Classroom of The Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 4.5

Capítulo 2: Katsuragi Kohei Está Surpreendentemente Atormentado

EMBORA A MAIORIA dos japoneses não se preocupe muito com religião, o cristianismo os influenciou fortemente por meio de eventos como o Natal e as comemorações de aniversário. Pode-se dizer que isso foi resultado da fé das pessoas, mas também que veio do marketing inteligente que as atraiu. A recente tendência de celebrar o Halloween pode ser atribuída à mesma influência.

O que estou tentando dizer é que aniversários eram eventos bastante significativos naquela escola. As lojas de conveniência, shoppings e outras instalações do campus tinham quiosques especiais montados só para isso.

Esta história em particular começou uma semana antes de Ibuki e eu ficarmos presos no elevador, quando recebi uma mensagem de Kushida, a queridinha da classe.

A mensagem dizia: "Na próxima quarta é o aniversário da Inogashira-san. Você quer comemorar com a gente?"

Ela havia mandado a mensagem no nosso grupo. Inogashira era uma garota um tanto quieta e simples da Classe D, parecida com Sakura. Ela não tinha muitos amigos, então a ideia parecia ser ajudá-la a fazer alguns. Claro que Ike aceitou o convite imediatamente, por um motivo óbvio: ele gostava de Kushida e queria ficar bem na fita com ela. Provavelmente usaria esse evento como uma oportunidade de se aproximar.

Ele nos mandou mensagem:

"Vocês receberam a mensagem da Kikyou-chan também, né? Vamos comprar uns presentes para Kokoro-chan!"

Yamauchi demorou a responder:

"Então, eu tô sem dinheiro. Só vou receber no mês que vem."

Era isso mesmo — os alunos da Classe D estavam basicamente quebrados. Tínhamos conseguido bons resultados na última prova especial, e certos alunos tinham sido prometidos grandes quantias de pontos privados. Infelizmente, esses pontos só seriam depositados em 1º de setembro. Naquele momento, o incidente do elevador já havia acontecido, então eu tinha gasto muitos pontos com a vidente e estava praticamente sem nada.

Eu terminaria as férias de verão como um homem pobre. Será que eles pretendiam comprar presentes individuais? Se fosse aniversário de um amigo próximo, tudo bem. Mas nenhum de meus amigos era próximo da Inogashira.

— Não seria melhor juntarmos os pontos e comprarmos um presente só? Assim, dá pra comprar algo decente, mesmo que sejam só 500 pontos — propus.

Achei que Yamauchi concordaria, mas sua situação financeira era mais grave do que eu pensava. Ele estava se virando no limite, vivendo praticamente na miséria.

Tínhamos recebido 8.700 pontos privados no início de agosto. Comparado à mesada média de um estudante, era um pouco insatisfatório, mas dava para sobreviver se fosse esperto. Felizmente, a escola oferecia plano de refeições gratuito, e água também era de graça. Então, se fosse bem econômico, dava para passar o mês sem gastar um iene. Ainda assim, a maioria dos estudantes ficava sem dinheiro quando o fim do mês se aproximava, igual no primeiro mês de aula, quando recebemos 100.000 pontos. Se as pessoas têm dinheiro, elas gastam.

No fim, os três concordaram com a minha proposta. Decidimos sair e comprar o presente juntos.

*

 

Sentindo o calor escaldante na pele, limpei o suor da testa.

— Mas… por que a Kikyou-chan não tá aqui?! Hein, Ayanokoji?! Ela é a pessoa mais importante! — gritou Ike.

A primeira coisa que Ike disse quando nos encontramos foi reclamar da ausência de Kushida. Eu queria que ele não esperasse explicações de mim. Eu não era responsável pela agenda de Horikita e Kushida. Talvez Ike achasse fácil despejar tudo em mim, mas eu já estava ficando de saco cheio.

— Tenta se acalmar. Lembra que a Kushida nunca disse que viria com a gente.

Pelo visto, Kushida tinha convidado suas outras amigas para fazer compras, em vez de passar o tempo com um bando de garotos derretendo no calor.

