Classroom of The Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 5

Capítulo 5: O Início

ENFIM, o dia havia chegado. As cortinas estavam prestes a se abrir para o festival esportivo, e seria um longo dia. Todo o corpo estudantil, usando seus agasalhos esportivos, marchava junto. Bem, "marchava" era modo de dizer — a maioria só andava num ritmo moderado, sério o suficiente para não bagunçar a formação.

— Beleza! Hora de impressionar a Kikyou-chan! — gritou Ike, caminhando logo atrás de mim.

Como ele planejava impressionar alguém sendo tão ruim em esportes? Só sabia falar.

Fujimaki, da Classe A do terceiro ano, fez um discurso durante a cerimônia de abertura. Embora não fossem muitos, alguns espectadores assistiam do lado de fora dos campos da escola. Provavelmente funcionários do campus. A escola não parecia ter imposto nenhuma restrição rígida sobre quem podia assistir ao festival. De vez em quando, algum espectador sorria ou acenava.

Enquanto isso, os professores observavam sem o menor traço de sorriso. Havia também pessoal médico montando uma espécie de cabine temporária. Ela comportava cerca de vinte pessoas e tinha ar-condicionado e bebedouro. A preparação da escola era tão meticulosa quanto havia sido na ilha deserta. Tendas foram montadas para o Time Vermelho e para o Time Branco, de frente uma para a outra, em lados opostos da pista. A escola não queria que os times se misturassem, exceto durante as competições.

— Caramba, estão bem preparados. Até instalaram câmeras para ajudar nas decisões finais.

O primeiro evento do festival era a corrida de 100 metros, e notei que havia uma câmera posicionada na linha de chegada.

— Assim, eles evitam erros ou resultados duvidosos.

A linha entre vitória e derrota podia ser extremamente fina numa competição assim. Provavelmente era por isso que não incluíram eventos como torcida organizada, difíceis de pontuar.

*

 

— Em que grupo você tá na corrida de 100 metros, mesmo? — perguntou Horikita.

— No sétimo — respondi, olhando para a tabela de programação com a ordem e os horários.

— Tomara que não apareça ninguém excepcionalmente bom. Vou torcer por você, pelo bem da classe.

— Então vou fazer o possível para não ficar em último — respondi.

Com esse objetivo nada ambicioso, fui para a pista junto dos garotos do primeiro ano. O festival organizava a corrida de 100 metros por série, começando pelos garotos do primeiro ano e terminando nas garotas do terceiro. Depois haveria um intervalo, e então recomeçaríamos na ordem inversa — das garotas do terceiro ano até os garotos do primeiro.

A competição estava prestes a começar. Os emparelhamentos haviam sido determinados de acordo com a lista que cada classe recebera com antecedência. Agora, finalmente saberíamos quem correria de qual classe e em que ordem. Os garotos do primeiro ano formavam dez grupos; o meu era o sétimo. Cada grupo tinha oito corredores, dois de cada classe. Sudou estava no primeiro grupo.

Toda a Classe D observava, prendendo a respiração. O resultado do festival dependia bastante de Sudou. Se vencêssemos esse primeiro evento, Sudou abriria nossa formação no revezamento e tiraria o ímpeto dos adversários — isso nos motivaria. Mas, se ele fosse mal, provavelmente derrubaria o ânimo de todos.

— Do meu ponto de vista, ninguém aqui é grande coisa. Só vejo gorduchos e palitos. O Sudou já garantiu o primeiro lugar! — gritou Ike.

Eu não via nenhum aluno de destaque das outras classes no grupo de Sudou. Como Ike dissera, a vitória dele era praticamente certa.

— Mas, dependendo de como você veja isso, pode ser uma grande perda pra gente.

Idealmente, se íamos usar alguém incrível como Sudou, seria melhor que ele enfrentasse corredores rápidos.

— Bem, não há nada que possamos fazer. É só sorte.

Ver Sudou abaixado na posição de largada inspirava confiança absoluta. Mesmo que tropeçasse no meio, ainda assim venceria. Ele podia fazer isso.

Assim que o sinal soou, Sudou disparou como uma bala. Rapidamente ultrapassou todos os outros, deixando-os comendo poeira. Cruzou a linha com tanta vantagem que ninguém chegou perto. Uma vitória esmagadora.

Como esperado, Sudou pegou o primeiro lugar. O Professor — o segundo corredor da Classe D no grupo — ficou em último, como previsto.

O sinal para a próxima corrida veio quase imediatamente, sem tempo para celebrar. Os sinais vinham em intervalos de cerca de vinte segundos, então levaria quatro minutos para todos os garotos do primeiro ano terminarem. Esse evento se repetiria para todos os garotos e garotas dos três anos; no total, a corrida de 100 metros terminaria em cerca de trinta minutos.

— Como esperado do Sudou-kun — disse Hirata, genuinamente impressionado.

— É. Parece que as outras classes ficaram chocadas também.

Ele não apenas venceu; deixou uma forte impressão. Assim como Sudou e o Professor, nós do sétimo grupo também tínhamos nossos papéis. Hirata, membro do clube de futebol e corredor rápido, certamente ficaria entre os primeiros. Eu pegaria um lugar logo depois — não havia motivo para ansiedade. A questão era como me destacar sem chamar atenção demais.

Havia vários alunos das outras classes de quem devíamos ter cuidado. Fiquei imaginando em que grupos estavam atletas como Kanzaki e Shibata, e estudantes com presença forte, como Ryuen ou Katsuragi. O terceiro grupo se posicionou na linha.

— Ah, o Careca… digo, o Katsuragi… tá na primeira raia — disse Ike, apontando para a cabeça brilhante de Katsuragi.

A luz do sol batia no couro cabeludo dele, refletindo. Ao lado, estava outro rosto conhecido: Kanzaki, da Classe B, calmo como sempre. Então eles competiriam um contra o outro, hein?

O formidável Koenji também deveria estar no terceiro grupo, mas não havia sinal dele na Raia 5. A escola não fez esforço para procurá-lo; apenas marcou como ausência e iniciou a corrida.

Achei que seria uma disputa acirrada, mas Kanzaki era o mais rápido. Katsuragi não era lento — apenas superado. A corrida terminou sem muito drama. Kanzaki ficou em primeiro e Katsuragi em terceiro.

À medida que as corridas continuavam, Hirata percebeu algo.

— Ayanokoji-kun. Ali — disse ele, apontando para a cabine temporária.

Forcei os olhos e vi Koenji lá dentro, arrumando o cabelo. Certamente não tinha acabado de correr. E ainda era cedo demais para se retirar.

— Aparentemente, ele não vai participar.

Koenji tinha cooperado até a cerimônia de abertura, mas parecia que pretendia abandonar todas as provas. Inventaria alguma desculpa — dor no pé, mal-estar. Se não participasse de nada, não marcaria pontos, nem mesmo por último lugar. Sua ausência pesaria tanto para nossa classe quanto para o Time Vermelho. A Classe A tinha Sakayanagi, que também não participaria, mas ela ao menos tinha um motivo real.

Se as Classes B e C não tivessem ausências, o Time Vermelho teria que compensar dois membros faltando. Um baita prejuízo.

A competição avançou sem problemas, e logo chegou a vez do sétimo grupo. Fui para a Raia 4, com Hirata na Raia 5. Yahiko, da Classe A, também estava ali, mas o restante eram caras desconhecidos.

Esse era o primeiro festival esportivo da minha vida.

Comecei num ritmo médio — nem rápido, nem devagar. Hirata foi me ultrapassando aos poucos, juntando-se aos líderes. À minha frente, vi as costas de quatro pessoas — eu estava em quinto.

Como não havia muita diferença de velocidade entre nós, ficamos meio agrupados. Continuamos correndo assim, sem mudanças na ordem. No fim, terminei em quinto lugar. Hirata venceu por pouco.

— Ufa. Bom trabalho — disse ele, respirando fundo.

— Desculpa. Acabei puxando a gente pra baixo — respondi.

— Isso não é verdade. Todo mundo foi rápido. Foi uma boa corrida — disse Hirata.

Apesar do meu resultado decepcionante, ele não me culpou em nada. Em vez disso, apenas sorriu para mim.

Saímos rapidamente da pista e voltamos para a tenda. O próximo grupo já iria começar, e estávamos atrapalhando. Depois que os garotos do primeiro ano terminaram a corrida de 100 metros, eles retornaram aos seus assentos e passaram a observar as meninas com uma intensidade quase predatória. Claro que se importavam com o resultado da prova, mas também queriam… apreciar a visão.

— Onde está o Sudou? — perguntei. Ele já deveria ter voltado.

— Sei lá. Banheiro, talvez? Cara, temos coisas mais importantes pra olhar. Olha esses peitos balançando, mano, olha isso! — disse o sempre animado Ike.

Imediatamente, senti um pressentimento ruim quanto ao sumiço do Sudou. Ele deveria estar torcendo pela Horikita, então aquilo era estranho.

— Não pode ser…

Olhei para o chalé improvisado e confirmei minha intuição. Sudou estava indo na direção de Koenji.

— Isso não vai dar certo. Tenho que impedir — falei.

— É — respondeu Hirata.

Tendo percebido a mesma coisa, Hirata e eu corremos até o chalé, onde a situação já estava ficando tensa. Com a mão cerrada em punho, Sudou encarava Koenji.

— Ei, você. Qual é a sua de ficar de fora?! Para de desprezar a gente, seu idiota! — rugiu Sudou.

Quando abrimos a porta, já ouvimos claramente a voz ameaçadora de Sudou. Ele parecia pronto para socar Koenji a qualquer segundo, mas Koenji fingia não notar. Uma ousadia impressionante. Apenas continuava admirando o próprio reflexo na janela, o que só deixava Sudou mais irritado.

— Parece que você não vai entender se eu não te der uma surra, Koenji — disse Sudou, rosnando.

— Não. Você não pode fazer isso, Sudou-kun. Se os professores descobrirem… — Hirata tentou impedir, mas Sudou não era do tipo que recuava.

— Eu não ligo. Isso é um problema da classe, certo? Então não importa se eu bater nele, desde que esse palhaço não vá chorando pros professores — respondeu Sudou.

— Que sujeito vulgar você é. Eu vim aqui apenas para aproveitar um momento a sós. Como pode ver, estou passando mal hoje. Decidi me retirar para não ser um fardo — disse Koenji.

— Não vem com essa porcaria! Se fosse só treino, tudo bem, mas você tá fugindo do evento de verdade!

Eu entendia por que Sudou gritava. Koenji aparentava estar em perfeita saúde.

— Não faz isso, Sudou-kun! — Hirata entrou em pânico. Mas, antes que pudesse intervir, Sudou lançou um soco. Provavelmente queria fazer Koenji cair na real, mas Koenji bloqueou facilmente, segurando o punho dele na palma da mão. Sempre surpreendendo.

Um estalo surdo ecoou pelo chalé.

— Pare. Você não tem a menor chance contra mim — disse Koenji, sem sequer olhar para Sudou.

Sudou não tinha segurado o golpe. Agora que o outro havia parado o soco com tanta facilidade, Sudou certamente entendia a força real de Koenji — mas isso só o deixou ainda mais inflamado.

— Pode vir. Eu vou quebrar esse teu nariz — rosnou Sudou.

— Céus. Você e aquela garota parecem achar que sou pouco confiável — disse Koenji.

"Aquela garota"? Quem?

— Aquela garota fria que tanto inflama sua paixão. Ela vem me dizendo, repetidamente, que quer que eu participe seriamente do festival esportivo.

— Horikita?

Aparentemente, Horikita já tinha previsto a possibilidade de Koenji faltar desde o início. Considerando que ele abandonou as provas lá na ilha deserta logo de cara, fazia sentido. Ainda assim, eu não sabia que Horikita estava tentando convencer Koenji sem que eu soubesse.

— Enfim, vão embora. Não estou me sentindo bem — disse Koenji, nos dispensando com um gesto.

— Seu desgraçado!

Para impedir um segundo golpe, Hirata se colocou entre os dois.

— Vamos todos nos acalmar. A atitude do Koenji-kun é um problema, mas se ele diz que não está bem, tem direito de descansar. Além disso, violência é errada, em qualquer circunstância — disse Hirata.

— Mas ele tá claramente mentindo! Disse a mesma coisa na ilha! — gritou Sudou.

— Acusação infundada. Minha postura orgulhosa serve apenas para disfarçar minha frágil saúde — respondeu Koenji.

— Então você planeja pular o resto das competições também, né?

— Se eu melhorar, participarei, é claro. Se eu melhorar — repetiu Koenji.

Sudou não conseguia mais conter sua raiva, mas não podíamos ficar ali discutindo para sempre.

— A próxima competição está para começar, Sudou-kun. Você é nosso líder, então sua ausência afeta a moral da equipe — disse Hirata, mudando de abordagem.

— Tá. Eu vou voltar — resmungou Sudou.

— Obrigado — disse Hirata, acompanhando-o para fora. Eu os segui alguns passos depois.

Voltamos para a tenda da Equipe Vermelha, onde Sudou se sentou, ainda claramente irritado.

— Droga! Da próxima vez, eu vou socar aquele idiota de verdade — rosnou.

Sua raiva, ao invés de diminuir, só parecia aumentar. Como diz o ditado, "o homem sábio evita o perigo", então todos começaram a manter distância.

Ike, porém, estava tão focado na corrida das garotas que nem notou a irritação de Sudou. Quando percebi, a prova de 100 metros feminina já estava quase no fim. O último grupo estava entrando na pista.

— O que você tá fazendo, Ken? A garota de quem você gosta vai correr agora, cara! — disse Ike, dando um tapa nas costas de Sudou. Sudou agarrou seu braço e o puxou para uma chave de pescoço.

— Gah! Cara, que porra é essa?!

— Alívio de estresse — disse Sudou.

— Ai, ai, ai! Eu desisto, eu desisto! — gritou Ike.

Era uma cena lamentável, mas descontar a irritação no Ike pareceu ajudar Sudou. Ele começou a se acalmar um pouco. Nesse meio tempo, Horikita entrou na pista para a corrida das meninas do primeiro ano.

— Acho que só de ver a Suzune já me sinto melhor… — disse Sudou.

Se era só isso que precisava para acalmá-lo, eu deixaria que se acalmasse.

Enquanto observava Sudou, Sakura apareceu ao meu lado, completamente sem fôlego.

— Aah… aah…! D-Dói…

Ela devia ter gasto toda a energia que tinha correndo. Respirava fundo, como se estivesse com muita dor.

— V-Você estava me vendo correr, Ayanokoji-kun? — perguntou ela.

Ela levantou o rosto para mim, os olhos brilhando atrás dos óculos. Infelizmente, a corrida da Sakura aconteceu enquanto eu corria atrás do Sudou, então eu não tinha visto absolutamente nada. Se eu dissesse a verdade, certamente ela ficaria muito triste.

— Você foi muito bem — falei.

Minha resposta foi curta, mas carregada de emoção. Uma coisa eu podia afirmar com absoluta certeza: Sakura realmente tinha dado tudo de si.

— O-Obrigada! É a primeira vez que eu não fico em último lugar! — disse ela, radiante.

