Ano 1 - Volume 5
Capítulo 6: Por Quem Fazemos Isso?
FUI SOZINHA em direção ao consultório da enfermeira, sentindo-me abatida e machucada depois da surra verbal de Ayanokoji-kun. Já que ele geralmente seguia sua chamada política de não interferência, nunca poderia imaginar que falaria comigo daquele jeito. Eu estava tão chocada que não consegui dar uma resposta satisfatória.
— Não, não é isso — murmurei para mim mesma.
Ayanokoji-kun estava certo, e eu não tinha nada a dizer em resposta.
— Tch.
De qualquer forma, se eu fosse atrás de Sudou-kun, precisava cuidar da minha perna, que ainda não se movia tão bem quanto eu queria. O atendimento médico de emergência estava disponível no campo, com pessoal monitorando os estudantes, mas eu queria evitar me destacar ao máximo. Em vez disso, fui para o consultório da enfermeira na escola.
Quando cheguei à enfermaria, vi que já havia alguém lá. Das três camas disponíveis, uma estava separada por uma cortina. Não conseguia ver quem estava nela.
— Como está, sensei? — perguntei.
Durante nossa breve pausa antes do almoço, um membro da equipe de primeiros socorros havia imobilizado minha perna com uma bandagem, mas o efeito foi mínimo.
Após examinar minha perna, a enfermeira olhou para mim.
— Já disse isso, mas participar de mais competições será difícil.
A enfermeira havia diagnosticado uma torção, que não parecia melhorar nem piorar. Nesse momento, eu mal conseguia correr, mas pelo menos conseguia correr. Apenas não conseguia reunir força suficiente para vencer uma prova. Lutei desesperadamente para passar nas competições individuais, mas os eventos para participantes recomendados seriam provavelmente ainda mais difíceis. Se participasse, nunca venceria. Não podia deixar que isso acontecesse.
— Você pretende participar dos eventos para participantes recomendados?
— Eu planejava, mas acho que mudei de ideia. Se eu tentasse participar com a perna assim, só atrapalharia o resto da minha classe — respondi.
— Essa é uma decisão sensata.
Felizmente, já havia acumulado diversos pontos durante exames anteriores. Mesmo se me retirasse, poderia compensar minha ausência. Se preparasse um participante substituto para me representar nas três competições, o custo total seria de 300.000 pontos. Não era uma despesa pequena, mas se aumentasse um pouco as chances de vitória da nossa classe, eu precisava pagar. Meu sonho de correr ao lado do meu irmão, porém, terminaria ali.
Bem, preocupar-me com questões pessoais era inútil. O que importava era quem seria meu substituto.
— Muito obrigada.
Depois de receber os cuidados médicos, agradeci e saí da enfermaria. Segui em direção à entrada principal para voltar ao campo. No vidro da porta, vi meu reflexo mancando. Sentindo-me patética, mordi o lábio. Suspeitava que Kinoshita-san tivesse me feito tropeçar depois de gritar meu nome, mas eu era responsável por ter caído e me machucado. Isso não mudaria.
Esforcei-me ao máximo para parecer calma e composta, para que os outros não percebessem minha dor. Quando estava prestes a sair pela entrada principal e voltar para fora, Kushida-san correu até mim em pânico.
— Ainda bem que te encontrei, Horikita-san! Preciso falar com você sobre algo — disse ela.
— O que é? Tenho alguns assuntos para resolver, então seja rápida.
— Ok. Mas este não é um bom lugar para conversar. Desculpe. Você poderia vir comigo? As coisas vão ficar complicadas — disse Kushida.
— Não pode explicar aqui? Vou decidir depois de ouvir o quão complicado é — respondi.
Após olhar ao redor, Kushida-san cochichou no meu ouvido:
— Parece que Kinoshita-san realmente sofreu uma lesão grave. É sério a ponto de ela não conseguir se levantar agora. Por isso… bem, Kinoshita-san quer falar com você, Horikita-san.
