estava brincando. Ele soava como se zombasse de mim, mas não estava blefando.
— Então você tem algum plano secreto para salvar sua classe inteira, Ryuen?
— Escuta. Uma quantia enorme de pontos privados circula por ano. São cento e sessenta pessoas por série, assumindo que ninguém é expulso. Somando as três séries, isso dá quatrocentos e oitenta alunos. Se eu espremer cem mil pontos de cada estudante por mês, só isso me rende quarenta e oito milhões de pontos. Se eu conseguir duzentos mil ou mais por mês, posso pegar até cem milhões.
Depois de apenas oito meses, ele juntaria cerca de oitocentos milhões. Mas mesmo que os cálculos funcionassem na teoria, não funcionariam na prática. A escola provavelmente reforçaria a vigilância se notasse uma movimentação tão grande de pontos. Se pegassem Ryuen no ato, recuperariam os pontos e aplicariam uma punição severa.
Fiz os cálculos mentalmente.
Supondo que a cooperação da Classe C fosse garantida, e supondo que Ryuen recebesse o valor máximo de pontos — mil pontos por mês — isso daria cerca de cinquenta milhões por ano. Indo bem nos exames especiais, talvez conseguisse uns dez milhões extras. A média anual seria de sessenta milhões — nem duzentos milhões.
Olhei fixamente para Ryuen enquanto pensava.
— Você não consegue alcançar esse número. Ou consegue?
Que estratégia ele tinha em mente? O que eu não estava enxergando?
— Você e eu usamos métodos parecidos, mas pensamos de maneiras fundamentalmente diferentes — ele respondeu.
— Minha política é evitar escolhas com baixa probabilidade de sucesso — afirmei.
— Claro. Mas você consegue ver, não consegue? A estratégia?
— Sim. No início, eu achei que você tinha zero por cento de chance. Agora… eu diria cinco por cento ou mais.
Entretanto, para realizar o plano, algumas condições eram absolutamente essenciais.
— Enfim, Ayanokoji… por que você tá coberto de neve? — Ryuen puxou minha atenção de volta para minha aparência.
— Ah. Isso só… aconteceu. A sensação da neve é bem refrescante. É estranho?
Eu tinha ficado parado durante toda a neve, deixando-a cobrir minha cabeça e meus ombros. Fiquei até agradecido que Ryuen tivesse apontado, mas não a limpei. Ela derreteria sozinha em breve.

— Você é realmente um sujeito estranho — disse Ryuen.
— Bem, agora que você ouviu minha proposta, acho que podemos trabalhar juntos — respondi.
— Parece bom demais para ser verdade. Tem algo fedendo aí — retrucou Ryuen. — Você se livraria de qualquer um, até dos seus aliados, sem hesitar. Como vamos trabalhar juntos se estamos pensando em enfiar uma faca nas costas um do outro?
— Se você tem medo de alguém te superar, então só precisa superá-lo primeiro. É só isso, Ryuen.
Eu não estava procurando um amigo. Ryuen e eu apenas compartilhávamos interesses. De certo modo, essa era a base perfeita para um relacionamento.
— Nesse caso, Ayanokoji, vou preparar o terreno.
— Preparar o terreno?
— No próximo semestre, Kaneda e Hiyori provavelmente vão liderar a Classe C… não, a Classe D. Vou avisá-los de que é do nosso interesse atacar a Classe A em vez de vocês — disse Ryuen.
— Isso não parece uma má ideia.
Se Kaneda e Hiyori decidissem nos atacar, porém, seria um incômodo. Ishizaki e Ibuki, em especial, não gostavam de mim. Eles poderiam tentar influenciar a classe a nos desafiar.
— No entanto, minha ajuda tem um preço. Se você me der o que eu quero quando vocês subirem para a Classe A, podemos trabalhar juntos.
— Então você pretende puxar os cordões da Shiina nos bastidores também? — perguntei.
— Impossível. Já disse pra eles que vou me afastar.
— Você quer muito por um favor pequeno.
— Eu não sou barato, Ayanokoji.
Pensei no contrato dele com Katsuragi. Ryuen adorava colocar a mão no bolso do adversário.
— Bem, não tenho problema com seus termos, mas não podemos colocar nada no papel. É um acordo verbal — falei.
— Heh. Eu nem esperava um documento assinado, já que você gosta de agir nas sombras. Lembre-se: se você quebrar o acordo, não vou mostrar misericórdia. Vou fazer você se arrepender.
— Responda uma coisa. Mesmo que nós dois cheguemos a um acordo hoje, toda a estratégia não desmorona se você não conseguir convencer a sua classe? — Isso exigiria bastante habilidade e sorte. Se alguém tinha esses dois fatores, era Ryuen.
