Ano 1 - Volume 4.5
Capítulo 4: Um Dia de Problemas com Garotas e Desastres: Um Demônio Sorri como um Anjo
— VOCÊ VAI fazer o que eu mandar hoje, Ayanokoji!
Acordado pelo som da campainha, suspirei ao ver quem era o visitante.
— Você precisa mesmo falar tão alto assim tão cedo, Yamauchi?
— Desculpa incomodar! — ele gritou.
Ainda bem que Ike e Sudou não estavam com ele. Mas o que diabos ele queria comigo?
— Que foi, você tava dormindo ou algo assim? Cara, você tá bem de boa, mesmo com as férias de verão acabando em alguns dias — disse Yamauchi. — Enfim, decidi que hoje vai ser um dia especial. Me deixa entrar.
Eu estava calmo justamente porque só faltavam alguns dias de férias. Ainda sonolento, não consegui acompanhar bem a linha de raciocínio dele, mas acabei deixando-o entrar. Preparei um copo de chá de cevada e coloquei na frente dele.
— Então, eu tô envolvido nesse seu "dia especial"? — perguntei.
— Nem adianta tentar escapar dessa, Ayanokoji. Lembra quando eu queria o número da Sakura? — ele insistiu.
A determinação de Yamauchi era evidente. Seus olhos estavam ligeiramente avermelhados.
— Entendo.
Eu não podia simplesmente recusá-lo. No fim das contas, aquela situação era um pouco culpa minha. Um tempo atrás, eu pedi a Yamauchi pra fazer algo ao prometer a ele o número da Sakura. Isso tinha prejudicado sua reputação — especialmente aos olhos da Horikita. Eu realmente lhe devia uma. Ainda assim, como eu tinha feito aquela promessa sem o consentimento da Sakura, não podia simplesmente entregar o número dela.
Eu precisava, no entanto, compensar a dívida de algum modo.
— Bem... se você veio pedir o número da Sakura, acho que isso vai ser meio difícil.
— Ah, não. Não é isso. Já desisti dessa ideia. — Yamauchi tirou uma carta do bolso. — Escrevi todos os meus sentimentos pela Sakura neste papel!
— "Escreveu"...? Espera, isso é uma carta de amor?
— Exatamente! Coloquei tudo o que sinto por ela aqui! Toma, lê!
Yamauchi me mostrou o bilhete dentro de um envelope aberto.
Querida Sakura Airi-sama, você tem estado em meus pensamentos há muito tempo. Por favor, saia comigo.
— É bem... simples. E o começo é formal demais — comentei.
Yamauchi pareceu magoado.
— Mesmo que eu escrevesse algo longo, não quer dizer que ficaria melhor, né?
Ele tinha um ponto. Ainda assim, era curta demais. E, sinceramente, eu conseguia imaginar a reação da Sakura — provavelmente desconfortável.
— Espera aí. Por que isso tá impresso em vez de escrito à mão? — perguntei.
— Bom, não tenho muito orgulho disso, mas minha caligrafia é horrível. Então eu imprimi pra ficar mais legível. Tava com medo dela não entender, sabe? — disse ele, coçando o nariz com o dedo indicador, com um ar meio orgulhoso.
Não achei que aquele orgulho fosse merecido.
— Além disso, até currículo é impresso hoje em dia, né? — acrescentou.
— Se você quer mesmo transmitir seus sentimentos, o ideal é escrever à mão. E outra... por que usou essa fonte assustadora?
Era o tipo de letra que alguém usaria para escrever "Um demônio misterioso aparece!". Parecia feita para lançar maldições.
— Tem impacto, né? Dá uma vibe de "pensei em você por muito tempo"!
— Tá, vamos fingir que isso faz sentido. O problema é o final — apontei para o trecho que ele adicionara para tentar impressionar.
Se você sair comigo, eu te darei todos os meus pontos todo mês, como tributo!
— Isso não tá bom.
— Como assim? Dizem que garotas gostam de homens que podem sustentá-las! Se sair com a Sakura significa dar todos os meus pontos, eu dou. É assim que vou mostrar minha paixão.
Não dava pra negar que estabilidade financeira era atraente, mas aquilo soava mais como se ele estivesse tentando pagar pra ela sair com ele.
— Tá tudo bem, cara. Mesmo que ela só quisesse o dinheiro, eu aceitaria. Eu quero namorar ela. Isso é errado?