Não consegui esconder a surpresa. Realmente parecia que ela havia se machucado, mas que as coisas tivessem tomado esse rumo…
— Onde ela está?
— Por aqui.
Kushida me levou de volta à enfermaria.
*
Quando voltei à enfermaria, Chabashira-sensei estava lá.
— Que bom. Eu estava dizendo que você quase perdeu a Horikita-san — disse a enfermeira.
— Pedi para a Kushida buscá-la. Parece que ela foi rápida — disse Chabashira-sensei. Kushida-san observava os adultos conversar, parecendo desconfortável.
— O que está acontecendo? — perguntei.
Atrás da cortina que eu havia notado antes, podia ouvir alguém soluçando. Chabashira-sensei abriu a cortina, revelando Kinoshita-san deitada na cama. Em seguida, deixou a cortina cair novamente e me indicou para ir até o corredor.
— Kinoshita caiu no circuito de obstáculos esta manhã. Lembra-se disso?
— Claro. Ela esbarrou em mim — respondi.
Aquele incidente atrapalhara meus planos para o festival esportivo.
— Pois bem, Kinoshita diz que você a derrubou de propósito, Horikita.
Por um instante, não consegui entender o que Chabashira-sensei estava dizendo.
— Isso não é verdade. Foi completamente acidental. Na verdade, foi…
— "Na verdade, foi" o quê?
Ia dizer que fazia parte da estratégia de Ryuen-kun, como Ayanokoji-kun disse. Eu acreditava que Ayanokoji-kun estava completamente certo, mas não tínhamos provas.
— Deixe pra lá. Foi apenas uma coincidência, só isso.
— Eu gostaria de acreditar, mas a situação não é boa. Kinoshita afirma que, durante a corrida, você olhou para trás várias vezes. Verificamos as gravações, e você realmente olhou duas vezes — disse Chabashira-sensei.
— Isso foi porque ela chamou meu nome — respondi.
— Ela chamou seu nome? Entendo. Mesmo que isso seja verdade, ela afirma que você a chutou. Na verdade, ela está ausente de todas as competições subsequentes. Mandamos um professor inspecionar suas lesões, que parecem bastante graves. Eles acreditam que foram causadas intencionalmente.
— Mesmo que ela esteja gravemente ferida, ela ainda está mentindo. Eu não fiz nada — respondi.
— Acredito na sua inocência. No entanto, o Japão é um país que tende a proteger os mais fracos. Nossa escola não é diferente nesse aspecto. Enquanto não tivermos provas de um lado ou de outro, precisamos considerar a possibilidade de que tenha sido intencional. Teremos que deliberar sobre o assunto — disse Chabashira-sensei.
— Isso é idiota.
— E não é só isso. Os outros professores já sabem disso, é claro. Mas, se isso se arrastar, o conselho estudantil ficará sabendo. A situação só vai se complicar a partir daí. Você não esqueceu o que aconteceu com Sudou depois da luta, não é?
Se isso continuasse, meu irmão ficaria sabendo do incidente. Ele ficaria irritado e envergonhado da sua idiota irmãzinha. Porém, como eu era inocente, não tinha outra escolha a não ser defender minha inocência. Quer fosse uma estratégia de Ryuen-kun ou apenas um acidente infeliz, eu não podia mentir.
— Se me chamou aqui para perguntar o que aconteceu, eu disse a verdade. Eu não fiz nada. Agora, tenho alguns assuntos para resolver, então, se me der licença…
Precisava encontrar Sudou-kun o mais rápido possível e trazê-lo de volta. Mas, quando me virei para sair, Chabashira-sensei falou:
— Nessas circunstâncias, provavelmente seria mais fácil para a escola acreditar que o incidente foi intencional do que acidental. Kinoshita-san está ausente dos eventos do festival desde o circuito de obstáculos. Se provarmos que você cometeu alguma falta, isso invalidará os pontos que você conquistou até agora, e você não poderá participar dos eventos para participantes recomendados. Bem, com sua perna nessas condições, imagino que seria impossível participar de qualquer forma, mas… Kinoshita é uma aluna atlética. Em termos de velocidade, ela é tão boa quanto você, ou até melhor. É difícil acreditar que suas lesões sejam apenas coincidência.
