Classroom of The Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 6

Capítulo 2: O Paper Shuffle

ALGUNS DIAS DEPOIS, a atmosfera da nossa classe estava pesada. Não era exatamente decepção, mas nervosismo. A professora responsável pela Classe D, Chabashira-sensei, parecia perceber isso.

— Sentem-se. Pelo visto vocês se prepararam bastante com antecedência para isso — comentou.

No momento em que Chabashira-sensei entrou, todos ficaram em silêncio e um pouco tensos. Na verdade, era assim que deveríamos nos comportar desde o início. Era o modo natural para uma classe agir, mas Chabashira-sensei não escondeu a surpresa diante de nossa postura mais madura.

— Ora, ora. Vocês parecem tão sérios. Difícil imaginar que são da Classe D.

— É porque hoje é o dia em que a senhora anuncia os resultados do exame intermediário, certo? — perguntou Ike, um pouco nervoso.

Chabashira-sensei sorriu.

— Exatamente. Quem reprovar no exame intermediário ou no exame final será imediatamente expulso. Eu já disse isso antes, então devem se lembrar bem. Fico feliz em ver que amadureceram.

Ela parecia impressionada com esse novo lado dos alunos, mas isso não significava que nossas notas teriam melhorado. No máximo, nossa atitude havia mudado — e era só isso. Naturalmente, a professora deixou isso claro.

— No entanto, resultados são resultados. Se alguém tirou nota vermelha, deve se preparar para as consequências. Então, sem mais delongas, vou postar as notas agora. Leiam com atenção.

Seu aviso era sério. As câmeras de vigilância da sala estavam sempre focadas nos alunos, observando tudo. Se alguém perdesse o controle ao ver as notas, a escola certamente aplicaria medidas severas.

— Então podemos ver as notas de todo mundo?

— Claro. Isso é permitido pelas regras da escola.

Independentemente de quererem ou não manter suas informações pessoais privadas, as notas da Classe D eram postadas no quadro-negro para todos verem. Não havia privacidade alguma — nada oculto. Como uma empresa que afixa o lucro de cada vendedor, o quadro expunha tanto os competentes quanto os incapazes.

Em momentos assim, os destaques eram sempre os alunos com notas muito boas ou muito ruins. Os de pior desempenho eram os que mais sofriam, tornando-se alvo do desprezo geral. O limite para reprovar era o mesmo do exame anterior, mas a situação agora era um pouco diferente.

— Uma pontuação de quarenta ou mais é considerada suficiente para passar em todas as matérias. Qualquer um que ficar abaixo de quarenta será expulso. Essas notas também refletem seus resultados no festival esportivo. Se alguém ultrapassar os cem pontos por causa do festival, a escola considerará esse aluno como tendo tirado nota perfeita.

Por outro lado, os dez alunos com os piores resultados no festival esportivo teriam dez pontos deduzidos do parcial. Sotomura estava entre os piores colocados de todas as turmas no festival, então precisaria tirar dez pontos a mais em cada matéria para compensar.

Ike e Sudou tinham expressões tensas. Um sistema no qual um único erro podia levar à expulsão imediata era um grande fardo. Muitos aguardavam em silêncio enquanto Chabashira-sensei afixava lentamente as notas no quadro. Horikita, porém, não parecia nem um pouco nervosa.

— O-O quê?! Não pode ser!

A lista começava com os alunos que tiveram as menores notas e subia. Muitos naturalmente esperavam ver o nome de Sudou no final, já que ele havia sido o pior no exame intermediário e no exame final. No entanto, o primeiro nome a aparecer foi "Haruki Yamauchi". Depois, "Kanji Ike".

Em seguida, vieram Inogashira, Satou e Sotomura. Sotomura costumava ter notas medianas, mas imaginei que as penalidades do festival esportivo o tivessem jogado tão para baixo na classificação.

— Ah, não! Cara, eu realmente fiquei com a menor nota?! — lamentou Yamauchi.

Felizmente, ele tirou mais de quarenta em todas as matérias — sua menor pontuação foi quarenta e três em inglês. Ele passou por pouco, com uma média ligeiramente abaixo dos cinquenta pontos. Provavelmente sentiu sua vida passando diante dos olhos por um instante. Suava frio.

Os resultados de Sudou foram ainda mais surpreendentes. Até hoje, ele sempre ficara no fim da lista, mas agora havia subido muito — estava em décimo segundo de baixo para cima. Mesmo desconsiderando os pontos extras do festival esportivo, seu desempenho era incrível. Todos ficaram chocados: sua média era de cinquenta e sete pontos.

— Eu simplesmente arrebentei meu recorde pessoal! Cara, quase consegui média sessenta! — gritou Sudou. Ele se levantou e começou literalmente a dançar de alegria.

— Isso não é motivo para tanto alarde — retrucou Horikita. — Ainda mais considerando que seus pontos do festival ajudaram.

— Guh! É… — Sudou se sentou novamente, desanimado com a bronca de Horikita. Ele era como um cão fiel reagindo às ordens da dona.

— Sudou conseguiu média de cinquenta e sete pontos. O grupo de estudos deu resultado — comentei.

Mesmo em sua pior matéria, inglês, ele conseguiu impressionantes cinquenta e dois pontos. Ao que parecia, Horikita havia ensinado Sudou e os outros alunos que costumavam falhar. Eu não fui convidado a ajudar, mas isso era natural. Para os outros, eu não era do grupo dos "inteligentes". Além disso, a própria Horikita provavelmente ainda tinha dúvidas sobre minhas habilidades acadêmicas.

— O grupo de estudos teve impacto, sim. Afinal, fazer a prova sem se preparar resultaria em reprovação, não é? Mas outros fatores também ajudaram. Sudou teve sorte: este exame intermediário foi composto por questões relativamente simples — explicou Horikita.

— Pode ser.

Sem dúvida, este exame intermediário foi mais fácil que o normal. Algumas questões eram tão simples que pareciam ter sido colocadas por engano. Mas, ainda assim, o esforço de Sudou havia dado frutos. Horikita estava confiante de que os repetentes tinham conseguido ultrapassar o limite, por isso sua tranquilidade.

Por outro lado, Yamauchi, que ficou com a menor nota, parecia incapaz de esconder a frustração de ter perdido para Sudou por uma margem tão grande. Horikita ensinara todos por igual, mas Sudou havia ido além — sacrificou seus dias livres para estudar com ela individualmente. O poder do amor era realmente algo aterrorizante. Aos poucos, parecia que sua capacidade acadêmica estava começando a melhorar.

— Você tem uma média de sessenta e quatro pontos. Isso é tão medíocre. Por que não para de brincar e passa a levar as coisas a sério? — perguntou Horikita.

— Esse foi o melhor que consegui fazer.

Eu normalmente tirava cerca de cinquenta pontos, então chamaria atenção se eu começasse a tirar notas perfeitas de repente. Achei melhor manter um progresso lento, mas constante. Dito isso, com o avanço do Sudou, talvez eu pudesse aumentar um pouco minha pontuação.

— É tão insosso ver você fazendo o papel de palhaço. Honestamente, não aguento mais ouvir isso.

— Acho que você nunca me ouviu de verdade — respondi.

— Suponho que seja verdade.

Ela admitiu abertamente… De qualquer forma, como as questões da prova tinham sido fáceis, alguns alunos no topo da turma conseguiram notas perfeitas. Chabashira-sensei até nos deu um elogio sincero.

— Como podem ver, ninguém precisará abandonar a escola por causa das notas do intermediário desta vez. Todos vocês conseguiram passar.

Ela parecia satisfeita, então imaginei que não faria nenhuma crítica construtiva.

— Óbvio! Estou ansioso pelos pontos privados do mês que vem, sensei! — disse Sudou, apoiando os cotovelos na mesa.

Chabashira-sensei respondeu com um sorriso inalterado:

— Isso mesmo. Aliás, houve poucos problemas reais durante o festival esportivo. É razoável esperar um aumento nos pontos privados em novembro. Devo dizer que, em três anos ensinando nesta escola, nenhuma outra Classe D conseguiu chegar tão longe sem perder nenhum aluno. Muito bem.

Era um lado de Chabashira-sensei que nunca tínhamos visto até então. Muitos alunos hesitavam em acreditar que aquilo fosse genuíno. Pessoas que não costumavam receber elogios pareciam até desconfortáveis.

— Você nos elogiando parece… estranho — comentou Horikita. Ela não se deixava enganar facilmente. Embora fosse ótimo que ninguém tivesse falhado, ela sabia que Chabashira-sensei não era o tipo de pessoa que encerrava um discurso com uma nota positiva. Quanto mais gentil ela se mostrava, mais assustador aquilo parecia. Ainda assim, Horikita mantinha a calma.

O rabo de cavalo de Chabashira-sensei balançava de maneira hipnotizante enquanto ela caminhava lentamente pelos corredores entre as carteiras, como se desse uma volta completa pela sala. Quando chegou à mesa de Ike, parou.

