Ano 1 - Volume 4.5
Capítulo 5: Um Encontro Entre Turmas
— ESTÁ TÃO QUENTE HOJE.
Quantas vezes eu já tinha dito isso neste verão? Ainda assim, realmente estava quente — não havia como negar. Mesmo que dizer isso em voz alta parecesse deixar a gente com ainda mais calor, era impossível se conter. Pensar nas palavras não ajudava em nada. As cigarras provavelmente eram as únicas criaturas que preferiam esse calor sufocante.
Calor à parte, eu tinha me envolvido em mais um daqueles incidentes incomuns. Se os outros caras soubessem da situação, provavelmente não ficariam nem um pouco felizes comigo. Era um problema bem desagradável.
Bem, melhor começar do início.
Um caminho ladeado por árvores, a uma curta distância do dormitório, levava até a escola. Se você se afastasse um pouco dessa trilha, encontraria uma área de descanso. Era ali que eu estava. Um local popular para sentar e conversar, com vários bancos, máquinas de venda automática e uma ótima vista — muitos estudantes frequentavam o lugar no início da primavera.
O calor, porém, tornava aquele um raro período de "entressafra". A área estava completamente deserta, o que a transformava num ponto perfeito para um encontro secreto.
— Desculpa te fazer esperar.
Enquanto eu estava sentado no banco, Karuizawa Kei caminhou em minha direção. Ela protegeu os olhos do sol ofuscante com a mão e olhou para o céu.
— Que calor — murmurou. Pelo visto, pensávamos da mesma forma.
O longo rabo de cavalo de Karuizawa balançou quando ela se sentou ao meu lado. Vestia uma roupa surpreendentemente casual: jeans e uma camisa simples. Mesmo assim, o visual parecia cuidadosamente coordenado e elegante. Suponho que garotas precisem priorizar a aparência, não importa o calor que esteja — devia ser difícil.
— Sei que você anda ocupada. Desculpa por te chamar assim.
— Tá sendo sarcástico? Eu brinquei demais neste verão. Gastei todos os meus pontos, então tenho ficado só no quarto.
— Tem planos pra amanhã? — perguntei.
— Sem dinheiro, não dá pra fazer nada. Provavelmente vou ficar dormindo.
Parecia que Karuizawa realmente estava aproveitando o verão no modo preguiça.
— Você deve receber bastante ponto no mês que vem, depois da última prova.
Durante o exame no navio de cruzeiro, Karuizawa — que era a VIP — tinha trabalhado junto comigo. Conseguimos manter sua identidade em segredo até o final do teste. Por causa disso, ela receberia 500.000 pontos como recompensa em setembro.
— É, acho que sim. Já escolhi as roupas e os acessórios que quero comprar. Mas será que é certo gastar tudo assim? Não é melhor guardar um pouco?
— Você consegue se segurar? — provoquei.
Ela fez biquinho e me lançou um olhar irritado.
— Não é tão simples. Quando tenho pontos, eles somem em menos de uma semana — resmungou.
Karuizawa começou a contar nos dedos tudo o que queria comprar. Ficou sem dedos rapidinho. Quantas coisas ela pretendia comprar, afinal?
— Mas, tipo, até eu sei que os pontos privados são importantes. O sistema da escola é meio estranho, né? A gente ganha uma quantidade absurda de pontos nas provas especiais e tal. Todo mundo anda comentando isso também — observou.
Parece que os estudantes comuns estavam começando a desconfiar de que havia algo por trás de tudo. Natural, eu diria. Se alguém de repente recebesse uma quantia tão grande, também questionaria as intenções da escola — talvez os pontos não fossem apenas para satisfazer desejos pessoais.
— Verdade. Alguns alunos podem ganhar até um ou dois milhões de pontos — comentei.
— Pois é. Será que é certo dar tanto dinheiro assim para colegiais? Não é normal.
Os pontos eram meio que essenciais para "sobreviver" naquela escola, o que explicava a incerteza de Karuizawa sobre como usá-los. Por exemplo, se você cometesse um erro que pudesse levar à expulsão, dava pra resolver o problema com pontos suficientes. Ter uns milhões guardados como seguro não era má ideia.
— Não vale a pena pensar demais nisso. Ficar olhando muito pro futuro enlouquece qualquer um. Se você guardar de dez a vinte por cento por mês, já é suficiente — falei.
Era preciso manter um equilíbrio entre desejos e necessidades. Para Karuizawa, uma compradora compulsiva de carteirinha, conter-se era difícil. Além disso, se ela de repente passasse a economizar demais, o pessoal da classe poderia achar estranho. Eu não queria que ninguém ligasse essa mudança a mim. Ainda queria passar despercebido.
— Quero te pedir um favor.
— O quê, nem vai pedir desculpa primeiro por me chamar pra cá nesse calor infernal?
— Quer isso? — estendi a ela uma garrafa de chá que ainda não tinha aberto. Ela hesitou, mas acabou aceitando.
— Tá meio morna — murmurou.
— Culpa do tempo. Não posso fazer nada.
Alguns lugares por perto já tinham registrado mais de quarenta graus Celsius. Só de pensar nisso, eu sentia mais calor. Karuizawa tentou abrir a tampa, fazendo força.
— Hmph. Acho que tirei um perdedor.
— Perdedor? Não costumo ver prêmios em tampas de chá.
— Não é engraçado, tá? Tô falando que é difícil de abrir — resmungou.
Bem, piada ruim da minha parte. Peguei a garrafa, girei a tampa e devolvi.
— Obrigada.
Depois do que aconteceu no navio, a distância entre mim e Karuizawa tinha diminuído. Antes das férias de verão, seria impossível termos esse tipo de conversa. Ela provavelmente ainda não confiava totalmente em mim, mas não demonstrava isso.
Karuizawa entendia muito bem o que era autocontrole. Para se proteger e manter sua posição, ela sabia se adaptar a qualquer ambiente.
— Amanhã é o último dia das férias de verão. Um amigo me chamou pra criar umas boas memórias de verão.
— Memórias de verão? Aqui nem tem festival ou fogos de artifício, né? — perguntou Karuizawa.
— A escola tem uma piscina enorme. Normalmente é só pro clube de natação, mas você sabia que hoje liberaram o uso pra todo mundo?
Aquela piscina era ainda maior que a usada nas aulas. Nos últimos três dias de férias, o acesso estava liberado. No primeiro dia, tanta gente apareceu que a escola precisou impor restrições — cada aluno só podia usar uma vez durante esses três dias. Pelo visto, o segundo dia também foi lotado.
— Ah. Agora que você falou, nem me interesso muito por nadar — murmurou Karuizawa.
Ela sempre faltava às aulas de natação alegando não estar bem. Embora fosse difícil faltar devido ao sistema de pontos, a escola não podia questionar um problema de saúde, especialmente um que envolvesse questões femininas. Outras garotas também se ausentavam — por não se sentirem bem, por não saberem nadar, ou simplesmente por não quererem mostrar o corpo diante dos meninos.
Mas o caso de Karuizawa era diferente. Um tempo atrás, ela havia sido cruelmente intimidada pelas colegas. Como resultado, carregava uma cicatriz feia na lateral do corpo — uma marca que ainda a atormentava. Se alguém visse aquilo, certamente causaria alvoroço.
— Você gosta de nadar? — perguntei.
— Hmm... não diria que odeio. Mas faz tanto tempo que não nado que provavelmente já esqueci como é — respondeu, tomando um gole de chá e olhando à frente. Eu podia dizer que não era bem o que ela sentia. — Então, o que, os caras querem fazer memórias na piscina? Aposto que é só desculpa pra bancarem os tarados.
Eu não podia negar. Provavelmente era exatamente isso.
— E o que eu tenho a ver com isso? — perguntou Karuizawa.
— Antes de eu responder, deixa eu te perguntar uma coisa. A escola realmente não sabe que você foi vítima de bullying?
— Hã?
Karuizawa pareceu confusa por um instante, mas logo me lançou um olhar fulminante. A fachada educada desapareceu. Encarei-a de volta.
— Você sabe que eu não quero falar sobre isso, né? — rosnou.
— Não tô tentando reabrir feridas antigas à toa. Tô perguntando porque é relevante — respondi.
— Mas… — Era um assunto sério para Karuizawa. Ainda assim, ela pareceu se decidir. — Tudo bem. Imagino que você tenha um motivo pra isso.
Ela engoliu a ansiedade antes de continuar:
— Tenho certeza de que eles não sabem a verdade sobre eu ter sido intimidada. Talvez saibam sobre minha licença médica, ou sobre os dias que faltei no fundamental, mas provavelmente acham que foi porque eu tava doente ou só cabulando aula, sabe? Ou talvez pensem que eu sou burra. É por isso que devem ter me colocado na Classe D.
O tom de Karuizawa soava autodepreciativo, mas ela provavelmente estava certa. A escola devia ter uma impressão ruim dela por causa das faltas e das notas baixas. O bullying explicava bem a arrogância que ela exibia hoje.
— Mesmo que a escola investigue, eles provavelmente não vão achar prova nenhuma do que aconteceu — acrescentou.
— Você percebe como o mundo é podre, não é?
— É… — murmurou Karuizawa. — Eu sofri por muitos anos. Pedi ajuda pros professores e pros colegas, mas isso só piorou as coisas. Não tinha pra onde fugir.
A natureza humana tem uma tendência cruel de se prender a ciclos viciosos. O bullying está profundamente enraizado no comportamento humano. As pessoas evitam encarar essa verdade de frente, mas deveriam reconhecer o quão destrutivo isso é. Não existe solução simples. Se a vítima reagisse, era comum as agressões ficarem ainda piores. "Por que contou? O que você tá tentando fazer?", os agressores diriam, aumentando os ataques.
— Por mais que me batessem, a escola fingia que nada acontecia. No máximo, davam uma advertência leve pros agressores. É claro que ficou ainda pior.
Mesmo quando uma escola reconhecia casos de bullying, geralmente tentava resolver tudo em segredo, para não manchar a reputação. Algumas instituições chegavam a negar a verdade mesmo quando uma vítima se matava e deixava uma carta explicando tudo.
Pior ainda, às vezes nem a morte trazia paz. A vítima podia continuar sendo insultada mesmo depois de morrer — zombada, exposta nas redes sociais como se sua dor fosse entretenimento. Que época assustadora, em que alguém podia ser intimidado até depois de partir.
— A escola, as pessoas que me atormentaram… até eu mesma… ninguém admitiu a verdade. Minhas amigas repetiam as mesmas mentiras. Era a única resposta possível, por mais injusta que fosse.
Karuizawa falava como se estivesse contando a história de outra pessoa. Para ela, o passado era algo imutável. Qualquer um choraria ao relembrar algo assim, mas seus olhos não mostravam lágrimas — apenas firmeza.
Na realidade, a escola provavelmente tinha investigado tudo. Devem ter concluído que ela era uma aluna problemática, desligada e faltosa. Se todos acreditassem nisso, a verdade real não teria importância. Ficaria enterrada sob uma pilha de mentiras.