Mesmo com tudo isso dito, eu era inocente, então não havia nada que eu pudesse fazer. Eu poderia continuar minha defesa, mas não tinha mais tempo para lidar com isso.
— Eu ia me retirar dos eventos para participantes recomendados de qualquer forma. Desde o circuito de obstáculos, minhas classificações não têm sido ruins. Não me importo de ser marcada como ausente nesses eventos, assim como Kinoshita-san. Porém, eu não causei intencionalmente a queda dela nem sua lesão.
Olhei para a professora, esperando alguma aprovação.
— Kinoshita não aceitará isso — respondeu Chabashira-sensei. — Ela diz que vai relatar o incidente à escola. O depoimento dela, junto com as filmagens, é bastante comprometedor. Do ponto de vista dela, ela sofreu uma enorme perda. A Classe C também está em uma situação difícil devido à ausência de Kinoshita, e parece improvável que eles se sabotassem de propósito. Você entende o que isso significa, certo?
— É o caso da Prova do Diabo, não é?
Um dilema lógico tão antigo quanto o tempo. Para provar que alienígenas existiam, bastava capturar um. Mas para provar conclusivamente que não existiam, seria necessário vasculhar cada centímetro do planeta e do espaço, o que é impossível. Essa é a definição de Prova do Diabo.
Chabashira-sensei estava dizendo que, se fosse impossível provar minha inocência, eu precisaria me preparar. Em vez de confirmar ou negar, ela cruzou os braços em silêncio.
— Como soube disso, Chabashira-sensei? Quem mais sabe? — perguntei.
— Kushida me consultou sobre o assunto. Ela disse que não queria que isso se espalhasse, mas não sabia o que mais fazer.
— Desculpe, Horikita-san. Kinoshita-san me pediu para falar com um professor — disse Kushida.
— Agradeço sua preocupação. Se um professor de outra classe tivesse ouvido sobre a alegação de Kinoshita-san, isso poderia ter se espalhado rapidamente. No entanto, tenho algumas perguntas. Por que exatamente você ficou sabendo disso através de Kinoshita-san? — pressionei Kushida-san.
Ela olhou ansiosa para a enfermaria.
— Sou amiga próxima de Kinoshita-san. Quando fui checar como ela estava durante nossa pausa, ela me contou.
— Entendo.
Era uma razão convincente, considerando que Kushida-san tinha uma grande rede social. De qualquer forma, os únicos que sabiam da acusação no momento eram Kinoshita-san, Kushida-san, Chabashira-sensei e eu. Eu queria resolver isso ali mesmo.
— Posso falar com Kinoshita-san? — perguntei.
— Não tenho certeza sobre isso. Ela parece assustada e pode estar instável emocionalmente — respondeu Kushida.
— Por favor. Não quero agravar as coisas — disse eu.
Inclinei-me, e Kushida-san fez o mesmo em retribuição.
— Por favor, permita-me fazer isso, sensei — disse.
— Está bem. Vou deixar você tentar — respondeu Chabashira-sensei.
Naquele momento, ouvi passos no corredor. Alguém caminhava direto para a enfermaria. Ele tinha as duas mãos nos bolsos, andando como se fosse dono do lugar.
— Parece que as coisas ficaram realmente sérias.
— Ryuen-kun…
Por que ele estava aqui? Tentei afastar qualquer confusão e parecer calma e composta. No entanto, Ryuen-kun sorriu com desdém e parou bem à nossa frente. Ele percebeu meu disfarce.
