Ano 1 - Volume 7.5
Capítulo 2: O Dia Desastroso de Ibuki Mio
ERA MANHÃ de vinte e três de dezembro, dois dias antes do meu encontro de Natal com Satou, quando fui sozinho ao Keyaki Mall com um objetivo específico. Entrei rapidamente em uma loja e procurei pelo que precisava.
— Nunca usei esse tipo de coisa — murmurei.
Depois de pesquisar na internet, ler avaliações e perguntar a opinião de um vendedor, escolhi duas unidades do item em questão. O atendente colocou tudo em uma sacolinha de papel, eu paguei e saí da loja admirado com o preço absurdo. Com a sacola na mão, caminhei de volta rumo ao dormitório. Só precisava pegar mais algumas coisas na loja de conveniência, e meus planos estariam prontos. Depois disso, eu iria ao Keyaki Mall assistir a um filme que já estava quase saindo de cartaz. Esse era o plano para o dia.
Porém, meu plano começou a desmoronar quando encontrei uma certa pessoa.
Antes de chegar à saída do shopping, uma garota se aproximou lentamente. Ela caminhava com uma bengala.
— Bom dia para você, Ayanokoji-kun — disse Sakayanagi Arisu, estudante do 1º ano da Classe A, filha do diretor da escola, e a única que conhecia meu passado na Sala Branca.
O campus parecia enorme, mas as áreas realmente acessíveis aos alunos eram bem compactas. Você podia encontrar praticamente qualquer pessoa ao sair para dar uma volta.
— Você saiu cedo hoje, hein? Sozinha — comentei. Normalmente, Sakayanagi tinha um séquito ao redor, mas hoje estava sem nenhum deles.
— Vim encontrar a Masumi-san, mas ela ainda não chegou — respondeu Sakayanagi. Então notou a sacola que eu carregava. — Você está se sentindo mal?
— Ah, não, estou ótimo. Saudável como um cavalo.
Abri os braços para mostrar que estava bem, depois coloquei a pequena sacola no bolso.
— Fico feliz em ouvir isso. Se você não estiver ocupado, gostaria de passar um tempo conversando? — perguntou ela.
— Vou recusar. Obrigado. Você chama muita atenção, e eu não gosto disso — respondi, sem fingir interesse.
— Heh. Que pena.
De qualquer forma, era óbvio que Sakayanagi não gostava da minha companhia. Ela só queria uma oportunidade de me provocar. Se tivesse intenção de revelar meu passado na Sala Branca, já teria feito isso. Mas não contou a ninguém — nem mesmo a Ryuen.
Provavelmente ela planejava lidar comigo pessoalmente.
— Nesse caso, presumo que ficar aqui conversando não seja um problema? — perguntou.
— Quer conversar aqui? Por algum motivo específico?
— Ele fica tão bravo quando eu o chamo assim, mas… o Dragon-boy estava atrás de você, não estava? "O mentor que controla a Classe D", foi como ele o descreveu, na verdade. O que aconteceu ali? — indagou.
Somente as pessoas envolvidas deveriam saber o que aconteceu no terraço, e como tudo terminou. Ainda assim, não seria estranho se ela tivesse obtido algumas informações.
— Parece que houve um desentendimento interno entre os alunos da Classe C. As coisas ficaram bem feias. Você sabia disso? — acrescentou Sakayanagi.
Eu sabia. A história oficial era de que a Classe C sofrera uma "disputa interna". Com certeza Sakayanagi já tinha ouvido falar.
— Não sei muitos detalhes — respondi.
— Dizem que o Dragon-boy brigou com seus subordinados. Mas, de alguma forma, essa história não me convence. Eu tinha quase certeza de que você estava envolvido, Ayanokoji-kun.
— Por que eu me envolveria nisso? Você está assumindo que eu sou esse "mentor", né? Acho tudo isso surpreendente. Quero dizer, pensei que a Classe C fosse bem organizada.
— "Bem organizada", hmm?
— Bom, eles são eficientes, mesmo que isso aconteça porque vivem sob um ditador — falei.
— Entendo. Nesse caso, parece que você realmente não teve nada a ver com o incidente, Ayanokoji-kun. Pelo que vejo, você não está ferido. — Sakayanagi observou minhas expressões e movimentos com atenção, mas não tiraria nada dali. — A história sobre a briga interna pode ser verdadeira. Contudo, Ryuen não parece nem perto de fazer um movimento contra a Classe D.
— Provavelmente porque há vários candidatos talentosos para ser o "mentor" na Classe D. Koenji, em particular, é muito capaz — respondi.
— Entendo. De fato, Koenji parece um oponente adequado para o Dragon-boy. Acho que vamos descobrir a verdade quando o terceiro trimestre começar — disse ela.
— Podemos mudar de assunto?
— Claro.
Sakayanagi não comentou a franqueza do meu pedido.
— Quando vi você alguns dias atrás, achei estranho que estivesse se dando tão bem com a Ichinose. Não imaginei que seria tão amigável com alguém de outra classe — comentei. Lembrei de Sakayanagi e Ichinose caminhando juntas; pareciam próximas. Você não passa um dia de folga com alguém se não se dá bem com essa pessoa.
— Heh — ela riu baixinho. — Por favor, pare com as piadas. Ela e eu não somos amigas, sabe.
— Como assim?
— Na verdade, ela acha que você e eu somos próximos, Ayanokoji-kun. — Sakayanagi fez uma pausa. — Como a Classe C parece obcecada com a Classe D, fiquei com um pouquinho de ciúmes. Então, para passar o tempo, gosto de brincar um pouco com a Classe B. — Pelo visto, atormentar seus oponentes era seu entretenimento. — Quando o terceiro trimestre começar, você vai brincar comigo?
— Desculpe, mas não. Brinque com a Horikita e os outros, se quiser.
— Ela não é uma oponente adequada para mim.
— Então arrume briga com o Ryuen ou com os veteranos. Eu preferia que você apenas me ignorasse.
— Isso é impossível. Quero lutar com você o quanto antes, Ayanokoji-kun. — Ela não recuava. Meu ato humilde não funcionaria com ela. Desde que sabia sobre a Sala Branca, ela não desistiria.
— E se eu simplesmente te ignorar?
— Tem certeza de que pode se dar a esse luxo? Se você não for meu oponente, Ayanokoji-kun, terei de encontrar outro. E não poderá me culpar se a Classe B, com quem você tem colaborado tão bem, acabe desmoronando.
— Então você já escolheu seus peões, hein? — Essa conversa estava começando a ficar interessante.
— Até que você esteja pronto para jogar, Ayanokoji-kun, vou me divertir um pouco com a Classe B. Quem sabe? Se aquela classe inteira desmoronar, talvez você e o resto da Classe D subam uma posição.
Eu não estava pronto para assumir que Sakayanagi realmente pretendia fazer tudo aquilo. Talvez fosse provocação, ou apenas seu jeito de se divertir. Mas, se ela desviasse os olhos de mim e focasse em Ichinose, talvez me deixasse em paz.
— Você acha mesmo que pode vencer a Ichinose e a classe dela? — perguntei.
— O que exatamente quer dizer?
— A Classe B trabalha unida desde o começo do ano, enquanto os alunos da Classe A vivem se puxando para baixo. Mesmo que você argumente que é mais capaz, sua credibilidade é… questionável.
— Entendo. Então, por ser tudo hipotético, você acha que pode dizer qualquer coisa desagradável que queira — disse Sakayanagi. Sua calma começou a rachar um pouco.
Adicionei mais lenha à fogueira.
— Também descobri sua verdadeira identidade. Você é a filha do diretor da escola.
— Entendo. E como teria conseguido essa informação, hein? — Sakayanagi mordeu a isca.
— Isso não importa. O que importa é que a influência do seu pai certamente teve algum papel na sua designação para a Classe A. Não posso afirmar que você foi escolhida apenas por mérito. Você pode se gabar de que vai derrotar Ichinose, mas é difícil acreditar nisso.
Eu apostava que Sakayanagi detestava ter suas habilidades questionadas.
— Então como explica o fato de que muitos na minha classe me apoiam? — retrucou.
— Ter apoio da sua classe não diz nada necessariamente sobre suas habilidades. Até Ryuen e Ichinose, que você considera inferiores, têm o apoio de seus colegas. E se falarmos da Classe D, então o Hirata é o melhor exemplo. A capacidade de unir pessoas não garante competência em outras áreas — argumentei.
Sakayanagi arremessou a bengala no chão. O som ecoou pelo corredor.
