Ano 1 - Volume 4.5
Capítulo 3: Perigos se Escondem na Vida Cotidiana
COMEÇOU TUDO às 18h de um determinado dia. Uma mensagem de texto da escola nos avisou que todo o dormitório ficaria sem água por um bom tempo, por causa de um problema no departamento de abastecimento. Girei a torneira para confirmar e não saiu nada.
Pelo que parecia, o conserto não terminaria antes da madrugada. Enquanto isso, a escola tomaria as providências necessárias para atender os alunos. Distribuiriam dois litros ou mais de água na cantina, conforme a necessidade, embora a mensagem avisasse que a cantina provavelmente ficaria lotada por causa disso. As lojas de conveniência estariam temporariamente indisponíveis, mas o Keyaki Mall ofereceria água potável gratuita. No entanto, havia proibição de encher garrafas e levar a água para casa. Para mim, isso não seria um problema.
Não — meu grande problema seria o banheiro. Mesmo com água no reservatório, teríamos que ter cuidado, pois só poderíamos dar descarga uma vez.
O chá na geladeira deveria dar para uma xícara, o que me ajudaria a passar o dia. Quanto ao jantar, eu cozinharia algo sem usar água. Eu havia acabado de começar a preparar a comida quando meu telefone tocou de repente. No momento em que fui atender, cessou depois de dois toques.
Vi que Horikita Suzune havia ligado. Era incomum ela entrar em contato. Mesmo quando Horikita tinha algum assunto comigo, geralmente mandava mensagem. Curioso, decidi retornar a ligação. Porém, por mais que o telefone tocasse, Horikita não atendia.
Achei estranho, mas desisti. Coloquei o telefone sobre a mesa e voltei a preparar o jantar. Como já tinha arroz pronto, optei por um arroz frito simples. Depois de adicionar o ovo, só restavam os toques finais.
De repente, meu telefone tocou de novo.
Quando desliguei o fogão e fui até o aparelho, a chamada havia parado. Outra ligação de Horikita. Tentei ligar de volta, mas ela não atendeu. Isso estava ficando suspeito.
Talvez Horikita tenha se ocupado justamente depois de tentar me ligar? Considerando a personalidade dela, era difícil imaginar isso. Ela era do tipo que só ligava quando estava calma. Mesmo se algo tivesse acontecido, encerrar a chamada duas vezes seguidas e não retornar era estranho. Concluí que Horikita provavelmente fora pega de surpresa por algo inesperado.
— É, claro — resmunguei.
Irritado comigo mesmo por imaginar mais do que devia a partir da ligação de Horikita, decidi parar de cozinhar por um instante e mandar uma mensagem.
"Ei, parece que você tentou me ligar duas vezes. Queria alguma coisa?"
A confirmação de leitura apareceu instantaneamente, mas não veio resposta. Esperei por um bom tempo, mas nada.
"Estou cozinhando agora, então talvez eu demore a responder. Só me manda mensagem que eu retorno."
Mais uma vez a confirmação de leitura apareceu, mas ela não respondeu. Voltei ao jantar.
*
Quando terminei de comer, ainda não tinha notícias de Horikita. Enquanto tomava o último gole do meu chá de cevada, comecei a sentir que algo estava errado.
— Ela não pode estar… Ela não está realmente em perigo, está?
Será que ela teria desmaiado em algum lugar? Tudo aquilo era atípico em Horikita, sem dúvida. Seria que o telefone dela estava com defeito? Se fosse isso, ela poderia simplesmente ter avisado a escola.
Se eu conhecesse alguém próximo o bastante de Horikita para ir ao quarto dela e checar, isso teria se resolvido rápido. Infelizmente, não consegui pensar em ninguém que se encaixasse.
"Você está bem?"
Precisava descobrir o que estava acontecendo.
— Ah…
A notificação de leitura não apareceu. A situação havia mudado. Talvez a bateria do telefone dela tivesse acabado, ou o aparelho tivesse desligado automaticamente.
Que outras possibilidades havia, porém? O fato de Horikita ter ligado em primeiro lugar ainda pesava na minha cabeça. Por quê? Também era estranho que ela não tivesse explicado o que estava acontecendo.
Logicamente, pensei primeiro que Horikita queria falar comigo, mas fora interrompida por algo. Um professor poderia tê-la chamado, ou um colega de classe. Mas essa teoria era frágil. Era difícil imaginar alguém da escola ligando para Horikita no meio do verão, ainda mais à noite. Ela não tinha amigos que a contatassem assim.