Nos treinos, Sakura sempre tinha sido a mais lenta de longe. Ao que parecia, ela finalmente tinha vencido alguém — e graças ao próprio esforço, não por erro do adversário.

— Só não se esforce demais. Você pode se machucar — avisei.

— T-Tá bem! — respondeu ela com um sorriso.

Sakura ficou ao meu lado, ainda respirando fundo, observando a próxima prova. Eu me concentrei nas outras garotas que correriam contra Horikita. Na terceira raia estava Ibuki Mio, da Classe C. Horikita estava na mesma Raia que sua rival. Uma coincidência e tanto.

Horikita nem olhou para Ibuki, mas Ibuki exibia uma expressão furiosa, como se faíscas saltassem de seus olhos. Ela estava absolutamente determinada a nunca perder para Horikita.

— Ei, será que a Ibuki-chan é boa em esportes? — especularam alguns garotos.

— Sei lá. Só sei que a Horikita vai ganhar, certeza.

Eles não tinham como saber, mas Ibuki era extremamente atlética. Eu, pessoalmente, não saberia dizer quem venceria.

Quando o sinal soou, sete garotas dispararam à frente. Entre as duas que eu observava, Ibuki largou melhor. A reação de Horikita foi um pouco atrasada, então ela ficou atrás do grupo. No entanto, ela imediatamente acelerou e começou a encurtar a distância para Ibuki. A garota da Classe C parecia distraída — lançou um olhar para trás, talvez curiosa sobre Horikita — e o espaço entre elas diminuiu. Ibuki ficou presa no meio do pelotão, incapaz de abrir vantagem ou perder terreno.

Quando se aproximavam do fim da corrida, a expressão de Ibuki enrijeceu. Ela e Horikita estavam lado a lado, praticamente empatadas. Satisfeita consigo mesma, Horikita conseguiu se adiantar por uma margem mínima.

— Ih… será que ela tá ferrada…? — murmurou Sudou. O pressentimento dele estava certo.

Ibuki acelerou ainda mais, forçando-se a diminuir a distância. Horikita tentou se desvencilhar, mas Ibuki insistiu com ainda mais força. No fim, Horikita cruzou a linha de chegada primeiro. Depois de uma prova tão intensa, a torcida explodiu em aplausos. Eu não ficaria surpreso se os juízes precisassem rever o vídeo para confirmar o resultado.

Ao lado da ofegante Horikita, Ibuki chutou o chão de frustração. Eu tive a sensação de que, se ela não tivesse se preocupado tanto com Horikita durante a corrida, o resultado poderia ter sido outro. Uma pequena brecha na atenção dela foi o suficiente para Horikita vencer.

— As duas deixaram todo mundo comendo poeira — disse Sudou.

Ele ainda mantinha os olhos em Horikita, mesmo depois de ela terminar a prova. Embora Horikita e Ibuki fossem praticamente equivalentes, tirando a Classe D, as outras quatro garotas eram bem lentas.

Quando o 100 metros feminino do primeiro ano terminou, fomos ver os resultados. Pessoas atléticas como Sudou, Horikita e Hirata ficaram em primeiro lugar, como esperado. Mas os alunos medianos, de quem esperávamos um bom desempenho, acabaram não indo tão bem.

— Vamos lá, galera. Se esforcem, pô. Especialmente você! Velocidade é a única coisa de que você se orgulha, né? — disse Sudou.

— É-É, mas aquele Shibata é bom demais, cara…

— Não tem o que fazer. O Shibata-kun é até mais rápido que eu — disse Hirata. Isso era verdade. Eu tinha visto durante os treinos do clube.

Mesmo com um começo razoável, acompanhar a pontuação ficaria mais complicado dali em diante. Não podíamos usar cadernos ou celulares, e embora pudéssemos conversar entre nós sobre os resultados, não sabíamos o que as outras classes planejavam.

Aproximei-me de Horikita, que acabara de voltar.

— Essa foi por pouco — comentei.

— Sim, suponho. Ibuki foi mais rápida do que eu esperava — respondeu Horikita.

Talvez tivesse percebido Ibuki se aproximando, mas Horikita suspirou de alívio.

— Então você falou com o Koenji — falei.

— Quem te contou isso? Bem… parece que não adiantou nada mesmo — disse ela, olhando para o chalé onde Koenji estava. — Eu estava preocupada que ele desistisse das competições, e foi exatamente isso que aconteceu.

— Parece que ele não se importa em chegar à Classe A.

Ele continuaria vadiando enquanto não corresse risco de expulsão. Era decisão dele, e ninguém o faria mudar de ideia. Porém, Horikita não parecia totalmente convencida.

— Talvez, se eu fosse popular como a Kushida, conseguisse fazê-lo ouvir.

— Não sei não. Acho que ele não ouviria nem a Kushida, nem o Hirata — respondi. Além disso, aqueles dois jamais tentariam repreender Koenji. Mesmo sabendo que ele estava claramente mentindo sobre estar doente, não o chamariam de mentiroso na cara.

— Nunca pensei que você fosse desejar ser mais parecida com a Kushida — provoquei.

— Eu nunca odiei ela, nem nada — disse Horikita, percebendo tarde demais que tinha falado demais. — Você não ouviu isso — acrescentou rapidamente.

Com isso, ela se afastou para assistir às corridas do terceiro ano, que começariam logo. Ela estava preocupada com a nossa classe, mas provavelmente também com o irmão. Claro, não era como se o presidente do conselho estudantil se importasse com os sentimentos da irmã mais nova.

O irmão Horikita, correndo no segundo grupo, naturalmente ficou em primeiro lugar.

— Ele é tão rápido quanto eu imaginava — comentei.

— Isso porque meu irmão é perfeito. Não importa o que faça, ele sempre fica em primeiro — disse Horikita. Não era arrogância; ela falava como se fosse um simples fato.

Depois que cada série terminou os 100 metros, somaram-se os pontos. Anunciaram o primeiro resultado parcial entre a Equipe Vermelha e a Equipe Branca.

Equipe Vermelha: 2011 pontos.

Equipe Branca: 1891 pontos.

A competição estava só começando, mas a Equipe Vermelha já tinha uma leve vantagem.

*

 

A próxima prova foi a corrida com barreiras. Ela era parecida com os 100 metros rasos, mas exigia mais do que velocidade. Era preciso ultrapassar barreiras enquanto corria. Se derrubasse ou tocasse uma barreira, o tempo era penalizado. Derrubar custava 0,5 segundo; tocar custava 0,3. Eram dez barreiras ao todo, espaçadas a cada dez metros. Derrubar todas resultaria em cinco segundos adicionais — uma sentença de morte na prova. Por isso, não adiantava correr feito louco; era necessário cuidado.

Sudou participaria no último grupo dessa competição.

— Se algum de vocês ficar em último, eu dou um tapa — avisou ele, de braços cruzados.

Os alunos menos atléticos tremiam sob a pressão.

— Cara, que tipo de tirano você é?

— Ei, hum, o Sotomura-kun está aqui? Se ele estiver ausente, será desclassificado — disse o árbitro na linha de largada.

— L-Lamentavelmente, parece que meu estômago não está bem. Seria possível permitir que eu me ausentasse? — perguntou o Professor. Ele mal tinha conseguido passar as barreiras nos treinos, e parecia claramente tentando fugir.

— Hã? Cara, não tem problema derrubar todas as barreiras! Termine a corrida a qualquer custo! — gritou Sudou, enfiando o rosto perto do Professor e encarando-o de perto.

— É o quê!? T-Tá bem, eu vou! — gritou o Professor.

Havia uma diferença significativa entre chegar em último e ser desclassificado. Se fosse desclassificado, você não ganharia nem um único ponto. Participar era essencial.

No fim, o Professor não conseguiu ultrapassar nenhuma barreira. Derrubou todas e terminou em último lugar.

— Ugh, esse cara é inútil. Fica sentado o dia inteiro, por isso é tão gordo — resmungou Sudou. — Ainda assim, aquele Shibata é bem bom.

Enquanto observava, ele falava como se estivesse nos alertando.

Shibata terminou em primeiro sem dificuldade e parecia ser o principal rival de Sudou. Além disso, assim como Ichinose, possuía qualidades de liderança que faziam os outros se reunirem em torno dele.

— Mas se for um confronto direto, eu vou ganhar — declarou Sudou.

Se Shibata continuasse assim, o objetivo de Sudou — ser o primeiro entre todos os alunos de todas as séries — se tornaria um sonho distante, especialmente porque ninguém sabia como seriam os resultados das competições em equipe. Era preocupante.

— Próximo! Quarto grupo, por favor, preparem-se — anunciou o árbitro.

Fui para a mesma raia de antes e vi Kanzaki na segunda raia.

— Nos encontramos de novo — disse Kanzaki.

— Pega leve comigo — respondi.

— A Ichinose disse que você é bem rápido — comentou ele.

Eu não tinha ideia de onde Ichinose tirara isso. Porém, durante o incidente com o perseguidor da Sakura, ela pode ter me visto correndo. Eu não estava dando meu máximo, mas talvez ela tenha visto o suficiente para julgar. Além disso, ela tinha me observado quando brinquei com ela na piscina. Acho que não havia como evitar chamar a atenção dela ao longo dos eventos e provas.

— Ela exagerou. Você não viu minha colocação nos 100 metros? Fiquei em quinto.

— Sim, mas não me pareceu que você estava levando a corrida a sério — respondeu Kanzaki.

— Não tem vantagem em segurar o ritmo, né? Assim você só perde — retruquei.

— Quando você encara isso como estratégia, não é completamente inútil — disse ele, com naturalidade.

Ao que parecia, Ichinose e a Classe B realmente faziam o dever de casa. Não só sabiam minha colocação, como também compreendiam meu modo de pensar.

— Você é bem calmo para um estudante do ensino médio — acrescentou Kanzaki. — Isso assusta.

— Pode me julgar como quiser.

Um garoto da Classe C passou entre nós, interrompendo a conversa. Exceto por Kanzaki, eu não conhecia ninguém no quarto grupo, então não sabia quão rápidos eram os outros competidores. Se minha colocação subisse um pouco que fosse, poderia ser ruim.

Quando o sinal soou, corri mais ou menos no mesmo ritmo de antes. Kanzaki me ultrapassou, mas como só mais um aluno ficou à minha frente, terminei em um respeitável terceiro lugar. Havia muitas variáveis a considerar, mas, para o bem ou para o mal, consegui manter minha posição discreta. Voltei para o acampamento.

— Aah, poxa… não consigo acompanhar — lamentou Yukimura.

Ele resmungava consigo mesmo, abatido. Pelo jeito, não tinha ido bem em sua segunda prova.

— Tão ruim assim? — perguntei.

— Ayanokoji? Argh, estou amaldiçoado. Sétimo e sétimo — reclamou. Duas vezes em penúltimo… bem difícil.

— Tudo depende da sua mentalidade, Yukimura. Mesmo que você falhe aqui, pode arrasar nas provas escritas, certo? — falei.

— Eu não vou falhar, mas minhas notas vão despencar. Além disso, vou prejudicar minha classe e meu time — disse Yukimura.

Como Yukimura queria chegar à Classe A mais do que qualquer um, ele também sentia o peso da responsabilidade com mais intensidade. E, por normalmente criticar alunos com baixo desempenho acadêmico, como Sudou, provavelmente detestava mostrar qualquer fraqueza ali.

Eu não queria dizer nada errado, então decidi deixá-lo em paz e foquei nas corridas femininas de barreiras. Duas pessoas que eu conhecia participariam da primeira bateria: Horikita e Sakura. Horikita, que esperava vencer, não parecia sentir pressão alguma. Por outro lado — e por mais cruel que fosse admitir — não tínhamos expectativa nenhuma sobre Sakura. Ela tremia visivelmente.

— Ei, hum, Horikita-san. Essa combinação não é muito boa, você não acha? — disse Hirata.

— Mesmo? — respondeu Horikita.

Hirata, que sabia muito sobre as outras classes, compartilhou sua preocupação ao ver a distribuição dos grupos. A competição estava prestes a começar.

— As alunas mais rápidas da Classe C são Yajima-san e Kinoshita-san, do clube de atletismo. As duas estão no seu grupo — explicou Hirata.

— Entendo.

No evento de estreia, os 100 metros rasos, Horikita havia conseguido vencer após uma dura disputa contra Ibuki, mas ao que parecia seus desafios ainda não haviam acabado.

— Vencer pode ser difícil — concluiu Hirata.

E ele estava certo. Horikita deu tudo o que tinha, mas as duas garotas da Classe C dispararam à frente, e ela terminou em terceiro lugar. Quando a prova terminou, Hirata olhou para mim. Eu percebi sua preocupação com a forma como o grupo de Horikita tinha sido formado.

*

 

A próxima competição era captura a bandeira. Embora simples, ainda era um evento intenso e levemente perigoso.

— Certo! A gente vai ganhar essa, pessoal. Como aquele idiota do Koenji não tá aqui, temos que ficar ainda mais animados! — berrou Sudou.

Ele tentava incentivar os caras das Classes A e D reunidos à sua frente. Do outro lado estavam os alunos da Classe B, liderados por Kanzaki e Shibata, e os da Classe C, liderados por Ryuen. Havia alguns alunos da Classe C com aparência particularmente intimidadora, embora não os conhecêssemos. Entre eles estavam Sakazaki e Komiya, dois que haviam se envolvido naquela briga com Sudou um tempo atrás. Também havia um estudante grande e musculoso, mestiço de japonês com negro, chamado Yamada. Eu já o tinha visto pela escola algumas vezes e me perguntava o quão forte ele realmente era.

Bom, independentemente do número de participantes, só nos restava lutar com tudo que tínhamos. De acordo com as regras, o grupo que capturasse duas vezes venceria. Durante a discussão anterior, Katsuragi e Hirata decidiram que nossas classes alternariam entre ataque e defesa. Dividir os times fixamente entre ofensiva e defensiva seria arriscado demais. Assim, seria mais fácil entender e cooperar.

A Classe D começaria atacando, enquanto a Classe A protegeria a bandeira. Se conseguíssemos uma vantagem inicial, continuaríamos priorizando manter esse ritmo e seguiríamos nos mesmos papéis.

— Relaxa. Eu acabo com todos os inimigos sozinho — disse Sudou.

— Ué, mas você não devia ir atrás da bandeira? — comecei a ficar preocupado.

— Não prometo nada. Tô puto por causa do Koenji. Grr — rosnou Sudou.

Ele mostrou o dedo para o outro time sem nem tentar disfarçar a hostilidade.

— Melhor eu ficar longe — murmurou Ike. Ele e os outros se afastaram de Sudou, com medo de se envolver. Achei sábio da parte deles.

A equipe ofensiva (principalmente o próprio Sudou) esperava impaciente pelo apito inicial, prontos para avançar. Já a equipe defensiva — formada por Katsuragi e os demais — conferiu sua formação várias vezes, garantindo uma defesa sólida.

Violência explícita, como socos e chutes, era naturalmente proibida. Porém, a escola fechava os olhos para certo grau de contato físico. Empurrões e agarrões eram esperados.

— Ugh. Tô começando a ficar com medo. É a primeira vez que eu jogo captura a bandeira.

— Espera. Você nunca jogou isso no festival esportivo do fundamental?