— Parece que truques simples não funcionam contra um oponente como você — disse ela. — Truques transparentes não servem. Peço desculpas pela grosseria. Porém, Ayanokoji-kun, não acha que está ficando um pouco arrogante? Acho que você está embriagado pelo próprio sucesso — o primeiro sucesso da Sala Branca. Não acha?
Nunca havia pensado por esse ângulo. Se eu tivesse que me definir como sucesso ou fracasso, seria inegável: eu era um sucesso. Caso contrário… aquele homem, meu pai, não teria tanta obsessão por mim.
— Você está enganado em uma coisa, Ayanokoji-kun. Você acredita que a Sala Branca fez de você alguém extraordinário, não é? Sem dúvida, a quantidade de conhecimento que você acumulou desde a infância é impressionante. E, embora tente esconder suas habilidades aqui na escola, não tenho dúvidas sobre seu nível acadêmico e atlético. Porém, esta instituição existe para dar aos "desfavorecidos" a chance de se tornarem gênios, se possível. Pode-se dizer que gênios naturais não precisam de um lugar como este — explicou Sakayanagi.
Era exatamente isso que meu pai acreditava: que genética não importava, que grandeza era fruto da educação moldada desde o nascimento. Controlar o sono, a alimentação, cada aspecto da criação… assim se produzia um indivíduo superior. Isso, para ele, era a única forma de gerar a mão de obra capaz de conduzir o Japão ao futuro.
— Por que você é tão hostil comigo? — perguntei.
— Derrotar você, Ayanokoji-kun, provará que nenhum humano comum pode superar um gênio nato. Não importa quanto esforço alguém dedique; somos de espécies diferentes. Essa é a minha hipótese.
Então ela não tinha um pingo de dúvida sobre sua própria genialidade, hein? Foi nesse momento que Kamuro apareceu atrás de nós. Devia estar procurando por Sakayanagi.
— Então era aqui que você estava? Não deveria ter saído do ponto onde combinamos de nos encontrar. Você é quem tem dificuldades para andar, afinal — disse Kamuro. Ela percebeu minha presença, mas evitou olhar diretamente para mim.
— Peço desculpas. Cheguei cedo e quis dar uma pequena volta — disse Sakayanagi.
— Nesse caso, me avise antes.
Com Kamuro ali, nossa conversa estava praticamente encerrada. Sakayanagi não tinha o menor interesse em tornar minhas habilidades de conhecimento público. Detestaria que outros resolvessem vir atrás de mim e tirassem dela o "alvo".
— Isso pode parecer meio repentino, Masumi-san — disse Sakayanagi —, mas o que acha de Ichinose Honami-san?
— É, realmente repentino — disse Kamuro, confusa. Minha presença certamente deixava a pergunta ainda mais estranha.
— Veja, eu estava discutindo com este jovem aqui sobre como "conquistar" Ichinose-san — explicou Sakayanagi.
— Conquistar, é? Bem, se quer minha opinião, Ichinose é uma aluna exemplar. Ela realmente se importa com os outros e é muito gentil. É isso que quer saber?
— Sim. Que ela seja uma aluna exemplar é evidente, não é? Sempre fica entre as melhores nas provas e lidera bem sua classe. O que acha, Ayanokoji-kun?
— Concordo — respondi.
— Você acha que derrotar alguém como Ichinose-san seria simples, Masumi-san? — perguntou Sakayanagi.
— Difícil, né? A Classe B é bem unida. Eles não vão desmoronar com pressão externa. Suborno não funciona com a Ichinose. Você poderia tentar um ataque direto, mas mesmo que a nossa classe cooperasse, duvido que conseguiríamos vencer.
— De fato. À primeira vista, conquistar Ichinose-san parece difícil.
— À primeira vista? Quer dizer que não é?
— Não. Todos têm um ponto fraco, até Ichinose-san. Um tendão de Aquiles — disse Sakayanagi, rindo. — O fato de ela ser uma aluna modelo, como vocês mesmos reconheceram, é inegável. Mas vocês podem afirmar com certeza que essa personalidade gentil e prestativa é realmente quem ela é? Não acham que há outro lado? Que, no fundo, ela despreza os outros?
— Sei lá. Acho que a maioria das pessoas é assim, pelo menos um pouco. Dizem coisas bonitas, mas não fazemos ideia do que pensam de verdade. E isso não é necessariamente ruim. É natural agir por interesse próprio. Mas, no caso da Ichinose… acho que ela é genuinamente boa — disse Kamuro.
Ela tinha razão: todos nós tínhamos um eu secreto. Geralmente, essa face oculta não era tão extrema quanto a da Kushida, mas todo ser humano carregava algum lado sombrio. No entanto, Ichinose Honami parecia não ter sequer um traço desse tipo.
— Você não acha que ela olha os outros de cima? — insistiu Sakayanagi.
— Não. Ela é extremamente gentil — gentil sem esfregar isso na cara de ninguém.
— Então está dizendo que ela é estúpida de tão boazinha?
— Sim. Exatamente.
Sakayanagi sorriu.
— Nesse caso, você e Ichinose-san são muito parecidas, não acha, Masumi-san?
— Hã? Como assim? Somos totalmente diferentes. Tá sendo sarcástica?
— Nada disso. Talvez você se surpreenda com essa avaliação, mas você e Ichinose-san são impressionantemente semelhantes — disse Sakayanagi, enquanto Kamuro parecia ficar ainda mais irritada. — Quero dizer que Ichinose tem o mesmo problema que você, Masumi-san.
— O mesmo problema? Qual? — perguntou Kamuro.
Sakayanagi olhou para mim, como se quisesse confirmar se eu havia entendido. Como eu não fazia ideia do que ela estava falando, balancei a cabeça.
— Não entendeu? O seu segredo, aquele que deixei guardado, é o mesmo que o dela. Bem, o problema é o mesmo, mas teve desfechos diferentes — disse Sakayanagi.
Kamuro pareceu compreender.
— Então você está dizendo que a Ichinose fez a mesma coisa que eu? — Ela parecia chocada.
— Algo assim não é tão incomum — respondeu Sakayanagi.
— A Ichinose te contou isso? Tem certeza? — Kamuro perguntou. Normalmente calma e composta, ela claramente estava abalada.
— Naturalmente. Ela me contou tudo em detalhes. Abriu seu coração para mim. Eu apenas fiz uma leitura fria — disse Sakayanagi.
"Leitura fria" era uma técnica de conversa que permitia extrair informações observando pequenos sinais e fazendo perguntas direcionadas. Talvez Sakayanagi tivesse reunido dados antes e ido preparada.
— Seres humanos mentem para parecer melhores. Você e Ichinose-san são apenas a ponta do iceberg. As pessoas são criaturas fascinantes. Não importa o quão excepcionais sejam, escorregam com facilidade — disse Sakayanagi, olhando diretamente para mim. — Receio que essas sejam todas as pistas que posso dar por enquanto sobre Ichinose-san. Pretendo esmagá-la completamente. Espero que consiga descobrir o motivo.
Sakayanagi queria claramente me arrastar para um jogo, mas eu não tinha interesse. Ela que se divertisse sozinha.
— Bem, então vamos, Masumi-san? — disse ela. As duas começaram a se afastar. Eu também fui, passando ao lado delas. Sakayanagi então falou de novo:
— Você não disse nada, Masumi-san.
— Hã? Sobre o quê?
— Você viu eu e Ayanokoji-kun conversando. Estávamos discutindo estratégias. Mesmo assim, você não perguntou nada. Normalmente, você despejaria perguntas sem parar, mas…
— D-Do que você tá falando? Eu só não tô interessada, só isso.
— É mesmo? Você costuma tagarelar sobre qualquer coisa que percebe. Mas dessa vez, não mostrou curiosidade. Por quê? — Kamuro permaneceu em silêncio. Sakayanagi continuou: — Será que você já tem informações sobre Ayanokoji-kun? E, se tem, de onde as tirou? É possível que vocês dois tenham tido uma conversa… da qual eu não saiba?
Como um cão farejando uma pista, Sakayanagi lançou um olhar penetrante na minha direção. Eu não disse nada, nem olhei para ela. Se ela tivesse um problema, que fosse com Kamuro.
— Heh — ela riu. — Bem, como estou de ótimo humor hoje, não vou insistir. Tenha um bom dia, Ayanokoji-kun.