— Você conseguiu passar, mas quero lhe perguntar algo. O que acha desta escola? Gostaria de ouvir sua avaliação honesta.

— Bem, eu acho… que é uma boa escola. Se você se sai bem, pode ganhar um monte de dinheiro extra. A comida é boa, e os quartos são limpos e confortáveis — disse Ike. Ele começou a contar nos dedos. — Dá pra comprar jogos e tal. Tem filmes pra ver, karaokê. E as garotas são bonitas.

Aquela última parte, claro, não era mérito da escola.

— Hã… e-eu falei algo errado? — perguntou Ike, apavorado.

— Não. Sob a perspectiva de um aluno, este lugar é praticamente um paraíso. Mesmo como professora, sinto que esta escola é quase extravagante demais. Trata os estudantes de um jeito tão generoso que chega a desafiar o bom senso — respondeu ela.

Chabashira-sensei voltou a caminhar, agora vindo em direção ao meu lado da sala. Eu sentia que ela faria uma pergunta para mim, na frente de todos. Por favor, não fale comigo.

Felizmente, meu pedido silencioso foi atendido. Ela parou ao lado da mesa de Hirata desta vez.

— Hirata, você gosta desta escola?

— Sim. Fiz muitos amigos e estou aproveitando uma vida bem completa — respondeu Hirata, impecável como sempre.

— Você não se sente ansioso, sabendo que pode ser expulso se cometer apenas um erro?

— Sempre que fico nervoso, trabalho mais junto com todos — disse ele. Suas palavras de companheirismo eram claras e sem hesitação.

Chabashira-sensei retornou ao pódio. Parecia que ela estava tentando confirmar algo, mas eu não conseguia entender exatamente o quê. Talvez quisesse sentir como estava o moral da turma. Talvez estivesse avaliando nossa resistência, para saber se conseguiríamos lidar com o que viria depois.

— Na próxima semana, em preparação para o exame final do segundo semestre, haverá um exame curto com questões de oito matérias. Imagino que já saibam disso, e tenho certeza de que alguns já começaram a estudar, mas queria lembrá-los — anunciou Chabashira-sensei.

— Geh! Eu estava só me recuperando do exame intermediário! Outro exame?! — lamentou Ike.

Estávamos entrando nos meses mais frios, e alunos que não eram bons em estudar só continuariam sofrendo. Provas eram parte essencial da vida escolar, mas no segundo semestre o intervalo entre elas era especialmente curto.

— Isso significa que só falta uma semana até o próximo exame curto! Eu nem tinha ouvido falar disso!

Na verdade, os professores nos lembravam constantemente do exame. A desatenção de Ike me fazia querer suspirar profundamente.

— Dizer que não ouviu falar não vai adiantar, por mais que eu quisesse lhe dizer o contrário. Mas não se preocupe, Ike — disse Chabashira-sensei, sorrindo como se lhe estendesse uma tábua de salvação. Porém, ela nunca fazia nada puramente por bondade. Nós a conhecíamos melhor do que isso.

Ou pelo menos deveríamos conhecer.

— Sério, sensei? Então posso relaxar de boa? Uhul! — gritou Ike.

Chabashira-sensei desviou o olhar.

— Haverá cem questões na prova, totalizando cem pontos. No entanto, as perguntas serão no nível de um aluno do terceiro ano do ensino fundamental. Este teste serve para confirmar que vocês lembram o básico. Além disso, como o simulado do primeiro semestre, ele não afetará suas notas. Não importa se tirarem zero ou cem. No máximo, servirá como medição das suas habilidades.

— Sério? Que alívio!

— Entretanto, está longe de ser inútil — acrescentou ela. — Os resultados deste teste terão um impacto enorme no próximo exame final de vocês.

Claro. Nada podia ser simples nesta escola. O festival esportivo havia acabado, e o próximo desafio já estava à nossa frente.

— Ei, que tipo de impacto? Pode explicar? — perguntou Sudou. Eu entendia sua frustração; Chabashira-sensei tinha atrasado a explicação de propósito, só para aumentar a ansiedade da turma.

— Ficarei feliz em explicar, Sudou. A escola decidiu que os resultados deste teste curto serão usados para definir as duplas dentro da classe — respondeu Chabashira-sensei.

— Duplas? — Hirata estranhou.

— Isso mesmo. As duplas formadas com base neste teste farão o exame final juntas. Serão oito matérias, cada uma valendo cem pontos. Quatrocentas questões ao todo, cinquenta por matéria. E existem duas maneiras de falhar. Se a dupla tirar menos de sessenta pontos em qualquer uma dessas matérias, ambos os alunos serão expulsos. Esses sessenta pontos são a soma da dupla. Por exemplo, digamos que Ike e Hirata formem uma dupla. Mesmo que Ike tire zero, se Hirata tirar sessenta, ambos estarão a salvo.

Todos prenderam a respiração. Com um parceiro excelente, a prova seria simples. Mas restava ainda o segundo critério de reprovação. Ignorando as expressões chocadas, Chabashira-sensei continuou:

— Há mais um obstáculo. A escola decidiu que vocês devem atingir uma pontuação total mínima para evitar reprovação. Mesmo que tirem sessenta ou mais em cada uma das oito matérias, se não alcançarem a pontuação total exigida, serão expulsos.

— Então esse requisito total é a soma dos pontos dos dois? — perguntou alguém.

— Sim, exatamente. A escola ainda não decidiu o valor exato, mas nos anos anteriores foi algo em torno de setecentos pontos — disse Chabashira-sensei.

Setecentos pontos. Com duas pessoas, em oito matérias — dezesseis notas no total — seria necessária uma média mínima de 43,75 pontos por matéria. Mesmo alunos excelentes como Horikita ou Yukimura poderiam estar em risco dependendo do parceiro. As duplas tinham seus destinos amarrados — inclusive quando isso significava ser expulso.

— A senhora mencionou que a pontuação total ainda não está definida. Por quê? — perguntou Hirata.

— Não seja apressada. Explicarei os requisitos totais com mais detalhes depois. O exame final será realizado em dois dias, com quatro matérias por dia, e informarei a ordem das provas. Se alguém faltar por problemas de saúde, a escola investigará a legitimidade da ausência. Se for comprovadamente inevitável, a pessoa receberá uma pontuação estimada com base em provas anteriores. Entretanto, se a escola determinar que não havia motivo suficiente para faltar, o aluno receberá zero em todas as provas daquele dia — explicou Chabashira-sensei.

Não havia como evitar o exame. A escola estava deixando claro que até cuidar da própria saúde era parte da avaliação.

— De qualquer forma, vocês estão começando a se comportar como alunos de verdade. Se este anúncio fosse no início do ano, provavelmente estariam todos chorando agora.

— Bem, a gente se acostumou — respondeu Ike, com um toque de confiança no rosto. — Passamos por todo tipo de coisa.

— Muito bem colocado, Ike. Muitos de vocês provavelmente pensam o mesmo, e é por isso que darei apenas um conselho: não presumam que entendem como esta escola funciona só porque terminaram o primeiro semestre do primeiro ano. No futuro, enfrentarão provas muito mais difíceis do que as de agora — disse Chabashira-sensei.

— Por favor, não diga coisas tão assustadoras, sensei… — pediu uma das garotas, trêmula.

— Bem, é a verdade. Nos anos anteriores… Chamamos isto de "Paper Shuffle", e normalmente uma ou duas duplas são expulsas por causa desse teste. A maioria delas da Classe D. Não é uma ameaça; estou apenas contando os fatos.

O otimismo da turma evaporou na hora. Mas o que exatamente significava esse tal de "Paper Shuffle"?

— A escola expulsará qualquer dupla reprovada sem exceções. Se acham que isto é apenas um blefe, podem conversar com estudantes veteranos. Vocês já deveriam ter começado a construir laços com eles, afinal — acrescentou Chabashira-sensei.

Apesar de as punições parecerem cruéis, só uma ou duas duplas eram expulsas por ano? Isso parecia estranho. Dependendo do parceiro, seu destino estava selado. "É o que é", por assim dizer.

— Por fim, falarei sobre as penalidades do exame. Embora seja óbvio, colar é proibido. Qualquer um que colar será imediatamente desclassificado e expulso junto com o parceiro. Isso não vale apenas para o exame final — todos os exames intermediários e finais seguem a mesma regra.

Colar levava à expulsão — parecia severo à primeira vista. Em uma escola comum, isso normalmente resultaria em zero pontos, uma advertência ou, no máximo, suspensão. Mas nesta escola, um único erro já podia levar à expulsão; então, claro que a cola teria a mesma consequência. Quase inevitável, não?

Chabashira-sensei estava nos dando avisos mais do que suficientes para evitar que os alunos entrassem em pânico e cometessem erros. No entanto, o sistema de duplas ainda era um problema real.