— Eu não aceito isso! Se a Kikyou-chan não tá aqui, não tem sentido nenhum! — Ike gritou.

Aquilo já era demais. Eu queria que ele parasse de tentar sabotar o encontro inteiro.

— Agora tenho que comprar um presente que nem me interessa, na frente de um bando de idiotas! — reclamou Yamauchi.

Eu entendia a vontade de reclamar, mas não era como se eu tivesse vontade de sair com um bando de caras também. Bem, até que eu estava curtindo um pouco. Era a primeira vez que saía com outros garotos durante as férias de verão, tirando as provas especiais. Pessoas normais geralmente fazem coisas como ir às compras ou ao cinema com os amigos.

— É meio patético comprar presente de aniversário só nós três, né? Haruki, deixo o resto com você. Escolhe aí algo que a Kokoro-chan vá gostar — disse Ike.

— Sai fora. Você que quis vir, então você que devia escolher o presente! — retrucou Yamauchi.

Os dois ficaram discutindo até que eu intervi.

— Que tal vocês dois se acalmarem? Vai ser melhor se escolhermos juntos, certo? O Sudou também deixou a parte dele dos pontos com a gente — falei.

— É, isso é verdade, mas não acho que precisa dos três — Ike reclamou.

— A gente já veio até aqui. Vamos logo, compramos o presente e voltamos. Ficar parado nesse calor reclamando só desperdiça tempo e energia, não acham?

— Tá bom, já entendi. Vamos comprar logo e voltar. Ah, que chato isso!

Ao contrário dos dois, eu estava até um pouco animado enquanto íamos para a loja. Passando pelas fileiras de lojas do campus, chegamos a uma loja frequentada por garotas. A balconista era uma mulher mais velha e muito bonita, e o interior era completamente rosa. Objetos frívolos como bichos de pelúcia e acessórios de celular enchiam as prateleiras. Parecia que a loja estava tentando arrancar pontos privados dos estudantes.

— Bom, já que foi a escola que deu os pontos pra gente, não é exatamente prejuízo — murmurei.

— Do que você tá resmungando? Vem ajudar a escolher — disse Ike. Eles deviam ter vergonha. Estavam babando pela balconista e pelas outras garotas na loja, claramente se divertindo.

Nos separamos e começamos a procurar um presente de aniversário. Claro, eu nunca tive intenção de escolher sozinho. Eu não tinha ideia do que comprar.

— Algo que a Inogashira vá gostar, hein? Sinceramente, não faço ideia — murmurei.

Era a primeira vez que eu dava um presente de aniversário a alguém, mas nem sabia se podia contar isso como "minha primeira vez", já que o presente viria dos três. De qualquer forma, eu não tinha experiência nenhuma em comprar presentes. As únicas ideias que me vinham à cabeça eram coisas como um buquê de rosas ou um anel, o que não fazia o menor sentido. Esses nem eram presentes de aniversário; eram coisas usadas para pedir alguém em casamento. Eu queria encontrar algo seguro.

Depois de dar uma volta na loja, reencontrei Yamauchi. Ele segurava um ursinho de pelúcia branco. Eu, por outro lado, tinha uma capinha de celular. Quando Yamauchi viu, fez uma careta.

— Guarda essa capinha. A Kokoro-chan com certeza já tem uma. Além disso, é completamente diferente do estilo dela. Acho que só causaria problema mesmo — ele disse.

— Entendi. Bom, e esse protetor de tela? — mostrei meu plano reserva. Yamauchi fez uma careta ainda mais profunda.

— Não, não e não. Ela não precisa disso. Você realmente não tem noção pra esse tipo de coisa, Ayanokoji.

— Mas esse bicho de pelúcia não vai só ocupar espaço no quarto dela? — perguntei. Não era como se tivesse utilidade.

— É, pode até atrapalhar, mas dá pra usar como decoração. Combina com o quarto dela. A Kokoro-chan gosta da linha do urso branco, então ela deve ficar feliz. E eu não quero ouvir sermão de quem escolheu um protetor de tela — disparou Yamauchi.