— Ninguém me disse que ia ser perigoso! Você já jogou isso antes, Ayanokoji?

— Não. Também é a primeira vez — respondi.

— Como assim, véi? Primeira vez pra você também?!

Enquanto continuávamos nossa conversa inútil, o sinal tocou. Sudou disparou para frente antes de todo mundo. Logo depois, os jogadores mais ousados o seguiram.

— Cara, isso vai dar ruim! Vamos, Ayanokoji! Não quero que o Sudou me mate achando que eu tô fugindo! — choramingou Ike.

Os menos agressivos eram Ike, Yukimura e eu. Avançamos lentamente atrás dos outros.

Assim como nós, os grupos das Classes B e C também haviam dividido suas forças entre ataque e defesa. Para eles, cooperar era bem mais difícil. Parecia que a Classe B estava defendendo a bandeira na primeira rodada. Eles nos aguardavam mais à frente.

Era proibido a equipe atacante entrar em contato com os atacantes adversários. As regras diziam que a ofensiva tinha que se concentrar ao máximo em alcançar a bandeira.

— Quem quiser morrer, vem pra cima! — rugiu Sudou ao mergulhar direto na linha defensiva inimiga. Aproveitando sua altura e uma força difícil de acreditar para um aluno do primeiro ano, ele derrubou um defensor após o outro em volta da bandeira.

— Parem ele! Segurem o Sudou! — gritou alguém da Classe B. Vários alunos cercaram Sudou.

— Ei, vocês! Venham logo! Eu abro caminho! — berrou Sudou, sem nem olhar para trás enquanto gritava instruções para seus aliados que se aproximavam.

Claro, não era tão simples. Com a situação ficando cada vez mais caótica, os jogadores erguiam poeira, deixando o ar turvo. O campo estava virando um campo de batalha. Decidi me tornar o mais inútil e inofensivo possível e contei com os alunos da Classe B para resolverem as coisas.

— Droga! Quantos de vocês vão vir pra cima de mim?!

Três ou quatro caras empurraram Sudou ao mesmo tempo, conseguindo dominá-lo. Nosso avanço foi cortado bem quando estávamos prestes a romper a defesa. O problema da Classe D era que, apesar da força e do poder ofensivo de Sudou, ninguém mais era particularmente forte. Os alunos menos agressivos, como o Professor e eu, inevitavelmente virávamos um ponto fraco. Em contraste, muitos alunos da Classe B tinham força acima da média.

— Cara, isso tá ruim, Ken! Classe A! Aquele cara mestiço, o Yamada, sei lá, tá destruindo tudo!

— O quê?!

Sudou se virou para olhar. A bandeira do Time Vermelho, protegida pela Classe A, estava inclinada. A Classe C era cheia de gente violenta como Sudou. Na verdade, eram quase artistas marciais. Nossas defesas provavelmente pareciam fáceis de quebrar para eles. Ficava claro quem tinha vantagem. Se Ryuen ordenasse que nos atacassem, acabaríamos lutando como se nossas vidas dependessem disso.

Precisávamos fazer algo. Mas quatro ou cinco pessoas bloqueavam Sudou — nosso jogador crucial — o deixando totalmente incapaz de reagir. Ficamos completamente travados. Sudou se esforçou desesperadamente para correr até a bandeira, mas, infelizmente, o apito soou. Eu só podia admirar sua tenacidade ao tentar enfrentar todos ao mesmo tempo. No fim, o Time Branco conseguiu o primeiro ponto.

— Ah, qual é! O que vocês estão fazendo?! Lutem como se suas vidas dependessem disso! — gritou Sudou.

Enquanto encarava a bandeira derrubada, ele despejou sua raiva sobre o resto da Classe D, já que não conseguimos montar um ataque eficaz.

— Cara, você gritar isso não ajuda. É que… aqueles caras são realmente fortes, sabe? Ai! Eu me ralei todo.

— É só um arranhão! Aguenta firme e vira homem. Não quero saber como: morde, chuta o joelho deles, faz qualquer coisa, mas reage! Vocês são inúteis! — esbravejou Sudou.

Eu entendia como ele se sentia, mas qualquer uma daquelas ações poderia ser considerada falta — e uma forma de ser expulso de uma vez só.

— Não adianta reclamar. Eles venceram a primeira rodada. Da próxima vez, vamos garantir que nossa bandeira esteja bem protegida — disse Hirata, dando um tapinha gentil no ombro de Sudou.

— Tsc. Beleza, dessa vez a gente vai proteger essa bandeira de qualquer jeito. Certo, pessoal?!

— S-Sim, pode deixar. Vamos fazer o que der.

— Não é "fazer o que der". Nós VAMOS proteger, entendido? Mesmo que seja por uma hora… ou duas!

A Classe D também carecia de coisas como união e motivação. Isso me incluía, claro, mas a maioria realmente não tinha ambição. Enquanto isso, a Classe B era completamente unida. Os alunos eram altamente motivados, tornando-se inimigos formidáveis.

— Ayanokoji, não deixa a bandeira cair nem que você morra! Mesmo que seja brincadeira, você ainda é o número dois da classe! — disse Sudou.

Aparentemente, ficar logo abaixo de Sudou em termos de força significava que eu tinha que proteger a bandeira ao lado dele. Não dava para relaxar com ele me observando.

— Certo, nada de brincadeira! Não podemos deixar eles vencerem de novo! Eu vou mandar aquele idiota do Ryuen pelos ares!

Na primeira rodada, Ryuen havia ficado no time de ataque. No entanto, apenas ficou observando, provavelmente porque o time já estava dominando. Sudou provavelmente odiava isso.

— Certo. Venham atacar, Classe C. Venham atacar a gente, C… — murmurou Sudou.

Ele podia desejar o quanto quisesse, mas se a Classe C se reunisse e lançasse um ataque completo, seria um problema sério. Seria melhor para nós se a Classe B fosse para o ataque. A segunda rodada estava prestes a começar.

E então, claro…

— Eles tão vindo! Tão vindo, tão vindo!

Aparentemente, tudo estava acontecendo exatamente como Sudou queria — embora isso fosse um pouco surpreendente para mim. Os poderosos alunos da Classe C se prepararam para lançar o ataque, com Ryuen rindo sem medo lá atrás. Como um general comandando tropas, ele deu a ordem assim que o sinal soou. Um simples "derrubem" saiu de seus lábios, e seus soldados aterrorizados avançaram contra nós.

Alunos tão grandes e musculosos quanto Sudou avançaram de frente. Os alunos da Classe D gritaram. Nossa parede externa de defesa desmoronava rapidamente.

— Firmes! Agarrem as pernas deles e puxem para baixo!

Os rugidos furiosos de nossos oponentes abafavam as palavras de encorajamento de Sudou.

Os alunos da Classe C repetidamente usavam golpes com o cotovelo, quase faltas. Em praticamente nenhum tempo, romperam até o centro. Katsuragi, da Classe A, também havia avançado até quase tocar na bandeira deles, mas eu não sabia se chegaria a tempo.

— Gah!

Ouvi um grito agonizante de Sudou, que segurava a bandeira já inclinada. O mestiço Yamada havia se aproximado. Sua massa física superava em muito a de Sudou. A bandeira que devíamos proteger já estava visivelmente torta.

— Quem foi o desgraçado que me socou no estômago?!

No caos, alguém o atacara diretamente. Pelo tom de sua voz, irritada e dolorida, provavelmente não tinha sido apenas uma vez ou duas. Mas não havia nada que Sudou pudesse fazer. Com a bandeira nas mãos, só podia aguentar e se encolher como uma tartaruga no casco.

— Ai… Droga… Isso dói, seus desgraçados!

A Classe C, no entanto, não mostrava sinais de parar. Sudou caiu de joelhos de dor. Eu admirava seu espírito de luta, tentando proteger a bandeira até o fim. Então, alguém pisou em suas costas com toda a força. Era como se o agressor quisesse afirmar dominância, como um rei.

— Gah?!

Foi um golpe baixo e cruel, mesmo num jogo tão caótico. Naturalmente, o autor só podia ser Ryuen.

— S-Seu desgraçado! Urgh!

Ryuen pressionou de novo, impiedoso, com tanta força que temi que pudesse quebrar a coluna de Sudou. Quando Sudou caiu, a bandeira perdeu o suporte, levantando poeira ao atingir o chão. Num piscar de olhos, tudo acabou.

Ainda caído, Sudou lançou um olhar de ódio para Ryuen.

— S-Seu… Isso foi falta!

— Hm? Ah, não tinha te visto — respondeu Ryuen, pegando a bandeira sem hesitar. Sudou tentou avançar, mas não conseguia se levantar por causa da dor. A coalizão das Classes D e A havia sofrido uma grande derrota.

— Ei, suas costas estão bem?

— Ugh… Acho que sim, de alguma forma. Droga! Droga, droga! — A raiva de Sudou por ter sido vítima de uma falta parecia maior que a dor. Ele não conseguia se conter. — Aquele desgraçado! Da próxima vez que eu encontrar ele, vou deitar ele no chão!

— Você só vai arrumar outro escândalo. Quer repetir o que aconteceu da última vez? — perguntei. Eu me referia ao dia em que Sudou brigou com alunos da Classe C e quase foi expulso. Se começasse uma briga agora, seria punido.

— Então é OK quando ele faz, mas não quando eu faço?! Olha pras minhas costas! — rugiu Sudou.

— Eu entendo, mas eles provavelmente vão alegar que aconteceu no calor do momento — respondi.

Ryuen e Sudou queriam fazer o mesmo tipo de coisa, mas havia uma diferença esmagadora no método. Dessa vez, tudo ocorreu durante a competição, com todos embolados e cobertos de poeira. Ele tinha sido esperto na execução.

— Argh, tô com tanta raiva! E eu que tava planejando ganhar todas as provas! — gritou Sudou.

Os alunos da Classe A ouviram isso, e alguns lançaram olhares hostis. Katsuragi os impediu antes que retrucassem.

— Peço desculpas por não termos sido de muita utilidade — disse ele.

— Não, eu que devo pedir desculpas. Foi porque não conseguimos proteger a bandeira. Vamos fazer nosso melhor no próximo jogo — respondeu Hirata.

Só Katsuragi e Hirata aceitaram calmamente o resultado do evento. Por ora, nos dispersamos e voltamos às nossas tendas.

*

 

Sem tempo para descansar, os garotos do primeiro ano se prepararam para o cabo de guerra. Enquanto isso, as garotas do primeiro ano avançavam em bom ritmo na prova de arremesso de bolas. As competições em equipe continuavam. Eu não tinha prestado muita atenção no começo, mas a ordem das provas era bem cansativa. Exigia muito de nós.

— Qual será a diferença de pontos entre os times agora? — perguntou Sudou.

— Não sei. As coisas só começaram. Não adianta pensar nisso ainda — respondi.

— É, talvez. Mas perder é perder. Eles tão um passo na nossa frente, né? — Sudou balançava as pernas, inquieto enquanto observava a prova das garotas, incapaz de aceitar que havíamos perdido. — Tomara que pelo menos as meninas ganhem essa.

Como estávamos um pouco longe, não conseguíamos ver claramente como o arremesso de bolas terminaria. Parecia uma disputa acirrada. Logo depois, a prova terminou, e o professor responsável contou os pontos enquanto recolhia as bolas.

— Com cinquenta e quatro pontos no total, o Time Vermelho vence.

As garotas tinham compensado o resultado decepcionante dos garotos no capture the flag. Nosso alívio durou pouco, pois o árbitro nos chamou para o cabo de guerra.

— Beleza, vamos nessa! — disse Sudou.

— Ei, suas costas tão bem, Ken? — perguntou Ike.

— Tô suave. Sou mais resistente que a maioria, então tô de boa. Além disso, mesmo que doa, não tem nada que eu possa fazer, então não é problema — disse Sudou.

Mesmo preocupados, Sudou se mantinha firme. As regras do cabo de guerra eram extremamente simples. Exatamente como no capture the flag, o primeiro time a conseguir dois pontos vencia.

— Se a gente virar o jogo no cabo de guerra, dá pra recuperar as competições em grupo. Além disso, no cabo de guerra não tem contato físico. Isso obriga os dois lados a dependerem só da própria força. Não deve virar aquela briga ridícula de antes — disse Hirata.

Hirata sempre pensava no clima ao redor. Sudou parecia satisfeito.

— É, tem razão. É por isso mesmo que não podemos perder — disse Sudou.

Era um teste puro de força; nossa potência e estratégia contra a deles. Quem sairia vitorioso? As quatro classes se reuniram e se dividiram em dois grupos, lado esquerdo e direito. Katsuragi se aproximou de Hirata e sussurrou algo no ouvido dele.

— Certo. Igual combinamos, vamos usar a nossa estratégia para derrotar eles de uma vez só. Tudo bem? — perguntou Katsuragi.

— Sim. Entendido. Certo, pessoal, em posição — disse Hirata.

Tínhamos elaborado uma estratégia sob a liderança deles, como no capture the flag. Após ouvir as instruções de Hirata, a Classe D se separou e tomou posição no campo. A estratégia era simples: "alinhem-se por ordem de altura". Assim, a força seria aplicada de forma uniforme. O outro time veria isso, mas mesmo que tentassem copiar, não conseguiriam se organizar por altura tão rápido.

No entanto, a coalizão D/A enfrentava outro problema.

Ao contrário dos garotos da Classe D, metade dos garotos da Classe A não se mexia.

— Ei, Katsuragi-kun, para de mandar na gente — disse um dos garotos.

— O que quer dizer com isso, Hashimoto? — perguntou Katsuragi.

Hashimoto deu um passo à frente. Um cara alto, de expressão distante, cabelo longo jogado para trás. O rosto parecia gentil, mas os olhos eram frios e cínicos.

— Exatamente o que eu disse. A culpa de a Classe A estar em má fase agora é sua. Tem certeza de que essa estratégia vai nos fazer ganhar? — perguntou Hashimoto.

Hashimoto estava desafiando o próprio líder, e era óbvio que não estava agindo sozinho. O timing era estranho demais. Enquanto a Classe A se concentrava em Katsuragi e Hashimoto, eu olhei de volta para o acampamento, procurando por Sakayanagi. Desde o início, ela observava tudo com um sorriso fino. Mesmo à distância, dava para ver claramente que ela percebia a briga entre os garotos. Isso só podia significar uma coisa:

Ela tinha provocado tudo aquilo.

Provavelmente pretendia fazer o que fosse necessário para destruir seu opositor, Katsuragi. Sua conduta era perturbadora, mas de forma diferente da de Ryuen. Pessoalmente, eu achava ineficiente.

— E então, Katsuragi-kun? A gente pode mesmo vencer? — perguntou Hashimoto.

Apesar de ter sido traído, Katsuragi não demonstrou pânico.

— Estamos perturbando a Classe D. Devemos prosseguir com calma — respondeu ele.

— Isso não é uma resposta.

Katsuragi tentou acalmar os ânimos, mas a metade da Classe A que seguia Hashimoto não mostrava nenhum sinal de obediência.

— Ei, o Katsuragi-san mandou vocês fazerem uma coisa. Anda logo! Chega de passar vergonha! — gritou Yahiko, do grupo de Katsuragi, empurrando a corda para um dos rebeldes.