Com isso, Sakayanagi foi embora, arrastando Kamuro junto. Kamuro realmente tinha uma vida difícil, sendo usada como peão até mesmo nas férias de inverno. Fosse o que fosse que Sakayanagi sabia sobre ela, devia ser sério.
Talvez tivesse sido bom termos tido essa conversa. A parte sobre Ichinose e Kamuro terem o mesmo problema, especialmente, me chamou atenção.
Sakayanagi não ganharia nada mentindo para mim. Mas eu também não ganharia nada aceitando tudo o que ela dizia como verdade. Se o segredo viesse à tona, e Ichinose caísse em desgraça… bem, isso seria conveniente.
— Será que devo contar isso à Horikita? Hmm…
Horikita estava aliada a Ichinose no momento, e talvez quisesse apoiá-la. Eu, pessoalmente, achava melhor deixar tudo quieto. Mas a líder da classe decidia, e essa líder era Horikita. Talvez eu entrasse em contato com ela.
Depois. Não era urgente. Com Sakayanagi fora de cena, segui até o dormitório. Estava pronto para cumprir meu objetivo inicial: entregar os itens que comprara.
Mas meu plano foi interrompido mais uma vez.
Ao me aproximar da saída do Keyaki Mall, cruzei com uma garota bastante energética. Ela não me viu, parecia apressada — quase correndo. Entrou em uma loja para encontrar a amiga, e então desapareceu. Depois de observá-la, decidi desistir temporariamente de voltar ao dormitório.
— Acho que vou ver um filme — murmurei.
*
Eu ia ao cinema com certa frequência nos meus dias de folga. Alguns talvez achassem desperdício gastar pontos em filmes, mas eu considerava importante ter vários interesses, e cinema estava virando um hobby. Além de relaxar, me permitia adquirir novos conhecimentos, entrando em contato com ideias, culturas e pontos de vista diferentes.
Dito isso, o filme que eu assistiria hoje não era nenhuma obra-prima premiada. Nem o tipo de romance açucarado que casais lotavam durante as festas. Era um filme de ação com tiroteios, focado em uma briga entre gângsteres de cidade pequena.
Às vezes, eu só queria desligar o cérebro e me divertir.
Como o filme estava prestes a sair de cartaz após uma sessão curta, era longe de ser um sucesso. No máximo, um B-movie patético. Por isso, pude reservar um bom assento para qualquer horário que quisesse. Mesmo assim, eu ficara indeciso sobre ver ou não. No fim, decidi ir, já que estava fora por outro motivo mesmo.
Fui até o balcão, onde escolhi o filme que ia assistir e o horário desejado. Recebi uma folha plastificada com o mapa das poltronas. Foi então que percebi que havia algo errado. Os assentos nos fundos da sala — aqueles que eu sempre escolhia — já estavam todos ocupados. Na verdade, não parecia haver muitos lugares livres.
Aparentemente, um filme popular que seria exibido no mesmo horário havia sido adiado, então muita gente decidira ver esse filme de gângster. Com o Natal se aproximando, a maioria dos assentos estava reservada em pares. Provavelmente pensaram: "Bom, melhor assistir a alguma coisa do que a nada." Ou algo assim.
Pedi ao funcionário que queria o assento exatamente no centro da primeira fileira. Felizmente, ainda havia alguns disponíveis. Por que os assentos nas pontas eram tão populares? Tinha algo a ver com casais? Eu realmente não conhecia muito bem a psicologia das salas de cinema.
Como ainda faltavam uns vinte minutos para o filme começar, matei um tempo olhando um expositor de panfletos. Dez minutos depois, entrei sozinho na sala de exibição. Casais estavam espalhados pelos assentos atrás de mim. No centro da primeira fileira, esperei o filme começar.
As poltronas se preencheram relativamente cedo. Continuei encarando a tela. Eu gostava bastante de assistir aos trailers, ver os filmes que estreariam em breve. Era por isso que eu sempre fazia questão de me sentar antes de começarem. Assistir aos trailers na tela grande me animava de um jeito que não acontecia em casa, na TV.
As luzes da sala ainda estavam acesas enquanto um comercial de loja de conveniência passava na tela. Mostrava alguém mexendo arroz quentinho com uma colher, depois tostando levemente o nori numa grelha, até que finalmente as crianças comiam o onigiri pronto.
Quando o horário se aproximou e os assentos foram se enchendo, olhei ao redor. Minha fileira já estava quase cheia. À direita e à esquerda, havia casais, deixando apenas um lugar vazio entre nós. Ambos aproveitavam a penumbra do cinema para darem as mãos. Acho que casais também assistiam a filmes de ação, afinal.
Como o assento imediatamente ao meu lado esquerdo ainda estava vazio, provavelmente continuaria assim. Digo, quem mais viria ver um filme sozinho na véspera de Natal? Coloquei meu celular no modo Não Perturbe e, para garantir, desliguei-o.
Foi então que as luzes diminuíram e os trailers começaram. É aqui que a diversão começa. Nesse momento, uma sombra surgiu ao meu lado esquerdo. Um aluno solitário sentou-se no assento vago.
Outra pessoa estranha, então. Alguém que também viria assistir a um filme sozinho na véspera de Natal. Honestamente, admirei o gosto dessa pessoa. Virei-me para observar meu colega cinéfilo.
……
Minha boca se abriu. A "loba solitária" era ninguém menos que Ibuki Mio, da Classe C. O incidente no terraço me veio à cabeça, e fiquei sem jeito. Felizmente, a sala estava escura; Ibuki não me notou. Seus olhos estavam fixos apenas na tela.
Eu sempre acreditava em ficar até o final dos créditos, mas se eu fizesse isso hoje, as luzes acenderiam. Então estava decidido: assim que os créditos começassem, eu iria embora imediatamente.
No entanto, eu havia calculado errado. Era o velho problema das salas de cinema: o apoio de braço.
Se eu estivesse na ponta da fileira, poderia usar tanto o apoio da esquerda quanto o da direita. Mas nos outros assentos, era sempre uma disputa silenciosa. Não havia regra oficial de etiqueta, mas quem chegava primeiro "vencia", por assim dizer. Como o casal à minha direita já usava o apoio de lá, pensei que o da esquerda estivesse livre. Porém, Ibuki colocou o cotovelo ali, casualmente. Havia espaço suficiente para dois, mas nossos braços se tocariam.
Talvez Ibuki tenha pensado a mesma coisa, porque ela olhou para ver quem estava sentado ao seu lado. Naturalmente, nossos olhos se encontraram.
— Geh! — Ela soltou um grunhido de nojo. Os trailers estavam num momento silencioso, então ouvi perfeitamente.
Achei que ficar calado seria estranho, então respondi algo simples:
— Que coincidência, hein?
Ibuki apenas virou o rosto. Queria me ignorar, aparentemente. Bom, isso facilitava as coisas. Concentrei-me na tela.
Quando o filme começou, porém, senti Ibuki me lançar alguns olhares de vez em quando. Talvez estivesse apenas curiosa com a minha presença, mas definitivamente não parecia focada no filme. Deu vontade de virar e dizer algo como: "Que tal olhar a tela em vez de mim?" Mas não podia falar alto. Sussurrar no ouvido dela? Não — ela podia explodir comigo. Era melhor assistir ao filme, fingir que não percebia e aguentar.

Felizmente, eu estava acostumado a ser observado desde a infância.
Não deixaria transparecer qualquer incômodo. Eu apenas assistiria ao filme.
*
O filme em si não era particularmente bom — realmente um filme B. Sério, a trama era tão repetitiva e sem graça. Será que não podiam tentar algo diferente? Bom, pelo menos estávamos nos aproximando do clímax, com o protagonista prestes a invadir o território inimigo e salvar o dia.
Só que, pouco antes desse momento eletrizante, a tela simplesmente ficou preta. A princípio, pensei que fosse uma decisão artística do diretor. Todos permanecemos em silêncio, esperando. Porém, depois de dez ou vinte segundos, nem a imagem nem o som haviam voltado.
Quando comecei a me perguntar o que estava acontecendo, um aviso ecoou pelos alto-falantes da sala:
— Pedimos sinceras desculpas pelo atraso. A exibição foi temporariamente interrompida devido a uma falha no equipamento. Entendemos que isso possa causar incômodo. Por favor, aguardem até que o problema seja resolvido.
Os alunos resmungaram e reclamaram no começo, mas logo se aquietaram e passaram a conversar discretamente enquanto esperavam.