— Eu não sei. Isso vai depender do Kaneda e da Hiyori — respondeu ele.
Em outras palavras, Ryuen estava apenas preparando o palco. Como o cara que governou a Classe C com mãos de ferro, provavelmente achava que era o mínimo que podia fazer para se redimir.
— Nossas negociações estão encerradas, então — declarei, apertando a mão de Ryuen.
Ele não podia ser controlado tão facilmente. Mesmo "aposentado", eu precisaria me esforçar para mantê-lo fora do meu caminho. Não podia me dar ao luxo de ser descuidado.
— Então é isso? No seu convite original, parecia que você queria que eu conhecesse alguém, mas não consigo imaginar alguém útil entre os veteranos de primeiro ano.
— Isso mesmo. Não é alguém do primeiro ano — respondi.
— Hã?
— É hora.
Pontual como sempre, um jovem se aproximou. Ao ver quem era, até Ryuen não conseguiu esconder a surpresa.
— Sério? É ele que você queria que eu conhecesse?
Ignorei Ryuen e me dirigi a Horikita Manabu.
— Desculpe chamar você tão cedo.
— Não é problema. Este é um bom horário para um encontro secreto. Um bom lugar também.
O campus da escola oferecia poucas opções. Da nossa posição atual, eu podia ver qualquer pessoa vindo de longe. Isso tinha sua utilidade.
— Parece que você é bem próximo do ex-presidente do conselho estudantil. Isso deve ser útil para a Suzune também, né? — perguntou Ryuen, rindo. É claro que ele já deduzira que ela era a irmã mais nova de Manabu.
— Eu achei que você estaria sozinho, Ayanokoji. — Manabu não parecia particularmente surpreso ao ver Ryuen. O irmão Horikita observou brevemente que eu estava coberto de neve. Depois continuou, ignorando completamente o fato. — Suponho que Ryuen Kakeru seja um coconspirador. Vou ser breve. Não sabemos quem pode nos ver.
— Ei, espera aí. Quem está chamando de coconspirador? — reclamou Ryuen.
— Pelo menos ele não é um inimigo — respondi a Manabu.
— Ayanokoji, você se lembra da promessa que fez quando pediu minha ajuda mais cedo? — perguntou Manabu.
— Sim. Era sobre ajudá-lo a impedir Nagumo Miyabi, certo?
— Nagumo? O novo presidente do conselho estudantil? — perguntou Ryuen.
Ele estava ali porque eu queria que soubesse o que preocupava o irmão mais velho de Horikita.
— Parece que ele não gosta muito da forma de Nagumo fazer as coisas — expliquei.
— Entendi. Então você pretende usar o Ayanokoji para parar o Nagumo? Dizem que ele está dominando os veteranos do segundo ano. Isso significa que você precisa usar um aluno do primeiro ano para lidar com ele, hein? Me diga, Horikita, desde quando você está de olho no Ayanokoji? — perguntou Ryuen, falando com condescendência.
— Desde pouco depois que ele entrou. Parece que seu caminho para entendê-lo foi mais longo e árduo — respondeu Horikita, indiferente.
— Heh. Eu sou do tipo que gosta da jornada — disse Ryuen.
— E, no entanto, parece ter sido derrotado — retrucou Horikita Manabu.
Ryuen lançou um olhar feroz.
— Se acha que é tão fácil me derrotar, que tal levantar os punhos e descobrir?
— Dispenso, obrigado — respondeu Horikita calmamente.
— Heh. Imaginei — bufou Ryuen.
Ele se agachou — e então lançou um chute frontal, espalhando neve na direção do rosto de Horikita. Seu objetivo era cegá-lo. Ryuen golpeou o abdômen do oponente, mas Horikita bloqueou completamente o ataque, mesmo com a visão obstruída. Ele ajustou os óculos, impassível.
— Achei que você fosse só um nerd metido que só tinha inteligência de livro, mas você até que é bom — disse Ryuen — um elogio raro.
— Já disse que não escolhi lutar — repetiu Horikita.
— Qual é o problema? Se não gostou, pode vir pra cima de mim a qualquer momento. Ou será que você não luta contra alunos do primeiro ano? — provocou Ryuen.
— Você fez um amigo bastante fascinante, Ayanokoji. — Horikita tirou neve e sujeira das roupas.
— Bem, tanto faz. Suponho que você seja um pouco competente, Horikita-senpai — disse Ryuen, acrescentando um honorífico sarcástico.
— O mesmo para você. Não serve para fazer parte do conselho estudantil, mas suponho que tenha algum valor.
— Uau. Ser elogiado pelo ex-presidente do conselho estudantil. Que honra.