— Entendo as dúvidas que vocês possam ter sobre minha liderança. Mas, se perdermos por causa de brigas inúteis, não será por falta de cooperação ou habilidade. Será culpa da Sakayanagi. É isso que vocês querem? — perguntou Katsuragi.

— Você é mesmo cego, hein, Katsuragi-kun? — zombou Hashimoto.

O árbitro se aproximou, prestes a nos advertir. Hashimoto pegou a corda e assumiu sua posição.

— Vamos nessa? Como você disse, seria bem irritante se fizéssemos parecer que não estamos cooperando.

Por ora, o conflito interno da Classe A parecia ter se acalmado. Nos posicionamos.

— Caramba, esses caras da Classe A são sangue quente mesmo, hein?

— Tô muito, muito preocupado agora. Vai ver eles são tudo uns nerds mirrados, no fim das contas.

Até Sudou tinha percebido que a briga interna da Classe A era perigosa. De qualquer forma, todos seguiram as ordens de Katsuragi e Hirata e se alinharam por altura. Sudou, o mais forte, ficou na ponta de trás.

Do outro lado, o grupo B/C não parecia cooperar, dividido claramente por classe. A Classe B ficou na frente da corda, mas escolheu uma estratégia oposta à nossa: colocar os mais altos na dianteira. A Classe C se posicionou de forma completamente aleatória, então eu imaginava que a formação deles acabaria se desmanchando. Havia alguns alunos fortes lá atrás, mas parecia tudo uma bagunça.

— Heh! A Classe B botou os grandões tudo na frente. Não entenderam nada mesmo, né? — zombou Sudou.

— Não diria isso. Quando você puxa a corda, estar elevado é vantajoso — explicou Hirata.

Sem cooperação entre as classes, a Classe B tentava tirar vantagem da própria formação.

— Mesmo assim, isso não muda o fato de que estamos na vantagem. Bora, pessoal! — gritou Sudou.

O sinal tocou, e puxamos a corda imediatamente.

— E puxa! E puxa!

A coalizão D/A trabalhou com grande vigor, gritando o comando tradicional do cabo de guerra. No começo, os dois lados pareciam equilibrados, mas após alguns segundos, o jogo começou a pender para o nosso lado.

— Vai, vai, vai! Moleza!

Logo ouvimos o sinal indicando o fim da rodada e que o time D/A havia marcado um ponto.

— Aí sim! Viram isso?! Bem feito! — uivou Sudou.

Em resposta, os garotos da Classe B confrontaram a Classe C, nitidamente irritados.

— Ei, vai ser péssimo se a gente não cooperar, sabia? Esses caras são fortes pra caramba — disse Shibata a Ryuen.

Mas Ryuen o ignorou.

— Certo, hora de mudar as coisas. Formem com os mais baixos na frente — ordenou ele à Classe C.

Ele claramente não pretendia levar em conta a opinião da Classe B. Deu ordens à Classe C, reorganizando-os em ordem de altura. Agora formávamos um arco perfeito.

Shibata balançou a cabeça, gritou palavras de incentivo à própria classe e agarrou a corda novamente.

— A gente consegue. Com eles alinhados desse jeito, não tem como vencerem — disse Sudou.

— Não podemos afirmar isso com certeza. Todos, mantenham a guarda alta. A próxima rodada não será como a primeira — alertou Katsuragi.

— Por quê? Foi uma vitória fácil, cara. Olha só, eles nem tão alinhando por altura, como nós — disse Ike.

Ike soltou uma gargalhada, tirando sarro da situação enquanto segurava a corda. Katsuragi tentou falar mais uma vez, mas o intervalo entre as rodadas acabou, e a segunda começou.

O sinal ecoou.

— E puxem! E puxem!

A coalizão D/A puxou, exatamente como antes. No entanto, ao enfrentar uma resistência muito maior, nosso grupo começou a entrar em pânico. Não importava o quanto puxávamos — a corda não se movia. A ansiedade começou a crescer.

— Ei, é bom vocês aguentarem firme. Se perderem aqui, eu mato vocês — ameaçou Ryuen.

Sentimos uma onda de força absurda vindo do lado adversário, puxando-nos para a linha deles. Não era possível que isso fosse apenas resultado das palavras de Ryuen. A formação em forma de arco que adotaram parecia lhes dar mais alavancagem.

— Gah! Ai! Aiiiii!

Ouvi os gritos de dor de Ike e dos outros na retaguarda. Eu também puxava com tudo, mas a resistência era incomparável à da primeira rodada. Agora, o cabo de guerra estava equilibrado. Talvez a diferença na força de vontade estivesse decidindo o resultado. A coalizão D/A foi arrastada pouco a pouco, até perdermos. Tínhamos dominado o primeiro round, então alguns alunos culparam nossos próprios companheiros.

— Mas que diabos? Por que foi diferente dessa vez?! Ei, alguém tá segurando força aí?! — alunos da nossa equipe começaram a se virar uns contra os outros.

Katsuragi se adiantou imediatamente.

— Acalmem-se. Perdemos porque eles usaram a formação correta para nos derrotar. Claro, provavelmente alguns aqui ficaram confiantes demais após o primeiro round. Entendam: mesmo que o trabalho em equipe deles seja uma bagunça, eles ainda podem lutar. Preparem-se, concentrem-se e verifiquem suas posições. E, quando puxarem, façam isso em ângulo.

Ele nos deu um leve sermão, boas orientações e instruções para retornarmos às posições. Ele fazia o máximo possível no pouco tempo disponível. Enquanto isso, do outro lado, mesmo sem cooperação geral entre as classes, cada turma trabalhava unida internamente. A Classe B assumia a linha de frente, totalmente focada em puxar, enquanto a Classe C ficava atrás, pronta para agir assim que Ryuen desse ordem.

— Certo, vocês foram razoavelmente bem. Só precisamos repetir isso mais uma vez. Aqueles lixos acham que podem ganhar. Vamos ensinar alguma coisa a eles — disse Ryuen.

Eu já deveria esperar que conseguissem, mesmo sem instruções detalhadas.

Quando ambos os lados ficaram prontos, começou o terceiro e decisivo round.

— E puxem! E puxem! Puxem!

Como antes, nada foi decidido imediatamente. A bandeira branca presa à corda tremulava sobre a linha central, sem sair do lugar.

— Continuem firme, pessoal! A vitória é nossa! — gritou Sudou. Suas palavras elevaram o moral, e puxamos em uníssono.

— E puxem! E puxem!

A bandeira branca começou a se mover levemente em direção ao lado da coalizão D/A. Por mais fortes que fossem, não venceriam só com força bruta.

— Nada de moleza! Vamos, mais um puxão! Puuuuuuxaaaa! — berrou Sudou, liberando sua força final.

E essa acabou sendo nossa ruína.

De repente, a resistência absurda desapareceu, e todos nós caímos para trás. Inclusive Sudou. Demoraram alguns segundos para entender o que tinha acontecido. Ainda no chão, muitos começaram a gritar uns com os outros.

O time adversário havia soltado a corda.

— Ei, que porra é essa? Não brinquem com a gente! — Alguns alunos da Classe B também caíram, claramente pegos de surpresa. Logo, todos direcionaram sua fúria a Ryuen e seu grupo.

— Decidi dar uma pausa. Achei que não dava pra ganhar — disse Ryuen. Então tinham desistido? Ele virou-se para nós e sorriu, zombeteiro. — Bom pra vocês. Conseguiram uma vitória inútil. Hilário ver vocês engatinhando no chão.

Mesmo derrotado, Ryuen ria, satisfeito.

— Idiota!

As atitudes deles tornavam quase impossível dizer quem era o verdadeiro vencedor ali. Sudou se levantou e avançou contra Ryuen, ainda furioso pelo incidente no capture the flag. Porém, Katsuragi — que estava perto de mim — agarrou Sudou pelos braços e o deteve rapidamente.

— Pare, Sudou. Isso faz parte do plano de Ryuen. Ele quer que gastemos energia. Talvez também queira nos provocar a ponto de causar violência, para que sejamos punidos por falta.

— Mas—

— O que fizeram foi antiesportivo, mas não violou nenhuma regra — disse Katsuragi.

Não era à toa que Katsuragi estava na Classe A. Seu controle era impecável. Ryuen virou as costas, provavelmente percebendo que provocar mais seria inútil.

— Certo, levantem! — gritou ele. Os garotos da Classe C se colocaram de pé imediatamente. Imagino que a Classe B também tivesse inúmeras reclamações.

— Parece que tivemos sorte. Ainda bem que não precisamos tentar cooperar com a Classe C — disse Katsuragi, dando um tapinha no ombro de Sudou.

— Cara… A gente ganhou, mas nem parece que ganhamos. Merda — resmungou Sudou.

Eu entendia como ele se sentia. Finalmente vencemos uma competição em equipe, mas Ryuen estragou tudo. Longe de comemorarmos, estávamos todos carrancudos. Com o cabo de guerra encerrado, voltamos para as tendas.

No caminho, Katsuragi se aproximou de Hirata e pediu desculpas em voz baixa.

— Sinto muito pelo que aconteceu antes. Não consegui liderar minha classe.

— Ah, por favor, não se preocupe. Nós é que baixamos a guarda na segunda rodada. Certo? — Hirata olhou para mim, e eu apenas assenti.

— A situação tá feia na Classe A, hein?

— É.

Katsuragi não acrescentou mais nada. Só dava para afirmar que ele parecia estar em uma posição bem complicada. Enquanto isso, Sudou já tinha mudado o foco para a próxima prova.

— A próxima é a corrida de obstáculos. Se alguém for mal, vou deixar estirado no chão — disse Sudou.

— Urgh. Por que você tem que bater na gente?

— Porque eu sou o líder. Tenho que meter pressão no pessoal sob meu comando. É um trabalho difícil — respondeu Sudou.

Ninguém queria esse tipo de líder, mas também não era fácil contrariar Sudou.

— Só para saber… que resultado você considera decepcionante?

— Não é óbvio, cara? Não aceito nada menos que a vitória!

— Qualé!

*

 

— Hah… hah… Corri até o fim e ainda fiquei só em sexto! O K-Ken ainda não correu, né? Puh… — Ike caiu de joelhos, ofegante, provavelmente apavorado com a reação de Sudou. — Você acha que ele ficaria, tipo, em quarto lugar ou algo assim?

Entendi a preocupação do Ike. Se Sudou não vencesse a própria Raia com certeza descontaria isso no grupo.

— Que lugar você conseguiu, Ayanokoji? Vai receber a pena de morte do Sudou?

— Consegui ficar em terceiro, por pouco.

— Ah, não. Sério? Cara, fomos salvos pelo sorteio — lamentou Ike.

Ele entrava no jogo de Sudou de novo. Evitar a raiva de Sudou realmente parecia trabalhoso. Por isso, coloquei um pouco mais de esforço na corrida.

— Parece que o Sudou-kun vai correr contra o Shibata-kun.

— É…

Shibata fazia um aquecimento leve enquanto aguardava sua vez. Sudou teria um adversário difícil.

— Hã?! Espera — os outros dois são o Nomura e o Suzuki! Cara, que sorte desgraçada!

Ike ficou realmente frustrado com o sorteio favorável a Sudou. Os dois alunos da Classe C eram conhecidos por serem especialmente ruins em esportes. Os dois da Classe A também não eram bons. A vitória de Sudou era quase garantida.

Mas Shibata era diferente. Diziam que ele era o mais rápido da Classe B — e ele vinha batalhando para manter o primeiro lugar. Nas duas últimas provas, ele venceu ambas.

— Quem você acha que vai ganhar? — perguntei a Hirata, que conhecia bem Shibata.

— Não sei, sinceramente. Shibata-kun é bem rápido, então não perde fácil. Se fosse apenas corrida pura, talvez ele ganhasse. Mas o Sudou-kun lidou bem com todos os obstáculos nos treinos. Deve ser uma disputa incrível.

Sabendo das habilidades de ambos, Hirata não tinha certeza. Sudou, por outro lado, acreditava que era impossível perder. Espero que o orgulho dele não atrapalhe.

A corrida começou.

Os dois largaram bem. Seguiam lado a lado até o primeiro obstáculo: o tronco de equilíbrio. Embora Sudou fosse alto e forte, cruzou o tronco estreito mais rápido que todos. Seu equilíbrio era impressionante. Shibata veio logo atrás, um pouco mais lento, mas também passou sem problemas.

Após uma pequena corrida, entraram no trecho de rastejar sob a rede. Sudou avançava como um animal selvagem. Shibata o seguia, com um sorriso divertido. O último obstáculo era a corrida de saco. Os competidores entraram nos sacos e começaram a pular. Sudou passou com uma agilidade surpreendente para seu porte, mas Shibata vinha diminuindo a diferença.

— Essa é a disputa mais intensa do dia — comentou Hirata.

Parecia que a força física dos dois era equivalente, então tentavam mudar a estratégia. Shibata mantinha o ritmo; Sudou acelerava pela primeira vez, ouvindo os passos de Shibata se aproximando. Mesmo assim, Sudou se manteve na liderança e cruzou a linha primeiro. Mas estava exausto, claramente ofegante.

Eles eram equilibrados em velocidade. Como Hirata dissera, em corrida pura talvez Shibata fosse superior. Sudou não era invencível; dependia da prova e do momento.

Ainda assim, Sudou havia conquistado o primeiro lugar três vezes seguidas. Era, sem dúvida, um dos melhores atletas da escola.

Sudou voltou triunfante e encarou o encolhido Ike.

— Ei. Tava te olhando, Kanji! Que merda foi aquela? Sexto lugar?!

— Wha!, você quase não ficou em primeiro agora! Somos praticamente iguais! — choramingou Ike.

Essa igualdade só existia na cabeça dele. Sudou torceu os braços de Ike para trás, aplicando um golpe de imobilização.

— Phew. Primeiro lugar outra vez. Mas aquele Shibata é rápido demais. Ainda bem que consegui vencer — disse Sudou.

Shibata cair para segundo depois de ganhar duas vezes era ótimo para Sudou, que queria ser o melhor de todo o primeiro ano.

*

 

Não tivemos tempo para descansar — precisávamos nos preparar para a corrida de três pernas. Enquanto isso, as coisas estavam complicando para as meninas do primeiro ano na prova de obstáculos. Horikita fazia o possível para compensar seus resultados anteriores, mas duas alunas da Classe C abriram vantagem logo no início.

— Já vi isso acontecer antes.

— Parece que ela caiu no mesmo grupo da Yajima-san e da Kinoshita-san de novo.

Horikita era excelente academicamente e atlética, mas vencer alguém especialista em uma dessas áreas não era fácil. Assim que a prova começou, Kinoshita disparou em direção ao tronco de equilíbrio. Chegou primeiro e abriu boa vantagem. Yajima ficou em segundo. Horikita em terceiro.

Diferente da corrida de 100 metros ou das barreiras, que dependiam só de velocidade e resistência, o percurso de obstáculos tinha muitas variáveis. Depois do tronco, a distância entre as participantes diminuiu até ficarem praticamente lado a lado.

— Parece que ela tem chance.

Sudou torcia por Horikita, cerrando os punhos.