Quando confirmei que sim, que era errado, Yamauchi começou a entender meu ponto.
— Você tá falando sério em se declarar pra ela? — perguntei.
— Tô. Quando começar o segundo semestre, quero viver meu sonho escolar! Já pedi ajuda pra Kikyou-chan. Ela ligou pra Sakura por mim.
Para Yamauchi, tudo aquilo parecia normal. E, por mais que eu achasse melhor impedi-lo — principalmente por consideração à Sakura —, eu não conseguia repreendê-lo. Pelo menos ele era direto e honesto. Considerei até dar uma ajuda.
— Então, o que eu tenho que fazer? Corrigir a carta?
— Bom, sim, mas tem outra coisa ainda mais importante. Quero que você entregue a carta para Sakura.
— O quê? — achei que tivesse ouvido errado.
— Quero que você entregue. Cara, tô nervoso desde cedo, sabe? A última vez que fiquei assim foi quando ganhei a partida final no Salão de Sumô de Ryougoku Kokugikan. É por isso que não tenho coragem de entregar pra ela pessoalmente.
Espere aí. Que partida final no Kokugikan? Eu queria muito interrogar essa provável mentira. Era uma desculpa fraca, mesmo pra Yamauchi.
— Se o problema for a carta, eu reescrevo! Por favor! — ele juntou as mãos, curvou-se e implorou. — Qualquer desentendimento entre a gente vai virar passado! Se um dia você precisar de ajuda, Ayanokoji, eu te ajudo!
— Se você insiste... tá bem, eu ajudo — respondi.
— Sério?!
— Mas o que importa é como a Sakura se sente. Entendeu?
— É claro, não sou idiota. Sei que minhas chances não são grandes.
Pelo menos Yamauchi tinha consciência disso. A verdade é que Sakura evitava garotos — o que tornava suas chances praticamente nulas. Mesmo assim, ele parecia decidido.
— Certo. Eu entrego sua carta, então, ok?
— Ayanokoji! Você é meu salvador!
Yamauchi agarrou minha mão e abaixou a cabeça com reverência, como se estivesse diante de um deus.
Primeiro, eu precisava revisar a carta com cuidado. Considerando que era para a Sakura, ela precisava soar mais gentil se fosse pra dar certo. Sinceramente, ainda era cedo demais para uma confissão. Declarar-se assim, quando ele e Sakura nem sequer tinham trocado contatos, era simplesmente arriscado. Se Yamauchi queria aumentar suas chances, o mínimo seria conversar com ela primeiro.
Por outro lado, talvez ele tivesse um ponto. O amor, às vezes, acontecia de repente. As pessoas iam do zero ao cem num piscar de olhos.
Assim como Yamauchi, eu não tinha experiência romântica alguma, mas achei que deveria, ao menos, ajudá-lo de algum modo.
— Ah, lembrei de uma coisa! Quero adicionar um detalhe na carta. Quero pedir pra Sakura me responder sobre a confissão atrás do prédio da escola — disse Yamauchi.
— Atrás do prédio? Depois do Ginásio 2?
— Isso, isso! É que rola um boato, sabe? Dizem que se você se declara ali, dá tudo certo.
Soava como aquelas lendas urbanas sobre se confessar "debaixo da árvore". Essas histórias pareciam surgir em qualquer escola.
— Então esse é o palco que você escolheu pra toda essa encenação?
— Não é só um boato! Dizem que, se for pra se declarar, tem que ser atrás da escola. É tipo... uma regra de ouro.
Eu não via nenhuma relação entre "confessar os sentimentos" e o "fundo da escola", mas entendia o raciocínio dele.
*
Levou menos de meia hora para eu conseguir entrar em contato com a Sakura. Fiquei imaginando como ela reagiria ao convite da Kushida. Provavelmente não aceitaria isso com tranquilidade. De todo modo, eu estava no ponto combinado, esperando pela chegada dela.
Meu celular vibrou no bolso. Atendi.
— Alô?
— Então? Já viu a Sakura? — perguntou Yamauchi, nervoso.
— Ainda não. Mas ela provavelmente só vai aparecer uns dez minutos antes da hora marcada, né?
— Eu sei... Droga, tô muito nervoso!