Talvez algum acidente tenha interrompido a ligação. Ou ela simplesmente cochilou e esqueceu de retornar. Talvez fosse isso.
— Isso não faz sentido.
Horikita era uma aluna talentosa e focada. Não a via esquecendo de responder.
— Estou preocupado.
No fim, minhas opções eram limitadas, mas eu estava bem preocupado para deixar assim. Por ora, decidi tentar ligar para Horikita novamente. Disquei o número dela. Na quarta tentativa, finalmente consegui contato.
— Alô? — Horikita não soou surpresa. Se havia algo, parecia mais cansada do que assustada.
— Oi. Desculpa ter ligado várias vezes. Fiquei preocupado porque você tentou me ligar. Estava dormindo?
— Não, não estava. Sinto muito por não responder.
Não ouvi nenhum traço de pânico, nem a impressão de que ela tivera um acidente.
— Estou no meio de uma coisa agora — continuou.
Ouvi um baque metálico pelo telefone.
— O que foi isso? — perguntei.
— Nada. Nada com que você deva se preocupar. Tchau.
Ela encerrou a ligação abruptamente. Bem, ao menos consegui falar com ela, e ela disse que tudo estava bem. Decidi esquecer o episódio por enquanto.
*
Pensei que aquilo tinha acabado, mas por volta das 21h meu telefone acendeu. Uma nova mensagem.
"Você está acordado?"
"Estou acordado."
"Eu gostaria de conversar. Você tem tempo?"
Era aproximadamente duas horas desde nossa última conversa.
"Vou te ligar."
Horikita atendeu no primeiro toque.
— O que houve?
— Tem algo que eu queria te perguntar.
Como antes, Horikita soava cansada. Ela fez uma pausa antes de continuar.
— Digamos que exista uma tartaruga — começou ela.
— Hã?
Horikita desandou numa história completamente maluca.
— É uma tartaruga extremamente inteligente e talentosa. Se eu a atropelasse por acidente e a virasse de barriga para cima, seria terrível, não acha? Ela não conseguiria se virar sozinha.
— Suponho que sim. Mas, na maioria dos casos, as tartarugas conseguem estender o pescoço e usar as pernas para se virar. As únicas que realmente não conseguem se endireitar sozinhas são os grandes jabutis e as tartarugas marinhas — expliquei.
…………
Horikita ficou em silêncio com a minha explicação desnecessária.
— Teria sido mais fácil se você tivesse presumido que tartarugas não conseguem se levantar sozinhas e me ouvido — disse ela, depois de um momento.
Fazia sentido.
— Certo. Então, elas não conseguem se virar sozinhas. Tem algo errado com isso?
— Numa situação dessas, o que você faria?
— Eu provavelmente viraria a tartaruga. Não é muito trabalho.
Eu não teria nenhum motivo para salvar a tartaruga, mas também não teria motivo para abandoná-la. Pensei que, já que estava ali, poderia muito bem estender a mão. No entanto, fiquei me perguntando o que exatamente Horikita queria dizer com aquilo. Talvez ela estivesse em apuros, como a tartaruga que não conseguia se levantar sozinha?
Mesmo assim, não tive a impressão de que ela estivesse em pânico. Parecia calma. Provavelmente, isso significava que não era nada urgente.
— Então, o que há de errado? — perguntei.
— Bem, não estou chateada nem nada disso.
— Bom, parece que é exatamente pra lá que essa conversa está indo.
— Eu só estava falando sobre uma tartaruga virada de costas. Não tem nada a ver comigo.
— Certo. Então por que estamos falando sobre uma tartaruga?
— Eu só… queria falar com você sobre uma tartaruga que ficou virada — insistiu.
Aquilo estava ficando estranho.
— Isso não é típico de você — comentei. — Bom, acho que pedir ajuda também não é muito a sua cara, mas… Você me ligou porque não tem mais ninguém a quem recorrer, certo? Se for isso, então diga logo o motivo.
Horikita fez uma pausa.
— Se você disser que não consegue evitar querer ajudar as pessoas, então talvez eu não possa pedir seu conselho — disse ela.
— Hã? Tá tudo bem. Pode falar comigo — respondi.
Horikita finalmente se abriu:
— Estou só com um pequeno problema.
Pelo menos ela havia admitido.
— Onde você está agora? — perguntei.
— No meu quarto.
— Espera. Tem insetos? — Se fosse isso, eu entenderia o motivo de ela não querer comentar. Provavelmente eu estava certo — embora os dormitórios fossem limpos e, por ela morar num andar alto, a chance de aparecer algum inseto era bem pequena.