— Aff. Eu não tenho sorte mesmo — suspirou Ibuki, aparentemente dirigindo o comentário a mim. O que ela queria dizer? Que eu era o culpado pela falha do equipamento?
— Também estou surpreso. Digo, nunca imaginei que você viria ver um filme hoje — respondi.
— Eu tenho liberdade para decidir quando vou ao cinema, não tenho? — retrucou ela.
Pelo visto, não gostou da minha sugestão.
— Bom, o mesmo vale para mim — falei.
— Você… — Ibuki abriu a boca para falar, mas travou. Ela me lançou um olhar feroz antes de continuar: — Esse tempo todo, você tirou sarro de mim. Eu não posso te perdoar por isso.
Eu entendia por que Ibuki estava irritada. Consolá-la ou dizer que aquilo não era verdade não adiantaria. Então optei pela estratégia que achei melhor.
— Isso é poder, Ibuki.
— Hã? — Um ar pesado surgiu entre nós. Ela me lançou um olhar afiado, cheio de irritação e hostilidade.
Continuei:
— Se você tem poder suficiente para superar seu oponente, você vence. O fato de seu oponente esconder ou não suas habilidades não muda isso. Se você tivesse conseguido me parar, o Ryuen teria vencido. Ou, no mínimo, teria terminado em empate.
Eu teria ficado extremamente ridículo se tivesse apanhado naquele terraço depois de provocar a Ibuki.
— Isso… — Ibuki não tinha como rebater. Cada um devia confiar apenas na própria força. O fato de um adversário esconder suas habilidades não deveria importar.
— Além disso, diferente do Ryuen e da Sakayanagi, eu não estou mirando nas classes superiores — continuei. — Naturalmente, como não quero chamar atenção, não faço questão de mostrar o que posso fazer. Só enfrentei o Ryuen depois de considerar muitas outras opções. Não havia alternativa. Nunca tive a intenção de zombar ou menosprezar meus oponentes.
— Eu realmente odeio isso — disse Ibuki. Por mais lógico que fosse meu argumento, para ela era difícil aceitar. — Você diz que não quer aparecer, mas isso é mentira. Se você não tivesse feito o que fez lá na ilha e provocado o Ryuen, nada disso teria acontecido. E mesmo antes disso, se tivesse deixado passar aquele lance com o Sudou, tudo teria acabado ali.
— Talvez você esteja certa — admiti.
Se eu tivesse deixado o Sudou ser expulso, deixado que Ibuki derrotasse a Classe D na ilha e deixado o Ryuen manipular o teste do navio de cruzeiro, então ele não teria guardado tanta raiva da Classe D. Provavelmente já teria mirado na Classe B faz tempo.
— Você fala uma coisa e faz outra — acusou Ibuki. — Usou suas habilidades enquanto continuava escondido.
Ela voltou a olhar para a tela apagada, provavelmente achando que continuar essa conversa seria perda de tempo. Resolvi deixar pra lá. Com sorte, o filme recomeçaria logo, e esse encontro chegaria ao fim.
*
Contudo, meu plano de sair assim que os créditos começassem a rolar foi por água abaixo. Esperei e esperei, mas o filme não voltava. Ou o problema técnico era realmente grave, ou os funcionários estavam sendo lentos.
Ibuki suspirou várias vezes. Bem, era totalmente compreensível suspirar numa situação dessas. Eu mesmo já começava a perder o interesse no filme.
— Então, o que você acha que vai acontecer? — perguntei.
Não consegui aguentar o silêncio. Já que Ibuki ainda não tinha ido embora, provavelmente estava curiosa sobre o final do filme. Ou talvez, como ninguém estava se levantando, ela não tivesse como chegar até a saída sem literalmente passar por cima de todo mundo.
Ibuki apoiou o rosto no punho, com o braço firmemente apoiado no braço da poltrona. Nem tentou olhar na minha direção. Sua linguagem corporal gritava: "Você é irritante, então não fale comigo!"
Talvez eu devesse parar de cutucar a colmeia. Quando será que o filme ia recomeçar?
Alguns estudantes aqui e ali se cansaram de esperar e foram embora. Achei que Ibuki faria o mesmo, mas ela não deu sinal de que pretendia se levantar. Talvez ela realmente quisesse ver o resto do filme.
Quanto a mim, queria saber como terminava. Se não esperasse até o fim, minha vinda aqui teria sido inútil. Era hora de demonstrar perseverança.
Liguei o celular e conferi o horário. Cerca de vinte minutos haviam se passado desde que o filme parou. A falha no equipamento iria afetar não só esta sessão, mas a próxima também. Olhando ao redor, percebi que restava pouca gente. Apenas alguns espectadores tinham ficado, incluindo eu e Ibuki.
Quem veio ao cinema sozinho até podia insistir um pouco mais, mas casais provavelmente não queriam perder tanto tempo ali. Devem ter ido embora antes que o clima romântico morresse.
— Você não vai embora? — perguntou Ibuki, vendo que eu encarava o celular. Ela continuava virada para o outro lado, então não consegui ver sua expressão.
— Já assisti uns 80% do filme. Sinceramente, quero saber como termina. E já faz vinte minutos que estamos esperando… deve voltar a qualquer momento.
— Se tá tão curioso assim, por que não procura o final na internet? — retrucou.
— Não tô com vontade de ler a opinião de outra pessoa.
Eu usava resenhas apenas para decidir se queria assistir algo, não para avaliá-lo. Além disso, se bastasse ler duas linhas sobre o final para ficar satisfeito, qual seria o sentido de ir ao cinema?
— Eu já não ligo mais pra esse filme. Só não quero sair antes de você — ela disse.
— Você é bem direta.
Ibuki não venceria esse duelo de resistência. Eu não tinha intenção de me levantar antes do fim. Essa era a vantagem de um cara sem planos para a véspera de Natal.
Então, veio um anúncio triste que encerrou a disputa de uma vez. O equipamento não podia ser consertado a tempo, então decidiram cancelar a exibição. Os funcionários explicaram como funcionaria o reembolso.
— Eu realmente não tenho sorte — suspirou Ibuki.
Se eu quisesse saber o que acontecia no final, teria de esperar até o filme sair para aluguel ou procurar spoilers online.
Mesmo com a sessão cancelada, Ibuki não deu nenhum sinal de que pretendia se mover. Decidi levantar e sair. Meu negócio ali estava encerrado.
*
Talvez por causa da tensão que eu tinha acumulado, meus ombros estavam rígidos. Depois de interações desconfortáveis com Sakayanagi e Ibuki, não estava nem um pouco a fim de dar voltas no caminho de volta.
Quando saí do cinema, uma voz me chamou por trás:
— Ei. Você acha mesmo que vai continuar escondendo sua identidade desse jeito?
Era Ibuki. Ela tinha vindo atrás de mim só pra perguntar isso?
— Você não ouviu nada do que eu disse? Só guarda o que aconteceu pra você — respondi.
— Isso não é brincadeira. Esse tempo todo, você riu de mim.
Ela não precisava repetir que não podia me perdoar — isso estava estampado na cara dela.
— E o que você vai fazer? Espalhar isso sobre mim? — perguntei.
— Não. Até porque eu não seria a única ferrada se fizesse isso. Não é?
— Exato. Dependendo de como as coisas se desenrolassem, não seriam só as pessoas que estavam no terraço. Manabe e as amigas dela também poderiam se complicar.
Se a administração da escola seguisse a trilha de eventos até o começo, poderia acabar chegando em mim. Mas eu seria capaz de inventar quantas desculpas fossem necessárias. No máximo, conseguiriam me suspender.
— Além disso, essa escola é construída sobre conflito entre estudantes. Você tá descontando a culpa na pessoa errada — falei.
— Eu sei disso. É só que… eu não suporto você.
Analisei Ibuki Mio. Ela provavelmente praticava artes marciais desde criança. Antes da adolescência, não havia tanta diferença física entre meninos e meninas, então, com sua técnica, teria sido fácil dominar garotos da mesma idade.
Mas com o tempo e a puberdade, as coisas mudavam. Ibuki podia ser considerada bastante forte para uma estudante comum do ensino médio. Um cara sem treino nenhum não teria a menor chance contra ela. Mas contra alguém com o mesmo talento que ela — ou mais — e com treinamento adequado, ela não ganharia.
E Ibuki simplesmente não estava pronta para aceitar isso.
— Você ficou quieto. Tá pensando em quê? — ela perguntou.
— Estava pensando em como resolver isso de forma amigável.
— E?
— Infelizmente, não encontrei nenhuma solução. Não importa o que eu diga, nada vai te convencer.
