Ano 1 - Volume 6
Capítulo 4: Um Meio de Escapar
QUANDO A AULA de monitoria começou às 18h, Chabashira-sensei deixou a sala. Hirata, lançando um olhar para os colegas perplexos, levantou-se e foi até o púlpito. Não havia mais espaço para brincadeiras. Estávamos prestes a ter uma conversa séria.
— Durante a monitoria de hoje, eu gostaria de discutir nossa estratégia para o exame curto de amanhã. Recebi permissão da Chabashira-sensei. Primeiro, Horikita-san, poderia vir até aqui?
Como se estivesse esperando por esse convite, Horikita se levantou e caminhou até Hirata. Para alguns alunos, provavelmente parecia estranho ver os dois atuando em conjunto. Hirata sempre oferecera parceria, mas até então ela jamais aceitara. Horikita sempre lutara sozinha.
No entanto, após a derrota esmagadora no festival esportivo, ela finalmente entendeu os limites de lutar por conta própria — e era como se tivesse renascido. Isso não significava que ela tivesse se tornado perfeita, claro.
O biólogo suíço A. Portmann disse certa vez que os seres humanos nascem fisiologicamente prematuros. Ele argumentava que, do ponto de vista zoológico, nascemos cerca de um ano cedo demais se comparados ao estágio de desenvolvimento de outros mamíferos. Quando um bebê humano nasce, seus sentidos estão formados, mas suas habilidades motoras não. Já muitos animais grandes, como cervos, conseguem se mover pouco depois de nascer.
Horikita podia ter "renascido", mas ainda estava em desenvolvimento. No entanto, havia possibilidades ilimitadas dentro dela. Talvez ainda carregasse conflitos internos. Provavelmente estava lutando consigo mesma. A melhor decisão seria mudar… e aceitar essa mudança.
Eu imaginava que Horikita começaria imediatamente a falar sobre o exame final, mas ela não fez isso.
— Primeiro, há algo que eu gostaria de dizer. Por favor, permitam-me pedir desculpas.
Algo parecia corroer seu coração havia semanas.
— Meu desempenho no festival esportivo foi decepcionante. Embora eu tente parecer forte diante de todos vocês, no fim, não fiz nada pela Classe D. Por isso, peço desculpas.
Horikita inclinou-se profundamente. Naturalmente, esse gesto abalou muitos alunos. Era como se ela estivesse assumindo toda a culpa pela derrota da classe. Onodera, que havia se afastado um pouco dela após a prova de corrida em dupla, tomou a palavra:
— M-Mas não é como se fosse só sua culpa que a gente perdeu, Horikita-san. Por favor, não se curve assim. Você não precisa disso.
— É isso aí, Suzune. Quer dizer, o Haruki e o Professor também não ajudaram muito — disse Sudou. Triste, mas verdadeiro. Yamauchi e Sotomura olharam para ele com irritação.
— Independente de vitória ou derrota, uma atitude humilde facilita seguir em frente. Mas não é isso que estou dizendo. Eu praticamente não contribuí para nenhuma área do festival — afirmou Horikita.
Ela lançou um olhar rápido para Sudou. Nesse único olhar, sugeriu que a única coisa que havia conquistado era tornar-se aliada dele. Sudou certamente entendeu. Enquanto coçava a bochecha, sorriu discretamente.
— Mas agora, terminei minhas desculpas. Daqui pra frente, quero dedicar minhas energias ao exame curto de amanhã. A menos que trabalhemos juntos como uma classe, não vamos superar esse desafio.
— Eu entendo, mas você tem um plano? Tipo… a gente nem sabe como os pares vão ser escolhidos ainda.
— Na verdade, o processo de seleção dos parceiros já foi explicado. Se fizermos tudo corretamente, cada aluno pode acabar com seu parceiro ideal. Hirata-kun, por favor.
Hirata, agora atuando como suporte de Horikita, escreveu as regras no quadro:
Como os pares serão formados:
Após analisar a classe como um todo, a escola irá parear o aluno com maior pontuação com o aluno com menor pontuação.
Esse processo continuará com o segundo maior e o segundo menor, o terceiro maior e o terceiro menor, e assim por diante.
Por exemplo: o aluno com cem pontos será pareado com o aluno com zero. O aluno com noventa e nove será pareado com o aluno com um ponto.
— Então esse é o método — e o propósito do exame curto. Simples, certo? — disse Horikita.
— Uau! Você decifrou tudo, Horikita! Incrível!
— É relativamente óbvio. Entretanto, lembrem-se disto: embora os alunos com notas mais baixas sejam automaticamente pareados com os de notas mais altas, sempre existem exceções. Vou explicar uma estratégia para garantirmos pares confiáveis e adequados — continuou Horikita.
Ela dissera que era óbvio, mas não era bem assim. As pistas eram mais fáceis do que em outros desafios anteriores, mas ela provavelmente só percebeu por causa de seus fracassos recentes. Caminhou até Hirata e encarou a turma. Não havia hesitação em sua expressão, apenas determinação.
— Eu gostaria que os alunos com dificuldades acadêmicas formassem dupla com os de notas altas, para que possam ajudá-los. Porém, com base nas nossas médias até agora, a realidade é que não conseguimos cobrir todos — explicou Horikita.
Onze alunos tinham média igual ou superior a oitenta pontos. Apenas seis tinham média acima de noventa. Isso não era exatamente tranquilizador — menos da metade da classe se saíra bem. Por outro lado, mais da metade tinha média igual ou inferior a sessenta. Em outras palavras, seria impossível parear todos os alunos fracos com parceiros fortes.
Assim, Horikita pretendia criar estabilidade forçando os dez melhores e os dez piores alunos a formarem pares específicos. Hirata começou a escrever, um por um, os nomes dos alunos com menor média.
— Hum, eu não entendi. O que a gente tem que fazer? — perguntou Yamauchi, já esperando ver seu nome no quadro.
— Os dez alunos com as menores médias, listados aqui, podem simplesmente tirar zero nesse exame curto. Basta escrever o nome. Como essa nota não será usada no boletim final, não há prejuízo algum. Por outro lado, os dez alunos com as maiores médias devem tentar tirar pelo menos oitenta e cinco pontos. Da mesma forma, dividiremos os outros vinte alunos em dois grupos de dez. O grupo com médias mais altas deve mirar um máximo de oitenta pontos, enquanto o grupo com médias mais baixas só precisa tirar um ponto. Fazendo isso, garantimos automaticamente um bom equilíbrio na formação dos pares — explicou Horikita. — Depois, confirmarei os detalhes com cada um, porque é bem possível que encontremos algum obstáculo.
O importante era garantir que os alunos que tirassem zero ponto e aqueles que tirassem um ponto não fossem emparelhados. Precisávamos que a escola unisse estudantes com as maiores diferenças possíveis em habilidade acadêmica.
— Acho que esse é um ótimo plano. Vamos definitivamente precisar de uma estratégia para essa prova — disse Hirata, sem se opor. Ele queria manter a atmosfera harmoniosa.
Koenji, que normalmente se recusava a participar de qualquer coisa, não parecia apoiar nem rejeitar o plano. Na verdade, era mais como se ele simplesmente não estivesse interessado. Suas habilidades sociais eram ainda piores que as de Horikita, mas, pela primeira vez, não importava que ele estivesse aprontando como de costume. Koenji nunca levava provas tão a sério, mas até agora tinha evitado resultados que pudessem expulsá-lo da escola. Contudo, desta vez, era possível que alguém fosse reprovado no exame final mesmo tirando nota perfeita, dependendo do desempenho do parceiro.
Dito isso, se conseguíssemos colocar Koenji em uma dupla pré-selecionada, ele provavelmente ficaria bem. Em outras palavras, embora não demonstrasse interesse, parecia disposto a cooperar… ou pelo menos era isso que queríamos acreditar. Não havia como prever completamente o que Koenji faria.
— Você tem alguma objeção, Koenji-kun? — perguntou Horikita.
— Não. Que pergunta mais tola. Naturalmente, compreendo perfeitamente a situação — disse ele, apoiando as longas pernas sobre a carteira e começando a pentear o cabelo, como sempre.
— Então posso esperar que você tire oitenta pontos ou mais?
— Bem, não tenho tanta certeza. Isso não dependeria do conteúdo da prova?
— Se você intencionalmente tirar zero, e acabar emparelhado com um dos alunos de notas altas, destruirá o equilíbrio que estamos tentando alcançar. Você entende isso?
O único perigo real nessa prova era alguém obter uma pontuação irregular. Se um aluno talentoso como Koenji segurasse a pontuação de propósito, poderia desestabilizar todo o plano. Precisávamos evitar que alunos como Horikita e Koenji acabassem juntos.
— Vou considerar o assunto com cuidado, garota.
Apesar da resposta suspeita, Horikita não tinha como pressioná-lo mais. Não havia maneira de manipular as notas no exame final.
*
No dia do exame curto, embora eu esperasse que começássemos imediatamente, Chabashira-sensei tinha algo a dizer antes.
— Começaremos em breve, mas há algo que gostaria de dizer. Vocês nomearam a Classe C como a classe que desejavam atacar nesta prova. Como não houve conflito com nenhuma outra classe, sua nomeação foi aprovada — explicou ela.
— Então as Classes A e B nomearam a Classe D? — perguntou Horikita, aliviada por termos superado o primeiro obstáculo. — De qualquer forma, poder desafiar a Classe C, com seus cronicamente maus desempenhos, é uma grande vantagem para nós.
— A Classe C vai atacar a Classe D. Eles também não tiveram outras nomeações que entrassem em conflito.
Então o confronto seria Classe D versus Classe C, e Classe B versus Classe A.
— É o emparelhamento ideal — comentou Horikita.
— Parece que sim.
Em resumo, as classes mais altas haviam escolhido desafiar seus rivais diretos. Cada classe lutava para ampliar a vantagem ou diminuir a distância.
Provavelmente Sakayanagi decidira a nomeação da Classe A. Katsuragi certamente teria escolhido a Classe D, pois isso daria à Classe A a maior chance de vitória. Era evidente que a influência de Katsuragi estava em declínio.
A Classe C seria nossa adversária — exatamente como Horikita queria.
— De todo modo, você parece estar muito bem hoje, Ike. Já você, Yamauchi, normalmente está com olheiras enormes antes de uma prova. Pensou em alguma estratégia secreta? — perguntou Chabashira-sensei.
— Heheheheheh. Observe e aprenda, sensei — respondeu Ike, cheio de confiança. Ele não precisara estudar nada.
O real perigo para ele seria tirar uma nota mediana. As questões eram absurdamente fáceis, mas ele podia simplesmente escrever o nome e entregar a folha em branco. Se tentasse responder seriamente, aumentaria os riscos para a classe.
Chabashira-sensei devia estar percebendo tudo.
— Não façam algo de que vão se arrepender depois. Seria melhor levar esse exame a sério.
— C-Como assim? Isso não vai afetar minha nota final, certo? — perguntou Ike.
— Certo. Sua nota final não refletirá a pontuação deste exame.
— Nesse caso, eu não preciso de uma boa nota — disse Ike.
— Claro. Se tudo correr exatamente como vocês esperam.
As palavras de Chabashira-sensei deixaram a turma inquieta.
— Será que deveríamos tentar tirar notas boas? — murmurou Sudou.
— Não se apavorem. Não há problema algum com o nosso plano — garantiu Horikita.
Sua calma restaurou a confiança da classe. Sudou endireitou a postura imediatamente.
— É isso. Só preciso acreditar na Suzune.
Após confirmar que todos tinham se acalmado, Chabashira-sensei distribuiu as provas.
— Muito bem, vamos começar. Não preciso lembrar que qualquer tipo de trapaça é proibido. Se alguém for pego colando, não haverá misericórdia.
Os alunos da frente receberam as pilhas e começaram a passar para trás. Como precisávamos manter a folha virada para baixo até o início, virei a minha imediatamente.
— Não está preocupada em estar errada sobre como os pares são escolhidos? — perguntou Chabashira-sensei.
— Nem um pouco. Tenho total confiança — respondeu Horikita.
Ela não demonstrou o mínimo abalo. A confiança dela permitia que Ike e os outros permanecessem firmes.
A Classe D estava mudando. Mudanças pequenas, mas perceptíveis — e eu tinha certeza de que nossa professora também as havia notado.
— Podem começar — anunciou Chabashira-sensei.
Virei a prova devagar.
— Oh…
Não consegui evitar o som. E provavelmente não fui o único. Apesar de já esperarmos que o nível de dificuldade fosse baixo, aquilo era absurdamente fácil. Até crianças pequenas conseguiriam responder. Claro, havia algumas questões mais complicadas, mas mesmo alguém como Ike poderia facilmente tirar algo em torno de sessenta pontos se mantivesse a calma.
Era uma armadilha tentadora. Se tivéssemos nos lançado de cabeça sem pensar, teria sido um desastre. Mas era exatamente por isso que Horikita havia traçado seu plano.
*
O exame curto terminou sem incidentes. Os resultados foram anunciados já no dia seguinte. A Classe D sempre fizera suas provas sem nenhum senso de união, mas desta vez estávamos tão alinhados que parecia até bom demais para ser verdade.
Ignorando o sistema de duplas, a criação das questões e a competição futura, a simplicidade dessas regras tinha sido uma dádiva. Era simples agora: fazer a prova, alcançar a nota necessária. Era algo que vínhamos fazendo nos últimos nove anos de escola, afinal.
— A melhor parte é que parece que eu nem precisei me envolver — murmurei. Eu realmente estava grato por isso.