— Não é isso. Eu conseguiria lidar com um inseto sozinha.
— E como você lidaria? Detergente? Água quente? Chinelo? — Por mais que eu tentasse deduzir, não conseguia imaginar a situação de Horikita.
— Bem, estou com um problema porque… Não, deixa pra lá. Eu mesma resolvo.
— Você diz que vai resolver sozinha, mas já se passaram mais de duas horas e você ainda não fez nada, né? — rebati. Se ela tinha ligado antes por causa disso, então vinha lutando com o problema fazia tempo.
— Bem… é verdade que estou quase no meu limite físico. Eu vou te contar tudo.
Finalmente.
Mas, em vez de explicar, Horikita fez um pedido inesperado:
— Você poderia vir até o meu quarto?
Ela parecia tanto envergonhada quanto contrariada.
— Agora? Mas já passou das nove — protestei.
— Eu entendo, mas… pra resolver isso, você precisa estar aqui.
A voz dela soava frustrada, quase aflita.
— Bom, eu posso me meter em encrenca se for pro andar das meninas a essa hora da noite — avisei.
— Eu sei, mas não consigo fazer isso sem você — respondeu.
E, com isso, Horikita desligou abruptamente.
— Isso tá meio assustador… mas acho que vou ter que ir — murmurei.
Peguei apenas o celular e a chave do quarto e saí apressado. Não queria deixá-la esperando.
*
Não queria encontrar nenhuma outra garota pelo caminho, então esperei até que o elevador estivesse vazio. Andar furtivamente assim era patético, mas, bem… era o que tinha. Consegui chegar ao décimo terceiro andar sem ser visto. Quando cheguei à porta de Horikita, toquei a campainha. Depois de esperar um pouco, tentei abrir a porta devagar. Não estava trancada.
— Horikita? — chamei.
O apartamento dela era do tipo quarto-sala, mas o quarto em si ficava escondido atrás de uma porta fechada. Não havia sinal dela nem na cozinha, nem no corredor. Assim como eu, Horikita mal havia decorado o lugar desde que se mudara.
— Você está sozinho, certo? — ouvi a voz dela atrás da porta do quarto.
— Você está falando alto demais — avisei.
— Tudo bem. Mesmo que alguém entre agora, eu acerto com a minha mão direita — respondeu.
O que diabos isso significava? Cauteloso, entrei no quarto dela. Horikita estava de costas, então não pude ver sua expressão. O cômodo era simples, sem nada fora do lugar.
— Certo, estou aqui. Qual é o problema? — perguntei.
— Quando você ver, vai entender.
Horikita se levantou devagar e se virou para mim. Duas emoções completamente opostas me atingiram ao mesmo tempo.
— Entendi. Então… é isso, né?
— É isso mesmo.
Senti uma leve vergonha alheia ao olhar para sua mão direita — completamente presa dentro de uma garrafa de água pequena.

— Como posso dizer isso? Isso é totalmente diferente de você. Não me diga que estava brincando.
— Não seja idiota.
— Isso é tipo quando você tenta pegar um único grão de milho com os dedos, não é?
Parece que a irritou, porque ela balançou o braço direito na minha direção.
— Foi só uma piada!
— Não adianta contar uma piada sem graça. Você falhou.
— Não foi engraçada porque eu estava te provocando, certo?
— Essa garrafa ficou presa porque eu tentei lavar a mão. Pode me ajudar a tirar?
Então era isso. Segurei a garrafa e puxei, mas acabei puxando Horikita junto.
— Vamos lá. Se você não puxar pra trás, vai continuar presa. Faz um pouco de força, pelo menos — disse eu. Se ela não oferecesse resistência, não iríamos a lugar nenhum.
— Eu já sei disso. É que estou cansada. Vamos acabar logo com isso — respondeu.
Depois de tentar se livrar sozinha por mais de duas horas, Horikita estava exausta. Segurei a garrafa de novo, coloquei um pouco mais de força e puxei. Horikita fez o mesmo, aguentando a dor. Ainda assim, o braço dela continuou preso.
— Não adianta. Desse jeito, a garrafa nunca vai sair — falei.
— Entendo. Suponho que já esperava por isso — disse Horikita, parecendo ter se conformado com o fato de estar presa.
— Acho que vamos ter que esfregar seu braço com sabão e puxar a garrafa devagar. Vamos para a cozinha — eu disse.
— Você esqueceu que estamos sem água agora?