— Depois que eu receber os resultados do exame curto, direi como os tão importantes parceiros serão decididos — acrescentou Chabashira-sensei.

Peguei minha caneta em silêncio. Horikita pegou a dela quase no mesmo instante e começou a escrever algo, com os olhos fixos no papel afixado no quadro-negro. Como ela estava tomando notas, deixei minha caneta de lado. Se Horikita já estava cuidando disso, eu era inútil.

— Espera, depois do teste curto? Como assim? Se você for colocado junto com o aluno que ficar em último, vai estar encrencado, né? — perguntou Sudou.

— Argh! O Ken tá me humilhando! Eu vou estudar muito e virar esse jogo! — choramingou Yamauchi.

— Não força. Você só fala. Você não viu nada ainda; eu tenho estudado pra caramba — disse Sudou.

Yamauchi murchou, parecendo contorcer-se de agonia. As palavras de Sudou não eram vazias; enquanto Horikita continuasse ajudando, ele realmente se esforçaria. Nesse sentido, ele era até convincente.

Mas isso não era tão importante. O que importava era que a escola estava propositalmente nos mantendo no escuro sobre como as duplas seriam decididas. Em outras palavras, era extremamente provável que fôssemos informados de algum modo de mudar com quem seríamos pareados. Alguns alunos que já tinham participado das provas especiais e escritas provavelmente já tinham percebido isso. Isso incluía Horikita, que estava sentada ao meu lado agora, escrevendo sem parar.

— Há mais um aspecto deste exame final que vai desafiá-los — disse Chabashira-sensei.

Enquanto o restante da turma ficava um pouco agitado, Horikita só parecia querer que tudo fosse resumido.

— Então, tem mais uma coisa que precisamos fazer?

— Sim. Primeiro, a escola pedirá que vocês criem suas próprias questões para aparecer no exame final. As perguntas que vocês prepararem serão usadas por uma das outras três classes. Isso significa que as classes poderão se "atacar", por assim dizer. A escola comparará a pontuação geral da sua classe com a pontuação geral da classe que receber as suas questões. A classe que obtiver a pontuação maior vai tirar pontos da classe perdedora. Cinquenta pontos de classe, especificamente — explicou Chabashira-sensei.

Resumindo: as duplas precisavam fazer mais de setecentos pontos no total, ou seriam expulsas. Além disso, também precisávamos fazer sessenta pontos ou mais em cada matéria individualmente, ou seríamos expulsos.

E, além disso, a pontuação geral da nossa classe teria de superar a da classe que recebesse nossas questões.

— Há alguma forma de criar uma diferença maior nos pontos? Suponha que a Classe A ataque a Classe B, e a Classe D ataque a Classe A — disse Horikita. — Se a Classe A conseguir atacar a Classe B ao mesmo tempo em que se defende da Classe D, eles ganham um total de cem pontos. Mas se a Classe A atacar a Classe D e a Classe D atacar a Classe A, as coisas não vão se anular?

— No caso de um confronto direto assim, as pontuações podem subir ou descer cem pontos por vez. Não se preocupem. Embora seja improvável, se as pontuações gerais empatarem, o confronto termina em empate e nenhuma classe ganha ou perde pontos — disse Chabashira-sensei.

— Então teremos que criar problemas para as outras classes resolverem. Nunca ouvi falar de nada assim. Como isso vai funcionar? E se alguém fizer perguntas absurdamente difíceis…?

— É isso aí! Podem colocar coisas que a gente nem aprendeu ainda! Impossível! — Ike e outros alunos ergueram as mãos em frustração.

— Isso poderia acontecer se deixássemos tudo nas mãos dos alunos. Portanto, os professores avaliarão as questões que vocês criarem. Se excederem o conteúdo que já foi ensinado ou não puderem ser respondidas com as informações fornecidas, serão revisadas. Garantiremos, por meio de verificações repetidas, que cada classe envie perguntas e respostas justas. Entendeu, Ike? — perguntou Chabashira-sensei.

— Ah, é… acho que sim — respondeu ele. Parecia fácil demais dizer assim, mas provavelmente não era tão simples.

— Criar quatrocentas questões, hein? Isso vai deixar o cronograma apertado — comentou Hirata.

Tínhamos cerca de um mês até o exame. Uma única pessoa teria que criar de dez a quinze questões por dia para terminar a tempo. Embora pudéssemos colocar várias pessoas para trabalhar nisso, isso causaria variação na qualidade. E se tivéssemos que revisar algo depois de entregar as questões à escola, precisaríamos agir rápido. Um período de carência talvez fosse algo a perguntar. Levando também em conta as deficiências da Classe D, terminar tudo ficaria no limite. Hirata devia ter percebido isso, porque parecia aflito.

— Se não completarem as questões a tempo, existem medidas preparadas para ajudar vocês. Depois que o prazo de entrega passar, a escola usará suas próprias questões pré-elaboradas. Porém, tenham em mente que essas questões serão mais fáceis — disse Chabashira-sensei.

Era bom saber que havia medidas de socorro, mas na prática, elas eram uma faca de dois gumes. Nós tínhamos que criar nossas próprias questões de qualquer jeito, o que significava que alguém teria de arcar com a maior parte do trabalho em paralelo ao próprio estudo. Esse exame seria brutal.

— Vocês podem consultar professores e alunos de outras classes, e podem usar a internet. Há poucas restrições. Desde que a escola aceite as questões, não nos importamos muito com o resto — disse Chabashira-sensei.

— Então nosso exame final obviamente vai incluir perguntas de outra classe, certo?

— Exatamente. Tenho certeza de que estão se perguntando contra qual classe irão competir, e é bem simples. Cada classe escolherá outra classe para enfrentar, e eu enviarei essa solicitação aos meus superiores. Se outra classe fizer a mesma escolha, os representantes farão um sorteio. Porém, se não houver escolhas duplicadas, a seleção de vocês será aceita. Eu aceitarei sua indicação da classe que desejam enfrentar na próxima semana, no dia anterior ao teste curto. Reflitam bem — acrescentou ela.

O exame final era nós contra a escola — mas desta vez, era quase uma briga de rua contra outra classe, hein?

Além da questão dos pontos exigidos por dupla, agora havia outro sistema complicado envolvido.

— Isso é tudo para a explicação preliminar. O resto depende de vocês — disse Chabashira-sensei.

Com isso, as aulas terminaram naquele dia.

*

 

— Estamos fazendo uma reunião, Ayanokoji-kun. Pode chamar o Hirata-kun para mim? — pediu Horikita.

— Certo.

Fui falar com Hirata, enquanto Horikita caminhou até Sudou. Horikita e Hirata estavam, aos poucos, se tornando as principais forças motrizes da classe. Eu não poderia ficar nas sombras por muito mais tempo. Até agora, eu havia mantido a fachada de não ser exatamente a ferramenta mais afiada da caixa. No entanto, depois daquela corrida de revezamento, fiquei praticamente famoso da noite para o dia. Ryuen e Ichinose certamente queriam descobrir quem estava manipulando Horikita por trás.

O que fazer quanto a isso? Me afastar de Horikita? Mas isso pareceria suspeito. Ficar perto dela e esperar tudo passar? Enquanto eu estivesse ao seu lado, continuaria sob suspeita.

Nosso número de inimigos só crescia, e tentar voltar ao que era antes estava fora de questão. Independentemente do que eu realmente pensasse, meus oponentes analisariam cada movimento meu. Eu só conseguia passar tanto tempo com Horikita porque ela tinha pouquíssimos amigos, mas as coisas estavam mudando. Suas interações com pessoas como Sudou — além de Hirata, Karuizawa e outros — ficariam mais frequentes. Talvez fosse melhor colocar um pouco de distância entre nós.

Eu precisava manter Chabashira-sensei satisfeita, e se Horikita e os outros conseguissem lidar com a classe sem mim, isso tiraria um grande peso das minhas costas. Chabashira-sensei provavelmente não precisava de mim especificamente para ajudar a Classe D. Qualquer um serviria. Quanto ao motivo de ela querer me pressionar a ajudar a Classe D a subir até a Classe A… eu simplesmente não me importava.

De qualquer forma, ainda não era o momento de me afastar de Horikita. Se eu a soltasse agora, perderia o controle da Classe D e tudo poderia desmoronar. Primeiro, eu faria Horikita se tornar ainda mais influente. Depois, desapareceria discretamente.

O importante era o procedimento, seguido da preparação, e então dos resultados.

Voltei até Horikita.

— Hirata está vindo. O mesmo para o Sudou.

Eu o tinha visto sair, provavelmente para ir ao banheiro.

— Então, o que você acha? — Horikita foi direto ao ponto.

— É exatamente como a Chabashira-sensei disse. Essa prova vai ser difícil. A exigência é alta, e o sistema de pares piora tudo. Para completar, se outra classe elaborar as perguntas que teremos de responder, o exame pode ficar extremamente complicado. Dependendo da forma como uma questão for escrita, até algo simples pode parecer impossível.