— Corri aqui depois que Kinoshita pediu. Para pensar que alguém fez isso de propósito… — Passou por nós e entrou na enfermaria.
Seguimo-lo em pânico. Ryuen-kun ignorou as tentativas da enfermeira de impedi-lo e abriu a cortina da cama de Kinoshita-san.
— Ei, Kinoshita. Está tudo bem? Parece que você passou por maus momentos — disse ele.
Kinoshita-san pareceu assustada ao vê-lo. Tremia de medo.
— Ouvi dizer que sua perna está machucada. Mostre-me — Ele puxou a perna de Kinoshita-san debaixo dos lençóis. — Uau, isso parece grave. Estou impressionado que você tenha resistido, considerando tudo pelo que está passando.
A perna direita de Kinoshita-san estava fortemente enfaixada. Sua lesão parecia dolorosa.
— Desculpe. Eu tentei ao máximo e queria participar da próxima competição, mas… minha perna não obedece. Por isso—hng!
— Não se culpe, Kinoshita. Sei que você queria participar da corrida de três pernas — disse Ryuen.
— Nós nos esbarramos por acidente, Kinoshita-san. Por que está dizendo que eu te fiz cair? — interrompi, lançando-lhe um olhar firme.
Kinoshita desviou o olhar. Ryuen-kun ficou à minha frente.
— Você fez isso de propósito, não foi? — perguntou ele.
— Pelo jeito, parece que sim, segundo ela — respondi.

— Pare de brincar. Você acha que eu faria algo assim?
— Você nunca consegue realmente conhecer alguém, consegue? Conveniente, não é? Kinoshita-san, que por acaso é melhor em esportes do que você, sofre uma lesão séria e precisa se retirar. Ela ia competir em todos os eventos recomendados para participantes, também. Enquanto isso, você continua participando mesmo machucada. E eu não deveria achar isso suspeito? — disse ele.
Entendi muito bem a importância de perder uma colega de equipe. Mas, depois de ouvir o discurso eloquente que Ryuen havia preparado, minhas dúvidas sobre ele só aumentaram. Kinoshita-san teria colidido comigo de propósito por ordem dele? Ele teria escolhido ela especificamente para isso, já que ela era mais atlética que eu, e assim Ryuen poderia desviar qualquer suspeita?
Mas o que ele ganharia fazendo Kinoshita-san se chocar comigo, sendo que ela tinha mais chances de vencer a corrida? Além disso, se ela pretendia participar de todos os eventos recomendados para participantes, a Classe C perderia cerca de 400.000 pontos pagando pelos competidores substitutos. Ele machucou sua própria colega, arcou com o custo e ainda reduziu suas chances de vitória. Ryuen faria um sacrifício tão grande apenas para me derrotar e se gabar de sua superioridade?
Por mais que eu pensasse, não conseguia enxergar qualquer vantagem em um plano tão ineficaz.
— O que você está pensando? — perguntou Ryuen-kun, inclinando-se para mim, mãos nos bolsos, como se enxergasse através de mim. — Podemos ficar discutindo isso para sempre, mas não resolverá nada. Não é mesmo, Kinoshita?
Ryuen-kun praticamente forçava Kinoshita-san a falar.
— Horikita-san… — Kinoshita hesitou. — Quando eu caí, você disse… que eu definitivamente não iria ganhar.
— Eu não disse nada disso. Por que está mentindo? — perguntei.
— Horikita, você só olhou para trás quando correu com Kinoshita. Por que fez isso? — Chabashira-sensei me perguntou novamente.
— Sim, admito que olhei para trás. Mas foi apenas porque ela continuava chamando meu nome enquanto estava atrás de mim. No começo ignorei, mas depois achei estranho, me virei e olhei.
— Isso é verdade, Kinoshita?
Dessa vez, Chabashira-sensei dirigiu a pergunta diretamente a Kinoshita-san, e não a mim.