— Agora, anunciarei as duplas para o exame final — disse Chabashira-sensei.
Os resultados do teste curto foram os seguintes: Horikita Suzune e Sudou Ken; Hirata Yousuke e Yamauchi Haruki; Kushida Kikyou e Ike Kanji; Yukimura Teruhiko e Inogashira Kokoro.
As duplas estavam quase perfeitamente alinhadas com o que havíamos previsto. Minha parceira era… Satou Maya.
— Deus realmente tem um péssimo senso de humor.
Como aquilo tinha acontecido? Não pude evitar me perguntar. Satou percebeu que tinha sido pareada comigo e sorriu em minha direção. Levantei a mão para indicar que tinha notado.
— Parece que Koenji-kun agiu exatamente como esperávamos desta vez.
Koenji estava em dupla com Okiya. Ao que tudo indicava, havia tirado uma pontuação alta o bastante. Bem, ele sempre tinha tirado notas altas até agora — era seu padrão. Ele cruzou os braços, sorriu e soltou uma risadinha.
— Os resultados indicam que alguns de vocês entenderam o objetivo deste teste curto — disse Chabashira-sensei, visivelmente impressionada enquanto analisava a lista de duplas. — Os alunos foram pareados de acordo com a diferença de pontuação: o maior com o menor, e assim por diante. Se dois alunos tirassem a mesma nota, o pareamento seria decidido aleatoriamente. Provavelmente não preciso explicar todo o sistema, mas achei melhor esclarecer.
Não era surpresa, mas saber que estávamos certos era um alívio.
— Não vejo nenhum problema evidente com as duplas — comentei com Horikita.
— Sim. Tudo está indo tão bem que chega a assustar. Mas o verdadeiro desafio começa agora. Como vamos elaborar nossas questões e como vamos superar o exame final? Você está pareado com a Satou-san. Deve ficar bem.
Eu não tinha escolhido Satou nem nada do tipo, mas os alunos com pontuações medianas haviam embaralhado um pouco a estratégia. Era apenas estatística — e, de certa forma, até conveniente. Ainda assim, eu não estava totalmente seguro. Ela podia muito bem reprovar o exame. Eu precisava manter minhas notas altas daqui em diante.
— Vou organizar grupos de estudo até o exame final para aumentar a média da classe — disse Horikita. — Se Hirata-kun e Kushida-san concordarem, gostaria de realizar duas sessões por dia. Haverá uma sessão de duas horas começando às 16h, logo após as aulas, até às 18h. A outra será das 20h às 22h. Cada um de nós conduzirá uma sessão por vez. Vou contar com você, Hirata-kun.
— Por causa das minhas atividades no clube, ficarei com o segundo grupo de estudo. Vamos trabalhar juntos e dar o nosso melhor — respondeu Hirata.
As coisas realmente estavam avançando. Agora havia mais pessoas capazes de atuar como tutores, então podíamos adotar esse tipo de estratégia.
Horikita e Hirata discutiram o formato das sessões até definirem cada detalhe. Horikita cuidaria da primeira sessão, enquanto Hirata se voluntariava para a segunda. Assim, conseguiriam apoiar todo o grupo e orientar os alunos mais ansiosos. Kushida participaria das duas sessões e teria um papel especial: ajudar diretamente os estudantes preocupados em alcançar os cinquenta pontos.
Havia várias meninas com notas medianas, como Onodera e Ichihashi. Porém, o plano não era perfeito. Comparado ao grupo de estudos do primeiro semestre, havia muito mais alunos procurando ajuda, e apenas três capazes de ensinar. Naturalmente, quanto mais alunos por tutor, menor a qualidade do acompanhamento. Quando o horário de almoço chegou, Horikita se reuniu com Hirata e Sudou.
— Poxa! A Suzune não vai liderar o segundo grupo? Lá se foi minha motivação, cara — reclamou Sudou. Ele não podia participar da primeira sessão por causa do clube e estava claramente descontente por não ver Horikita lá. Ainda assim, o velho Sudou já teria explodido fazia tempo.
— Não importa quem esteja ensinando, vai me incomodar se você não se esforçar. Certo? — disse Horikita.
— Certo. Somos uma equipe, afinal — respondeu ele. Horikita realmente sabia como lidar com o cavalo selvagem que era Sudou. Incrível.
— Seu esforço reflete em mim — ela acrescentou. — Eu agradeceria se você entendesse isso. Além disso, tentarei aparecer nas sessões da noite sempre que puder.
Com esse toque final, a motivação de Sudou foi às alturas.
— É isso! Tô pronto! Tô contando com você, Hirata!
— Igualmente. Vamos dar o nosso melhor, Sudou-kun.
Agora que estava em dupla com Horikita, Sudou estava realmente animado. No entanto, nesse momento, um intruso apareceu.
— Com licença, posso falar com você? — perguntou Miyake Akito, aproximando-se de Horikita. Eu nunca tinha conversado muito com ele. Ele parecia arrependido.
— O que houve, Miyake-kun? — perguntou Horikita.
Miyake estava acompanhado de Hasebe, uma garota linda que sempre era assunto entre os garotos. Ambos geralmente ficavam na deles e raramente interagiam com outros. Era inesperado vê-los se aproximando de Horikita.
— Esperem, vocês dois foram pareados para o exame final, certo? — disse Hirata, dando abertura para a conversa.
— Sim. Somos parceiros, mas somos igualmente bons e ruins nas mesmas matérias. Estamos um pouco nervosos sobre como vamos nos sair no exame final e queríamos pedir conselhos.
Miyake entregou a Hirata os gabaritos do teste curto e do exame intermediário. Suas pontuações no exame curto eram drasticamente diferentes: Miyake havia tirado setenta e nove e Hasebe, um ponto — exatamente como planejado. Mas, no exame intermediário, suas notas eram sessenta e cinco e sessenta e três, respectivamente. Quase sem diferença. Os dois eram excepcionalmente medianos — mas acabaram separados artificialmente entre os grupos de maior e menor desempenho.
À primeira vista, parecia que poderiam alcançar a nota mínima para passar, mas havia um problema. Miyake e Hasebe erravam exatamente os mesmos tipos de questões. Eram igualmente fracos nas mesmas matérias. Como a aprovação exigia ao menos sessenta pontos em cada disciplina, era uma travessia arriscada.
— Entendo — disse Hirata. — Isso é um pouco inesperado. Vamos verificar as outras duplas depois.
— Sinto muito incomodar você, Hirata, de verdade — disse Miyake. — Vivo te dando problemas, na viagem de navio, no festival esportivo…
Isso me fez lembrar do festival esportivo. Eu mal recordava os detalhes, mas lembrava que Miyake abandonou o revezamento final por ter machucado a perna. Ele se movia normalmente agora, então devia estar totalmente recuperado.
— Por favor, não se desculpe — respondeu Hirata. — Se eu tivesse problemas, tenho certeza de que vocês fariam o mesmo por mim.
As respostas acertadas e erradas dos dois eram tão semelhantes que parecia que tinham sido feitas pela mesma pessoa. Mesmo que alguém manipulasse a pontuação, nem todos os pareamentos seriam perfeitos. Duplas irregulares como essa eram inevitáveis.
— Isso é realmente complicado — disse Miyake. — Não quero atrapalhar seus planos nem bagunçar os grupos de estudo.
Dava para perceber que os dois não eram nada burros. Diferente de Sudou e companhia, que tinham dificuldades reais. O problema com Miyake e Hasebe era outro: eles eram demais parecidos. Por isso, os grupos de estudo não seriam suficientes. Eles precisariam de tutoria individual.
— Kushida-san, posso pedir que você assuma mais alguns alunos? Esses dois têm uma base bem sólida e não vão atrapalhar a coesão geral do grupo — disse Horikita.
— Claro — respondeu Kushida. — Se estiver tudo bem para vocês, Miyake-kun e Hasebe-san, eu cuido disso.
Miyake não pareceu aceitar nem recusar a oferta, mas Hasebe tomou a iniciativa.
— Acho que vou passar. Eu não me dou muito bem com a Ichihashi-san e o resto do grupo — disse ela. Felizmente, Ichihashi e as outras meninas não estavam na sala para ouvir isso. — Além disso, eu não sou muito boa em estudar em grupo quando tem muita gente.
Pelo visto, Miyake era o único que realmente queria pedir ajuda a Hirata; Hasebe não estava muito a fim. Eu realmente achava que seria o contrário.
— Mas vocês dois têm dificuldades nas mesmas matérias. Se fizerem a prova final do jeito que estão, mesmo que atinjam a pontuação total necessária, podem tirar menos de sessenta pontos em algum lugar — disse Horikita.
— É, eu sei — respondeu Hasebe. Ela desviou o olhar e começou a se afastar.
— Aonde você vai?
— Miyacchi, desculpa ter feito você perder tempo, mas acho que isso não é pra mim — disse Hasebe, deixando a sala.
— Desculpa, Horikita — murmurou Miyake.
— Não me incomoda. Bom, mesmo que seja só você, não se importa de estudar com a Kushida-san? — perguntou Horikita. Se Miyake melhorasse suas matérias fracas, poderia compensar por Hasebe também.
— Vou passar. Não me sinto confortável estudando num grupo só de garotas. Vou tentar me virar sozinho — respondeu ele. Levantou-se, pegou a mochila e saiu.
Horikita não podia obrigar ninguém a estudar. Sem participação voluntária, dificilmente haveria resultados. Além disso, isso provavelmente diminuiria a motivação dos alunos que realmente estavam se esforçando.
— E agora? — perguntou Hirata. — Acho que deveríamos acompanhar os dois.
— Sim. Se ao menos tivéssemos mais um tutor — disse Horikita.
Ela lançou um olhar para mim, e eu respondi com meus olhos: "de jeito nenhum." Além da questão de eu poder ou não ensinar, eu não tinha certeza se conseguiria me comunicar com Miyake e Hasebe. Bem, pelo menos eles provavelmente ignorariam minha existência depois disso.
— Vou ver se consigo arranjar tempo — murmurou Horikita. Depois de pensar um pouco, ela pareceu decidir que teria de assumir essa responsabilidade sozinha.
— Acho que isso não é uma boa ideia. Você vai se sobrecarregar. Se fizer isso, não vai conseguir ser uma boa tutora. Além disso, Horikita-san, você também precisa preparar as questões da prova da Classe C — disse Hirata.
— Mas que outra opção eu tenho?
Era evidente que Horikita estava pronta para se impor caso ninguém mais pudesse assumir. Hirata podia aconselhar, mas não tinha como impedi-la. No fim, ela assumiria Miyake e Hasebe, e ponto final.
— Nesse caso, eu fico responsável por tutorar os dois — disse Yukimura, entrando naturalmente na conversa.
— Seria ótimo ter você conosco, Yukimura-kun. Você é aplicado e tem ótimo desempenho acadêmico. Mas tem certeza disso? Achei que você não gostava muito desse tipo de coisa.
— Se eu não ajudar no que posso, não vamos conseguir passar na prova — respondeu Yukimura. — O mesmo vale para você, Horikita. Você não pode fazer tudo sozinha.
Talvez Yukimura tivesse decidido intervir depois de ver as mudanças de Horikita desde o festival esportivo.
— Só tem um problema. Eu posso ensinar o Miyake e a Hasebe, mas não sou próximo deles. Depois do que vimos agora, tenho a impressão de que conversar com eles vai ser complicado. Eu esperava que você fizesse o trabalho de convencê-los a estudar comigo.
Então havia uma condição. Mas, nas circunstâncias, era um preço pequeno a se pagar. Horikita ficou radiante. Yukimura era como a cavalaria em um filme — chegando no momento certo para salvar os protagonistas encurralados.
— Certo. Vou dar um jeito — prometeu Horikita.
Depois que Yukimura deixou a sala, ela se voltou para mim.
— Podemos ser otimistas por enquanto?
— Não necessariamente. Pense bem: você também não sabe como falar com eles — respondi.
— Hirata-kun, você acha que Miyake e Hasebe vão ouvir o Yukimura-kun? — perguntou Horikita.
— Não sei. Os três são bem reservados — disse Hirata. — Vai depender de eles conseguirem se entender com o Yukimura. Pode deixá-los um pouco ansiosos.
Horikita pensou por um momento antes de se virar novamente para mim.
— Ei, Ayanokoji-kun. Você poderia gerenciar o Yukimura-kun e os outros?
— Gerenciar?
— Você foi colega de quarto do Yukimura-kun no navio, então achei que vocês já tivessem quebrado um pouco o gelo. Miyake-kun e Hasebe-san podem ser difíceis, mas com você como intermediário, acho que será mais fácil nos comunicarmos com eles — disse Horikita.
Provavelmente era o melhor plano disponível. E ninguém mais poderia servir como ponte entre Horikita e os dois. Mesmo assim… por que eu? Eu estava tão feliz por não estar envolvido dessa vez.
— Você não parece muito contente. Não vai cooperar comigo? Tudo que você precisa fazer é ajudar a reunir os dois para estudarem com o Yukimura. Não pedi para você ensiná-los — acrescentou Horikita. Embora fosse verdade, só administrar Miyake e Hasebe já parecia uma tarefa difícil. — Posso contar com você? — perguntou.
Aquela solicitação estava virando uma ameaça. Só me restava concordar. Aceitando, Horikita manteria as aparências, e o risco era mínimo. Eu só não queria fazer algo realmente exaustivo, como ensinar ou preparar questões.
— Vou fazer o que puder.