Yamauchi acenava de onde estava — a uma certa distância. Mesmo querendo ficar escondido, a curiosidade provavelmente o fez se aproximar um pouco.
— Ei, Yamauchi. Tem certeza de que eu devo entregar a carta por você? Acho que seria melhor se fosse você mesmo.
— Isso é impossível, cara. Quando fico nervoso demais, minhas mãos tremem. Tenho esse trauma desde criança.
Embora a maioria das pessoas tremesse sob pressão, entendi o que ele quis dizer.
— Eu entendo que você não queira estragar tudo, mas pensa bem. Uma carta de amor entregue por outra pessoa... tem mesmo algum valor?
— Sabe quando uma garota bonita te chama pra encontrá-la depois da aula, mas quem aparece é uma menina totalmente diferente, bem simples, e ela é quem se confessa pra você? Então... meu plano é o inverso disso. Pedi pra Kushida não contar pra Sakura que sou eu quem tá chamando. Ou seja, quando ela vir que é você esperando por ela, vai se decepcionar. Mas, quando descobrir que sou eu o verdadeiro confessor, vai acabar me achando melhor por comparação, entendeu? Então, quando entregar a carta, nem menciona meu nome. É melhor se a Sakura achar que você tá se declarando.
Yamauchi falava aquilo sem o menor constrangimento, mesmo me usando descaradamente como escudo. Eu não podia criticar seus objetivos, mas ele precisava, no mínimo, pensar nos sentimentos da Sakura.
— Olha, eu só acho que receber uma confissão de alguém que nem aparece é meio assustador — respondi.
— Isso é...
Eu queria fazê-lo mudar de ideia. Numa confissão, só existe uma chance. Mesmo sendo o Yamauchi, ele não devia fazer algo de que se arrependesse depois.
— Ainda dá tempo. Acho melhor você reconsiderar. Foi pra isso que escreveu essa carta, certo?
— É, acho que sim... Mas... ah, será que eu devia me declarar pra Sakura pessoalmente?
Finalmente, parecia que o bom senso começava a tomar forma na cabeça dele.
— Ayanokoji-kun? — ouvi uma voz suave, acompanhada de passos leves se aproximando.
— É a Sakura! O resto é com você! — sussurrou Yamauchi, em pânico, antes de desligar o celular.
Bem, a essa altura não havia muito mais o que eu pudesse fazer. Tudo o que restava era entregar a carta.
— Isso é uma coincidência, certo? — perguntou Sakura.
— Foi a Kushida que te chamou, não foi?
— Sim. Ela disse que precisava conversar comigo sobre algo importante — respondeu, tímida. Olhou em volta, mas, claro, só me viu ali.
— Pra falar a verdade, pedi um favor pra Kushida. Ela te chamou aqui por minha causa — expliquei. Tecnicamente, era mentira, mas não dava pra evitar se ela acabasse confusa.
— Você, Ayanokoji-kun? Eu entendo... Que alívio. Eu quase nunca converso com a Kushida-san, então achei que tivesse feito algo para deixá-la brava — disse Sakura, levando a mão ao peito e suspirando, visivelmente mais tranquila.
A ansiedade dela parecia ter desaparecido. Resolvi ser direto.
— Mesmo assim, você chegou bem cedo. Ainda falta quase meia hora para o horário combinado.
— Eu estava ansiosa, então vim antes — admitiu, ainda um pouco corada. — Mas que bom que era você, Ayanokoji-kun. Fiquei aliviada.
Ela deu um leve tapinha no peito e sorriu suavemente.
— Mas por que pedir ajuda à Kushida, Ayanokoji-kun? Se você precisava de algo, podia ter pedido diretamente pra mim.
— Ah, bom... é que... é uma situação meio complicada.
— Uma situação complicada?
Como eu explicaria aquilo? Eu entendia perfeitamente as diferenças biológicas entre homens e mulheres — já tinha estudado isso —, mas na prática, romance era território desconhecido pra mim. Além disso, não era só uma questão de gênero; a personalidade da Sakura também precisava ser levada em conta. Mesmo em uma sociedade moderna, lógica e eficiente, esse pequeno "jogo" continuava sendo um mistério indecifrável.
Enquanto eu pensava, o tempo passava. E quanto mais eu ficava em silêncio, mais desconfiada Sakura parecia.
— A verdade é que pedi pra Kushida te chamar porque queria te entregar isto — disse eu, estendendo a carta de Yamauchi.