— Eu nunca chamei o nome dela — Kinoshita disse, negando completamente. — Nem uma vez.
— Ela nega, sensei. Além disso, mesmo que Kinoshita tenha chamado Suzune, qual é o problema? Isso não constitui falta. Provavelmente foi um grito de desespero, nascido do desejo de vencer. Quero dizer, Kinoshita tem muito mais espírito do que qualquer outra pessoa. Ela é determinada e odeia perder. Isso não é crime — disse Ryuuen. — Se você reagisse a essas coisas toda vez, isso nunca teria fim.
Essa discussão iria se prolongar indefinidamente. Além disso, eu tinha certeza de que Ryuen e Kinoshita haviam ensaiado toda essa cena em segredo.
— Hum… Kinoshita-san, Ryuen-kun, acho que isso foi apenas azar. Não consigo imaginar que Horikita-san machucaria deliberadamente a oponente — Kushida-san falou baixinho em minha defesa.
— Mas Horikita-san disse que eu definitivamente não iria ganhar! Ela disse isso!
— Não acha que seu desejo de não perder falou mais alto? Quero dizer, eu acho que Horikita-san ficou realmente chateada quando caiu. Acho que ela apenas estava tentando dar o seu melhor — disse Kushida.
Não disse nada. Suportei em silêncio. No entanto, Kinoshita-san falou novamente.
— Não consigo perdoar Horikita-san por isso. Agora terei que me afastar dos treinos de atletismo — disse ela.
— Você não sente nenhum constrangimento? — perguntei. — Mentir assim para incriminar alguém é divertido para você? Ou Ryuen-kun planejou tudo isso? Não consigo acreditar que seja coincidência ele aparecer justamente agora.
Kinoshita-san estava mentindo. Não podia aceitar a veracidade de suas acusações só porque ela estava em lágrimas. Precisava retomar o controle da conversa antes que piorasse.
— Então, você ignora sua própria maldade e diz que é minha culpa que Kinoshita se machucou? — Ryuen me perguntou. — Você é realmente uma peça difícil, não é?
— Por favor. Você mexeu com Sudou-kun antes. Não finja que esqueceu disso. Só está tentando usar o mesmo truque de novo.
— Eu não tive nada a ver com isso. É ridículo tentar ligar essas coisas, de qualquer forma. — Ryuen não pretendia admitir nada. — Está claro que você fez isso, não é? Você esbarrou em Kinoshita de propósito. Caso encerrado. Não há espaço para mais debate, então vamos reportar isso aos superiores imediatamente.
— Isso… Você poderia me deixar conversar um pouco mais com Horikita-san, por favor? — Kushida implorou a Ryuen-kun. Queria dizer que a preocupação dela era desnecessária, mas não queria que o caso saísse do controle. Estava presa em uma teia de aranha, e tudo que podia fazer era lutar.
Ryuen-kun pareceu considerar o pedido dela e então fez uma proposta.
— Não tenho tempo para prolongar isso — disse ele. — As competições recomendadas para participantes começam logo após o almoço. Eu vou competir nelas, então quero resolver isso agora. Seria mais fácil deixar o julgamento para os superiores.
Olhando para mim, Kushida-san e Kinoshita-san, Ryuen-kun continuou:
— Podemos fazer um acordo rápido, porém.
— Um acordo? — perguntei.
— Vocês devem compensar Kinoshita e a Classe C por quaisquer prejuízos.
— Isso não é brincadeira. Não tenho que ouvir isso — respondi. Se ele queria isso, o custo não seria barato. Além disso, significaria aceitar a mentira deles como verdade.
— Vocês não farão o acordo e não querem que levemos isso aos superiores? Não tem como; isso seria conveniente demais para vocês. Terminamos aqui.
— O que exatamente você quer, então? — perguntou Kushida-san a Ryuen-kun.