Pela primeira vez no dia, os cantos da boca de Ibuki se ergueram num sorriso mínimo.
— Tem razão. Eu não vou recuar.
Como eu suspeitava, talvez fosse necessário um ataque direto.
— Então, você gosta de filmes? — perguntei.
— Hã? — Ela ficou surpresa com a mudança brusca de assunto.
Mas continuei a conversa com naturalidade:
— Digo, você veio ver um filme sozinha. E ainda por cima um filme de ação.
— E daí? É o meu objetivo.
Que resposta estranha.
— Objetivo?
— Ver todos os filmes que passam aqui na escola. Nada demais.
Isso foi surpreendente. Todo mundo nesta escola tinha metas — fazer amigos, sair nos dias de folga, se formar sem levar sequer uma falta ou atraso, sempre ficar em primeiro nas provas. A meta da Ibuki, "assistir a todos os filmes", podia parecer simples em comparação, mas era na verdade difícil de alcançar. Ver um filme que você queria era fácil, mas encarar algo que não interessava era cansativo. A maioria provavelmente acharia esse objetivo bobo. Mas estabelecer uma meta e cumpri-la era algo realmente impressionante.
— Tá tirando sarro de mim? — Ibuki me lançou um olhar afiado, interpretando meu silêncio como algo ruim.
— Hmm. Vai saber — respondi. Eu até poderia elogiá-la, mas fiquei com receio. Provavelmente seria melhor nos separarmos antes que alguém nos visse "andando juntos". — Então, o que vai fazer agora? Quer tomar um chá?
— Não enche. Tô indo embora.
Não me surpreendi com a recusa.
— Bem, se você for para direita, eu vou para esquerda. Tenha um bom dia.
— Fica tranquilo, eu também não quero passar mais um segundo com você.
Éramos realmente um par perfeito. Ibuki virou imediatamente à direita. Eu fui para a esquerda. Porém, de repente, ela apareceu ao meu lado e puxou meu braço.
— Ei. O que foi? — perguntei.
— Cala a boca. O Ishizaki e os outros estão vindo pra cá.
Ibuki me arrastou até um lugar escondido e ficou observando discretamente. Logo depois, Ishizaki, Komiya e Kondo passaram. Ishizaki estava no meio do grupo. Ryuen normalmente estaria com eles, mas obviamente não estava.
— Você tá bem, Ishizaki? Ainda tá mancando.
Enquanto caminhava, o rosto de Ishizaki se contorceu de dor.
— Cala a boca. Eu tô bem já. Ai... caramba!
Komiya olhou ao redor, inquieto.
— Sobre mais cedo… você realmente tretou com o Ryuen-san? Sério?
— Sim. O Albert e a Ibuki estavam comigo também. O tempo do Ryuen-san… não, do Ryuen, acabou. De agora em diante, ele não manda mais.
— Que alívio, cara. Mas, pera… quem vai bolar as estratégias e tal?
— Sei lá. O Kaneda, provavelmente.
Eles passaram conversando.
— Ufa. Não viram a gente — disse Ibuki. Ela provavelmente não queria que seus colegas nos vissem juntos. Especialmente o Ishizaki. Vai saber como ele reagiria.
Mas nós dois ouvimos o que Ishizaki disse.
— Recebi um e-mail do Ishizaki faz um tempo. Ele disse que o Ryuen não abandonou a escola — contou Ibuki.
— É mesmo?
Ela se aproximou.
— Você fez alguma coisa. O Ryuen jamais desistiria de largar a escola do nada.
— Independente do meu envolvimento, você não tentou impedir ele? — perguntei.
Pelo jeito, acertei em cheio.
— Eu odeio o Ryuen — disse Ibuki. — Mas odeio ainda mais que você tenha derrubado ele, sendo que você nem é do nosso grupo. Isso me irrita muito mais.
— Eu venci porque justamente sou de fora. Além disso, tem coisas que vocês, como membros da Classe C, podem fazer e eu não. Como o que o Ishizaki pretende assumir.
Ishizaki talvez detestasse o Ryuen, mas ainda estava tentando cumprir seu papel. Provavelmente porque tinha um certo respeito por ele.
— Você acha mesmo isso? — perguntou ela.
— E você?
— Ele deve odiar isso. O Ryuen tratava ele como lixo. Mas mesmo que tenham precisado de três pessoas para derrubar o Ryuen, a posição do Ishizaki na classe provavelmente vai melhorar agora que ele caiu.
— Entendo. Acho que dá pra ver por esse ângulo — concordei, como se ela tivesse me convencido.
Ibuki deu um leve chute atrás do meu joelho.
— Pensei que fosse desviar.
— Olha, eu não sou vidente. Não dá pra prever tudo.
— Então, o que achou do que o Ishizaki disse? — perguntou ela. Talvez não quisesse ser a única a opinar.
— Mesmo dizendo que odeia o cara, ele provavelmente respeita as habilidades do Ryuen.
Ishizaki parecia reconhecer os problemas que surgiriam se Ryuen realmente abandonasse a escola. Ele estava colaborando com a história de que tiveram um desentendimento, pelo menos. Ryuen, por sua vez, parecia manter sua promessa; não estava contando nada sobre mim. Eu já imaginava que não contaria, mas não era garantia de nada. Sempre havia a chance de ele mudar de ideia e me entregar. Se ele falasse, até a Karuizawa poderia se complicar.
— O Albert provavelmente não vai dizer nada, mas você acha que o Ishizaki vai ficar quieto? — perguntou Ibuki. Ela sabia exatamente o que eu estava pensando.
— Se ele falar, falou. Eu resolvo quando chegar a hora.
— Entendi.
Ao perceber que eu não estava abalado, o interesse dela pareceu diminuir. Como Ishizaki e os outros já tinham ido embora, decidi finalmente me afastar. Abaixei o corpo quando Ibuki veio com um chute veloz na direção da minha cabeça.
— Ué, e não era você que não conseguia desviar? — provocou ela.
— Isso porque agora foi um ataque direto. E você acabou de chutar com toda a força, não foi? — disse. Um chute giratório de alguém experiente poderia até me deixar inconsciente.
— Você é tão forte, mas não mostra isso. Por quê?
— Você anda por aí contando pra todo mundo o quão forte é? — perguntei.
— Bem...
— É verdade que, se você não mostra suas habilidades, ninguém vai saber que você as tem. Mas, diferente do Sudou e do Ishizaki, eu não sou do tipo cabeça quente.
— Luta comigo — disse Ibuki.
— O quê?
— Eu quero lutar com você de novo. Pra valer.
Ela não desistia.
— Como é que a gente chegou nesse assunto? — perguntei.
— Eu te odeio. Odeio essa sua personalidade falsa, essa hipocrisia. Você mostra pro mundo uma máscara e esconde quem realmente é.
— Entendi.
Para o bem ou para o mal, caras como Ryuen e Ishizaki eram exatamente o que pareciam ser. Ibuki também. Até quando espionou a gente durante o teste da ilha, continuou sendo ela mesma.
— Eu sempre fui assim, apático — respondi. — Mas é inútil discutir, não é?
— É. Tirando todo o resto, eu não vou ficar satisfeita até te dar o troco pelo que aconteceu no telhado.
Ibuki não me ouviria. Eu até poderia fugir, mas isso me daria muita dor de cabeça se ela me perseguisse pelo resto do ano escolar.
Ibuki parecia ter adivinhado o que eu estava pensando.
— Você não quer que eu cause problemas, quer? — perguntou.
Era uma ameaça velada. Mesmo que ela não contasse nada sobre mim, as pessoas perceberiam que ela estava me seguindo e fariam perguntas.
— Se você quer que eu recue, lute comigo de novo — disse.
Ela disse "luta", mas soou mais como "batalha".
— Não prefere disputar uma partida de go ou shogi?
— Eu não sei jogar.
Que pena. Eu era bom nos dois.
— Vamos resolver isso — declarou Ibuki.
Ela assumiu uma postura de combate bem no meio do shopping lotado. Era assim que ela resolvia as coisas: da forma mais direta e preto-no-branco possível.
— Isso não vai mudar nada — avisei.
— Hah. Quer dizer que o resultado vai ser o mesmo? — Ibuki sorriu de canto. Uma veia pulsou em sua testa. O sorriso fraco que ela exibira momentos antes parecia um distante fragmento do passado.
— Não só o resultado. A sua forma de pensar também, Ibuki.