— É verdade. Desta vez, não se trata apenas de estudar. Precisamos ser criativos — disse Horikita.

Apenas dar aulas aos alunos mais fracos não seria suficiente. Entender as forças e fraquezas das outras classes seria ideal, mas eles não mostrariam suas cartas tão facilmente. Ainda assim, já havíamos superado provas que exigiam inteligência e trabalho em equipe.

Nesse sentido, esse exame talvez fosse menos difícil do que os da ilha ou do navio de cruzeiro. Se o festival esportivo havia testado nossa força física acumulada, este seria um teste de conhecimento acadêmico acumulado.

— Senti que a Chabashira-sensei estava insinuando algo — comentei.

— Sim. Eu percebi — respondeu Horikita, baixinho. — Você sempre presta atenção nas pessoas, então tenho certeza de que também notou que a escola esconde pistas em tudo. Os três pontos-chave que ela mencionou foram: que o exame curto não vai afetar nossas notas, que os critérios para a pontuação combinada ainda não foram decididos, e que eles só vão determinar os parceiros depois do exame curto.

Sorri instintivamente diante do resumo perfeito e conciso de Horikita. Pouco depois, Hirata se juntou a nós.

— Desculpem a demora. Vocês queriam discutir os planos, certo? — Hirata chamou Karuizawa para se juntar ao grupo. Ela lançou um olhar de aborrecimento, mas veio assim mesmo.

— Desculpe. Pensei que devêssemos conversar sobre isso imediatamente — disse Horikita. Alguns meses atrás, seria surpreendente vê-la tomar a iniciativa de convocar uma reunião. Agora, porém, ela era a comandante da classe. — Gostaria de começar logo, se estiver tudo bem.

— Hã? Aqui? Nada disso. Se vamos conversar, é melhor ir ao Pallet. Não é, Yousuke-kun? — disse Karuizawa.

Ela agarrou o braço de Hirata, abraçando-o e se aconchegando nele. Era seu método usual de conseguir o que queria. Fazia isso desde que eu a conhecia. Para constar, o Pallet era um café dentro da escola, bem popular entre as garotas. Nos intervalos e depois das aulas, costumava ficar lotado.

Nossos olhos se cruzaram por um instante. Não sei por quê, mas Karuizawa soltou o braço de Hirata rapidamente.

— Não sabemos de onde o inimigo pode estar nos observando, mas… Bem, acho que tudo bem — respondeu Horikita. Provavelmente entendia que antagonizar Karuizawa agora seria tolice. Talvez ela nem estivesse consciente disso, mas Horikita definitivamente estava amadurecendo.

— Com licença, mas… tudo bem se eu participar também? — perguntou Kushida Kikyou. — Está tudo bem…?

— Eu não me importo que você se junte. Você entende muito bem a nossa classe, Kushida-san. Além disso, gostaria de ouvir a opinião de várias pessoas — disse Hirata.

Karuizawa não se opôs também — sua postura deixava claro que ela não se importava muito com o que faríamos. Agora, restava saber a resposta de Horikita.

— Claro, Kushida-san. Eu já planejava convidar você, de qualquer forma — disse Horikita.

Ela aceitou imediatamente, quase como se estivesse evitando o trabalho de chamá-la depois. Foi um movimento surpreendente.

— Vocês três podem ir ao Pallet primeiro? Tenho algumas coisas para resolver.

Kushida, Karuizawa e Hirata concordaram e saíram sem objeções. Virei-me para Horikita.

— Tem certeza disso? Trazer a Kushida?

Kushida Kikyou era uma aliada valiosa, mas também detestava Horikita. Mesmo que a rivalidade não fosse pública, não dava para garantir que ela não tentaria nos sabotar. Além disso, durante o festival esportivo, sua traição deixou a Classe D em apuros.

— Não seria estranho recusá-la? — respondeu Horikita.

Era verdade. Mas, olhando bem… Será que Horikita realmente aceitara o pedido de Kushida de boa fé?

— Foi mal te fazer esperar, Suzune — disse Sudou, aproximando-se.

— Tudo bem. De qualquer forma, o Hirata-kun e os outros vão se encontrar com a gente no Pallet — disse Horikita.

— Certo, claro. Ei, hã… foi mal, mas… será que eu poderia dar uma passada no meu clube? Os veteranos pediram para eu aparecer. Deve acabar em uns vinte ou trinta minutos — pediu Sudou.

— Eu não me importo. Venha se juntar a nós assim que terminar — respondeu Horikita.

Sudou abriu um sorriso, pegou a mochila e saiu apressado da sala. Horikita pegou a própria mochila e foi até a porta.

— Acho que vou voltar pro dormitório. Boa sorte lá — falei.

— Espere um minuto. Você também foi convidado. É absolutamente indispensável como intermediário entre o Hirata-kun e a Karuizawa-san. Ainda não consigo controlar nenhum dos dois — disse Horikita.

— Eu já imaginava. Você diz isso, mas acho que é uma líder competente. Além disso, o exame final vai testar tudo que aprendemos. Você e seu grupo de estudos deram conta da prova intermediária sem minha ajuda.

Na realidade, ela tinha feito tudo: reunir o grupo, definir o local, organizar tudo sozinha. Faltava apenas mais um passo.

— Isso pode até ser verdade. Mas, se a Kushida-san estiver no grupo, é outra história. Tenho assuntos para discutir com você também. Pode ao menos participar da conversa de hoje? Ou você não quer saber a verdade sobre a Kushida? — perguntou Horikita.

Que comentário astuto. Achei melhor ser sincero.

— Se eu dissesse que não estou interessado, estaria mentindo.

Kushida não mostrava favoritismo por ninguém e tratava todos igualmente. Por isso, eu queria saber por que ela tinha tanta animosidade apenas pela Horikita. Esse fato, em particular, me era completamente incompreensível.

— Vou te contar tudo que sei sobre ela — disse Horikita. Devia haver um motivo para ela ter escolhido este momento. — Honestamente, não gosto de ficar espalhando rumores, mas acho necessário te informar. Na verdade, acho que isso vai acabar jogando a meu favor.

— Fico me perguntando por que você está tão interessada em falar comigo sobre a Kushida.

— O que quer dizer?

— Bem, você ficou calada sobre ela até agora. Nem consigo imaginar como vocês se envolveram uma com a outra para começo de conversa. Quando foi que vocês começaram a brigar?

Pelo canto do olho, notei que Horikita ficou completamente tensa.

— Não posso falar sobre isso aqui. Entende?

Até as paredes tinham ouvidos, afinal.

— Entendo. Nesse caso, suponho que vou com você.

Parecia que a história valia a reunião. No corredor, Horikita falou comigo num sussurro abafado:

— Por onde você quer que eu comece?

— Pelo começo. Tudo que sei é que vocês duas não se dão bem.

Eu queria mais informações sobre o lado sombrio da Kushida, mas não me atrevi a tocar no assunto diretamente. Não tinha certeza do quanto Horikita sabia.

— Eu realmente não sei quase nada sobre a Kushida Kikyou. Quando foi que você conheceu ela pela primeira vez? — perguntou Horikita.

A pergunta parecia apenas para confirmação, então respondi honestamente:

— No ônibus.

— Entendo. Eu também vi a Kushida-san no ônibus no primeiro dia de aula — disse ela.

Lembrei que uma senhora idosa tivera de ficar em pé porque não havia assentos livres. Kushida tinha pedido para alguém ceder o lugar à senhora — um ato bondoso e impecável. Porém, ninguém levantou imediatamente. Como alguém que também não ofereceu o assento, aquela cena ficou gravada na minha mente.

— Você acha que a Kushida começou a te odiar naquela época? O Koenji também se recusou a ceder o lugar. Eu também não cedi o meu — falei. — Mas você é a única que ela odeia.

Não queria dizer que ela gostava de mim nem nada assim. Mas era estranho que a hostilidade dela fosse direcionada exclusivamente à Horikita.

— Eu não conhecia a Kushida-san naquela época. Bem… para ser mais precisa, eu não me lembrava dela — disse Horikita.

— Então vocês já se conheciam antes de entrar nesta escola?

— Sim. Frequentamos a mesma escola do ensino fundamental, mas era em uma província completamente diferente. Mesmo em seus sonhos mais selvagens, ela provavelmente nunca imaginou que alguém do antigo colégio dela acabaria vindo estudar aqui também — explicou Horikita.

— Entendi.

Um grande mistério havia sido resolvido. A relação entre elas começou antes mesmo de eu conhecer qualquer uma das duas. Sim, esse era o contexto que eu precisava para entender a situação.

— Eu me lembrei dela depois do grupo de estudos do primeiro semestre. Minha escola tinha mais de mil alunos. Eu nunca estive na mesma turma que a Kushida-san — disse Horikita. — Eu não a conhecia.