— Mas eu sou grata às pessoas que me intimidaram. E à escola que encobriu tudo — acrescentou Karuizawa. — Ninguém aqui sabe do meu passado. E foi por isso que consegui me tornar uma nova eu. Isso não teria sido possível se todos já soubessem da minha história.
Ela havia virado o jogo conquistando o apoio e a proteção de Hirata, um dos alunos mais populares da escola.
— Karuizawa, acho que você merece reconhecimento por isso. Mas preciso te dizer uma coisa antes. A partir de agora, está proibida de participar de qualquer coisa que envolva intimidar os outros.
— Hã? Tá dizendo que eu tô fazendo bullying com alguém?
— Ser determinada é uma coisa. Mas você tem pegado no pé da Sakura. E ela não é o tipo de garota que faria algo contra você. Mesmo que esteja fazendo isso pra se proteger, pare.
Por mais que eu entendesse seu passado, havia limites que eu não podia aceitar.
— A Sakura-san, é? Você quer que eu ajude ela porque ela vive grudada em você?
— Preciso de um motivo pra isso? Você devia saber bem como é ser intimidada.
— Minha posição social é minha tábua de salvação. Não é algo que eu possa largar assim. Eu até sinto pena da Sakura-san, mas os fracos existem para serem presa dos fortes. Principalmente dos que fingem ser fortes, como eu.
Ela falou com convicção.
— Tô pedindo isso por ela. A Sakura já me ajudou várias vezes.
— Hmph. Pelo menos você admite — resmungou Karuizawa. Não havia irritação em seu olhar, apenas cautela. — Você não é muito convincente, mas… tá bom. Eu vou pegar mais leve a partir de agora, certo?
— Ser razoável ajuda. Além disso, o Hirata já consolidou sua popularidade atual. Você não deve estar em perigo.
— Acho que é verdade. Talvez eu tenha exagerado um pouco — disse ela em tom mais calmo. Enquanto conseguisse se ver com clareza, estava tudo bem. — Mas, se minha posição realmente ficar em risco, então…
— Quando isso acontecer, eu te apoio. Se for preciso, trago o Hirata e até a Chabashira-sensei para acabar com quem for necessário. Prometo.
— Hmm… tá bom então. Combinado.
Karuizawa nunca me pareceu o tipo de pessoa que recorreria à violência ou intimidação. Podia fingir o quanto quisesse, mas no fundo só interpretava um papel para se proteger. Pessoas que sofreram anos de bullying geralmente têm dificuldade de se relacionar, mas ela era diferente — tinha um coração forte e superou o trauma. Quando não cedeu às minhas palavras, tive certeza disso.
— Sabe o que é estranho? — murmurou ela.
— O quê?
— É que eu não gosto de falar sobre o passado. Achei que nunca contaria isso pra ninguém. Mas acabei contando pra você, e… foi surpreendentemente tranquilo. É meio esquisito, sabe?
Nem ela sabia ao certo por que tinha se aberto comigo. E eu também não tinha certeza.
— Posso te perguntar uma coisa? Essa maneira como você tá agindo agora… é o verdadeiro você? — perguntou, com um tom cauteloso. Karuizawa era a única da turma que já tinha visto os dois lados meus. Cruzei os braços e pensei em como responder. — Acho que eu sou assim o tempo todo.
— Você tá completamente diferente, sabe.
Na verdade, ela tinha razão. Mas isso não significava que eu estivesse fingindo uma personalidade.
— Quero te perguntar algo também. Qual é, exatamente, a diferença entre eu agora e o "eu" de sempre?
— Normalmente, você é um cara quieto. Quase não fala. Agora, tá sendo direto, confiante. É o oposto. Até o jeito que você fala mudou. O que tá acontecendo com você, afinal?
— Ué, as pessoas não agem diferente dependendo de com quem estão? Você também não faz isso?
Era a melhor resposta que eu podia dar — mesmo que não fosse toda a verdade. No fundo, sentia como se tivesse acabado de nascer como indivíduo. Quando entrei nessa escola, ainda não era uma pessoa completa. Era como líquido, moldável. Levaria tempo para entender de fato como interagir e me expressar corretamente.
— Enfim, pretendo continuar sendo eu mesmo — disse.
— Engraçado, porque você não soa nem um pouco como o "você mesmo" — retrucou Karuizawa, semicerrando os olhos.
— Vamos voltar ao assunto principal. A partir de agora, você pode me observar e decidir que tipo de pessoa eu sou.
— Tenho a impressão de que você desviou da pergunta, mas tudo bem. Vamos voltar a falar da escola. O que tem ela, afinal?
— Amanhã, nós quatro — eu, Ike, Yamauchi e Sudou — estamos planejando sair, junto com a Horikita, a Sakura e a Kushida.
— Que combinação mais esquisita. Não consigo imaginar a Horikita-san e a Sakura-san passando tempo com esses caras. Acho que as duas só toparam por sua causa, né? Os outros três vão ficar babando nelas o tempo todo. Coitadas — comentou Karuizawa, com um toque de ironia.
Era verdade. Normalmente, aquelas garotas jamais aceitariam um convite vindo de nós. Eu entendia perfeitamente o motivo do comentário de Karuizawa.
— Quero que você vá com a gente — falei.
— Hã?! Tá falando sério?! — exclamou Karuizawa, quase pulando do banco.
Ela não tinha ligação nenhuma com o grupo. Na verdade, havia até certa tensão entre ela e alguns deles.
— Você pode colocar o maiô no dormitório, vestir a roupa por cima e vir assim mesmo. Vai ser meio desagradável, mas se voltar pro dormitório do mesmo jeito, tudo deve ficar bem — expliquei.
— Não, não. O problema não é esse. Eu realmente, realmente não quero fazer isso.
— Eu entendo, mas basicamente você não tem como recusar, tem?
— Uau… você é mesmo o pior.
— Minha decisão é final. Vai fazer o que eu disser — declarei, empurrando um bilhete manuscrito em sua direção. — Mostrei um pouco de consideração, se serve de consolo.
— Que droga é essa? Você tá querendo usar o meu dia inteiro, não é? E justo o último dia do verão! — reclamou, indignada.
— Você mesma disse que planejava passar o dia dormindo — rebati com calma. — Quero que vá à piscina com a gente. Mas não tô dizendo para participar.
Karuizawa pegou o bilhete e o leu atentamente.
— Espera aí, qual é a diferença entre "ir junto" e "participar"? — perguntou, franzindo o cenho.
Expliquei em detalhes o motivo de tê-la chamado. Karuizawa ouviu tudo, e no fim apoiou a cabeça nas mãos, suspirando fundo.
— O que foi? — perguntei. — Tá com dor de cabeça?
— É claro que tô! Dói porque você... Não, deixa pra lá. É inútil. Por que você não pede isso pra Horikita-san? Vocês não são próximos?
— Não posso contar com ela. Ela não entende o jeito como eu ajo nas sombras.
— Hã? Como assim? — A incredulidade dela era compreensível. E embora o certo fosse desviar da pergunta, resolvi ir um pouco além.
— Desde o início, até quando te contatei no navio, eu agi completamente por conta própria. Nunca conversei com a Horikita sobre isso, porque ainda não consigo confiar nela.
Era a pura verdade.
— O quê? Você ainda não confia nela, depois de todo esse tempo juntos? Que esquisito.
— Ela serve como uma excelente cobertura para mim. Tipo uma capa de invisibilidade. Ela chama atenção demais — respondi.
— Então você tá usando ela?
— Não exatamente… mas, nesse caso específico, pode-se dizer que sim.
— Hã? Não entendi nada. Dá pra parar de falar em enigmas? — reclamou, mas logo abriu um sorrisinho. — Ainda assim, seus planos têm funcionado direitinho, né? Eu jurava que a Horikita-san era quem puxava as cordas. Sério, quem é você, afinal?
Para ela, eu era um mistério completo. Permaneci em silêncio.
— Enfim, acho que ser mais confiável que a Horikita-san já é alguma coisa — acrescentou.
Ela estava certa. Em certos aspectos, Karuizawa era infinitamente superior a Horikita, embora eu não pudesse dizer isso em voz alta.
— Então eu só preciso seguir suas ordens, é isso? — perguntou.
— Exato. E já que tá decidido, vem comigo um instante. Temos que resolver uma coisa antes.
— Bem, não é como se eu tivesse escolha — suspirou, levantando-se e limpando a poeira da saia, deixando claro o quanto queria encerrar aquilo rápido.
Eu também não pretendia perder tempo. Assim, seguimos juntos em direção à piscina.
*
Na noite anterior ao meu encontro com Karuizawa, eu estava aproveitando os últimos momentos das férias de verão no meu quarto, quando Ike — aparentemente o representante oficial dos três idiotas — mandou uma mensagem no grupo.
"É mesmo certo deixar o verão acabar assim? Nossa juventude está escorrendo pelos dedos."
Profundo e idiota ao mesmo tempo. Antes que alguém respondesse, Ike mandou outra.
"É mesmo certo deixar as preciosas férias de verão do nosso primeiro ano de ensino médio acabarem sem vivermos nada incrível?"
A frase era parecida, mas o tom, ainda mais dramático.
"Claro que não!" — respondeu Yamauchi, concordando de imediato. Provavelmente ele ainda não tinha superado sua desilusão amorosa e queria um novo começo.
"É, também quero aproveitar minha juventude!" — acrescentou Sudou.
"Então devemos nos levantar! A juventude não vem até quem espera. É hora dos homens que tomam a iniciativa!" — proclamou Ike, empolgado.
Buscar os prazeres da juventude era uma ideia bonita… mas como exatamente eles pretendiam fazer isso?
"Tem alguma boa ideia?" — perguntou Yamauchi.
Ike devia estar esperando por isso, porque respondeu com uma mensagem longa logo em seguida.
"Tive uma! A piscina está aberta pra todo mundo agora, né? Vamos convidar aquelas garotas lindas pra nadar! Eu fico com a Kikyou-chan, o Haruki vai com a Sakura, e o Ken com a Horikita!"
Ike despejou os nomes das meninas sem nem perceber que acabara de reabrir as feridas de Yamauchi.
"Se a Suzune for, eu tô dentro. Você acha que ela vai aceitar?" — perguntou Sudou.
"Deixa isso pro Ayanokoji-sensei, né?"
Eu quis responder "nem pensar", mas não podia simplesmente dizer isso.
"Quer dizer… você vai ajudar, né? Somos amigos, né?" — veio a mensagem de Sudou. Mesmo por chat, soou mais como uma ameaça. Curiosamente, ele só usava a palavra "amigo" quando precisava de algo.
"Vou ver o que posso fazer. Mas não esperem muito." — respondi.
Depois disso, silenciei o grupo e decidi ligar para Horikita. Não era só pelo Sudou; parte de mim também queria convidá-la, principalmente agora que sua reputação na classe estava em alta.
— O que você quer? — atendeu ela, seca.
— Não posso te ligar sem um motivo? — perguntei.
— Certo, vou desligar.