Não importava o quanto ela perdesse, Ibuki não aceitaria a derrota. Mesmo fingir deixá-la ganhar seria como jogar gasolina numa fogueira.
— Então você não aceita meu desafio? — perguntou.
Normalmente, eu jamais aceitaria. No fundo, eu realmente não queria fazer isso, especialmente estando tão cansado. No entanto…
— Você está livre agora? — perguntei.
— Acho que sim. Eu não tinha planos além do filme. Isso quer dizer que a gente vai lutar? — Ibuki claramente não esperava que eu fosse concordar. Ela parecia chocada, chegando até a dar um passo para trás.
— Você estava brincando? — perguntei.
— Não, eu quero isso — rosnou ela. — Aceita ou não?
— Supondo que a gente lute… onde seria? — perguntei.
O shopping não era o melhor lugar. E qualquer área do campus estava fora de questão. Era férias de inverno; qualquer um poderia nos ver. Poderíamos lutar em um dos nossos quartos, mas se alguém nos visse entrando juntos, seria ainda pior.
Ibuki também entendeu isso.
— Vamos procurar — ela disse.
— Você não vai desistir, né?
— Nosso encontro de hoje selou seu destino.
Com essa frase dramática, Ibuki começou a andar. Queria que eu a seguisse.
— E se eu fugir? — perguntei.
— Eu vou te perseguir. E, quando te achar, vou te acertar um dropkick.
Bem… aí estava. Eu fui atrás dela.
— Antes de continuarmos, vou deixar claro: nosso único objetivo é encontrar um lugar adequado para lutar — avisei. Se ela não achasse um lugar bom, eu desistiria.
— Beleza.
Ibuki caminhava rapidamente pelo Keyaki Mall, procurando um canto silencioso e isolado. Difícil. Mesmo nas áreas mais afastadas, havia câmeras. Se não houvesse alunos, haveria funcionários. Talvez pudéssemos lutar no prédio da escola, mas não podíamos entrar sem uniforme, e trocar de roupa só para brigar seria ridículo.
— Por que não desistimos? — sugeri. — Digo, encontrar um lugar seguro aqui é—
— Espera — disse Ibuki, olhando para uma porta com janela de vidro onde se lia Staff Only.
Um funcionário empurrando um carrinho saiu por aquela porta. Ele usava um avental amarelo. No crachá lia-se Kimura, Farmácia do Keyaki Mall. O carrinho tinha três caixas de papelão, provavelmente para reposição de estoque.
— Me segue — disse Ibuki.
— Ei, isso é—
Ela abriu a porta e entrou num depósito vazio. O lugar era mal iluminado, cheio de caixas de biscoitos, gaze e coisas do tipo. O aquecimento não estava ligado, então estava frio.
— Ninguém vai ver a gente.
Não parecia haver câmeras ali. Mas aquela porta não deveria estar trancada? Será que o funcionário esqueceu de trancar? Ou voltaria logo? Se fôssemos pegos, seria um problema.
— A gente só diz que entrou por engano. Não estamos pegando nada, estamos de mãos vazias — disse Ibuki. — Serve, né?
— Acho que sim, mas… e se aparecer alguém? — perguntei.
— Aí vamos ter que terminar antes disso acontecer.
Ibuki fechou a porta com um clack.
— E se o cara percebe que esqueceu de trancar? Ele vai voltar e ver a gente aqui.
— Não precisa entrar em pânico.
— Olha para a maçaneta — falei.
Ibuki franziu o cenho.
— Ei, espera. Por que não tem como destrancar?
— Algumas portas com janela de vidro não têm travamento interno — expliquei. — Aquela pecinha que gira é o que destranca.
— Então… estamos presos?
— Parece que sim.
— Mas que droga! Por que toda vez que eu trombo com você eu acabo presa em algum lugar? Argh! Só de lembrar daquela vez no elevador eu já fico irritada.
— Isso não é culpa minha. Você escolheu o lugar.
— Hã? Então a culpa é minha?
De quem mais seria? Da outra vez, ficamos presos num elevador no meio do verão. Agora estávamos num depósito gelado no meio do inverno. Que maravilha.
— O vidro parece comum — observei. — A gente pode quebrar.
— Então dá pra sair!
— Mas aí eles vão saber que entramos aqui.
— Tanto faz. Vou tentar ser positiva — disse Ibuki.
— Eu estou com um mau pressentimento.
— Relaxa. Isso só significa que ninguém vai ver a gente lutar.
Ibuki assumiu novamente uma postura de combate.
— Você decide as regras. Lutamos até alguém admitir derrota? Ou até alguém desmaiar?
— Até admitir a derrota — respondi.
— Pensando bem, eu decido as regras — disse ela.
— Ei…
— Se fizermos do seu jeito, você vai desistir antes de começar e se entregar.
Ela tinha absoluta razão.
— Vamos até termos um vencedor claro e incontestável.
Ela era tão insistente.
— Já que estamos acrescentando condições, eu tenho uma também — falei.
— O que é?
— Se resolvermos isso aqui, você nunca mais vai me desafiar. Certo? Se a escola fizer a gente lutar por causa de algum exame, tudo bem. Mas esta é a última batalha pessoal que vamos ter.
— Por mim, tudo bem.
Com isso decidido, não tive escolha a não ser entrar no modo de combate. Eu realmente achei que o incidente no terraço tivesse encerrado tudo, mas não havia como fugir desta vez. O verdadeiro problema, porém, viria depois que eu derrotasse Ibuki.
Vamos acabar com isso.
— Você é tão irritante — disse Ibuki. — Só quer sair daqui logo.
— Esse lugar não é ideal.
Ninguém acreditaria que entramos aqui por engano; provavelmente pensariam que viemos roubar alguma coisa.
Não tive tempo de pensar — Ibuki começou a lançar chutes, mantendo uma guarda firme. O estilo dela se concentrava principalmente no jogo de pernas, hein?
Esquivar daqueles chutes em um espaço apertado não era tarefa simples, principalmente porque eu precisava evitar danificar as caixas de papelão. Quebrar, pagar. Entre meus gastos pessoais e a grande quantidade de pontos privados que eu tinha "emprestado" para a Karuizawa, eu realmente queria evitar despesas desnecessárias.
Mas só contra-atacar Ibuki não bastaria. Na verdade, ela provavelmente não admitiria derrota nem mesmo se eu a nocauteasse. Eu precisava vencê-la de forma decisiva, mas sem deixar hematomas visíveis — o que limitava bastante minhas opções. Tinha que fazê-la admitir a derrota sem machucá-la. Nada fácil.
Continuei desviando dos chutes dela, movendo-me o mínimo possível. Então levantei minha mão esquerda, a não dominante. Pá! A base da minha palma acertou forte a têmpora de Ibuki.
Com o som seco e a dor, Ibuki caiu para trás.
— Ah!
Se eu tivesse aplicado um pouco mais de força, ela provavelmente teria desmaiado. Mas mesmo que eu pudesse nocauteá-la, não seria fácil tirar dela a vontade de lutar.
— Você nem está levando isso a sério? — Ibuki segurou a testa e me lançou um olhar feroz.
— Se você é uma artista marcial experiente, deve entender o que estou fazendo.
— Eu entendo. Não preciso que me explique. Mas… tem coisas que eu simplesmente não aceito.
Ibuki soltou um grito e disparou outro chute. Ela se expôs completamente, colocando toda a força possível no ataque. Talvez estivesse tentando um golpe único e decisivo — ou talvez esperasse que nos acertássemos mutuamente, preparando-se para contra-atacar.
De qualquer forma, eu não tinha a menor intenção de receber o golpe. Com o braço direito, bloqueei os chutes repetidos de Ibuki. Com a mão esquerda, agarrei sua garganta.
— Gah!
Ibuki não conseguia respirar direito. Usou as duas mãos para agarrar meu braço, lutando desesperadamente. Suas unhas fincaram em minha pele, mas eu não afrouxei meu aperto.
— Decida, Ibuki. Quer parar? Ou vamos continuar com essa farsa inútil? Se escolher lutar, você pode muito bem morrer — eu disse.
Se Ibuki fosse alguém que se deixasse comover por palavras, não estaríamos aqui. Mas valia tentar.
— Ryuen me mostrou do que ele era capaz. E você, Ibuki? Pode me mostrar isso?
— Guh! — Ela me encarou com puro ódio, mas suas mãos tremiam. Então, com fraqueza, deu três tapinhas no meu braço, enquanto seus olhos se fechavam.