Isso não era uma surpresa, considerando a possibilidade de Horikita ter sido tão solitária no fundamental quanto era agora. Ela provavelmente passava seus dias imersa em estudos, sem fazer amigos.

Em vez de irmos direto ao Pallet, ficamos andando pelo campus, dando uma volta. Sabíamos que a conversa demoraria. Quanto mais nos afastávamos do café, menos pessoas havia por perto.

— Como era a Kushida no fundamental?

— Não faço ideia. Como eu disse, não interagi com ela. No entanto, ela era incrivelmente popular. Pensando bem, lembro dos colegas se reunindo ao redor dela em vários eventos. Ela era simpática, sociável e muito querida. Tinha quase o mesmo nível de influência que o conselho estudantil — contou Horikita.

A Kushida que eu conhecia não parecia tão popular assim, mas ainda era tão magnética quanto antes. Achei que Horikita lembraria dela, considerando tudo isso, mas parecia que nunca haviam tido contato direto. Assim, o motivo da antipatia tão profunda da Kushida ainda não tinha sido revelado. Talvez esse segredo estivesse na parte da história ainda não contada.

— Não acho que ela te odeie só porque não conseguiu ser sua amiga — comentei.

Não era uma questão de a Kushida ser capaz ou não de fazer cem amizades. Nem ela podia ser amiga de absolutamente todos na escola.

— Você tem razão. A parte crucial vem agora. Mas, por favor, tenha em mente que isso não passa de um rumor. Só a própria Kushida-san conhece a verdade completa. — Com essa ressalva, Horikita continuou, com a voz séria: — Em fevereiro do nosso terceiro ano, pouco antes da formatura, uma turma inteira faltou à assembleia.

— O quê, tipo todo mundo pegou gripe?

— Não. Aparentemente, uma certa estudante provocou um incidente que destruiu a classe inteira. Eles não se recuperaram até a formatura — disse Horikita.

— Não preciso nem perguntar quem era essa garota, preciso?

— Era a Kushida-san. Mas não sei os detalhes. A escola enterrou completamente o incidente. Se viesse a público, a credibilidade deles sofreria. Isso afetaria até os formandos que quisessem entrar no ensino superior ou conseguir um emprego. Ainda assim, a escola não conseguiu suprimir tudo. Os rumores começaram a se espalhar — explicou Horikita.

— Você sabe de algo? Mesmo que seja só um pedaço de rumor? — perguntei. Queria entender ao menos o essencial do que tinha acontecido, descobrir que tipo de evento aquilo tinha sido.

— Alguns alunos diziam que a sala estava um completo caos logo após o incidente. O quadro-negro e as carteiras estavam cobertos de todo tipo de insultos e difamações — disse ela, como se revivesse a lembrança.

— Cobertos de difamação, hein? É possível que a Kushida tenha sofrido bullying, então?

— Não sei. Muitos rumores circularam. Diziam que alguém estava sofrendo bullying… ou que era essa pessoa que estava fazendo bullying. Até ouvi boatos sobre violência, embora os detalhes fossem vagos.

O moinho de rumores parecia ter trabalhado bastante.

— Mas então, do nada, os rumores pararam. Ninguém mais queria falar sobre isso. Mesmo depois de uma turma quase desmoronar, as pessoas começaram a agir como se nada tivesse acontecido.

Deve ter havido pressão de alguém, provavelmente para manter todos calados.

— Ainda assim, não é como se fosse sua culpa a Kushida ter destruído a classe. Aposto que você nem prestou atenção no que estava acontecendo — falei.

— Exatamente. Eu sabia que queria entrar nesta escola, então estava totalmente focada na preparação. Não me importava muito com mais nada — respondeu Horikita.

Provavelmente era verdade. Mesmo que a reputação da escola tivesse despencado, ela devia estar confiante na própria capacidade de passar de qualquer forma.

Um evento que supostamente tinha sido desencadeado pela Kushida fez uma classe inteira colapsar… Eu conseguia imaginar o enorme impacto que isso teria nas chances de os alunos entrarem no ensino superior ou conseguirem empregos. Eu, sinceramente, não conseguia imaginar a Kushida que eu conhecia fazendo algo assim. Porém, se aquilo fosse verdade, eu entendia por que ela não podia permitir que alguém que soubesse a verdade continuasse por perto. Se as pessoas descobrissem, Kushida perderia todo o capital social que acumulou.

— Então, Kushida fez algo ruim, mas você não conhece os detalhes. Porém, ela não parece saber que você não sabe. Acredita que, só porque vocês estudaram na mesma escola, você conhece tudo o que aconteceu.

— Ela não está totalmente errada. Eu sei que foi ela quem causou o incidente — suspirou Horikita.

Eu começava a entender o dilema dela. A tensão entre as duas existia apenas por causa do mal-entendido e da hostilidade unilateral da Kushida. Ela faria qualquer coisa para manter o passado escondido. Mesmo que Horikita dissesse que não sabia nada sobre o incidente, Kushida não acreditaria. Se ela soubesse que estávamos discutindo isso agora, tomaria isso como prova de que Horikita sabia de seu passado. Era extremamente problemático.

— Ainda não entendo — disse Horikita.

— Sobre o incidente?

— Sim. É tudo tão misterioso. Como é que uma turma sem problemas colapsa de repente? — Ela balançou a cabeça.

— Pode ser que a Kushida tenha provocado, mas como uma única estudante poderia ter tanto poder? — respondi. Isso não parecia algo simples como bullying. Se fosse, apenas algumas pessoas estariam envolvidas.

— Honestamente, não consigo imaginar — disse Horikita.

Mesmo que eu quisesse fazer a Classe D desmoronar, não conseguiria simplesmente decidir e pronto.

— Você precisaria de uma arma poderosa — falei.

— Certo…

A arma a que me referia não era necessariamente física — mas sim uma variedade de métodos possíveis.

— Se você quisesse destruir nossa classe, como faria?

— Para responder à sua pergunta com outra pergunta… qual é a arma mais letal do mundo? O que a Kushida consegue manipular? Pense nisso — respondi.

— Como eu disse antes, a violência é a arma mais letal que um ser humano pode empunhar. Ela tem um poder singular. Não importa o quão inteligente seja o estudioso ou o quão influente seja o político, ninguém é fisicamente invulnerável — disse Horikita. — Se as condições forem adequadas, não é impossível usar força para esmagar uma classe, certo? Você poderia mandar todo mundo para o hospital, por exemplo.

O exemplo era extremo, mas verdadeiro. Nesse caso, a classe certamente ruiria.

— Você não está errada. Violência é uma das armas mais mortais. Porém, a Kushida não usou violência para encurralar ninguém. Se fosse o caso, você teria ouvido falar. Se ela tivesse enlouquecido com uma motosserra, a mídia teria enlouquecido também. — Sorri de leve. — E quanto a algo que consiga competir com o poder singular da violência?

— Você tem algo em mente? — perguntou Horikita.

— Digamos que eu quisesse destruir nossa classe. Nesse caso, consigo pensar em algo que eu usaria. E você?

— Espere. — Horikita refletiu. — Eu quero dizer "autoridade", mas quantos alunos têm esse tipo de autoridade? — Ela parecia não muito confiante em sua resposta.

— Autoridade é uma arma poderosa, mas nem mesmo o presidente do conselho estudantil conseguiria causar estrago nesse nível. Não há como alguém como a Kushida destruir uma classe inteira só com autoridade.

— Então o que seria? O que pode colocar uma classe inteira de joelhos?

— Esqueça a Kushida por um momento. Qual arma poderosa está disponível para qualquer pessoa? Mentiras. Humanos são mentirosos naturais desde o nascimento. Qualquer um pode mentir. Dependendo do momento e do lugar, uma mentira pode causar mais dano do que violência simples.

Estatísticas mostram que as pessoas mentem em média duas ou três vezes por dia. Parece impossível, mas a definição de "mentira" é bastante ampla. "Não dormi direito." "Peguei um resfriado." "Não vi aquele e-mail." "Estou bem." O que dizemos está sempre cheio de mentiras.

— Mentiras. Entendo. Talvez você tenha razão

Mentiras eram incrivelmente poderosas. Uma única mentira podia até levar alguém à morte.

— Vou ser direto. Se você usasse violência e mentiras, conseguiria fazer a Classe D desmoronar? Pense nisso.

— Não posso afirmar com certeza. Falando hipoteticamente, eu não conseguiria superar algumas pessoas da nossa classe com violência. Não imagino derrotar Sudou-kun ou Koenji-kun só com as minhas mãos. Além disso, há pessoas como você, cuja força eu não conheço completamente — disse Horikita. — Supondo que eu tivesse algum tipo de arma contundente, ou até a cobertura da noite, eu não conseguiria enfrentar todo mundo. Simplesmente não consigo imaginar isso funcionando.