Aquilo me pegou de surpresa, mas eu tinha que admitir: ele realmente tinha pesquisado os gostos da aniversariante. Eu tinha dificuldade até para lembrar o nome e o rosto de Inogashira.

— Então… onde o Kanji foi parar?

— Eu me pergunto...

Encontramos Ike parado completamente imóvel na seção de chaveiros. Ele parecia estranhamente sério, então nos aproximamos devagar. Ike segurava algum objeto com um personagem laranja estampado. Também tinha um pano com o ursinho branco que Yamauchi mencionara.

— Ei, Kanji.

— Ah—?! N-Não me assusta assim! Pô! — Ike, atrapalhado, deixou o chaveiro cair. Então, por alguma razão, colocou-o de volta na prateleira imediatamente, como se tentasse escondê-lo.

— Você já decidiu? — perguntou Yamauchi.

— É, pensei em comprar essa toalhinha do urso branco. Hahaha — respondeu Ike.

—N ão é isso. Por que você tava olhando os chaveiros?

— Hã? Não é como se eu tivesse um motivo nem nada. Enfim, deixa eu ver o que tem ali — Ike tentou mudar de assunto. Yamauchi o observou com desconfiança.

— Peraí. Se bem me lembro, a Shinohara não gostava desse personagem laranja?

Eu realmente não esperava ouvir o nome de Shinohara. Ela era uma garota da Classe D. Durante a prova na ilha desabitada, ela tinha brigado com Ike várias vezes.

— Sério? É? Não, eu só tava pensando no que a Kikyou-chan acharia, só isso — Ike blefou. Apesar das palavras, ele claramente estava abalado.

— Espera aí. Você não tá pensando na Shinohara, né? — indagou Yamauchi.

— Hã?! O quê?! Nem ferrando, cara! Aquela garota feia? De jeito nenhum!

Era verdade que, comparada a Kushida, Shinohara podia parecer simples. Mas ela tinha sua própria graça. Sua personalidade era um pouco ríspida, mas isso também podia ser visto como charme.

— Tá de brincadeira? Isso tá muito suspeito. Você não acha, Ayanokoji?

— Bem, definitivamente não pareceu uma reação típica do Ike — respondi. Mesmo que Ike normalmente ficasse animado com qualquer menina, ele parecia desgostar abertamente de Shinohara. Talvez pensasse muito mais nela do que admitia — e não queria reconhecer isso.

— Olha, não entendam errado! — gritou Ike. — A Shinohara não é nada fofa, e ainda é cheia de atitude! Se eu saísse com uma garota assim, eu teria vergonha de mostrar a cara em qualquer lugar!

— Ah.

Yamauchi e eu percebemos outra presença na loja. Tentamos desesperadamente fazer Ike mudar de assunto.

— Claro, claro. A gente entendeu. Tá tudo certo. Vamos escolher logo o presente da Kokoro-chan — apressou Yamauchi.

— Não, vocês não entenderam. Querem saber o quanto eu acho a Shinohara feia? Escutem bem. Não é só a cara dela. A personalidade também é feia, sabia? Sem falar que ela é praticamente um graveto — não tem curva nenhuma. Mesmo entre as feias, ela deve ser a mais feia!

— Tá bom, já entendemos. Para com isso, Kanji! Olha atrás de você!

— Hã?

Ike virou lentamente. Shinohara estava atrás dele, parecendo prestes a cuspir fogo. Olhando pela loja, vi suas amigas — incluindo Kushida — mais ao fundo. Era natural. Provavelmente tinham vindo comprar um presente de aniversário para Inogashira, como nós.

— Morra, Ike!

Com essas palavras ardentes, Shinohara saiu da loja furiosa. Ike ficou parado, sem reação, apenas olhando enquanto ela se afastava.

— O-O que ela quer dizer com "morra"? Essa é boa, vindo de uma feiosa dessas. Né, gente?

Mesmo em choque, Ike tentou fingir que estava no controle. Não podíamos fazer muito além de concordar com a cabeça.

— Olha só, Ayanokoji! O careca tá aqui! — Yamauchi agarrou meu ombro.