— O que é isso? — perguntou ela, curiosa.
Claro! Aqui está a tradução revisada e natural em português, com o mesmo tom leve, introspectivo e
— Se você ler o conteúdo, vai entender direitinho — falei.
— Tá bom...
Sentindo algo parecido com culpa, desviei o olhar. Sakura olhou alternadamente para mim e para a carta, como se tentasse compreender a situação.
— Uma carta... atrás da escola... um garoto... — murmurou.
Opa! Ela achou que eu estava me declarando. Isso era péssimo.
— Foi alguém que quis permanecer anônimo que me pediu pra te entregar isso. Ele disse que, se você lesse, entenderia. A caligrafia dele é ruim, mas ele colocou o coração e a alma nessa carta — expliquei.
— Ahhh... Isso é... ah, meu Deus... ahhh!
Toda a compostura de Sakura desapareceu. Ela ficou olhando para o nada, como se tentasse enxergar o futuro. Fiquei apreensivo com a reação que teria ao abrir o envelope e ler o conteúdo — por isso, decidi que o melhor seria dar o fora dali o quanto antes.

— Bem, é isso. Eu já entreguei a carta. Agora só falta você decidir como vai responder. Se for difícil falar pessoalmente, pode me mandar uma mensagem ou me ligar — disse.
Sendo a Sakura, era bem provável que ela tivesse dificuldade em dizer um "sim" ou "não". Se possível, eu queria ajudá-la.
— E-E-E-E-E-E-Eu...! — gaguejou. — E-Eu só... bem... eu não posso! Quer dizer, i-isso é uma c-carta de a-amor...!
— É, uma carta de amor.
— Iiiih!
— Uaaah! — exclamei, correndo para amparar Sakura, que quase caiu. — Você tá bem?
Bastou tocar suas costas para perceber que ela estava quente demais. Aquilo certamente a pegara de surpresa. Provavelmente tentava descobrir quem tinha enviado a carta.
— E-E-E-Eu...!
Os olhos de Sakura se arregalaram. Ela ficou rígida e se endireitou de repente. Quando tive certeza de que estava firme, soltei-a.
— E quanto à... Horikita-san?! Você acha que ela vai ficar brava?!
— Hã? Horikita?
Por que diabos a Horikita ficaria brava? Se ela me visse entregando uma carta no lugar do Yamauchi, provavelmente só suspiraria e diria algo como: "Meu Deus, deve ser difícil pra você não se meter em besteiras assim." Com certeza, não ficaria irritada.
Será que Sakura ainda achava que eu estava me declarando? Eu tinha deixado claro que era apenas o mensageiro.
— A-Ahh... — O rosto dela continuava ficando cada vez mais vermelho. Parecia prestes a desmaiar. Não dava pra imaginar que fosse só por causa da carta.
Se ela ainda acreditava que eu tinha escrito aquilo, agora fazia sentido ter mencionado Horikita.
— Sakura. Só pra deixar claro mais uma vez: essa carta é de outro cara. Entendeu?
Os ombros dela tremeram.
— Hã? E-E-Ela não é sua, Ayanokoji-kun? — gaguejou.
— Eu já disse que só tô entregando, não disse?
— E-Eu entendo. Claro que é isso... M-Mas, o que eu faço com essa carta?! — exclamou, desesperada.
— Só lê e responde.
Tentei ir embora, mas Sakura segurou minha manga.
— Mas eu não posso... eu não consigo! Eu não consigo!
— Ninguém nunca se declarou pra você antes?
— Nunca! — respondeu instantaneamente.
Hm. Juraria que, sendo tão fofa, já tivesse recebido várias confissões. Mas, pensando bem, considerando o jeito dela agora, talvez nunca tivesse acontecido mesmo.
— Essa carta... você pode ler comigo? Juntos?
Juntos? Bem, tecnicamente, o Yamauchi tinha escrito a carta com a minha ajuda. Ainda assim, se ela não tinha coragem de ler sozinha, não era algo que eu pudesse resolver. E o Yamauchi provavelmente não gostaria nada disso.
— Será que você pode tentar ler sozinha? Como mensageiro, é o mínimo que posso pedir. Espero que entenda.
— Tá bom...
Sakura não pareceu nem um pouco satisfeita com essa resposta.