Ela parecia estar quebrando a cabeça mais do que eu esperava.

— Certo. Qualquer um pode usar violência, mas nem todos sabem usá-la de forma eficaz — falei.

— Também não acho que conseguiria mentir a ponto de resolver tudo. Além disso, há muitos alunos na classe que mentem melhor do que brigam, então provavelmente seria impossível. Esse estilo de luta não combina comigo — respondeu.

Por mais simulações que fizesse em sua mente, Horikita não conseguia chegar a uma resposta.

— Não consigo imaginar a Kushida-san usando muita violência. Então, se as opções são violência ou mentiras, é natural concluir que ela mentiu para destruir a própria classe — disse Horikita.

— Sim.

— Mas… será que ela realmente faria isso?

— Não sei. Para ela, talvez não seja impossível — falei. Encurralar uma pessoa não seria tão difícil. Ainda assim, derrubar uma classe inteira era um trabalho enorme. — Será que a Kushida realmente tem esse poder? Ou talvez…

Talvez Kushida tivesse uma terceira arma secreta? De qualquer forma, ela certamente era a culpada. Se não tivesse sido ela quem destruiu sua antiga classe, não seria tão hostil com Horikita.

— Kushida-san me disse que usaria qualquer meio necessário para se livrar de quem soubesse sobre o passado dela. Que trabalharia até com Katsuragi-kun, Sakayanagi-san ou Ichinose-san para me expulsar. Ela já se aliou ao Ryuen-kun para me armar uma cilada. Ela não vai parar enquanto eu estiver aqui, mesmo que a Classe D sofra — disse Horikita.

— Isso é preocupante. Então ela está disposta a destruir nossa classe para esconder o passado.

— Não tenho a menor dúvida.

Aquilo não podia ser uma ameaça vazia. Ainda assim, apesar de ter declarado guerra, Kushida quis trabalhar com Horikita e Hirata hoje. Talvez isso fosse para manter sua posição na classe, mas provavelmente tinha um objetivo hostil. Ela devia estar tentando reunir informações.

Mesmo assim, por mais que fosse uma espiã, precisávamos da Kushida. Ela havia construído uma boa imagem dentro da Classe D. Se começássemos a tratá-la como alguém de fora, os outros alunos não confiariam em nós.

— Como você pretende lidar com a Kushida, Horikita? — perguntei.

— Minhas opções são limitadas. Posso dizer a ela que não sei detalhes sobre o incidente, ou que não falarei nada a ninguém, e torcer para convencê-la.

— Provavelmente não será tão simples. Kushida vai continuar desconfiada, e provavelmente não vai te perdoar por simplesmente saber do passado dela.

Horikita tinha vindo até mim em busca de ajuda, algo que Kushida provavelmente já antecipava. Não seria surpresa que ela me incluísse na lista de pessoas que queria expulsar.

— Ainda acho que minha melhor opção é conversar com ela. Estou errada? — perguntou Horikita.

— Não, eu concordo. Essa questão passa por fazer os arranjos necessários e pedir a cooperação de alguém. Tentar convencê-la é provavelmente a única solução.

Por enquanto. Eventualmente, Kushida reagiria de forma grande.

— Nesse caso, não há mais por que delongar.

— Olha, posso estar indo longe demais, mas… se quisermos alcançar a Classe A, talvez precisemos desistir da Kushida.

Horikita me lançou um olhar fulminante.

— Você está dizendo que deveríamos fazer a Kushida-san ser expulsa?

Assenti silenciosamente. Golpear o inimigo primeiro era estratégia básica. Porém, Horikita pareceu enojada.

— Eu não esperava que você sugerisse algo assim. Quando decidi deixar o Sudou-kun fracassar meses atrás, foi você quem me convenceu a ajudá-lo. E eu entendi. Não podíamos virar as costas para alguém que tinha algo a oferecer. Para falar a verdade, se eu tivesse abandonado o Sudou-kun naquela época, o festival esportivo provavelmente teria terminado ainda mais desastroso. E você viu o quanto ele melhorou no exame intermediário. Estou errada?

A antes solitária Horikita havia mudado muito. Fiquei surpreso ao ver uma transformação tão radical. Ainda assim, seu plano não era realista. Ela tinha feito um ótimo trabalho trazendo Sudou para o nosso lado, mas eu duvidava que Horikita — que não tinha exatamente lábia — pudesse conquistar a Kushida.

— Isso é diferente de apenas ensinar alguém. Para ser honesto, não acho que os sentimentos da Kushida sejam o único motivo que a move. É mais do que uma simples falta de entendimento da parte dela. Enquanto você estiver nesta escola, a Kushida vai tentar sabotá-la, e a Classe D pode acabar pagando o preço. Tem certeza de que não vai se arrepender de deixá-la ficar? — perguntei.

Horikita não pareceu abalada. Pelo contrário, parecia ainda mais determinada. Suas sobrancelhas estremeceram quando ela respondeu:

— Ela é uma excelente aluna. Não só consegue conquistar o coração e a mente das pessoas, como também é uma observadora afiada. Se fizermos dela nossa aliada, será um grande trunfo.

Era verdade. Mas… isso realmente seria possível?

— Essa é a minha responsabilidade. Eu não posso simplesmente abandoná-la. Tenho certeza de que ela vai entender — disse Horikita.

— Se é isso que você quer, tudo bem. Vou ficar de olho.

Então ela escolheu o caminho do sofrimento, hein? Parecia que Horikita realmente pretendia enfrentar Kushida pelo bem da classe. Não importava o que eu dissesse, ela não ia recuar.

Eu queria acreditar que poderia dar certo. Queria ver se Horikita realmente seria capaz de fazer amizade com Kushida, assim como transformou Sudou em alguém de confiança.

— Eu não disse que queria sua ajuda — disse Horikita.

— É, você tem razão. Isso não tem nada a ver comigo — respondi. Já tínhamos quase completado uma volta pelo campus. Logo chegaríamos ao Pallet.

— Contei sobre a Kushida-san porque achei que você guardaria segredo… e que entenderia — disse Horikita.

— Desculpe por não ter dado a resposta que você queria.

Eu tinha dado minha opinião honesta, mas não estávamos conseguindo nos entender.

— Já que compartilhei todas essas informações, você poderia responder uma pergunta? — ela perguntou.

— Qual?

Horikita parou abruptamente e me encarou, os olhos afiados. Parecia ter mais uma coisa para discutir.

— O que você fez com o Ryuen-kun durante o festival esportivo?

— O que eu fiz?

Ela se referia ao momento em que tinha caído nos esquemas de Ryuen. Eu não sabia exatamente o que Ryuen havia feito durante o festival, então só podia responder com base no que eu vira.

— Eu fiz um acordo, só isso. Apenas garanti que os planos do Ryuen fossem arruinados — respondi.

— Você quer dizer que gravou a conversa que o Ryuen-kun teve com os alunos da Classe C? Quando ele discutiu sua estratégia? — Assenti.

— Não deve ter sido fácil conseguir essa gravação. Como fez isso? Ryuen-kun disse que havia um espião, mas você não é amigo de ninguém da Classe C, é?

— Eu tenho meus métodos. Usei o que estava ao meu alcance.

É claro que Horikita não sabia dos problemas que Manabe e suas amigas tinham causado à Karuizawa no navio.

— Outra coisa. Eu fiquei irritada por você ter vindo me resgatar daquela forma, porque isso significava que achava que eu iria fracassar. Mas suponho que eu realmente estava prestes a fracassar, então… não posso discutir com você. Já que você me proibiu de mexer nos seus assuntos, não posso exigir que me conte mais nada. Embora tenha sido incômodo, eu… bem, se você não tivesse feito nada, eu teria… Bem, obrigada — disse Horikita.

— Esse foi um jeito incrivelmente tortuoso de agradecer. — Eu esperava que ela me desse um sermão, então sua gratidão me pegou de surpresa. — Eu prometi cooperar até certo ponto, então pelo menos isso eu podia fazer.

— Eu consideraria isso intromissão, pessoalmente. Tem certeza de que está confortável sendo tão chamativo? Ryuen-kun agora está convencido de que alguém da Classe D está agindo nos bastidores, e você provavelmente está na lista dele, Ayanokoji-kun. Acho que a vida tranquila que você queria está em risco — disse Horikita.

Era verdade, minha vida escolar estava se tornando mais estressante do que eu gostaria. Mas talvez a paz nunca tivesse sido uma opção. Chabashira-sensei já havia mencionado um certo homem que queria me ver. E havia Sakayanagi, que conhecia meu passado. No fim, nenhum de nós era clarividente; ninguém sabia como as coisas acabariam. Horikita poderia se tornar meu trunfo no futuro. Por ora, eu só tentava encontrar uma forma de descansar um pouco.

Enquanto isso, Horikita me observava com uma expressão expectante.