— Ao menos um de vocês tem noção. Vamos ver. Se vocês entregarem um milhão de pontos, farei Kinoshita retirar a queixa. Assim, podemos preparar um substituto para os eventos recomendados, e Kinoshita ainda receberá uma renda incidental. Simples, não?
— Não seja ridículo — disse eu. — Não fiz nada de errado. Não preciso pagar nem um ponto sequer.
— Então prove isso, Suzune. Coloque tudo em preto no branco para nós.
— Vocês dois parecem tão confiantes. Acham mesmo que suas mentiras não serão descobertas?
— Podemos provar que não estamos mentindo. Vamos logo pedir ao presidente do conselho estudantil para julgar — disse Ryuen.
Ryuen-kun sabia da minha relação com o presidente, meu irmão mais velho, e estava me provocando. Eu absolutamente não podia criar problemas para ele. Se espalhasse o boato de que sua irmãzinha machucou alguém de propósito, seria um prejuízo incalculável para sua reputação.
Era um truque sujo, mas não havia saída. Quando os garotos do clube de basquete atacaram Sudou-kun, eles mentiram e se fizeram de vítimas. O erro deles foi achar que ninguém estava olhando. Mas isso era diferente.
Dessa vez, todo o corpo estudantil era testemunha. Ryuen tinha a vantagem. Kinoshita-san era tão atlética quanto eu, se não mais, e havia provas em vídeo mostrando que eu olhei para trás. Além disso, Kinoshita-san planejava participar de todos os eventos recomendados para participantes. Ela havia sofrido ferimentos graves o suficiente para impedir sua participação. Não havia nada que eu pudesse fazer para me salvar.
O pior de tudo era o momento em que armavam sua armadilha, que fora melhor do que eu imaginara. Não haviam agido logo depois que Kinoshita-san se machucou. Em vez disso, Ryuen a fez se manter discreta, para que seu desempenho parecesse mais convincente. Fazendo-a suportar a dor com estoicismo, eles fizeram seu plano parecer verdade.
No entanto, ela não conseguiu aguentar e desistiu. Depois, contou secretamente a outros que eu a havia feito cair de propósito e fingiu medo de enfrentar minha retaliação. Esse era o plano deles. Depois de chegar aqui, tive certeza disso. Tudo que fizeram tinha como objetivo me prender, como se estivessem tecendo uma rede para me capturar.
A situação já havia passado do ponto sem retorno. Eles tramavam desde o momento em que entrei no festival. Eu compreendia plenamente meu erro agora, embora ainda ficasse perplexa com os muitos mistérios restantes.
— Hum… posso usar meus pontos, Ryuen-kun? — Kushida-san perguntou.
— Hã?
— Não acredito que Horikita-san faria algo assim de propósito. Por isso não quero que isso se torne um grande problema. Mas… também não acho que Kinoshita-san mentiria. Não poderia ser apenas um acidente infeliz?
— Ah, que ingênuo. Desculpe — usar seus pontos é impossível. Acredito que Suzune fez isso com malícia, para prejudicar a Classe C. Esse pedido de desculpas não vale nada a menos que tiremos dinheiro dela. Claro, não vou impedi-la se você também estiver disposta a pagar — disse Ryuen.
Quanto mais isso se prolongasse, pior ficaria. Mas eu não podia ceder.
— Muito bem. Kinoshita, vamos levar isso aos professores e, depois, ao conselho estudantil — ordenou Ryuen-kun, como se quisesse acordá-la. Kinoshita, com o rosto contorcido de dor, sentou-se. — Os responsáveis pela escola devem entender a gravidade disso — acrescentou. — Certamente não tolerariam algo tão mesquinho e cruel.
Eu tinha que escolher. Poderia buscar a verdade, contestando as alegações de Ryuen-kun e sua capanga. Ou poderia ceder aqui mesmo. Queria fazer a primeira opção, mas não tinha provas. Só perderia tempo e a confiança de todos.