— Espera, espera! Tá bom, pra falar a verdade, uns amigos estavam combinando de ir à piscina amanhã. Pediram pra eu te chamar, já que você passa o dia inteiro trancada no quarto.
— "Amigos"? Quer dizer aqueles três idiotas incríveis? Não consigo me imaginar saindo com eles.
Três idiotas incríveis. O apelido soava quase elegante.
— Eu recuso — disse Horikita, sem hesitar.
— E se fosse só nós dois?
— Também não.
Como esperado. Mas eu tinha uma arma secreta.
— Garrafa d’água.
A mudança na voz dela foi imediata, mesmo pelo telefone. Teria sido bom se ela soubesse quando estava em desvantagem, mas, claro, fingiu ignorar.
— Do que você está falando?
— Ah, nada. É que a expressão "garrafa d’água" anda na minha cabeça ultimamente. Tipo… quando alguém prende o braço numa garrafa, sabe?
— Você tem uma forma de falar extremamente desagradável — disse Horikita, já demonstrando preocupação.
— Só acho que a honestidade faz bem pra todo mundo.
— Certo. O que você quer que eu faça amanhã, e a que horas? — perguntou ela, rendida.
Horikita estava desesperada para proteger sua reputação. Faria qualquer coisa para evitar que alguém descobrisse o incidente da garrafa d’água — inclusive ir à piscina.
— Vamos nos encontrar às oito e meia no saguão. A gente se separa no fim da tarde — informei.
— Entendido. Mas não vou te perdoar se tentar isso de novo.
— Tudo bem.
Eu não tinha a menor vontade de testar a sorte. Não via aquilo como chantagem, e sim como… cobrar um favor. Ela provavelmente entendia isso.
Convite feito, voltei ao grupo.
"Bom trabalho, Ayanokoji! Você escapou de levar um suplex alemão no concreto!"
Pelo visto, minha vida estivera em risco.
"Convida a Sakura pra mim! Por favor, Ayanokoji, eu te imploro!" — escreveu Yamauchi.
Ele havia sido rejeitado recentemente. Logo depois, me mandou uma mensagem privada.
"Não quero que eles saibam que fui rejeitado! Me ajuda, por favor!"
Triste. Os caras certamente adorariam se Sakura fosse com a gente, mas ela não era exatamente sociável. Sempre pulava as aulas de natação, porque o tamanho do busto chamava atenção de todo mundo — e isso a deixava desconfortável. Além disso, seria estranho sair com o cara que ela acabara de recusar.
Mesmo assim, decidi ao menos tentar ligar pra ela.
*
Num piscar de olhos, o dia prometido chegou — o evento final das férias de verão. Havíamos combinado de nos encontrar às oito e meia. Quando desci até o saguão, vi que a maioria do grupo já estava reunida.
— Quase que você não chega, hein? — provocou Horikita.
— Ainda faltam uns dez segundos até o horário combinado.
— O elevador devia estar lotado, né? Foi por isso que você se atrasou, não foi? — retrucou ela.
Provavelmente ainda estava irritada por eu tê-la convidado de forma um tanto forçada. Além disso, era bem possível que não gostasse da companhia. Como Kushida, Sakura, Ike e Yamauchi estavam indo à piscina, não havia realmente ninguém com quem Horikita pudesse conversar.
— B-Bom dia, Ayanokoji-kun.
— Bom dia, Sakura — respondi.
Sakura levantou os olhos timidamente ao me cumprimentar com educação. Yamauchi, por outro lado, parecia estar de olho nela, lançando olhares de canto. Sakura parecia um pouco nervosa.
Eu registraria mentalmente que uma confissão amorosa não traz necessariamente felicidade — às vezes, só causa problemas que continuam depois.
— Onde está o Sudou?
— Provavelmente dormiu demais — respondeu Horikita.
Já passava do horário combinado, e Sudou não dava sinal de vida. Ele devia estar exausto por causa das atividades do clube. Como ninguém tentava contatá-lo, resolvi ligar.
— Não adianta. A ligação não completa — avisei.
O telefone apenas chamava sem parar. Nem a caixa postal atendia.
— Cara, o que o Sudou tá fazendo? Já são oito e meia! Se a gente não se apressar, não vai chegar primeiro! — gritou Ike, batendo o pé impaciente enquanto olhava para o elevador.
— C-Certo, eu vou acordar ele — disse Yamauchi, entrando no elevador com um ar desconfortável por causa do silêncio constrangedor entre ele e Sakura. Assim que ele saiu, a atmosfera pesada começou a se dissipar.
— Aconteceu alguma coisa com ele? — perguntou Horikita em voz baixa. Ela devia ter notado a mudança. Cocei a cabeça, pensando em como responder.
— Aconteceram algumas coisas — respondi, deixando por isso mesmo. Nem Yamauchi nem Sakura ficariam felizes se o assunto se espalhasse.
— Ora, ora, o que temos aqui? Horikita-san, pessoal, bom dia!
Enquanto esperávamos Sudou, Ichinose desceu acompanhada de três amigas. Toalhas de banho apareciam nas sacolas plásticas coloridas que carregavam.
— Vocês também estão indo pra piscina?
— Exatamente isso.
A piscina era o último grande evento das férias de verão. Não era nada estranho que elas também fossem.
— Que tal irmos todos juntos? — sugeriu Ichinose.
— Claro! Quanto mais gente, melhor! — gritou Ike, saltando do sofá com tanta empolgação que parecia prestes a decolar.
Horikita não disse uma palavra sequer.
— Bem, é que... desculpa, mas alguém do nosso grupo dormiu demais. Estamos esperando ele descer. Um amigo foi chamá-lo — explicou Ike.
— Entendi! — respondeu Ichinose animada.
*
Sudou abriu a boca num enorme bocejo, bagunçando o cabelo desgrenhado.
— Foi mal ter dormido demais. Tô acabado por causa do treino do clube — disse, pedindo desculpas a Horikita, que reagiu como se ele fosse apenas um incômodo.
— Não me venha com essa — respondeu ela. Nenhum sinal de que ele tivesse progredido minimamente em derreter o coração dela.
Ichinose e suas amigas, que haviam esperado por Sudou para que todos fôssemos juntos à piscina, conversavam animadamente com Kushida no centro do grupo.
— Ei, Ayanokoji-kun — chamou Horikita, ignorando Sudou. Ele, por sua vez, me lançou um olhar de irritação. — Não acha que isso tudo está um pouco estranho?
— O quê exatamente?
— Numa situação dessas, Ike-kun e Yamauchi-kun já estariam forçando a barra, certo?
Sudou ficou rígido ao ouvir a observação afiada de Horikita. Como estava bem perto dela, ela não deixou de notar.
— Alguma coisa te veio à mente, Sudou-kun? — perguntou.
— N-Nada demais — murmurou ele.
Isso só deixou Horikita ainda mais desconfiada. Ike e Yamauchi andavam lado a lado, com expressões tensas.
— Não consigo deixar de pensar que eles têm segundas intenções — comentou Horikita, voltando o olhar para a bolsa que Ike carregava. — Mesmo que só devessem ter trazido toalhas e trajes de banho, essa bolsa parece bem pesada.
A bolsa de Ike parecia pesar mais do que qualquer outra ali, inclusive a minha.
— É mesmo? Não parece tanto assim — respondeu Sudou, visivelmente nervoso.
— Não parece? Olhe bem pra bolsa — insistiu Horikita.
As suspeitas dela faziam sentido. A bolsa balançava pesadamente quando Ike andava, forçando o braço.
— Talvez eles tenham combinado algo depois da piscina. Pode ser que ele tenha trazido coisas pra isso — sugeri, tentando ajudar Sudou.
— É-É, deve ser isso mesmo — concordou ele rapidamente, agarrando-se à desculpa.
— Entendo. Suponho que seja plausível — disse Horikita.
Era fato conhecido que aqueles três idiotas tarados eram obcecados por garotas. Dada a súbita mudança de comportamento, não era de se estranhar que Horikita desconfiasse. Os três estavam extremamente nervosos — e não era por estarem cercados de meninas bonitas, nem pela expectativa de vê-las de maiô.
Decidi mudar de assunto para manter a farsa.
— Sudou.
— Q-Quê foi?
— Como foram as atividades do clube? Ganhou algum ponto?
— Hã? A-Ah, sim, ganhei alguns no torneio. Acho que uns 3.000 pontos, mais ou menos — respondeu.
Sudou estava sendo modesto. Horikita pareceu genuinamente impressionada.
— Você conseguiu pontos por atividades pessoais? — perguntou ela.
— É. Mas muitos alunos do segundo e terceiro ano já conseguiram dezenas de milhares de pontos, então ainda não posso me achar demais. Se você se destacar bastante no clube, isso pode até afetar os pontos da classe. Vou tentar fazer muito mais no segundo semestre e daqui pra frente — respondeu, cruzando os braços e se exibindo com orgulho.
Ao ouvir sobre o sucesso de Sudou em uma área que ela mesma não dominava, Horikita demonstrou respeito sincero.
— O dia em que você contribuir de forma significativa para a classe pode estar próximo — disse.
Para ser sincero, eu pensava o mesmo. Se tudo corresse bem, Sudou poderia se tornar um benefício real para a classe. Mas, claro, eu tinha minhas reservas. Sudou fazia inimigos com facilidade, e precisava monitorar tanto ele quanto Horikita, que tinha tendências parecidas.
Seguimos para a instalação especial do clube de natação, que ficava ao lado do prédio da escola. Como não fazia parte do edifício principal, podíamos entrar sem o uniforme. Parecia que a piscina seria bastante frequentada, especialmente considerando que aquele era o último dia.
Mesmo antes de chegarmos à entrada, o local já estava cheio de alunos. Como era de se esperar de uma escola de ponta, cada série tinha vestiários separados. Era fácil se perder ali, mas seguimos as instruções de uma placa e conseguimos achar o caminho.
— Ok, vamos nos encontrar aqui de novo em vinte minutos — disse Ichinose, apontando para o corredor que levava à piscina. Era bom ter uma líder organizada por perto.
— Hoo… hoo… — resfolegou Ike.
Enquanto as garotas se afastavam, Ike começou a respirar pesado, como se estivesse excitado. Acelerou o passo, chegando primeiro ao vestiário. Lá dentro, ele e Yamauchi foram direto para os armários mais afastados, no fundo.
— E-Ei, pessoal. Hoje vai ser especial. Não sentem isso?!
— Sim! Vamos mais longe do que qualquer um da nossa classe já foi. Mais longe do que qualquer um da escola inteira!
Ike e Yamauchi estavam chamando a atenção de todos ao redor. Sudou foi imediatamente até eles e colocou cada um em um golpe de "headlock", um braço em cada.
— Geh! Que diabos, Ken?!
— Vocês estão fazendo muito barulho! Olhem, sei que estão ansiosos, mas não podemos chamar atenção — sibilou Sudou.
— É-É, acho que você tem razão. Desculpa, cara. Ai!
