Ano 1 - Volume 5
Capítulo 4: Há um Motivo para Esse Relacionamento
ENQUANTO CADA uma das classes espiava, a Classe D fazia alguns pequenos movimentos por conta própria. Em quê as pessoas eram boas? Eram atléticas? Esse tipo de informação estava por toda parte. A maioria já tinha começado a perceber isso, mas toda aquela espionagem era meio inútil.
Independentemente de quanto você descobrisse sobre os pontos fortes ou fracos dos outros, a chave para a vitória estava na composição das equipes dos eventos em grupo. Se conseguíssemos obter as tabelas de participação dos nossos adversários, nossas chances de vitória aumentariam drasticamente. Claro, as outras classes não compartilhariam essa informação. Seria uma sentença de morte fazê-lo, então todos a protegiam o máximo possível.
Havia uma exceção — e era a bomba prestes a explodir dentro da Classe D.
Duas semanas antes do festival esportivo, eu fiz meu movimento imediatamente após o fim das aulas. Chamei Horikita, que estava guardando suas coisas ao meu lado.
— Saia comigo hoje.
— E se eu disser que não quero?
— Você pode dizer o que quiser, mas aí não será minha culpa se a Classe D tiver problemas.
Fui direto ao ponto, sabendo que soava como uma ameaça. Horikita ficou momentaneamente sem palavras.
— Certo, não posso simplesmente ignorar isso. Tudo bem, então. O que você quer?
— Você vai entender melhor se vier comigo.
Dizendo isso, afastei-me de Horikita e chamei meu próximo alvo.
— Kushida, você tem um minuto?
Kushida estava conversando animadamente com algumas meninas da classe.
— Hmm? O que foi, Ayanokoji-kun? — ela perguntou. Kushida lançou um olhar para Horikita, que parecia ligeiramente desconfortável.
— Você tem algum plano para amanhã? — perguntei. Sábado seria um dia de folga para Kushida.
— Não tenho nada no momento. Estava só pensando em limpar meu quarto — disse Kushida.
— Se não se importar, poderia me dar um pouco do seu tempo pela manhã?
Fui direto ao ponto. Se Kushida parecesse desconfortável, eu não insistiria.
— Tudo bem — disse Kushida, sorrindo como se quisesse dissipar minhas preocupações. — Sabe, é bem incomum você me convidar para sair, Ayanokoji-kun.
— É, suponho que seja. Ah, e a Horikita também vai.
— Espere um segundo — começou Horikita.
Fiz sinal para ela ficar quieta.
— Tudo bem. Eu não me importo, mas… por que de manhã? — perguntou Kushida.
— Estava pensando em espionar o inimigo de novo, mas com você lá — sabe, como alguém que conhece muito sobre as outras classes. Horikita me pediu ajuda, mas há muitas coisas que eu não sei.
Eu estava sendo quase totalmente honesto, embora a parte sobre Horikita fosse pura invenção. Eu sabia que Kushida não viria sem que eu explicasse a verdadeira razão. Além disso, eu precisava que ela entendesse seu papel.
Kushida assentiu.
— É, acho que sou a pessoa certa para isso. Certo. Que horas você estava pensando? Quanto mais cedo, melhor, né?
— Sim. Estava pensando em algo como dez horas. Pode ser?
— Claro que pode. Então nos encontramos no saguão do dormitório amanhã de manhã?
— Combinado. Obrigado.
Ao sair, Kushida acenou para algumas meninas que a esperavam no corredor, e elas seguiram juntas para os dormitórios. Ela provavelmente tinha prometido voltar com as amigas. Quando eu mesmo começava a voltar, Horikita me segurou.
— O que você está planejando? Eu não sabia de nada disso.
— Isso porque eu nunca falei. Fazer um pouco de reconhecimento não é uma má ideia, você não acha? — respondi.
— Não entendo o motivo de me convidar. Se tudo que você vai fazer é espionar, você e Kushida seriam suficientes.
— Você acha mesmo isso?
— Eu não diria algo assim como uma piada.
Aparentemente, eu ainda não podia dispensar Horikita.
— Estamos chamando muita atenção aqui. Vamos conversando enquanto andamos.
Tomei a dianteira, deixando Horikita para trás, e eventualmente ela me acompanhou.
— Você lembra o que aconteceu com o seu grupo no navio de cruzeiro?
— Claro. Todos descobriram a identidade da nossa VIP. Um resultado humilhante — disse Horikita.
— Exato. Não deveria ter acontecido. Com certeza existe um motivo para aquilo.
— Sim, mas eu não sei qual. Por mais que eu pense, não encontro a resposta. Presumo que Ryuen-kun tenha estado envolvido — disse Horikita, como quem chega a um beco sem saída.
Dúvidas e teorias incompletas, infinitas e irritantes, provavelmente inundavam sua mente.
— Bem, eu não tenho provas, mas tenho uma teoria.
Horikita me olhou como se estivesse genuinamente chocada.
— Está dizendo que descobriu a estratégia do Ryuen-kun?
— Sim. Para ser mais preciso, não foi só o Ryuen. Outra pessoa teve um papel significativo no que aconteceu no navio — falei.
Chegamos à entrada principal e pegamos nossos sapatos no armário. Já do lado de fora, continuamos conversando.
— Pensando bem, não havia como a identidade da VIP ter sido descoberta. Você e Hirata nunca disseram a ninguém que a Kushida era a VIP. Certo?
— Claro que não.
— Mas… e a própria Kushida? E se ela mesma tivesse revelado sua identidade de propósito?
Horikita provavelmente não conseguia entender o que eu queria dizer. Era natural; não era o tipo de coisa que alguém imaginaria. Não havia um idiota que revelaria intencionalmente ser o VIP.
— Isso é impossível, certo? Ela não teria nada a ganhar com isso — respondeu Horikita.
— Não dá para ter certeza. Por exemplo… e se ela tivesse feito um acordo por baixo dos panos, dizendo a outra pessoa que era a VIP em troca de pontos privados?
— Mesmo que isso seja possível, prejudicaria a Classe D. E seria muito arriscado — respondeu Horikita.
— Esse risco depende do momento, no entanto. Há muitas maneiras de estabelecer confiança — respondi.
— Então você está dizendo que a Kushida trairia seus aliados por alguns míseros pontos?
— Talvez sim, talvez não. Só a Kushida sabe.
Era por isso que eu a havia convidado. Para descobrir a verdade.
— Então você quer que a Kushida e eu vamos com você para… descobrir a verdade? — Horikita finalmente parecia suspeitar que Kushida pudesse ter virado traidora.
— Você e a Kushida parecem ter algum tipo de conexão. Um destino compartilhado, talvez. Não seria estranho se ela nos traísse por algo mais valioso do que pontos privados, certo?
Horikita desviou o olhar, sem jeito.
— Kushida-san e eu não temos laço algum — respondeu.
— Nesse caso, você pode afirmar com 100% de certeza que ela não trairia a classe e você?
— Isso é…
— Se você não tem certeza, deveria confirmar. Se não garantirmos isso, tudo estará acabado, não acha? Não importa qual seja o exame, nossa classe não tem chance de vencer se houver um traidor entre nós — eu disse.
Durante o exame anterior, no exame antes desse, e até mesmo neste festival esportivo, entendi o quão fácil era para a classe inteira desmoronar por causa de um único traidor. Antes que percebêssemos, já estávamos no dormitório. Entramos no elevador do primeiro andar e apertamos os botões para nossos andares.
— Você é livre para escolher se vai ou não amanhã, mas se quer liderar a classe, pense nisso.
Saí no quarto andar, deixando essas palavras finais para Horikita.
*
A manhã de sábado chegou, e eu estava no meu quarto, me divertindo conversando sobre besteiras com outras três pessoas. Claro, eu basicamente só ouvia a conversa, intervindo de vez em quando para mostrar que estava acompanhando. Como o clube de basquete não podia usar o ginásio, Sudou tinha um dia de folga. Tirando eu, os três idiotas estavam se divertindo bastante. Eles tinham trazido copos de macarrão instantâneo e já tinham despejado água quente dentro, esperando os três minutos.
— Ei, Ayanokoji. Que sabor você pegou? — Sudou perguntou.
— Tom yum goong extra-apimentado. Eu não sabia muito bem como era, então resolvi experimentar.
— Cara, isso parece bom. Troca comigo, vai? Te dou o meu ramen salgado — disse ele, estendendo o copo de macarrão. Havia uma ilustração de uma lula salgada na embalagem, mas o desenho parecia meio esquisito.
— Não, obrigado.
Por que ele comprou um ramen tão pouco apetitoso?
— Ei, Ken. Você planeja contar para a Horikita?
— Hã? Como assim?
— Nada. Só curiosidade, cara. Só isso. Né, Haruki?
— S-Sim — Yamauchi deu um sorriso forçado. Ele tinha sofrido uma derrota honrosa ao confessar seu amor pela Sakura no verão.
— Isso depende de como o festival vai ser. Se eu vencer, talvez eu possa dar um passo.
— Ah. Você quer dizer sobre começar a chamar ela pelo primeiro nome, né? — Sudou, determinado a ficar em primeiro lugar em todos os anos custe o que custar, flexionou o bíceps.
— Digo, não tem nenhum aluno do primeiro ano melhor que eu em esportes.
— Seu único concorrente real é o Koenji, e ele provavelmente não vai levar isso a sério.
Para Sudou, a falta de motivação aparente de Koenji era tanto motivo de alegria quanto de frustração.
— Bom, se eu puder dar tudo de mim, não tenho do que reclamar — disse ele.
Isso me lembrou de algo… Resolvi entrar na conversa e perguntar sobre algo que vinha pensando.
— Ei, tem uma aluna na Classe A chamada Sakayanagi, né? A garota com deficiência. Lembram dela?
— Ah, aquela garota bonita? Claro que lembro — Ike sorriu enquanto esfregava o nariz.
— Vocês ouviram algum boato sobre ela?
— Boato? Tipo caras com quem ela saiu? Sei lá. É que… como posso dizer? Ela não parece se expor muito, sabe? Acho que não rola muita coisa desse tipo — disse Ike.
Yamauchi concordou:
— Pelo que ouvi, dizem que ela é a líder da classe. Ela é bem… madura, né?
Como os dois pareciam ter a mesma opinião, não parecia que eu conseguiria informações úteis sobre Sakayanagi por meio deles. Meu celular vibrou — era uma mensagem. Enquanto eu verificava, senti os olhares de Ike e Yamauchi fixos em mim. Pareciam desconfiados.
— Sabe, cara, você tem recebido muitas mensagens ultimamente, né? — perguntou Ike.
— Hã? Não, nada demais. Digo, isso não é normal? — respondi de forma despreocupada.
A verdade é que eu realmente tinha recebido mais mensagens ultimamente, então o brilho suspeito nos olhos deles só aumentou.
— Você não tem uma namorada, né? — Yamauchi apertou.
— Claro que não, relaxem. Além disso, não tem como eu arranjar namorada antes de vocês, né?
— Ah, isso é verdade — disse Yamauchi.
Ao inflar um pouco o ego deles, consegui acalmá-los.
— Olha, ninguém se importa com o Ayanokoji sendo impopular. Vamos falar sobre meu futuro com a Suzune — disse Sudou.
— Isso me lembra: você vai fazer dupla com a Horikita na corrida de três pernas mista, né, Ken?
— É. E quando a gente vencer, vamos começar a ficar mais próximos. Bem mais próximos.
Justo quando Sudou começou a falar de algo que eu realmente não poderia me importar menos, meu celular vibrou de novo — desta vez, era um alarme.
— Desculpem, pessoal. Tenho planos — eu disse.
— O quê? A gente estava chegando na parte boa. Bom, tudo bem. Tenho o Kanji e o Haruki aqui pra ouvir cada detalhe — disse Sudou.
— Ah.
Eu vinha sugerindo que eles saíssem do meu quarto… mas tudo bem. Em vez de insistir, decidi deixar os três idiotas lá e seguir meu caminho.
*
Faltava pouco para as dez da manhã, o horário que eu havia combinado de encontrar a Kushida. Ela já estava no saguão.
— Bom dia, Ayanokoji-kun — disse Kushida com calor.
— Bom dia, Kushida.
O verão estava quase no fim, então eu só poderia ver Kushida com suas roupas de verão por mais um pouco. Meu coração acelerou ao vê-la.
— Desculpe por ter feito um pedido tão estranho ontem.
— Ah, não, tudo bem. De verdade. Eu não tinha nada planejado para hoje. Além disso, isso me deixou meio nostálgica — respondeu ela.
— Nostálgica?
— Bem, lembra como, nas provas do primeiro semestre, você pediu as questões anteriores para uma veterana? Eu só achei que isso aqui parecia meio parecido com aquilo — explicou.
— É mesmo?
— É.
Eu não considerava aquela lembrança algo especial, mas Kushida parecia feliz por recordá-la. Sinceramente, teria sido mais fácil trazer Karuizawa ou Sakura junto, mas se você quer que um trabalho seja bem-feito, precisa da pessoa certa. E Kushida era absolutamente a melhor para isso.
Mais importante ainda, havia o assunto Horikita. Já eram quase dez horas, e não havia sinal dela. Estava desistindo por ter que encontrar a Kushida? Mas, enquanto eu pensava nisso, Horikita apareceu.
— Desculpem por ter feito vocês esperarem.
— Bom dia, Horikita-san.
Kushida a cumprimentou com um sorriso impecável. Porém, Horikita parecia de mau humor. Tentava disfarçar, mas era óbvio. Kushida certamente percebera, mas continuava agindo exatamente como sempre. Era impressionante.
Nós três saímos do dormitório e seguimos em direção ao campo esportivo. Às dez horas, o local já estava cheio de estudantes.
— Uau, eles estão indo com tudo!
No campo, o som seco de alguém chutando uma bola ecoou no ar. A bola fez uma curva em direção ao gol. Descreveu um arco bonito, mas provavelmente fácil de prever. O goleiro, com reflexos afiados, a afastou com um soco. Hirata estava entre os jogadores. Como os times eram misturados entre alunos do primeiro ao terceiro ano, eu não conhecia todos.
— Estou me sentindo meio como uma espiã secreta, espionando clubes para conseguir informações sobre outras turmas. É tão emocionante, meu coração está até batendo mais rápido! — disse Kushida.
— Não é tão grande coisa. As informações que podemos conseguir aqui não são tão relevantes assim — falei.
— Mas a Horikita-san não pensa assim. Né?
— Informação é inestimável. Não sabemos o que pode ser a chave para a nossa vitória — disse Horikita.
— Verdade. Mas foi muito gentil da sua parte fazer isso pela Horikita-san, Ayanokoji-kun — disse Kushida.
— Bem, eu não tinha exatamente escolha. Ela ia me incomodar se eu não viesse — respondi.
— Estou impressionada com sua coragem de dizer isso enquanto estou bem aqui — disse Horikita.
Ignorei o comentário assustador e foquei no campo. Parecia que os jogadores iriam fazer um escanteio. Os membros do time de futebol caminharam casualmente para o campo e se posicionaram antes de recomeçar o jogo. Dava para sentir que algo grande estava prestes a acontecer.
Enquanto Kushida sorria, eu me sentia desconfortável com nós três juntos ali. Surpreendentemente, a sempre amigável Kushida foi a primeira a abandonar as aparências.
— Ayanokoji-kun, foi você quem decidiu me convidar hoje, não foi?
— Por que acha isso?
— Bem, eu não consigo imaginar que a Horikita-san me convidaria — respondeu Kushida. Ainda sorrindo, lançou um olhar rápido para Horikita antes de voltar seus olhos para mim.
— Por que não consegue imaginar que a Horikita convidaria você? — perguntei.
— Haha! Sabe, você é meio cruel, Ayanokoji-kun. Você entende que as coisas não estão boas entre mim e a Horikita-san, não entende?
Kushida falou abertamente, sabendo que eu entendia. Horikita ouviu em silêncio, sem negar.
— Para ser totalmente honesto, não é que eu não entenda. É mais como… eu acreditar metade, e duvidar metade.
O jogador do escanteio chutou a bola, enviando-a para um companheiro perto do gol. Hirata a recebeu com maestria. Vendo que não poderia marcar dali, passou para um colega — um aluno da Classe B que já conhecíamos.
A bola entrou no gol em um arco perfeito.
— Então o Shibata está no clube de futebol.
— Sim. O Hirata-kun sempre diz que o Shibata-kun é melhor do que ele. Parece que eles são próximos — respondeu Kushida. Como esperado, ela estava mais bem-informada do que todos. Quando o jogo recomeçou, Shibata pegou a bola e avançou rapidamente pelo time adversário.
— Ele é rápido.
Parecia tão bom quanto o Hirata… não, até mais rápido. Hirata não estava mentindo.
— Uau, eles estão indo com tudo! Estão super animados! Isso aqui é o máximo! — disse um cara alto de uniforme de futebol que passou pelos espectadores — e por espectadores, quero dizer nós. Eu suspeitava que ele fosse atleta, então isso só confirmou que era do futebol.
— Bom dia, Nagumo-senpai! — disse Kushida.
Aparentemente, ela o conhecia. Horikita teve uma leve reação, quase imperceptível. Nagumo era um dos candidatos a próximo presidente do conselho estudantil, com habilidades comparáveis às do irmão dela.
— Oh? Ah, você é a Kikyou-chan. Vejo que está em um encontro. Legal — disse Nagumo.
— Haha! Não, não é nada disso. Só fiquei curiosa e vim assistir — respondeu Kushida.
— Excelente. Aproveitem. Aqui a gente não pega leve, então é uma boa forma de medir a força dos jogadores — disse Nagumo.
Ele piscou para Kushida e seguiu para se juntar aos demais. Pelo visto, tinha adivinhado o que estávamos fazendo. O time de futebol pareceu empolgado ao vê-lo.
— É permitido alguém fazer parte do conselho estudantil e também de um clube? — perguntei.
— Parece que ele não faz mais parte do clube — explicou Kushida. — Mas mesmo tendo saído, ainda é o melhor jogador. De vez em quando aparece nos treinos para orientar o resto do time.
— Tudo pronto, Nagumo? — perguntou um dos estudantes.
— Sim, cara. Eu dormi demais, mas depois de correr algumas voltas já estou aquecido — respondeu Nagumo.
Ele trocou de lugar com outro estudante, e o jogo recomeçou. Tanto a bola quanto os outros jogadores avançaram imediatamente na direção de Nagumo. Ele parecia ser um companheiro de equipe confiável e um adversário perigoso. Estava, ao que tudo indicava, no time oposto ao de Hirata e Shibata. À medida que o jogo se desenvolvia, Nagumo brilhava mais e mais.
Hirata avançou para enfrentar Nagumo e tentar roubar a bola. Seus movimentos eram tão precisos quanto antes, mas Nagumo lidou com ele com facilidade. Shibata também correu em sua direção, mas Nagumo aplicou alguns dribles rápidos e o deixou para trás. Eu já achava que Hirata e Shibata eram habilidosos, mas Nagumo estava em outro nível.
Depois de passar por mais um jogador, Nagumo chutou com força a partir do meio de campo. A bola descreveu uma curva assustadora, fora do alcance do goleiro, e entrou no gol.
— Então o título de presidente do conselho estudantil não é só de enfeite, hein?
— Ele só é muito atlético, só isso.
Horikita não parecia disposta a reconhecer a habilidade óbvia de Nagumo.
Enquanto eu falava com Horikita, dei uma olhada furtiva na Kushida. Ela exibia um sorriso impecável; não havia sequer um traço de seu lado sombrio.

— Quando você me encara assim, eu fico sem graça — disse Kushida. Nossos olhos se encontraram, e ela riu, como se pudesse adivinhar exatamente o que eu estava pensando.
— Se eu prometer não fazer mais perguntas, você me diria só uma coisa? — perguntei. Apesar da presença de Horikita, decidi arriscar. — Por que você e a Horikita não gostam uma da outra?
— Pedir para eu te contar algo dizendo que não vai perguntar mais nada é injusto — disse Kushida. Talvez meu pedido fosse uma forma de manipulação psicológica, mas Kushida entendeu tanto a minha tática quanto a minha intenção. — Se eu te contar, acaba aí, certo?
— Sim. Eu prometo.
— A culpa é minha — respondeu ela, ainda olhando para o jogo.
Eu não esperava por aquela resposta. Então, mesmo sendo ela a responsável pelo mau relacionamento entre as duas, ainda assim odiava a Horikita? Aquilo era meio contraditório. Normalmente, quando alguém odeia outra pessoa, tende a colocar toda a culpa no outro.
Eu era relativamente bom em observar pessoas, mas não conseguia ler a Kushida completamente. E começava a perceber que talvez entendesse a Horikita menos do que imaginava. Ela sabia desde o início que Kushida a odiava, mas nunca tocou no assunto comigo. Porém, pela resposta da Kushida, parecia que Horikita também conhecia a origem daquele ódio.
É claro que, se eu perguntasse, Horikita provavelmente não me contaria. Por quê? Será que havia algo que ambas não queriam que a outra soubesse?
— Tenho a sensação de que só pensar nisso já é perda de tempo — resmunguei.
— É… suponho que sim. Nossa prioridade agora é espionar e reunir informações, certo? — disse Kushida.
— Acho que sim — dei de ombros.
— O jogador com a bola agora é o Sonoda-kun, da Classe C. Ele é bem rápido, não é? — observou Kushida.
Todos os estudantes do clube de futebol eram ágeis. Na nossa classe, provavelmente só Sudou e Hirata conseguiriam acompanhar… e mesmo assim teriam dificuldades.
— Mas a Horikita-san está pensando na classe como um todo. Isso me deixa feliz — disse Kushida.
— Minha meta é fazer tudo que for necessário para alcançar a Classe C, então não tenho outra escolha — respondeu Horikita.
— Tenho que trabalhar mais também, para poder contribuir com todos.
Não havia nem um fiapo de humildade ali.
Depois de um tempo, os jogadores fizeram uma pausa. Nagumo chamou por Hirata. Talvez por perceber que estávamos assistindo, Hirata veio em nossa direção.
— Bom dia. É incomum ver vocês aqui — disse ele.
Shibata, que nos tinha visto de longe, também correu até nós. Ficamos, assim, em um grupo de cinco bem peculiar.
— Bom dia, Kikyou-chan. Ah, e… Ayanokoji e Horikita-chan, certo? Ayanokoji, você está em um encontro com essas duas garotas lindas? — perguntou Shibata.
— Não, não é nada disso.
Shibata e eu éramos conhecidos, mas eu não sabia que ele lembrava meu nome. Fiquei um pouco feliz, embora tenha segurado o sorriso.
— Então, o que está rolando? É um grupo meio estranho — disse Hirata. Ele não parecia suspeitar de nada.
Decidi contar a verdade abertamente.
— Estamos espionando. Viemos identificar alunos de outras classes que devemos observar.
— Ah. Então significa que vocês já perceberam o Shibata, é? — disse Hirata.
Shibata deu um passo à frente e exibiu alguns movimentos com os pés. Ele tinha um jeito animado e não escondia suas habilidades atléticas. Eu me perguntava se isso era por estar na Classe B, sob a liderança de Ichinose, ou simplesmente porque esse era seu jeito natural.
— O Shibata-kun é mesmo rápido, como dizem os rumores — comentou Kushida. — O Ayanokoji-kun e eu ficamos chocados.
Ao ser elogiado por uma garota bonita, Shibata esfregou o nariz com o dedo indicador, todo envergonhado.
— Precisamos ter cuidado especial com o Shibata-kun. Ele é o mais rápido da Classe B. Pessoalmente, eu preferiria não competir contra ele — disse Hirata.
— Não se subestime, Yousuke. Você também é bem rápido. E você, Ayanokoji? — perguntou Shibata.
— Sou membro do clube de ir pra casa e não fazer nada — respondi.
Shibata cruzou os braços e riu, como quem diz "Ah, claro".
Logo depois, nós nos despedimos, sob o pretexto de observar outras atividades dos clubes — apenas um disfarce. Eu queria descobrir outra coisa, e havia preparado o terreno para isso. Como aconteceria… dependeria das duas garotas.
— Você me entedia, Kushida-san — disse Horikita.
— Uau, isso foi bem duro — respondeu Kushida.
— Mas eu preciso te perguntar algo — continuou Horikita.
— Entre você e o Ayanokoji-kun, estou recebendo várias perguntas hoje. Certo, o que foi?
— Durante o exame do navio de cruzeiro, você contou ao Ryuen-kun ou ao Katsuragi-kun que era a VIP?
Eu esperava que Horikita perguntasse de forma direta, mas ela foi além — foi direto ao ponto. Kushida ficou chocada, mas Horikita continuou.
— Tudo bem se você não responder. Não faz sentido desenterrar o passado. Por isso, só há uma pergunta que realmente importa: posso confiar que você será uma aliada da classe daqui em diante? — perguntou Horikita.
— Claro. Eu quero chegar à Classe A, junto com todos da Classe D. Eu digo isso desde o começo — respondeu Kushida.
Os sentimentos da Kushida não haviam mudado nada.
— Não sei por que você perguntaria isso, mas quero que confie em mim.
Apesar do sorriso, Kushida parecia séria.
— Bem, vou voltar. Vou deixar o resto do reconhecimento com vocês duas — eu disse.
— Hã? O que você está dizendo, Ayanokoji-kun?
— Essa estratégia foi ideia da Horikita desde o começo. Se você usar a rede extensa de contatos da Kushida, vão se virar bem. Certo? — perguntei.
E então fui embora.
*
Com todo mundo trabalhando duro, os dias passaram rápido. Finalmente, restava apenas uma semana até o festival esportivo. Precisávamos decidir quem participaria de cada prova e entregar a tabela de participação antes do fim do dia. Enquanto Hirata ficava no púlpito, Kushida encarava o quadro, com giz na mão, anotando tudo.
— Sem mais delongas, vamos decidir as inscrições — disse Hirata.
Para estabelecer a ordem dentro da nossa estratégia de vitória, Hirata consultou suas anotações, que continham resultados agregados dos registros diários de desempenho de toda a classe. Havíamos anotado a ordem, os papéis de cada um e as competições em que participariam. Nenhum estudante contestou os resultados de Hirata, baseados em dados concretos e testes claros das habilidades individuais. Tudo avançou sem nenhum tropeço.
— Certo. Para o evento final, o revezamento de 1.200 metros, o Sudou será o nosso âncora.
— Parece justo.
Eu estava impressionado com a forma como Hirata conseguia respeitar os desejos de cada um sem ignorar as habilidades de ninguém. No revezamento, a última prova, os destaques seriam os alunos mais rápidos, como Horikita. Não havia formação mais ideal.
No entanto, Horikita — sentada ao meu lado — continuava encarando o quadro com uma expressão de dúvida. Assim que a discussão terminou, ela se levantou. Enquanto eu me perguntava aonde aquilo levaria, ela caminhou diretamente até Sudou. Curioso, tentei ouvir.
— O que houve? — ele perguntou.
— Quero conversar com você. Pode vir comigo? — respondeu Horikita.
— C-Claro.
Sudou se aprumou na mesma hora, obediente ao comando de Horikita. Quando começava a se afastar, Horikita chamou por Hirata também:
— Ah, Hirata-kun. Posso tomar um pouco do seu tempo?
O coração de Sudou deve ter acelerado na hora, mas ele logo ficou decepcionado.
— Quero falar sobre a tabela de participação que definimos mais cedo. Gostaria que você me desse a posição de âncora no revezamento de 1.200 metros — disse Horikita.
Sudou fez uma expressão confusa.
— Mas, bem… a posição de âncora é normalmente pra pessoa mais rápida, né? Cê tá insegura de me deixar como âncora?
Existe uma diferença fundamental de habilidade física entre garotos e garotas. Horikita era a mais rápida entre as meninas, mas, competindo contra os meninos, ela não seria páreo para Hirata. Era natural que Sudou — igual ou até mais rápido que Hirata — fosse o âncora. Ele provavelmente não aceitaria nada diferente disso.
— Não, não é isso. Eu conheço suas habilidades vendo você treinar — disse Horikita.
— Ok, então eu dou conta, né? Tipo, se o âncora é o quinto corredor, então…
— Eu tenho meus motivos. Você é bom no arranque, não é, Sudou-kun? Acho que tê-lo ultrapassando nossos oponentes logo na largada é uma estratégia viável. Isso nos daria vantagem. Se fosse uma prova individual, você poderia manter sua raia com a vantagem inicial, mas aqui isso não é possível. A partir do segundo corredor, as raias serão tomadas por ordem de chegada. Se formos ultrapassados, as regras dizem que, do segundo corredor em diante, podemos usar as raias externas para ultrapassar também — explicou Horikita.
Em outras palavras, Horikita queria que Sudou fosse o primeiro corredor para construir uma vantagem desde o início.
— Mas… — Sudou ainda não parecia convencido.
Era verdade que, se Sudou fizesse um bom arranque, o restante da equipe teria mais facilidade. Porém, usar o turno dele logo no início significava que, se a vantagem diminuísse mais tarde, os corredores seguintes estariam sob pressão. Por outro lado, Sudou poderia dar um impulso decisivo no final, como âncora. Se tivesse alguém para perseguir, isso o motivaria ainda mais.
— É que, tipo, a posição de âncora fica com o mais rápido do time.
— Esta escola é uma meritocracia. Não tomemos decisões baseadas em suposições ou ideias preconcebidas. As outras classes também vão criar estratégias — argumentou Horikita.
Eu entendia a lógica dela, mas parecia que ela estava forçando a barra. No fim, não importava tanto quem seria o âncora; tanto ela quanto Sudou teriam bom desempenho. Mesmo um arranque desajeitado não atrasaria tanto assim. Isso significava que havia outro motivo por trás do pedido de Horikita. Se fossem Ike ou Yamauchi, seria só por querer aparecer, mas Horikita não era desse tipo. Restava apenas uma alternativa.
— Com certeza vou ter resultados melhores do que nos treinos — afirmou Horikita.
Era uma afirmação baseada em pura intuição — aquela mentalidade de "se eu quiser muito, eu consigo". Nada sustentava aquilo.
Na verdade, a proposta era tão estranha que Sudou rebateu imediatamente:
— Não tô convencido. Isso não parece coisa de você, Horikita.
— Com licença… posso dar um palpite? — Kushida se aproximou hesitante, provavelmente movida pela curiosidade. — Desculpa. É que eu acho que talvez exista outro motivo pra Horikita-san querer ser âncora.
— Isso é…
— Nesse caso, Horikita, você se importaria de nos dizer por quê? Se você tem um pedido, Sudou e eu vamos levar isso muito a sério. Mas, se vamos mudar uma ordem decidida por toda a classe, eu preciso de mais informações — disse Hirata.
— Concordo com o Hirata. Precisamos de um motivo — acrescentou Sudou.
Horikita assumiu uma expressão complicada. Talvez pensasse que só conseguiria a posição de âncora dizendo a verdade.
— É porque eu acho que meu irmão… é o âncora — disse ela, baixinho.
— Seu irmão? O presidente do conselho estudantil?
— Sim. Ele é meu irmão.
Todo mundo conhecia o presidente do conselho estudantil, mas nem todos tinham ligado os pontos de que ele era parente de Horikita. Alguns até desconfiavam, mas o sobrenome não era tão incomum. E os dois não se pareciam tanto, e Horikita nunca falara nada. Todos ficaram surpresos com a revelação.
— Então você quer ser âncora junto do seu irmão? É isso? — Kushida parecia não ter entendido totalmente.
Como Horikita não parecia disposta a explicar, resolvi intervir.
— Aconteceu umas coisas. Acho que a Horikita e o irmão dela não andam se falando. Ela provavelmente quer aproveitar essa oportunidade para se aproximar dele — comentei.
Não era exatamente a verdade, mas também não era mentira. Apenas uma explicação fácil de digerir. Horikita me lançou um olhar irritado por ter bisbilhotado suas conversas, mas logo voltou a encarar Sudou e os outros.
— Eu me perguntava o que era. Então é isso, né? Bem, para ser honesto, eu ainda queria ser o âncora. Mas se é assim que você se sente, não me importo em te passar a posição — disse Sudou.
— Por mim, tudo bem também. Se o Sudou-kun está satisfeito, todos ficarão, certo? — acrescentou Kushida.
— Certo. Então, vou enviar a tabela depois de trocar a posição da Horikita-san com a do Sudou-kun. Tudo bem? — perguntou Hirata.
— Obrigada — disse Horikita, em voz baixa.
Se não fosse por uma oportunidade como aquela, Horikita provavelmente nunca conseguiria se aproximar do irmão mais velho. Mesmo sem ter coragem de procurá-lo sozinha, uma competição como aquela os colocaria frente a frente. Entretanto, a decisão de Horikita não garantiria bons resultados. Eu não conseguia imaginar que algo realmente mudaria, mesmo se ela se aproximasse daquele irmão cabeça dura.
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