Era verdade. O fornecimento só voltaria ao meio-dia. A única água disponível era a do vaso sanitário, mas a Horikita provavelmente não ia gostar dessa ideia.
— Vou até o refeitório.
Tínhamos poucas opções, mas, contanto que eu conseguisse um pouco de água, poderíamos tirar a garrafa. Saí do quarto da Horikita e fui direto para o refeitório. No entanto, uma surpresa desagradável me esperava lá.
— Sinto muito. Vieram tantos alunos que a água acabou — disse a funcionária do refeitório.
Aparentemente, todos que precisavam de água para o jantar já tinham levado o restante. Bem, então eu compraria em uma das máquinas de venda automática. Não precisava de muita — dois copos já bastariam para soltar o braço dela.
Fui até as máquinas e descobri que o azar ainda não tinha acabado. Toda a água, o chá e o suco estavam esgotados.
— Nunca vi uma máquina de bebidas completamente vazia antes — murmurei.
— Voltou de mãos vazias? — perguntou Horikita, a mulher da garrafa d’água, me lançando um olhar gélido. Mas não adiantava nada; não havia o que fazer.
— Quis pegar um pouco da água do meu quarto, mas já usei tudo.
Essa tragédia era o resultado de várias pequenas desgraças acumuladas.
— Então, o que vamos fazer agora?
— Se você não se importar, podemos pedir um pouco de água para o Ike ou o Sudou.
— Passo — respondeu ela de imediato.
Já esperava essa reação.
— Posso mentir e dizer que é pra mim.
— Sou contra usar qualquer água deles. Vai saber o que colocaram lá — resmungou ela.
Ela falava dos dois como se fossem germes nocivos. Eu quis discordar, mas não tive coragem. Aqueles caras realmente costumavam deixar chá e água abertos por aí. Provavelmente se esforçariam para arranjar água limpa para a Horikita, mas talvez não fossem tão cuidadosos se achassem que era pra mim. A malícia amistosa era uma coisa diabólica.
— Certo. Quer tentar mais uma vez?
— Quero. Mesmo que doa — respondeu ela.
Horikita estendeu o braço direito, pronta para o sofrimento. Queria se livrar da garrafa o quanto antes. Vi o suor escorrer por sua pele.
— Ok, vou segurar firme agora.
Eu só queria libertar a Horikita e voltar para o meu quarto, então agarrei bem a garrafa, me colocando numa posição ridícula. Puxei com o dobro da força de antes. Horikita parecia em agonia, mas aguentou sem reclamar. Ainda assim, a garrafa não se mexeu.
— Acho que realmente precisamos de água — falei.
Provavelmente, a garrafa só sairia se o braço dela estivesse escorregadio. Se ainda ficasse presa depois disso, teríamos que chamar os serviços de emergência.
— Está me dizendo pra esperar até o meio-dia? Assim?
— Bem... o único cara confiável que sobrou é o Hirata.
— Não tenho dúvidas sobre a qualidade da água do Hirata, mas... detesto a ideia de ficar em dívida com ele — respondeu Horikita.
— Eu posso dizer que sou eu quem precisa da água, só por aparência. Assim, não vai ser problema seu.
— Suponho que sim — admitiu ela.
Horikita ainda parecia um pouco insatisfeita, mas aceitou que, às vezes, é preciso quebrar alguns ovos para fazer uma omelete. Tentei ligar para o Hirata. Não importa quantas vezes o telefone tocasse, ele não atendia. Nem as mensagens de chat ele lia.
— Talvez esteja dormindo. Não estou conseguindo resposta.
— Entendo. Meus sentimentos estão divididos entre alegria e desespero — respondeu ela.
— Bom, acho que não temos outra escolha. Só resta tentar com a Kushida ou a Sakura.
— Por favor, peça à Sakura-san — respondeu Horikita imediatamente.
— Ainda está de mal com a Kushida?
— Não há motivo para nos darmos bem. Além disso, ainda há muitas coisas nela que não consigo aceitar.
— O que quer dizer com "não consegue aceitar"?
— O teste no navio. Ela desistiu de vencer desde o início. Quis que o grupo do Dragão terminasse empatado.
Horikita cruzou os braços ao se lembrar do teste anterior. Infelizmente, como ainda tinha a mão presa na garrafa, o gesto perdeu boa parte do impacto.
— É que ela é pacifista. Provavelmente escolheu a opção em que todo mundo sairia feliz — argumentei.
— Eu não pretendia rejeitar completamente o Resultado nº 1. Mas foi algo bem diferente a própria VIP decidir nos conduzir até ele — retrucou Horikita.