Quando chegaram ao trecho de rastejar sob a rede, Horikita assumiu a liderança. Mas Kinoshita era rápida. Entre os obstáculos, encurtava a distância e se mantinha firme em segundo.

Yajima não pretendia abrir mão do primeiro lugar. Horikita deu tudo de si para tentar alcançar. Quando Kinoshita desequilibrou no último obstáculo, a corrida de saco, Horikita aproveitou, reduziu a distância e a ultrapassou. Então correu o mais rápido que pôde. A diferença entre ela e Kinoshita era de apenas um ou dois segundos.

Horikita correu na velocidade máxima pelos últimos cinquenta metros da corrida. No entanto, devia estar preocupada com Kinoshita se aproximando, porque olhava repetidamente por cima do ombro. Isso fez sua velocidade cair e, logo, as duas voltaram a ficar lado a lado. De repente, Horikita, que tentava ultrapassar Kinoshita, e Kinoshita, que tentava alcançá-la, acabaram se enroscando e caíram.

— Uoa! Ei, aconteceu algo grande ali!

Eu estava longe demais para ver quem havia trombado em quem. Parecia ter sido parte da disputa acirrada. Enquanto tentavam se levantar, outros alunos passaram por elas, e Horikita e Kinoshita despencaram para o fim da classificação. Ambas lutaram desesperadamente para se pôr de pé no meio de uma nuvem de poeira.

Apesar de continuarem, o incidente as afetou. No fim, Horikita terminou em um inacreditável sétimo lugar. Kinoshita ficou em último, devido à dor intensa na perna que a impediu de continuar correndo. Ela devia estar profundamente frustrada, já que esperava chegar em primeiro.

Horikita tinha ficado em primeiro, depois em terceiro, e agora em sétimo. Só nos restava dizer que fora um infeliz acidente.

…………

— O que foi, Ayanokoji-kun?

— Se um "acidente" acontecer de novo, vai ser difícil acreditar — respondi. Era a primeira vez que eu mencionava isso.

— Você também acha? Diria que os outros já estão começando a perceber. Isso não é um bom sinal — disse Hirata.

Infelizmente, ele estava completamente certo.

— Me pergunto se outros alunos notaram. Posso deixar com você a tarefa de cuidar do pessoal? — perguntei.

— Claro. Esse é meu papel, afinal. Mas não há nada que possamos fazer?

— Queria que houvesse.

Foi um alívio ver Hirata aceitar a tarefa sem nenhum sinal de desgosto. Fui até Horikita, que estava com uma expressão sombria. Sua postura deixava claro o quanto estava desanimada.

— Está doendo? — perguntei.

— Um pouco. Mas não vai afetar a competição. Se eu descansar, vou ficar bem.

Ela tentou parecer forte, mas estava com dificuldade até para permanecer sentada. Preparando-me para levar um golpe, toquei levemente o machucado.

— Ai!

— Isso não vai afetar a competição, é?

— Não encosta em mim do nada. Me deixa em paz. Eu vou aguentar — disse Horikita.

Carregar tanta responsabilidade podia ser difícil. Especialmente para alguém como ela, que tinha orgulho em apresentar resultados.

— Bem, suponho que você não ganhe pontos se desistir. Entendo por que quer continuar.

Eu esperava que ela me lançasse um olhar mortal por cutucar o assunto, mas ela mudou de tema.

— Mais importante, aquela garota é sorrateira. Foi como se estivesse tentando me machucar.

— Como assim?

— Enquanto corria atrás de mim, ficou chamando meu nome várias vezes.

Então foi por isso que Horikita olhou para trás tantas vezes durante a corrida.

— Achei estranho, é claro. Assim que virei para olhar, nós trombamos. Parecia um acidente, mas, se foi, então por que ela estava chamando meu nome? Eu queria comentar sobre isso.

Havia uma boa chance de ser um ataque proposital para fazer Horikita cair.

— Sinceramente, não estou conseguindo lidar com isso. Pensar que ainda estamos na metade… — ela murmurou.

Ela era a terceira aluna a se machucar. Um estudante do segundo ano havia caído durante a corrida e precisou desistir por causa da dor, mas aquilo ao menos parecia um incidente isolado entre os veteranos.

— Enfim — disse Horikita. — Não se preocupe comigo. Preocupe-se com você. Seus resultados estão piores que os meus, não é? — No momento, ela tinha trinta pontos. Eu, vinte e sete.

— Vou fazer o que puder. Mas não se esforce demais, certo?

— Vou participar, nem que tenha que rastejar — disse Horikita.

A deixei e comecei a me preparar para a próxima prova, a corrida de três pernas.

— Como Horikita-san está? — perguntou Hirata, com voz preocupada.

— Bem séria. Provavelmente vai afetar outras provas — respondi.

— Isso é ruim — disse ele.

Continuamos conversando enquanto ele amarrava nossas pernas para a corrida masculina de três pernas do primeiro ano. As provas aconteciam uma logo após a outra. Era uma execução incrível por parte da escola, organizada de forma tão eficiente quanto um programa de televisão ao vivo.

Como a corrida de três pernas exigia duas pessoas por equipe, apenas quatro duplas podiam correr por vez. Sudou, que estava no grupo antes do nosso, já se posicionava para começar. Ele estava ao lado de Ike, ainda claramente reprimindo muita raiva acumulada. A dupla parecia arriscada, mas, com o método certo, poderiam vencer.

De certa forma, essa era a corrida de três pernas definitiva. Sudou disparou pela pista usando toda a sua força, praticamente carregando Ike junto. Ele parecia feroz e determinado desde o primeiro passo.

— Aaaahhh! — Ike gritava de dor. Quase beirava a falta, mas ainda dentro das regras. Eles garantiram o primeiro lugar, com Sudou sustentando Ike para que ele não desabasse.

— Sudou-kun pode ser incrivelmente confiável, não pode? — comentou Hirata.

Eu sentia pena de Sudou por terem colocado Ike como seu parceiro, mas ele provavelmente estava satisfeito com o resultado.

— É, sem dúvida. Mas, se quisermos vencer, o Sudou sozinho não é suficiente — respondi. Se ele perdesse o controle, poderia se tornar uma espada de dois gumes.

— Certo, somos os próximos — disse Hirata.

Iniciamos a corrida. Felizmente, não havia ninguém notável concorrendo contra nós. Como éramos parceiros bastante compatíveis, terminamos em primeiro lugar. Ninguém poderia reclamar.

— Uooo! O Hirata-kun é tão incrível! — gritaram algumas meninas.

Era doloroso ouvir todas torcendo apenas por Hirata.

Depois veio a corrida feminina de três pernas do primeiro ano. Horikita, que aprendera a ceder, e Kushida, sempre disposta a ceder, estavam juntas na segunda Raia. Era hora de mostrar os resultados do treino.

As duas quase não conversavam. A relação entre elas era péssima, mas talvez o desejo de vencer as aproximasse. Para mim, eram uma dupla realmente estranha. Para o resto da Classe D, provavelmente pareciam uma equipe segura e confiável.

Começaram bem, pegando o segundo lugar. Nada mal. O público começou a vibrar.

— Vai, Suzune! — Sudou se empolgou e gritou o primeiro nome ainda proibido de Horikita. Sua voz provavelmente não chegou até ela, então ele devia estar seguro.

Porém, Horikita e Kushida diminuíram o ritmo e caíram na classificação. Quando percebemos, duas garotas da Classe A assumiram o primeiro lugar. Eram belas jovens com a mesma aura altiva de Horikita. A dupla da Classe C, com Yajima, ficou em segundo.

— Tem algo estranho — murmurei.

— Hã? O que é? — perguntou Sudou, que torcia com tudo por Horikita.

— Bem, os movimentos da Horikita parecem rígidos.

— Agora que você falou… parecem mesmo — disse Sudou.

Nos treinos, Horikita sempre puxava sua parceira. Mas, na prova, era Kushida quem estava liderando. A princípio, pensei que fosse por causa da parceira diferente. Mas, como imaginei, a dor na perna estava afetando Horikita.

Ela se esforçava desesperadamente para acompanhar, mas seu corpo não tinha condições. A distância entre o primeiro e o segundo lugar começou a aumentar, em vez de diminuir. Em último vinham as meninas da Classe B. Horikita e Kushida mudaram para a próxima faixa para não perderem ainda mais.

Estariam tentando atrapalhar a Classe B?

A Classe B tentou persistentemente ultrapassar, mas não conseguiu, já que se movia à mesma velocidade que Horikita e Kushida. A plateia vibrava com aquela disputa pelo terceiro lugar. Focar demais em bloquear a Classe B fez com que Horikita e Kushida baixassem a guarda por um instante — e isso deu à Classe B a chance de virar o jogo.

— Aaaah, que decepção!

Elas deram o melhor de si, mas Horikita e Kushida terminaram em último. Nossa vitória estava, mais uma vez, completamente fora de alcance.

*

 

Tínhamos um intervalo de dez minutos, então as pessoas foram ao banheiro ou beberam água. Horikita disse que iria à enfermaria buscar uma compressa e seguiu em direção ao prédio da escola. Era melhor do que nada, suponho.

Eu não fui a lugar nenhum. Em vez disso, permaneci observando as outras classes. Era possível obter vários tipos de informação apenas olhando de longe. A Classe A era especialmente interessante, como eu já suspeitava.

A rivalidade entre Katsuragi e Sakayanagi era visível mesmo de onde eu estava. As duas facções eram tão óbvias que praticamente não havia contato entre elas. Não era estranho existir dois líderes em uma classe — mesmo na nossa, Hirata era o representante, mas ainda tínhamos Karuizawa, Kushida e, no festival esportivo, Sudou liderando. Apesar de nossas turbulências, a Classe D não estava fraturada por conflitos internos como a Classe A. Não tínhamos visto isso em exames anteriores, mas a hostilidade explícita deles estava bem clara durante o festival.

— Impressionante que tenham chegado tão longe com tanta discórdia interna — comentei.

A facção de Sakayanagi era maior. Quando Hirata voltou de lavar as mãos, decidi fazer uma pergunta.

— Que tipo de aluna é a Sakayanagi?

— Então você também está curioso sobre ela, Ayanokoji-kun?

— Bem, sim. Fiquei curioso quando ouvi que ela rivaliza com Katsuragi como líder.

Eu não entendia a mentalidade de Sakayanagi, seu modo de agir. Durante o festival, ela não dera uma única ordem, permanecendo em silêncio. Ainda assim, parecia estar tramando algo para atrapalhar Katsuragi. Não demonstrava interesse em enfrentar outras classes; seu foco era apenas a Classe A. Parecia até disposta a perder pontos, desde que isso prejudicasse Katsuragi.

Claro, havia a possibilidade de que ela estivesse fomentando aquela hostilidade para poder dominar a classe depois. Contudo, aquilo lembrava a frase "o inimigo do meu inimigo é meu amigo". Esperava-se que houvesse cooperação para derrotar as outras classes.

— Ela é muito educada, boa com as pessoas e madura. Nunca achei nada estranho nela. Alunos de outras classes provavelmente pensam o mesmo, mas parece que a Classe A discorda. Já ouvi dizerem que Sakayanagi é agressiva e implacável — explicou Hirata.

Mas não podíamos simplesmente aceitar a palavra dos rivais como verdade absoluta. Nem sequer tínhamos conversado com ela. Além disso, por causa de suas limitações físicas, seria difícil ela interferir diretamente no festival. Talvez não tivesse intenção de agir abertamente.

— Acho que não precisamos nos preocupar com a Classe A agora. Somos aliados aqui, afinal.

— É, isso é verdade.

Pelo menos, era improvável que estivessem tramando algo contra nós. Nada indicava isso até então.

Por outro lado, eu não ficaria surpreso se a Classe C estivesse planejando nos prejudicar. Olhei para o acampamento deles e vi alguns alunos reunidos em volta de Ryuen, como súditos diante de um rei.

No momento, a estratégia dele era a mais estranha. Mesmo no festival esportivo, ele tentava causar dano psicológico, algo que perdurasse. Sudou, em particular, vinha sofrendo com as táticas de Ryuen e estava profundamente abalado. Eu tinha certeza de que Ryuen ainda tinha mais truques preparados.

Por fim, me perguntei como a Classe B estava lidando com tudo. Trabalhar lado a lado com a Classe C, sabendo que havia a possibilidade real de traição, e enfrentar a Classe A, um oponente formidável, devia ser tenso. Ichinose e os demais, sempre alegres e justos, estavam dando tudo de si. À primeira vista, não pareciam ter mudado em nada. Pelos seus sorrisos e gestos descontraídos, pareciam realmente aproveitar o festival.

*

 

Após o breve intervalo, as disputas passaram a ocorrer em ordem reversa. Era hora da batalha em cavalaria das meninas do primeiro ano. As equipes começaram a se reunir no centro do campo. Seria mais um confronto entre as coalizões D/A e B/C.

A batalha em cavalaria tinha tempo limitado, com regras iguais às dos meninos: pontos eram concedidos com base no número de unidades inimigas derrotadas em três minutos e na quantidade de unidades aliadas que permaneciam de pé. Cada unidade tinha quatro alunos e um "cavaleiro".

Quatro alunos de cada classe eram cavaleiros, o que significava um combate de oito contra oito. Alunas extras eram reservas, para substituir quem fosse necessário. Cada cavaleiro valia cinquenta pontos. Uma de cada classe era o "general", valendo cem pontos. Era possível pontuar mesmo sem derrubar o inimigo — bastava capturar sua faixa de cabeça. Com um guerreiro particularmente forte, era possível faturar 400 ou 500 pontos de uma vez.

Horikita havia sido escolhida como cavaleira da Classe D. Ishizaki, Komiya e Kondou a apoiavam. Não eram maus. Mori, Kushida e Karuizawa eram as outras cavaleiras.

O problema era que a unidade de Mori era composta por alunas pouco atléticas. Havia grandes chances de serem as primeiras a cair. A estratégia delas era colocar a cavaleira fraca como general, para que ficasse fora da linha de frente enquanto as outras três a protegiam. Talvez estivessem planejando um contra-ataque se o inimigo investisse contra elas?

Quando o sinal soou, as unidades das Classes B e C começaram a se aproximar silenciosamente das Classes A e D. Não surpreendentemente, Ibuki estava furiosa. Como cavaleira, deu uma ordem e avançou direto em direção a Horikita. Mas Ibuki não era a única.

— E-Ei, que diabos é isso?! — gritou Ike ao assistir a disputa. Sudou cerrou os dentes.

A Classe C não se deu ao trabalho de atacar a Classe A. Também não prestaram atenção ao general da Classe D, nem aos outros cavaleiros. Horikita era seu único alvo.

Quatro unidades avançaram contra ela. O plano era esmagar nossas cavaleiras uma por uma? Ou queriam apenas derrotar Horikita? Com Ryuen no comando, qualquer uma das opções era possível. As cavaleiras da Classe D estavam em desvantagem numérica, mas a Classe A não demonstrou qualquer intenção de ajudar. Talvez pretendesse usar-nos como isca e, depois que estivéssemos acabados, avançar para pegar os pontos.

— Eles tão indo só atrás da Horikita, não é, cara?!