Quando terminaram a troca de provocações, o Horikita mais velho foi direto ao ponto:
— Quero que Ayanokoji preserve e mantenha a ordem nesta escola. Não me importa o meio utilizado. Ayanokoji, você pode escolher o que for mais conveniente — remover o presidente do conselho estudantil, Nagumo Miyabi, do cargo, ou simplesmente obstruir seus planos. Quando o terceiro semestre começar, o poder de Nagumo só vai crescer. Ele vai agir rapidamente.
— Então… como exatamente as coisas vão mudar?
— O conselho estudantil não é onipotente, claro. Mas possui certo grau de autoridade, diferente dos conselhos da maioria das escolas. Atualmente, sempre que surge um problema entre os alunos, o conselho estudantil toma a frente para resolvê-lo. Vocês dois devem saber disso.
A escola não havia presidido o julgamento de Sudou durante o incidente de agressão. Fora o conselho estudantil, liderado pelo irmão da Horikita, quem cuidara de tudo.
— O conselho estudantil também participa na elaboração dos exames especiais. O teste da ilha deserta do primeiro ano foi baseado, em parte, em uma proposta do conselho.
Isso significava que Nagumo poderia criar um exame especial verdadeiramente assustador.
— Pelo que parece, Nagumo só quer tornar esta escola chata e sem graça em algo divertido. A gente devia até agradecer — zombou Ryuen, dando uma risada.
— Se ele fizesse isso do jeito certo, sim. No entanto, as medidas pouco ortodoxas de Nagumo resultaram em muitas expulsões. Na verdade, dezessete alunos do segundo ano já foram expulsos. De acordo com suas entrevistas de saída, Nagumo esteve envolvido em mais da metade dos casos — disse Horikita.
Dezessete pessoas. Não era pouca coisa.
— Se ele consegue expulsar tantos alunos assim, não vai ser difícil dominar a escola — comentei.
— E agora que é presidente do conselho estudantil, pode controlar também os alunos do primeiro e do terceiro ano. Sua influência só vai crescer no terceiro semestre — continuou Horikita.
— Esse tal de Nagumo não está sendo só racional? Se esses dezessete eram inúteis, então é por isso que foram esmagados.
— A escola expulsa quem quebra regras. Isso é natural. No entanto… um líder não deveria se esforçar para fazer todo o corpo estudantil se formar sem deixar ninguém para trás? — rebateu Horikita.
— Está dizendo que nunca deixaria uma única pessoa ser expulsa, ó venerável Horikita-senpai?
— Estou falando do cenário ideal. Atualmente, nenhum aluno do primeiro ano foi expulso. Buscar um cenário em que isso continue assim não é ruim, concorda?
— Se você diz. E você, Ayanokoji?
— Acho que está tudo bem — respondi. — Mas também posso afirmar que Ryuen e eu não somos do tipo que busca um cenário perfeito.
— Heh. Exatamente.
Se alguém fosse idealista assim, provavelmente seria Ichinose Honami.
— Naturalmente. Não estou tentando convertê-los — disse Horikita. — Se puderem impedir Nagumo, isso basta.
Parecia simples. Se fosse realmente simples, porém, ele não estaria pedindo nossa ajuda.
— Bem, vou voltar antes que eu acabe sendo arrastado como coconspirador de verdade. — Pelo visto, Ryuen não tinha o menor interesse no drama do conselho estudantil. — Foi uma conversa interessante, mas qualquer coisa além disso é perda de tempo. Até mais.
Chamei Ryuen quando ele começou a se afastar.
— Pretende seguir sozinho daqui em diante?
— Poupe seu fôlego. Eu sempre estive sozinho — respondeu ele, marchando pela neve e deixando apenas essas palavras para trás.
— Por que deixou Ryuen ouvir tudo aquilo, Ayanokoji?
— Principalmente para afastar a atenção dele de mim — respondi.
Se Ryuen sentisse que precisava lutar contra o conselho estudantil, seria menos provável que viesse atrás de mim. Além disso, ele provavelmente se divertiria muito mais enfrentando alguém como Sakayanagi. Embora, é claro, ele não parecesse querer lutar com ninguém atualmente.
— Bem, você vai precisar de todos os aliados que conseguir. Nesse sentido, alguém familiar — como Ryuen — pode ser um trunfo — comentou Horikita.
— Familiar, é? — Fora isso, o que eu precisava agora era reunir o máximo de informações possível. — Eu mal tenho dados sobre os veteranos. Pode conseguir isso para mim?
— Claro. Já preparei tudo.
Horikita pegou o celular. Passei meu número, e recebi uma mensagem logo em seguida.