— Quem sabe a carta seja de alguém de quem você gosta — sugeri.
— Isso é impossível agora — respondeu tristemente.
— Hã?
— Ah, n-não! Quer dizer... é porque eu não gosto de ninguém! E-Enfim, eu vou tentar ler! — disse, gaguejando.
Sakura abaixou a cabeça, visivelmente abalada, e se virou, caminhando de volta em direção aos dormitórios. Provavelmente leria a carta do Yamauchi em seu quarto.
Assim que ela desapareceu de vista, Yamauchi correu em minha direção.
— E-Então?! Como foi?! Como ela reagiu?! Parecia feliz?! — perguntou, nervoso.
Entendi a pressa dele, mas aquilo só mostrava que ele mesmo deveria ter entregado a carta.
— Ela ainda não leu. Vamos esperar pelo julgamento — respondi.
— N-Não usa uma palavra assustadora dessas! Eu tenho certeza que vai dar tudo certo! — disse Yamauchi, em pânico.
— Por curiosidade, qual é a base dessa "certeza"?
— Ah... o jeito como ela age quando fala comigo, eu acho — respondeu, sem graça.
— O jeito como ela age?
— É! Ela sempre desvia o olhar, toda envergonhada. Aposto que é porque tá consciente de mim, não acha?
Na verdade, era bem mais provável que Sakura apenas tivesse dificuldade em lidar com pessoas.
— E tem mais! Sempre que a gente conversa, ela solta aquele suspiro profundo no final. Não é óbvio? É um suspiro de amor! Tipo quando você pensa em quem gosta e suspira, "Aaaah!". É um sinal, cara — afirmou Yamauchi, convicto.
Eu tinha quase certeza de que ela só suspirava de cansaço depois de lidar com alguém tão agitado quanto ele. Mas, claro, as pessoas sempre perdem a noção da realidade e da lógica quando o assunto é a pessoa que gosta.
*
Era madrugada, e eu já estava me preparando pra dormir quando o celular vibrou.
"Você está acordado?"
Era uma mensagem curta, vinda da Sakura.
Fiquei olhando para a tela por um tempo, sem tocar nela. Como não chegou mais nenhuma mensagem, imaginei que ela tivesse presumido que eu estava dormindo. Abri a conversa, marcando a mensagem como lida. Logo depois, outra chegou:
"Te acordei?"
"Desculpa, eu tava lavando umas roupas. Tá tudo bem."
Uma mentirinha inofensiva. Parece que ela ficou aliviada, porque a próxima mensagem veio um pouco mais longa:
"Eu tenho que me encontrar com o Yamauchi-kun amanhã às cinco, mas... posso te ver antes disso?"
Eu poderia ter recusado. Mas Sakura não tinha mais ninguém.
"Onde vocês vão se encontrar?"
"No mesmo lugar de ontem. Atrás do prédio da escola."
Eu já sabia, mas queria confirmar. Para não causar incômodo, prometi encontrá-la no mesmo local, antes da reunião com o Yamauchi. Depois disso, decidi finalmente dormir.
Apaguei a tela do celular e o deixei de lado. Mas, logo em seguida, ele vibrou de novo.
"Hm... Desculpa te incomodar de novo. Tudo bem se eu te ligar?"
A ansiedade dela transbordava pelas mensagens. Provavelmente seria melhor não deixá-la esperando. Quando liguei, Sakura atendeu com uma voz baixa e tímida.
— Não consegue dormir? — perguntei.
— Não. Quando penso em amanhã, fico muito nervosa... Ahhh... — suspirou pelo telefone.
Ela parecia abatida. Provavelmente pensava em como responder à confissão.
— E-Eu não sei quase nada sobre o Yamauchi-kun. Isso é um pouco assustador — disse ela.
— Entendo.
— Eu percebi que gostar de alguém, ou até odiar alguém, traz uma responsabilidade enorme...
Para Sakura, que sempre se mantivera distante das pessoas ao redor, essa constatação devia ter sido um choque. Mesmo assim, não havia muito que eu pudesse fazer. Essa decisão era dela. E Yamauchi teria de lidar com as consequências. Mesmo alguém como eu — completamente inexperiente em assuntos amorosos — entendia isso.
Não podia aconselhar Sakura a aceitar ou recusar Yamauchi. Só podia ouvir em silêncio.