— Droga. Aposto que foi ordem do Ryuen. Canalha! — rosnou Sudou.

— Não há nada que possamos fazer. Todo mundo sabe que a Horikita é a melhor jogadora da Classe D neste festival.

A tática de Ryuen não era ruim. Em guerra ou competição, a melhor aposta era derrubar o líder da equipe inimiga.

Karuizawa e sua equipe foram as primeiras a correr para o resgate de Horikita. Shinohara correu em apoio a Karuizawa. No entanto, a general da Classe B, Ichinose, bloqueou seu caminho. Diferente da Classe A, a Classe B estava apoiando ativamente sua equipe aliada. Agora, as duas unidades estavam prestes a colidir: Karuizawa contra Ichinose.

A unidade de Karuizawa atacou primeiro. Suponho que isso fosse inevitável, considerando que precisavam resolver aquela situação o mais rápido possível para poder ajudar Horikita.

Infelizmente, as três garotas que davam suporte a Karuizawa não eram exatamente atléticas. A unidade delas havia sido formada mais para ficarem juntas do que por estratégia. Péssima tática. Enquanto isso, a unidade de Ichinose contava com algumas das melhores e mais capazes alunas da Classe B. Sem demonstrar medo, a Classe B esquivou-se do ataque.

Ichinose partiu para um ataque direto, mas seus movimentos não eram tão afiados. Karuizawa conseguiu reagir bem e lançar um contra-ataque. Era um duelo entre união e mobilidade, e parecia que iria se arrastar por um tempo.

— Cara, esse jogo tá incrível!

A plateia vibrou. No momento em que o grupo de Karuizawa se moveu, uma das faixas de cabeça foi arrancada. Como eu havia previsto, era a da Horikita.

Quatro cavaleiras haviam atacado ela ao mesmo tempo. Incapaz de evitar o assalto implacável, Horikita foi derrotada. Caiu dramaticamente de sua unidade, tombou no chão e tentou se levantar, frustrada. No entanto, não havia motivo para se envergonhar. Em uma situação daquelas, nem mesmo Sudou teria vencido. A Classe A e sua falta de defesa eram responsáveis pela derrota dela.

De qualquer forma, aquilo encerrava o assunto. A perda de Horikita desencadeou uma batalha campal. A Classe D, agora com uma cavaleira a menos e sendo perseguida pela Classe B, perdeu qualquer vestígio de organização num piscar de olhos. Algumas jogadoras caíram dos cavalos, enquanto outras tiveram suas faixas arrancadas.

As duas cavaleiras restantes, além de Karuizawa, tentaram resistir, mas foi inútil. Karuizawa, que lutava ferozmente contra Ichinose, acabou por um instante numa luta de oito contra um. Ainda assim, no finalzinho, conseguiu arrancar a faixa de uma cavaleira da Classe B graças à sua determinação quase suicida. Por isso, o confronto terminou com um nocaute mútuo.

Apesar de terem perdido uma cavaleira, as Classes B e C avançaram contra as unidades restantes da Classe A e as eliminaram completamente. Nossos oponentes haviam perdido apenas duas cavaleiras no total, enquanto a coalizão A/D sofrera uma grande derrota.

Horikita voltou ao acampamento rangendo os dentes de frustração. Sudou falou com ela imediatamente.

— Ei, não se preocupa. Era impossível. Além disso, a culpa é dos outros por serem tão lentos — disse Sudou.

— Isso não muda o fato de que eu perdi. O ímpeto deles me dominou completamente — respondeu Horikita.

A Classe C havia mirado quase exclusivamente na Horikita. Sob aquelas circunstâncias, nenhuma cavaleira teria tido chance.

— Deixa comigo. Eu vou me vingar delas por você — disse Sudou, tentando parecer descolado.

Normalmente, suas palavras não teriam impacto nenhum sobre Horikita. Porém, naquele momento de fragilidade, elas pareceram ressoar.

— Eu não esperaria menos de você — respondeu ela, seca.

— Certo! Vamos lá, pessoal! — gritou Sudou.

A batalha de cavalaria masculina começou. Eu assumi a posição de cavalo à direita da unidade. Sudou ficou bem no centro, e Miyake à esquerda. Hirata era nosso cavaleiro. Assim nasceu a unidade mais forte da classe — um verdadeiro guerreiro sem igual, capaz de vencer mesmo que nossos aliados caíssem.

— Ei, Hirata. Se concentra em não deixar arrancarem sua faixa e não cair, beleza? — disse Sudou.

— Então vamos usar aquela estratégia, hein? — perguntou Hirata.

— É porque a gente perdeu feio na capture the flag. Foi vergonhoso. Desta vez, não vamos ter dó de ninguém — respondeu Sudou.

Eu não via a expressão de Sudou, mas ele devia estar sorrindo. Provavelmente planejavam destruir a concorrência usando a estratégia que haviam repetido diversas vezes durante as aulas.

— Eu tive uma ideia, se vocês não se importarem. Enquanto assistia à partida das meninas, pensei em um jeito de vencer. Já contei ao Katsuragi-kun. A gente não pode continuar perdendo desse jeito — disse Hirata.

Quando o sinal tocou, Hirata deu a ordem. Os cavaleiros da Classe D juntaram-se aos da Classe A. Formamos uma massa única de pessoas, as duas classes praticamente indistinguíveis. Embora a Classe A tivesse basicamente nos abandonado na partida feminina, não estavam torcendo contra nós.

O general da Classe C, Ryuen, riu sem medo. Ele não suportava cooperar e, por isso, recorria a comandar os outros de forma rude.

Sob as ordens de Katsuragi, oito cavaleiros da coalizão D/A avançaram contra o inimigo.

— Mira na cabeça daquele desgraçado do Ryuen! Raaah! Vamos mandar ele voando!

Num piscar de olhos, o cavalo de Hirata — Sudou — disparou na frente em velocidade máxima. Um cavaleiro da Classe B tentou bloquear o caminho.

No entanto, Sudou investiu contra o inimigo com toda a força, desequilibrando-o.

— Sai da minha frente! — rugiu.

— Uwaahh!

Incapaz de competir com o físico superior de Sudou ou de revidar, o inimigo simplesmente desabou, cavaleiro e tudo.

— E aí, gostou dessa?!

Como uma fera selvagem, Sudou olhou para o inimigo caído e depois se virou para sua próxima presa. Normalmente, empurrar alguém seria considerado falta. Porém, a escola havia dito que as regras dessa batalha eram um pouco diferentes. Nossa ofensiva inicial inspirou medo no outro time, fazendo-os hesitar.

Era uma estratégia impossível sem a força e a atitude necessárias para sustentá-la. No entanto, ela tinha suas desvantagens. Se derrubássemos um cavaleiro, isso contaria como autoderrota, não como roubo de faixa. Aqueles cinquenta pontos simplesmente evaporariam. Ainda assim, focar apenas em roubar faixas seria arriscado.

Sudou claramente adorava essa estratégia, mas não podíamos baixar a guarda. Havia um general forte na Classe B, cuja unidade era composta por Kanzaki e Shibata. E havia também Ryuen, que cavalgava sobre caras fortes e musculosos.

A coalizão D/A não venceria enquanto não derrubasse esses dois, mas Ryuen era difícil de ler.

— Sudou-kun, vamos derrotar os inimigos ao nosso redor primeiro e deixar o Ryuen-kun por último.

— Hã? Ah, qualé, que chato. Vamos direto na cabeça do general! — disse Sudou.

Eu entendia o que ele queria dizer por trás daqueles gritos animalescos, mas a muralha diante de Ryuen era densa.

— Se agirmos por emoção, vamos cair na armadilha dele. Vamos fazer o necessário para vencer — disse Hirata.

— Tch!

Dois cavaleiros da Classe C avançaram contra nós. Apesar de seu rancor contra Ryuen por tê-lo humilhado, Sudou ouviu Hirata. Eu realmente admirava a capacidade de Hirata de controlar o cara.

— Tá bom, tá bom. Vamos acabar com esses caras!

Precisávamos de foco e sangue-frio. Durante a capture the flag, o poder do inimigo havia nos dominado, mas desta vez a situação era diferente.

Sudou derrotou três cavaleiros inimigos com facilidade. Mantendo o ímpeto, Katsuragi e outros alunos da Classe A conseguiram derrubar a unidade de Shibata e Kanzaki, apesar de perderem três de seus próprios jogadores. Ryuen era o único inimigo restante. As unidades de Hirata e Katsuragi ainda estavam de pé, e mais um cavaleiro da Classe D permanecia. Tínhamos uma chance.

— Isso! Agora é três contra um, né? Ganho garantido!

Ao cercarmos Ryuen, Katsuragi e Hirata trocaram olhares. Os outros cavaleiros mantiveram certa distância, mas ainda miravam em Ryuen. Pelo fato de ele ter conseguido roubar uma faixa, percebi o quão poderosa sua unidade era. Mesmo assim, tínhamos vantagem numérica.

No entanto, Ryuen não demonstrou pânico. Pelo contrário — parecia estar se divertindo. Não mostrava fraqueza, tampouco parecia derrotado.

Se Hirata e Katsuragi atacassem ao mesmo tempo, um deles poderia arrancar a faixa de Ryuen, mesmo que isso significasse sacrificar o outro. Nesse caso, nossa vitória estaria praticamente garantida. Aquele era o momento de finalizar. Porém, Ryuen era habilidoso demais em encontrar brechas na defesa inimiga.

— Ah, lembro do seu nome. Sudou. Quando pisei em você mais cedo, pareceu doer bastante — zombou Ryuen.

— É, continua falando. Vou te devolver o favor — rosnou Sudou.

— Você fala grande para um simples animal de carga. Admito, é uma sensação boa olhar para você de cima — provocou Ryuen.

— Heh. Só porque tá montado aí em cima não quer dizer que você é grande coisa — rebateu Sudou.

— Oh? Acho que tudo isso é inútil, a menos que resolvamos isso um contra um — disse Ryuen.

— Hã?

— Se você só consegue me vencer quando são dois contra um, então não há valor algum nisso. "Vencer" só significa algo quando você derrota alguém sozinho. Mas será que você aguenta? Ou vai tentar me derrotar com um ataque em pinça? — provocou Ryuen.

— Que diabos?!

— Sudou-kun, não escute. É uma péssima ideia. Vamos cooperar com Katsuragi-kun — alertou Hirata.

— Você é que não entende — disse Sudou, dirigindo-se a Ryuen.

— Não, você é que não entende, Sudou. Você só derrubou quem entrou no seu caminho usando métodos covardes. Nunca seria capaz de derrotar meus subordinados de confiança de frente — vangloriou-se Ryuen. Alguns de seus cavaleiros pertenciam ao clube de basquete — os mesmos que haviam causado a briga com Sudou.

— Para de falar besteira. Aqueles caras são lixo e fraco, não aguentam nem brigar — retrucou Sudou.

— Palavras fortes, sem nada por trás. Se é tão forte assim, enfrente-me um contra um. Se conseguir me vencer, eu me ajoelho diante de você — disse Ryuen.

— Feito. Não esquece do que falou, Ryuen! E você ouviu, Katsuragi? Nem pense em se meter! — gritou Sudou.

— Do que está falando? Não podemos desperdiçar essa chance. Devemos usar um ataque em pinça para derrotá-lo — disse Katsuragi.

— Se você se meter, eu destruo a sua unidade! — rosnou Sudou. Ele havia mordido a isca de Ryuen inteira. Ryuen sabia exatamente o quão cabeça-quente Sudou era e tirou proveito disso.

— Está realmente decidido a lutar um contra um, Sudou-kun? Certo. Se vai fazer isso, então vença — disse Hirata. Ele compreendia que, uma vez que o interruptor de Sudou fosse acionado, nada mais o deteria. Insistir seria inútil; Hirata só pôde permitir a luta.

— Certo. Hirata, garante que não roubem a sua faixa! — ordenou Sudou.

Com uma expressão amarga, Katsuragi observou a batalha enquanto Sudou avançava, colidindo com o inimigo. Porém, os cavaleiros deles não caíram. A força deles era praticamente igual à nossa. O cavalo que sustentava Ryuen no centro era o mestiço Yamada Albert. Sua força era incrível, assim como diziam os rumores.

Sudou estalou a língua, irritado com o impasse. Miyake e eu, que apoiávamos Hirata pelos lados, não conseguíamos exercer a mesma força que Sudou. Se Sudou tivesse dez "cavalos de força", nós dois teríamos talvez metade disso. Mas, na unidade de Ryuen, Yamada provavelmente tinha nove ou dez. Os outros também eram quase tão fortes — sete ou oito, talvez.

— Vamos lá, então. Ou vocês vão perder para o meu Albert? — provocou Ryuen, chamando-nos para o ataque. Ele vinha tendo sorte com seus adversários desde o começo e havia ficado em primeiro em todas as competições. Atleticamente falando, ele não era azarão. Observava nossos movimentos enquanto desviava com facilidade da mão estendida de Hirata.

Enquanto dava suporte a Hirata, acompanhei sua luta contra Ryuen o melhor que pude. Pelo que via, estavam quase equilibrados. Porém, Ryuen atacava apenas com palavras, sem desperdiçar energia em ataques físicos. Ele economizava esforços — para cada três ataques de Hirata, ele respondia com um. Aquela era apenas a metade da batalha para ele; estava preservando energia para enfrentar a unidade de Katsuragi, que aguardava. Claramente, ele não achava possível perder agora.

Nesse caso, precisávamos agir no primeiro brecha. Se pressionássemos sem parar, Hirata teria sua chance.

— Ainda nada, Hirata? — Sudou parecia aflito, sendo o único a suportar a maioria dos golpes.

— Só mais um pouco! — disse Hirata, fingindo um movimento antes de lançar um ataque. Quando Ryuen tentou se esquivar, Hirata agarrou sua faixa — mas só conseguiu pegar a ponta.

Hirata tentou puxá-la com todas as forças. Não conseguiu arrancá-la, e a faixa escorregou de sua mão.

— Hã?!

— Qual foi, Hirata?! Pega logo! Eu tô gastando toda a minha força aqui! — gritou Sudou.

— Desculpa! Minha mão escorregou!

Ofegante, Sudou lançou outro ataque. Ryuen o encarou sem medo. Hirata, que até então só atacara, começava a ficar cansado.

— O que foi? Isso é tudo?

— Argh! Desculpa, Sudou-kun! Recuem por agora! — pediu Hirata.

Criamos distância entre nós e Ryuen. Estávamos exaustos, ao contrário de Ryuen, que mal havia se movido. Ele provavelmente guardava energia para enfrentar Katsuragi após nos derrotar. Sudou, respirando com dificuldade, reposicionou-se.

— A próxima tem que ser a última, Hirata… Arranca de vez! — disse Sudou.

— Entendido. Vou dar tudo de mim! — Hirata respirou fundo e se concentrou.

— Toma essa! — gritou Sudou.

Sudou reuniu suas últimas forças e investiu contra o inimigo, mas eles continuaram firmes. Mais uma vez, os cavaleiros se chocaram. Porém, Hirata arriscou — partiu do pressuposto de que Ryuen não contra-atacaria e estendeu o braço, deixando-se vulnerável. E o risco valeu a pena.

— Consegui!