Durante o teste, os alunos tinham sido divididos em doze grupos. O jogo consistia em descobrir a identidade secreta do aluno VIP em cada grupo, com quatro resultados possíveis. O mais difícil de conseguir era o Resultado nº 1: todos precisavam descobrir a identidade do VIP e esperar até o horário combinado para enviar as respostas, sem que ninguém traísse o grupo entregando antes da hora.
Quem alcançasse o Resultado nº 1 ganharia 500 mil pontos privados por membro, e o VIP receberia 1 milhão. O único ponto negativo era que a classe do VIP não ganharia pontos de classe, o que causou discórdia. Kushida, sendo a VIP, não aproveitou os privilégios do cargo — e isso irritou profundamente Horikita.
— O fato de a Kushida ser a VIP do nosso grupo dava vantagem à Classe D. Tudo o que precisávamos fazer era manter a identidade dela em segredo, mas todo mundo acabou descobrindo. Acho que a própria Kushida teve algo a ver com isso.
— Mas isso é só especulação sua.
— Sim. Ainda assim, a possibilidade existe. Portanto, parto do princípio de que ela é culpada.
As palavras de Horikita ficaram mais duras. Eu entendia como ela se sentia, mas era difícil levar a situação totalmente a sério, considerando que o braço dela ainda estava preso dentro de uma garrafa d’água. Eu precisava pisar com cuidado.
— Entendo o que você sente, mas isso não resolve nada — eu disse.
— Quer dizer… por eu estar dizendo tudo isso sem provas?
— Quero dizer que aquela situação também foi responsabilidade sua. Vamos supor que, sim, a Kushida tenha nos traído. Nesse caso, a culpa é sua por ter permitido que ela fizesse isso. Você precisa vencer a qualquer custo. Estou errado?
Horikita pareceu compreender o que eu quis dizer, mas ainda assim retrucou:
— Não seja absurdo. Você entende o quão irrealista isso soa?
— Irrealista? Não vejo por quê. Se a Kushida realmente manipulou todos para alcançar o Resultado nº 1, isso é impressionante. Em outras palavras, ela superou você completamente no exame.
Claro, tudo isso partia da suposição de que a Kushida realmente tivesse traído o grupo Dragão. Na verdade, o mais provável era que tivesse sido Ryuen ou Katsuragi. Eu não sabia ao certo. De qualquer forma, alguém mais influente tinha forçado o grupo a seguir um resultado específico. Ainda assim, o fato permanecia: Horikita havia sido superada.
— A VIP estava na sua classe. Se você não agiu por estar confiante demais na vitória, então a responsabilidade recai sobre o seu grupo. Se o seu objetivo é chegar à Classe A, precisa aprender a gerenciar melhor as pessoas — acrescentei.
— Você fala de coisas bem complicadas — retrucou Horikita.
— Eu entendo que está frustrada. Mas esse é o caminho que você escolheu. Além disso, você está amadurecendo. Se eu tivesse dito isso quando nos conhecemos, você nem teria me ouvido.
Era verdade. Aos poucos, Horikita começava a pensar de forma mais madura. Já não era mais a garota que rejeitava tudo ao seu redor por instinto.
— Entendo. Aceito o resultado do teste. Talvez eu tenha sido otimista demais. Mas, por ora, meu principal objetivo é libertar meu braço — suspirou ela.
— Acho que vou pedir ajuda à Sakura.
Como já estava tarde, decidi mandar uma mensagem pelo chat:
"Sakura, fiquei sem água no meu quarto. As máquinas também estão vazias. Você se importaria de dividir um pouco comigo?"
Esperei um tempo, mas não houve sinal de que ela tivesse lido.
— Nada feito. Não sei se ela está dormindo ou o quê.
— Sinceramente, hoje não é o meu dia — suspirou Horikita.
— Imagino que queira tirar a garrafa agora?
— Se eu planejava esperar, não teria te chamado.
— Então vai ter que correr um risco também — falei.
— Risco? — Horikita ficou imediatamente em alerta.
— Vamos até o Keyaki Mall buscar água. Não tem outro jeito.
— Então essa é a nossa última opção — disse ela, levando a mão à testa. Por mais trágica que fosse a pose, ela ainda parecia ridícula.
— A maioria das pessoas está jantando agora, então essa é nossa chance.
De fato, eu não tinha encontrado nenhum colega de classe naquela noite.
— Não posso correr esse risco. Não dá pra pedir a algum dos seus amigos?