Suspirei, cuidando para que Horikita não percebesse.
*
Comecei a me preparar imediatamente. Conversei com Hirata e Yukimura e depois entrei em contato com Miyake. Falamos sobre fazer uma sessão de estudos mais tarde. Infelizmente, as coisas não seriam tão simples assim.
Assim que a aula terminou, Hasebe desapareceu da sala.
— Hã? Cadê a Hasebe?
— Será que ela fugiu? — murmurou Yukimura.
— A Hasebe não é assim — disse Miyake. — Talvez ela só tenha ido na frente.
— Por que ela faria isso?
— Por vários motivos.
Miyake parecia entender bem a Hasebe e não estava particularmente preocupado.
Decidimos seguir para o Pallet, nosso ponto de encontro para estudar. No caminho para o café, vimos Hasebe no corredor.

— Por que você saiu correndo? — pressionou Yukimura.
— O quê? Talvez eu só não goste de ficar parada. Ficar em grupo é um pouco estranho pra mim — respondeu ela, de modo vago.
Yukimura pareceu interpretar aquilo como um ataque pessoal, como se ela achasse nossa companhia constrangedora.
— Então você odeia ser vista conversando com a gente? — perguntou ele.
— Não é isso. Tem vários motivos.
— Relaxa, Yukimura. A Hasebe é assim mesmo — disse Miyake.
— Bom, todos os assentos do Pallet provavelmente vão estar ocupados enquanto a gente fica parado aqui conversando. Vamos andando — sugeri. Eu entendia como Yukimura se sentia, mas precisávamos ficar focados. As aulas tinham acabado e os alunos começavam a entrar no Pallet um após o outro.
— É, você tem razão… Seria um problema se não tivesse lugar pra sentar. Vamos — respondeu Yukimura, recuperando a compostura e tomando a dianteira.
— Você devia pensar um pouco mais antes de falar — disse Miyake a Hasebe.
— Foi tão irritante assim? Vou pensar no assunto, acho — respondeu ela.
Pelo visto, ela não tinha sido rude de propósito.
Conseguimos garantir quatro assentos no Pallet. Yukimura sentou ao meu lado, enquanto Hasebe ficou à nossa frente. Miyake sentou ao lado dela. Era uma combinação bem estranha, e os quatro claramente se sentiam desconfortáveis e deslocados. Eu mal entendia como esse grupo tinha se formado em primeiro lugar. Ainda assim, precisávamos começar.
— Hm, acho que vou contar com vocês, sei lá — disse Hasebe.
— Bom, se tiverem alguma dúvida, fiquem à vontade pra perguntar — falei para todos.
Hasebe, a única garota do grupo, levantou a mão na hora.
— Então você sabe falar, Ayanokoji-kun?
— Essa é mesmo a pergunta que você vai fazer?
Ela pareceu ficar mais interessada do que deveria. Pelo visto, o simples fato de eu estar conversando já era um grande mistério para ela.
— Acho que não tenho nenhuma impressão sua, na verdade. As pessoas percebem quando você não está por perto? — continuou.
Bom… eu realmente não falava com a Hasebe no dia a dia. Na verdade, nunca tinha falado. Então sua impressão fazia certo sentido.
Miyake comentou sobre o festival esportivo:
— Mas o Ayanokoji mandou muito bem na última corrida. O pessoal só fala dele desde então.
— Pois é. Mas eu fui ao banheiro durante a corrida, então nem vi. É meio bizarro pra mim. Você não competiu contra o ex-presidente do conselho estudantil? Foi do que todo mundo falou quando o festival acabou — disse Hasebe.
— Você fazia atletismo no fundamental, Ayanokoji? Depois que viram você correr, um dos olheiros do clube de atletismo foi atrás de você — disse Miyake.
— Ah, sim. Recebi umas propostas. Mas recusei — respondi. O interesse do clube de atletismo era temporário. Eles não ficariam insistindo para sempre. Provavelmente já nem falavam mais de mim. Mesmo alguém rápido não valia o esforço se não estivesse interessado em entrar no clube.
— Pra ser sincero, nunca participei de um clube — acrescentei. — Não entendo muito dessas coisas.
— Ah, sério? Que pena — comentou Miyake.
Yukimura apenas escutava, sem dizer nada. Hasebe, já entediada, mudou o foco para Miyake:
— O Miyacchi é do clube de arco e flecha. É divertido atirar arcos e flechas todo dia?
— Eu não faria isso se não fosse divertido. E, aliás, você não atira o arco, só as flechas — respondeu ele.
Bom, ele não estava errado.
— Acho que eu só não tenho interesse em clubes. Gosto de ficar sozinha mesmo — disse Hasebe.
Minha impressão dos dois era bem diferente agora. Eles falavam muito mais do que eu imaginava.
— Ei, Miyacchi. Tudo bem você faltar às coisas do clube? — perguntou Hasebe.
— Tirei o dia de folga.
— Uau. Você não devia fazer isso.
— Quando algo é prioridade, eu foco naquilo. Além disso, meu clube é bem tranquilo, então não vai dar problema.
— Com licença? Eu gostaria de dizer algo antes de começarmos — disse Yukimura, finalmente falando. Ele não olhou para Miyake ou Hasebe, mas para mim. — Nada de ficar escondendo as coisas, Ayanokoji.
— Hã? Do que você está falando?
— Estudos. A Horikita disse que você é bem capaz.
— Argh, a Horikita… — murmurei. Que fofoqueira. Eu precisava dar algo a Yukimura se quisesse ganhar a confiança dele. — Bom, eu sou relativamente bom em memorizar coisas. Acho que consigo tirar notas altas se me concentrar.
— Você é do tipo que esconde as próprias habilidades?
— Não chego nem perto de você, Yukimura. Não espere demais. E eu não sou muito bom em ensinar — respondi.
— Então é melhor levar este grupo a sério. Com meu tutorado, você com certeza vai melhorar sua nota em relação ao exame intermediário. Nem que seja um ponto. — Yukimura se voltou para Hasebe e Miyake. — Vocês trouxeram as folhas de resposta do exame intermediário e das provas do primeiro semestre, como pedi?
— Trouxe — disse Hasebe.
Miyake também assentiu. Eles tiraram os papéis da mochila e entregaram a Yukimura. Dei uma olhada nas notas.
— Vocês dois mandam bem em ciências. Mas as matérias de humanas são um desastre completo — disse Yukimura.
Miyake e Hasebe tinham notas relativamente altas em matemática, por volta dos setenta pontos. Mas em língua japonesa e história mundial tinham ficado na casa dos quarenta. Dava pra entender por que estavam preocupados.
— Eu não sabia que vocês dois eram tão próximos, mas realmente compartilham as mesmas forças e fraquezas — acrescentou Yukimura.
— A Hasebe veio falar comigo um dia em que eu estava estudando na biblioteca — disse Miyake.
— Eu e o Miyacchi somos meio independentes. Não nos encaixamos muito bem com o resto da turma — acrescentou Hasebe.
— Acho que sinto isso também — disse Miyake. — Mesmo aqui, com vocês, eu me sinto meio deslocado.
Eles realmente eram mais afastados do restante da classe, sem pertencer a nenhum grupo específico. Talvez fosse por isso.
— Então por que decidiu estudar com a gente? — perguntou Yukimura.
— Porque isso não é exatamente um clube, né? É só um grupo de estudos. E vai ser silencioso só com a gente aqui. Quando estudo sozinho, nada me incomoda ou atrapalha. Acho que vou ter que processar esse novo jeito de estudar. Desculpa, mas vou precisar de um tempo.
— Entendi. Vamos fazer uma pausa pro chá? — sugeriu Hasebe. Ela tirou o celular na mesma hora e relaxou. No fim das contas, hoje em dia qualquer um conseguia passar o tempo só mexendo no telefone. Talvez fosse adequado eu pegar o meu também?
De repente, senti como se alguém me observasse. Virei-me. Alguns alunos — todos ao telefone com alguém — nos encaravam. Reconheci três deles; todos eram da Classe C. Eu só lembrava o nome do que estava no centro: Ishizaki.
Tomara que isso não se tornasse outro problema.
Os três não pareciam querer arrumar briga. Apesar de olharem para mim de vez em quando, caminharam até a vitrine ao lado do caixa. A vitrine tinha vários tipos de bolos, que você podia pedir para viagem ou comer ali mesmo. O shortcake de morango e o Mont Blanc pareciam especialmente populares, mas eu não entendia muito desse assunto.
A atendente parecia ter dificuldade em ouvir o que os alunos da Classe C estavam tentando pedir. Por mais que eles falassem, ela não pegava, por exemplo, um shortcake de morango da vitrine. Logo, ela parecia aflita e apologética.
— Como assim você não consegue fazer isso?! — rugiu Ishizaki.
O café, que estava cheio e barulhento, ficou em silêncio na hora.
— Senhor, precisamos de pelo menos uma semana de antecedência para qualquer bolo feito sob encomenda — respondeu a atendente. — Infelizmente, não é possível preparar algo no mesmo dia.
Depois da resposta, as conversas no café voltaram ao normal.
— O que foi aquilo? — perguntou Hasebe, girando a caneta entre os dedos enquanto olhava para Ishizaki e seus amigos com desgosto.
— Quem sabe? Não tem nada a ver com a gente — respondeu Yukimura, indiferente. Ele continuava escrevendo nos exames de Hasebe e Miyake, provavelmente identificando em quais matérias eles tinham mais dificuldade e montando uma estratégia.
Bolo, hein? Eu não estava minimamente interessado no que Ishizaki discutia com a atendente, mas o assunto me fez lembrar que meu aniversário era amanhã. Para ser honesto, eu não sabia como alguém normal passava o aniversário. Para mim, esse dia sempre significou apenas que eu estava ficando mais velho.
Eu sabia que aniversários geralmente eram celebrados com a família, alguém especial ou amigos. Mas eu não entendia o que eu deveria sentir.
— O que foi, Ayanokoji-kun?
— Nada.
Amanhã seria 20 de outubro. Era natural que outros alunos e professores compartilhassem da mesma data. A diferença entre eles e eu era que eu não tinha ninguém para comemorar. Perguntei-me se alguém reconheceria meu aniversário no ano seguinte.
*
— Vou pegar mais um café — disse Hasebe.
— Eu também — disse Miyake.
Já tinham se passado mais de trinta minutos, e Yukimura ainda não tinha levantado os olhos dos papéis. Parecia que sua revisão e plano de estudo ainda levariam um tempo.
Hasebe e Miyake foram até o balcão com os copos vazios. O Pallet tinha uma política: se você trouxesse o recibo no mesmo dia, podia pegar outra xícara por metade do preço. O café era barato, saboroso e servido na medida, o que o tornava bastante popular entre os alunos do primeiro ano. Aqueles dois já estavam na terceira xícara. Yukimura, ainda concentrado, tinha metade da primeira pela metade. Ele analisava os livros, anotações e provas com enorme foco, marcando tudo calmamente.
— Parece trabalhoso — comentei.
— Nunca ensinei ninguém a estudar de verdade antes. Quer dizer, uma vez, no fundamental, ensinei um idiota a virar a noite estudando, mas eu quase enlouqueci. Não conseguia me concentrar porque ele não entendia nem o básico — disse Yukimura.
Ele pousou a caneta por um momento e olhou para o teto.
— Até hoje eu não esqueço o tempo desperdiçado. Achei tão idiota tentar ensinar alguém a estudar. Quando você e a Horikita juntaram aquele pessoal que estava prestes a reprovar e fizeram sessões de estudo, sinceramente, eu ria de vocês. O mesmo vale para o grupo do Hirata. Não parece desperdício? Quase todo mundo que odeia estudar simplesmente não consegue estudar. Ensinar eles a decorar coisas por alguns dias parecia inútil, já que voltariam ao normal logo depois.
Ele não parecia estar despejando veneno — só estava sendo honesto.
— Então por que decidiu ajudar agora? — perguntei.
Esse teste não era como os do fundamental — não havia comparação possível. Se não estudássemos o suficiente para a monstruosidade que se aproximava, seria o fim.
Yukimura estava assumindo uma responsabilidade enorme. Se Hasebe e Miyake fossem expulsos, ele provavelmente culparia a si mesmo.
— Eu fui inútil no festival esportivo. Fui derrubado exatamente pela coisa que achei irrelevante. No fim, a única diferença entre mim e outros alunos é aquilo em que desistimos — seja esportes ou estudos.
Ike, Yamauchi e Sudou não conseguiam estudar. Yamauchi não conseguia praticar esportes. A escola tinha determinado que ambas as áreas tinham a mesma importância — talvez por isso Yukimura tivesse chegado a essa conclusão.
— Só saber estudar não basta nesta escola. Só ser atlético não basta. Mesmo juntando as duas coisas, ainda não é suficiente. Mesmo pessoas como Horikita e Hirata, que são excelentes academicamente e fisicamente, não conseguirão superar os desafios daqui só com essas habilidades. Intuição, percepção, sensibilidade… Precisamos dessas coisas, essenciais na vida em sociedade. Trabalhar em equipe é vital. É a única forma de vencermos — disse Yukimura.
Ele provavelmente tinha passado por várias dificuldades antes de vir para esta escola.
— Então eu decidi ajudar. Vou contribuir como puder.
E, para isso, usaria sua especialidade.
— Além disso, eu estava sendo egoísta. Achei que estaria bem enquanto pudesse estudar. Só me preocupava comigo mesmo. Era igual à minha mãe, egoísta. Então resolvi encarar isso de frente e… ah, isso não importa. Esquece.