Tive que negociar com Ryuen-kun ali mesmo.
— Espere.
Consegui dizer, com esforço.
Ryuen-kun e Kinoshita-san pararam de andar.
— O que foi, Suzune? — ele perguntou. — Tem algo a acrescentar?
— Se eu pagar, você fará como se nada tivesse acontecido, certo?
— Está admitindo ter cometido uma falta?
— Não, porque eu não sou mentirosa.
— Então, por que está pagando?
— Sua estratégia foi melhor que a minha. Por isso — disse eu. Era humilhante, mas verdadeiro.
— Ouviu isso, Kinoshita? Ela não acha que está errada. Consegue perdoá-la?
— Não, não consigo — respondeu Kinoshita-san.
— Pois é — disse ele.
— Grr… — resmunguei.
— Ainda assim, sei que você também tem seu orgulho — acrescentou. — Entendo que você não quer admitir ser a vilã diante do professor e da sua amiga. Por isso aceitarei sua oferta. Tenho um coração bondoso, afinal. Mas se Kinoshita aceitar seu pedido de desculpas, isso é outra história.
Ele me lançou um sorriso perverso. Estava puxando todas as cordas, brincando com minhas emoções. Eu queria me libertar disso.
— Se eu pagar um milhão de pontos, você vai agir como se nada tivesse acontecido. Foi o que disse, certo? Sem outras condições? — perguntei.
— Essa era a oferta anterior. Você recusou uma vez, certo? Se vamos para uma segunda rodada de negociações, tenho mais condições.
Até que ponto Ryuen-kun pretendia me torturar?
— Que tal se você se ajoelhar e implorar? Talvez assim meus sentimentos, e os de Kinoshita, mudem.
— Ryuen. Isso já é demais.
Ryuen pediu que eu me prostrasse diante dele, Chabashira-sensei finalmente falou.
— Professores devem ficar de fora. É um problema entre estudantes — respondeu Ryuen-kun, sem medo algum. — Bem, não vou forçá-la a decidir agora — disse ele. — Os professores também estão nos observando. Esperarei sua resposta quando o festival esportivo acabar. Você vai se ajoelhar e oferecer um milhão de pontos, ou deixará a escola deliberar? Qual escolherá?
Ele acrescentou:
— E não pense que isso termina com o festival esportivo. Ainda não terminei com você; vou tocar nesse assunto quantas vezes forem necessárias. Kushida, traga Suzune para mim depois do festival.
Ryuen-kun e Kinoshita-san saíram. Eu fiquei ali, sem saber o que fazer.
— Está bem, Horikita-san? — Kushida-san perguntou.
— Estou. Mais importante, quanto tempo passou? Sensei, quanto tempo falta para o intervalo do almoço? — perguntei.
— Ainda faltam cerca de vinte minutos. Você não comeu ainda, certo? Deve se apressar — disse Chabashira-sensei.
Eu não percebi que já estava tão tarde. Não era terrível, mas não tinha tempo para sentar e comer agora. Precisava encontrar Sudou-kun o quanto antes.
— Com licença.
Deixei as duas para trás e saí correndo da enfermeira.
*
Tudo isso era por minha culpa. Eu só tinha pensado em mim mesma. Não havia previsto que Ryuen-kun colocaria as mãos na nossa tabela de participação com a intenção principal de me derrubar. Eu não estava preparada.
Estava confusa e miserável, sem conseguir encontrar uma solução. Meu passo parecia mais pesado do que antes.
— Sou tão patética.
De fato, eu realmente era patética. Ao me aproximar da entrada da escola, vi duas pessoas entrando. Normalmente eu as ignoraria, mas essas duas eram diferentes.
— Nii-san… — sussurrei, minhas palavras se perdendo no ar. Talvez ele tivesse ouvido, talvez não. O presidente do conselho estudantil da escola, meu irmão mais velho. Com ele estava uma garota do conselho estudantil, a secretária Tachibana.