Enquanto eu lia, ele explicou:
— Vou dizer quais membros do conselho estudantil você deve observar. Um deles é o vice-presidente Kiriyama, da Classe B do segundo ano. Depois, o secretário Mizowaki. Em seguida, a secretária Tonokawa. Ambos são da Classe B e permanecem leais a Nagumo, aconteça o que acontecer. Também estão entre os poucos que Nagumo escuta. Agora, os outros membros.
Horikita entregou documentos com fotos anexadas, quase como currículos. Bastou uma olhada para eu deduzir de que classe cada um era. Como vários estudantes eram da Classe A, incluindo o vice-presidente, era fácil imaginar o verdadeiro poder de Nagumo. Era informação valiosa.
Não era simples entrar em contato com alunos de outras séries. Eu não podia me descuidar, especialmente quando o assunto envolvia o círculo do conselho estudantil. Horikita devia ter levado um bom tempo apenas para reunir tudo aquilo.
— As únicas pessoas que conhecem a verdadeira personalidade e as intenções de Nagumo provavelmente são os alunos do ano dele. Mesmo tendo servido com ele no conselho estudantil, eu próprio sei pouco sobre o sujeito — continuou Horikita.
— Mas os veteranos do segundo ano estão sob seu domínio, o que complica as coisas.
— Exatamente. Porém, existe um aluno do segundo ano que se opõe a Nagumo — disse Horikita.
— Quem?
— Infelizmente, não posso dizer nesta fase. Não posso garantir a segurança dessa pessoa se Nagumo descobrir.
— Ele pode tentar expulsá-la? É isso?
— Posso protegê-la enquanto ainda estudo aqui, mas depois que eu me formar, essa proteção desaparecerá.
Por que ele estava me contando isso?
— Quer me colocar em contato com esse aluno do segundo ano, não é?
— Quero mencioná-lo a essa pessoa como um estudante do primeiro ano capaz.
Imaginava. Se esse aluno do segundo ano precisava permanecer nas sombras, então eu deveria oferecer meu nome em seu lugar. Eu correria menos risco. Ainda assim, não queria que meu nome se espalhasse por aí.
— O que você faz a partir daqui é inteiramente sua decisão — acrescentou Horikita.
Normalmente, eu teria recusado. Porém, pessoas como Sakayanagi e Ryuen já haviam descoberto sobre mim. Sakayanagi, em particular, sabia muito a respeito da minha vida na Sala Branca. Quanto mais eu tentasse manter o segredo, mais poder eu lhe daria. Mesmo se recusasse o pedido de Horikita, eu não ganharia nada.
— Entendido. Pode falar sobre mim.
— Uma decisão ousada, mas a correta — respondeu Horikita. — Agora, resta saber se isso vai funcionar. Se você não se aliar a esse aluno, não conseguirá derrubar Nagumo.
— Certo. Vamos fazer do seu jeito, então.
Eu só queria ficar em paz. Por isso, tinha minhas reservas em me colocar sob o controle de Horikita. Se eu abandonasse suas instruções depois que ele se formasse, o que aconteceria?
— Você sabe o que eu estou pensando agora? — perguntei.
— Está pensando no que acontece depois que eu me formar — respondeu ele.
Impressionante.
— Não achei que você fosse tocar nesse assunto — acrescentou Horikita.
— Não consigo ler você — respondi. — Preciso saber.
— Não me importo se você cooperar apenas até minha formatura.
— Mas até lá… e se eu não conseguir vencer Nagumo?
— Eu não confiaria uma missão tão importante a alguém incapaz.
Será que o irmão da Horikita realmente pensava tão bem de mim? Ou estava apenas tentando me bajular? De qualquer forma, eu não conseguia decifrá-lo.
— Farei o possível, mas não posso garantir que conseguirei antes de você se formar — avisei.
— Entendo.
Por que esse cara dependia de alguém tão desconhecido como eu? Se ele se importava tanto com a Tokyo Metropolitan Advanced Nurturing High School, deveria ter recrutado alguém mais entusiasmado.
— Não espero que mova montanhas por causa de uma única dívida. Você também não pretende ir além do necessário. Estou errado? — disse Horikita, demonstrando entender tudo perfeitamente.
— Como ex-presidente do conselho estudantil, você ainda tem certa autoridade. Influência, na verdade — respondi. — Achei que tê-lo como aliado seria útil.
Enquanto eu estivesse matriculado aqui, enfrentaria inúmeros riscos; ter amigos influentes poderia ajudar.
— Pode usar meu nome à vontade, mas não espere muito de mim.
— Não pretendo. Talvez eu peça um último favor, mas apenas isso.
Com sorte, eu nem precisaria fazê-lo.
— Como quiser. Derrubar Nagumo não será simples, afinal.