A mira de Hirata foi certeira. Novamente, ele agarrou a faixa de Ryuen… mas ela escorregou de novo.

— O quê?!

Ryuen aproveitou a surpresa de Hirata. Estendeu o braço, agarrou firmemente a faixa de Hirata e a arrancou sem esforço. Ao perceber que havíamos perdido, Sudou caiu de joelhos, derrubando Hirata junto.

Ryuen ergueu a faixa de Hirata bem alto. Em seguida, um árbitro se aproximou e mandou que deixássemos o campo.

— Droga! — Sudou, feroz, lançou um olhar mortal para Ryuen. Se Sudou não se movesse logo, não sabíamos qual punição viria. Eu o empurrei, guiando-o para fora do campo.

— Patético — zombou Ryuen.

Ainda era cedo para aceitar derrota. Katsuragi, o sobrevivente da Classe A, avançou contra Ryuen com uma expressão determinada. Ele deu ordens ao seu cavaleiro, Yahiko, enquanto reforçava sua defesa. Agora que Sudou havia saído, a unidade de Katsuragi juntou-se ao cavaleiro restante da Classe D para tentar um ataque dois contra um. Porém, quando agarraram a faixa de Ryuen, o resultado foi o mesmo: não conseguiram arrancá-la.

No fim, Yahiko e outro cavaleiro da Classe D perderam suas faixas. Mesmo movendo-se o mínimo possível, Ryuen demonstrou força incrível e resistiu até o fim.

Ao ouvirmos o sinal marcando o fim da partida, Ryuen tirou sua própria faixa e a girou no ar, celebrando sua vitória. Aquilo era mais uma provocação — outra parte de sua estratégia.

— Droga, ele é o único cara pra quem eu não queria perder! Presta atenção, Hirata! — A frustração de Sudou estava no auge, especialmente contra seu atual inimigo, Ryuen. Eu quase esperava que ele surtasse e destruísse tudo ao redor.

— Desculpa, Sudou-kun. A faixa dele estava estranhamente molhada, eu não consegui puxar — disse Hirata. — No começo achei que fosse suor, mas tinha algo estranho.

Ele nos mostrou as mãos. Quando toquei a ponta de seus dedos, vi um líquido transparente, levemente pegajoso, brilhando neles.

— Isso não é suor — eu disse.

Sudou tocou para confirmar.

— Espera… Isso significa… Aquele desgraçado! — Ele avançou para confrontar Ryuen. — Isso é falta! Você passou alguma coisa na sua faixa!

— Não faço ideia do que está falando. Se tem algo na minha faixa, deve ser só gel de cabelo. Não seja mau perdedor — repreendeu Ryuen, sem demonstrar um pingo de medo.

Talvez ele tivesse conseguido limpar a faixa enquanto exibia sua vitória, ou talvez a tivesse esfregado no chão. De qualquer forma, a faixa apenas parecia suja. As evidências haviam sumido.

— Sudou, vamos acabar causando confusão. Vamos voltar para a tenda — eu disse.

O árbitro nos lançou um olhar duro. Não tínhamos como provar que Ryuen havia passado algo na faixa. Na verdade, ele provavelmente usou gel de cabelo. Qualquer outra substância seria arriscada demais, quase uma trapaça explícita. Ele não era burro.

— Sabe de uma coisa? A culpa também é sua, Ayanokoji! Você devia dar mais suporte! — rosnou Sudou.

Mesmo depois de voltarmos à tenda, Sudou não se acalmou. Eu me mantive distante para deixá-lo esfriar a cabeça. Karuizawa chamou Hirata e a mim.

— Isso não é ruim pra gente, Kiyotaka? — ela perguntou.

— O que é? Espera… Por que você usou meu nome? — perguntei.

— Ué? Eu chamo o Yousuke-kun pelo primeiro nome, então resolvi tentar usar o seu também — respondeu ela.

Então por que ela tinha dispensado o honorífico no meu caso? Estaria sugerindo que eu era inferior ao Hirata? Provavelmente não valia a pena pensar demais nisso, então decidi ignorar.

— De qualquer forma, quero falar sobre a Horikita-san. Ela não anda mal? Até na batalha de cavalaria ela estava em péssimo estado. Tentei oferecer apoio, mas foi um desastre completo — disse Karuizawa.

— É — respondi.

Horikita estava mal, e não só nas competições em equipe. Suas classificações tinham caído drasticamente em todos os eventos. O motivo era claro: a queda durante o percurso de obstáculos tinha machucado sua perna direita. Normalmente recomendaríamos que ela desistisse, mas se o fizesse, a Classe D seria penalizada.

— Eu não acho que seja culpa dela. As oponentes eram fortes demais — disse Karuizawa.

Verdade. Horikita enfrentara adversárias difíceis todas as vezes. Se ela continuava competindo contra estudantes que eram as melhores em seus respectivos clubes…

Era coincidência demais.

— Não adianta. Estão mirando nela — eu disse.

— Mirando? Então não é acidente ela sempre ter que enfrentar essas atletas incríveis?

— É a única explicação. Você sabe o quanto ela é atlética, certo?

Horikita não era ruim em esportes; o problema era que todas as suas oponentes eram ainda melhores. Ao ficar repetidamente entre as últimas colocações, ela chamou atenção tanto de inimigos quanto de aliados. Cada vez mais pessoas a encaravam como alvo, e ela havia sido seu principal objetivo na batalha de cavalaria. Só havia uma pessoa capaz de ordenar tudo isso: o homem que agia como um rei lá no campo inimigo, Ryuen Kakeru. Só ele priorizaria humilhar Horikita a guiar a Classe C à vitória.

— Ele está definitivamente assediando ela — eu disse.

— Alguém está assediando a Horikita? Mas por quê? — perguntou Karuizawa.

— Não é só ela. Eles parecem saber todas as nossas estratégias e a composição das nossas equipes. Mandaram alunos fracos contra nossos atletas mais fortes, como Sudou e Onodera, e colocaram alunos medianos contra nossos piores, como Sotomura, Yukimura e Ike. Não percebe? Estamos sendo manipulados.

Por "eles", é claro, eu me referia aos alunos da Classe C.

— Então informações da nossa classe vazaram? Alguém enviou nossa tabela de participação?

— Sim. Entregaram tudo ao Ryuen — respondi.

— Isso é… Bom, na verdade, a Horikita sempre enfrentava a Yajima-san e a Kinoshita-san. Isso tem a ver com o traidor de quem você falou? — perguntou Karuizawa.

Eu assenti levemente. Ela finalmente entendia a gravidade da situação.

— Mas, espera, como você descobriu? Sinceramente, não me surpreenderia se você simplesmente dissesse que era o traidor ou algo assim… Quer dizer, não é isso que está dizendo, né?

— Infelizmente, não — respondi.

Deixando a questão de "quem" de lado por ora, o importante era que o traidor havia vazado nossas informações. Ryuen sabia tudo, desde a ordem dos eventos planejados por Hirata até nossas estratégias. Com isso, ele preparou duas contramedidas.

Primeiro, colocou seus alunos mais fracos contra nossos atletas fortes, como Sudou e Hirata. Depois usou seus alunos mais atléticos contra nossos completamente inaptos, como Ike e Yamauchi. Assim, garantia vitórias fáceis. Nós tentamos prever isso ao montar os pares, mas a Classe C só precisava esperar para nos ultrapassar gradualmente.

Segundo, Ryuen estava mirando Horikita. Mas isso nada tinha a ver com garantir a vitória de sua classe. Era pessoal. Ele queria destruí-la. E, de fato, ela havia sido destruída. Perdera completamente o prestígio. Se fizéssemos um ranking apenas da Classe D, Horikita estaria no fundo do poço.

Essas estratégias revelavam muito sobre Ryuen Kakeru. Ele poderia ter alternado seus jogadores para esconder seus planos, mas preferiu nos deixar perceber. Ele queria nos provocar.

— Então você não vai ajudar ela? — perguntou Karuizawa.

— Como eu faria isso?

— Bom… Eu não sei — ela admitiu.

— A tabela de participação já está definida. Não há nada que eu possa fazer.

— Você está dizendo que a Classe D vai perder?

— Acho que sim.

— Não existe nada que possamos fazer?

— Pergunte ao Hirata sobre isso.

— Isso é… bem, acho que é verdade. Mas… eu pensei que, se falasse com você, você pensaria em algo.

O festival esportivo estava acontecendo às claras. Assim, não havia muitas oportunidades para trapaças, como na ilha. Seria uma tarefa hercúlea enganar toda a escola. Nossas duas opções eram lutar de forma justa, enfrentando diretamente pessoas como Ichinose e Katsuragi, ou usar táticas covardes correndo riscos enormes.

Ryuen só cometia essas faltas depois de ensaiar cuidadosamente e treinar bastante. Quase todos os resultados já estavam definidos antes mesmo do festival começar.

— O que você acha da Horikita?

— O quê? Eu não gosto dela. Vive se achando superior — respondeu Karuizawa.

— Mas você está preocupada com ela.

— Bem… talvez eu meio que entenda pelo que ela está passando.

Karuizawa conhecia bem a amargura e a dor de ser alvo de bullying. Nesse sentido, conseguia se identificar com Horikita.

— A Classe D está em último lugar agora, né? Não tem como vencermos? — perguntou Karuizawa.

— Não se preocupe. Tudo até agora tem acontecido conforme o planejado — respondi

— Eu sabia. Você pensou em alguma coisa. Então, como a gente vence isso?

— Vencer? Eu não tenho intenção de vencer. O importante agora é não fazer nada.

— Hã? — A boca de Karuizawa ficou aberta de espanto.

— Apenas faça o melhor que puder no festival. Se fizer isso, vai nos ajudar depois.

— Espera, o que você—?

Enquanto eu buscava um jeito de escapar das perguntas incessantes, ouvimos um rugido furioso:

— Eu juro que vou acabar com aquele desgraçado!

Sudou, cheio de agressividade demoníaca, avançava em direção à Classe C. Todas as provocações de Ryuen — desde pisar em Sudou até mirar em Horikita — pareciam finalmente surtir efeito.

Hirata interceptou Sudou.

— Eu entendo o que você está dizendo, Sudou-kun, mas precisa se acalmar. Você sabe o que vai acontecer se partir pra agressão contra o Ryuen-kun.

Sudou o empurrou.

— Cala a boca! É ele quem devia se desculpar! Não fez nada além de trapacear!

— Ok, sim, eu acho que ele trapaceou. Mas não é difícil para nós provar isso? — perguntou Hirata.

Pisar em alguém no capture the flag e deixar o adversário cair no cabo de guerra eram atitudes antiesportivas, mas ainda uma zona cinzenta. Quanto ao gel na faixa durante a batalha de cavalaria, era só especulação — as evidências haviam sumido. Se Sudou perdesse totalmente a cabeça e confrontasse Ryuen, nada seria resolvido. Na verdade, aconteceria o contrário. Atacar abertamente outra classe poderia resultar em consequências bem mais graves do que apenas a desclassificação de Sudou.

— Eu sou o líder aqui! Então escuta, Hirata: vamos confrontar o Ryuen juntos — disse Sudou.

— Eu sei que você é o líder. Se estamos falando do festival esportivo, você é sem dúvida o líder. Mas olhe ao redor. O que você acha que a classe espera de você, como líder? — perguntou Hirata.

Sudou olhou ao redor, começando por Ike e outros, que encolhiam de medo. A maioria dos estudantes agora mantinha distância dele. Ninguém queria sofrer sua ira. Até Horikita o observava com preocupação e exasperação.

No momento, a Classe D estava afundada em medo e desconforto. Precisávamos aceitar isso e melhorar.

— Mas eu estou dando o meu melhor pela classe.

Ele mal conseguiu expressar aquelas poucas palavras através da raiva. Porém, alguns estudantes perto de Hirata levantaram suas vozes.

— É mesmo? — Yukimura cortou bruscamente. — Parece mais que você só quer mostrar o quanto é incrível. Pelo menos, é isso que eu acho. Suas emoções estão totalmente fora de controle, e são elas que estão decidindo tudo. Se desse para vencer assim, não estaríamos sofrendo agora, não acha? Se vai fingir ser líder, então aja como um e ajude todos nós.

Apesar de seu próprio mau desempenho, Yukimura estava se esforçando com sinceridade.

— Cala a boca.

— Eu sinto o mesmo, Sudou-kun. É justamente porque confiamos em você que eu quero que veja o quadro geral e leve em conta os sentimentos de todos — disse Hirata.

— Cala a boca!

— Você é capaz disso, Sudou-kun. É por isso que—

— Eu já disse pra calar a boca!

PÁ!

Vi Hirata, que estava ao lado de Sudou, cair no chão. Sudou, com os olhos injetados de sangue, parecia não perceber o erro que acabara de cometer. O próximo que falasse provavelmente levaria um soco também. Na verdade, ele parecia prestes a acertar Yukimura a qualquer momento.

No entanto, ao bater em Hirata, Sudou atraiu a atenção de todos, querendo ou não. Os professores também o observavam agora. Mesmo que tentássemos abafar dizendo que era um conflito interno, tudo desandava quando havia violência.

— O que está acontecendo? — Nossa supervisora, Chabashira-sensei, aproximou-se de Hirata, ainda no chão. Ao ver a expressão furiosa de Sudou e a marca vermelha na bochecha de Hirata, era fácil deduzir o que havia acontecido. — Você bateu nele?

Sem nem perguntar o motivo, ela exigiu a verdade.

Sudou não negou.

— E se eu bati? Vai fazer o quê? — bufou.

Hirata se levantou rapidamente e corrigiu:

— Não, não foi isso, sensei. Eu só caí, só isso.

— Não parece ter sido o caso.

— Bem, estaria enganada. Olha, eu caí, então não há problema — disse Hirata.

Não podíamos deixar a verdade vir à tona. Hirata tinha tomado a decisão certa.

Depois de um momento, Chabashira-sensei falou novamente:

— Se a vítima diz que nada aconteceu, então não há problema. Porém, posso ver que algo está ocorrendo aqui. Mantenham distância uns dos outros. Farei um relatório aos meus superiores como medida preventiva.

— Não há problema algum aqui, mas não quero piorar a situação. Eu entendo — disse Hirata.

Graças à resposta calma de Hirata, o assunto morreu ali. Enquanto isso, Sudou, incapaz de conter sua raiva, chutou uma cadeira próxima e a fez voar. Bater nos alunos da Classe C sob a supervisão de Chabashira-sensei simplesmente não era possível.

— Tanto faz, façam o que quiserem. Podem perder por mim, seus lixos. Esse festival esportivo pode ir pro inferno — rosnou Sudou.

Ele lançou um olhar rápido para Horikita, mas desviou os olhos logo em seguida e saiu caminhando em direção ao dormitório.

— As coisas ficaram bem feias, Ayanokoji — disse Karuizawa.

— E isso não tem nada a ver comigo — respondi.

Koenji estava ausente, e agora Sudou tinha ido embora. As chances da Classe D pareciam realmente sombrias.

— Você está bem, Hirata?

— Sim, estou. Mas, caramba, ele me acertou bem — disse Hirata.

Felizmente, parecia ter apenas um pequeno corte na parte interna da boca; nenhuma lesão externa.