— O Yamauchi-kun não fez nada de errado, mas... eu acho que simplesmente não quero isso. Ainda assim, sinto pena dele, já que ele gosta de alguém como eu...
O amor era realmente um assunto complicado.
— Tenho pensado nisso há um bom tempo, mas... eu não sei o que fazer — confessou. Mesmo pelo telefone, sua confusão era evidente. — Por que eu? É isso que eu me pergunto. Por que eu tenho que sofrer assim?
Como imaginei, ela parecia mais aflita com a situação do que feliz.
— Ayanokoji-kun... isso talvez seja algo que você não precise ouvir, mas…
— Pode perguntar. Se eu puder responder, eu respondo.
— Bem... desculpe te incomodar, mas... você está namorando alguém, no momento? — perguntou, de forma estranhamente formal.
— Não, não estou. Nunca namorei ninguém, e não estou namorando agora.
— Sério?!
— Você parece feliz com isso... tá me zoando? — retruquei.
Doía um pouco perceber que ela parecia genuinamente aliviada ao saber que eu nunca tinha namorado.
— N-Não! Não quis zombar de você! Fiquei feliz porque... porque somos parecidos, só isso!
— Tô só brincando — respondi.
— Ah, poxa!
Foi só uma brincadeira leve, mas pareceu deixá-la mais animada.
— Então... alguém já se declarou pra você? Ou você já se declarou pra alguém? — insistiu, curiosa. Ela realmente estava me interrogando. Mas não havia nada a esconder.
— Nenhuma experiência. Igual a você.
— Ahh, entendi! — disse, contente.
Conversamos por um tempo sobre isso e aquilo. Depois de alguns minutos, Sakura começou a soar sonolenta, e encerramos a ligação. Espero que ela consiga dormir bem, pensei. Aliás, já estava na hora de eu fazer o mesmo.
*
Nosso horário combinado era às quatro da tarde. Cheguei dez minutos mais cedo e encontrei Sakura já esperando, com uma expressão tensa e complicada. Seu rosto mudava a cada instante — tristeza, nervosismo, preocupação. Devia estar tomada por pensamentos confusos.
— Te deixei esperando? — perguntei.
— Ah!
Sakura se aproximou de mim, hesitante. Eu esperava poder aliviar um pouco o peso que ela carregava.
— Obrigada por vir, Ayanokoji-kun.
— Que isso, não é nada. Então... o que foi?
— É sobre a carta que você me entregou ontem…
— Aconteceu alguma coisa?
Talvez ela ainda estivesse relutante em falar sobre o assunto. Parecia não conseguir colocar os sentimentos em palavras. Eu estava prestes a dizer que não precisava se conter quando percebi algumas pessoas vindo em nossa direção pela trilha — pareciam alunos de clubes esportivos, vestindo agasalhos de treino.
— Desculpa... que tal a gente andar um pouco? — sugeri.
— Hã? Ah, tá bom — respondeu ela.
Não seria uma boa ideia sermos vistos ali naquele momento. Caminhamos até a parte de trás do prédio da escola, uma área arborizada onde quase ninguém passava, mas que ainda era bem cuidada.
Seria um baita problema se o Yamauchi chegasse mais cedo e nos visse juntos, então eu sabia que precisávamos resolver tudo rapidamente.
Sakura inclinou a cabeça, estendeu o braço direito e olhou para o céu.
— O que foi—
Uma gota d’água caiu na minha bochecha. Se não vinha de um aspersor, então...
— Tá chovendo — disse Sakura.
O céu, que até um instante atrás estava limpo, de repente desabou. A chuva caiu forte e grossa. Provavelmente passaria logo, mas, por enquanto, era um verdadeiro temporal. Em poucos minutos, estávamos completamente encharcados.
— Vamos voltar pra trilha! — gritei.
Sakura assentiu. Conduzi-a de volta pelo mesmo caminho, e nos abrigamos atrás do prédio da escola. Tínhamos ficado pouco tempo na chuva, mas ela era tão intensa que ensopara nossas roupas por completo. Até o cabelo de Sakura pingava.
— Que azar, hein? Tá tudo bem, Sakura?
— Eu tô bem! E você, Ayanokoji-kun?
— Tô tranquilo.
Suspirei enquanto observava a chuva, que só aumentava de intensidade. Que timing terrível.