— Vou começar a pensar em uma estratégia. Mas antes disso, quero saber algo sobre sua irmãzinha.
— Pode usar Suzune como quiser — respondeu ele.
— Não é isso. Eu a observei em ação por quase um ano, e acho que ela possui certo talento. Como você não percebeu? Vocês cresceram juntos.
— Talento? Em que sentido acha que ela é talentosa? Nos estudos? No físico? — ele questionou.
Ao menos ele admitia que ela tinha essas habilidades.
— Quero dizer de forma geral. Ela é desajeitada em alguns aspectos, mas no geral é muito competente.
— Minha irmã é incompetente. Sempre correu atrás da minha sombra. Tornou isso seu objetivo. É tolice — cuspiu ele.
— O problema é essa determinação dela? — indaguei.
— Interprete como quiser. Isso não muda nada.
— É, provavelmente está certo — admiti. Ainda assim, eu começava a entender por que o irmão de Horikita era tão duro com ela. — Se eu dissesse que sua irmã está prestes a entrar no conselho estudantil, você ajudaria também?
— Eu cooperaria.
Com isso em mente, comecei a formular uma estratégia para derrubar Nagumo.
— Tenho os dados — falei. — Entendo o que está em risco. Agora, só lhe resta esperar.
— Muito bem. Lembre-se: o futuro desta escola depende de você.
Colocando sobre mim toda essa pressão absurda, o velho Horikita foi embora.
*
Após aquele encontro incomum, voltei ao dormitório. Ali, fiquei à toa até o meio-dia, navegando na internet e lendo alguns livros. Meu próximo passo foi enviar uma mensagem para Horikita. Com a promessa de receber a atenção de seu irmão mais velho, ela provavelmente consideraria entrar para o conselho estudantil.
"Preciso falar com você."
Horikita provavelmente estava trancada em seu quarto. No fim das contas, era praticamente uma solitária — além disso, não parecia gostar muito do frio.
Poucos minutos depois de eu enviar a mensagem, recebi uma resposta:
"Não me importo. Podemos fazer por telefone? Ou precisa ser pessoalmente?"
"Se possível, pessoalmente. Pode ser?"
"Estou em um café agora. Venha até aqui e eu escuto."
Ao contrário da imagem isolada que eu tinha dela, Horikita estava, na verdade, fora. Sair de novo seria chato, mas quanto antes eu resolvesse isso, melhor.
"Estou indo."
Enviei a resposta e coloquei meu casaco.
Quando cheguei ao saguão, vi Ike, Yamauchi e até Sudou. Eles não pareciam ter me notado enquanto saíam, e eu não disse nada — apenas segui atrás, ouvindo a conversa deles.
— Então a Horikita te dispensou no convite de Natal? Cara, que diabos, Ken?
— Cala a boca, Haruki. Só deixa isso pra lá.
— Cara, a gente vai terminar o ano sem namorada mesmo, hein? Eu me sinto vazio por dentro.
— Tsc. Eu só vou com calma. Não é como se a Suzune tivesse namorado ou algo assim. É só… sei lá, ela não parece interessada nessas coisas de romance. Não vou apressar nada.
Aparentemente, Sudou havia dado em cima da Horikita, mas levado um fora espetacular. Uma derrota honrosa. Ainda assim, estava longe de desistir; ele havia decidido continuar tentando.
— Tá apaixonadão mesmo, hein? Ei, Kanji, que tal virar a noite no karaokê? Vamos cantar músicas tristes de Natal como se não houvesse amanhã!
— Hã? O-O quê?
— Como assim "o quê"? Eu disse pra gente ir cantar karaokê a noite inteira.
— Ah, é… foi mal, Haruki. Hoje eu meio que não posso.
— Hã? Não pode? Você não tem nada pra fazer na véspera de Natal, né? O único encontro quente que você tem é com a sua mão direita.
— Olha, eu realmente tenho coisa pra fazer, cara.
Ike estava claramente agitado, mas não dizia o motivo de não poder ir. Sentindo cheiro de sangue, Sudou atacou:
— Ei, Kanji, não me diga que…
— N-Não é isso — gaguejou Ike. Ele baixou o olhar. — Olha… eu só vou jantar com uma amigo, só isso.
Dava pra perceber que esse "amigo" não era um homem. Uma cena de ontem me veio à mente.
— Quem é?! Com quem você vai sair?! Anda, fala! — gritou Yamauchi, perdendo a calma e agarrando Ike pela gola.
— N-Não é nada demais, mas… Shinohara.
— Shinohara? Pera… você quer dizer a da nossa classe? Aquela Shinohara?!
Ike assentiu levemente.