— Infelizmente, não. Acho que saíram pra cantar karaokê. Não estão por aqui.
— Definitivamente, hoje não é o meu dia — suspirou de novo.
— Vamos acabar logo com isso, então.
— E-Espera. Eu realmente não posso sair assim — disse Horikita.
— Nesse caso, quer esconder a mão? Bem, ela já está escondida, né? — brinquei.
— Totalmente desnecessário — retrucou ela, erguendo a mão como se fosse me acertar.
— Tudo bem, entendi! Abaixa essa mão, por favor. Você tem um pano ou algo assim?
— Um pano? Se um lenço servir, tenho um.
Horikita pegou um lenço branco na prateleira. Coloquei-o sobre a garrafa.
— Isso parece extremamente suspeito. Nem cobre tudo.
— Você não tem nada maior? — perguntei.
— Uma toalha de banho serve?
Coloquei a toalha sobre o braço dela.
— Bem, acho que funciona.
Sinceramente, suspeitava que a toalha chamaria ainda mais atenção.
— Se a toalha ficar um pouco torta, vai cair — disse Horikita.
— Então segure com a outra mão.
Horikita dobrou a toalha e a manteve junto ao corpo, parecendo prestes a tomar banho. Sim, aquilo ficou bem melhor.
— Se alguém me visse assim, que impressão teria? — perguntou.
— Hm… — refleti.
Ninguém normalmente andaria pelos dormitórios com uma toalha de banho, muito menos sairia com uma. As pessoas ficariam desconfiadas.
— Dependendo da situação, podem achar que você está indo usar o meu chuveiro — sugeri. Pode ter sido um salto lógico, mas foi o que me veio à mente.
— Rejeitado.
Horikita tirou a toalha. No fundo, eu também não queria que ninguém pensasse isso sobre nós.
— Que tal colocar a mão dentro da bolsa?
— Rejeitado. Não consegue pensar em nada melhor? — Ela era insuperável quando o assunto era reclamar.
— E se simplesmente formos assim mesmo? Evitamos o risco de a toalha ou o lenço caírem.
— Suponho que sim.
Tudo o que restava era agir. Espiei pelo corredor, trazendo comigo uma Horikita ligeiramente hesitante.
— Certo, não tem ninguém. Vamos.
— E-E-Espera! Ainda não coloquei os sapatos!
Como só podia usar uma mão, colocar os sapatos levou um bom tempo. Finalmente, nós dois saímos para o corredor.
— Espera. Tem uma torneira no caminho da escola, certo? Se chegarmos até lá, ficamos bem.
Se andássemos em ritmo normal, chegaríamos à torneira em uns cinco minutos. Estaríamos a salvo sob a escuridão, desde que saíssemos do dormitório. Chegamos aos elevadores, mas—
— Não dá, Ayanokoji-kun. Não podemos usar — disse Horikita.
— O quê?
— Tem um monitor de vigilância no saguão do primeiro andar, lembra? Não sei quem pode estar vendo as imagens.
O monitor realmente mostrava as câmeras do elevador. Horikita estava preocupada em ser vista. Mesmo que conseguisse esconder o braço, ainda pareceria suspeita.
— Vamos pelas escadas, então?
Isso levaria mais tempo. E, como Horikita só tinha uma mão livre, seria um pouco arriscado.
— Prefiro ir pelas escadas a deixar que alguém me veja — confessou.
Horikita escolheu o orgulho em vez da segurança. Havia duas escadas de emergência, ambas à mesma distância dos elevadores. De qualquer forma, teríamos que passar novamente em frente aos quartos dos alunos. Não havia como evitar.
Levei Horikita até a escada. Ela ficou atrás de mim, tentando se esconder. Comecei a concordar com o que ela tinha dito antes: "Hoje não é o meu dia."
Então ouvi uma porta se abrindo três quartos atrás de nós.
— I-Isso é ruim. É o quarto da Maezono-san.
Maezono, da Classe D, hein? Não havia como fugir. No entanto, quem saiu do quarto não foi ela — foi a amiga dela, Kushida. Mais um golpe de azar para a Horikita.
— Obrigada, Kushida-san! Eu te devolvo o favor da próxima vez! — ouvi Maezono dizer.
— Ah, não, tudo bem. Não se preocupe com isso. Boa noite, Maezono-san.
Não cheguei a ver o rosto da Maezono. Assim que a porta se fechou com um clique, Kushida seguiu em direção ao elevador, sem notar nem a mim nem à Horikita.
— Essa foi por pouco — disse Horikita.
— É… — concordei.
Se a Kushida tivesse olhado para trás, certamente teria nos visto. Eu suava de nervoso; estávamos chamando atenção demais daquele jeito.
Apressei o passo até a saída de emergência, mas então ouvi a porta da Maezono se abrir de novo.
— Kushida-san, você esqueceu uma coisa! — gritou Maezono, saindo para o corredor. Kushida se virou.
— Ah, Ayanokoji-kun. Horikita-san. Boa noite.
— Sim… — respondi, forçando um sorriso.
A troca foi breve. Parecia que Kushida só queria confirmar o que havia esquecido. Ela voltou na direção de Maezono, que inevitavelmente também nos notou. Horikita congelou.
— Você esqueceu o celular!
— Ah, desculpa. Obrigada! Salvou minha vida.
— Vamos, Ayanokoji-kun. Não há motivo pra ficarmos aqui — disse Horikita, empurrando a garrafa d’água contra minhas costas para me fazer andar.
Se alguém visse Horikita naquele estado, o orgulho dela seria destruído por completo. Chegamos à saída de emergência, e tentei abrir a porta.
— Não abre.
— Tá brincando, né? Não existe porta de emergência que não abra!
— Tô falando sério. Não abre mesmo.
Trancar uma saída de emergência era proibido… o que só podia significar uma coisa.
— Aonde vocês estão indo?
Ah, não. Kushida vinha se aproximando.
— Ah, é… a gente só ia descer pelas escadas — respondi, o mais naturalmente possível.
— Sério? Mas o lado leste está sem energia agora. Acho que as escadas não estão usáveis. Seria bem perigoso descer no escuro. Mas as do lado oeste devem estar ok.
— Então é por isso que está trancado. Entendi… — murmurei.
Horikita permaneceu em silêncio, escondendo-se atrás de mim.
— A Horikita parece diferente do normal. Aconteceu alguma coisa? — perguntou Kushida, aproximando-se ainda mais.
— Não aconteceu nada! — respondeu Horikita em voz alta e seca.
A rispidez funcionou; Kushida parou.
— Entendo. Bem, se algo estiver te incomodando, pode me contar, tá? A Maezono-san estava em apuros há pouco porque ficou sem água. Eu tenho bastante, se precisarem — disse Kushida, com aquele sorriso típico.
Ela tinha exatamente o que mais queríamos. Se Horikita simplesmente pedisse, conseguiríamos água facilmente. Mas ela empurrou a garrafa contra minhas costas como se fosse o cano de uma arma. Não queria dever nada à Kushida.
— Então, boa noite pra vocês dois — despediu-se Kushida, docemente.
— É… boa noite.
*
Levamos um bom tempo pra descer do décimo terceiro andar até o térreo. Eu temia que o saguão estivesse cheio, mas felizmente não havia ninguém.
— Podemos ir agora — eu disse.
— Certo.
Caminhei até a saída, com Horikita logo atrás.
De repente, vários alunos — meninos e meninas — surgiram da escuridão, conversando animadamente. Pareciam ser de outras classes, mas pra Horikita, isso não fazia diferença. Não conseguiríamos sair sem sermos vistos. Ela se virou imediatamente, fingindo que voltava para o quarto.
— Desse jeito, eles vão nos ver — murmurou.
Os estudantes se aproximavam, e a presença deles era impossível de ignorar. Apressados, abrimos a porta das escadas de emergência do lado oeste. Que azar. Ouvimos uma voz logo acima — parecia um aluno descendo do terceiro ou quarto andar.
Sem poder subir nem descer, fomos obrigados a voltar para o saguão.
— Agora não temos escolha a não ser usar o elevador! — disse Horikita.
— Tem certeza? Você vai aparecer nas câmeras.
— Vou usar você como escudo. Sabendo onde a câmera fica, dá pra se esconder atrás — respondeu ela.
Era uma ideia estranha, mas viável. Eu preferia evitar, mas sem alternativas, entramos no elevador da esquerda. Fiquei bem à frente da câmera, e Horikita se posicionou atrás de mim, escondendo o braço preso na garrafa. Parecia um fantasma colado nas minhas costas.
Eu só esperava que ninguém notasse nada. De qualquer forma, precisávamos sair logo do térreo. Apertei um botão aleatório.
— Bem, estamos a salvo por enquanto… mas isso é só o começo — murmurei.
— Vamos desistir. Não dá pra sair assim. Vou aguentar com essa garrafa até a água voltar — disse Horikita.
Era uma decisão difícil para ela, mas se era o que queria, bastava voltarmos ao décimo terceiro andar. Cancelei o andar anterior e apertei o botão do 13º. Tomara que nosso tormento terminasse ali.
Só que, quando começamos a relaxar, o elevador diminuiu a velocidade. Ultimamente, eu estava com um azar terrível com elevadores. Ao menos não parecia uma pane — nem eu havia apertado o botão errado.
Paramos no quinto andar. Alguém devia ter chamado o elevador. Qualquer pessoa que entrasse nos veria naquele estado ridículo. Se fosse uma multidão, talvez passasse despercebido, mas o destino era cruel — as portas se abriram e revelaram um único aluno.
Inacreditável. De todas as pessoas possíveis…
Koenji Rokusuke, da Classe D, entrou com seu habitual ar arrogante. Foi direto até o espelho do elevador, sem sequer nos olhar. Tirou do bolso um pente e começou a arrumar o cabelo.
— Garoto do elevador. Último andar — ordenou.
Horikita ficou atônita diante daquela exibição absurda de narcisismo. Eu também quis responder algo, mas decidi ficar quieto. Apertei o botão do andar mais alto; as portas se fecharam, e começamos a subir.
Koenji continuou ignorando completamente nossa presença. Eu até esperava que ele ao menos notasse os colegas de classe, mas talvez fosse melhor assim — significava que provavelmente não veria a garrafa.
Enquanto Horikita permanecia no ponto cego da câmera, passamos pelo décimo andar. Fiquei me perguntando o que Koenji queria fazer no último andar, mas não ousei perguntar. Talvez nem houvesse motivo.
Quando as portas se abriram lentamente, Horikita e eu saímos ao mesmo tempo. Koenji não desviou os olhos do espelho nem por um segundo. Tudo acabou sem incidentes.
Horikita correu direto para o quarto.
— É impossível. Andar lá fora desse jeito está fora de cogitação — murmurou, entrando.
Eu estava prestes a segui-la quando meu celular vibrou.
"Desculpe responder tão tarde. Estava pesquisando uma coisa e não vi sua mensagem", dizia o texto da Sakura.
— Sakura-san? — perguntou Horikita.
— É.
Respondi e comecei a digitar de volta.
"Você queria água, certo? Claro que posso te dar. Uma garrafa é suficiente?"
"Mais que suficiente, obrigado. Posso passar aí agora?"
"Claro. Estarei te esperando", respondeu Sakura.
Era difícil conversar com Sakura pessoalmente, mas quando trocávamos mensagens, tudo fluía com naturalidade.
— Boas notícias, Horikita. Aparentemente, a Sakura tem água. Ela acabou de me autorizar a pegar um pouco, então vou até lá.
— Obrigada. Mas, por favor, não conte nada à Sakura-san sobre mim — respondeu Horikita.
— Já que você vai se livrar dessa situação, que tal tirarmos uma foto pra comemorar? — brinquei.
Horikita pareceu prestes a me acertar com a garrafa d’água, então escapei correndo para o corredor.
— Que mulher assustadora… — murmurei. — Com a força física que ela tem, se me acertasse na cabeça com aquela garrafa, eu provavelmente morreria.
Se uma colegial com o braço preso em uma garrafa d’água me matasse, meu nome certamente entraria para a história… de forma vergonhosa.
*
— Aí está… saiu — disse eu.
Depois de uma longa e árdua batalha, finalmente conseguimos libertar o braço da Horikita da garrafa.
— Sinceramente, esse dia foi um completo desastre — murmurou ela. Se minha mão tivesse ficado presa em uma garrafa, eu também estaria de mau humor. — Ayanokoji-kun, por favor, não conte isso a ninguém.
— Antes de sair distribuindo ordens, não tem outra coisa que você queira dizer primeiro?
— Obrigada...
Não parecia muito sincero, mas pelo menos soava como um agradecimento.
— Tenho que admitir: ficar com o braço preso numa garrafa d’água… isso não combina nada com você, Horikita.
— Cala a boca. Eu não saio por aí procurando confusão — rebateu ela, irritada.
Decidi que já tinha ficado tempo demais ali e voltei para o meu quarto.
Mas, pensando bem… era mesmo possível ficar com o braço preso numa garrafa d’água? Peguei uma garrafa da caixa, lavei e resolvi testar. Enfiei a mão.
Serviu perfeitamente. A garrafa ficou surpreendentemente justa.
— Rocket punch! …Hehe, brincadeira.
Cedi à bobeira por um instante. Mas, quando tentei tirar a mão da garrafa…
— Deu ruim!
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