— Boa observação. Vamos ter que ser especialmente cuidadosos.

— Você vasculha as profundezas da sua mente só para voltar com isso? Estou começando a entender você cada vez menos — disse Horikita.

— Você nunca me entendeu.

— Suponho que seja verdade.

Se eu não me lembrava de tê-la visto, então ela não devia ter interferido nos meus assuntos. De qualquer forma, Horikita não tinha tempo para se preocupar com Ryuen ou comigo. Se não resolvesse a situação com Kushida, seus dias nesta escola poderiam estar contados.

*

 

Assim que entramos no Pallet, Karuizawa lançou um olhar furioso para Horikita.

— Poxa, o que vocês estavam fazendo?! Vocês demoraram muito! Pelo menos pede desculpa.

— Vamos começar. Hirata-kun tem atividades do clube, certo? — disse Horikita, ignorando-a completamente.

— Uau, me ignorou. Típico — reclamou Karuizawa. — Nem um "desculpa".

Além de Horikita e de mim, o grupo era composto agora por Hirata, Karuizawa, Kushida e Sudou. Horikita tinha razão: não havia muito tempo antes das atividades dos clubes começarem. Já eram 15h50, e os clubes se reuniam às 16h30. Hirata, que era do clube de futebol, deveria ser o mais preocupado, mas permanecia calmo e sereno. Talvez estivesse realmente animado para essa reunião, já que seus olhos brilhavam.

Depois que Horikita se sentou, ela iniciou a conversa imediatamente, sem sequer tocar na bebida que acabara de comprar.

— Vamos falar sobre o próximo exame curto, tudo bem?

— Isso é realmente tão importante? — perguntou Karuizawa. — Digo, a escola praticamente garantiu que nossas notas não vão refletir o resultado desse teste. Ficar tendo sessão de estudo uma atrás da outra depois do exame intermediário é um peso enorme pra todo mundo.

Primeiro o intermediário, depois o exame curto e, por último, o exame final. Essa sequência sufocante de sessões de estudo, sem quase nenhum tempo para respirar, provavelmente colocaria uma carga insuportável nos estudantes que já tinham dificuldades.

— Eu não pretendia obrigar ninguém a estudar. No entanto, a escola não está aplicando este exame só para medir habilidade acadêmica. Afinal, acabamos de passar pelos intermediários.

— Todos passamos porque o intermediário tinha questões fáceis, né? — comentou Karuizawa.

— Espera, você acha que o exame curto vai ter perguntas mais difíceis? Isso não parece eficiente — disse Hirata.

Se o exame curto fosse mais importante que o intermediário, as prioridades da escola pareceriam completamente contraditórias.

— Então o exame curto deve ser significativo de outra forma. A escola quer medir algo além da capacidade acadêmica? — sugeriu Hirata-kun.

— Hã? Como assim? Do que você tá falando? — perguntou Karuizawa, interessada assim que Hirata começou a falar.

— Não tem nada a ver com nossa capacidade acadêmica. Os resultados do exame curto vão influenciar na escolha dos parceiros para o exame final. Por isso ele é importante — explicou Horikita.

Sudou ficou sério.

— Entendeu, Sudou?

— Só mais ou menos… — respondeu ele, com uma expressão que sugeria que não tinha entendido quase nada.

— Deve haver algum processo para selecionar os pares — continuou Horikita. — Se descobrirmos esse processo, teremos uma clara vantagem no exame final.

— O que isso significa, Ayanokoji? — sussurrou Sudou, provavelmente para não interromper Horikita.

— Significa que controlar o resultado do exame curto é necessário para passar no exame final — respondi.

— É, foi o que eu pensei — disse ele, mentindo de forma tão óbvia que chegava a ser doloroso.

Horikita estava certa, sem dúvida. Os resultados do teste curto seriam usados para definir como as duplas seriam formadas, e isso significava que poderíamos descobrir o processo de alguma forma. A escola havia prometido explicar as regras mais tarde, então não acabaríamos tomando decisões estranhas ou complicadas. Eu decidi esperar para ver o que Horikita tinha em mente.

— Então, e aí? Eles vão juntar pessoas que tiraram notas parecidas ou algo assim? — perguntou Karuizawa, claramente prestando atenção.

— Ou talvez coloquem junto alguém que acertou uma questão com alguém que errou a mesma questão? — sugeriu Sudou, também focado.

— Ambas as opções são possíveis — disse Horikita.

Hirata parecia ter algumas dúvidas, já que seu rosto se tornou sério.

— Eu entendo até certo ponto, mas estou um pouco cético quanto a isso.

— Sobre o quê? Por favor, quero ouvir — disse Horikita, incentivando-o com o olhar.

— Se existe algum tipo de método de seleção de parceiros, acho que deveríamos confirmar com um veterano — disse Hirata. — Se for o mesmo exame de anos anteriores, as regras provavelmente não mudaram. Será que os professores tentariam esconder isso?

Kushida, que estava calada até então, falou:

— Eu também estava um pouco curiosa. Acho que um veterano com quem tenho certa proximidade talvez me contasse.

Se fosse uma regra simples, não haveria razão para ser escondida. Caso contrário, poderia ser algo complexo ou até inexistente.

— Uau, como sempre, Yousuke-kun! Você é demais! — disse Karuizawa, admirada. Em seguida cruzou os braços, pensativa.

Horikita a olhou de lado.

— Como o Hirata-kun disse, é verdade que não sabemos os fatos. Porém, a escola não impediu que descobríssemos as regras. Na verdade, descobri-las pode ser um dos pré-requisitos do exame.

— Como assim, Suzune? Pode explicar como se a gente fosse burro? — pediu Sudou, parecendo tão sobrecarregado que parecia prestes a soltar fumaça pelas orelhas.

— Então o exame começa quando descobrirmos as regras? Nesse caso, não aprender quais são pode ser desastroso — concluiu Hirata. Ele provavelmente estava imaginando um cenário em que metade da classe seria expulsa.

— Isso tudo é apenas hipotético, mas se não descobrirmos o processo por trás da formação dos pares, os resultados podem ser devastadores. Ou serão? Chabashira-sensei disse que esta é a primeira vez que a Classe D chega tão longe sem ninguém ser expulso. Ela também disse que, nos anos anteriores, normalmente uma ou duas duplas eram expulsas, certo? Não é estranho? — perguntou Horikita.

— Nem um pouco — respondeu Sudou, batendo a testa na mesa em frustração.

— Entendo o que você quer dizer — disse Hirata. — Horikita-san está tentando dizer que, se compreendermos como tudo funciona, talvez não soframos nenhum dano sério. Certo?

— Exato.

— Mas por que você acha isso? — perguntou Karuizawa.

— Porque vamos fazer a prova final em duplas. Considerando a média mais alta e o alto nível de dificuldade dos problemas criados pelos alunos… se encararmos esse teste sem descobrir quais são as regras, só vamos colher resultados horríveis, não acha?

— É — acrescentou Hirata. — Se dois alunos com notas ruins fossem pareados, seria bem ruim.

— Então, se estamos com medo do que pode acontecer, só precisamos descobrir como eles determinam as duplas, certo?

— Sim, precisamos saber as regras primeiro. Além disso, a Chabashira-sensei disse que, nos anos anteriores, apenas uma ou duas duplas foram expulsas. É muito pouco, não é? Se a escola pareasse os alunos mais fracos da nossa classe juntos, provavelmente forçaria quase dez pessoas a desistir — disse Horikita.

— Entendo. Então é isso.

— Yousuke-kun, o que isso significa? — perguntou Karuizawa. — Estou ficando um pouco confusa.

— Certo, ok. Hmm, como explicar isso? Vamos começar do zero. Esqueçam tentar descobrir as regras por um momento. Imaginem que fizéssemos a prova sem saber que essas regras existiam. O que acham que aconteceria? — perguntou Hirata.

— Uhm… seria ruim? Se os alunos mais burros fossem pareados, provavelmente veríamos a escola expulsar um monte de gente — disse Karuizawa.

— Sim, eu também acho. Mas, nos anos anteriores, só uma ou duas duplas da Classe D foram expulsas.

— Isso não é meio estranho? — Sudou pareceu perceber o que estávamos dizendo.

— As duplas parecem equilibradas — disse Hirata. — Essa é a regra oculta que estávamos procurando.

De fato. Esse parecia ser o truque.

— Podemos extrair essa conclusão de todos os processos e resultados anteriores. As duplas são formadas por um aluno com pontuação alta e um com pontuação baixa — disse Horikita. — Não pode ser de outra forma. Então, se eu tirasse cem pontos e o Sudou-kun tirasse zero, seríamos a dupla com a maior diferença entre nossas notas. Isso significa que produziríamos resultados equilibrados na prova, porque nossas pontuações se compensariam.

Karuizawa parecia basicamente convencida.

— Entendi. Mas isso não significa que os alunos medianos correm mais risco?