— Cara, por que a Shinohara? Vocês dois vivem brigando! — disse Sudou, incrédulo. Yamauchi estava igualmente chocado. Ike e Shinohara eram um par totalmente inesperado.
— Eu já disse, é só um jantar — respondeu Ike. — Qual é, não tem como eu gostar de uma garota como ela, né? Ela só teve uns problemas um tempo atrás e eu ajudei. Ela disse que queria me agradecer.
— Hã, não, cara. Não sei sobre esse negócio de "agradecer", mas é véspera de Natal!
— Não é nada demais! — gritou Ike. — Quero dizer, eu e a Shinohara saindo juntos? Sem chance. Nem se o mundo estivesse acabando!
— Não acredito em você! Ken, vamos seguir eles!
— Cara, para com isso! Se rolar boato de que eu tô com uma feiosa que nem a Shinohara, vai ser um saco! — esbravejou Ike.
Ike e Shinohara, hein? Talvez até fossem um casal bem compatível. Claro, quem saberia como isso ia terminar?
*
A maioria dos estudantes passava o tempo no Keyaki Mall durante as férias de inverno, e o lugar estava lotado. Como mais de 80% dos clientes do café eram mulheres, não encontrei Horikita de imediato. Depois de procurar um pouco, finalmente a avistei.
— Cheguei.
— Foi rápido — ela respondeu. Percebi que ela não estava sozinha.
— Bom dia, Ayanokoji-kun — cumprimentou Kushida.

Essa era uma dupla totalmente inesperada. Elas tinham que estar com mais alguém. Olhei ao redor.
— Não tem mais ninguém com a gente — disse Horikita, percebendo minha confusão. Eu imaginava que Hirata estaria ali como mediador, mas aparentemente não.
— Sem querer soar estranho… mas quem das duas tomou a iniciativa desse encontro? — perguntei.
Kushida sorriu suavemente.
— Fui eu. Convidei a Kushida-san — disse Horikita.
Eu não esperava por isso, mas fazia sentido. Horikita estava tentando fazer as pazes com Kushida, e se encontrar em um local público colocava limites no que Kushida poderia dizer ou fazer.
Horikita havia jogado muito bem.
— Aliás, Horikita-san, como andam as coisas com o Sudou-kun ultimamente? — perguntou Kushida.
— O que você quer dizer?
— Bem… vocês não vão passar o Natal juntos?
— Eu jamais faria isso — disse Horikita, de forma seca.
— Sério? O Sudou-kun não te chamou pra sair?
— Isso não tem nada a ver com o assunto, tem?
Kushida havia tentado usar a minha chegada para mudar de assunto, mas Horikita não deixaria. Ela podia se dar ao luxo de ser direta — afinal, tinha duas vantagens: havia vencido a aposta anterior, e o café estava cheio de gente.
— Até quando você pretende ficar aí parado, Ayanokoji-kun? Se tem algo a dizer, diga logo.
Horikita queria claramente continuar conversando com Kushida.
— Desculpa. Não achei que teria outra pessoa aqui. Fica para outra hora.
Porém, para minha surpresa, Kushida parecia aprovar a minha presença.
— Vamos, Horikita-san. Que tal convidarmos o Ayanokoji-kun para tomar um chá com a gente?
Eu travei no lugar, mas não me sentei, sentindo a pressão do silêncio irritado de Horikita.
— Talvez outra hora — falei, tentando escapar.
— Espere. Diga o que veio dizer — respondeu Horikita.
— Não, não é nada.
— Tem algo que você não quer que a Kushida ouça? — ela perguntou, adivinhando o que eu estava pensando.
— É verdade, Ayanokoji-kun? — Kushida fez uma expressão triste.
Eu pretendia negar, mas Horikita me cortou:
— Kushida é da nossa classe. Não há necessidade de segredos.
— Isso não tem nada a ver com a classe. É entre mim e você, Horikita — respondi.
— Entendo. Então isso tem a ver comigo, certo? Muito bem, diga logo.
— Prefiro não.
— Se você não disser agora, eu não vou ouvir em nenhum outro momento.
A determinação dela era sólida. Talvez pensasse que total transparência ajudaria sua relação com Kushida. Kushida, por sua vez, sorria docemente como sempre. Um sorriso capaz de fazer qualquer um querer acreditar na sua gentileza, apesar da inquietação que causava.
Eu poderia tentar inventar alguma mentira convincente, mas duvidava que Horikita fosse receptiva à minha proposta real depois de descobrir.
— Nesse caso, vou falar direto — anunciei.
— Ótimo.
Sem rodeios:
— Você quer entrar para o conselho estudantil?
— Desculpa? Acho que não estou entendendo — disse Horikita, inclinando a cabeça. — Por que está perguntando isso?