— Aqui... pode usar isso — disse Sakura, timidamente, me oferecendo um lenço. Era o mesmo que eu havia emprestado dela na ilha.
— Pode ficar. Usa você. Vai acabar pegando um resfriado — respondi.
Eu não podia me secar enquanto uma garota ao meu lado estava completamente encharcada. Mesmo assim, Sakura se pôs na ponta dos pés e começou a enxugar a água do meu cabelo. O perfume dela, misturado ao cheiro de chuva, fez cócegas no meu nariz.
— Eu sou mais resistente do que pareço, sabia? — disse ela, enquanto passava o lenço pelo meu rosto, depois pelas bochechas e pelo pescoço.
…………
Olhei para Sakura, que permanecia em silêncio ao meu lado. Acho que comecei a entender o que Yamauchi buscava.
A chuva repentina. Os dois, em pânico, se abrigando sob um pequeno telhado. Seria ainda mais "mágico" se estivéssemos de uniforme escolar, e não com roupas casuais — afinal, ainda era o meio das férias de verão. Sem nada para esconder, conversaríamos até o silêncio cair entre nós. Então, nossos olhares se encontrariam, ouviríamos a respiração um do outro... Era o tipo de cena com que garotos sonhavam. Por alguma razão, consegui imaginar aquilo com nitidez. Talvez fosse exatamente isso que Yamauchi desejava.
— Será que vai passar logo? — perguntou Sakura.
— Olhei a previsão no celular agora há pouco. Parece que é só uma chuva passageira. Deve parar em breve — respondi.
— Entendo.
— Desculpa por ter deixado você se molhar, ainda mais quando tinha algo importante para fazer depois — falei.
— Ah, não se preocupe. Não é nada importante — respondeu ela.
Em outras palavras, isso queria dizer…
— E-Eu… não sei o que devo fazer… — murmurou.
— Apenas responda com sinceridade — disse calmamente. — Você pode aceitar o Yamauchi, recusar, ou até começar sendo amiga dele. A escolha é sua. Claro, também pode esperar um pouco antes de responder. E, se for muito constrangedor, posso contar a ele por você.
Yamauchi provavelmente não gostaria disso, mas, se Sakura pedisse, eu faria.
— Não, eu mesma vou fazer isso. Acho que devo — respondeu, firme.
— Entendo. Acho que é o certo, por consideração ao Yamauchi.
— Sim, eu sei. Eu vou recusá-lo.
— Entendo — disse, sem surpresa. Eu já suspeitava. Ainda assim, era importante que ela dissesse isso pessoalmente.
— É só que… bem, eu sinto que não tenho o direito de rejeitar alguém. Pode parecer presunçoso da minha parte, mas… mas…
Por algum motivo, Sakura parecia sufocada pela culpa.
— Você não tem que se desculpar por isso. No fim das contas, é um sentimento unilateral. Não há nada de errado em recusar alguém se você não sente o mesmo. Nesse tipo de situação, não existe "não estar qualificada" — falei com firmeza, para que ela não se confundisse.
A chuva ainda caía pesada. Devia parar logo, mas não havia como saber quando Yamauchi chegaria.
— Acho melhor eu ir voltando — disse.
— N-Não! Se você for embora, Ayanokoji-kun, eu não vou conseguir dizer nada! Por favor…
Sakura segurou com força a manga da minha camisa.
— Por favor, não me deixe sozinha — implorou.
— Se é o que você quer — respondi. Sakura já me ajudara diversas vezes antes; agora era minha vez de retribuir.
Cerca de quinze minutos depois, Yamauchi apareceu. Seu rosto estava mais tenso do que eu jamais havia visto.
— P-Por que você tá aqui, Ayanokoji?! — perguntou, surpreso.
— Desculpa. Sakura disse que não tinha coragem de falar com você sozinha, então pediu pra eu ficar. Finge que eu não tô aqui.
Yamauchi claramente se sentia desconfortável com a minha presença, mas não tinha outra opção a não ser aceitar. Ele ainda lançou um olhar desconfiado, antes de voltar a atenção para Sakura.
— D-desculpa por ter te feito esperar. Então… você leu minha carta?
— Sim. Hm… por favor, posso te perguntar uma coisa?
— Claro, o que quiser.
Sakura segurou a saia com força e falou num fio de voz:
— P-Por que você gosta… de mim? Tem tantas garotas mais bonitas.