Sudou juntou suas testas como forma de dar uma lição. Era um pouco agressivo, mas eficaz.
— Você está surpreendentemente calmo, Sudou — comentei.
— Acho que eu realmente não esperava muita coisa, pra ser honesto. Além disso, sei lá, parece meio errado. Se eu pensar de verdade, isso deixaria a Suzune triste. Não quero que eles vejam a Suzune indefesa, sabe? Se você é homem, tem que fazer a garota se apaixonar — respondeu.
Sudou tinha a ideia certa. Eu queria que Ike e Yamauchi aprendessem isso por conta própria, mas por enquanto, a preocupação deles era só com gratificação imediata.
Chequei o celular e tinha uma mensagem de Karuizawa dizendo que ela acabara de entrar no vestiário.
— Quem tá te mandando mensagem? — perguntou Ike, com o rosto vermelho e um brilho suspeito nos olhos. Ele tentou dar uma olhada, então guardei o celular rapidamente.
— Ah, é uma garota, né? — provocou.
— Pareço tão popular assim? — respondi.
— Acho que você tem um ponto. Então, vamos trocar de roupa! Espalhem as toalhas! — gritou Ike.
Eu meio que queria que ele protestasse dizendo que eu realmente era popular, mas deixei passar. Era hora de ver como a sorte de Ike e Yamauchi se comportaria.
*
— Uau, que luxo! Está totalmente equipado.
O grande complexo da piscina, normalmente usado para atividades do clube e treinos regulares, parecia completamente diferente naquele dia. Muitos alunos estavam no local, mas também havia barracas de comida por todos os lados. Lanches e comidas rápidas em abundância: hot dogs, yakisoba, okonomiyaki e muito mais.
Mais curioso ainda, os veteranos pareciam estar administrando as barracas. Havia de tudo: estudantes sérios, que trabalhavam duro sem sorrir, e outros que pareciam estar se divertindo muito. Lembrei-me dos testes especiais.
Seja o que estivesse acontecendo, definitivamente parecia uma festa. Enquanto esperávamos as garotas, senti o ânimo do grupo começar a melhorar.
Se você queria atrair atenção positiva das pessoas ao redor, precisava se esforçar. Na parte acadêmica, por exemplo, se você estivesse no topo da classe ou tirasse a maior nota em uma prova, as pessoas prestariam atenção. O mesmo acontecia com habilidades atléticas notáveis. Mas havia muitas formas de se destacar, e uma delas era simplesmente ser atraente. Homens bonitos, mulheres lindas — era muito mais fácil para pessoas bonitas atraírem atenção do que atletas ou gênios acadêmicos. Não dava para negar que esse fator especial existia.
Não sabia como nos comparávamos com outras escolas, mas muita gente naquela era mais atraente que a média. Isso incluía membros do nosso grupo. Estávamos cercados por muitos estudantes lindos cujos nomes eu nem conhecia. Não era de se espantar que Ike e Yamauchi estivessem constantemente excitados.
Como seria se uma beleza estonteante viesse acompanhada de uma personalidade perfeita? Alguém que não fosse apenas bonito e estiloso, mas também brilhante academicamente? Uma garota assim chamaria a atenção de qualquer um.
De repente, quase todos os alunos do sexo masculino focaram sua atenção em um único ponto.
— Ufa. Que multidão, hein? — disse Ichinose, alcançando-nos, aparentemente alheia a todos que a olhavam.

— Ei…
Sem saber para onde olhar, desloquei meu olhar para a parede enquanto respondia.
— Onde estão os outros? Achei que os garotos seriam mais rápidos — disse ela.
— Ainda estão se trocando — respondi. Eles também estavam atrasados por outros… motivos. — Você se trocou rápido.
— Ahhaha! Tenho bastante confiança nas minhas habilidades de troca rápida — gabou-se Ichinose, como se isso fosse algo digno de orgulho. Sua inocência ensolarada talvez fosse o segredo da sua popularidade. — Oh! Ayanokoji-kun, você trouxe uma camiseta de proteção UV?
— Pode parecer estranho para um garoto, mas eu não gosto muito de mostrar a pele na frente dos outros. Ouvi que era permitido usar isso quando não estamos em aula.
— Entendi. Acho que tudo bem. Afinal, não viola as regras.
Alguns outros alunos também estavam se cobrindo, inclusive garotos como eu. Ichinose cutucou meu estômago coberto com o dedo indicador.
— Você é bem duro. E também é esbelto. Tem a quantidade ideal de músculos, sem exageros — observou.
Ela continuava me tocando por todo o corpo, dos braços aos ombros. Tive sorte de ter dinheiro para comprar a camiseta externa. Precisava agradecer a Katsuragi.
— Você malha? — perguntou.
— Não. Deve ser só o material da roupa. Não faço exercícios diariamente nem nada — respondi.
— Hmm.
Ichinose abaixou os olhos para olhar minhas pernas, mas pelo menos parou de fazer perguntas. Ainda assim, estar tão perto dela me deixava extremamente consciente de seus… enormes — digo, seus muito grandes seios. Como eu poderia nadar assim? Duvidava se conseguiria me mover.
— Bem, esses caras estão atrasados. Acho que vou dar uma olhada neles.
Eu sabia muito bem o que eles estavam fazendo e por que se atrasaram, mas não podia suportar ver Ichinose de maiô por mais tempo. Dei meia-volta e fui em direção aos vestiários masculinos.
*
Alguns minutos depois, terminamos de nos preparar e seguimos juntos para a piscina. Todas as garotas, incluindo Horikita, já haviam se reunido.
— Uau!
Ike não conseguiu conter o espanto ao ver o espetáculo que as garotas formavam. Sakura, no entanto, se manteve na retaguarda do grupo. Ela, claro, também usava uma camiseta de proteção UV. Mesmo assim, nem todos os garotos conseguiam esconder a alegria de ver as garotas de maiô.
— Gah, ah! Consigo vê-las. Seus seios, por baixo desses maiôs finos! Consigo ver!
Ike e Yamauchi encaravam as garotas como se tivessem visão de raio-X. Pareciam estar se divertindo como nunca.
— Certo, vamos indo? Parece que aquele lugar lá no fundo está livre — sugeri.
Ichinose liderou o caminho para garantir um espaço para ficarmos. Os garotos ficaram logo atrás, com o objetivo de admirar os quadris que balançavam suavemente das garotas. No entanto, Sudou não se afastou do lado de Horikita. Eles ficavam bem juntos. Na verdade, achei que poderiam formar um casal surpreendentemente compatível.
Enquanto isso, caminhei ao lado de Sakura, o que estava se tornando um hábito.
— Ah. Obrigada — sussurrou ela.
— Por que está me agradecendo? — perguntei.
— Como assim? — Sakura parecia confusa, até perceber que eu não tinha entendido a referência. — Hã… por me convidar hoje.
— Hã? Mas isso é normal. Afinal, somos amigos, não é? — disse a palavra "amigos" de forma natural e tranquila. Sakura levantou os olhos feliz, com os olhos brilhando como os de um filhote.
— Então, não precisa me agradecer — disse.
Sakura aparentemente não concordou.
— Mesmo assim, obrigada — repetiu.
— Não, bem… Tá bom então.
Esse era o jeito de Sakura. Era por isso que eu conseguia relaxar quando estava com ela.
Mesmo assim, ela havia se tornado mais corajosa. Havia amadurecido a ponto de eu quase não reconhecê-la como a mesma garota que conheci. Um colega havia se declarado para ela, e ela não fugiu, mas respondeu de forma apropriada. Observando seu crescimento dia após dia, pensei que talvez eu também pudesse mudar.
— Tenho pensado… recentemente, durante a aula de Educação Física, o professor disse que nadar seria definitivamente útil para nós mais tarde. Acho que ele se referia ao teste da ilha — observou Sakura, com um olhar determinado. Decidi não desanimá-la.
— Entendi. Isso é verdade, com certeza.
— Viu? Eu sabia! — Feliz por ter deduzido algo importante, Sakura pulou para cima e para baixo inocentemente, fazendo seus grandes seios balançarem sob a camiseta de proteção.
Senti um pouco de simpatia por uma garota cujos seios eram tão grandes que dificultavam coisas normais, como simplesmente tirar uma blusa. Ainda assim, fiquei feliz por ter descoberto um novo lado de Sakura.
No entanto, no momento seguinte, sua expressão se tornou arrependida.
— Se eu participasse de verdade, acho que seria mais útil. Usei minha saúde fraca como desculpa para fugir — disse.
— Enquanto você estiver ciente disso, não é suficiente? — respondi.
Os alunos que antes viviam apenas para si mesmos, sem pensar no futuro, começaram lentamente a perceber que não se podia sobreviver sozinho. A menos que planejassem se tornar eremitas, vivendo no alto de uma montanha, não tinham escolha senão depender dos outros.
A maioria dos estudantes do ensino fundamental e médio ainda não havia percebido isso. Viviam em isolamento hedonista, gastando o tempo na internet ou se dedicando febrilmente a jogos de celular. Alguns delinquentes cometiam crimes, de pequenos a graves. Não sabiam pedir ajuda ou cooperar com os outros. Alguns passariam a vida inteira sem aprender.
Esta escola era diferente. Seus métodos eram únicos, mas pareciam visar ensinar os alunos a se tornarem indivíduos funcionais.
Sakura começava a perceber isso. Ela entendia que talvez houvesse algo que pudesse fazer pela classe. Eventualmente, poderia se tornar um grande trunfo para a 1-D.
— Ichinose-san. Vocês também vieram hoje, né? — três estudantes do sexo masculino nos chamaram enquanto procurávamos um lugar. Reconheci um deles: Kanzaki, da Classe B. Ele acenou para nós.
— Yoo-hoo! Shibata-kun, você está aqui com os garotos? — perguntou Ichinose.
Shibata levantou a mão e olhou para nós, alunos da Classe D, com um sorriso.
— Parece um grupo divertido! Que tal se juntarmos a vocês? — perguntou.
— Tudo bem para mim, mas… isso é aceitável? — perguntou Ichinose, olhando para nós.
Kushida assentiu com entusiasmo, anulando imediatamente a capacidade de Ike e Yamauchi de vetar a sugestão. Os três alunos da Classe B se juntaram a nós, aumentando nosso grupo para impressionantes treze membros.
— Desculpem incomodar — disse Kanzaki, aproximando-se de mim. Ele entendia que eu não era muito bom lidando com grupos barulhentos.
Sakura rapidamente deu um passo para trás, desaparecendo instantaneamente ao fundo para que Kanzaki não a notasse.
— Tudo bem — respondi. — É o último dia das férias de verão, afinal.
— Bem, é verdade que temos poucas oportunidades de socializar com alunos de outras classes. Shibata e os outros parecem felizes — respondeu Kanzaki.
— Mas você não parece gostar muito deles, hein — disse eu. Kanzaki estava calmo e composto, como sempre. No entanto, havia uma astúcia discreta na forma como se aproximava, sem chamar atenção.
— Sou como você, Ayanokoji. Não sou bom com multidões.
Enquanto Kanzaki e eu conversávamos sobre assuntos sem importância, ouvimos aplausos cada vez mais altos à frente.
— Parece que eles estão todos empolgados com alguma coisa — disse Sudou.
Levantei a cabeça para olhar. No centro da confusão, havia um grande respingo. Uma pessoa e uma bola voaram para cima. O jogador deu um poderoso e agressivo saque, enviando a bola para o lado adversário da piscina. Pelo visto, estavam jogando vôlei.
— Uou! Incrível! Isso é nível profissional, hein?! — gritou Yamauchi.
Havia três piscinas na grande instalação, todas em uso para diferentes atividades e jogos. Uma piscina era para natação comum. Outra funcionava como um rio lento com correnteza. A última era destinada principalmente a esportes e atividades diversas.
Uma grande multidão de garotas gritando cercava a piscina de esportes, onde os alunos disputavam um jogo intenso de vôlei. Eu nunca tinha visto muitos deles antes. A maioria parecia um pouco mais velha que nós, provavelmente alunos do segundo ou terceiro ano.
Um aluno, em particular, se destacou.
— Ele é incrível.
O objeto da admiração de Sudou era o mesmo aluno que eu havia notado. À primeira vista, sua forma esguia parecia delicada. Mas, de perto, era possível ver seus abdominais bem definidos. O jeito como seu cabelo loiro balançava a cada movimento, e a expressão serena no rosto, chamava atenção. Ele era tão bonito que quase parecia uma ilusão, uma imagem projetada na tela.
Aparentemente, esse jovem bonito havia conquistado a atenção da maioria das garotas.
— Ugh, ele é o tipo de cara que eu mais odeio. Mesmo sem ser tão talentoso ou esforçado, é vencedor por causa da aparência — resmungou Ike.
Entendi a inveja venenosa de Ike e Yamauchi, mas eles estavam errados. Esse jovem bonito não era admirado apenas pela aparência. Observei o brilho determinado em seus olhos enquanto se concentrava na bola. O rapaz saltou para atingir a bola que um colega havia passado.
A maioria dos espectadores ficou em silêncio, como se tivesse esquecido de torcer. Todos assistiam em suspense. O aluno bonito lançou a bola em alta velocidade e em um ângulo preciso, atingindo a equipe adversária. O jogador que recebeu a bola também era claramente habilidoso, respondendo rapidamente e mergulhando para manter a bola em jogo.
Todos gritaram em uníssono quando a equipe do rapaz bonito marcou um ponto. Sua superioridade física era óbvia. Observando o desenvolvimento da parte inferior de seu corpo, imaginei que ele praticava um esporte que exigia muito das pernas. Talvez atletismo? Também poderia ser beisebol ou futebol.
— E-Ele é bonito, inteligente, bom nos esportes… Quem diabos é ele?!
— As pessoas estão realmente empolgadas, hein? Esse cara domina o jogo sozinho.
— Parece que sim. Mas não sei quem ele é nem de onde veio.
Horikita e eu não conhecíamos muitos alunos de outras classes, nem suas habilidades. A melhor pessoa para perguntar era Kushida, cuja rede de contatos era maior que a de qualquer outro. Ela tinha a resposta.
— Esse é Nagumo-senpai da Classe A. Ele é do segundo ano. Pelo visto, faz muito sucesso entre as garotas — disse ela.
— Nagumo…
Eu tinha ouvido esse nome recentemente. Ichinose, que estava por perto, explicou um pouco mais:
— Ele é o atual vice-presidente do conselho estudantil. Dizem que assumirá a presidência no ano que vem. Pelo visto, é muito inteligente.
Os ombros de Horikita se tensionaram levemente ao ouvir as palavras-chave "conselho estudantil".
Cada vez que Nagumo demonstrava suas habilidades, havia aplausos altos e estridentes. Outros jogos aconteciam ao mesmo tempo, mas ninguém prestava atenção. Todos estavam fixos em Nagumo.
— Apesar de ser popular entre as garotas, eu nunca tinha ouvido falar dele até agora. Você também não conhecia, né, Ayanokoji-kun? Ele é obviamente habilidoso, mas considerando sua fama, imagino que haja um pouco de exagero. Tenho certeza de que o presidente do conselho o superaria facilmente em qualquer atividade, não acha? — perguntou Horikita.
Que ousadia — elogiando o presidente sem revelar que ele era seu irmão.
— Sim. Dizem que o presidente é incrível. Talvez o estudante mais extraordinário da história da escola. Espera, ele tem o mesmo sobrenome que você, Horikita-san, certo? — perguntou Ichinose.
— Parece que sim — respondeu Horikita, de forma factual.
Aparentemente, ela não tinha intenção de dar uma resposta honesta.
— Mas há rumores de que Nagumo tem habilidades comparáveis. Na verdade, durante as eleições do conselho estudantil, o Presidente Horikita e o Vice-presidente Nagumo concorreram ao cargo de presidente. Na época, Nagumo era apenas um aluno do primeiro ano — disse Ichinose.
— Você está bem informada, hein? — respondeu Horikita.
— Quando entrei no conselho estudantil, inevitavelmente acabei sabendo dessas coisas — completou Ichinose.
— Você fez isso? — Horikita soou incrédula.
Ela não conseguia esconder a surpresa. Lembrei-me que, no dia em que a conheci, ela conversava com Hoshinomiya-sensei, professor titular da Classe B, sobre "assuntos do conselho estudantil". Eu não tinha o menor interesse em trabalhar ao lado de Horikita Manabu, mas, dada a estrutura da escola, ingressar no conselho estudantil tinha que ter um significado monumental.
— A propósito, quais são os pré-requisitos para entrar no conselho estudantil? Nem todo mundo pode participar, certo?
— Hmm… Bem, é um pouco complicado. Para ser sincera, fui rejeitada na primeira vez em que me candidatei. Mas, como você pode tentar quantas vezes quiser, insisti — disse Ichinose. — O presidente nunca confirmou nada, mas aparentemente a decisão final veio do Vice-presidente Nagumo. Depois, ouvi do próprio Nagumo que o Presidente Horikita parecia desapontado com os alunos do primeiro ano deste ano. Normalmente, aceitam dois calouros, mas este ano, eu sou a única. Por isso quero me apressar e provar meu valor. Parece que o Presidente Horikita pode se aposentar em outubro.
Enquanto Horikita se esforçava para se aproximar do irmão, Ichinose fazia o máximo para ganhar algum espaço.
— Meu objetivo é definitivamente ser como Nagumo-senpai. Nós dois começamos bem e nos damos bem. Todos os presidentes do conselho estudantil na história desta escola vieram originalmente da Classe A, mas Nagumo-senpai é como eu. Nós dois viemos da Classe B. Então, antes que alguém percebesse, ele estava na linha de sucessão para se tornar presidente. Por isso quero ser presidente depois de Nagumo-senpai.
Ichinose fez uma pausa, depois acrescentou:
— Brincadeira!
Ela claramente tinha uma estima muito maior por Nagumo do que pelo irmão de Horikita. Demonstrando certo descontentamento, Horikita retrucou:
— O potencial limitado de Nagumo é óbvio. Ele começou atrasado — cuspiu.
— Ei, ei — disse eu.
Horikita podia pensar o que quisesse, mas essa lógica não funcionava contra ela, considerando que ela havia começado na Classe D? A menos que… ela estivesse falando sério.
— Espera. Você ainda acha que te colocaram na Classe D por engano? — perguntei.
— Não é óbvio? — respondeu Horikita sem hesitar.
— Bem, suponho que posso entender por que pensa assim. Mas a escola não parece organizar as classes apenas com base na capacidade acadêmica. Eles analisam sua inteligência, claro, mas também o nível de maturidade e habilidades de colaboração. Creio que eles baseiam suas decisões na demonstração de todas essas habilidades — ponderou Ichinose.
— Então você está dizendo que há um problema comigo, de forma geral?
— Oh, não. Desculpe, se foi assim que pareceu. Mas pense bem: basicamente, Horikita-san, você é o tipo de pessoa que acredita em si mesma. Mas se invertermos isso, também pode significar que você é egocêntrica. No mundo real, haverá momentos em que você precisará determinar quem é mais adequado para uma situação: alguém importante demais para si mesmo ou alguém que segue instruções. Essas decisões são feitas caso a caso.
Pessoas egocêntricas podem ser difíceis de lidar, mesmo com talento superior. Mas pessoas capazes de seguir instruções sempre seriam valorizadas, um recurso muito procurado.
— Não posso acreditar nisso — disse Horikita, em voz baixa. Sua atitude não mudou, mas, com sorte, sua forma de pensar começava a se transformar lentamente.
Quando Ichinose foi chamada por uma amiga, aproximei-me um pouco de Horikita.
— Você não se candidatou ao conselho estudantil, né? Você veio para esta escola para ficar ao lado do seu irmão mais velho, certo? — perguntei.
— São questões diferentes. Até você consegue entender isso, não é? Mesmo se eu fizesse a entrevista para o conselho, não teria a menor chance de ser aceita.
Bem, claro. Se até Ichinose, da Classe B, não foi aceita na primeira tentativa, então Horikita, da Classe D… O irmão mais velho provavelmente não permitiria que a irmã entrasse no conselho quando queria que ela fosse expulsa.
Observei o jogo por um tempo. No final, a equipe de Nagumo dominou a adversária. As garotas que haviam torcido por ele se reuniram ao redor enquanto ele saía da piscina.
— Ei, espera um pouco. Esse cara tem um piercing na orelha! Como isso é permitido?! — gritou Ike, claramente procurando algo para comentar.
— Mas não é tranquilo? Ainda estamos de férias — respondeu Ichinose.
— E-Ei, espera… Ele tem um buraco na orelha, certo?! Isso não é um grande problema?! — insistiu Ike.
— Acho que é provavelmente um brinco de encaixe. Ele se veste normalmente na escola — respondeu ela.
— Ugh! — resmungou Ike. Por mais que reclamasse, Nagumo era um aluno completamente impecável.
— Ei, que tal jogarmos vôlei? Com Shibata-kun e os outros garotos no nosso time, teremos seis pessoas, e vocês terão sete. Se alternarmos, fica equilibrado — disse Ichinose.
Ike foi o primeiro a concordar:
— Sim, com certeza! Vou chamar a atenção de todas as garotas, igual ao Nagumo-senpai! — gritou.
Impossível, mas muitos estudantes pareciam animados para jogar. Afinal, já havíamos vindo tão longe e queriam aproveitar a experiência.
— E-Eu sou meio ruim em atividades físicas, então… vou só assistir — disse Sakura, recuando. Ela provavelmente não queria jogar de jeito nenhum. Como era óbvio que não era atlética, ninguém se opôs.
— Eu também não estou com vontade de jogar — disse Horikita. Ela parecia inflexível, mesmo devendo um favor a mim.
— Horikita-san, está fugindo? — Ichinose sorriu, como provocando Horikita.
— Não é "fugir" quando é apenas um jogo simples — retrucou Horikita.
— Certo. Mas isso é como um microcosmo da nossa classe. Quem é mais ambicioso e quem tem melhor trabalho em equipe? Nesse sentido, é uma competição simulada. Ou você está dizendo que não quer competir contra nós? — perguntou Ichinose, tratando o jogo como um teste analítico de habilidade.
— Tudo bem. Vamos jogar — disse Horikita.
Os alunos da Classe B seriam nossos rivais em um futuro próximo. Por enquanto, era apenas um jogo, mas provavelmente eles também queriam avaliar as habilidades dos adversários.
— Que tal assim? Para deixar a partida mais interessante, os vencedores ganham um almoço grátis, cortesia dos perdedores. Topam essas apostas? — perguntou Ichinose.
— Claro — respondeu Horikita.
Depois que solicitamos o uso da quadra de vôlei, cada equipe definiu suas próprias estratégias. As regras que estabelecemos determinavam que haveria quinze pontos por set, em uma partida de três sets. O primeiro time a vencer dois sets seria declarado vencedor. Determinaríamos quem serviria por rotação, e quem pontuasse teria o direito de sacar novamente.
— Pode até ser um jogo, mas uma partida é uma partida. E já que estamos fazendo isso, vamos vencer — disse Horikita.
— Você está incomumente empolgada, Horikita-san — observou Kushida.
— Com um almoço grátis em jogo, claro. Mas vai além disso. Para comprar almoço para tantas pessoas, talvez seja necessário gastar até 10.000 pontos. Embora sejam apenas pontos privados, a diferença entre a Classe B e a nossa poderia diminuir. Por outro lado, se perdermos, a diferença aumentaria. É igual aos testes especiais — respondeu Horikita.
Verdade. Dois mil pontos por pessoa não eram um gasto pequeno.
— Certo! Vamos vencer com certeza. Ken! Haruki! — gritou Ike.
— Deixem comigo, Suzune. Se eu estiver aqui, temos a força de cem homens. Vou derrubar aqueles cabeças-duras! — gritou Sudou.
— Mas "cabeça-dura" não é um termo que você usaria para se descrever, Sudou? — chamei.
— Que diabos, cara? Sabe, "cabeça-dura". Alguém que tem carne demais na cabeça. Tipo, o cérebro é grande demais, porque estuda demais. Certo?
Aparentemente, Sudou tinha entendido de forma hilariante o significado da palavra. Um verdadeiro cabeça-dura.
— Esquece — respondi.
Sudou olhou para os membros da equipe da Classe B e riu como se tivesse confiança de sobra. Sua postura sugeria que não havia chance de perder.
— Vamos ver como posso te usar, Sudou-kun.
Embora ele nos deixasse para trás nos estudos, poderia ser um aliado inestimável em uma situação como essa.
— Sudou, você já jogou vôlei na piscina antes?
— Não. Só joguei um pouco de vôlei na aula.
— E ainda assim parece muito confiante.
— Basquete é como qualquer outro esporte. Um veterano que respeito disse isso — respondeu ele.
Bem, Sudou certamente acreditava em suas próprias habilidades. Horikita estava prestes a descobrir se ele só falava ou se realmente tinha talento.
*
— Certo, deixem comigo!
Sudou, olhando a bola enquanto ela descrevia um arco para baixo, saltou no ar. Então, usando seu corpo incrível como uma mola, golpeou a bola na equipe adversária, rápida como uma bala. Ichinose se esforçou ao máximo para manter a bola em jogo, mas seus movimentos na água eram lentos e pesados. Ela não conseguiu alcançar a bola a tempo.
Ninguém na lateral torceu por Sudou, mas seu poder parecia igual ou superior ao de Nagumo.
— Yeah! — Sudou fez uma pose de vitória. Eu imaginei que era isso que queriam dizer com "aderir a algo como um peixe na água". Horikita observava Sudou com aparente admiração.
— Uau, foi um golpe incrível. Você realmente nos pegou bem! — disse Ichinose, pegando a bola e devolvendo a Sudou.
— Heh. Bem, acho que uma garota não conseguiria repelir meu ataque. Acho que preciso moderar, né? — gabou-se ele.
— Está sendo sexista agora? Não subestime nós, garotas — disse Ichinose, sorrindo, sem nenhum traço de raiva na voz.
O jogo começou com a Classe B sacando a bola, mas as incríveis e furiosas habilidades de Sudou colocaram nosso time em uma vantagem de sete a três.
— Sudou-kun tem um alcance defensivo amplo e um poder de ataque altíssimo. Precisamos evitar a área dele ao máximo — observou Kanzaki. Ele claramente estava ficando cada vez mais cauteloso com Sudou, que puxava nosso time para frente.
— Ok, Ichinose. Me passe a bola. Achei nosso alvo! — gritou Shibata.
— Okay! — respondeu Ichinose.
Ichinose recebeu a bola e a guiou com cuidado. Shibata saltou para golpeá-la. Infelizmente, mirou no espaço bem à minha frente. Se não fosse coincidência, ele me considerava o elo mais fraco do time.
— Pegue, Ayanokoji!
Dei um passo à frente, como Sudou ordenou. A bola não estava tão rápida. Não deveria ser difícil tocá-la. Estendi o braço.
Bap. A bola fez um som surdo ao ser atingida.
— Geh.
Ela voou magnificamente na direção errada.
— Yay!
Do outro lado da rede, Ichinose e Shibata bateram palma. Naturalmente, Sudou me lançou um olhar furioso e avançou.
— Que diabos foi isso?! — rugiu Sudou.
— Hum, acho que isso mostrou a virtude de marcar gols discretamente, em vez de de forma extravagante? — respondi.
— Não fique de brincadeira. Tudo bem se seu ângulo estiver ruim, mas pelo menos coloque a bola no ar.
Era a primeira vez que eu jogava vôlei na vida. Não poderia me tornar um natural em cinco minutos.
— Ei, ei. Calma, Sudou. Vou recuperar com meu saque incrível. Veja — disse Ike, pegando a bola.
— Yeah!
A bola voou desajeitadamente em direção ao território adversário. As garotas pegaram-na, e Ichinose saltou para lançá-la de volta.
— Vocês são inúteis! — gritou Sudou.
Ele bloqueou a bola que Ichinose enviou e devolveu para o lado da Classe B novamente. Desta vez, Kanzaki lançou a bola no ar, e outra garota a enviou em minha direção. A bola vinha rápido, mas Sudou aproveitou sua altura para tentar interceptá-la. Cobrindo-me, avançou e jogou a bola de volta com sucesso.
— Comam isso! — gritou Ichinose. Ela saltou, com os seios balançando, chamando instantaneamente a atenção de Ike, Yamauchi e a minha.
— Para trás! — gritou Sudou. Horikita recebeu o lançamento de Ichinose e devolveu a bola, guiando-a para um ponto mais ideal. O jogo havia acabado de começar, mas Sudou já estava comandando.
Nenhuma das garotas conseguia conter os ataques de Sudou, considerando seu poder avassalador. Kanzaki e Shibata conseguiram se manter, mas Sudou tinha técnica superior e força maior, mantendo-os na defensiva.
A única estratégia viável da Classe B era negar a bola a Sudou. Do lado da Classe D, Horikita e Kushida tinham poder ofensivo e defensivo acima da média. Uma formação estável. Por outro lado, os elos fracos incluíam eu, Ike e Yamauchi.
— Gyah! Desculpa! — gritou Yamauchi.
Em vez de pegar o saque, Yamauchi deixou a Classe B marcar outro ponto. Cada vez que marcavam, a frustração de Sudou aumentava, e ele estalava a língua para nós. Afinal, todos os pontos da Classe B eram culpa de nós três.
— Calma, Sudou-kun. Você está fazendo o seu melhor, e é melhor não gastar energia à toa.
— Mas se perdermos por causa desses inúteis, tudo isso será em vão — lamentou Sudou.
Ainda reclamando, Sudou voltou à sua posição original. Quando Sudou não podia vê-lo, Ike fez um gesto de provocação. Yamauchi seguiu o mesmo caminho.
— Ei, Haruki. Você vai receber a sentença de morte mais tarde.
— Gyah! — Infelizmente para Yamauchi, Sudou o pegou no flagra. Realmente não era o dia de sorte dele. Quando retomamos o jogo, a bola mais uma vez veio voando direto em sua direção.
— Não, não! — gorgolejou Yamauchi, caindo de cara na água. — Gluuub!
— É patético que as garotas sejam mais úteis que você! — disse Sudou.
Falar em chutar a gente quando já estava no chão. Ninguém queria parecer bobo na frente das garotas, mas assim como você não melhora suas notas da noite para o dia, também não podíamos nos tornar atletas excepcionais instantaneamente.
A bola veio novamente em minha direção. Lembrando do meu fracasso anterior, tentei descobrir a melhor forma de recebê-la. Pensei que, observando a posição do meu braço e a rotação da bola, colocá-la de volta no ar não deveria ser difícil. Teoricamente.
No entanto, percebi Ichinose me observando atentamente do outro lado da rede. Decidi receber a bola de maneira deliberadamente atrapalhada, sem me mover do lugar. Deixei meus pés escorregarem e a bola caiu na água.
— Deus. Você é horrível, Ayanokoji!
Quando voltei à superfície, Ike riu de mim.
— Mesmo que seja ruim, tá tudo bem, desde que coloque a bola no ar! Bom trabalho! — gritou Sudou.
Sudou, que estava me vigiando, mostrou vários saltos ferozes. Mesmo já tendo gasto bastante energia, ele desferia seu ataque final repetidamente. Só a força dele já nos colocava em igualdade com a Classe B, mesmo com o trabalho em equipe superior deles. Enquanto observava Sudou, decidi me divertir tentando jogar vôlei de verdade.
*
— Ah, perdemos. Completamente — disse Ichinose, um pouco frustrada, ao sair da piscina.
Claro, estávamos apenas brincando, mas ninguém queria perder. A Classe D conquistou a vitória ao vencer dois sets consecutivos.
— Isso é tudo graças a Sudou-kun — disse Horikita.
Sudou sorriu com orgulho ao receber o elogio. Ele estava, sem dúvida, feliz que a garota de quem gostava o elogiou, especialmente considerando que Horikita não costumava elogiar ninguém facilmente.
— Você joga basquete. Alguns garotos da nossa classe também jogam, mas ouvi falar de você, Sudou-kun. Dizem que você é o melhor calouro — disse Ichinose.
— Claro — respondeu ele.
Mais importante, isso significava que a fama havia se espalhado para outras classes. Perguntava-me se esse jogo de vôlei era apenas um teste. O atletismo de Sudou era equivalente ao dos veteranos. Qualquer exame que dependesse de atividade física seria uma grande vantagem para Sudou… e para nós. Do ponto de vista de Ichinose, Sudou agora era uma ameaça.
— Se vocês não tivessem nos segurado, poderíamos ter uma vitória esmagadora — disse Sudou.
— Droga. Sudou está ficando convencido demais — disse Yamauchi. Ele se jogou fora da piscina, olhando para Sudou com frustração. Após o jogo de vôlei, Sudou cumpriu a promessa de "sentença de morte" a Yamauchi e o nocauteou.
— Bem, desde que vencemos, está tudo certo. Isso significa que podemos comer o que quisermos no almoço — disse eu, redirecionando a raiva de Sudou para a comida.
— Yeah, acho que sim. Já que estamos meio quebrados, isso é ótimo.
Sudou estava um pouco convencido, mas merecia. Ele havia vencido o jogo sozinho.
— Então, que tal o almoço?
Nossos estômagos roncavam, na hora certa. Ichinose, Sudou e os outros seguiram para as barracas de comida. Horikita ficou para trás, vindo mais lentamente.
— Ayanokoji-kun. Você não é tão ruim nos esportes, né? Mesmo sendo iniciante no vôlei, seus movimentos eram estranhos — observou ela.
Horikita já havia me visto enfrentar seu irmão algum tempo atrás. Ela lembrava-se de como eu havia me movimentado.
— Ichinose estava me observando de perto — respondi.
— Então você ainda não vai mostrar suas cartas. Imagino que as outras classes devem estar tentando analisar as habilidades de combate da Classe D agora — respondeu Horikita.
Quando chegamos às barracas de comida, Ichinose se virou para nós.
— Como prometemos, podem pegar o que quiserem, e quanto quiserem. Comam à vontade! — disse ela.
— Certo! Nesse caso, não vamos economizar! — Os três idiotas, com apetite muito maior que o de qualquer outra pessoa, correram para a comida. Ichinose apenas ficou ali, sorrindo.
— Espera, você vai pagar tudo sozinha? — perguntei.
— Sim. Fui eu que sugeri a aposta — respondeu Ichinose. Isso podia ser verdade, mas ia sair absurdamente caro. — Sou meio econômica, então tudo deve ficar bem.
Kushida parecia confusa.
— Mas, Ichinose-san, você não gastou muitos pontos em coisas como roupa de banho? Eu sei que a Classe D não se compara à Classe B, mas estamos apenas nos virando.
— Hmm. Bem, não me importo muito com moda. Eu meio que visto o que der e posso revezar as roupas. Acho que é meio estranho uma garota dizer isso — riu Ichinose.
— Nah. É bom não gastar muito, eu acho.
No meu ponto de vista parcial, garotas se importavam em parecer bonitas. Isso era certamente verdade para Kushida. Eu teria pensado que Horikita era indiferente, mas até ela parecia atenta ao cabelo e à roupa.
— Pode haver algo mais importante para eu gastar meus pontos eventualmente — disse Ichinose.
— Certo, então. Não vou economizar — disse Horikita. Ela sempre comia pouco, mas sendo tratada pela Classe B parecia se tornar gulosa.
— Tudo bem, isso é bom. Mas seria um desperdício sobrar comida, então comam tudo! — disse Ichinose.
Eu, pessoalmente, estava interessado nas besteiras, e escolhi o que queria.
*
Quando estava quase na hora de fechar, Ichinose sugeriu que voltássemos antes que a multidão aumentasse. Todos concordaram. Enquanto todos se trocavam, eu me afastei e esperei minha visitante perto da piscina.
— Ah, estou exausto — murmurei.
Logo Karuizawa apareceu, dando um tapa nas minhas costas ao se aproximar.
— Bom trabalho. Como foi? — perguntei.
— É exatamente como você disse. Honestamente repugnante — respondeu ela.
— Ah, não diga isso. É só a juventude correndo solta, certo? — Karuizawa fez um gesto como se fosse vomitar, depois olhou ao redor.
— E aí, como foi? Estar na piscina, quero dizer — perguntei.
— Tanto faz. Não sinto muita coisa, mas… — Karuizawa olhou novamente ao redor, como se se preocupasse com olhares curiosos. — Mesmo sendo falso, ainda estou "namorando" Hirata-kun. Se me virem sozinha com você, rumores estranhos podem surgir.
— Sério? Bem, talvez surgissem se eu fosse bonito como o Hirata. O que não é o caso, infelizmente. Na melhor das hipóteses, vão achar que você faz parte do nosso grupo.
Este era um lugar inócuo para estar sozinho com uma garota. À noite, em um banco de parque isolado, seria diferente, mas não aqui.
Hirata, o falso namorado de Karuizawa, não estava à vista. Provavelmente ocupado com atividades do clube. Eu não sabia muito sobre a agenda do time de futebol, mas ele parecia um cara ativo.
— Hoje pudemos usar rash guards. Você viu, né? — perguntei.
— Sim. Mas você realmente se importa em gastar dinheiro com isso? Eles são bem caros.
— Foi um gasto necessário.
Karuizawa estendeu a mão, e eu a segurei. Senti algo duro contra a minha palma.
— O que você está planejando, afinal? — perguntou Karuizawa.
— Como assim?
— Por que você é diferente dos outros? Você poderia simplesmente ficar observando.
Ah, então estávamos falando sobre o que eu segurava na mão.
— Isso poderia acabar fragmentando a classe. Quero evitar que isso aconteça. — Era por isso que eu havia chamado Karuizawa para me encontrar, embora fazê-la aproveitar a piscina também fosse outro dos meus objetivos. — Você convidou mais alguém?
— Estou sozinha. Estive com outras duas, mas disse para elas se divertirem por conta própria.
— Decisão sensata.
Comecei a caminhar lentamente pela lateral da piscina. Karuizawa me seguiu.
— Então você está mirando na Classe A? — ela perguntou.
— Você não se interessa?
— Hmm, não sei. Eu quero pontos, e ficaria feliz em conseguir um bom trabalho em qualquer lugar, mas… — Ela chutou o ar, mãos nos bolsos. — Não estou muito a fim de enfrentar aquelas garotas da Classe C, eu acho.
Karuizawa se referia a um grupo específico de meninas da Classe C. Mesmo que eu tivesse conseguido conter as coisas até certo ponto, Karuizawa não podia enfrentá-las diretamente sem reativar o trauma de ter sido intimidada por elas. Até que essa prisão mental fosse liberada, ela nunca poderia mostrar seus verdadeiros talentos.
— Quero conversar com você sobre algo. Só com você.
— Sobre o quê?
— Não sei qual será nosso próximo teste, mas estava pensando em preparar um certo truque.
— Um truque?
Enquanto caminhávamos, misturados ao burburinho da piscina, discutíamos coisas extremamente importantes. Coisas sobre as quais eu nem tinha falado com Horikita.
— Para fazer alguém ser expulso.
— Hã?
Karuizawa parou imediatamente, como se não entendesse o que eu queria dizer. Quando continuei andando, ela apressadamente correu atrás de mim.
— Espera um minuto. Como assim?!
— Exatamente o que eu disse. Vou fazer com que um aluno do primeiro ano seja expulso. Os candidatos ideais seriam aquelas três garotas que sabem sobre o seu passado. Se não conseguirmos chegar até elas, talvez outra pessoa. Se isso não funcionar, então… — comecei.
— Então…?
— Provavelmente algum ser humano desnecessário da Classe D.
— Você entende o que está dizendo, né? Expulsar alguém não é tão fácil — respondeu Karuizawa.
— Você não acha? Isso não é bem verdade. Na realidade, eu tenho a opção disponível agora mesmo.
Envolvendo os dedos firmemente ao redor do objeto que Karuizawa me entregara, chamei sua atenção para minha mão.
— Espera, não me diga… É para isso que serve? — perguntou ela, incrédula.
— Dependendo da situação, eu poderia expulsar alguém em um único golpe. Certo?
— Mas espera. Por que você está falando sobre isso? Você se esforçou tanto para salvar o Sudou-kun antes, certo?
Era verdade que eu havia salvado Sudou da ameaça de expulsão.
No entanto, isso foi antes de eu me comprometer a alcançar a Classe A. Como Horikita disse uma vez, eu precisava me preparar para a eventualidade de cortar pessoas que nos atrasassem.
— Mesmo depois de salvar o Sudou-kun, você vai expulsá-lo? — perguntou Karuizawa.
— Oh, não. Não tenho intenção de me livrar do Sudou. A habilidade física dele será bastante valiosa para a Classe D — respondi. Não havia muitos outros alunos na escola inteira com habilidades comparáveis, incluindo Koenji.
— Mas o que vai acontecer com os pontos da nossa classe se alguém for expulso? — perguntou Karuizawa, apreensiva.
— A melhor opção seria expulsar alguém de outra classe, claro.
No entanto, se um aluno da nossa classe fosse expulso, o medo motivaria os sobreviventes a se esforçarem ao máximo. Isso não seria o pior.
— Você é horrível, sabia? — disse Karuizawa.
— Você já não percebeu isso antes?
— Acho que sim.
Eu havia ameaçado Karuizawa. Minhas ações quase chegaram ao ponto de agressão. Não conseguia imaginar que ela me considerasse uma boa pessoa.
— Que tal consultar o Hirata-kun? — ela sugeriu.
— Tenho receio disso. Hirata ainda não é alguém em quem eu possa confiar plenamente.
— Hã?
— Você sabe sobre o passado dele?
— Ah, sim. Ele me contou quando eu falei sobre o que aconteceu comigo. O amigo dele tentou se suicidar pulando, certo?
Estava certo. Hirata me contou que ainda carregava aquele arrependimento consigo, e isso provavelmente era verdade.
— Você realmente acredita que a tentativa de suicídio do amigo dele fez dele um aluno que seria colocado na Classe D? — perguntei.
— Hã?
— Isso não pode ser a única razão para a escola colocar um estudante altamente inteligente e extremamente popular na nossa classe. Não acha?
Ser colocado na Classe D teria sido compreensível se Hirata tivesse faltas constantes ou notas baixas, como Karuizawa, mas isso não parecia ser o caso.
— Espera. Você perguntou sobre o meu passado porque…
— Eu queria entender a situação do Hirata. Trauma passado não significa ser colocado na Classe D.
Confirmar as coisas com Karuizawa me convenceu de que ela era alguém em quem eu podia confiar. No entanto, lidar com Hirata não seria fácil. Eu precisaria descobrir discretamente se ele estava dizendo a verdade ou mentindo.
— Você fica tentando colher informações, cutucando e sondando, mas não me conta nada — resmungou Karuizawa.
— Hmm?
— Você não é normal, tipo, de jeito nenhum. Algo definitivamente aconteceu com você.
— Nada realmente aconteceu comigo.
— Isso é mentira.
Nada havia acontecido. Eu não tinha sido intimidado no passado como Karuizawa, e também não tinha um amigo querido que tivesse tentado suicídio como Hirata.
— Consigo perceber só pelos seus olhos. Você parece capaz de matar alguém sem hesitar.
— Nada tão dramático aconteceu no meu passado.
Realmente, não havia nada. Tão pouco acontecera em minha vida que eu não tinha nada sobre o que falar. Minha vida era uma folha em branco. Os olhos de Karuizawa se fixaram em mim. Ela provavelmente não podia deixar de se perguntar o que seu futuro reservaria. Segurar aquele medo certamente poderia se tornar útil.
No entanto, ela me perguntou o que eu pretendia fazer. Quase como se estivesse respondendo àquela pergunta, fechei o punho com mais força. Ao fazer isso, ouvi o plástico em minha mão dobrar e estalar.
— Ei!
Caminhei até a lixeira e joguei os pedaços de plástico fora.
— Não vou expulsar ninguém da Classe D. Já está na hora de eu voltar para o grupo. Obrigado por hoje.
— Ok…
— Então, vamos voltar.
Quando a piscina fechou, os alunos começaram a se dirigir aos vestiários. A qual grupo você pertencia parecia determinar quando você voltaria. Havia grupos que saíam antes do fechamento, como o de Ichinose, grupos que saíam exatamente no momento do aviso de fechamento, e grupos que permaneciam na piscina até o último segundo. Perguntei-me quais grupos conseguiriam voltar mais rápido.
Observamos silenciosamente os outros alunos enquanto se afastavam. Depois de algum tempo, a área ficou deserta, exceto por alguns salva-vidas.
— Você ainda não vai voltar? — perguntei.
— Você já sabe a resposta, então por que perguntar? — Karuizawa deu um leve toque no ponto do seu traje de banho logo acima da cicatriz. Ela parecia desesperada. Ainda assim, não era como se pudesse ir para casa sem se trocar. Ela teria que esperar até ser a última pessoa no vestiário.
— Seria tranquilo se você apenas vestisse o maiô da escola, certo? — perguntei. Ninguém perceberia a cicatriz.
— Ugh, nadar com um desses? De jeito nenhum. São muito sem graça. Já odeio ter que usar um desses nas aulas.
Aparentemente, o mundo das garotas era mais cruel do que eu imaginava. Até um maiô sem estilo podia derrubar alguém na hierarquia social.
— Você gosta de nadar?
— Hã? Bem, eu não odeio — disse ela.
— Que tal nadarmos um pouco agora? Não há outros alunos por aqui. As únicas pessoas são os salva-vidas, e eles parecem ocupados limpando tudo.
Karuizawa ponderou a ideia. Afinal, era melhor do que os vestiários lotados.
— Eu tô bem — murmurou ela.
— Vamos.
— Não, eu não vou. Eu te disse, eu não quero.
— Mesmo que alguém te veja, você ficará bem, desde que esteja usando o maiô da escola.
— Esse não é o problema. Por que eu tenho que te mostrar meu maiô? — resmungou ela.

Então, era isso que a segurava. Nesse caso, pensei que talvez fosse melhor usar um método um pouco mais agressivo.
— Isso é uma ordem.
Karuizawa me lançou um olhar fulminante.
— Você é mesmo o pior. Eu te odeio de verdade.
Ela fez uma cara de reprovação.
— Você decide se vai me obedecer ou não. E então, qual é a sua escolha?
— Entendi — respondeu ela.
Relutante, Karuizawa fez o que foi instruída, resmungando com insatisfação. Ela tirou a rash guard e a deixou em uma cadeira. Observei-a em seu maiô. Karuizawa permaneceu de costas para mim, sem se virar.
— Talvez isso seja tudo o que eu possa usar para nadar pelo resto da minha vida — murmurou. Ainda estava apavorada de que sua cicatriz chamasse atenção.
Aproximei-me e segurei seu braço.
— Q-Que você—?!
Empurrei Karuizawa na piscina. Splash! Ela mergulhou na água. Quando um salva-vidas ouviu o barulho, gritou com um megafone:
— Estamos fechados! Saíam imediatamente!
— Pwah! Por que você fez isso?! — Karuizawa gritou.
Enquanto espiava raivosa da água, estendi minha mão para ajudá-la.
— Você se divertiu? — perguntei.
— Ser empurrada não é exatamente divertido, sabia?
Karuizawa pegou minha mão estendida. Então, sem aviso, puxou-me para a água. Não resisti, tomando cuidado para não bater nela ao cair. O splash resultante, ainda maior que antes, certamente iria irritar os salva-vidas. Karuizawa riu enquanto eles corriam para nós.
Quando tentei emergir, ela segurou minha cabeça e me empurrou mais fundo na água. Apesar da situação ser infantil, ver Karuizawa se divertir tornava tudo válido.
*
Depois que terminamos de nadar, senti bastante sede. O resto do grupo provavelmente também, porque, ao anoitecer, enquanto voltávamos para os dormitórios, uma amiga de Ichinose disse:
— Ei, Honami-chan. Acho que quero sorvete. E você?
— Sim. Parece bom — respondeu Ichinose. Mesmo após um mergulho refrescante, o calor era opressor. — Que tal fazermos um pequeno desvio antes de voltarmos?
Ninguém se opôs. Entramos em uma loja de conveniência próxima, e todos correram para os sorvetes. Horikita parecia em dúvida sobre o que queria beber, mas agora parecia querer sorvete também.
— Vou querer este! Ultra Choco Monaka! — gritou Ike, pegando um sorvete três vezes maior que o normal. Custava quase quatro vezes o preço de um sorvete comum.
Parecia exagerado, mas se o deixava feliz, provavelmente estava tudo bem. Sudou e Yamauchi queriam raspadinha, enquanto Ichinose escolheu um picolé. Mesmo em uma loja de conveniência comum, as peculiaridades e gostos individuais do grupo eram evidentes.
Sakura, parada atrás de mim, olhava em volta hesitante.
— O que você vai pegar? — perguntei.
— E-Eu… Qual eu escolho, será? — gaguejou.
Sakura ficou na ponta dos pés, tentando desesperadamente olhar dentro do freezer de sorvetes. Honestamente, eu mal conseguia ver. Quando Ike e os outros finalmente saíram, senti Sakura se encostar em mim.
— Vamos — disse eu.
— O-ok — respondeu ela.
Ela realmente parecia estar com dificuldade para escolher, então fiquei ao lado dela enquanto fazíamos nossas escolhas, para ajudá-la.
— O que eu faço? — murmurou. Suas mãos tremiam, como se estivesse nervosa.
— Você não gosta de sorvete?
— Ah, não, eu gosto de todos os tipos. Provavelmente já comi todos aqui antes — respondeu, apontando para a metade direita do freezer. Horikita, que também ficou perto do freezer, escolheu seu sorvete e foi para o caixa.
— Rápido, senão vão ficar para trás! — chamou Ike.
Dada a sensibilidade de Sakura, ouvir isso só a deixou mais nervosa.
— Eh… Desculpe. Eu sou do tipo que demora muito para decidir essas coisas.
— Não precisa se apavorar. Ele só está brincando. Eu também ainda não decidi — disse eu.
— O que você vai pegar, Ayanokoji-kun?
— Eu?
Desviei minha atenção de Sakura e olhei dentro do freezer. Honestamente, tudo parecia igual.
— Acho que vou querer este.
Peguei um sorvete de casquinha normal, aquele que enrola em espiral. Alguns tinham chocolate misturado, mas deixei para a próxima vez.
— Eu… Vou querer esse também, então. É delicioso — respondeu Sakura.
Parecia que eu a havia obrigado a escolher, mas se Sakura estava satisfeita, provavelmente estava tudo bem. Após pagarmos e sairmos, todos se reuniram na frente da loja e começaram a comer. Abri a embalagem e coloquei um pouco de sorvete na boca, deixando-o derreter lentamente.
— Isso… está realmente bom — eu disse, baixinho.
A doçura e o frio percorriam meu corpo. Isso podia se tornar um hábito. Era, honestamente, revelador. Quem diria que sorvete poderia ser tão delicioso? Comer demais, no entanto, podia fazer mal.
— Uau, você está aproveitando mesmo. Quase parece que é a primeira vez que come sorvete — observou Ichinose.
— Qualquer um acharia delicioso. Ainda mais nesse calor — respondi. Isso deveria ser óbvio.
— Bem, acho que sim. É só que… você está comendo como se realmente amasse. É a primeira vez que vejo você fazer essa expressão.
— É porque ele tem cara de boneco. A expressão dele nunca muda — disse Horikita, intervindo em meu favor. Bem, ela era meio que como uma boneca nesse aspecto.
Horikita e Ichinose começaram a conversar animadamente sobre o segundo semestre, que estava prestes a começar.
— Ei, Ichinose. Seu picolé está meio derretido.
— Gah! Você tem toda razão! — exclamou Ichinose.
O picolé de Ichinose estava derretendo no calor. Confusa, ela lambeu o que estava pingando e então colocou o picolé na boca.
— Mmph, muyto obigaaa… — murmurou, com a boca cheia.
Estaria dizendo "Muito obrigada"? Parecia que sim. Mesmo derretendo, o picolé realmente parecia delicioso.
*
— Ufa! Que dia longo. Estou exausta. Foi divertido, hein? — perguntou Ichinose.
— Sim. Foi bom conversar com Horikita-san e Sakura-san. Devíamos sair de novo!
As meninas da Classe B pareciam satisfeitas com o último dia de férias. Sakura, um pouco mais relaxada, até conseguiu esboçar um pequeno sorriso. Por outro lado, Ike, Yamauchi e até Sudou pareciam ansiosos. Após se despedirem rapidamente, correram para o elevador.
— Vamos aparecer no seu quarto mais tarde, Ayanokoji.
Deixaram por isso mesmo.
— Eu me pergunto o que houve com eles? Achei que estivessem animados hoje — disse Kushida.
— Pareceram estranhos, especialmente. Talvez alguém saiba o que aconteceu — disse Horikita.
Ambas olharam para mim, mas me abstive de comentar, por meus próprios motivos.
— Então, até amanhã na escola, Ayanokoji-kun.
— Até amanhã.
Após nos despedirmos de Kushida e Sakura, apenas Horikita e eu permanecemos no saguão. Pensei que ela tivesse ficado para evitar Kushida, mas mesmo quando outro elevador chegou, Horikita não entrou.
— Você não vai subir? — perguntei.
— E você? Quer dar uma pequena caminhada? — perguntou ela.
— Claro.
Horikita e eu caminhamos pela trilha arborizada, olhando para o céu, agora tingido da cor do pôr do sol.
— Surpreendentemente, me diverti hoje. Acho que um dia de folga de vez em quando não é tão ruim.
Foi uma declaração inesperada de Horikita. Falava devagar, com o cabelo ainda molhado balançando atrás dela.
— Amanhã começa o segundo semestre. Tenho certeza de que desafios ainda maiores nos aguardam.
— Sim, provavelmente.
Esta não era uma escola comum. Incontáveis dificuldades desconhecidas — como o teste de sobrevivência na ilha ou o teste do zodíaco no cruzeiro — certamente nos esperavam.
— Pensei muito durante as férias de verão. Sobre as coisas que fiz e as que consegui realizar — continuou Horikita.
— E então? — perguntei.
— Isso é segredo. Se eu contar, você vai rir.
Ela desviou da pergunta, embora eu não soubesse por quê. Talvez estivesse envergonhada pelo que estava prestes a dizer.
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