— Eu tenho meus motivos.
— Continue.
— Hã, isso é seguro, Horikita-san? — perguntou Kushida.
— O que seria seguro?
— Eu ouvir isso. Se for sobre o conselho estudantil, pode envolver seu irmão.
— Você conhece meu irmão desde o fundamental. Já é meio tarde pra se preocupar com isso.
Respirei fundo e me sentei à mesa.
— Uma certa pessoa está com um desejo ardente de te ver no conselho estudantil.
— Uma certa pessoa?
— Seu irmão.
Tecnicamente, não era bem isso que o irmão de Horikita havia dito. Ele afirmara que eu poderia usar Horikita como quisesse. Mas, para fazê-la agir, eu precisava balançar seu irmão como uma isca.
— Por que meu irmão diria que quer que eu entre no conselho estudantil? Isso é inacreditável — disse Horikita, desanimada.
— É verdade.
— Se fosse mesmo verdade, meu irmão deveria ter me dito. Por que ele faria isso por meio de você?
— Ele é do tipo que fala as coisas diretamente?
— Não. Mas ele também não é do tipo que me pediria para entrar no conselho estudantil. — Ela simplesmente não acreditava. Seria a relação deles tão ruim assim? — Não tenho intenção de ouvir suas mentiras.
— Se acha que estou mentindo, por que não confirma você mesma? — perguntei.
— Você está sendo realmente teimoso.
— Teimoso ou não, apenas entre em contato com ele.
— Hã… você sabe o número dele?
— Não. Você não sabe? Sendo a irmã dele?
— Eu não sei.
— E se tentarmos entrar em contato com a Tachibana-senpai? — sugeriu Kushida.
— Tachibana? A secretária do meu irmão?
— Sim. Eu já conversei bastante com a Tachibana-senpai. Sei como contactá-la.
Como eu imaginava, Kushida fazia amizades nos lugares mais improváveis.
— Você tem mesmo certeza de que quer que eu ligue pra ele, Ayanokoji-kun? Se você estiver mentindo, as consequências serão sérias.
— Faça como quiser.
O irmão de Horikita entenderia que isso fazia parte da minha estratégia e me acobertaria. Ele confirmaria minha história.
— Obrigada, senpai. Certo, entendi. Tchau — disse Kushida, após terminar a ligação com a Tachibana. Ela desligou e mexeu no celular.
O celular de Horikita vibrou. Kushida havia encaminhado o contato.
— Obrigada, Kushida-san.
— Ah, de nada.
Manter aquela postura amigável diante da Horikita devia ser exaustivo para Kushida.
Horikita olhou fixamente para a tela do celular. Qualquer um imaginaria que ela ligaria imediatamente, mas seus dedos não se moviam. Ela segurou o aparelho com as duas mãos.
— Uff… — Horikita soltou um suspiro profundo. Estar tão nervosa para ligar para um membro da própria família definitivamente não era normal. — Se isso for mentira, prepare-se.
— Não precisa me lembrar — respondi.
Minha confiança clara a deixou ainda mais inquieta. Eu podia perceber que ela começava a suspeitar que talvez eu estivesse dizendo a verdade.
Reunindo toda a coragem, Horikita apertou o botão de ligar. Levou o celular ao ouvido. A pessoa do outro lado deveria ter atendido, porque o rosto dela ficou ainda mais tenso.
— C-Com licença. É Horikita Suzune. — Horikita falou de forma formal, como se estivesse conversando com um estranho. — Eu pedi o contato de você para a Tachibana-senpai… hã, bem, para poder ligar para você, onii-san.
Com uma expressão confusa e aflita — algo que parecia completamente fora de lugar em seu rosto — Horikita fez ao irmão a tão importante pergunta sobre o conselho estudantil. Embora eu não conseguisse ouvir, parecia que ele confirmava a minha versão dos acontecimentos.
— Sim. M-Muito obrigada. Até mais.
Horikita encerrou a ligação e lançou para mim um olhar intenso.
— Eu te disse a verdade, não disse? Por que essa cara de brava? — perguntei.
— Por que você é o intermediário? Isso é o que me deixa perplexa.
Céus, como ela era desconfiada.
— Você vai entrar para o conselho estudantil, Horikita-san? — perguntou Kushida.
— Não, não vou.
— Espera aí. Seu irmão acabou de te dizer para entrar, não foi? — perguntei.
— Ele disse que seria bom para mim… mas não consigo imaginar que isso seja verdade.
Mesmo que eu pressionasse Horikita, não sairia nada de útil disso. A essa altura, eu só queria parar de dar informações para Kushida.
— Entendi. Bem, espero falar com você mais tarde.