— O que fazemos agora? Isso é realmente ruim.

*

 

Enquanto a Classe D lidava com seus próprios problemas, a batalha de cavalaria dos alunos do segundo e terceiro ano prosseguia. Horikita continuava encarando seu irmão, incapaz de se aproximar.

Sudou não retornou ao acampamento nem mesmo quando as batalhas de cavalaria terminaram e o último evento, os 200 metros rasos, começou. O festival continuava, independentemente de quem faltasse. Faltosos eram simplesmente desclassificados, incapazes de ganhar pontos. As regras eram claras.

Ryuen se aproximou de nós.

— Hirata, o que houve com o Sudou? Foi cagar? — Ryuen certamente vira tudo, mas falava como se não soubesse de nada. Provocação pura.

— Surgiu um problema. Sudou-kun está descansando. Ele volta logo — disse Hirata.

— Heh. Acho que mentir não combina com você — respondeu Ryuen.

Quando ouviu seu nome ser chamado para a segunda corrida, Ryuen começou a caminhar para sua raia.

— Você ficou em primeiro lugar em todas as competições individuais até agora, não foi, Ryuen-kun? — perguntou Hirata calmamente. Ele parecia tranquilo, mas dava para ouvir o incômodo em sua voz.

— E daí?

— Parece que você só ficou em primeiro porque competiu contra pessoas muito mais fracas. Deu muita sorte.

— Acho que a sorte está do meu lado.

— Não sei por quanto tempo sua sorte vai durar. Tudo pode mudar — disse Hirata.

— Hã?

— Eu sei o que você está pensando — continuou Hirata.

Ryuen bufou, indicando que não tinha ideia do que Hirata estava insinuando. Mesmo assim, Hirata prosseguiu:

— Você conseguiu a tabela de participação da Classe D, e também informações detalhadas sobre as habilidades atléticas de todos nós. Fez bom uso disso. Não somos idiotas. Também temos alguns truques na manga.

— Uhh, eu até ficaria assustado se isso não fosse um blefe tão óbvio. Olhe a distância entre as Classes C e D agora. Não te enche de desespero? Mesmo sabendo a verdade, não adianta mais nada — disse Ryuen.

— Só tenho uma coisa a dizer. Antes do dia acabar, vou te mostrar algo interessante — declarou Hirata.

— Algo interessante, hein? Vou esperar ansioso.

Ryuen não parecia nem um pouco abalado. E não tinha motivo para estar — ele venceu facilmente os 200 metros rasos.

— Falta pouco mais de uma hora para a vez do Sudou, né?

A corrida dos alunos do segundo e terceiro ano continuou, seguida por um intervalo de cinquenta minutos. Se Sudou não voltasse antes do intervalo acabar, seria xeque-mate. Sem nosso ás, jamais venceríamos. Só uma pessoa da classe poderia alcançá-lo.

Eu me perguntava se Horikita entendia a importância de seu papel. Depois que fiquei em terceiro lugar nos 200 metros, esperei que ela terminasse sua corrida.

— Horikita, você sabe o que aconteceu com o Sudou?

— A liderança dele foi questionada, ele percebeu o fracasso que é, e fugiu.

— Bem… é, acho que sim.

— Por que você está aqui? Não vai pedir para eu trazer o Sudou-kun de volta, vai?

— Se você já sabe, então não pergunte. Você entende que é a única que pode ajudar? — questionei.

— Acho que não. Outras pessoas podem fazer alguma coisa. Eu certamente não posso — respondeu ela.

Ela estava falando sério? Provavelmente sim. Horikita não fazia ideia de que Sudou tinha uma queda por ela.

— Além disso, eu não estou exatamente em posição de me preocupar com outras pessoas agora — acrescentou.

Ela realmente estava sofrendo. Não apenas tinha ido mal em todas as provas, como também estava derrubando a pontuação da classe. Tinha seus próprios problemas para lidar. Eu entendia seus sentimentos. E, além disso, ninguém queria ir atrás de Sudou depois de ele agir tão egoisticamente. A classe o abandonou, mesmo sabendo que ele poderia nos salvar no festival. A confiança nele evaporou. Se Hirata ou Kushida tivessem saído correndo, toda a classe iria atrás. Nesse sentido, ele era parecido com Koenji. Aliás, exceto por Horikita e Sudou, todos simplesmente ignoraram o Koenji. Ninguém levou a sério a ausência de um membro.

— É assim que vejo a situação — falei. — Você não consegue cuidar dos seus colegas e não consegue controlar a si mesma. Então, qual o seu propósito? Você não passa de um peso morto.

Eu sabia que minhas palavras a feriam profundamente, e estava pronto para enfrentar sua raiva.

— Isso é horrível. Sinto muito por ter me machucado, mas foi azar. Algumas coisas estão fora do nosso controle, certo?

— Azar, é? Você vê sua lesão apenas como isso — uma lesão. Não percebeu nada.

— Não zombe de mim. Eu entendo a gravidade da situação. Claramente temos um traidor que vazou nossa tabela de participação para o Ryuen-kun. Nunca imaginei que alguém da nossa classe quisesse nos sabotar, mas não posso fazer nada sobre isso agora — disse Horikita.

— O que mais você percebeu?

— O que mais? Eu sei que o Ryuen-kun provocou o Sudou-kun.

— Isso mesmo. Mesmo com todas as informações do mundo do lado do Ryuen, Sudou — nosso MVP — ainda era praticamente imbatível. Ele é forte em equipe e domina sozinho. Então, Ryuen cutucou e provocou até Sudou desistir. Com ele fora, o moral da Classe D desabou.

— Sim, e é por isso que estamos em pedaços agora.

— Notou mais alguma coisa?

— Espera… não me diga que… Você quer especular? — disse Horikita. — Acho que o Ryuen-kun armou para mim, sim. Suponho que tenha mandado a Kinoshita-san me derrubar. Mas é difícil causar um ferimento sério de propósito com tanta supervisão. Não consigo imaginar Ryuen e seu grupo tentando me machucar a ponto de eu não conseguir continuar competindo.

Se eu quisesse, poderia apresentar provas de que a lesão fora, sim, intencional. Mas isso não era o importante. Então eu disse:

— Até quando você pretende ser inútil, Horikita?

Se eu não tomasse uma medida drástica, Horikita Suzune jamais despertaria.

— Com base em quê você me chama de inútil?

— Eu te chamo de inútil porque você é inútil.

— Como você ousa? Eu sou uma estudante e atleta altamente capaz. Tenho absoluta confiança de que posso superar qualquer um desses inúteis. Além disso, já que as informações da nossa classe vazaram, não é tarde demais para fazermos alguma coisa? Não sou só eu — estamos todos impotentes aqui. Então, por que me chamar de inútil?

— Se você fosse uma aluna comum, tudo bem dizer isso. Mas não é o caso, é? Se você está visando a Classe A, e quer elevar seus colegas junto com você, então já está na hora de desenvolver a habilidade de enxergar o quadro geral.

— É por isso que eu te pedi provas! — gritou Horikita.

Nossos colegas viraram-se para ver o que estava acontecendo.

"Temos um traidor que vazou nossa tabela de participação" — repeti as palavras dela. — "Ryuen-kun provocou o Sudou-kun", "Acho que ele mandou a Kinoshita-san me derrubar". É verdade que você não pode fazer nada sobre isso — porque você não fez nada. E enquanto continuar sem agir, nada vai mudar. Você pretende continuar reclamando assim quando o Ryuen bolar outro plano brilhante? Não pretende, né?

— Isso é… Mas o que eu poderia…?

— Você pode priorizar melhorar sua própria classificação enquanto o Sudou continua ausente, ou pode deixar sua classificação cair enquanto o Sudou volta e ajuda a puxar a classe para cima. Qual dessas opções serve melhor à Classe D? — perguntei. — Não precisa responder, né? Você não é nem de longe tão valiosa quanto o Sudou agora. Coloque na sua cabeça que você está completamente inútil no momento. Os métodos dele são desajeitados, sim, mas ele contribuiu mais para nossa classe do que qualquer outra pessoa neste festival. E ele está dando o máximo para vencer. É mesmo aceitável você desistir dele só porque diz que não pode se dar ao luxo de se preocupar com outras pessoas? Vai deixá-lo de fora dessa?

Horikita precisava entender isso. Mesmo que minhas palavras a ferissem, ela precisava despertar. Queria que reconhecesse claramente o que precisava fazer daqui em diante.

— Isso é tão óbvio que até uma criança do fundamental entenderia. Só existe uma coisa que podemos fazer para preparar um contra-ataque.

Ryuen tirou o Sudou da jogada estrategicamente; logo, precisávamos trazê-lo de volta da mesma forma.

— Você está jogando fora uma chance de obter uma arma que pertence apenas a você — eu disse.

— Uma arma só minha?

— Se você está mirando a Classe A, há um limite do que pode fazer sozinha. E agora você está numa situação em que mal consegue fazer qualquer coisa. Vai enfrentar provas assim cada vez mais no futuro. Quando isso acontecer, Sudou com certeza será um recurso valioso. Para que você possa usar esse recurso, o que deveria fazer agora? Rezar para que sua perna se cure milagrosamente?

Assim como eu usava Hirata e Karuizawa como minhas armas, Horikita tinha a chance de obter uma para si. Seria tolice desperdiçar isso.

— Eu…

— Vou deixar você pensar. Esse é meu único conselho.

Não havia mais nada a dizer. Eu não ofereceria uma estratégia para derrotar Ryuen, nem ensinaria como superar isso. Neste momento, Horikita precisava de derrota — e renascimento.

*

 

A primeira metade da manhã do festival esportivo terminou com a Classe D presa na pior posição possível. Como estávamos livres para fazer o que quiséssemos no intervalo, alguns foram almoçar no refeitório, enquanto outros comeram em um espaço reservado no gramado. O festival parecia proporcionar mais oportunidades para comer junto de veteranos, independentemente do gênero. Havia um forte senso de união entre os estudantes.

Nossas salas estavam indisponíveis, então precisávamos comer em outro lugar. Se perguntassem o que mais gostávamos no festival esportivo, provavelmente seria o almoço. Uma montanha de bentôs havia sido disponibilizada. Não eram refeições feitas na cantina da escola, mas catering de alta qualidade vindo de fora do campus. Apenas um tipo de almoço era gratuito, então quase todo mundo escolheu essa opção. Alguns deixaram o campo sem tocar nos bentôs — Horikita estava entre eles. Talvez minhas palavras tivessem finalmente surtido efeito e ela estivesse procurando o Sudou.

Kushida também não comeu. Depois de dizer a algumas meninas que iria procurar o Sudou, saiu andando.

— Gah! Eu tô morto! Por que eu tenho que passar por isso, cara?! — choramingou Ike.

— Porque você perdeu! — respondeu Yamauchi.

Depois de perder no janken, Yamauchi foi buscar o almoço de todo mundo.

— Mano, tô faminto. Vou devorar isso!

Ike e Yamauchi não demonstraram interesse algum em saber onde Sudou estava. Desde o primeiro dia de aula, já conheciam sua personalidade bem demais. Não iriam atrás dele.

No máximo, Sudou perderia alguns pontos privados, embora sua ausência fosse prejudicial ao Time Vermelho. Por outro lado, alguns provavelmente estavam aliviados por sua "era do terror" ter terminado. A maioria das garotas tinha visto ele socando Hirata. Qualquer boa vontade mínima que Sudou tivesse conquistado havia evaporado. O fato de quase nada ter mudado apesar da ausência do nosso MVP era, honestamente, perturbador.

— Vamos só achar um lugar pra comer.

Quando nós três começamos a nos mover, Hirata apareceu acompanhado de vários garotos e garotas.

— Tudo bem se a gente for junto? — perguntou ele a Ike e Yamauchi.

Os dois ficaram momentaneamente chocados: Hirata raramente falava diretamente com eles. Mas, com garotas fofas no grupo do Hirata, não havia motivo para recusar.

— Claro, cara!

Agora éramos dez pessoas, misturando meninos e meninas. Depois de encontrar um bom lugar, começamos a comer. Quando as pessoas foram terminando, Hirata e Karuizawa se aproximaram de mim. Boa escolha — com vários colegas por perto, não parecia estranho um trio como o nosso se formar.

— Parece que o Ryuen-kun começou a agir, como esperado — disse Hirata, sua voz destacando-se no meio da conversa ao redor.

Karuizawa imediatamente aproveitou a deixa, como se estivesse esperando para falar.

— Então… quem é o traidor? Você sabe, né, Yousuke-kun?

Hirata apenas balançou a cabeça gentilmente.

— Há várias coisas que eu não entendo. Espero que tudo se esclareça.

— Bem, eu não posso dizer quem é o traidor — falei.

— Hã? Por quê? — perguntou Karuizawa.

— Porque, agora, identificar o traidor só colocaria a classe em ainda mais confusão. Precisamos lidar com ele de maneira calma e discreta — disse eu.

— Certo. Não vou te encher mais com isso. Mas por que você entregou a tabela de participação à escola sabendo que havia um traidor? Não poderíamos ter ajustado a tabela nós mesmos e evitado todo esse problema? Poderíamos ter virado o jogo contra a Classe C — disse Hirata.

— Provavelmente — respondi. Na verdade, eu queria que Horikita descobrisse o espião e lidasse com ele de forma adequada.

— Espera. O traidor pode ser alguém por perto, né? Pode até ser alguém entre nós agora. Podemos nos dar ao luxo de ser tão tranquilos? — perguntou Karuizawa.

Ela examinava o ambiente, suspeitando de todos ao redor. Traidores eram certamente problemáticos, mas dependendo da situação, às vezes era mais conveniente deixá-los quietos.

Além disso, mesmo que tivéssemos usado a estratégia de Hirata, provavelmente não teria funcionado contra Ryuen. Neste momento, seria difícil fazer Hirata e Karuizawa entenderem o porquê, então eu menti.

— Eu avaliei a fibra moral do traidor — disse.

— Fibra moral? — perguntou Hirata.

— Acho que ele quer se redimir sem ser encurralado.

Hirata me encarou atentamente.

— E tudo isso é por ordem da Horikita, certo, Ayanokoji-kun?

Se Hirata já estava desconfiado de mim, em breve ele deixaria de confiar. Mesmo assim, eu precisava que acreditasse em mim agora, nem que fosse só por aparência.

— Sim. Tudo está seguindo o plano da Horikita.

Hirata não me questionou mais. Ele apenas assentiu, aparentemente convencido.

— E onde está a Horikita-san? O que ela está fazendo? — perguntou Karuizawa.

— Algo que só ela pode fazer. Pelo menos, espero que seja isso que ela esteja fazendo — respondi.

— Espera. Você está falando do Sudou-kun? — Hirata olhou ao redor, percebendo que Horikita e Sudou não estavam à vista. Sua intuição estava certa.

— Sem o Sudou, não vai ser fácil vencermos a segunda metade do festival esportivo, né? — perguntei.

— É. Estamos contando com o Sudou-kun — disse Hirata.

Karuizawa parecia um pouco insatisfeita com a perspectiva, mas compreendeu. O resultado do festival esportivo agora dependia de Horikita. Se minhas palavras não tivessem chegado até ela, era fim de jogo.

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