— Eu gosto de você, Sakura! — gritou Yamauchi.
Sakura se sobressaltou.
— D-Desculpa, não quis gritar… e-e então, qual é a sua resposta?
Enquanto ouvia, percebi várias formas de lidar com a situação — mas Yamauchi estava tão nervoso, o coração praticamente saltando do peito, que duvido que conseguisse pensar em qualquer uma delas.
— E-Eu… eu sinto muito! — gaguejou Sakura, curvando-se profundamente, os olhos levemente avermelhados. Foi uma resposta desajeitada para uma confissão igualmente desajeitada. A última fagulha de esperança de Yamauchi se desfez no ar.
— É que… eu não consigo… corresponder aos seus sentimentos — completou Sakura. Devia ter reunido toda a coragem do mundo para dizer aquelas palavras. Eu estava presenciando uma cena de amor pela primeira vez — de um ponto de vista, digamos, desconfortavelmente próximo. Yamauchi, sem dúvida, não queria ser rejeitado na frente de um terceiro.
— Entendo — respondeu ele.
Sua voz tremia tanto quanto a de Sakura. Parecia lutar para processar o que acabara de acontecer. Não consegui sentir vontade de rir dele.
— Obrigado, Sakura. Por ter vindo até aqui… pra me dizer isso pessoalmente — acrescentou.
— A-Adeus! — disse Sakura, incapaz de aguentar mais, curvando-se novamente antes de sair correndo.
— Ah… — suspirou Yamauchi.
Ele estendeu o braço, como se tentasse detê-la, mas logo deixou-o cair. Tudo o que pude fazer foi observar em silêncio o fim do primeiro romance que vi acontecer diante de mim.
Yamauchi ficou quieto por alguns minutos, suportando a frustração, até que levantou a cabeça e me encarou. Achei que fosse gritar comigo, descarregar a raiva por eu estar ali — mas, em vez disso…
— C-Cara, que vergonha. Ser rejeitado por uma garota na frente de um amigo… sinto que meu rosto tá pegando fogo — disse, soltando um suspiro.
Não me culpou por nada. Apesar do choque evidente em seu rosto, havia algo mais ali.
— Uff… é tipo… como posso dizer? Até que me sinto aliviado, sabe?
Yamauchi parecia quase animado agora.
— Tipo, eu fui um idiota. Só causei problemas pra Sakura. Ela tentou ser o mais gentil possível pra não me magoar, mesmo sem gostar de mim. Me sinto culpado por isso. Quer dizer, eu tenho o direito de gostar de alguém, claro, mas aprendi que confessar os próprios sentimentos vem com uma certa responsabilidade.
Percebi que as roupas de Yamauchi estavam molhadas. Pelo visto, ele havia ficado do lado de fora bem antes do horário combinado com Sakura. Talvez estivesse ali, refletindo nervosamente sobre a confissão.
— Você não parece tão abalado quanto eu imaginei — comentei.
— Ah, foi um choque, claro, mas… não é tão ruim assim — respondeu, coçando a cabeça. — A Sakura é fofa, e eu queria que ela fosse minha namorada. Mas, pensando bem, acho que eu só estava olhando pro rosto e pro corpo dela, sabe? Isso é meio superficial. Acho que, na real, eu não gostava de verdade dela. Se eu realmente gostasse, teria doído mais quando ela me rejeitou.
Preferi não dizer nada. Apenas o ouvi em silêncio.
— Por isso, vou seguir em frente. Vou encontrar uma garota de quem eu realmente goste — completou ele, com um pequeno sorriso cansado.
Parece que Yamauchi havia amadurecido um pouco depois de ser rejeitado por Sakura — e em tempo recorde, até.
— Sou grato a você, Ayanokoji. Desculpa por ter te arrastado pra algo tão esquisito.
— Tá tudo bem. Afinal… somos amigos — respondi.
— Aqui, pega isso. Você disse que queria pegar o celular emprestado, né?
— Você não tinha dito que isso dependia de a sua confissão dar certo? — perguntei.
— Tô abrindo uma exceção. Mas me devolve logo depois, hein — disse ele, tentando parecer despreocupado.
Dizendo isso, Yamauchi saiu correndo atrás de Sakura.
Foi então que notei os raios de sol atravessando as frestas entre as nuvens de chuva.
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