— Continuar essa conversa não seria uma perda de tempo?
— Provavelmente.
Levantei-me.
— Até mais, Ayanokoji-kun.
Quando Kushida falou comigo com tanta gentileza, percebi que havia algo estranho nisso.
*
Já eram dez horas da noite. A véspera de Natal escapava com cada tique do relógio. Em vez de sair para festejar com meus amigos, fiquei no quarto assistindo TV sozinho. Uma transmissão ao vivo mostrava pessoas em Tóquio comemorando, cheias do espírito natalino.
Troquei os canais, mas todos os programas eram relacionados ao Natal. Encontrei um ranking de presentes para dar a garotas — embora pensar nisso na véspera fosse um pouco tarde — e também um ranking de presentes para crianças, mas nada pareceu particularmente interessante.
Desliguei a TV e liguei o computador, procurando algo que não tivesse relação com o Natal. Rolei pelas notícias aleatoriamente: acidentes, incidentes, matérias sobre atletas estrangeiros e outras coisas diversas. Tirando o fato de ser quase Natal, era um dia como qualquer outro. Nada realmente mudava.
A campainha tocou. Não o interfone do saguão — a campainha da minha porta.
— Já vou.
Fui até a entrada.
— B-B-Boa noite, K-Kiyotaka-kun! — gaguejou uma voz familiar quando destranquei a porta.
— O que houve, Airi? Já está bem tarde.
Passava das dez, e pela aparência dela, parecia ter acabado de voltar ao dormitório.
— Você estava fora? Achei que a reunião fosse só amanhã.
— Sim, é isso mesmo. Eu estava fazendo outra coisa. Estive com a Haruka-chan desde as duas da tarde.
— Entendi. — Era bastante tempo para passar juntas. — Se divertiram?
— Estou um pouco cansada, mas sim.
— Que bom ouvir isso.
Provavelmente eu não precisava me preocupar com Airi. Pelo menos, estando com alguém do nosso grupo, ela estava segura.
— A Haruka-chan me contou que você tem algo amanhã, Kiyotaka-kun. Isso significa que você não vai poder ir com a gente.
Ah, é verdade. Eu realmente tinha comentado isso com a Haruka. Sair com a Airi provavelmente fora a maneira dela de "lidar" com a situação.
— Sim, tenho planos. Desculpa não poder ir com vocês — disse a Airi.
— Não, tudo bem. Para falar a verdade, eu planejava te dar algo amanhã, mas… — Airi me entregou um pacote amarrado com uma fita vermelha fofa. — Hm, bem… eu espero… que você goste.
Um presente de Natal.

— Para mim? — perguntei.
— S-Sim! E-Eu, hã, também comprei um presente para todo mundo.
Nesse caso, era fácil aceitar. Peguei o presente, pensando no que normalmente se fazia nessas situações. Eu deveria abrir agora, ou depois que Airi fosse embora?
Enquanto eu hesitava, Airi falou:
— E-Eu não me importo se você abrir agora.
Bem, isso respondia à pergunta. Dentro do pacote, encontrei um par de luvas que pareciam bem quentinhas.
— Eu pensei, já faz um tempinho, que você podia usar luvas, Kiyotaka-kun. Você não tem um par, tem? — ela perguntou.
— Eu estava pensando em comprar algumas. Obrigado, Airi.
— Heeheehee! De nada — respondeu ela.
As luvas, de um azul simples, tinham um design discreto — bem mais do meu gosto do que aquelas com padrões que eu via outros estudantes usando. Coloquei-as na hora — era a primeira vez que eu usava luvas, embora, claro, não tenha dito isso. Depois de colocar a da mão esquerda, e depois a da direita, flexionei os dedos várias vezes para me acostumar.
Airi me observava feliz.
— C-Como ficaram? — ela perguntou.
— São do tamanho perfeito. E bem quentes.
Se eu tivesse comprado um par para mim, teria escolhido exatamente essas.
— Que bom — disse Airi. — Bom, hã, desculpa aparecer tão tarde. Boa noite, Kiyotaka-kun.
Airi se virou para ir embora. Eu não me importaria de oferecer uma xícara de chá ou algo assim, mas já era bem tarde. Além disso, ter uma garota no meu quarto na véspera de Natal poderia me causar problemas.
Enquanto seguia para o elevador, Airi olhou para trás uma vez, talvez por ter sentido meu olhar. Acenou de leve, depois entrou no elevador.
Depois de vê-la partir, voltei para dentro.
— Quando seria um bom momento para expressar minha gratidão? — murmurei.
Se você recebia um presente no Dia dos Namorados, devolvia outro no White Day. Isso eu sabia. Mas e presentes de Natal? Eu teria que pesquisar isso depois.
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