Entendi o gesto e soltei-a devagar.
Ibuki respirou com dificuldade.
— Eu não pensei que você fosse pegar leve só porque eu sou mulher, mas você foi realmente impiedoso.
— Bom, você não é alguém contra quem eu possa pegar leve.
Se eu aliviasse, ela ficaria ainda mais furiosa. Era verdade que eu mal tinha me esforçado, mas isso era outra história. O importante era parecer que eu não havia segurado nada.
— Ah, qual é. Por quê? — resmungou Ibuki, frustrada, sentando-se no chão. — Tá bom. Você venceu.
Eu não me importava com vitória ou derrota. Se Ibuki estava convencida agora, isso era o suficiente. Ambos conseguimos o que precisávamos dessa luta.
— Você é a pessoa mais forte que eu já vi. Mais forte que qualquer adulto. Como ficou tão forte? — ela perguntou.
— Treinamento diário. Óbvio para qualquer um que entende de artes marciais, não?
— É… — Ibuki suspirou, desistindo. — Certo, e agora, como a gente sai daqui?
— É simples. — Procurei o número da farmácia do Keyaki Mall e liguei. — Com licença, o funcionário Kimura-san está disponível? Poderia colocá-lo na linha?
Pouco depois, Kimura atendeu. Eu expliquei que estávamos presos.
— Isso não vai dar problema? — perguntou Ibuki.
— Provavelmente vamos receber algum tipo de advertência. Coopere e resolvemos isso rápido.
Logo depois, o funcionário que havia trancado a porta entrou no depósito. Ao nos ver, perguntou por que tínhamos entrado e por que não avisamos antes.
— Desculpa. Eu só me empolguei demais. A gente estava num encontro e procurando um lugar isolado. Nem percebi — falei, interpretando o papel de metade de um casal idiota em um passeio romântico de Natal. Claro, sem chegar ao ponto de dizer que éramos um casal. — Né, Mio? Você devia pedir desculpa também.
— H-Hã? O que você—?
Ibuki se assustou quando a chamei pelo nome, mas rapidamente entendeu. Eu considerei a pequena chance de ela me entregar e me preparei. Assim, ela não poderia me dedurar sem se incriminar junto.
— Eu sinto muito.
Mesmo irritada, Ibuki abaixou a cabeça.
Acompanhando o clima, garanti que não tínhamos tocado em nada. Kimura continuou nos repreendendo, mas no fim disse que não relataria o incidente. Afinal, isso também o fazia parecer descuidado. Foi por isso que eu pedi especificamente para falar com ele — a pessoa que havia esquecido de trancar.
Quando Kimura terminou a bronca, saímos rapidamente. Ele trancou a porta e voltou ao trabalho.
— Conseguimos — eu disse.
— Você memorizou o nome daquele funcionário no segundo em que passamos por ele? — Ibuki parecia mais interessada nisso do que no fato de eu tê-la chamado pelo primeiro nome.
— Ele simplesmente entrou no meu campo de visão.
— Entendo — respondeu ela, com a voz fria. — De qualquer forma, não vou lutar com você de novo.
— Obrigado.
— Mas quero sua opinião.
— Minha opinião?
— Você sabe que um aluno precisa de vinte milhões de pontos para chegar à Classe A, certo? Para uma turma inteira conseguir isso, seriam oitocentos milhões de pontos no total. Você acha que é possível juntar uma quantia tão grande?
— É impossível. Todo mundo sonha com isso, mas no fim precisa encarar a realidade — respondi.
— Você provavelmente tem razão.
— Era só isso que queria perguntar?
— Sim, é tudo. Tchau.
E assim, cortei meus laços com Ibuki. Ou pelo menos, esperava que sim. Ainda passaríamos três anos nesta escola. Eu tinha certeza de que acabaríamos nos enfrentando novamente antes da formatura.
*
— O dia de hoje foi um desastre.
Depois de ter meus planos arruinados várias vezes, eu finalmente estava voltando para o dormitório. Sair durante as férias de inverno era claramente uma atividade perigosa.
Quando verifiquei a hora, vi que já eram quase três da tarde. Enquanto caminhava pelo Keyaki Mall, notei três garotas um pouco à minha frente, todas da Classe D: Satou, Shinohara e Matsushita. Conversavam animadamente enquanto andavam.
Como eu já tinha planos para encontrar a Satou depois de amanhã, meus olhos naturalmente foram para ela. Mantive distância suficiente para que não me notassem, mas próxima o bastante para ouvir a conversa. Se captasse alguma informação útil, o dia não estaria totalmente perdido.
— Bem, não conseguimos arranjar namorados antes do Natal, né? — disse Matsushita, olhando para os casais ao redor.
— Você reclama, mas poderia arranjar um na hora. Você é tão fofa — disse Shinohara, cutucando-a com um sorriso travesso.
— Eu não vou me contentar com qualquer um.
— É, acho que não. Mas, sabe… eu realmente queria um namorado.
— Bom, você tem algum candidato em mente? — perguntou Matsushita.
Shinohara cruzou os braços.
— Nenhum. Nossa classe é uma catástrofe.
— A Karuizawa-san já pegou o único prêmio de verdade — comentou Matsushita. Claro, ela se referia ao Hirata.
— Como a gente não fez nada além de brigar com as outras classes, nem tivemos tempo de fazer amizades. Talvez seja melhor tentar alguém do segundo ou terceiro ano, né? Embora um universitário seria ainda melhor — disse Matsushita. Namorar alguém do mesmo ano, aparentemente, estava fora de questão.
— Do terceiro ano, hein? Acho que penso o contrário. Se for romance, prefiro alguém da minha idade — respondeu Shinohara.
— E você, Satou-san?
— Hã? Eu? Ah, bem… acho que também prefiro um colega de classe, como a Shinohara-san.
— Não, não — corrigiu Shinohara. — Eu não disse nada sobre colegas de classe.
Ou seja, a mesma série estava ok; Classe D não.
— Aliás, Satou-san, você não anda conversando com o Ayanokoji-kun?
Hmm. Talvez fosse hora de me afastar. Virei-me e abandonei rapidamente a perseguição. Quando coloquei mais distância entre nós, decidi matar tempo na livraria. Peguei uma revista que classificava de tudo — de material escolar a eletrodomésticos. Ela respondia a questões importantes, como qual marca de detergente era a melhor.
— Rankings de produtos da moda. Empolgante — murmurei enquanto folheava. — Talvez eu deva comprar e voltar para o dormitório.
A seção de acessórios automotivos não atendia às minhas necessidades atuais, mas era um bônus aceitável. Talvez eu usasse a revista como guia para comprar eletrodomésticos.
Certo, Satou e as outras já deviam ter ido embora. Aliviado, olhei ao redor; porém, vi Shinohara sozinha. As outras duas deviam ter ido ao banheiro ou algo assim. Acho que vou olhar mais alguns livros.
Havia bastante gente na livraria, mas imediatamente percebi alguém que não combinava com o lugar — alguém que exalava más intenções. Ryuen Kakeru.
Ele folheava livros acadêmicos. Com as costas voltadas para mim, não dava para ver sua expressão. Sem seus capangas, ele até parecia meio solitário. Era impressionante que já estivesse andando por aí depois da surra que eu lhe dei no outro dia, mas talvez isso fosse esperado.
Mesmo que Ryuen me notasse, não tínhamos exatamente uma relação amigável. Decidi não me aproximar.
Enquanto continuava olhando as prateleiras, ouvi a voz de Shinohara. Ela parecia confusa. Olhei para cima e vi um casal — provavelmente veteranos — encarando ela.
— Ei. Você é do primeiro ano, não é?
— Hã?
— Você estava encarando a gente agora?
— N-Não, eu não tava… eu nunca…
Eu não reconhecia a veterana, mas o cara era familiar. Era o aluno do terceiro ano da Classe D que me vendeu provas antigas no início do ano. Muitos alunos do segundo e terceiro anos tinham sido expulsos desde então, mas ele ainda estava aqui — sobrevivendo à base de refeições de legumes.
Os dois vestiam roupas espalhafatosas combinando, cheias de bolinhas, transmitindo claramente vibrações de "casal". Seus braços quase se tocavam. Sem dúvida eram namorados.
— Você estava encarando, sim — disse a veterana. — O que foi? Não sabe olhar pra frente quando anda?
— Vamos já, amor. Não liga pra ela — disse o cara.
A namorada dele, porém, estava bem irritada.
— Você é só uma caloura. E é aluna da Classe D também, não é?