Tachibana me notou, mas meu irmão nem olhou na minha direção. Eu já estava acostumada com esse tratamento dele. Honestamente, queria falar com ele, mas, como uma vergonha da Classe D, não tinha esse direito. Baixei os olhos. De qualquer forma, meu irmão não iria parar por minha causa.
Pelo menos, era isso que eu pensava. Mas então…
— Você entende a situação da Classe D agora? — Ele estava falando comigo.
— Estou começando a entender — respondi.
Era uma resposta honesta. Eu tinha feito tudo errado, cometido todos os erros. De todas as formas possíveis, a Classe C havia me superado.
— Não se preocupe. Não vou te incomodar, Nii-san.
Eu tinha que evitar isso a todo custo. Essa situação era resultado do meu próprio fracasso, então faria o que precisava ser feito. Ryuen queria que eu me ajoelhasse diante dele e oferecesse um milhão de pontos. Considerando que Chabashira-sensei tinha testemunhado tudo, ele provavelmente não mudaria de ideia no último momento. Eu estava bem com isso, contanto que não causasse problemas para meu irmão.
Mas eu queria ter uma conversa adequada, não algo assim. Esperava ter essa chance durante o revezamento final.
Esse sonho desapareceu quando machuquei minha perna. Não podia esperar qualquer simpatia do meu irmão, mesmo depois de informá-lo do meu sofrimento. Eu tinha que enfrentar as coisas de frente. Agora que havia suportado tanto, não tinha mais nada a perder. Além disso, ainda havia uma última coisa que eu podia fazer.
— Com licença — disse.
Atravessando a entrada, fui para fora. Apesar da dor na perna, corri para todos os lados, procurando por Sudou-kun. Contudo, levaria mais tempo do que eu tinha para vasculhar um campus tão grande. Quando restavam apenas dez minutos, voltei ao campo. Talvez Sudou-kun tivesse voltado, afinal. Ele estava se esforçando ao máximo para conquistar o primeiro lugar de toda a escola. Eu esperava que ainda quisesse isso.
Mas era inútil. Ele não estava no campo.
— Então, ele não voltou.
Ao pensar nos lugares que ainda não havia verificado, minha mente foi para o Keyaki Mall e os dormitórios. Ele também poderia estar em algum lugar do prédio da escola. Estava sendo muito difícil; parecia que não conseguia encontrá-lo.
Então, ele… Ayanokoji-kun… apareceu bem à minha frente. Perguntei-me se ele já tinha terminado de almoçar.
— Você parece sem fôlego — disse ele.
— Estou procurando por Sudou-kun. Ele ainda não apareceu, não é? — perguntei.
— Não. Isso significa que você quer falar com ele?
— Sim. Ele é um recurso valioso. Aceito isso, mesmo que não goste — respondi.
— E isso significa? — Ayanokoji-kun parecia perceber como eu estava mal, mas não adiantava contar a ele sobre Ryuen-kun. O que ele poderia ter feito, afinal? Eu queria manter aquele constrangimento só entre Kushida-san, Chabashira-sensei e eu.
Nosso intervalo estava quase acabando, mas ninguém tinha visto Sudou-kun. A Classe D já estava em apuros, e, na ausência de Sudou-kun, nossa derrota era certa.
— Você tem alguma ideia de onde Sudou poderia estar? — Ayanokoji-kun perguntou. — O tempo está quase acabando.
— Não, não tenho. Mas ele só pode estar em alguns lugares. Se quiser privacidade, provavelmente voltou para o dormitório — respondi.
— Sua perna está bem?
— Não, mas consigo correr. Você vai comigo?
— Passo. Só acabaria atrapalhando você.
— Entendi.
Talvez fosse mais conveniente para mim também. Engoli a dor e comecei a caminhar.
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