Ele desviou o olhar.
— Se eu tivesse que ensinar Ike e os outros, provavelmente estaria sofrendo muito mais. Miyake e Hasebe levam os estudos a sério, então vai ser fácil. E eles já vão bem em ciências. Não deve ser tão difícil cobrir o resto. Não sei o quanto vou conseguir ajudar, mas certamente veremos algum progresso.
Um pensamento bem positivo. Yukimura provavelmente entendeu que esse era o lugar onde ele podia fazer a diferença. E até eu conseguia perceber que Hasebe e Miyake eram aplicados e tinham boa postura. Sabiam focar e assimilar. Ao perceber isso, Yukimura queria corresponder ao esforço deles.
— Vou ao banheiro — avisei.
Hasebe e Miyake ainda não tinham voltado. Como parecia que a sessão ainda demoraria, levantei-me.
A verdade era que eu sentia os olhares de Ishizaki e seus amigos sobre mim.
E… havia outra presença também. Não tinha a melhor visão possível, mas alguém estava me observando em segredo.
Yukimura estava ocupado, então caminhei direto até ela e sentei ao seu lado. Ela nem percebeu que eu tinha me aproximado.
— O que você está fazendo aqui, Sakura? — perguntei.
— Hyaaah?! — Sakura praticamente saltou da cadeira, assustada. — E-É só uma coincidência, Ayanokoji-kun!
— Coincidência, é?
— Sim, coincidência.
— Bom, achei que você estivesse olhando para mim de vez em quando.
— Isso é… quer dizer… me desculpa.
Sakura pediu desculpas imediatamente. Ela não tinha confiança suficiente para sustentar a mentira.
— Tem algo que você queira me dizer? — Se não fosse urgente, ela poderia ter ligado ou mandado um e-mail. Sakura não era do tipo que ficava no Pallet com amigos. — Você queria participar do grupo de estudos?
— P-Por q-que você acha isso?!
— Bem, eu vi materiais de estudo na sua bolsa.
Isso era estranho. Naturalmente, você só carregaria todos os seus cadernos se fosse estudar. Muitos alunos estudavam por conta própria… Mas Sakura jamais escolheria um lugar tão cheio.
— Ah… um! — Sakura entrou em pânico e tentou fechar a bolsa, mas já era tarde. Sua reação deixava claro que queria participar.
— Então, por que não se senta com a gente? Vou falar com o pessoal.
— M-Mas eu… eu quase nunca falei com eles. — Sakura não lidava bem com pessoas, então não tinha coragem de ir até nossa mesa. Eu sabia disso.
— Bem, provavelmente você veio aqui por algum motivo. A Sakura que eu conheço não viria até o Pallet arriscando esbarrar em um monte de gente à toa — disse.
Estar em público ainda era difícil para ela. Provavelmente quis ir embora ou voltar correndo para o dormitório várias vezes, mas ficou. Isso significava alguma coisa.
— Enfim, você decide, Sakura. Isso não depende só de mim. Temos que considerar como o Yukimura, a Hasebe e o Miyake vão se sentir — falei.
Ela talvez ficasse abatida com isso, mas sua passividade poderia prejudicá-la. Se eu queria que ela desse um passo à frente, o melhor era manter certa distância e observá-la. Além disso, falar com Miyake e Hasebe era relativamente fácil. Sakura certamente sentia isso também.
— Pense com calma, se quiser. A gente deve ficar aqui por mais uma hora — acrescentei.
Mesmo que fosse um pouco frio, deixei Sakura e voltei ao meu lugar. O café estava cheio; se eu ficasse parado lá por muito tempo, Hasebe perceberia. Yukimura me lançou um rápido olhar e não disse nada.
Uns dois minutos depois, Miyake e Hasebe voltaram.
— Terminou de verificar tudo? — perguntou Miyake.
— Só mais um pouco — respondeu Yukimura, acelerando o ritmo.
— Ah, lembrei. Queria te perguntar uma coisa, Ayanokoji-kun — disse Hasebe.
— Para com isso, Hasebe — disse Miyake. Bem, aquilo parecia promissor… ou perigoso.
— Relaxa. Não é como se fosse o fim do mundo alguém ouvir — disse Hasebe.
— Esse não é o problema. Existe hora e lugar — rebateu Miyake.
Muito promissor… no pior sentido.
— Ué, as aulas já acabaram. Agora é exatamente a melhor hora para conversar — insistiu Hasebe.
Miyake balançou a cabeça, como se não soubesse o que fazer. O que ela estava tramando?
— Ayanokoji-kun, você tá saindo com a Horikita-san? — perguntou.
— Não.
— Uou. Nem pensou antes de responder. Parece até resposta ensaiada. Meio suspeito, não acha?
— Muita gente já perguntou isso. E não é como se eu e a Horikita estivéssemos sempre juntos — respondi.
— Pode ser. Mas dizem que boato de romance é metade verdade, metade mentira.
Para uma garota solitária, Hasebe parecia bastante interessada em romance. Talvez outra pessoa perguntasse se ela tinha namorado. Mas eu não era esse tipo de pessoa — ou melhor, simplesmente não conseguia fazer isso.
— Certo — disse Yukimura de repente, levantando a cabeça. Parecia ter terminado sua análise. — Acho que entendi onde vocês dois têm dificuldade. Gostaria de propor um plano de estudos detalhado.
Ele devolveu as provas a Miyake, com anotações nas margens.
— Preparei algumas questões de humanidades para vocês resolverem. A Hasebe vai fazer o mesmo depois, então não escreva direto no meu caderno. O tempo limite é dez minutos. São dez perguntas no total.
Miyake aceitou o caderno sem reclamar — sabia que Yukimura estava fazendo aquilo para ajudá-lo. Depois de dez minutos de sofrimento, passou-o para Hasebe, que repetiu o processo. Yukimura provavelmente criara essas perguntas para identificar fraquezas específicas.
Quando os vinte minutos terminaram, ele imediatamente começou a anotar os resultados.
— Sério, vocês dois…
Ele devolveu as folhas com um suspiro exasperado. Miyake e Hasebe tinham acertado apenas três questões, errado seis e tirado meio ponto em uma. Mas o surpreendente era que tinham acertado e errado exatamente as mesmas coisas.
— Vocês não têm apenas pontos fortes parecidos. Também memorizam do mesmo jeito — comentou Yukimura.
— Uau! Não parece até coisa do destino, Miyacchi? — disse Hasebe.
— Não, não parece.
— Ah, qual é. Você nunca entra na brincadeira. Mas, hm… isso não é um problema? — perguntou ela, um pouco aflita.
— Na verdade, isso facilita as coisas. Só vou ter metade do trabalho.
Se os dois tinham habilidades e tendências tão parecidas, Yukimura poderia ensinar como se fosse uma única pessoa. Haveria diferenças, claro, mas tudo caminharia mais suavemente.
— Você acha que vai ser fácil assim? — perguntou Miyake.
— Isso depende do esforço de vocês. Mesmo que eu tenha usado questões relativamente básicas, as notas foram ruins. Para ser honesto, isso me deixa um pouco preocupado. Gostaria que nos encontrássemos de sete a oito vezes antes do exame final. Não quero que seja só tutoria — também precisam de tempo para estudar sozinhos. Vocês três concordam? Miyake, você pode ter conflitos com as atividades do clube, não?
— Já que o exame final está chegando, provavelmente vamos dar uma pausa nas atividades do clube, mas deixa eu pedir permissão primeiro — respondeu Miyake. Yukimura assentiu. Só faltava Hasebe.
— Certo, então deixa eu perguntar uma coisa — disse ela. — Isso aqui não vai acabar sendo só estudo normal? Digo, eu não gosto de estudar nem nada, mas se for só revisar conteúdo, acho que consigo fazer sozinha. Então… como exatamente um grupo ajuda? Claro que entendo que ter alguém inteligente me ensinando é bom e tal. Mas eu vim porque o Miyacchi recomendou, e ainda tô meio na dúvida.
— Duvido que sua preocupação seja só com meu método de ensino — observou Yukimura, percebendo o subtexto. — Este não é um grupo de estudo comum. Se fosse uma prova normal, a escola prepararia as questões. Mas, desta vez, outra classe vai escrevê-las. As perguntas não serão padronizadas nem fáceis de prever. Com outros alunos criando os problemas, surgem variáveis desconhecidas. Vai ser difícil antecipar qualquer coisa. É exatamente por isso que estudar é necessário.
Miyake concordou:
— É, verdade. Tenho certeza de que a Classe C vai tentar fazer a gente tropeçar.
— Sim — disse Yukimura. — Bom, talvez agora essas questões pareçam impossíveis de imaginar, mas… e se identificarmos quem vai criá-las? Pessoalmente, acho que será o Kaneda.
Eu já tinha ouvido esse nome antes.
— Ele é aquele cara estranho com óculos, né? — perguntou Hasebe.
— Não sei se eu chamaria assim, mas sim. Ele é o melhor aluno da Classe C — disse Yukimura. Era razoável assumir que o melhor aluno criaria as questões.
— Mas se a Classe C quer enganar a gente, não poderia ser o Ryuen ou talvez o Ishizaki que faria alguma questão?
— Sem chance. Sem entender bem o conteúdo, eles não vão criar nada útil. Peguem vocês dois como exemplo. Pensem nas matérias em que vocês são fracos, como humanas. Vocês realmente acham que conseguiriam elaborar uma pergunta complicada? — perguntou Yukimura.
— Não. Eu nem saberia criar uma pergunta.
— Sim. Além disso, que tipo de problemas de estudos sociais estariam na prova?
— Exatamente — disse Yukimura. — No máximo, vocês pensariam em algo óbvio. Seria difícil criar perguntas obscuras ou complexas por conta própria. Mesmo que vasculhassem o livro atrás das partes mais difíceis, se não estruturassem um problema adequado, a escola provavelmente rejeitaria.
Os argumentos eram bons, mas ainda não inspiravam muita confiança.
— No fim das contas, é a escola quem decide se a pergunta será usada, certo? — interrompi. — Nesse caso, não seria bom entendermos claramente qual é o limite entre uma questão aceitável e uma não aceitável?
— Verdade — disse Yukimura. — Não teríamos tanta dificuldade se soubéssemos disso.
— Então, se a Classe D enviar de propósito várias questões extremas, quase passando do limite, e observarmos o que a escola aprova, isso não nos daria uma boa noção do que é permitido e do que não é?
— Essa ideia é realmente boa — disse Miyake.
— Você é bem esperto, Ayanokoji-kun — comentou Hasebe.
— Vamos precisar criar questões provisórias o quanto antes para identificar os padrões da escola. Eu posso tentar elaborar algumas, mas será que a Horikita e o Hirata poderiam ajudar? — perguntou Yukimura.
— Não sei. Foi só um palpite meu.
— Isso não é bom. Você é o único que pode falar com eles, Ayanokoji — disse Yukimura. Miyake e Hasebe concordaram ao mesmo tempo.
— Bom, eu faço o que puder. Só não esperem muito de mim — respondi. Será que Horikita e Yukimura tinham mesmo a intenção de me transformar em intermediário?
— Certo. — Hasebe sorriu, suas dúvidas sobre o grupo de estudos dissipadas. — Eu não participo de nenhum clube, então estou livre. Vamos marcar os encontros de acordo com a disponibilidade do Miyacchi.
Miyake olhou para ela, surpreso.
— Achei que você ia desistir, Hasebe. Isso é raro. Normalmente você não quer se envolver com outros caras — disse ele.
— Se fosse só eu sendo expulsa, eu não ligaria. Mas não quero arrastar você junto, Miyacchi. Sabe? Seria ruim se eu não estudasse de verdade desta vez.
— Bom, acho que já é suficiente por hoje. A primeira sessão é depois de amanhã — disse Yukimura, encerrando. Talvez ele pretendesse usar hoje e amanhã para analisar os pontos fracos deles e então criar contramedidas. Difícil dizer ao certo.
Quando nos levantamos para ir embora, percebi que Sakura ainda não tinha vindo falar com a gente.
*
Depois de me separar dos outros três e voltar ao dormitório, entrei em contato com Horikita imediatamente para receber instruções. Contei tudo o que Yukimura havia dito.
— Ótimo. Com certeza vamos querer testar a escola — ela disse. — Hirata e eu já estamos avançando na criação de perguntas para usar contra a Classe C, mas quero saber até onde podemos ir. Eu te aviso quando descobrirmos. Fico feliz que tudo pareça estar indo bem, mas temos certeza mesmo de que o Kaneda-kun será o responsável por criar as questões na Classe C?
— Não temos como ter certeza — respondi. — Mas tentar antecipar o tipo de pergunta que o Kaneda faria é um jeito de conduzir as sessões de estudo. Não é a pior estratégia, certo?
— Acho que sim. Se imaginarmos que essa prova vai estar cheia de perguntas difíceis, talvez precisemos tirar oitenta ou noventa pontos — disse Horikita.
Se a prova fosse muito mais difícil do que qualquer coisa que a escola criaria, inevitavelmente haveria um limite para quantos pontos conseguiríamos.
— A propósito, como foi o grupo de estudos, se não se importa em contar?
Eu não tinha motivo para esconder nada, então contei tudo — embora tenha exagerado um pouco. Tentei fazer soar como se eu tivesse conseguido fazer amigos. Horikita ignorou totalmente esse assunto. Ela só se importava com as habilidades acadêmicas de Hasebe e Miyake.
— Duvido que estejam fazendo isso de propósito, mas é uma coincidência e tanto — ela murmurou.
Não era incomum que as forças e fraquezas das pessoas coincidissem, mas aquele nível de semelhança era assustador.
— Pois é. Por enquanto, vou ver o que consigo fazer. Eles parecem fáceis de supervisionar, de qualquer forma — comentei.
— Obrigada. Ah, mais uma coisa. Nos dias em que o grupo de estudos do Yukimura-kun não se reunir, você poderia vir ao meu? — pediu Horikita.
— Isso não foi o que combinamos.
— Ainda está dentro dos nossos termos. Você não precisa ensinar. Só quero que gerencie todos — respondeu Horikita.
A palavra "gerenciar" era vaga, tão vaga que eu não fazia ideia do que ela queria dizer. Eu entendia tanto quanto entendia a expressão "mais que amigos, menos que amantes". Ou seja, nada.
— O que você quer dizer com "gerenciar"? — perguntei.
Ela soltou um suspiro pesado.
— Tem gente demais precisando de tutoria, em comparação com o número de pessoas que podem ensinar. Não consigo acompanhar todo mundo, por mais que tente. Quero que se certifique de que todos estudem de verdade — disse Horikita.
— Os professores conseguem ensinar dezenas de alunos sozinhos, não conseguem?
— Correndo o risco de soar arrogante… nem nossos próprios professores conseguem observar todo mundo ao mesmo tempo. É por isso que existem alunos como o Ike-kun, que ficam para trás. Isso aconteceria mesmo com câmeras de segurança — e nós as temos. Mesmo que enganem o professor fazendo parecer que entenderam, no fim das contas acabam tendo dificuldade para acompanhar — explicou Horikita.
Eu achava que meu argumento tinha sido rápido e certeiro, mas ela o derrubou com uma única tacada.
— Yukimura-kun não está acostumado a ensinar, e eu estou com dificuldade por causa do número absurdo de pessoas que preciso acompanhar. Ike-kun e Yamauchi-kun são especialmente problemáticos. Eles têm menos capacidade de concentração que uma criança do jardim de infância.
Ike e Yamauchi estavam indo aos encontros, mas aparentemente só ficavam brincando e fazendo o que queriam.
— Alguma objeção?
— Nenhuma.
— Ótimo.
— Eu não preciso ir às sessões noturnas, certo?
— Não precisa. As sessões da noite são bem melhores que as do dia, embora algumas das garotas desse grupo possam ser meio problemáticas — disse Horikita.
Imaginei que algumas delas comparecessem apenas para ficar perto do Hirata e não se importassem com a presença da Karuizawa. Eu não via problema nessas garotas conversarem com um cara atraente como ele. Não seria ruim que o "galã" controlado pela Karuizawa ficasse ainda mais popular na Classe D. De todo modo, devia ser uma dinâmica interessante.
Percebi que Horikita não mencionou Sudou entre os que causavam problemas.
— O Sudou está se comportando?
— Sim. Ele está levando isso a sério, embora ainda não tenha alcançado o nível do ensino fundamental.
Independentemente das matérias, parecia que ele realmente estava tentando melhorar sua atitude.
— Conto com você — disse Horikita. Eu ainda não estava muito confiante nisso.
— Ah, sim. Falando nos grupos de estudo… e a Kushida?
— O que tem ela?
— Nada mudou?
— Claro que não. Eu acho que ela vai ajudar. Ela também prometeu participar das sessões todos os dias — disse Horikita.
Não era exatamente isso o que eu queria perguntar. Mas, para Horikita, aparentemente não havia com o que se preocupar. Afinal, era apenas o primeiro dia do grupo de estudos. Ela não tivera nenhuma chance real de investigar mais a fundo. Na minha visão, porém, era impossível simplesmente relaxar e deixar a situação evoluir por conta própria.
— Você já começou a criar as questões da prova?
— Claro que sim. As minhas, as do Hirata-kun e as do Yukimura-kun vão formar a base. Eu gostaria de ter mais gente ajudando, mas quanto mais colegas eu envolver, maior a chance de que as questões vazem para a Classe C — disse Horikita.
Ela estava absolutamente certa. As perguntas e suas respostas eram a espinha dorsal da defesa da Classe D. Mesmo que estudássemos com empenho e encontrássemos alguma estratégia de ataque, não teríamos chance caso a Classe C obtivesse essas informações. De forma alguma poderíamos permitir um vazamento. E ainda havia a possibilidade de alguém estar se infiltrando para tentar descobrir algo.
— Certamente seria difícil eliminar o risco de vazamento se considerarmos a Kushida. Espera — disse eu — você e ela não participam das sessões noturnas? Seria difícil conversar com o Hirata se não participasse.
— Sim, você está certo. No entanto, ela não pode simplesmente agir livremente. Contanto que não peçamos a ajuda dela com as questões da prova, deve ficar tudo bem.
Essa conversa sobre Kushida e o que ela poderia fazer a seguir era pura especulação de ambas as partes.
— Nossas questões e respostas da prova são a tábua de salvação da Classe D. Se essa informação vazar, estamos condenados — falei.
Deixando de lado o desejo dela de transformar Kushida em aliada, era preciso focar no risco de vazamentos. Não podíamos simplesmente ignorar os perigos potenciais.
— Vou manter tudo sob controle. Mas só isso não resolve o problema, não é?
— Não me preocupo com a parte de "criar as questões". Se algo me preocupa, é o que acontece depois que as entregarmos para a escola. Se você der as questões e respostas finais para a Chabashira-sensei um dia antes da prova, elas vão estar à solta, prontas para serem roubadas — expliquei a Horikita.
Kushida tinha usado uma tática semelhante com a tabela de participação durante o festival esportivo. Era bem provável que Ryuen pedisse algo parecido a ela de novo.
— Então, a única forma de lidarmos com isso é conversando abertamente com a Kushida — disse Horikita.
— Mas o que fazemos se ela vazar nossas questões para a Classe C? — retruquei.
— Eu não quero nem pensar nisso.
— Você precisa. Isso envolve toda a Classe D. Não importa o quanto estudemos ou melhoremos; se nossos oponentes tirarem cem pontos em tudo, não temos a menor chance — falei. Se a Classe C memorizasse todas as nossas respostas, a derrota seria certa.
— Entendi o que você quer dizer e compreendo sua preocupação. Mas eu estou lidando com isso. Já passou das dez horas. Queria elaborar pelo menos mais uma questão antes de dormir, então tudo bem se encerrarmos por aqui?
Concordei, e ela desligou. A bateria do meu celular estava baixa, então conectei o carregador na tomada do estrado da cama.
Agora enfrentávamos uma provação semelhante à do festival esportivo. Assim como a tabela de participação, as questões que criaríamos para o exame final eram nossa tábua de salvação. Com certeza, Ryuen e Kushida preparariam duas estratégias completamente diferentes dessa vez.
Horikita disse que estava trabalhando contra medidas, mas eu não sabia o quão bem isso funcionaria. Não que eu estivesse criticando sua estratégia de persuadir diretamente Kushida; eu simplesmente não tinha muito a acrescentar. Se eu precisasse trazer Kushida para o meu lado, teria de ameaçá-la, como fiz com Karuizawa. Não — provavelmente teria que ir ainda mais longe para forçar Kushida a se render. Porém, eu desconhecia os detalhes do passado dela, e talvez ela nem cedesse sob pressão.
— O que eu devo fazer? — murmurei.
Infelizmente, não consegui pensar em solução nenhuma. Então recebi um e-mail de Ryuen.
Depois do festival esportivo, eu havia pedido o e-mail de Ryuen para Manabe e suas amigas, e lhe mandara uma mensagem. Ele não respondera… até agora.
O que você é?
Essa era toda a mensagem.
— Outro e-mail sem sentido…
Eu não era gentil o bastante para responder, e além disso, ele não podia rastrear meu e-mail. Era uma conta falsa. Ele deveria saber disso, então imaginei que estivesse só brincando.
Decidi ir dormir.
*
Ainda era bem cedo no dia. A biblioteca fervilhava depois do fim das aulas, completamente cheia de alunos. Normalmente, mal um décimo dos assentos ficava ocupado, mas agora o lugar estava pela metade. Apesar da lotação, reinava silêncio. A maioria estava totalmente imersa nos estudos, em vez de conversar ou ler por prazer.
— Uau. Então é essa a biblioteca, hein? — murmurou Satou, soando interessada.
Ah, sim. Isso me lembrava do meu pequeno problema. Satou havia decidido se juntar à sessão de estudos. Eu não falava com ela desde que trocamos contato. Isso era extremamente constrangedor.
— É a minha primeira vez aqui. E você, Ayanokoji-kun?
— Já vim algumas vezes — respondi.
— Entendi. Você é tão estudioso!
— Bom, na verdade eu venho mais para matar tempo.
— Você vem à biblioteca para matar tempo? Que estranho.
Aparentemente, minha resposta genérica foi considerada estranha. Eu não sabia o que pensar e estava um pouco distraído. Não fazia ideia do que Satou pretendia. Mas, por ser uma garota, imaginei que fosse perceber minhas emoções.
— Ei, hum… Ayanokoji-kun… Eu não estou atrapalhando, estou? — ela perguntou.
— Como assim?
— Bom… eu simplesmente apareci do nada dizendo que ia participar da sessão de estudos.
— Eu não me importo. Horikita e Kushida é que vão ensinar, e elas devem ficar felizes com mais gente.
Ninguém queria ver um colega ser expulso. Tentei direcionar a conversa para isso. Claramente, não era o que ela queria ouvir.
— Não é isso que eu quis dizer…
Satou parecia um pouco deprimida. Estar na biblioteca era meio incômodo; eu tinha de sussurrar para não atrapalhar os outros alunos e, por isso, acabava ficando muito mais perto de Satou do que o normal. Eu quase podia sentir sua respiração na minha pele.
Seria aquilo um momento juvenil de hedonismo? Se fosse, juventude era um saco. Eu não estava aproveitando nada. Estava nervoso e preocupado com Satou. Percebi o que ela sentia e escolhi minhas palavras com cuidado.
No fundo, eu só queria ir para casa.
Mas… será que realmente queria?
Tentei analisar minha situação. Era verdade que eu ficava perplexo diante do desconhecido. Isso era abstrato demais para ser chamado de "amor", e eu não conseguia definir exatamente o que era. Para alguém insignificante como eu, a rejeição imediata sempre parecia provável.
Mas eu não viera para essa escola buscando algo além da rotina?
— Uau. Todo mundo parece tão concentrado — disse Satou. — Eles estão realmente estudando.
— Na verdade, a biblioteca é um lugar bem comum para estudar — respondeu Horikita, surgindo do nada.
Recuperei a compostura e limpei a mente. Queria apenas atravessar aquela sessão de estudos. Horikita, que já conhecia bem a biblioteca, não parecia impressionada com a movimentação.
— Certo, vocês dois — ela disse para Ike e Yamauchi. — Nada de escândalos hoje, ok? Se fizerem barulho de novo, podem acabar expulsos daqui.
— Sim, a gente sabe. Poxa…
Satisfeita por ter advertido os problemáticos, Horikita foi garantir lugares para nós. Mesmo que mais da metade das cadeiras estivesse vazia, isso não queria dizer que estavam disponíveis. Era uma regra não escrita que os assentos perto da janela da cafeteria e próximos ao bebedouro eram exclusivos dos veteranos. Nessa divisão territorial, os alunos do primeiro ano só podiam usar a área barulhenta perto da entrada. Essa hierarquia visível existia em praticamente todas as escolas.
No entanto, desta vez havia outra preocupação. Queríamos evitar ao máximo ficar perto de alunos da Classe C.
— O que você está fazendo, Horikita? — perguntei.
— Se é aquilo com que você está preocupado, Ayanokoji-kun, não se preocupe. Já estou cuidando disso.
Bem à nossa frente, Ichinose Honami — uma garota da Classe B — entrou na área dos alunos do primeiro ano. Ela acenou, convidando-nos para conversar. Oito outros alunos da Classe B, quatro garotos e quatro garotas, estavam com ela. Nove pessoas ao todo.
Olhei para Horikita. Pelo seu semblante, aquilo não a incomodava.
Ichinose se aproximou.
— Desculpem a demora — disse Horikita.
— Ah, não. Nós também acabamos de chegar — respondeu Ichinose.
— Encontrei a Ichinose-san ontem e sugeri que formássemos um grupo de estudos conjunto. Como não estamos competindo contra a Classe B neste exame, achei que poderíamos nos ajudar — explicou Horikita.
Pelo visto, Horikita havia feito alguma proposta que envolvia um bom número de pessoas. Provavelmente era isso que ela havia mencionado ontem. Bem… toda prata tem seu lado nublado, como dizem. Ike e Yamauchi, que até então tinham conseguido manter a calma, saltaram no lugar.
— Ike-kun, eu te avisei, não avisei? — disse Horikita, segurando o braço dele. Ike travou de terror, como um sapo encarado por uma cobra. Por que será que ele e Yamauchi ficaram tão animados de repente? Suponho que a ideia de interagir com garotas da Classe B fosse estimulante o bastante.
— Ayanokoji-kun, você também veio! — disse Ichinose.
— Eu estava bem perto de reprovar. Talvez precise da sua ajuda — respondi.
— Ah, não, tenho certeza de que eu é que vou precisar de ajuda — ela disse.
Embora a biblioteca fosse um lugar silencioso, ainda dava para conversar. Como Ichinose conseguiu algumas mesas no canto, a música ambiente abafava totalmente nossas vozes baixas. A música era a Sinfonia nº 6 de Beethoven, "Pastoral". Não sei quem escolheu, mas era algo relaxante; uma boa escolha.
Eu nunca teria imaginado que Horikita realmente formaria um grupo de estudos conjunto. Se conseguíssemos trabalhar com a Classe B, provavelmente seria mais eficiente. A troca mútua de informações significava mais perspectivas e, portanto, questões de prova mais criativas.
No entanto, também havia riscos. Se algum aluno da Classe B tivesse laços com a Classe C, nossas informações poderiam vazar. Claro que Horikita já tinha consciência disso. Ela provavelmente achou que as vantagens superavam os riscos.
Os alunos das duas classes ocuparam livremente as mesas da nossa área.
— Senta aqui, Ayanokoji-kun — disse Satou, insistindo para que eu me sentasse ao lado dela. Obedeci.
— Tá bom.
— Que coisa, Satou. Você está sentando bem pertinho do Ayanokoji-kun, hein?
— É natural, não é? Somos parceiros, afinal.
Tirei imediatamente meu livro e minhas anotações, para evitar que Ichinose me achasse inconveniente. Mesmo que fosse só de fachada, eu provavelmente precisava estudar.
— Ei, Ayanokoji-kun, qual seria a melhor forma de me preparar? — perguntou Satou.
— Você devia perguntar para a Horikita — respondi.
— Mas essa é uma boa oportunidade, não é? Vocês são parceiros, afinal. Por que não cuida da Satou-san, Ayanokoji-kun? — sugeriu Horikita, arrastando as palavras, sem se importar com os sentimentos de ninguém.
— Minhas notas não são muito diferentes das da Satou, então provavelmente não tenho muito o que ensinar. Além disso, eu queria receber ajuda também — falei depressa, tentando manter a dignidade na frente da Ichinose.
— Entendo. Nesse caso, vou ensinar vocês dois — disse Ichinose. Senti que ela estava me deixando amarrado à ideia.
— Vamos dar o nosso melhor juntos, Ayanokoji-kun — disse Satou.
— Sim.
Eu começava a ficar bem preocupado com esse grupo de estudos. E, pelo visto, eu estava completamente certo.
— Você é sempre tão calmo, Ayanokoji-kun. Você tem esse ar bem maduro. Como você era no ensino fundamental? — perguntou Satou, inclinando-se para mais perto e olhando direto nos meus olhos. O uniforme dela estava ligeiramente desabotoado, e percebi um vislumbre de seu decote. Não sei se ela notou, mas sua respiração estava um pouco pesada.
— Acho que normal. Eu não chamava muito a atenção. Não muito diferente de agora. Talvez seja por isso que dizem que sou meio sombrio — respondi, tentando me afastar um pouco e reforçar o quão entediante eu era.
Não havia problema se Satou tivesse uma queda por mim, mas as pessoas estavam olhando, e eu detestava isso. Ike e Yamauchi, em especial, me lançavam olhares incrédulos.
— Você não é sombrio, Ayanokoji-kun. Eu acho você legal — disse Satou. — Ou talvez muito centrado?
— Não acho que "legal" combine comigo.
— Jura? Bom, não sei quanto aos outros, mas é isso que eu acho.
Não importava o que eu dissesse, Satou interpretava tudo de forma positiva. Eu precisava encontrar uma rota de fuga.
— Certo, que tal descobrirmos nossos pontos fracos? Você trouxe seu exame do meio de semestre?
— Trouxe.
Ela tirou algumas provas amassadas da bolsa. Ela havia obtido cerca de cinquenta pontos em todas as matérias. Mesmo acertando questões simples e não estando exatamente em risco de reprovação imediata, qualquer coisa de dificuldade média para cima era um desastre. Sinceramente, era um mistério como Satou tinha conseguido permanecer na escola até agora.
— Está meio ruim, né? — ela perguntou.
— É… um pouco. Mas como estamos mais ou menos no mesmo nível, deveríamos estudar juntos.
— Sim! — Satou ficou extremamente empolgada, mas eu gostaria que ela não fosse tão barulhenta.
— Vocês dois não estão se dando bem até demais? — perguntou Ike, com o olhar cheio de suspeita.
— Somos parceiros. É natural, certo? — respondeu Satou, confiante enquanto usava a prova como justificativa.
— Ike, por que você não estuda em vez de se focar em coisas que não entende? — disse Horikita, aparentemente indiferente a quem se dava bem com quem.
— Tsc. Tá, tá. Eu sei — resmungou ele, preparando seu material.
A disciplina de Ike. O presente que nunca parava de aparecer.
*
Nossa sessão de estudos terminou sem incidentes, e todos começaram a voltar para o dormitório.
— Ah, tô acabado! — resmungou Ike.
Para pessoas como Ike e Yamauchi, que mal conseguiam se concentrar durante o horário normal de aula, uma sessão de estudos depois da escola era a própria definição de inferno. Eles irradiavam felicidade por finalmente estarem livres, mas Horikita lhes lançou um olhar gelado.
— Hoje não é o fim. Amanhã teremos outra sessão — disse ela.
— E-Eu sei disso! Não posso ficar feliz nem um pouquinho? Eu me esforcei! — retrucou Ike, enquanto os dois idiotas disparavam para fora da biblioteca. Pareciam coelhos assustados.
— Uau, a Classe D é bem animada. Quase queria que vocês compartilhassem um pouco dessa energia com a gente! — comentou Ichinose.
— É, mas eles são animados pelas razões erradas. Para ser honesta, eu invejo a Classe B — respondeu Horikita.
Ela não estava errada em sentir isso. Os alunos da Classe B eram mais focados do que os da Classe D; eram calmos, compostos e cooperavam uns com os outros.
— Tchau — disse Kushida a Ichinose. — Horikita-san, tchau pra você também.
— Sim, até mais — respondeu Horikita.
Kushida foi embora sem incidentes, acompanhada por outras garotas. Pelo visto, ela estava mantendo a postura por enquanto. Parecia que ela e Horikita estavam se observando mutuamente.
— Ichinose-san, posso te fazer algumas perguntas? — perguntou Horikita.
— Hm? Que tipo de perguntas?
— Prefiro que seja só entre nós duas. Vai levar apenas alguns minutos — disse Horikita, lançando um olhar aos outros alunos da Classe B que estavam prestes a sair com Ichinose.
— Alguns minutos? Tudo bem. Pessoal, será que vocês podem me esperar no corredor? — pediu Ichinose.
— Claro. A gente conversa enquanto isso — disse uma delas.
Os alunos da Classe B aceitaram o pedido com tranquilidade, e Ichinose concordou em ficar com Horikita. Depois disso, os outros alunos das Classes B e D se retiraram, deixando nós três ali sozinhos.
— Devo ficar? — perguntei.
— Tanto faz — disse Horikita.
Por um instante, achei que ela estivesse sendo sarcástica, mas logo percebi que provavelmente era psicologia reversa para me fazer ficar.
— Sobre o que você queria falar? — perguntou Ichinose.
Era um pouco estranho vê-las juntas assim. Ichinose e Horikita, duas pessoas com personalidades opostas, lado a lado.
— Ichinose-san, se um amigo ou aliado estivesse com problemas, você ajudaria, certo? — perguntou Horikita.
— Ahm, sim? Isso não é natural? — respondeu Ichinose.
— Uhum. E foi muito gentil da Classe B nos ajudar com essas sessões de estudo. Mas "ajuda" pode assumir muitas formas, assim como existem inúmeros tipos de sofrimento. Se alguém te procurasse pedindo ajuda com estudos, bullying, problemas de dinheiro ou até questões de relacionamento entre amigos ou com um professor, você ofereceria ajuda. Certo, Ichinose-san? — perguntou Horikita.
— Claro — respondeu Ichinose imediatamente. Não houve hesitação.
— Então, você tem critérios claros para determinar quem é ou não seu amigo? — Talvez o conflito de Horikita com Kushida tivesse provocado essas perguntas. Ela poderia estar buscando sua própria salvação.
— Hm. Não sei se entendi. O que quer dizer?
— Bem, você estaria disposta a ajudar incondicionalmente alguém da Classe B? Mesmo que esse aluno não contribuísse muito para a classe?
— Não importa como a outra pessoa aja, eu sempre estarei do lado da Classe B. Se alguém estiver com problemas, eu definitivamente vou tentar ajudar — afirmou Ichinose, sem hesitar.
— Talvez tenha sido uma pergunta boba, afinal — suspirou Horikita. — Bem, deixe-me fazer outra pergunta boba. Suponhamos que alguém da Classe B te odiasse, deixando sua relação péssima. Você conseguiria gostar dessa pessoa? Ou acabaria odiando-a de volta?
— Hm… Não sei. É meio difícil. Se essa pessoa realmente me odiasse, minha melhor opção seria evitar contato o máximo possível, para não fazer com que ela me odiasse ainda mais — disse Ichinose.
— E se essa pessoa estivesse em apuros?
— Eu ajudaria — respondeu Ichinose de imediato. — Mesmo que me odiasse, ainda assim eu seria aliada dela por ser da Classe B.
— A Classe B parece extremamente importante para você — comentou Horikita.
— Sim. São todos ótimos. Admito que, no começo, fiquei triste por não ter entrado na Classe A. Mas agora acho que estou na melhor classe. Você não sente o mesmo, Horikita?
— Bem… "lar" é onde você decide construí-lo, eu acho. A Classe D não é tão ruim — disse Horikita.
— Oh? — murmurei, surpreso.
— O que foi, Ayanokoji-kun? Quer acrescentar algo? — Horikita me lançou um olhar afiado.
— Desculpe me intrometer, mas posso te perguntar uma coisa, Ichinose? — falei.
— Claro.
— Entendo que seus colegas são aliados incondicionais. Acho que é necessário ser amigo das pessoas que estão no mesmo barco. Mas… os alunos das Classes A, C e D também são seus amigos?
— Bem, você e Horikita-san são amigos muito queridos para mim, Ayanokoji-kun.
— Então, e se estivéssemos em apuros? Se eu viesse implorando para você me emprestar um milhão de pontos? — perguntei.
— Se houvesse um bom motivo, eu ajudaria. A quantia não importa — respondeu Ichinose.
— Caramba. Sua generosidade não tem limites mesmo. Você realmente ajudaria qualquer pessoa?
— Idealmente, sim. Mas sei que nem sempre é tão simples. Há um limite para o quanto posso fazer sozinha. Se fosse o Ryuen-kun em apuros, por exemplo, não conseguiria ajudá-lo da mesma forma. Mas se estiver ao meu alcance, eu ajudo — disse Ichinose.
Quase comentei que, em geral, o poder de uma pessoa é limitado.
Ela prosseguiu:
— Se você for meu amigo, a natureza ou a intensidade do problema não importa.
— Embora eu aprecie isso, tenho minhas dúvidas. Então, se eu chegasse chorando, implorando por ajuda…?
— Eu te receberia de braços abertos. Meus amigos também são meus aliados — respondeu Ichinose. Sua bondade quase fazia parecer que ela estava provocando Horikita, cujas respostas estavam menos compostas que o normal.
— Nesse caso… o que você faria se Kanzaki-kun e eu tivéssemos o mesmo problema? — perguntou Horikita.
— Quer dizer… se eu tivesse que escolher entre vocês dois? — Ichinose parecia completamente perdida, mesmo sendo apenas uma hipótese.
— Se eu te permitisse escolher os dois, você faria isso num instante — disse Horikita.
— Ahaha, verdade — ela riu. Pensou por alguns segundos. — Desculpa. Não sei responder isso. Se dois amigos tivessem o mesmo problema e viessem me pedir ajuda… numa situação dessas, não importa quem eu ajudasse, eu acabaria machucando alguém.
Isso era tão típico da Ichinose. Horikita parecia genuinamente surpresa e impressionada.
— Eu não acredito que existam pessoas puramente boas. Humanos são criaturas astutas, que querem ver suas virtudes recompensadas — disse Horikita. Era sua filosofia, mas seu argumento praticamente se dissolveu antes de tomar forma. — Mas… depois do que você disse… Talvez realmente existam pessoas boas neste mundo.
Ela estava sendo completamente sincera, mas Ichinose não aceitou suas palavras. Ou melhor… talvez não pudesse aceitar.
Ichinose pareceu surpresa.
— Você está me dando crédito demais, Horikita-san.
Até agora, ela tinha sido honesta e direta conosco, mas agora seus olhos vagavam pelo ambiente. Ela se levantou e caminhou até a janela da biblioteca.
— Bem, eu pelo menos acho que você é uma pessoa melhor do que qualquer outra que já conheci — disse Horikita.
— Eu realmente não sou tão maravilhosa assim — respondeu Ichinose. Ela sequer conseguia encarar Horikita.
— Sério, não é grande coisa — disse Horikita, percebendo, obviamente, a reação estranha de Ichinose. — Desculpe. Talvez eu tenha exagerado um pouco. Não quis te deixar desconfortável.
— Está tudo bem. Você não me deixou desconfortável de verdade.
Ainda assim, Ichinose estava claramente abalada. Pelo que eu havia visto de Ichinose até então, não achava que algo pudesse diminuir seu ânimo. Mas talvez eu estivesse enganado.
— Era só isso que você queria conversar? Chihiro-chan e as outras estão me esperando. Podemos encerrar por hoje? — perguntou Ichinose, como se estivesse tentando fugir.
— Obrigada por responder às minhas perguntas bobas — disse Horikita.