— Sim. Quanto mais medianas forem as notas de alguém, maior o perigo — disse Horikita.

Os alunos fracos seriam pareados com os melhores, mas os medianos provavelmente seriam colocados juntos. Fazia sentido que as questões do exame curto fossem um pouco mais difíceis. Embora isso dificultasse medir com precisão as habilidades acadêmicas, provavelmente faziam reuniões para elaborar contramedidas.

— Precisamos confirmar isso com os veteranos. Aí poderemos planejar nossos próximos passos. Hirata-kun, Kushida-san, poderiam falar com alguns alunos do terceiro ano?

— Claro — disse Kushida.

— Vou conversar com os veteranos do meu clube de futebol — disse Hirata.

Os dois aceitaram prontamente o pedido de Horikita. Nossa estratégia para lidar com o exame curto começava a tomar forma.

— Também gostaria de perguntar mais uma coisa — disse Karuizawa.

— Vá em frente — respondeu Horikita, tão composta quanto sempre, apesar da dúvida de Karuizawa.

— Disseram que vamos ser pareados, mas… e se houver um número ímpar de alunos?

— Duvido que precisemos nos preocupar com isso agora. No momento da matrícula, todas as classes, da A à D, tinham um número par de alunos. Ninguém foi expulso até agora, então o tamanho das turmas não mudou. Porém… se alguém fosse expulso, isso poderia colocar a classe inteira em uma situação extremamente dolorosa.

— Sério? Não seria horrível sofrer só porque uma pessoa faltou? — Kushida aparentemente achava que a escola deveria ser mais gentil.

— Começamos o ano com um número par de alunos. Se alguém for expulso ou se retirar por circunstâncias imprevistas, a classe terá de arcar com as consequências — disse Horikita.

Durante o teste na ilha e no festival esportivo, a escola impôs punições impiedosas aos que não participaram. Horikita provavelmente tinha razão ao dizer que, se até mesmo um aluno fosse expulso, sofreríamos sérias desvantagens em exames futuros. Ela provavelmente estava percebendo a importância que teve salvar o Sudou.

— Entenderam? — perguntou Horikita.

— É, acho que sim. Só sinto que pensar nisso é perda de tempo — disse Karuizawa.

Com as dúvidas de Karuizawa resolvidas, passamos para o próximo item da pauta.

— Agora que discutimos a importância do exame curto, podemos seguir. Mas há mais uma coisa: qual classe vamos indicar como adversária? Na minha opinião, deveríamos escolher a Classe C — disse Horikita, apresentando sua opinião antes de ouvir as demais. — Nem preciso dizer, mas a capacidade acadêmica deles como grupo é sua grande fraqueza. A Classe C é inferior às Classes A e B nos estudos. Olhando os pontos de classe até agora, isso é evidente.

Ela não estava errada. Desafiar deliberadamente uma classe academicamente superior seria praticamente suicídio.

Entretanto, Hirata deu sua opinião:

— Eu concordo, Horikita-san. Mas as Classes A e B provavelmente pensarão da mesma forma. Se a Classe C é tão inferior academicamente, várias classes provavelmente vão atrás deles. Isso pode ser ruim para nós.

Hirata escreveu a situação imaginária em seu caderno:

Classe A indica a Classe D → Sem conflito com outras classes → Classe D é o alvo

Classe B indica a Classe C → Ganha no sorteio → Classe C é o alvo

Classe C indica a Classe B → Sem conflito com outras classes → Classe B é o alvo

Classe D indica a Classe C → Perde no sorteio → Classe A se torna o alvo por padrão

— Embora esse seja o pior cenário, ele pode acontecer — disse Hirata.

— Caramba, seria horrível. Teríamos que resolver problemas criados pelos alunos inteligentes e ainda criar problemas para eles resolverem, né? Não tem como ganhar — disse Karuizawa.

— Sim, você tem razão, as outras classes provavelmente vão mirar na Classe C. Mas não há motivo para que nós também não escolhamos a Classe C, não acha? Temos que fazer tudo ao nosso alcance para tentar vencer — disse Horikita, indiferente à possibilidade de perder no sorteio.

— Há uma diferença acadêmica clara entre as Classes A e B, não é? Fico curioso para saber o quanto somos diferentes da Classe C — eu disse, expressando um pouco de ingenuidade.

— Não há dúvida de que a Classe A é melhor academicamente. Mas não acho que a diferença seja tão extrema assim. Já entre a B e a C, a diferença parece bem profunda. Hmm, vou ter que investigar isso — disse Horikita.

Entendíamos como os alunos da Classe D iam academicamente, claro. Mas, na verdade, sabíamos pouco sobre as outras classes. Pensando bem, a escola nunca nos informou sobre isso. Só conhecíamos a diferença nos pontos e, com base apenas nisso, não dava para avaliar o quão inteligentes as classes realmente eram. Por exemplo, se a Classe B fosse na verdade melhor que a A nos estudos, resultados intensos poderiam surgir disso. No fim, talvez esse fosse o propósito desses exames.

Ainda assim, voltei minha atenção para Sudou.

Horikita fez o mesmo.

— Você está bem quieto, Sudou-kun. Normalmente, já estaria reclamando — disse ela.

— Eu só não tô entendendo essa conversa. Além disso, se eu começasse a reclamar, ia atrapalhar vocês — respondeu ele.

Todos ficamos em silêncio.

— O quê? Eu disse algo estranho? — perguntou Sudou.

— Não, é só que… o que você disse foi tão sensato e contido que me surpreendeu.

Horikita provavelmente pensou que ele iria bagunçar a discussão. A maturidade inesperada de Sudou parecia tê-la deixado chocada.

— Bem, a gente só precisa derrotar nossos oponentes um a um, certo? Não dá pra pular direto pra Classe A de uma vez. Então atacar a classe mais próxima da gente — a C — faz mais sentido — disse Sudou.

— Entendo o que quer dizer — respondeu Horikita. — Se nossa pontuação combinada superar a deles, então a diferença de pontos entre nossas classes vai diminuir drasticamente.

— Ok, mas… não seria bom se a Classe A atacasse a C? Digo, a Classe A ganharia facilmente deles. Aí a Classe C perderia pontos com certeza. Isso não seria bom pra gente?

— Depende do que estamos buscando com esse exame. Mas a Classe C ainda deve ser nosso alvo — isso não mudou. Vamos partir do pressuposto de que alguma classe vai tentar atacá-los, seja a nossa ou não.

Se o objetivo fosse apenas diminuir os pontos da Classe C, talvez fosse melhor deixar a Classe A ou B atacá-los. No entanto, a Classe D também queria ganhar pontos. Para aumentar nossas chances, seria melhor enfrentar um adversário mais fraco. Evitar a Classe C significaria derrotar um inimigo mais forte.

— Parece que todos concordam com o plano da Horikita-san. Então, vou seguir com ele também — disse Hirata.

Hirata não gostava da ideia de as coisas saírem do controle, por isso provavelmente apresentou tantas possibilidades.

— Obrigada. Acho que podemos seguir para a próxima etapa.

Apesar de alguns tropeços na conversa, todos concordaram com o mesmo plano. Nos dispersamos pouco depois das quatro da tarde. Hirata e Sudou foram para seus respectivos clubes. Karuizawa seguiu Hirata.

— Vou perguntar aos veteranos sobre a prova e depois dou um retorno — disse Kushida ao sair. Nada de surpreendente vindo dela.

— Estamos contando com você — disse Horikita. Em seguida, virou-se para mim. — E você, Ayanokoji-kun, o que pretende fazer?

— Nada. Deve estar tudo bem deixar o planejamento por conta de você e do Hirata, certo? Sinceramente, vocês lidaram com tudo até agora quase perfeitamente. Você está confiante nas suas previsões, não está?

— Até agora, sim. Mas, para dominar o exame final, precisamos enfrentá-la de frente — disse Horikita.

— É. Se a Classe D não estudar e melhorar, não chegaremos a lugar nenhum. Mas, se conseguirmos virar o jogo, passar na prova vai ser fácil. Se necessário, posso ajustar minha nota para formar dupla com alguém específico — eu disse.

— Então posso contar com você?

— Se estiver ao meu alcance, claro. Posso participar das suas sessões de estudo, se precisar. Mas não vou liderar nada.

— Porque pretende continuar sendo o aluno mediano pelo maior tempo possível, certo?

— Prefiro fazer o que der menos trabalho.

Na minha visão, era um compromisso justo. No entanto, Horikita estava longe de ser alguém que aceitasse facilmente.

— Vou pensar nisso. Você é aluno da Classe D, afinal, e quero te dar um papel adequado. Quero que a gente vença — disse ela.

— Vou considerar isso.

Fiz o máximo para evitar responder diretamente.



ENTRE NO DISCORD DA SCAN PARA FICAR POR DENTROS DOS PROXIMOS LANÇAMENTOS DE COTE! 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora