Classroom of The Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 4

Capítulo 2: Uma Infinita Variedade de Desejos

HORA DO CAFÉ da manhã. Evitei o bufê que era popular entre muitos estudantes e segui para o deque do navio. Havia um café chamado Blue Ocean, que quase não tinha alunos tão cedo. Sentei-me em uma mesa na parte sombreada dos fundos, onde havia poucas pessoas. Eram 7h55.

Um minuto antes do horário marcado, a pessoa que eu esperava apareceu. Ela tinha a expressão impassível de sempre.

— Você veio bem cedo.

Horikita sentou-se ao meu lado. Ela era uma das poucas pessoas desta escola que eu podia chamar de amiga. Extremamente talentosa, e também um espinho no meu pé, porque sabia algo sobre minha vida oculta.

— Estou esperando há uma hora — provoquei.

— Isso não é problema meu, já que cheguei antes da hora marcada. Além disso, como eu saberia se você estava esperando há dez horas, ou mais?

Realmente não era fácil provocar Horikita. Na verdade, era inútil.

Ela não era boa em conversar sobre trivialidades. Depois que lhe passei minhas informações ontem, ela não conseguiu retribuir. Apenas sugeriu que nos encontrássemos aqui. Seria algum tipo de manobra?

— Então, conseguiu mais detalhes?

— Só o que você já me disse. Doze grupos e quatro resultados. Além disso, a escola afirmou que enviaria os nomes dos VIPs por e-mail às 8h de hoje. Quaisquer diferenças pequenas nas explicações podem ser atribuídas à forma como cada professor se comunica.

— Quem está no seu grupo? Quantas pessoas? — Eu tinha visto parte da formação ontem, mas ela já sabia disso.

— A lista é honestamente surpreendente. É tão tendenciosa que não consigo imaginar que seja coincidência.

Horikita me entregou um pedaço de papel, com um ar meio abatido. Ela mesma escrevera aquilo em seu bloco de notas, e já havia memorizado todos os nomes. Peguei a lista e a examinei. O nome do grupo dela era Dragão. Ao olhar os nomes, entendi o que ela queria dizer sobre a tendência.

CLASSE A: Katsuragi Kouhei, Nishikawa Ryouko, Matoba Shinji, Yano Koharu

CLASSE B: Andou Saya, Kanzaki Ryuuji, Tsube Hitomi

CLASSE C: Oda Takumi, Suzuki Hidetoshi, Sonoda Masashi, Ryuen Kakeru

CLASSE D: Kushida Kikyou, Hirata Yousuke, Horikita Suzune

Para começar, os alunos da Classe D, Hirata e Kushida: ambos excelentes, representantes da nossa turma. Ignorando o fato de que Horikita era isolada demais, ela certamente tinha talento suficiente para ficar lado a lado com os dois. Para ser totalmente honesto, era a melhor mão que a Classe D poderia ter recebido.

Achei que teriam colocado pelo menos mais uma pessoa, mas não foi o caso. Em termos de habilidade latente, Koenji tinha de sobra, mas provavelmente não contribuiria com nada para o time. Eu não sabia em qual grupo ele estava.

— Entendo. Parece mesmo um agrupamento inevitável — murmurei.

Mesmo considerando apenas os nomes que eu conhecia, havia Katsuragi da Classe A, Kanzaki da Classe B e Ryuen da Classe C. Todos representantes de suas turmas. Se pensássemos nesse grupo como jogadores numa fase classificatória de uma liga de futebol, seria o time dos sonhos — e uma batalha mortal.

— Mas algo parece estranho — acrescentei. Eu não conhecia muitos estudantes, mas parecia um pouco esquisito Ichinose estar no grupo Coelho, e não no Dragão.

— Você quer dizer a Ichinose-san estar no seu grupo, não é? Suponho que apenas os estudantes da Classe B sabem se ela é realmente excelente ou não. As qualidades de um líder e o nível de excelência não são necessariamente proporcionais — disse Horikita.

— Espera… você está falando de si mesma? — perguntei.

Ela me lançou um olhar cortante, e eu desviei o olhar. Contudo, Horikita tinha um ponto. Não sabíamos os detalhes das habilidades de Ichinose. Talvez suas notas acadêmicas fossem surpreendentemente baixas.

— Pelo que podemos deduzir, será que existe algum método específico para nos dividir nos doze grupos? Ayanokoji-kun, suas notas são muito parecidas com as da Karuizawa-san. Será que estão nos agrupando de acordo com nossos resultados? Ah, mas o Yukimura-kun tem alta capacidade acadêmica, assim como o Koenji-kun. Eles estão no topo da turma — disse Horikita.

Ela levava em conta nossas notas do exame intermediário e do exame final.

— Mas deve haver uma diferença entre mim e o Professor, assim como entre você e o Hirata. Existem muitos detalhes que não se encaixam nessa teoria das notas.

Se os estudantes fossem divididos puramente com base no desempenho acadêmico, Koenji deveria estar no topo. Claro, eu concordava que as notas entravam no cálculo, mas provavelmente havia outra variável no processo. Se possível, eu gostaria de ver a lista completa dos outros grupos.

— De qualquer forma, isso provavelmente vai ser difícil. Quero dizer, tentar liderar o grupo e superar todo mundo.

Quando várias pessoas talentosas eram reunidas, a presença de alguém tão ortodoxa quanto Horikita não era necessariamente vantajosa. Ela e Ryuen eram especialmente incompatíveis, como fogo e água. Eu não gostava daquilo; era inevitável que entrassem em choque.

Mas, se eu dissesse isso, Horikita provavelmente ficaria irritada. Decidi ficar quieto. Por outro lado, ela provavelmente trabalharia bem com alguém direto como Katsuragi. Ambos acreditavam que intelecto levava à vitória — acabariam se entendendo.

— Bem, está quase na hora — disse Horikita.

Quando o relógio marcou 8h, nossos celulares apitaram ao mesmo tempo. Conferimos imediatamente. Depois de lermos a mensagem praticamente no mesmo instante, Horikita virou o celular para mim. Fiz o mesmo. Comparamos os textos para checar os detalhes.

"Após cuidadosa consideração, você não foi escolhido como VIP. Lembre-se de colaborar com seu grupo durante os desafios deste exame. A prova começa hoje e terá duração de três dias. Os membros do grupo Dragão devem se reunir na sala Dragão localizada no segundo deque."

A minha mensagem era praticamente igual à de Horikita. Claro, o nome do grupo era diferente, mas todo o resto coincidia.

— Então nenhum de nós foi escolhido.

Guardamos os celulares e nos ajeitamos na cadeira.

— Não fomos. Não sei se isso é bom ou ruim.

— É. Se você fosse escolhida, poderia direcionar o grupo para qualquer um dos resultados — observei.

Ser VIP nesta prova dava uma vantagem enorme. Se conseguisse manter um bom blefe, poderia ganhar facilmente 500.000 pontos.

— Mesmo assim, não gostei de como escreveram. Parece que estão dizendo que eu não sou qualificada para ser VIP.

Apesar de estar no time dos sonhos, Horikita ainda pensava como alguém isolada. Bem típico dela.

— Neste exame há uma diferença enorme entre os escolhidos e os outros. Quem não foi escolhido vai ter que se esforçar para descobrir o VIP. A escola disse que não haveria desvantagens, mas isso foi mentira. A menos que o VIP seja da sua própria classe, a probabilidade de a diferença de pontos aumentar é enorme.

Era verdade. Dependendo do resultado, a diferença que havíamos reduzido após o primeiro exame poderia aumentar de novo.

— Os líderes de cada grupo provavelmente já estão elaborando várias estratégias. Se não decidirmos cedo como vamos agir, talvez não consigamos recuperar.

— Entendo — respondeu Horikita.

Ela me lançou um olhar levemente frustrado. Eu estava tentando definir como travar essa batalha. Considerando os membros do meu grupo e o funcionamento da prova, um objetivo começou a tomar forma.

— Está pensando nos resultados? — perguntou Horikita, observando minha expressão. Parecia hesitante.

— Ainda há coisas que não consigo prever, como a reação de alguns alunos que não conheço. Só vou saber depois de encontrá-los. Mas pensei numa forma de nos levar à vitória.

Claro, não poderíamos agir de maneira imprudente. Eu teria que escolher o momento certo, e tudo teria que estar preparado com antecedência.

— Estou ansiosa pelos seus resultados — disse Horikita.

— Eu também. Quero ver o que você vai fazer com o seu grupo — respondi.

Mas algo naquela mensagem ainda me incomodava. "Após cuidadosa consideração", dizia. Essa escolha de palavras não era por acaso. Mashima-sensei dissera algo semelhante. O VIP fora escolhido com base em certos critérios. Havia algo que diferenciava os escolhidos.

Mas eu não podia me prender demais à semântica. O que importava era que havia uma pessoa escolhida em cada grupo. Ou seja, doze VIPs.

— Para referência… de quem você desconfia mais? Pelo que vem acontecendo, queria ouvir sua opinião — disse Horikita.

A atenção dela havia mudado um pouco. Estando no grupo mais intenso, isso não surpreendia.

— Ryuen — respondi.

— Isso foi rápido.

— Não escolheria outra pessoa.

— E o Katsuragi-kun? Foi por causa dele que a Classe A conseguiu segurar aquela posição privilegiada na ilha. Não é alguém que merece atenção?

— Claro. Considerando que ainda é do primeiro ano, ele é excelente. Se você perguntasse quem é o aluno mais capaz, eu diria Katsuragi. Mas, se está perguntando de quem eu desconfio… então é Ryuen, de longe.

A Classe D vencera a prova na ilha, sem dúvida. Ryuen havia falhado em vários aspectos. Ele deixara claras demais suas intenções; era fácil ler seus movimentos. No entanto, era bem provável que ele também tivesse percebido as minhas intenções. Eu queria evitar que ele descobrisse que eu era o responsável pelo sucesso de Horikita na ilha.

— Estou curiosa sobre algumas coisas relacionadas ao VIP. Mesmo depois de ler a mensagem e pensar um pouco, você não achou certas frases meio estranhas no e-mail da escola? E a rigidez—

Começou Horikita. Eu a silenciei colocando meu dedo sobre seus lábios. Falando no diabo — uma sombra surgiu diante de nós.

— Tempo bom, hein, Suzune? Tomando café com esse beta grudento?

Duas pessoas se aproximaram, cada uma com um sorriso desagradável. Um deles era Ryuen, justamente o assunto da nossa conversa. A outra pessoa era…

— Eu já avisei para não me chamar pelo primeiro nome, Ryuen-kun. E, considerando que você foi um vira-casaca que só fingiu ser nossa amiga, é estranho aparecer assim, Ibuki-san.

Ao lado de Ryuen estava uma estudante, Ibuki Mio. Havia um brilho arrogante em seus olhos. Ela também estava no grupo Coelho comigo.

Ibuki pareceu um pouco contrariada com a leve provocação de Horikita, mas não retrucou. Em vez disso, mordeu levemente o lábio inferior. Ryuen, observando tudo de canto de olho, exibiu um sorriso satisfeito. Durante o exame na ilha, Ibuki havia se infiltrado na Classe D como espiã. No fim, Horikita pegara Ibuki no flagra, mas acabou recebendo um soco dela durante o confronto que se seguiu. Horikita insistia firmemente que, se não estivesse doente na época, não teria perdido a luta, mas nesse momento eu não estava preocupado com quem era mais forte.

Ryuen silenciou Ibuki. Parecia zombar de nós.

— Vocês já devem ter recebido a mensagem. Quais foram os resultados? Foram escolhidos como VIP?

— Como se eu fosse te contar. Talvez você gostaria de nos falar sobre a sua mensagem? — respondeu Horikita.

— Se insiste.

Ryuen montou numa das cadeiras vagas.

— Mas antes disso, quero te perguntar uma coisa. Como vocês conseguiram aquele resultado no exame da ilha?

— Não tenho nada a dizer — respondeu Horikita.

Ela parecia completamente calma, sem tremer ou vacilar. E não havia nada de falso em sua postura. Ela tinha uma capacidade de atuação incrível — embora provavelmente nem achasse que estivesse atuando. Mesmo sem mostrar qualquer fraqueza, Ryuen não parecia convencido.

— Imagino que não revele nada, mas isso não importa. De acordo com minhas informações, não havia chance de aquela palhaçada que vocês fizeram na ilha resultar em vitória — disse Ryuen.

— Eu não sou estúpida a ponto de deixar alguém como ela me ler como um livro. As coisas só foram mais difíceis por causa da febre.

Diante dessa provocação mais direta, Ibuki não conseguiu conter a irritação.

— Nesse caso, vamos ter uma revanche — desafiou.

Horikita manteve a calma enquanto Ibuki ficava cada vez mais exaltada.

— Lamento, mas vou recusar sua oferta. Ações violentas são consideradas violação das regras do exame. Se você me atacar, não hesitarei em denunciar para a escola. De qualquer forma, sinta-se livre para fazer o que quiser — disse ela, num tom plano.

— Tch!

Ibuki aproximou-se de Horikita, parecendo prestes a avançar, mas se conteve. Se ela perdesse a cabeça ali, não escaparia de ser punida. E, acima de tudo, Ibuki estava trabalhando sob o comando de Ryuen. Ela não tinha liberdade para agir como quisesse. Embora detestasse Ryuen abertamente, Ibuki também era excepcionalmente talentosa — provavelmente por isso ele a escolhera para se infiltrar na Classe D como espiã.

— Já que estamos todos aqui, que tal um café? Parece um bom momento para apreciar uma xícara — sugeriu Horikita.

Ela parecia de um humor estranhamente bom ao pedir seu café da manhã. Pedi o mesmo. Ryuen não demonstrou vontade de ir embora; aparentemente queria continuar a conversa. Ele observou a silenciosa Horikita, e voltou a falar quando o café chegou.

— Ontem, parecia que Katsuragi estava bem cauteloso com você — disse.

— Bem, isso é compreensível. Ele não imaginaria que alguém da Classe D se sairia tão bem. Não é por isso que você e Ibuki-san estão aqui? Vieram me avaliar. Estou errada? — perguntou Horikita.

— Heh. Não vou negar. Vim medir suas habilidades pessoalmente — respondeu ele.

— Claro — disse Horikita, tomando seu café. Ela parecia à vontade, o que era incomum.

— Katsuragi e eu pensamos de forma diferente. Quando lido com alguém, gosto de manter os olhos sobre essa pessoa.

— Faça como quiser, mas o que exatamente você está pensando? — perguntou Horikita.

— Estou me lembrando do exame na ilha. Do resultado. Do processo que levou até ele. Só certos tipos de pessoas seriam capazes de conceber e executar um plano daqueles. Uma garota como você é séria demais para ter pensado naquilo — argumentou Ryuen.

— Pense o que quiser. Mas eu fico curiosa… como você descobriu minha estratégia? Você só viu o resultado do exame. Como sabe de que forma os pontos foram ganhos ou perdidos? Esses detalhes deveriam ser desconhecidos — rebateu Horikita.

Diante da tranquilidade dela, Ryuen exibiu um sorriso curioso, mostrando os dentes.

— Katsuragi provavelmente não sabia.

Pelo modo como disse aquilo, era quase certo que Ryuen sabia.

— Bem, por que não explica para mim? Se estiver certo, eu lhe darei uma resposta. Se conseguir responder, claro — acrescentou Horikita. Ryuen apenas riu, inquietante.

— No final do exame, escrevi seu nome como líder, mas isso estava errado. Há apenas uma razão para isso ter sido um erro: o líder da sua classe mudou pouco antes do término. É a única explicação possível — ponderou Ryuen.

— Você acha isso difícil de deduzir? Qualquer idiota teria percebido isso se pensasse um minuto. Até mesmo o Katsuragi-kun, de quem você vive zombando — respondeu Horikita.

— Ah. Porém, Katsuragi acha que você planejou tudo. Mas será que foi mesmo assim? Na minha opinião, você virar líder e depois renunciar foram dois acontecimentos totalmente inesperados. Além disso, eu tinha minha própria estratégia. Mandei Ibuki se infiltrar na sua classe para descobrir a identidade do líder. E você não fez nada para impedir isso no começo — disse Ryuen.

— É possível que eu simplesmente tenha tomado as devidas precauções. Preparar-se para o desconhecido é lógica básica. No momento em que Ibuki-san teve contato com a Classe D, considerei todas as possibilidades. Você estava tão confiante, mas seu argumento acabou sendo frágil. Não disse nada surpreendente — respondeu Horikita.

— A questão-chave é quem assumiu o posto de líder no seu lugar. Pessoalmente, acredito que o segundo líder estava puxando suas cordas nos bastidores durante todo o exame.

Era exatamente como Ryuen afirmava. Embora falasse com Horikita, seus olhos observavam a mim, silenciosamente. Se eu demonstrasse qualquer abalo, ele atacaria.

— Sinto muito, mas não entendo nada do que está dizendo. Eu não tenho amigos próximos. O mais próximo disso seria Ayanokoji-kun aqui — e ele sempre está me atrapalhando. Seria difícil dizer que ele trabalha comigo. Triste, mas verdadeiro — respondeu Horikita.

Ao chamar atenção para mim desse jeito, Horikita conseguiu me fazer parecer completamente inútil. Muito bem jogado.

— Entretanto, mesmo que tivéssemos trocado de líder, ele não seria o candidato mais provável.

— Entendo.

Ryuen lançou um olhar para mim, e logo desviou.

— Bem, suponho que isso seja esperado de um seguidor grudento.

— Então agora você compreende. Mas fico pensando qual foi a base da sua hipótese — disse Horikita.

— Esse cara que está com você é consideravelmente inteligente. Apesar disso, não conseguiu nada significativo, nem tirou notas altas. Ele tem qualidades excelentes, mas ainda tenho minhas dúvidas — disse Ryuuen.

— Você investigou bem a Classe D, pelo visto. Ayanokoji-kun, estamos te depreciando sem piedade. Não vai se defender? — perguntou Horikita.

— Eu me defenderia se tivesse algo para defender — respondi.

Minha fachada preguiçosa tinha se tornado meu contra-ataque perfeito. Não sei exatamente como, mas Ryuen parecia ter me entendido. Talvez tivesse observado minhas habilidades acadêmicas, físicas e até de comunicação. Notas eram objetivas e confiáveis. Não havia como enganar ninguém com isso.

— Sinto muito, mas o que você está dizendo é pura bobagem. Parece uma desculpa infantil, usada porque você está irritado por ter perdido e agora precisa recorrer a fantasias. Fica envergonhado porque uma garota conseguiu ver seus truques? — provocou Horikita.

— Entendo seu ponto. Nunca imaginei que você me passaria a perna. Admito. Os resultados do exame me chocaram — respondeu Ryuen.

Mesmo admitindo fraqueza, ele riu. Na verdade, parecia achar que nossas ações tinham sido quase irracionais.

— Bem, que pena. Eu adoro ataques surpresa, golpes baixos e trapaças. Aquele nível de estratégia foi totalmente inesperado, mas a sua onda de vitória logo vai acabar. Seja você, Suzune, ou alguém te guiando pelos bastidores, vocês são idiotas. Já fizeram a melhor jogada que tinham. A Classe D está um ou dois passos atrás das outras em pontos. O desafio só vai esquentar daqui pra frente. Vocês já gastaram seu trunfo no exame de sobrevivência, quando o jogo mal tinha começado. Não viram o que estava à frente nem atrás de vocês. Duvido que esta rodada seja tão fácil quanto a última. Diga isso para quem quer que tenha ajudado vocês a vencer — alertou Ryuen.

— Meu Deus, que consideração da sua parte — disse Horikita.

— O que posso dizer? Sou bastante misericordioso.

— Parece que você realmente quer acreditar que existe uma arma secreta na nossa classe — observou Horikita.

Ryuen não respondeu. Mesmo sem provas, não conseguia deixar de desconfiar de Horikita. Ele acreditava em si mesmo mais do que em qualquer outra pessoa. Recusava-se a aceitar até o menor conselho. E não parecia querer confirmar nada naquela conversa — apenas passar o tempo se divertindo às nossas custas.

Ryuen pegou o celular e apontou para Horikita. Tirou uma foto, o som do obturador ecoando pelo café.

— Não tire fotos minhas sem permissão! — reclamou Horikita.

— Relaxa. Aqui, vou te mostrar — disse Ryuen.

Ele olhou para a foto, na qual Horikita aparecia com uma expressão especialmente azeda. Depois guardou o celular, satisfeito.

— Alguém na Classe D, além de você, é bem esperto. Não há dúvida disso.

— Bem, isso não é ótimo? Não me importo particularmente. Além disso, se você tira conclusões arbitrárias, por que ficar me pressionando para confirmar? — perguntou Horikita.

— Uma conversa revela muitas sutilezas. Fico feliz por ter falado com você, Suzune. Para mim é um jogo. Vou descobrir quem está mexendo os pauzinhos nos bastidores. Todos vocês — inclusive esse seu amigo grudento — são alvos — disse Ryuen.

— Deixe-me te perguntar algo. Eu sei que te dói o fato de eu ter te desmascarado, mas por que essa fixação comigo? Você não se preocupa com mais ninguém? Como Ichinose-san, ou Katsuragi-kun? Dizem por aí que existe alguém chamada Sakayanagi também. Não deveria estar preocupado com as classes acima da C? Isso pelo menos você deveria conseguir responder — disse Horikita.

Ela tinha razão em questioná-lo. O foco de Ryuen era francamente obsessivo.

— Já conheço as habilidades deles, até certo ponto. Nem Katsuragi nem Ichinose são meus inimigos. Se eu quisesse esmagá-los, poderia fazer isso a qualquer momento.

— E quanto à Sakayanagi?

Quem perguntou foi Ibuki, não Horikita. Ela claramente queria essa resposta. Ryuen, que tinha permanecido inabalável até então, ficou em silêncio por um momento antes de responder:

— Estou guardando ela para o prato principal. Seria um desperdício comer agora. Vamos, Ibuki.

Ryuen se levantou e foi embora com sua subordinada.

— Você é uma pessoa de interesse, Horikita — murmurei.

— E de quem é a culpa disso, hein?

— Está irritada?

— Não exatamente. Só detesto esse seu jeito sarcástico de falar. Sempre tive como objetivo alcançar a Classe A, então já imaginava que chamaria atenção — respondeu.

— Fico feliz em ouvir isso. Mas, de toda forma, isso não parece bom. Ryuen não é um adversário comum.

— Sério? Acho que ele só não gostou de eu ter visto através dele e queria me enganar para que eu revelasse algo. Não consigo imaginar que ele tenha reduzido a lista de suspeitos a você. E mesmo que descobrisse sua identidade, você seria o único a ter problemas — disse Horikita.

Eu sabia que ele desconfiava de mim, mas isso não importava muito. Eu não sabia o que Ryuen estava planejando, mas o fato de ter vindo até aqui já era perigoso.

— Acho que estávamos sendo espionados. Ele aparecer assim de repente é conveniente demais — falei.

— Está falando da Ibuki-san?

— Talvez ela tenha sido forçada a nos vigiar, ou talvez simplesmente tenha nos encontrado por acaso. Se for isso, até nos ajudaria — respondi.

Ibuki parecia longe de estar cansada. Talvez outra pessoa estivesse vigiando, mas Ibuki provavelmente estava envolvida, já que estava andando com Ryuen. Se eu tivesse que adivinhar, diria que Ryuen já estava colocando sua nova estratégia em prática, usando este exame para isso. Eu fui a primeira pessoa a me encontrar com Horikita — e talvez uma das poucas que ele suspeitaria.

— Um erro — murmurei.

Ele parecia querer dizer que havia alguém inteligente ali, alguém como ele — mas isso era fácil demais. Nosso encontro talvez tivesse dado a Ryuen uma pista maior do que eu imaginava. Talvez eu estivesse exagerando?

— Você está pensando demais. Ninguém acha que você está envolvido. Apesar do que ele disse, ele acha que você é uma pessoa comum, considerando seus resultados medíocres no primeiro semestre — disse Horikita.

Não sabia se aquilo era um elogio ou uma crítica, mas ela tinha razão. Por mais que Ryuen investigasse, não encontraria nada sobre mim. Mesmo assim, por eu ser próximo de Horikita, seria inevitavelmente observado. E com Ibuki no meu grupo, eu teria dificuldades. Seria complicado agir.

Mais alunos começaram a aparecer ao nosso redor, e eu me levantei.

— Acho que por enquanto já deu. Ainda estou com sono, então vou voltar para o meu quarto — murmurei.

Horikita pareceu tranquila com isso, como se não precisasse de mais conselhos.

— Conversar daqui em diante provavelmente é inútil. Vamos cada um para o seu lado. De qualquer forma, bom trabalho. Se avançar em algo, me informe.

Mesmo cercada por adversários fortes, Horikita permanecia inabalável. Bem, Hirata e Kushida provavelmente a manteriam equilibrada. Eu voltaria ao meu quarto e dormiria até a tarde. Apesar de o exame ter começado, eu seria inútil até que chegasse minha hora de agir.

*

 

— Desculpem a demora! Urp! Urp! Se você come três refeições pesadas no almoço, é natural que acabe de barriga cheia. Considerei fazer dieta, mas parece inútil — disse o Professor.

Ele caminhou até mim enquanto dava tapinhas na própria barriga, que estava ainda mais estufada que o normal. Encontramos Yukimura e ele bem em frente à sala marcada.

— Você está bem tranquilo, considerando que o exame acabou de começar. Eu mal consigo comer.

— Se você não estiver em força total, teremos problemas. É como escolher a dificuldade mais alta num videogame, não concorda? — respondeu o Professor.

— Para de falar assim. É esquisito — disse Yukimura.

Para quem não estava acostumado à cultura nerd, tudo o que o Professor dizia parecia algum tipo de magia arcana. Depois que você se acostumava, era tranquilo. Mas, se eu tentasse entrar no assunto agora, provavelmente irritaria Yukimura — então preferi me segurar.

— Oh ho! Hmm, tu não gostas das minhas idiossincrasias linguísticas? Pois então, Yukimura-dono, como preferis que eu fale? — O Professor parecia querer provocar Yukimura.

— Tanto faz, não me importo. Só fala normal.

— A partir de agora, serei como o protagonista que parece fraco, mas secretamente tem um poder absurdo. Normalmente não tenho motivação, mas vou virar um trapaceiro completamente OP, capaz de destruir o mundo inteiro. Estou apenas seguindo as tendências atuais! — divagou o Professor.

Ele queria se transformar em algum personagem misterioso de anime ou jogo. Eu já não entendia mais nada do que ele falava. Se estivéssemos num mangá de comédia, esse seria o momento em que os óculos de Yukimura rachariam.

Yukimura saiu andando na nossa frente, irritado. O Professor e eu fomos atrás.

— Ayanokoji. Quero te perguntar uma coisa. Me dê uma resposta direta — disse o Professor.

Ele estava falando como se fosse Takakura Ken, como se realmente fosse o protagonista de uma história. Até a expressão séria combinava. Eu tive que me segurar para não chamá-lo de "Ken-san".

— Quer me perguntar algo?

— Estive pensando em que tipo de padrão de fala você deve gostar. Claro, um dialeto agradável usado por uma heroína fofa seria ideal — disse o Professor, em um tom frio e estiloso… mas com o mesmo conteúdo de sempre.

— Não, eu não tenho preferência por padrões de fala. Nada em especial — respondi. Como alguém nascido e criado em Tóquio, eu realmente não conhecia muito sobre dialetos.

— Será que você já encontrou algum padrão de fala que achou moe? — perguntou o Professor.

Quem no mundo falava assim? Bem… eu ainda tinha tempo para matar, então continuei conversando.

— E você, Professor? Tem algum padrão de fala preferido? — perguntei.

— Claro que tenho. Vou ranqueá-los. Em terceiro lugar temos o clássico "Mesmo que diga isso, Kudo!", o famoso Kansai-ben! Passa a impressão de dureza ou grosseria, mas é a escolha óbvia. É um dialeto essencial. Em segundo lugar está a bela garota do país nevado — o Hokkaido-ben! Quando elas dizem "Ah, desculpa o incômodo, obrigada", e coisas assim… eu simplesmente desmaio! Esses termos únicos são tão moe que dá vontade de morrer! E ainda ganha pontos por não ser muito usado no mundo 2D! — declarou o Professor, empolgado.

Eu… não fazia ideia do que ele estava falando. Antes que pudesse organizar meus pensamentos, ele continuou, fazendo um rufar de tambor com a boca:

— Dourururururururu… E, em primeiro lugar, saltando das garotinhas para as irmãs mais velhas, o universal Hakata-ben! Quando eu ouço um "Eu gosto di tu!" ou "Tu gosta di mim?", é maravilhoso! Além da enorme variação que o dialeto oferece, ele é também um dos mais amplos em sua essência! Esses três são, de longe, os melhores! — gritou o Professor.

Infelizmente, ele estava falando uma língua que eu não falava, mas sua paixão era clara. Pelo menos, matamos tempo.

Chegamos à sala do segundo andar com a placa "Coelho". O exame tinha acabado de começar, então os corredores estavam lotados, mas não apertados — provavelmente porque o navio era grande demais.

— O tempo de brincadeiras acabou ontem. Daqui pra frente, temos que lutar por nós mesmos e por nossas classes — disse Yukimura, olhando para o Professor. Eu apenas assenti.

— Ugh. De qualquer ângulo que você olhe, nós realmente temos o pior time.

Karuizawa entrou na sala desviando o olhar de nós. Éramos onze pessoas, contando com ela, e todos nos sentamos em cadeiras dispostas em um grande círculo. Pelos poucos lugares vazios, éramos provavelmente os últimos a chegar. Eu não conhecia todos os nomes, mas além de Ichinose e Ibuki, havia outro aluno que reconheci — o garoto da Classe A que encontrei por acaso no exame anterior, aquele que sugeriu que eu traísse a Classe D. Eu não reconhecia o restante.

Até ontem, éramos rivais. De repente, precisávamos cooperar.

Naturalmente, as outras classes também estavam confusas, não só a Classe D.

Os alunos se dividiram em pequenos grupos naturais, baseados em suas classes, mas Karuizawa e Ibuki se sentaram mais afastadas, isoladas.

— Por que elas…? — murmurei.

— O que foi, Ayanokoji? Alguma coisa na sua mente?

— Não é nada — respondi.

Imaginei que Karuizawa enfrentaria Ibuki no momento em que a visse. Afinal, Ibuki Mio havia roubado a calcinha dela na ilha. Deveria querer se vingar, mas… talvez Karuizawa fosse mais madura do que eu pensava. Ou talvez já tivesse se vingado. De qualquer forma, parecia estranho.

Antes que eu falasse algo, uma voz ecoou pelos alto-falantes do navio: "A primeira discussão do grupo começa agora."

Um anúncio curto e direto.

Naturalmente, ninguém tomou a liderança. Um silêncio desconfortável pairou sobre a sala. Então, Ichinose Honami sorriu levemente e se levantou.

— Atenção, por favor! Eu não conheço a maioria de vocês, mas acho que deveríamos nos apresentar. Afinal, provavelmente há pessoas aqui que nunca se encontraram antes — disse Ichinose.

Era bem típico dela assumir a liderança imediatamente. Não era fácil tomar iniciativa e unir um grupo de pessoas, por mais popular que se fosse. O fato de sermos "inimigos" não tornava a tarefa mais simples, mas Ichinose não parecia se incomodar com o papel. Na verdade, parecia até se divertir. Alguns alunos da Classe A pareciam um pouco desconcertados.

— Será mesmo necessário nos apresentar? Acho que a escola não falou isso seriamente. É só deixar quem quiser se apresentar, não é? — disse Machida.

— Bem, se você pensa assim, Machida-kun, não posso te obrigar a nada. Mas… não acha possível que tenham colocado um microfone escondido na sala para registrar tudo o que dissermos? Se for verdade, talvez não seja apenas um problema para quem se recusar a se apresentar. Pode acabar recaindo sobre o grupo inteiro — alertou Ichinose.

Ela tinha razão. A falta de cooperação de um indivíduo poderia prejudicar todos nós. Colocado daquela forma, nem Machida conseguiu refutar.

Ichinose se apresentou primeiro. Eu tentei colocar um pouco mais de esforço na minha apresentação, lembrando de como tinha falhado miseravelmente na cerimônia de entrada, mas no fim ficou tão monótona quanto antes.

— Ei, Ayanokoji-kun. Parece que estamos no mesmo grupo! Estou animada para trabalhar com você — disse Ichinose.

Ela provavelmente queria me consolar um pouco. Sentei-me novamente. Depois que todos terminaram, Ichinose tornou a falar:

— Agora que terminamos, como vocês acham que devemos prosseguir? Caso alguém discorde de eu assumir a liderança, por favor, diga agora — disse Ichinose.

Ela realmente esperava que alguém voluntariasse outra liderança. Mas, para isso, seria preciso que a pessoa se oferecesse publicamente. Alguns talvez estivessem insatisfeitos com a forma como Ichinose conduzia tudo, mas provavelmente temiam acabar com o cargo de líder — então ninguém levantou a mão.

— Bom, já que ninguém parece querer a posição, assumirei a liderança. Para começar, acho que devemos discutir qualquer ponto que esteja confuso ou preocupando alguém. Se não fizermos isso, a situação pode piorar depois. Alguém tem alguma pergunta?

Como sempre ocorre, ninguém quis falar para não parecer idiota diante do grupo. Ichinose colocou a mão no quadril e sorriu, imperturbável.

— Eu gostaria de discutir uma coisa com todos. Quero que vocês partam do princípio de que ninguém aqui é o VIP, e gostaria que trabalhássemos juntos para superar este exame. Em outras palavras, quero saber se vocês acham que a melhor opção é perseguirmos o Resultado nº 1 — disse Ichinose.

— Do que você está falando? Isso não é óbvio? — rebateu Karuizawa.

Karuizawa não entendeu, mas com essa pergunta simples, uma hierarquia se formou no grupo. A represa se rompeu. Yukimura e uma garota da Classe C chamada Manabe concordaram com ela e disseram que obviamente queriam cooperar. Se todos desejassem isso, passaríamos com o Resultado 1. Uma opinião natural.

Um dos garotos da Classe B levantou a mão. O cabelo azul e liso balançou levemente. Era um jovem magro, com aparência quase andrógina, que se apresentara como Hamaguchi Tetsuya.

— Eu concordo, claro. Somos um grupo, e é natural cooperarmos — disse Tetsuya.

Foi uma boa abertura. Se a pergunta de Ichinose parecia óbvia para alguém, isso significava que essa pessoa não era o VIP. O VIP seria forçado a mentir enquanto observava se seu comportamento combinava com o do grupo. Se alguém caísse na armadilha, poderíamos começar a reduzir possibilidades.

Claro, a situação não era tão simples. Seria perigoso tirar conclusões com base apenas nisso. Ichinose falou primeiro; Karuizawa foi a primeira a concordar. Yukimura e Manabe seguiram, e depois Hamaguchi. Não seria surpreendente se algum deles fosse o VIP. Mentir descaradamente poderia afastar qualquer suspeita.

Decidi entrar na conversa.

— Também concordo. Somos um grupo, como vocês disseram, e todos podemos usar pontos privados. Se for possível, quero que cooperemos. O que acha, Professor?

O Professor, que estava esfregando a barriga inchada, se sobressaltou ao ouvir seu nome.

— Claro que vou cooperar. Quero pontos — respondeu.

Pelo tom de voz, parecia que o Professor ainda tentava interpretar algum "personagem misterioso". Nunca o tinha visto falar daquele jeito. Os únicos que pareciam duvidosos eram os garotos da Classe A. Eles analisavam tudo com calma, considerando a opinião de cada pessoa.

— Ichinose, essa pergunta foi injusta, não acha? Se você diz algo como "assumam que ninguém aqui é o VIP", está chamando o VIP de vilão, sutilmente. Além disso, nenhuma pessoa normal anunciaria que pretende trair alguém — disse Machida, com desconfiança clara.

A resposta dele era bem diferente das Classes C e D. Machida parecia desconfiar de Ichinose e disposto a criticá-la.

Hamaguchi respondeu imediatamente, com calma.

— Mas não é uma pergunta perfeitamente válida? Ichinose-san não nos ameaçou. Não nos obrigou a responder. Se você não quiser responder, não precisa.

Hamaguchi afastou as críticas da Classe A com elegância. Um pequeno duelo verbal se formava. Machida não se abalou; pelo contrário, parecia esperar por aquela resposta.

— Isso é verdade. Nesse caso, acho que todos nós da Classe A permaneceremos em silêncio — disse Machida, cruzando os braços. Os outros dois alunos da Classe A seguiram o exemplo. E todos que ainda não tinham respondido decidiram ficar calados também.

— Talvez minha pergunta tenha sido dura demais? — murmurou Ichinose, com um sorriso amargo.

— Não, acho que a sua pergunta foi válida, Ichinose-san. Eles estão excessivamente defensivos. Gostaria de perguntar uma coisa a você, Machida-kun. Que tipo de pergunta acha apropriada, então? Discutir comidas favoritas ou hobbies certamente não tem relevância para o exame. Se vocês simplesmente se recusam a participar, então não vejo como proporcionarão algo de valor — disse Hamaguchi.

— Nada a oferecer? Isso não é verdade — retrucou Machida.

— Eu não sei exatamente por que Ichinose-san fez essa pergunta. No entanto, este exame exige que encontremos uma solução através da discussão. Se os alunos da Classe A quiserem ficar em silêncio, então seguiremos sem vocês. Mas, ao menos, por que não dizem o que acham que deveríamos estar discutindo?

Hamaguchi estava certo. Machida sabia disso, mas manteve os braços cruzados e se recusou a responder. Ichinose parecia estar diante de um portão de castelo trancado. Ela se preparou para usar seu aríete verbal.

— Eu realmente não queria chegar a isso, mas pensem bem. Às vezes, podemos precisar tomar decisões com base na maioria. As pessoas certamente irão desconfiar de quem não quiser responder às perguntas, e o grupo pode acabar se voltando contra esses indivíduos. O que você acha disso? — perguntou Ichinose.

A lógica de Ichinose era semelhante à de Horikita, mas havia uma diferença crucial: Ichinose conseguia unir as pessoas. Tomar ações táticas enquanto conquistava a aprovação do grupo mostrava sua força de persuasão. Como a maior parte da sala já estava do lado dela, era a líder de fato. Era simples, mas eficaz. Eu não conhecia ninguém na escola capaz de replicar aquilo. Nem Katsuragi, nem Ryuen. Mesmo Hirata e Kushida, com sua multidão de amigos, poderiam ser superados por Ichinose.

— Isso é uma ameaça? — perguntou Machida.

— Por favor, não me entenda mal. Só quero conversar. Você pode responder como quiser, mas quero que todos participem desse exame. Em outras palavras, quero que contribuam — disse Ichinose.

Machida murmurou algo para si mesmo antes de disparar:

— Mas esse exame realmente vai ser resolvido com discussão? Vocês realmente vão descobrir o VIP conversando? Ou vão abaixar a cabeça e pedir ajuda ao VIP?

Aparentemente, a política da Classe A já estava definida. Mas eu duvidava que Machida fosse quem detinha o poder ali. Sentia que havia alguém por trás dele puxando as cordas.

— Há outro caminho, então? — perguntou Ichinose.

Nove em cada dez vezes, não haveria. Mas a Classe A parecia estar esperando exatamente essa pergunta.

— Há sim. Existe uma forma simples de superar esse exame e terminar na vantagem — respondeu Machida sem qualquer hesitação ou nervosismo.

Ichinose e Hamaguchi não conseguiram esconder a surpresa.

— Se não se importar, poderia nos explicar? — pediu Ichinose.

— Claro. Como grupo, devemos compartilhar informações valiosas — disse Machida.

Sua falsa generosidade não enganava ninguém. Ele estava prestes a explicar a estratégia da Classe A — algo extremamente simples.

— Eu recomendo que não discutamos nada — disse ele, alto o bastante para que todos ouvissem.

Karuizawa e o Professor pareceram entender imediatamente.

— Bem, essa é… uma ideia bem peculiar. Mas como exatamente vamos sair por cima sem discutir nada? Você acha que devemos manter o VIP anônimo e simplesmente desistir de prosseguir? — perguntou Hamaguchi, levemente irritado.

— Exato. O atalho para a vitória é evitar discussões desnecessárias — respondeu Machida.

— Não consigo acreditar nisso. Aliás, estou começando a achar que o VIP é alguém da Classe A. Vocês estão compartilhando informações com ele e tomando medidas para protegê-lo? — questionou Hamaguchi.

Ele tinha razão. Pensem bem: se o VIP fosse da sua própria classe, revelar isso tornaria qualquer discussão inútil. A suspeita de Hamaguchi era totalmente válida.

— Não importa de que classe o VIP seja. Você com certeza vence se não falar. Essa foi a proposta do Katsuragi-san.

— Katsuragi-kun? Entendo — disse Ichinose.

Assim que ouviu o nome Katsuragi, ela pareceu compreender tudo imediatamente. Machida educadamente explicou os detalhes para Yukimura e os outros, que ainda não tinham entendido.

— Existem apenas quatro possíveis desfechos. Vocês sabem quais são. Pensem: qual deles devemos absolutamente evitar? — perguntou Machida. Ele então olhou para Karuizawa, como se a estivesse escolhendo para responder.

— Hmm… O resultado em que alguém descobre a identidade do VIP e trai o grupo? — disse ela.

— Exatamente. Se surgir um traidor, estaremos acabados. Com ou sem provas, será nossa derrota. Mas e se invertermos a situação? — perguntou Machida, olhando agora para Yukimura.

— Você quer dizer que não haveria consequências negativas? — perguntou Yukimura.

— Exatamente. Não há penalidades nos outros dois resultados. Os pontos das classes não aumentam nem diminuem muito. Entretanto, ganharíamos muitos pontos privados. O único prejudicado seria a escola. Portanto, não há motivo para tentar descobrir quem é o VIP. Se discutirmos, começaremos a suspeitar uns dos outros, e alguém pode cometer um erro — disse Machida.

— Eu entendo seu ponto. Mas se não soubermos de que classe é o VIP, a diferença entre classes pode aumentar ainda mais. E se a seleção for enviesada, e todos os VIPs forem escolhidos de apenas uma ou duas classes? Essa classe ganharia milhões de pontos. Mesmo que nossos pontos de classe não mudem, acho que todos entendem a importância dos pontos privados — rebateu Hamaguchi.

Ele tinha razão. Pontos privados eram extremamente valiosos na nossa escola. Podiam ser usados como dinheiro, mas também serviam para comprar notas. Dependendo da situação, davam poder para quase tudo. Hamaguchi afirmava que, já que não sabíamos como os VIPs estavam distribuídos, não deveríamos adotar essa estratégia.

Mas esse argumento não funcionaria para a Classe A. Afinal, estávamos lidando com Katsuragi. Ele provavelmente havia percebido o "truque" do exame. Do contrário, jamais teria sugerido tal estratégia.

— Pensando bem, a escola nunca distribuiria os VIPs de maneira desigual. Eles odeiam injustiça a ponto de enfatizarem isso antes mesmo do exame começar. O fato de haver apenas um VIP por grupo não importa tanto. O que importa é que todas as classes tenham igualdade de oportunidade para terem VIPs. Caso contrário, o exame já começaria injusto. Isso é possível? Não, não é. Afinal, o exame anterior na ilha foi justo, não foi? Não há dúvida de que as Classes A até D começam em pé de igualdade — argumentou Machida.

Katsuragi havia proposto que os VIPs estavam distribuídos de forma justa entre os grupos. Seu plano era deixar o exame correr tranquilamente, para que todas as classes recebessem a mesma quantidade de pontos. No entanto, Hamaguchi ainda não tinha terminado.

— É certamente verdade que a escola tem feito questão de enfatizar seu compromisso com a justiça. Se acreditamos nisso, então você está certo — disse ele.

A escola provavelmente não seria descuidada a ponto de favorecer inadvertidamente uma turma. Isso era fácil de deduzir.

— Então você entende agora. Se conversarmos entre nós, criaremos desconfiança, o que vai nos despedaçar. Como resultado, nosso relacionamento como grupo vai ruir. Certamente poderíamos descobrir quem é o VIP, mas essa estratégia pode inspirar um traidor que queira a vitória para si. Não há realmente necessidade de pensar demais — disse Machida.

— Suponho que sim. Não é algo ruim se a única perdedora for a escola — respondeu Ichinose.

Ichinose pareceu receptiva à estratégia de Katsuragi. Machida agiu como se já esperasse a concordância dela, mas Ichinose ainda não havia terminado.

— No entanto, isso vai ser inesperadamente difícil. Pode até ser mais difícil do que resolver o teste por meio de discussão. Se você não desconfia do seu parceiro, não o trai. Todos os alunos do primeiro ano teriam de aderir a isso. Como a escola garante o anonimato do VIP, você está pedindo confiança entre os colegas. Seria ótimo se o VIP se manifestasse e os pontos fossem compartilhados igualmente com a turma, mas o VIP não poderia simplesmente monopolizar todos esses pontos?

— Nós, da Classe A, estabelecemos confiança total entre nós. Não estamos nem um pouco preocupados com isso. Questões privadas devem ser resolvidas por esse grupo privado — respondeu Machida.

O plano de Katsuragi era jogar na defesa, quase como se estivesse levantando barreiras. Para executar sua estratégia, ele precisaria da cooperação de todos no grupo — uma proposta difícil. No entanto, era realmente um plano simples que qualquer um poderia colocar em prática. Tudo o que exigia de nós era não conversar. Você poderia dizer que essa estratégia era uma forma de "quebrar" o teste.

— A estratégia da Classe A não é boa, afinal? Não posso dizer que encontre problemas nela. Assim que a prova terminar, as turmas podem conversar entre si e dividir os pontos — disse o Professor.

O Professor, por algum motivo, havia voltado ao seu tom nerd habitual. Algo no que ele disse deve ter repercutido, porque seu sentimento se espalhou para a Classe C. Uma garota chamada Manabe compartilhou sua opinião.

— Concordo. Todo mundo dar a mesma resposta seria o resultado mais gratificante, mas se alguém mentisse ou nos traísse, estaríamos perdidos. Encontrar o VIP simplesmente não é realista.

Yukimura estava absorto em seus pensamentos, mas não parecia se opor à ideia. Pelo menos, não conseguiu expressar uma opinião. A conversa realmente apresentava um alto grau de dificuldade. Sentindo menos resistência, Machida sorriu e exibiu os dentes brancos.

— Entendo. Então, concordamos com o que o Machida-kun disse? Cada turma pode lidar com o problema depois que a prova terminar? — perguntou Ichinose.

De braços cruzados, ela olhou para as Classes D e C.

— Gostaria das opiniões de todos. Tudo bem? Primeiro, os que concordam com o plano, por favor levantem a mão.

Yukimura e o Professor levantaram a mão. Todos os alunos da Classe C, um tanto apreensivos, também levantaram, embora alguns tenham demorado mais para pensar. Ibuki foi a única que não o fez; continuou de braços cruzados, como estivera desde o início do teste. Ela não se moveu. Não falou.

— E você, Ibuki-san? Se não se importar, eu gostaria de ouvir seus pensamentos também — disse Ichinose.

— Tanto faz. Não tenho realmente nada a acrescentar — disse Ibuki.

Ela claramente se destacava dos outros três alunos da Classe C. Manabe e os demais não pareceram surpresos ou desconfiados de Ibuki. Devia ser simplesmente o jeito normal dela de agir.

— Entendo. E você, Karuizawa-san? — perguntou Ichinose.

— Eu… Para ser completamente honesta, estou irritada. Mesmo que vocês digam que vamos ganhar pontos, se eu vou receber algum é outra questão. Mas talvez a gente consiga pontos mesmo se tiver uma discussão… Não quero perder tempo brigando sobre o que vamos fazer. Só quero que esta prova acabe para podermos nos divertir.

Os outros alunos pareceram surpresos com a resposta dela.

— E você, Hamaguchi-kun? — perguntou Ichinose.

— Deixamos tudo por sua conta, Ichinose-san — ele respondeu.

Parecia que a confiança da turma de Ichinose nela era inabalável. Os outros dois alunos da Classe B assentiram em concordância.

— Obrigada. Por fim, falta perguntar a mais uma pessoa. — Ichinose se virou para mim. — O que você acha, Ayanokoji-kun?

— Digo, a estratégia é boa. Além disso, acho que a maioria aqui concorda, e eu nunca fui bom em conversar — respondi.

Eu defendi aceitar a estratégia. No entanto, duvidei que Ichinose simplesmente aceitasse o plano de Katsuragi tão facilmente. Não — se ela apenas desistisse e fosse com a maré, a Classe B estaria caminhando para um fim sombrio. A estratégia de Katsuragi escondia alguma coisa.

— Está decidido — disse Machida.

— Espere. Machida-kun. A estratégia do Katsuragi-kun certamente não é ruim. Com ela, não há necessidade de desconfiar, mentir ou ferir ninguém. No fim, receberíamos um número igual de pontos. Entendo por que muitos seguiriam esse plano. No entanto, quero que considerem algo com cuidado. Não consigo pensar em desvantagens nessa estratégia, mas você não diria que é por estar na Classe A que pode propor tal estratégia? Pode haver desvantagens que ainda não enxergamos — disse ela.

A resposta de Ichinose foi rápida e impressionante. Ela era como um submarino que todos acreditavam estar nas profundezas, apenas para surgir de repente sem fazer sequer um respingo.

— Uma desvantagem oculta? O que poderia ser isso? — perguntou Yukimura, claramente desconcertado. Parecia que ele ainda não havia pensado nesse ponto.

— Se assumirmos que as turmas têm o mesmo número de VIPs, então certamente acho possível ganhar muitos pontos igualmente, simplesmente não realizando discussões. Se isso for verdade, o plano só tem vantagens. No entanto, não seria injusto com as turmas mais fracas pedir que desperdicem essa chance?

— Bem, isso é…

— Não sabemos quantos testes especiais teremos antes da formatura, e a diferença entre a Classe A e as demais é extremamente clara. A Classe A também propôs aquela ideia extrema de alinhar todas as turmas durante o teste na ilha. Se a Classe A continuar recomendando essa estratégia sempre que houver um teste, nossas posições nunca vão mudar — continuou Ichinose.

Depois do que Ichinose apontou, o rosto de Yukimura ficou rígido. Era como se ele se perguntasse como pôde deixar passar algo tão simples. Machida havia construído sua proposta de forma inteligente, focando a atenção de todos apenas na ideia de "ganho e perda". Yukimura achara aquela opção melhor porque não conseguia enxergar o panorama completo.

— Eu não posso simplesmente desperdiçar uma oportunidade tão valiosa. Nem mesmo se a estratégia de vocês trouxer bons resultados — disse Ichinose.

— Concordamos com a Ichinose-san — afirmou Hamaguchi.

— Espere, Ichinose. Entendo o que está tentando dizer, mas se seguirmos o que você está propondo, haverá apenas um possível resultado. Só se todos responderem corretamente todos os membros do grupo ganharão muitos pontos. O resultado que você quer não vai acontecer. Ou você pretende descobrir a identidade do VIP por meio de discussão e, então, fazer com que a Classe B traia o resto de nós? Você acabou de perguntar a todos se queriam o primeiro resultado. Não parece muito confiável, não acha? — rebateu Machida.

— Você disse que isso não reduziria a diferença entre as turmas, mas isso não está correto. Temos quatro alunos da Classe D e quatro da Classe C no grupo. Há três da B e três da A. Em outras palavras, se concluirmos o teste com o primeiro resultado, as turmas mais baixas podem reduzir a diferença em relação às mais altas. Não concorda? — ela argumentou.

— Isso é verdade. Mas a Classe B, uma turma de nível mais alto, aceitaria isso? Não há benefício algum em sacrificar sua própria classe para que as inferiores ganhem algo — disse Machida.

— Se não seguirmos minha estratégia, deixaremos a Classe A liderar sem oposição. Seria especialmente ruim caso o VIP estivesse na Classe A — respondeu Ichinose.

É claro que, se o VIP não estivesse na Classe A, Ichinose não precisaria arriscar prejudicar sua própria turma para enfrentar a Classe A. No entanto, como era uma possibilidade, ela precisava insistir no diálogo.

— Concordo. Não podemos permitir que a Classe A continue aumentando a vantagem — acrescentou Yukimura.

O plano de Katsuragi havia me surpreendido, mas os argumentos de Ichinose e Hamaguchi fizeram aquilo parecer apenas uma tentativa apressada de blefe — algo improvisado no calor do momento. A compreensão que Ichinose tinha da Classe A permitiu que ela virasse o jogo com apenas algumas palavras. Os alunos que antes concordavam com o plano da Classe A agora estavam, em sua maioria, neutros ou inclinados a apoiar Ichinose. As Classes C e D provavelmente seguiriam com ela. Era como um duelo entre a Classe B, liderada por Ichinose, e a Classe A, liderada por Machida. E, naquele momento, a maré favorecia a Classe B.

— Então, vocês se opõem à nossa proposta. Lembrem-se de que a Classe A já tomou sua decisão. Não discutiremos nada, não importa o quê. Podem conversar entre vocês sobre o que quiserem — declarou Machida.

Como demonstração de separação, os três alunos da Classe A se levantaram e foram para o canto da sala. Parecia que planejavam passar o resto do tempo fazendo o que bem entendessem. Eu apostaria que os outros grupos da Classe A estavam fazendo o mesmo. A estratégia de Katsuragi era o movimento defensivo máximo: algo que deixaria toda a Classe A protegida atrás de um portão. Se o VIP estivesse na Classe A, seria extremamente difícil encontrá-lo.

— Muito bem, o que devemos fazer agora? — Ichinose olhou para as outras três turmas, ainda sentadas em círculo. — Eu queria evitar excluir alguém, mas não há nada que possamos fazer se essa é a política da turma. Se quiserem participar, é só me avisar — disse ela, gentil.

No entanto, os alunos da Classe A já tinham perdido o interesse.

— Não vai ser impossível encontrar o VIP sem a ajuda deles? — perguntou Yukimura, aflito com a mudança repentina. Seu tom soava quase como uma reclamação dirigida a Ichinose.

A atitude dele havia mudado desde poucos minutos antes, quando estava pronto para aceitar o plano conveniente da Classe A. Mesmo Yukimura queria evitar que a Classe D saísse prejudicada.

— Sim. Se o VIP do grupo Coelho estiver na Classe A, não será fácil restringir o número de suspeitos. Mas, em termos de probabilidade, há três chances em quatro de que ele esteja em uma das outras turmas. Além disso, mesmo que não saibamos quem é o VIP, se ao menos soubermos de que turma ele é, já teremos algumas opções. Certo? — perguntou Ichinose.

Ela não parecia focada inicialmente em encontrar o VIP. Queria, antes, descobrir em qual turma ele estava. Pelo menos, queria saber com certeza se ele estava ou não na Classe A.

— Bem, já que eles não vão falar conosco, isso vai ser difícil. No entanto, se o VIP estiver em uma das outras três turmas, acho que tudo ficará bem mesmo que ele não se revele. Porém, se o VIP estiver na Classe A, o que vocês acham que devemos fazer? — Ichinose estava revidando a estratégia de Katsuragi com ousadia, tentando formar uma aliança.

— Eu não posso confiar em você — murmurou Yukimura.

Depois que Yukimura rejeitou a proposta, Manabe, da Classe C, também se pronunciou e recusou o plano de Ichinose.

— Mesmo que o VIP esteja na Classe A, seríamos capazes de identificá-lo? Isso não seria difícil? — ela perguntou.

— Não acho que precisamos pensar tão longe agora. Vamos começar descobrindo em qual turma o VIP está — respondeu Ichinose.

Da perspectiva do VIP, três turmas se unindo para encontrá-lo devia ser algo aterrorizante. Se ele estivesse sozinho, ou com apenas um colega de outra turma, provavelmente deveria considerar cooperar com a busca para se misturar melhor.

— Isso é só uma ideia de momento. Se trabalharmos juntos, vamos acabar pensando em ideias ainda melhores depois. A prova acabou de começar. Acho que é melhor esperar um pouco e decidir com calma qual plano vamos seguir — acrescentou Ichinose.

Os que haviam rejeitado tanto o plano de Machida quanto o de Ichinose não tinham uma terceira opção. Como Hamaguchi dissera, não era justo reclamar sem antes apresentar uma alternativa. De qualquer forma, decidi ficar na minha até observar como os outros agiriam. Pessoas com baixa habilidade de comunicação tendiam a reagir antes de pensar. Eu não podia me dar ao luxo de agir por impulso.

— Ei, você é a Karuizawa-san, certo? Tem algo que eu queria te perguntar — disse Manabe.

Karuizawa olhou rapidamente para cima, tirando os olhos da tela do celular. Claramente não esperava que alguém falasse com ela.

— O quê? — perguntou.

— Posso estar enganada, mas… você não brigou com a Rika no começo do verão?

— Hã? Do que você tá falando? Quem é Rika? — perguntou Karuizawa.

— Ela é uma garota da nossa classe que usa óculos. Prende o cabelo num coque, tipo um dango. Lembra dela?

— Não conheço. Acho que você está confundindo com outra pessoa.

Karuizawa voltou o olhar para o celular, como se decidisse que aquela conversa não tinha nada a ver com ela. No entanto, as próximas palavras de Manabe mudaram tudo.

— Não é estranho, não? Tenho certeza de que ouvimos isso. Ouvimos que a Rika foi intimidada por uma garota da Classe D chamada Karuizawa. A Rika disse que você furou a fila e empurrou ela de lado quando ela estava esperando no café.

— Não sei do que você tá falando. Tipo, você tem algum problema comigo? — retrucou Karuizawa.

— Não, nada disso. Só estou checando se é verdade. Se for, gostaria que você pedisse desculpas. A Rika é do tipo que guarda tudo para si, então cabe a nós ajudá-la em situações assim.

Aparentemente, Karuizawa tinha fama de arruaceira fora da nossa classe também. A Classe C, como um todo, já era difícil de lidar — isso significava problemas pela frente. Karuizawa decidiu ignorar Manabe. Frustrada, Manabe virou a câmera do celular na direção dela.

— Você não se importa se a gente confirmar com a Rika, né? Digo, se não foi você, Karuizawa-san, não haverá problema nenhum, certo? — provocou Manabe.

Karuizawa levantou o rosto e deu um tapa no celular de Manabe, derrubando-o. Ela deve ter sido mais brusca do que pretendia, porque o aparelho caiu no chão rodopiando.

— Que diabos?! — gritou Manabe.

— Isso que eu deveria estar dizendo! Não fica tirando foto minha sem permissão! Já falei que você confundiu a pessoa! — rebateu Karuizawa.

Ambas insistiam que a outra estava errada. O conflito estava esquentando. Ichinose observava tudo, como uma espectadora tentando discernir quem tinha razão.

— O que você vai fazer se meu celular tiver quebrado?! — gritou Manabe.

— Não sei! Pede um novo pra escola — respondeu Karuizawa.

— Mas eu tenho fotos muito preciosas nele!

Manabe pegou o celular às pressas e lançou um olhar cheio de rancor para Karuizawa. As duas outras alunas da Classe C, que estavam observando a confusão, aproximaram-se para apoiá-la, encurralando Karuizawa com o olhar.

— O quê? Querem dizer que eu sou a vilã aqui? — perguntou Karuizawa.

— Se não fosse você, não ficaria toda irritada e negando assim, né? Deixa a gente tirar sua foto — disse Manabe.

— Mas eu não quero.

Eu achei que Karuizawa responderia de forma mais agressiva, mas suas palavras saíram surpreendentemente fracas. Ou melhor, havia um traço de medo misturado à sua postura de "durona". Talvez fosse apenas impressão minha.

— Talvez você esteja negando tanto justamente porque é verdade? — provocou Manabe.

Ela apontou a câmera para Karuizawa, como se fosse tirar a foto à força. As outras duas garotas da Classe C riram, se divertindo com a situação. No entanto, Ibuki não parecia compartilhar o mesmo sentimento. Olhou para Manabe com desprezo.

— Idiota — disse Ibuki.

"Idiota"? O quê? Isso não tem nada a ver com você, Ibuki-san. Você nem é amiga da Rika.

— Isso mesmo. Não tem absolutamente nada a ver comigo. Por isso falei o que eu penso como alguém de fora.

Ibuki cruzou os braços e desviou o olhar. Manabe claramente não gostou da atitude dela, mas não rebateu. Provavelmente havia uma hierarquia bem definida na Classe C — e Ibuki estava acima de Manabe.

— Enfim, deixa eu tirar sua foto! — insistiu Manabe.

— Não, já disse que não! Vai, fala alguma coisa pra ela — implorou Karuizawa. Por algum motivo, ela se voltou para Machida, como se pedisse socorro. — Eu não vou perdoar se você tirar minha foto sem permissão. O que você acha, Machida-kun?

— Concordo. Manabe, a Karuizawa já disse que não quer que você tire foto dela. Pare com isso — disse Machida.

— M-Machida-kun, isso não tem nada a ver com você — retrucou Manabe.

— Pelo que ouvi agora, acho que você é quem está errada, Manabe. A Karuizawa disse que não sabe do que você está falando, então tirar uma foto dela à força é errado. Não concorda? Acho melhor você conversar de novo com sua amiga e confirmar se a história é verdadeira.

Sendo justo, Machida estava certo. Eu entendia o motivo de Manabe querer a foto para confirmar os fatos, mas se a pessoa diz "não", fotografar sem permissão é rude. Confrontadas por esse argumento, Manabe e as outras não tiveram opção a não ser recuar, embora Manabe parecesse longe de estar convencida.

— Agora me deixe em paz. Obrigada, Machida-kun — disse Karuizawa.

Ela olhou para ele com gratidão evidente. Mesmo que os alunos da Classe A tivessem se afastado do resto do grupo, não eram pessoas ruins. Takemoto e os outros, no entanto, pareciam pouco interessados.

— Só fiz o que era certo — disse Machida, corando levemente.

Talvez fosse o começo de um romance? Mas Karuizawa já tinha Hirata. De qualquer forma, tive a sensação de que o atrito entre ela e aquelas garotas da Classe C ainda traria problemas sérios mais adiante.

*

 

No fim, nada foi resolvido, mas pelo menos havíamos passado a hora discutindo, como nos pediram. O anúncio informou que estávamos livres para ir. Os alunos da Classe A se reuniram e saíram imediatamente.

— Bem, vocês estão livres para fazer o que quiserem — disseram eles.

Depois que marcharam para fora da sala, o silêncio tomou conta novamente. Ichinose havia descartado a estratégia de Katsuragi, mas não conseguiu chegar a uma nova resolução. Será que ela escondia outra carta na manga? Ou estaria pensando em algo completamente diferente? Vamos ver do que você é capaz, Ichinose.

— Bem, ainda temos mais cinco períodos de discussão. Que tal encerrarmos por aqui? — disse Ichinose com gentileza.

O consenso parecia ser que era melhor cada um passar um tempo sozinho antes de voltarmos para uma nova discussão. Tínhamos absorvido muita informação e ainda não tínhamos conseguido processá-la. No mínimo, os membros da Classe D estavam exaustos. Os alunos da Classe C pareciam estar na mesma situação.

— Bom, vou voltar pro meu quarto—aaah?!

Karuizawa, completamente esgotada, levantou-se para ir embora, mas tropeçou para frente. Talvez suas pernas estivessem dormentes de tanto tempo sentada.

— Ai! — gritou Manabe.

Em pânico, Karuizawa tentou recuperar o equilíbrio, mas acabou pisando no pé de Manabe.

— Ah, eu não quis fazer isso. Desculpa — murmurou Karuizawa, se desculpando rapidamente antes de deixar a sala.

— Ei, que diabos foi isso?! — gritou Manabe. Ela despejou sua irritação sobre nós enquanto saíamos. Eu não queria ser arrastado para aquilo, então desviei o olhar e me mandei.

— Bom, também vamos voltar. Quero conversar com o Hirata sobre algumas coisas — falei.

As outras turmas já estavam se movimentando. Yukimura parecia ansioso para começar logo uma discussão sobre a nossa própria estratégia. Para ser honesto, não tínhamos muitos bons estrategistas na turma, então era uma decisão difícil. O Professor levantou-se lentamente. No fim, as últimas pessoas na sala eram os três alunos da Classe B e Ibuki.

— Já estou com fome de novo. Será que tem buffet de almoço? — murmurou o Professor.

Como alguém podia estar com fome de novo? Que tipo de corpo digeria tanta comida em apenas uma hora?! Além disso, se comesse tanto assim, iria engordar. Mas eu duvidava seriamente que meu conselho sincero fosse alcançar ele.

— Ei, Yukimura. A Karuizawa não estava agindo estranho? — perguntei.

— Ela sempre age estranho — respondeu ele.

Direto e honesto, mas não exatamente o que eu queria ouvir. Não sabia o quê, mas algo nela parecia fora do lugar. Talvez eu realmente não a conhecesse tão bem…

O Professor não parecia ter percebido nada. Na verdade, já tinha esquecido que aquilo tinha acontecido. Meu celular estava desligado durante a discussão para evitar distrações. Ao ligá-lo enquanto saíamos, vi uma mensagem de Sakura. Ela queria se encontrar comigo, se eu tivesse tempo.

— Hmm. Perfeito — murmurei.

Eu queria opiniões de pessoas além de Hirata e Horikita. Queria ouvir o que achavam daquela prova estranha. Provavelmente entenderia melhor tudo depois de saber mais sobre o grupo de Sakura.

— Vamos ver… onde podemos nos encontrar? — falei em voz alta.

Achei que o mesmo lugar de ontem serviria. Quando sugeri isso à Sakura, recebi a confirmação na hora. Haveria muitos alunos circulando, mas provavelmente ninguém prestaria atenção em nós. Pessoas solitárias aprendiam a lidar com multidões.

Como a primeira sessão de discussão acabara de terminar, o elevador estaria lotado. Como só dez pessoas cabiam por vez, seria mais rápido ir pelas escadas. Peguei o caminho em direção ao deque. No caminho, outra mensagem chegou:

Como tem muita gente por aqui, vou para a proa. Desculpe.

— Ah. Acho que ela não conseguiu lidar com a multidão — murmurei.

Fui até a proa. O interior do navio tinha muitas instalações luxuosas, mas ali na frente havia apenas um enorme deque, com boa vista para o mar. Por isso, costumava ser tranquilo. Não parecia haver ninguém por perto, então eu tinha o deque inteiro só para mim. Sakura estava me esperando, escondida atrás de uma coluna no canto. Decidi não chamá-la de longe, para não assustá-la, e me aproximei devagar.

— Eu estava pensando nisso, mas… c-co-como eu faço? — ela murmurou baixinho.

Hmm? Conforme me aproximei, ouvi Sakura falando sozinha. Sua voz era baixa, quase inaudível por causa do vento. Não consegui entender direito o que ela estava dizendo.

— E-Eu… queria… d-d-d-di… — ela gaguejou.

Pensei que ela estava conversando com alguém, mas não havia ninguém ali. Ela também não tinha o celular na mão, o que deixava tudo um pouco mais estranho.

— Sakura? O que houve? — perguntei, tentando não assustá-la.

— Aaaaiiiiiiiiiii! — gritou Sakura, praticamente pulando de susto. Parece que a assustei mesmo. — Q-Qu-quando você chegou aqui?! Quanto você ouviu?! — perguntou desesperada.

— Eu realmente não ouvi nada. Acabei de chegar agora.

Não havia mais ninguém por perto. Ela parecia um pequeno animal assustado. Será que Sakura estava falando com um fantasma, ou tinha perdido a sanidade? Eu não tinha certeza.

— Você estava ouvindo?! Ouviu o que eu estava dizendo?! — gritou Sakura.

— Só ouvi uns pedaços. Não faço ideia do que você estava falando — respondi.

Sakura pareceu aliviada.

— Então, por que você me chamou aqui? — perguntei.

— Hm, bem. É que… ah… eu estava f-f-ficando nervosa com o teste! — ela gritou.

Sakura, com uma expressão profundamente abatida, me entregou uma lista. Li os nomes escritos ali:

CLASSE A: Sawada Yasumi, Shimizu Naoki, Nishi Haruka, Yoshida Kenta

CLASSE B: Kobashi Yume, Ninomiya Yui, Watanabe Norihito

CLASSE C: Tokitou Hiroya, Nomura Yuuji, Yashima Mariko

CLASSE D: Ike Kanji, Sakura Airi, Sudou Ken, Matsushita Chiaki

Os outros alunos da Classe D designados ao Grupo Vaca eram… intensos. Considerando os garotos do grupo, como Sudou e Ike, não pude deixar de sentir pena de Sakura. Durante essa prova, era obrigatório passar tempo com os membros do seu grupo, gostando ou não. Eu queria ajudar um pouco, mas não havia muito o que fazer. Quando chegava a hora de cada grupo se reunir, tínhamos que participar. Não podíamos nos dispersar. Eu podia ajudá-la discretamente, mas se agisse de forma estranha, alguém notaria. Numa prova como essa, quebrar as regras poderia significar desastre.

— Achei que talvez conhecesse alguém de outra classe, mas… incrivelmente, não conheço ninguém. Ninguém que sequer me consideraria amiga — disse Sakura.

Pensei por um momento, mas as únicas pessoas que poderiam ajudar eram Ichinose e Kanzaki. Como Ichinose estava no meu grupo. E não dava para confiar Sudou ou Ike à tarefa de cuidar da Sakura.

— Desculpa. Eu também não tenho muitos amigos — falei.

— Ah, tudo bem. Não precisa se desculpar. É só que… eu não tenho nenhum amigo! — respondeu Sakura.

Era uma conversa patética, nós dois competindo para ver quem estava pior. Em vez de nos orgulharmos de nossa falta de amigos, mudei de assunto.

— Aliás, tinha uma coisa que eu queria te perguntar, Sakura.

— Hã? Pra mim? O que foi?

— O Yamauchi entrou em contato com você depois da discussão?

— Yamauchi-kun? Não, ele não entrou. Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou.

— Ah, entendi.

Durante a prova da ilha, eu tinha usado Sakura indiretamente enquanto usava Horikita. Manipulei Yamauchi aproveitando o fato de que ele gostava de Sakura, prometendo o e-mail dela. É claro, eu não pretendia dar o e-mail dela sem permissão, mas ainda não tinha conversado com ele sobre isso. Estava preocupado que ele tivesse procurado Sakura depois, mas aparentemente estava tudo bem. Já que eu mesmo tinha plantado essa semente, se Yamauchi tentasse alguma coisa, eu teria que agir.

— Por enquanto, se algo te incomodar, entre em contato comigo. Pode me contar qualquer coisa — falei.

— Tem certeza? — perguntou Sakura.

— Sim. É o mínimo que posso fazer.

Mesmo eu não sabendo quanta ajuda realmente poderia dar, os olhos de Sakura brilharam como os de uma criança. Talvez ela estivesse apenas feliz por ter alguém com quem conversar.

— Eu vou te mandar mensagem com certeza! — disse ela.

— Claro — respondi.

Sakura estava um pouco diferente do normal. Estava radiante, e sua voz carregava mais força do que de costume. Talvez estivesse ficando um pouco mais assertiva? Mesmo tendo passado tão pouco tempo desde a prova na ilha, Sakura estava mudando rapidamente. Aquele teste insano poderia ter transformado sua vida de formas inesperadas. Ela ainda não havia mudado completamente, mas dava para sentir que aprendera a ser mais positiva e seguir em frente, mesmo em situações difíceis.

*

 

— Aaaaaaayaaaaaanooooookooooojiiiiii!

Assim que voltei para dentro da navio, uma sombra caiu sobre mim. Senti mãos me agarrando, e o agressor misterioso apertou o meu pescoço com força. Bati freneticamente em seus braços, mas ele não mostrou sinal de afrouxar o aperto. Por um momento, achei que seria o meu fim. Quando finalmente consegui me soltar, virei depressa e vi o rosto do meu atacante. Era Yamauchi Haruki, parecendo algum tipo de oni ou asura.

— Qual é o problema? — perguntei, mesmo sabendo a razão.

"Qual é o problema" é o cacete! Você disse que ia me contar o e-mail da Sakura, caramba! E você estava falando com ela agora há pouco! Eu sabia. Você estava atrás dela esse tempo todo! — ele gritou.

Aparentemente, minha sorte era péssima. Eu precisava pensar em algo.

— Eu nunca quis ir atrás dela. Bem… isso é meio difícil de dizer, mas… eu menti para você antes — eu disse, com a voz rouca.

— Espera. Você mentiu?

— Você realmente acha que um solitário como eu saberia o e-mail da Sakura? — virei-me para ele, tentando demonstrar sinceridade.

— Então… espera aí, você estava tentando pedir o e-mail dela agora há pouco?

Quando assenti, Yamauchi pareceu chocado e caiu de joelhos.

— Então… você não sabia o e-mail dela coisa nenhuma, Ayanokoji. Você mentiu pra mim? — ele balbuciou.

— É. Desculpa.

— E aí, como foi? Conseguiu o e-mail dela?

— Er… desculpa.

"Desculpa"? O que isso quer dizer? Eu não quero suas desculpas, eu quero o e-mail dela! — Yamauchi murmurou para si mesmo, refletindo o tamanho de sua decepção. — Como você… Como se atreve a me enganar?! — gritou.

Eu realmente me sentia mal por tê-lo enganado, mas não podia dar a ele as informações de contato da Sakura sem o consentimento dela. Como ele tinha motivos bem óbvios, eu precisava recusar.

— Pode me dar só mais um pouco de tempo? — pedi.

— Mais tempo?! "Mostra-me um mentiroso e eu te mostrarei um ladrão"! — ele esbravejou.

Eu jamais esperaria que um aluno da Classe D soltasse um provérbio assim. Fiquei surpreso.

— Então você vai fazer a Sakura te contar? — perguntei.

— É isso mesmo.

Ele provavelmente estava cego de raiva. Parecia disposto a conseguir o contato da Sakura à força, se necessário.

— Sabe, a Sakura disse que odeia caras que só falam e não fazem nada.

— Você quer dizer caras como você, Ayanokoji?! — ele gritou.

— Claro que ela me odeia. Mas deveria estar claro por que eu não podia te dar as informações dela. Eu não quero que você cometa o mesmo erro que eu, Yamauchi. Se você forçar, não vai adiantar. Vai ser inútil.

— Você só está inventando desculpas. Você nunca soube o contato dela desde o começo — Yamauchi abaixou a cabeça.

— É. E sinto muito. Mas tenho certeza de que ela não te odeia — respondi.

— Mas o que diabos eu devo fazer? — ele perguntou.

— Você sabia que a Sakura adora câmeras digitais? Ouvi dizer que a câmera dela não funciona, e ela não tem pontos suficientes para comprar uma nova. Mas… e se você desse uma para ela, Yamauchi? E se fosse um presente seu?

— Ah, ela ficaria feliz, com certeza, mas… eu também não tenho pontos.

— Bem, existem algumas opções nesta prova especial. Se você fosse o VIP e conseguisse passar sem ser descoberto; ou se virasse um traidor e vendesse o grupo; ou se conseguisse guiar sua equipe para completar a prova… você ganharia pontos suficientes para comprar toneladas de câmeras digitais. Certo?

— Então, se eu fizer o meu melhor, existe a chance de conseguir uma câmera nova para Sakura? — ele perguntou.

Yamauchi estava prestes a explodir de empolgação. Ele finalmente enxergava uma solução para seus problemas.

— Agora, Yamauchi Haruki, você precisa alcançar resultados de verdade. Trabalhe duro e mostre para a Sakura o quão homem você é. Só assim você vai ser um cara que merece sair com uma ex-ídolo.

Seja qual fosse seu objetivo final, Yamauchi claramente tinha uma queda por Sakura. Se eu desse o estímulo certo, ele poderia revelar um potencial maior.

— Eu vou fazer isso, eu vou fazer isso, eu vou fazer isso! Eu vou dar tudo de mim e conquistar a Sakura! — ele gritou.

— Isso mesmo, Yamauchi. Você com certeza consegue.

— É! Eu vou conseguir! — ele gritou de volta.

Eu tinha conseguido redirecionar a energia dele para participar da prova. Se ele não obtivesse nada com isso, sua amargura e raiva poderiam voltar contra mim, mas aquilo serviria como solução temporária. Bem, se conseguíssemos uma vitória inesperada, tudo ficaria bem… embora, se Yamauchi ficasse animado demais, talvez deixasse o alvo escapar.

Preocupava-me que ele pudesse não perceber o VIP.

— Deixa eu te dizer uma coisa, só por precaução… — comecei. Queria avisar Yamauchi para ter cuidado, mas acabei desistindo.

— O quê? — ele perguntou.

— Nada. Só faça o seu melhor. Mas, se encontrar o VIP, não deixe as outras classes chegarem antes, ok?

— Claro.

Se Yamauchi deixasse o alvo escapar por engano, tudo bem. O quadro geral era mais importante do que o curto prazo.

*

 

Como apenas a Classe A tinha garantida a entrada no ensino superior ou em bons empregos após a formatura, jamais conseguiríamos a cooperação deles. As Classes B e D haviam unido forças para derrotar as Classes C e A, então era provável que C e A tivessem formado uma aliança para nos derrotar em retorno. O que aconteceria quando as classes se juntassem? Seria perigoso, como colocar carnívoros e herbívoros na mesma jaula. Formar um grupo assim era praticamente impossível. Se pessoas de personalidade forte como Hirata e Ichinose assumissem a liderança, talvez desse certo. Ainda assim, seria absurdamente difícil.

A Classe A não participou da discussão em nosso segundo encontro, também. Claro que, com uma classe ausente, não dava para falar com franqueza, então tivemos que matar tempo. Eu estava curioso sobre como os alunos das outras classes agiriam, mas a instabilidade deixava todos prendendo a respiração. Estávamos tão na defensiva que ser espontâneo era impossível.

— Bem, essa é a segunda vez que nos reunimos assim. Não acham que deveríamos começar a ter conversas abertas e sinceras? Não teremos muitas oportunidades — argumentou Ichinose.

Como esperado, Ichinose assumiu a dianteira e colocou todos em movimento. Ela desejava paz. Hamaguchi e os demais da Classe B eram exatamente assim também. Estavam prontos para formar alianças sem hesitação. Era como o Hirata agia. Eles eram parecidos, mas ainda fundamentalmente diferentes. Ichinose e seus amigos deveriam estar buscando a vitória da Classe B.

Da última vez, as pessoas foram levianas, mas agora tudo era diferente. O clima era opressivamente sombrio. Todos estavam pulando à sombra do próprio medo, extremamente cautelosos. No entanto, os três alunos da Classe A não pareciam incomodados com nada, mexendo nos celulares tranquilamente.

Não havia regra contra entrar em contato com outros grupos, afinal. Podiam até telefonar, se quisessem.

O velho ditado era verdadeiro: os ricos continuam ricos, e os pobres continuam pobres. A Classe A estava vencendo a competição entre classes por uma ampla margem, então não tinham motivo para preocupação. Eu achei que a derrota deles no teste da ilha teria mudado algo, mas Katsuragi fazia questão de manter aquela imagem calma. Era uma estratégia excepcionalmente eficaz.

De qualquer forma, não seria fácil para um lobo solitário como eu romper os muros da Classe A.

— Não acho que precisamos de um grande avanço agora, mas precisamos discutir. A Classe A pode estar se afastando do teste, mas precisamos identificar o VIP.

As palavras de Yukimura deram alguma motivação. Se o VIP estivesse em outra classe, não podíamos perder essa chance. Ou talvez ele fosse o próprio VIP, e estivesse sugerindo isso como disfarce.

— Mas dá mesmo para encontrar o VIP só conversando? Eu não acho. Tipo… esse teste é tão injusto. É difícil demais. O VIP tem vantagem demais — reclamou Karuizawa.

— Eu entendo, Karuizawa-san. Mas isso não depende do ponto de vista? O teste da ilha também foi uma surpresa para os alunos — disse Yukimura.

Sunrise? — Karuizawa arregalou os olhos.

— Se for Sunrise, deixa comigo! Essa é minha especialidade! Tô pronto pra batalha! — gritou o Professor.

Não, eu pensei. Não era Sunrise, era "surpresa".

— Sabe, a vida no navio não é ruim. É bem divertida, né? Mesmo tendo que nos reunir duas vezes ao dia, ainda podemos conversar e usar o celular. Não é como aula — disse Ichinose.

— Bem, é. É divertido mesmo — respondeu Karuizawa.

— Viu? É por isso que precisamos ficar mais confortáveis. Precisamos conversar como se fôssemos todos amigos. Não é difícil ficar mantendo essas barreiras? Machida-kun e os outros parecem sempre tão sérios, sabe?

Ichinose tinha razão. Era tudo questão de percepção. Se você permanecesse positivo, o teste ficaria mais fácil.

Machida, ouvindo o otimismo de Ichinose, soltou um riso de desprezo.

— Você pode fazer o que quiser, mas provavelmente não vai encontrar o VIP. Eu não sei quem é o VIP do nosso grupo, mas se ele não compartilhou nada, talvez esteja planejando uma forma de conseguir pontos sozinho. Provavelmente está se escondendo de propósito. Além disso, o VIP pode ser da Classe B, certo? Como vocês confiam neles? — perguntou.

Ele estava tentando desestabilizar a todos.

— Mas eu não poderia dizer o mesmo de você, Machida-kun? Você realmente confia nos seus aliados? — rebateu Ichinose.

— Claro que sim.

Machida olhou para o aluno ao lado dele, Morishige. Mas rapidamente voltou sua atenção para Ichinose, retomando aquela imagem fria típica da Classe A.

— Não temos motivo para nos preocupar com esse negócio de VIP. Recebemos mais de 100.000 pontos todo mês. Ninguém da nossa classe mentiria só para ganhar meros 500.000.

— Mesmo? Sabe o que dizem: é melhor prevenir do que remediar. Você quer me dizer que ninguém da sua classe gostaria de ganhar um ponto a mais sequer? Não é como se a escola fosse reclamar — respondeu Ichinose.

— Que idiotice. Continue aí com suas ilusões. Vocês estão só se agarrando a esperanças vazias.

Ichinose sorriu para Machida. Ela certamente havia provocado uma reação. Mesmo dizendo que não participaria da discussão, Machida caiu na isca dela. Se ele continuasse falando, talvez conseguíssemos arrancar alguma informação. Usando Yukimura e Karuizawa, Ichinose já estava coletando dados. O único problema era quando Machida perceberia o truque.

Karuizawa suspirou e voltou a mexer no celular. Embora não houvesse regra contra usar o aparelho durante o teste, fazê-lo enquanto tentávamos encontrar o VIP era um pouco rude. Ou talvez ela estivesse atuando como CIA ou FBI, informando Hirata em tempo real para que ele escutasse a conversa? Eu até a respeitaria se fosse verdade, mas duvidava muito.

Conhecendo Karuizawa, que raramente se esforçava de verdade para algo, aquilo não era fora do padrão. Mas algo estava estranho. Parecia que algo estava errado desde o início do teste. Karuizawa; o reencontro com Ibuki; o confronto com Manabe.

Percebi que nada do que ela vinha fazendo parecia a "Karui­zawa de sempre". Ela era uma presença forte na Classe D. Independentemente da reputação, ela e Hirata frequentemente uniam a classe. Mas ali, ela estava praticamente como figurante. Ela tinha potencial para motivar as pessoas, e não estava usando esse poder. Quando alguém falava com ela, ela respondia e rapidamente se encolhia. Hirata era sempre Hirata, não importava a situação, e Kushida era sempre Kushida. Mas isso não parecia valer para Karuizawa.

Se eu fosse criar uma hierarquia para o grupo, ela estaria abaixo de Manabe e das outras garotas da Classe C. Talvez fosse por isso que estivesse agindo de modo estranho. Minhas dúvidas e suspeitas só aumentavam.

Para a Classe D alcançar uma posição mais alta, não bastava apenas aumentar os pontos. Precisávamos criar um sistema capaz de gerar pontos. Comparada às Classes A e B, a Classe D carecia de coesão. E por esse exato motivo, Karuizawa Kei era insubstituível. Ela controlava as garotas da Classe D. Era por isso que eu estava preocupado com o comportamento dela. Eu imaginava que ela seria mais agressiva e dominaria o ambiente.

Eu precisava determinar se ela era útil ou não. Considerando que o período da prova era curto, não dava para agir devagar. Eu precisava mexer as peças, mesmo que fosse de forma brusca.

Os alunos da Classe A deixaram a sala imediatamente quando o horário terminou. Eles estavam seguindo o plano da classe e ficariam quietos nas quatro discussões restantes. Ao observá-los saindo, Ichinose soltou um suspiro pesado.

— Hmm. Acho que isso vai ser difícil. O que você acha, Ayanokoji-kun?

Ichinose se virou para mim. Ela era ainda mais calma, perspicaz e sagaz do que eu imaginava. Ela percebia que eu ficava calado nas reuniões, mas nunca me pressionava. Se eu fosse colega de classe dela, provavelmente teria me apaixonado. Ela era simplesmente encantadora. Os garotos da Classe B provavelmente não eram os únicos; devia ter admiradores em outras classes também. Ela provavelmente rivalizava com Kushida em popularidade.

— Para ser totalmente honesto, eu sou do tipo que só fica sentado, esperando as coisas acontecerem. Sou apenas um espectador — falei.

— Ainda é muito cedo para desistir. Vamos trabalhar juntos! — Ichinose parecia determinada a fazer o melhor.

— Bem, mesmo que continuemos com essas discussões, duvido que alguém vá se levantar e dizer que é o VIP. As vantagens de permanecer escondido são grandes demais, assim como as desvantagens de ser descoberto. Do jeito que as coisas estão indo, a previsão pessimista da Classe A provavelmente vai se tornar realidade — disse Ichinose.

Apesar do tom negativo, ela parecia destemida. Independentemente do que eu achasse dela, Ichinose claramente estava sempre pronta para um desafio.

— De qualquer maneira, por hoje terminamos. Bom trabalho, vocês dois.

— Não, não fizemos muita coisa. Bem, vamos? — disse Hamaguchi.

A mudança foi imediata. Os três alunos da Classe B relaxaram, como se alguém tivesse simplesmente desligado o interruptor deles. Ainda não entendia direito qual era a deles. Não sabia quais eram os objetivos de Ichinose e seu grupo.

Claro, ela podia ter alguma estratégia que não podia revelar a ninguém de fora. Quando Manabe e as outras da Classe C se levantaram para sair, eu as segui. Quando chegaram ao elevador, chamei discretamente:

— Ei. Tem um minuto?

Manabe pareceu um pouco alerta, provavelmente porque não esperava que eu fosse atrás delas.

— Ouvi falar do seu problema com a Karuizawa. Algo sobre ela empurrar alguém no café, certo?

— É. Por que você quer saber? — rosnou Manabe.

Normalmente, essas garotas não teriam o menor interesse em conversar comigo, mas esse assunto parecia tocar um ponto sensível. As três se viraram para mim, como se estivessem me avaliando.

— Não tenho 100% de certeza, mas acho que vi a Karuizawa brigando com uma garota de outra classe — falei.

— Isso é… Tem certeza? — perguntou Manabe. A voz dela ficou tensa, e ela se aproximou. Eu me encolhi um pouco e assenti.

— Acho que sim. É que… eu senti um clima estranho, sabe? Parecia que ela estava agindo feito uma idiota, então achei melhor avisar vocês.

Mantive tudo vago para colocar as coisas em movimento e, então, virei e voltei pelo caminho de onde vim. Para ser sincero, eu não tinha visto nada. Se continuasse falando, provavelmente seria desmascarado como mentiroso. Agora que acendi o pavio, Manabe e as outras iriam reagir. Como a recém-dócil Karuizawa responderia? Era isso que eu queria descobrir.

*

 

Voltei para o meu quarto. Já era tarde, então me sentei na cama sem falar com ninguém. Estava quase dando meia-noite. Achei que todos já estariam dormindo, mas Hirata me olhou com preocupação, como se estivesse esperando por mim. Yukimura estava sentado no sofá, de frente para mim.

— Bom trabalho hoje, Ayanokoji-kun. Você chegou bem tarde — disse Hirata.

— É, um pouco. Ah, isso me lembra… queria falar com você um minuto, se tiver tempo.

— Tenho certeza de que está cansado, mas se estiver disposto, poderia conversar comigo? — perguntou ele.

Hirata e eu dissemos a mesma coisa ao mesmo tempo.

— Hã? O que você queria me perguntar? — disse Hirata.

— Ah, nada, tudo bem. Pode falar primeiro. Podemos falar do meu assunto depois.

Yukimura tremia, como se estivesse no limite. Provavelmente também queria conversar sobre a prova. Troquei de roupa, colocando o agasalho, e me juntei a eles. Hirata se mexeu um pouco para abrir espaço para mim no sofá. Eu queria conversar com Hirata sobre Sakayanagi, já que, sendo tão popular, talvez ele tivesse alguma informação. Mas eu não me importava em esperar.

— Eu estava conversando com o Yukimura-kun. Decidimos compartilhar informações sobre o teste — disse Hirata.

— Eu disse que era inútil incluir você, Ayanokoji-boy — acrescentou Koenji. Como sempre, muito gentil.

— Eu ficaria feliz se Koenji-kun participasse, mas infelizmente ele recusou — disse Hirata.

Pois é. Eu não conseguia imaginar Koenji cooperando com alguém.

— Perdão, caríssimo Hirata. Estou ocupado demais com a busca pela beleza física.

Koenji, sem camisa, fazia flexões. Estava pingando de suor, mas parecia indiferente. Nenhum estudante comum conseguiria manter aquela pose. Ele era excepcional em todos os sentidos. Para ser sincero, eu até me perguntava se ele estava realmente participando da prova. Hirata pareceu captar meus pensamentos.

— Koenji-kun está participando em um grupo. Afinal, todos os alunos são obrigados a participar, e quem não participa perde pontos — explicou Hirata.

Típico de Hirata ler todas as regras com atenção.

— Para falar a verdade, recebi a informação de que dois dos nossos colegas foram escolhidos como VIPs em seus grupos — ele sussurrou.

— O quê? Quem? — perguntei.

— Isso eu… não posso dizer. Eles só me contaram porque confiam em mim.

— Então você não confia na gente, Hirata? Se você sabe, eu também tenho o direito de saber. E além disso, se você conhece a identidade de um VIP, isso pode nos dar alguma pista. Devíamos estar compartilhando informações desde o início. É o natural a se fazer — disse Yukimura.

— Sim, você tem razão. Foi por isso que quis consultar vocês. É só que… — começou Hirata.

— Ei, Hirata. Não seria melhor nos passar essa informação pelo celular? Não sabemos quem pode estar ouvindo nossa conversa — falei.

— Verdade. Espere um momento.

Dois nomes apareceram no celular de Hirata. Ele virou a tela para nós.

— Grupo Dragão: Kushida-san. Grupo Cavalo: Minami-kun.

Assim que vimos os nomes, Hirata apagou tudo.

— Entendo — murmurou Yukimura, tomando cuidado para não falar demais.

Então Kushida era a VIP. Estar nessa posição em um grupo tão forte como o Dragão significava uma vantagem enorme. No entanto, ser VIP era aterrorizante: quando descobrissem sua identidade, ela estaria à mercê deles. Se o VIP fosse de outra classe, não levaríamos o pior da situação nem no pior cenário.

— Não se preocupe. Vai ficar tudo bem — disse Hirata.

Ele percebeu minha preocupação. Os três alunos da Classe D no grupo Dragão eram os melhores que tínhamos. Não cometeriam o erro de revelar a identidade da VIP.

— Falando do Grupo Coelho, é igualmente possível que o VIP seja de qualquer uma das quatro classes. Então, na Classe D, há dois VIPs que já conhecemos. Deve haver mais um mantendo a identidade em segredo — disse Yukimura.

— É. Acho que sua lógica faz sentido. Eles certamente não falaram comigo, mas podem ter consultado outra pessoa. Afinal, o risco de ser descoberto ao falar é alto — disse Hirata.

Enquanto conversávamos, Koenji começou a assobiar. Yukimura, que estava segurando a irritação até então, levantou da cadeira num rompante.

— Koenji, para com esse jeito relaxado! Não vou te mandar levar isso a sério, mas pelo menos participe. Não queremos que estrague tudo de novo, como fez na ilha! — ele gritou.

— Bem, não pude evitar. Eu estava em péssima forma. Não podia forçar meu corpo além dos limites — respondeu Koenji.

— Você fingiu estar doente só para fugir daquilo!

— Ora, essa prova será nada além de trabalhoso, não concorda? — resmungou Koenji.

Ele continuou fazendo flexões e depois se levantou de forma elegante. Pegou uma toalha na cama e começou a secar o pescoço.

— Trabalhoso? Você nem está pensando nesta prova! — rebateu Yukimura.

— Bem, não há sentido em continuar um teste que não é interessante, certo? Encontrar um mentiroso é simples.

Com o celular na mão, Koenji começou a mexer em algo. Logo depois, todos nós — inclusive ele — recebemos uma notificação da escola.

— O que você acabou de fazer, Koenji?! — gritou Yukimura.

Hirata e eu lemos o e-mail recém-chegado.

"O teste do Grupo Macaco está encerrado. Os alunos do Grupo Macaco não precisam mais participar. Por favor, não perturbem os demais estudantes."

— Grupo Macaco? Ei, esse é o seu grupo, Koenji! — gritou Yukimura.

— Naturalmente. E agora, finalmente tenho minha liberdade novamente. Adieu.

Ele jogou o celular de lado e entrou no banheiro. O resto de nós ficou simplesmente boquiaberto.

— Você só pode estar brincando! A gente está desesperado procurando uma saída e aquele cara, ele simplesmente... — gritou Yukimura.

— Ainda não sabemos de nada com certeza. Ele provavelmente tinha um plano próprio — respondeu Hirata.

— Você tá sendo generoso demais! Aquele cara pisa em qualquer um, contanto que ele se divirta e fique de boa. Isso é um absurdo! — exclamou Yukimura.

Koenji realmente não levava a prova a sério. Isso era verdade. No entanto, ele era surpreendentemente perspicaz e observador. Tivera a ousadia de dizer que o teste não passava de um "quiz simples" para encontrar o mentiroso. Se fosse isso mesmo, ele provavelmente tinha sacado algo.

Logo as ações repentinas de Koenji se tornaram do conhecimento dos demais alunos. O celular de Hirata começou a apitar sem parar com novas notificações. Os colegas estavam ansiosos para saber o que tinha acontecido. Katsuragi, Ryuen e Ichinose certamente se surpreenderiam com aquilo. Provavelmente ninguém esperava que alguém virasse traidor tão cedo. Horikita me mandou uma mensagem:

Desculpe. Está tudo muito confuso agora. Vou te ligar.

— Droga. Por causa do Koenji, as coisas pioraram — disse Yukimura.

— Vou sair um pouco — falei.

Yukimura parecia tão irritado que não conseguiria dormir. Saí do quarto. Mesmo com o teste do Koenji encerrado, eu não podia me acomodar. Para ser honesto, estava vendo meus próprios limites naquele experimento. Por mais que eu tramasse, seria extremamente difícil comandar os alunos da Classe D presentes em todos os grupos restantes rumo à vitória. Dá até para dizer que era impossível.

Se os alunos se unissem, haveria chance de agir. Do contrário, estávamos perdidos. Não tínhamos conexão entre nós. Não dava para interferir nas respostas de outro grupo usando o próprio celular. Não havia tempo suficiente para achar outro método, e o risco era grande. Se eu tivesse alguma informação que virasse tudo a nosso favor de forma decisiva, aí seria diferente. Os líderes eram Hirata e Kushida. Se eu conseguisse usá-los...

— É impossível — murmurei. Restavam três dias. Mesmo ganhando a cooperação deles, eu ainda não tinha olhos e ouvidos suficientes. Precisava entender o que se passava nas discussões de cada grupo. Claro que talvez eu ainda pudesse contar com Horikita e Sakura, mas...

Bem. No momento, eu precisava de mais olhos e ouvidos ao meu lado.

*

 

O céu estrelado se estendia diante de mim até onde a vista alcançava. Caminhei sem rumo até acabar no deque.

— Uau, que incrível.

A paisagem era mais bonita do que qualquer coisa que eu tivesse visto em um filme ou imaginado em um livro. Era o tipo de céu impossível de ver em uma cidade grande. Havia alguns casais de mãos dadas, olhando para as estrelas lado a lado. Senti um pouco de solidão. Como quase não havia luz, eu não conseguia ver o rosto deles, mas não importava. Eu não tinha interesse nos romances alheios.

Mas, entre todos os casais, havia uma estudante olhando sozinha para o céu estrelado. Pelo contorno, parecia uma garota.

Eu não podia simplesmente me aproximar e dizer algo como "Quer ver as estrelas comigo?". Ia parecer um daqueles caras cafajestes tentando dar em cima. Além disso, se um namorado aparecesse no meio da abordagem, seria um desastre. Ainda assim, parte de mim queria saber quem ela era. Me aproximei um pouco.

A garota se virou para mim.

— Hã? Ah, Ayanokoji…-kun?

— Essa voz… Kushida?

Kushida saiu das sombras. Ela me olhou com uma expressão surpresa.

— Você… tá sozinha? — perguntei. Talvez estivesse esperando um namorado. Só de imaginar isso, senti o peito apertar.

— Sim, tô. Eu só… não estava conseguindo dormir.

— Eu entendo — respondi.

Bom, pelo menos eu sabia que ela não estava num encontro iluminado pelas estrelas. Nesse caso, imaginei que ela não se importaria se eu chegasse mais perto. Kushida usava um agasalho. Devia ter saído do banho há pouco, porque estava cheirando bem. Era para ser o cheiro dos shampoos gratuitos do quarto, mas não era. Que curioso.

— Você não está com frio? — perguntei.

— Estou bem. E você, Ayanokoji-kun? Está sozinho também?

Assenti. Quando fiz isso, Kushida riu de leve.

— Então estamos os dois sozinhos? Confesso que fiquei meio envergonhada de estar sozinha… mas agora me sinto melhor.

Eu deveria ter soltado alguma frase espirituosa. Não consegui. Estar sozinho com Kushida ali, cercado de casais, acelerava meu coração. No fundo, porém, ela provavelmente estava odiando essa situação.

— Bem, eu vou voltar — falei.

— Já vai?

— Tô ficando cansado — menti descaradamente. Não queria dormir nem um pouco.

— Entendi. Então… te vejo amanhã. Boa noite, Ayanokoji-kun.

— Boa noite, Kushida.

Virei-me e comecei uma retirada patética.

— Espera!

De repente, Kushida envolveu meus ombros com os braços. Mesmo com o frio, senti o calor do corpo dela através do agasalho.

— Ku… Kushida? O que foi? — guinchei.

Claro que fiquei completamente desnorteado. Era normal que eu entrasse em pânico. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo.

 …

Mas Kushida não respondeu de imediato. Só depois de alguns segundos ela murmurou, num fio de voz:

— Me desculpa. Eu… eu só estava me sentindo sozinha, eu acho — sussurrou.

As palavras dela me acertaram como um soco direto no queixo. Senti a cabeça girar. Kushida enterrou o rosto no meu peito por mais alguns segundos, sem dizer nada. Depois, afastou-se rapidamente, como se estivesse despertando de um transe.

— Desculpa. Eu, ah… abracei você do nada, Ayanokoji-kun. Boa noite! — gaguejou ela.

Eu não conseguia ver bem o rosto de Kushida no escuro, mas talvez ela estivesse um pouco corada. Kushida se afastou rapidamente antes que eu conseguisse dizer algo. Fiquei parado ali, com a mão no peito, sentindo o calor que ainda restava. Eu já não conseguia dormir antes, e depois daquilo, não tinha como simplesmente voltar para o quarto. Resolvi vagar um pouco pelo navio antes de retornar.

— Agora que me acalmei, estou com sede.

Eu lembrava que havia algumas máquinas de venda no primeiro andar, então fui até lá. Mas, ao me aproximar, me deparei com um grupo inusitado: Chabashira-sensei; a professora da Classe B, Hoshinomiya-sensei; e Mashima-sensei da Classe A.

Os professores estavam relaxando no sofá. A área não era tecnicamente proibida aos alunos, mas como izakayas e bares estavam fora do nosso alcance, ninguém ia até ali. Eu só tinha passado por aquele caminho para variar um pouco, mas acabei tropeçando numa oportunidade. Escondi-me e cheguei mais perto.

— Faz tempo que nós três não nos reunimos assim, não é? — disse Hoshinomiya.

— É o que é. Destino. Depois de pular de uma coisa pra outra, todos acabamos escolhendo a vida de professor — respondeu Mashima.

— Chega. Não tem sentido falar disso — cortou Chabashira.

— Ah, isso me lembra… você não estava num encontro outro dia? Arrumou outra namorada, né? Mashima-kun, você é mesmo um galã. E eu pensando que era o tipo quieto e antissocial — provocou Hoshinomiya.

— Chie, e aquele homem com quem você estava? — perguntou Mashima.

— Ahaha! Terminamos duas semanas atrás. Sou do tipo que termina quando a relação começa a ficar séria. É tipo: "tchau, valeu!" — respondeu Hoshinomiya-sensei.

— Isso normalmente é o que se ouviria de um cara.

— Ah, mas eu nunca faria isso com você, Mashima-kun. Você é meu melhor amigo, afinal. Eu odiaria arruinar nossa amizade.

— Relaxa. Não estou preocupado com isso.

— Mas que surpresa…

Hoshinomiya despejou uísque no copo vazio e virou tudo de uma vez. Devia ser do tipo que bebe bem. Já Chabashira sorvia sua bebida como se fosse um coquetel.

— O que você está planejando, Chie? — perguntou Mashima.

— Hã? Do que está falando? O que eu fiz? — respondeu ela.

— É costume colocar todos os representantes das classes no grupo Dragão, não é? — disse ele.

— Eu não estou brincando nem nada. É verdade que, em termos de notas e comportamento, Ichinose-san é a número um. Mas o verdadeiro valor de alguém na sociedade não pode ser medido só por números. Eu decidi que ela precisava de um desafio. E além disso… coelhos são tão fofinhos, não são? Jeitinho que pulam. Não combina com a Ichinose-san? — disse Hoshinomiya.

— Espero que você esteja certa.

— Acho que o que você diz faz sentido, Hoshinomiya — comentou Mashima — mas o que está insinuando?

— Não queremos que você tome decisões com base em rancores pessoais — disse Chabashira.

— Ah, ainda falando do que aconteceu há dez anos? Eu achei que aquilo já tinha passado — respondeu Hoshinomiya.

— Não sei. Você não consegue parar de falar demais. Não fica satisfeita sem estar um passo à frente. Foi por isso que colocou Ichinose no grupo Coelho, não foi? — disse Chabashira.

— Eu realmente achei que Ichinose precisava aprender alguma coisa, então tirei ela do grupo Dragão. Sabe como é? Ah, e Sae-chan, reparei que você anda prestando atenção no Ayanokoji-kun. Enfim, é só coincidência. Coincidência, coincidência. Quando o teste da ilha terminou e Ayanokoji-kun virou uma espécie de líder, você não ficou nem um pouco surpresa, não é? — provocou Hoshinomiya.

— Entendi — murmurou Mashima, assentindo como se algo fizesse sentido agora. Mas então ele encarou Hoshinomiya seriamente: — Não existe regra contra isso, mas vou ser claro. Pare de espionar as classes dos outros professores.

— Ai, é como se você não confiasse em mim. Mas não sou a única culpada. Sakagami-sensei também faz parte do problema. Se tivéssemos avaliado os alunos da Classe C corretamente, outro estudante deveria ter ido para o Dragão. Mas colocaram o Ryuen lá.

— Isso é verdade. Este não é um ano comum. Esses alunos são… especiais.

Com essa nova informação, já era hora de voltar. Se eu ficasse por ali, acabaria sendo visto. Só saber que Ichinose tinha sido enviada para me espionar já tornava essa pequena investigação valiosa. Aparentemente, eu estava sendo monitorado de perto.


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