— Não foi nada. Bem, vejo vocês amanhã — respondeu Ichinose.
Depois que ela saiu, permaneceram apenas Horikita e eu, alguns alunos do terceiro ano e os funcionários da biblioteca.
— Vamos voltar — disse Horikita. — Ainda tenho coisas a fazer.
— Só confirmando… o que você vai fazer em relação à Kushida? Parece que você teve alguma ideia — falei. Horikita provavelmente não gostava de ser questionada repetidas vezes, mas eu precisava ter certeza.
— Ela é especial. Vou ter que agir com muito cuidado — disse Horikita.
— Especial?
— Tenho pensado em várias coisas. No tipo de vida que Kushida Kikyou teria tido nesta escola se eu não tivesse entrado aqui. — Então ela continuou: — Percebi que todos da classe teriam confiado nela e dependido dela. Ela estudaria, praticaria esportes, viveria sem grandes preocupações. Teria seguido assim até a formatura. Contudo, minha presença tirou dela esse futuro fácil. Ela trabalhou com o inimigo, o Ryuen-kun, numa tentativa desesperada de me expulsar. Não hesitou em prejudicar a própria classe. Claro, isso não é minha culpa. Foi apenas azar termos acabado na mesma escola.
Então era por isso que ela tentava convencer a Kushida… Pelo visto, Horikita estava assumindo um fardo maior do que eu imaginara. Não, talvez fosse mais como tentar cumprir uma obrigação.
— Tenho uma sugestão — falei.
— Que tipo de sugestão?
— Acho que encontrei a peça que falta para você se reconciliar com a Kushida.
— Como assim?
— Você concorda que a Ichinose é uma boa pessoa?
— Sim. Eu não duvidaria disso, mesmo se ouvisse algum rumor desagradável sobre ela — disse Horikita.
— Então por que não pedir que uma boa pessoa seja a mediadora entre vocês duas? Francamente, acho que nada vai sair de uma conversa direta entre você e a Kushida. Ela jamais revelaria sua verdadeira natureza para alguém da Classe D.
— Mas a Kushida não agiria do mesmo jeito na presença dela? Não importa quem pedíssemos para ajudar, qualquer aluno daqui causaria o mesmo resultado — disse Horikita.
— Bem, nesse caso… existe algum outro estudante que poderia atuar como mediador? — perguntei.
— Bem…
— Se tivesse que indicar apenas um aluno em toda a escola, não escolheria a Ichinose? — perguntei.
— Não posso negar isso… Mas mesmo assim, não acho certo envolver a Ichinose como mediadora — disse Horikita.
— Não acho que isso vai resolver tudo. só estou dizendo que é um passo na direção certa. Agora mesmo, você e a Kushida nem sequer estão em condições de conversar. Se a Ichinose intermediasse, vocês provavelmente conseguiriam ao menos falar de verdade.
Na verdade, Ichinose era apenas o primeiro passo para resolver esse problema. Ainda havia mais peças do quebra-cabeça.
Horikita balançou a cabeça.
— Você está realmente indo direto ao ponto. Mas não posso aceitar isso. Vou resolver as coisas com a Kushida por conta própria.
Ou seja: ela não podia envolver a Ichinose nisso.
*
Kushida estava nos esperando no corredor. Ao ver nós dois, ela acenou discretamente e abriu um sorriso radiante. Horikita, no entanto, não demonstrou a menor surpresa.
— Kushida-san. Desculpe ter te deixado esperando — disse Horikita.
— Não tem problema. Ainda falta um tempinho antes do horário que combinamos. Sobre o que você estava conversando com a Honami-chan? — perguntou Kushida.
— Nada importante.
— Eu ainda gostaria de saber. É algo que pode me contar? — O tom de voz e o sorriso de Kushida não mudaram, mas a tensão aumentou.
— Claro. Afinal, não tem absolutamente nada a ver com você — disse Horikita.
Após ser provocada a relatar o que tinha acontecido, Horikita começou a contar a conversa com Ichinose — embora com algumas alterações.
— Perguntei a ela como poderia conversar com as pessoas de forma igual, sem demonstrar distinções ou favoritismo.
— Ah?
— Não vou mentir. Eu estava falando sobre você, Kushida-san — disse Horikita.
— Escute aqui, Horikita-san. Embora nós duas não nos deem muito bem, eu preferiria conversar sobre isso sem o Ayanokoji-kun por perto — disse Kushida. Em outras palavras, ela não queria que mais alguém soubesse de seu segredo. — Ou será que… Ayanokoji-kun e Ichinose-san já sabem de alguma coisa?
Ela nos lançou um olhar cortante. Horikita, porém, não vacilou.
— Desculpe, Ayanokoji-kun, mas você poderia voltar sem mim? — disse Horikita.
— Parece que estou atrapalhando — murmurei. — Vou indo.
Deixei as duas e segui em direção à saída. Depois de trocar os sapatos, caminhei para o dormitório. No caminho, recebi uma ligação de Horikita e atendi.
Ouvi a voz abafada de Horikita pelo viva-voz:
— Frequentamos a mesma escola. Como eu sei sobre o seu passado, você quer me expulsar. Acertei os fatos?
Pelo visto, Horikita havia me ligado com o celular no bolso. Ela estava me deixando ouvir a conversa.
— Bem, isso foi bem repentino. Por que falar sobre o passado agora? Eu não gosto de tocar nesse assunto.
— Eu também não gosto. Mas não podemos evitar.
— Bem, raramente temos a chance de ficar sozinhas assim. Mas você está certa: eu realmente quero que você desapareça desta escola, Horikita-san. E, sim, é porque estudamos na mesma escola e você sabe sobre aquele incidente.
— Pensei nisso muitas vezes. Embora eu realmente tenha ouvido falar do incidente, eu não liguei. Eu não tinha amigos naquela época, de qualquer forma. Tudo que ouvi foram rumores. Eu não sei qual é a verdade.
— Mas não há garantia de que você realmente não sabe, certo?
— Você tem razão. É por isso que você não consegue superar isso. Não importa o quanto eu negue, você não pode ter certeza de que não estou mentindo. Imagino que você queira me expulsar porque não consegue suportar o fato de eu saber que houve um incidente — disse Horikita. Kushida não negou.
— Que tal fazermos uma aposta, Kushida-san?
— Uma aposta? Do que você está falando?
O silêncio durou alguns segundos. Não parecia algo que Horikita tivesse inventado na hora. Provavelmente já tinha planejado.
— Você não gosta que eu esteja aqui. E eu não posso fazer nada quanto a isso, certo?
— Certo. Enquanto você estiver aqui, Horikita-san, eu não vou ficar em paz.
— Mas estamos ambas na Classe D. Se não trabalharmos juntas, não conseguiremos avançar para a Classe A.
— Na verdade, acho que expulsar você resolve o problema.
— Você pretende abandonar a escola também?
— Claro que não. Só você vai abandonar a escola, Horikita-san.
Mesmo com a voz abafada, dava para perceber que ambas estavam incrivelmente calmas.
— Eu não tenho intenção de abandonar a escola — disse Horikita.
— Então não há nada que possamos fazer. Acho que não conseguimos nos dar bem.
— Pode ser. Eu tenho tentado encontrar um jeito para podermos coexistir.
Eu também não conseguia imaginar solução nenhuma. Nem agora.
— Então… mas eu concluí que, não importa o que eu faça, é impossível.
— Também acho, Horikita-san. Isso só termina quando uma de nós se for.
— Não somos crianças. Não podemos simplesmente brigar. Mas você não confia em mim.
Houve um breve silêncio. Então, Kushida falou:
— O que você quis dizer quando falou em "fazer uma aposta"?
— Se eu tirar uma nota maior que a sua no próximo exame final, você vai cooperar comigo daqui para frente, sem qualquer hostilidade. Não espero que sejamos melhores amigas; só quero que você pare de tentar me prejudicar. É só isso.
— Você está me desafiando pessoalmente, independentemente da pontuação total das duplas?
— Sim.
— Isso é ridículo, Horikita-san. Eu não consegui superar sua nota no exame intermediário. Mesmo se baseássemos a aposta na pontuação total, ainda seria difícil eu vencer. Além disso, eu não ganharia nada com isso.
— Sim, é verdade. Então… — a voz de Horikita ficou quase inaudível — vamos decidir a vencedora com base em uma das oito matérias. Você pode escolher qualquer uma em que seja melhor. Se sua nota for maior que a minha, eu abandono a escola. Essa é a minha oferta.
Eu não conseguia acreditar. Aquilo não era uma simples aposta entre duas pessoas com níveis diferentes. Horikita estava apostando sua própria expulsão — e ainda oferecendo condições extremamente favoráveis a Kushida, permitindo que ela escolhesse sua melhor matéria. Se Kushida perdesse, não precisaria abandonar a escola; só teria que parar de atrapalhar Horikita. Mas se ganhasse… Horikita estaria acabada.
— Mas isso é apenas um acordo verbal, Horikita-san. Se você perder, pode fingir que a aposta nunca aconteceu. E eu também posso não cumprir minha parte. Podemos realmente confiar uma na outra?
— Para tornar tudo oficial, pretendo envolver uma testemunha confiável.
— Uma testemunha confiável?
— Se possível… nii-san.
— O quê—?!
Kushida parecia genuinamente chocada quando ele apareceu. Eu também. Horikita estava tão séria a ponto de trazer seu irmão mais velho para servir de testemunha.
— Sinto muito por pedir isso, nii-san. Mas eu realmente preciso da sua ajuda.
Sim. Ela havia chamado Horikita Manabu, o ex-presidente do conselho estudantil — e seu irmão mais velho — para estar ali.
— Faz tempo, Kushida — ouvi-o dizer. — Você se lembra de mim?
— Eu não esqueço das pessoas.
Os irmãos Horikita estudaram na mesma escola que Kushida. Mas o irmão de Horikita havia se formado antes do incidente envolvendo Kushida, então ele não poderia saber que ela o causou.
— Eu confio mais no meu irmão do que em qualquer outra pessoa nesta escola. Você também pode confiar nele, Kushida-san. Não se preocupe, não contei nada a ele.
— Fui chamado para servir como testemunha, nada mais. Não me interesso pelo restante.
— Você está bem com isso, Horikita-senpai? Se sua irmã perder, então—
— Foi ela quem fez a aposta. Não tem nada a ver comigo.
— E eu também juro que, se perder, não direi uma palavra a ninguém, Kushida-san. Seria uma vergonha para o nome do meu irmão se eu quebrasse minha promessa. Eu jamais faria isso.
A oferta não poderia ser melhor para Kushida.
— Você está falando sério, não está, Horikita-san?
— Eu não sou do tipo que espera as pessoas atacarem primeiro.
— Certo. Eu aceito o seu desafio. E aceito os termos da aposta. Eu escolho matemática. Posso assumir que, se tirarmos a mesma nota, nenhuma de nós vence?
Horikita provavelmente assentiu. Elas tinham concordado com os termos bem diante do irmão de Horikita. Agora não havia como voltar atrás.
— Cumprirei meu papel como testemunha. Caso alguma de vocês viole a aposta, é melhor estar preparada para as consequências.
Mesmo depois de se aposentar da presidência do conselho estudantil, o irmão da Horikita ainda tinha muita autoridade. Kushida honraria o acordo pelo menos até ele se formar.
— Muito obrigada, nii-san.
A conversa silenciou. Kushida e Horikita provavelmente estavam esperando o irmão de Horikita ir embora.
— Estou ansiosa pela prova final, Horikita-san.
— Vamos dar tudo de nós. As duas.
— Sim. Ah, e mande lembranças ao Ayanokoji-kun também.
— Por quê?
— Porque você contou a ele, não foi? Sobre o meu passado.
— Isso...
— Ah, você nem precisa responder. Eu não confio em você, Horikita-san, então não importa. Não vou violar os termos da aposta, então pode relaxar. Além disso, o Ayanokoji-kun já viu um pouco do meu lado ruim.
Eu senti o pânico de Horikita pela ligação.
— Sim. Eu contei ao Ayanokoji-kun.
— Eu sabia. Aliás, você está usando o celular agora? Sabe, eu tentei te ligar várias vezes nos últimos minutos, Horikita-san, mas parece que você estava em outra ligação.
Não era só intuição. Kushida tinha coragem.
— Quer se juntar a nós, Ayanokoji-kun?
Ouvi Kushida me chamando. Provavelmente era melhor obedecer.
*
Eu voltei até Kushida e Horikita.
— Yoo-hoo! — disse Kushida. Apesar da expressão alegre, eu não conseguia dizer o que ela realmente sentia.
— Você realmente me pegou, Kushida-san. Sua perspicácia e sua capacidade de agir são incríveis — disse Horikita.
— Obrigada. Mas, sinceramente, eu só sou observadora — respondeu Kushida.
— Por que você chamou o Ayanokoji-kun? — perguntou Horikita. — Eu pensei que nossa conversa já tinha acabado. Se você está irritada por eu ter deixado ele ouvir, é só dizer.
— Não estou particularmente chateada. É só que eu prefiro falar com vocês dois cara a cara. Eu estava pensando se vocês se importariam em eu acrescentar outra condição à aposta — disse Kushida.
— Outra condição?
— Se eu superar sua nota, Horikita-san, eu quero que o Ayanokoji-kun também seja expulso.
Eu já suspeitava que Kushida sugeriria isso.
— Não — respondeu Horikita.
— Eu quero fazer todo mundo que sabe sobre o meu passado desaparecer. Mesmo que você saia da escola, Horikita-san, se o Ayanokoji-kun continuar, meus problemas continuam.
— Talvez. Mas essa aposta é minha, então não posso envolvê-lo.
Antes que eu pudesse responder, Horikita negou o pedido de Kushida, como se já tivesse decidido isso muito antes. Provavelmente esse era o motivo de ela não ter me contado sobre a aposta desde o início — para evitar me tornar cúmplice.
— Que pena. Eu poderia ter matado dois coelhos com uma cajadada só.
— Então você quer me expulsar também, hein? — perguntei, sinceramente decepcionado.
— Ha, ha, ha! Não precisa ficar tão decepcionado. Não é culpa sua, Ayanokoji-kun. É só azar você ter descoberto a minha verdadeira natureza.
— Não há problema se ele não contar a ninguém — disse Horikita.
— Se fosse só isso, Horikita-san, você não teria me desafiado com essa aposta.
— Bem, você é vital para a Classe D, afinal.
Kushida realmente era muito observadora. Era natural que Horikita quisesse ter esse talento ao seu lado.
— Você mudou. Antes não diria algo assim.
— Se eu estiver sempre brigando com meus colegas, nunca vou chegar às classes superiores. Vou ficar presa em um círculo vicioso — disse Horikita.
Será que as duas já haviam conversado tão abertamente antes? Ainda assim, elas não conseguiam se entender. Um destino trágico. Se não tivessem estudado na mesma escola antes, provavelmente Kushida teria cooperado com Horikita. Nesse caso, Kushida teria influenciado colegas que Hirata e Karuizawa não conseguiam alcançar, e a Classe D talvez tivesse se unido muito antes.
— Posso entrar nessa aposta? Eu aposto que a Horikita vai vencer — eu disse.
— Espere um minuto — disse Horikita. — O que você está dizendo, Ayanokoji-kun? Isso não tem nada a ver com você.
— Começou assim. Mas agora tem tudo a ver comigo. Além disso, eu ouvi a conversa inteira. Você não pode simplesmente ignorar isso.
Horikita parecia querer evitar assumir uma responsabilidade ainda maior, mas eu decidi interpretar isso como algo conveniente. Mesmo que ela ganhasse a aposta e se livrasse temporariamente dos ataques da Kushida, Kushida poderia focar totalmente em mim depois. Se eu me protegesse agora, facilitaria as coisas no futuro.
— Eu ficaria feliz em ter você junto — disse Kushida.
— Mas eu também tenho uma condição.
— Hmm?
— Eu quero que você me conte os detalhes desse incidente do ensino fundamental.
Eu estava entrando em território perigoso.
— Isso é...
Eu não recuei, mesmo quando Kushida ficou visivelmente abalada. Eu seria arrastado para dentro da aposta das duas. Se agisse agora, poderia ganhar vantagem.
— É meu direito pedir isso. Eu não sei nada dos detalhes, e mesmo assim você está tentando me expulsar. Você age acreditando que Horikita sabe sobre o incidente, certo? Então explique agora. Desde que você vença a Horikita na prova, a escola vai expulsar nós dois, e você não terá mais motivos para se preocupar.
— Não estou interessada no passado dela — disse Horikita.
— Eu estou. Não posso aceitar que a Kushida esteja ameaçando minha vida aqui por puro capricho — respondi, ignorando Horikita.
— É verdade que você está envolvido agora, Ayanokoji-kun. Não posso negar. Se a Horikita realmente não te contou os detalhes, eu entendo seus sentimentos. Mas se eu te contar, não haverá volta. Entende? — perguntou Kushida.
— Eu já passei do ponto de não retorno, não acha? Você está dizendo que vai me poupar se eu não souber de nada? Pode garantir que não vai me tratar como inimigo? — perguntei. Kushida já tinha decidido que eu era um alvo a ser eliminado.
— Nunca.
— Nesse caso, me diga por que vale a pena eu arriscar tanto.
Horikita provavelmente se perguntava por que eu estava indo tão longe — arriscando até ser expulso. Seus olhos diziam isso, mas ela não questionaria nada na frente de Kushida.
Desculpe, Horikita. Não posso fazer o que você quer. Essa é a minha chance de descobrir o passado de Kushida Kikyou.
— Ayanokoji-kun, existe algo em que você seja o melhor? Algo em que seja melhor do que qualquer outra pessoa? — perguntou Kushida.
— Sou apenas uma pessoa comum. Do tipo "bom em tudo, excelente em nada". Se eu tivesse que escolher algo, acho que sou um pouco mais rápido que a média.
— Então talvez você entenda como eu me sinto. Não acha que a melhor sensação do mundo é se sentir valorizada de alguma forma especial? Quando você tira a maior nota de um teste ou ganha uma corrida, todos os olhares se voltam para você. Sabe aqueles momentos em que as pessoas te enchem de atenção? — disse Kushida. — Elas te chamam de incrível, legal, fofa, e por aí vai.
Claro que eu entendia. As pessoas naturalmente desejavam aprovação. Trabalhar duro para receber elogios por conquistas era algo fundamental na sociedade humana. Era perfeitamente legítimo.
— Acho que provavelmente sou viciada nessa sensação — disse Kushida. — Mais do que as pessoas normais. Não consigo evitar querer me exibir. Não consigo evitar querer me destacar. Não consigo evitar querer ser elogiada. E quando sou, eu realmente sinto como é maravilhoso estar viva. Mas eu conheço meus limites. Por mais que eu me esforce, nunca vou ser a número um da escola ou nos esportes — e ficar em segundo ou terceiro lugar não saciaria meus desejos. Então pensei em fazer algo que ninguém mais conseguiria fazer: ser mais gentil e mais amável do que todo mundo.
Aquela era a raiz da "bondade" de Kushida? Era melhor ser uma pessoa genuinamente gentil, que cometia erros, do que alguém de duas caras que fingia ser perfeitamente boa. Um indivíduo amável, mas falho, era mais honesto do que um santo mentiroso. O que Kushida fazia estava longe de ser tão simples quanto ela descrevia. Mesmo que você quisesse ser a pessoa mais gentil e doce, isso não significava automaticamente que se daria bem com todos.
— Graças a isso, eu fiquei popular entre meninos e meninas. Eu sentia prazer em ser confiável, em ser alguém de quem precisavam. O ensino fundamental e o início do ginásio foram realmente bem divertidos — disse Kushida.
— Mas isso não é angustiante? Fazer coisas que você não quer fazer? Se fosse eu, não aguentaria. Acho que eu acabaria desmoronando — disse Horikita.
Não era surpresa ela perguntar aquilo. Kushida vinha fazendo coisas que a maioria consideraria impossíveis.
— Claro que é angustiante. Dia após dia, fico tão estressada que sinto que vou ficar careca. Já arranquei meu próprio cabelo e vomitei de ansiedade. Mas não posso deixar ninguém ver esse meu lado. Por isso continuei suportando, e suportando, e suportando. Mas meu coração não aguentou mais — disse Kushida.
Era evidente que o estresse tinha sido absurdo. Como ela conseguiu manter aquela fachada por tanto tempo?
— Meu blog me salvou. Era o único lugar onde eu despejava esse estresse escondido. Eu contava todos os meus segredos mais dolorosos ali. Claro, eu postava tudo anonimamente, sabe? Mas eu escrevia os fatos exatamente como eram, e ficava tão feliz quando recebia incentivo de pessoas que eu nem conhecia. Então, um dia, um colega descobriu meu blog. Mesmo sem eu ter citado nomes, era óbvio que tudo vinha de situações reais. Eu tinha falado tão mal de todo mundo que era natural que passassem a me odiar.
— Foi assim que esse incidente começou?
— No dia seguinte, minhas postagens foram compartilhadas com a turma inteira. Todos me condenaram. Eu tinha ajudado tanto aquelas pessoas, e mesmo assim todas se voltaram contra mim. Egoístas, não é? O garoto que tinha dito que gostava de mim chegou a me empurrar. Também era compreensível, já que eu postei que achei nojenta a confissão dele e que queria que ele morresse. Uma garota que eu consolei depois de levar um fora chutou a minha carteira. Eu tinha escrito em detalhes por que ela tinha sido rejeitada e ainda tirei sarro. Mais de trinta alunos decidiram que eu era sua inimiga mortal naquele dia.
Ela nunca teria chance naquela luta desde o início. Só dava para imaginar a situação terminando com a turma expulsando Kushida.
— Então como você sobreviveu? Violência? Ou mentiras? — Essa era a parte do mistério que Horikita e eu ainda não entendíamos.
— Nenhum dos dois. Tudo o que fiz foi dizer a verdade. Eu revelei os segredos de todos os meus colegas. Quem odiava quem, quem achava quem um nojo. Expus verdades que eu nem tinha colocado no blog.
Aquilo nós realmente não esperávamos. A verdade era uma arma que só se obtinha através da confiança. Horikita e eu não tínhamos isso. Embora parecesse inofensiva, a verdade era uma espada de dois gumes — poderosa, mas que custava ainda mais confiança para ser usada.
— Nesse ponto, meus colegas deixaram de ficar bravos comigo e passaram a odiar uns aos outros. Os meninos começaram a trocar socos, as meninas puxaram cabelo, empurraram umas às outras. A sala inteira virou um caos completo. Foi sinceramente incrível.

— Então foi assim que aconteceu.
— Por causa de tudo o que eu revelei, a classe não conseguiu mais funcionar. A escola me repreendeu, mas meu blog era anônimo, e tecnicamente tudo o que eu fiz foi contar a verdade para meus colegas. Eles não tinham certeza de como me punir — disse Kushida, indiferente, embora cada palavra carregasse enorme peso. — Ainda não conheço tão bem os alunos da Classe D. Porém, sei o bastante para destruir algumas pessoas. Essa é a minha única arma.
Era uma ameaça. Se contássemos a verdade sobre ela a alguém, teríamos que nos preparar para as consequências. Se Kushida julgasse necessário, rasgaria a Classe D ao meio, justamente agora que estávamos começando a unir todos. Se isso acontecesse, a harmonia recém-estabelecida desapareceria.
— Foi um erro usar a internet para descontar meus sentimentos. Tudo o que você coloca lá fica salvo para sempre. Por isso parei de blogar. Agora, alivio o estresse dizendo tudo o que penso em voz alta quando estou sozinha.
Como da primeira vez em que eu vira aquele outro lado dela. Provavelmente despejava todos os insultos cruéis que conseguia imaginar.
— Você quer continuar sendo como é agora? — perguntei.
— Essa é a minha razão de existir. Mais do que amo qualquer outra coisa no mundo, amo ser respeitada e notada por todos. Quando as pessoas confiam seus segredos a mim, sinto uma alegria que supera tudo o que eu poderia imaginar.
Conhecer a ansiedade, o sofrimento, a vergonha e as esperanças que as pessoas guardavam no fundo do coração era o fruto proibido de Kushida.
— Chato, não é? Mas, para mim, é tudo — disse Kushida, cujo sorriso desapareceu. Agora que havia contado seu passado, éramos inimigos de verdade aos seus olhos. A partir daquele ponto, ela não mostraria a menor compaixão. — Não se esqueçam. Se eu tirar uma nota mais alta em matemática, tanto você quanto Ayanokoji-kun vão abandonar a escola.
— Sim — respondeu Horikita.
E era isso. Satisfeita, Kushida foi embora em direção ao dormitório.
Virei-me para Horikita.
— Tem certeza disso? Kushida está envolvida com o Ryuen. Ela pode conseguir todas as nossas perguntas e respostas.
— Se sabia que era perigoso, por que entrou nessa? Porque acredita que eu não vou perder? — retrucou Horikita.
— Bem, é — respondi. Na verdade, aceitei a aposta porque tinha algumas ideias próprias.
— Mesmo que Kushida possa ajudar o Ryuen-kun, realmente fico me perguntando se vai chegar a esse ponto — disse Horikita.
— Como assim?
— Certamente, se ela conseguir acesso às perguntas da prova, a vitória ficará ao alcance da Kushida-san. Nesse caso, eu definitivamente teria que abandonar a escola. Mas você realmente acha que o Ryuen-kun quer que eu seja expulsa? — ela perguntou.
— É duvidoso.
Ryuen queria armar para Horikita, mas não desejava expulsá-la. Ele queria vê-la humilhada; sua expulsão encerraria seus planos. Além disso, ele realmente deixaria Horikita ir embora sem descobrir quem estava ajudando-a nos bastidores? Ele permitiria que ela fosse expulsa sem me expor antes?
— Mas e se Kushida mentir para conseguir as perguntas dele? Ela pode dizer que quer melhorar sua nota e esconder os detalhes da nossa aposta — eu disse.
— O Ryuen-kun perceberia algo assim. Se a Kushida-san pedisse as respostas de matemática, ele iria querer saber o motivo — respondeu Horikita.
— Provavelmente tem razão. Mas isso é perigoso.
Não havia garantias. Kushida talvez convencesse Ryuen a ajudá-la. Eu esperava que Horikita levasse isso em consideração, mas insistir demais seria rude.
— Sempre haverá perigo, não importa o desafio. É bom ter algo que você esteja disposto a colocar em jogo.
Horikita não esperava que eu realmente participasse da aposta. Ainda assim, estava firme em sua decisão. Ela tornara sua proposta mais convincente ao prometer manter o passado de Kushida em segredo, jurar que abandonaria a escola se perdesse e contar com o ex-presidente do conselho estudantil como testemunha.
— Não há mais volta. Precisamos muito vencer.
— Claro.
Horikita estava fazendo a maior aposta de sua vida.
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