— Bem… ahm, sim. Mas… mas eu não estava encarando.
— Não minta pra mim. Você que esbarrou na gente!
Eu apostaria que ela e Shinohara tinham trombado sem querer uma na outra. Como nenhuma parecia machucada, não devia ter doído tanto assim.
— Você precisa fazer alguma coisa sobre essa atitude. Esbarrou numa veterana? Então peça desculpas.
— M-Mas foi você que não estava prestando atenção, então…
— Hã? Tá dizendo que a culpa é minha?
Shinohara tentou resistir, mas não aguentou a pressão. Ela acabou inclinando a cabeça, relutante.
— N-Não. Me desculpa mesmo.
Mas aquilo não bastou para a veterana. O pavio já estava aceso, pronto para explodir.
— Hmph. Com essa atitude, o pedido de desculpas não vale nada.
— A-Atitude? Mas quem não estava olhando para frente era você, Senpai.
— Não vem bancar a espertinha comigo! Quem estava viajando era você.
— Mas—
Talvez eu devesse ajudá-la. Mas eu não tinha visto o choque acontecer, então não podia servir de testemunha. Enquanto eu pensava no assunto, pronto para devolver a revista à prateleira, outro aluno apareceu. Ele notou Shinohara e se aproximou. Continuei observando.
— Ei. O que você está aprontando, Shinohara? — perguntou Ike Kanji, ignorando completamente os veteranos.
— Ah… Ike-kun. Hum… — Pelo rosto de Shinohara, dava pra ver que ela estava presa entre duas tempestades prestes a cair. Ike trazia confusão aonde quer que fosse, então a reação dela era compreensível.
— Quem é você? Cai fora — rosnou a veterana.
— Uh, foi mal, Senpai. Mas, olha, essa garota é minha colega de classe. Ela fez alguma coisa? — Julgando pelo tom dele, Ike parecia já ter entendido a situação.
— Fez sim. Esbarrou na gente. E ainda ficou toda metidinha, encarando e fazendo pouco caso.
— Ah, entendi. Ela encara eu também — riu Ike. Shinohara ficou boquiaberta. — Mas olha, o rosto dela só parece que tá sempre encarando alguém, sabe? Ela não ia ter coragem de encarar de verdade uma veterana. Ela só tem "cara de brava permanente" ou algo assim — disse Ike. — Enfim, melhor não causar confusão. Um professor passou por aqui agora há pouco.
Ele disse isso direcionado ao rapaz, não à garota.
Parece que a estratégia funcionou.
— Vamos — disse o veterano do terceiro ano.
A garota ainda parecia descontente, mas sua irritação diminuiu.
— Hmph! — resmungou, e saiu andando com o namorado.
Depois que os dois foram embora, Shinohara soltou um suspiro de alívio.
— Obrigada — disse ela.
Qualquer um acharia que Ike ficaria feliz por ser agradecido por uma garota, mas ele agiu de forma surpreendentemente calma.
— Não precisa agradecer. Não foi nada.
— Ainda assim, aquilo que você disse não foi legal. Não é como se eu estivesse sempre encarando as pessoas. Meu rosto não é assim.
— Eu só falei aquilo pra te ajudar.
— Não dava pra pensar em um jeito melhor?
— Bom, não.
— Bem… o-obrig—
— É, tá. Até mais. Ah, e aproveita seu Natal sem namorado! — provocou Ike.
— Hã?! Você não conseguiria uma namorada nem se tentasse por dez mil anos! — rebateu Shinohara.
Por algum motivo, Ike resolveu dar uma alfinetada como despedida — talvez porque Satou e Matsushita estavam voltando do banheiro. Quando se reuniram novamente, as garotas lançaram olhares desconfiados.
— Ei, aquele era o Ike-kun? O que aconteceu? — perguntou Satou.
— Ele tava te enchendo de novo? Aff. Por que nossa sala é cheia de idiotas? — reclamou Matsushita.
— N-Não, não foi isso. Não exatamente… — Eu pensei que Shinohara fosse desabafar quando elas voltassem, mas ela sequer tentou mencionar o que tinha acontecido. Em vez disso, apenas virou o rosto e observou Ike se afastar.
Bom. Decidi voltar também. Parecia que eu não conseguiria mais informações sobre Satou ali.
*
A caminho do meu dormitório, carregando a sacola com a revista que eu tinha comprado, recebi uma ligação. No identificador, apareceu Hasebe Haruka. Atendi.
— Oi, sou eu — disse Haruka. — Pode parecer meio repentino, mas que tal a gente se reunir depois de amanhã e fazer uma festinha?
— Hã? Se reunir pra quê? — perguntei. Meu dia depois de amanhã já estava planejado.
— Você não sabe o que é "festinha"? Festinha, tipo… festa.
A língua realmente era estranha.
— O tema do nosso encontro seria algo tipo "Natal não é só para casais".
Pelo visto, o romance natalino tinha um efeito devastador sobre os solteiros. Parecia divertido, mas precisei recusar.
— Foi mal. Já tenho planos.
— Ah, é? Depois de amanhã é Natal. Como assim, você tem planos?
Se Haruka e o grupo resolvessem sair, poderiam acabar me vendo. Era melhor falar logo.
— Eu prometi que ia sair com a Satou.
— Satou? Isso é código para doce? Tipo, você vai comprar biscotti, colocar no bolso e sair andando — Haruka era um tipo especial de idiota. — Uou, uou, peraí. Não me diga… você vai ter um encontro? No Natal?!
Demorou, mas ela finalmente chegou lá.
— Não é exatamente um encontro. A gente só vai sair.
— Pessoas do mundo inteiro chamariam isso de "encontro", sabia? — Talvez. Mas eu estava evitando usar a palavra "encontro".
— A gente ainda não conseguiu sair juntos, então ela me pediu pra ir a algum lugar no dia vinte e cinco.
— Uhh, isso é meio tenso, não acha?
Desde que entrei nesta escola, aprendi muito sobre normas sociais. Eu entendia bem o peso que tinha um garoto e uma garota saírem juntos no Natal. Mas eu aceitei o convite da Satou, e ela escolheu o dia vinte e cinco. Simples assim.
— Só confirmando… vocês não estão "saindo" nem nada, né? — perguntou Haruka.
— É igual da vez com a Shiina. Não estou namorando ninguém.
— Bom, não é muito da minha conta dizer isso, mas… e a Airi?
— A Airi?
— Se você não for com a gente, Kiyopon, ela provavelmente vai ficar se perguntando o porquê. Não dá para fingir que ficou doente. Mas, bem… deixa comigo. Onde vai ser o seu não-encontro?
— Isso quer dizer que você vai mudar os planos?
— Não tenho escolha, né? Se a Airi ver você e a Satou-san em um encontro de Natal, a chance dela desmaiar é grande, Kiyopon.
Provavelmente era exagero, mas… sendo a Airi, não dava pra duvidar. Podia até acontecer de ela ficar realmente deprimida.
Senti a postura de Haruka mudar do outro lado da linha.
— Você não percebeu os sentimentos da Airi? — ela perguntou.
Estávamos entrando em território perigoso.
— Bom, é óbvio que o que ela sente por mim não é o mesmo que sente pela maioria das pessoas — respondi.
— Uau. Jeito esquisito de dizer, mas tudo bem. Pelo menos você não é tão tapado. Já que entendeu, não vou te pressionar por uma resposta.
"Me pressionar", hein?
No meu ponto de vista, Airi era como um filhote de pássaro que tinha acabado de sair do ninho. Nessa fase da vida, não era estranho ela desenvolver sentimentos por mim, já que eu era um dos poucos do sexo oposto com quem ela tinha criado algum vínculo. Mas ela precisava amadurecer, conhecer muitas outras pessoas. Assim, poderia experimentar sentimentos como amizade antes de mergulhar no amor romântico.
O mesmo valia para mim. O que era a escola? O que eram amigos? E o que significava amar alguém? Eu ainda não entendia essas coisas direito, e não podia pular direto no fundo antes de explorar as águas rasas.
— Eu te ligo, tá? — disse Haruka.
— Desculpa por não poder ir.
— Relaxa. Nosso grupo existe justamente para fugir das "regras normais" de amizade, lembra? A gente sai quando quer, e quando não quer, não sai. É isso que torna divertido, sabe? — E então Haruka desligou.
— Isso é verdade… — murmurei para ninguém.
Foi então que percebi o quanto eu era grato por fazer parte daquele grupo.
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