Ele claramente queria mudar de assunto. Eu sabia exatamente de quem ele estava falando. Um homem enorme, cuja aparência intimidadora destoava totalmente daquela loja fofa, observava uma prateleira cheia de produtos. Ele estava de costas.

Era Katsuragi da Classe A. Ele andava pela loja com uma expressão extremamente séria.

— Você acha que ele vai roubar?

Duvidava muito. Mesmo assim, me escondi instintivamente, observando ao lado de Ike e Yamauchi. O que me preocupava era outra coisa. Ele usava um uniforme pesado de estudante naquele calor absurdo. Por quê? Katsuragi mantinha a expressão rígida, mas olhava ao redor como se estivesse inquieto. De fato, tinha o jeito de alguém pensando em roubar.

Peguei o celular sem pensar. Se eu pegasse Katsuragi no flagra, isso poderia ser útil mais tarde… Não. Rejeitei a ideia imediatamente.

— Por que eu pensaria algo assim? — murmurei para mim mesmo.

— Hã? O que você disse, Ayanokoji?

— Nada.

Se Katsuragi resolvesse roubar algo, isso não tinha nada a ver comigo.

— O que será que o careca tá pegando ali?!

Yamauchi e Ike estavam ansiosos, como se fossem policiais disfarçados esperando flagrar um crime. No entanto, Katsuragi devolveu a caixa fina para a prateleira. Pegou outro item parecido, repetindo o mesmo movimento. Não parecia que queria roubar. Na verdade, parecia apenas indeciso sobre o que comprar. Ike percebeu e ficou confuso.

— Talvez ele não queira que as pessoas vejam o que está comprando — sugeriu Ike.

— É, provavelmente.

Então, Katsuragi tinha vindo ali para comprar um presente para alguém. Ele parecia perto de tomar uma decisão. Por fim, pegou uma caixa e seguiu para o caixa, andando com cautela, como se não quisesse que ninguém ao redor soubesse.

Ike e Yamauchi correram até onde Katsuragi havia escolhido o presente. As caixas pareciam placas finas. Eles pegaram uma, viraram e olharam as informações do produto.

— Isto é… chocolate.

Ike e Yamauchi tremeram, como se algo tivesse incendiado o ânimo deles.

— Espera, não me diga que o careca já tem namorada?!

— Sério?! Então esse é o poder da Classe A?!

Eles tremiam de inveja por algo tão trivial.

— Pode ser só um presente pra um amigo, né?

— Quem dá um presente com um embrulho tão fofo pra um amigo?! Você daria?! Não daria!

— Acho que não…

Realmente, era difícil imaginar dar uma caixinha fofa, decorada com fitas, para um amigo. E certamente não para alguém do mesmo sexo. Tinha que ser para alguma garota íntima de Katsuragi. Isso sugeria que ele provavelmente tinha mesmo uma parceira.

Ike e Yamauchi olharam novamente para Katsuragi enquanto se escondiam atrás das prateleiras, coletando informações.

— É um presente de aniversário para alguém? — perguntou a balconista.

— Sim.

— Gostaria de incluir um cartão de aniversário?

— Por favor. O aniversário é dia 29 de agosto.

Katsuragi respondia às perguntas calmamente. Para quem seria aquele presente? Ike e Yamauchi começaram a cochichar.

— Você ouviu isso? Que garota faz aniversário no dia vinte e nove?

— Eu não faço ideia. Hoje é domingo, dia vinte e um, então… o aniversário seria segunda da semana que vem, né? Você sabe quem pode ser, Ayanokoji?

— Nenhuma pista.

Se aqueles dois não sabiam, não tinha chance de eu saber.

*

 

— Ei. Eu já perguntei isso antes, mas por que exatamente estamos no meu quarto? — indaguei.

Por algum motivo, parte do nosso grupo habitual tinha se reunido no meu quarto após o jantar. Ike e Yamauchi estavam lá, como combinado. Kushida veio também, e Sudou apareceu depois de terminar as atividades do clube. Se Horikita estivesse ali, seria o grupo completo.

— Iiih, Kikyou-chan, você sabe os aniversários das outras garotas? — perguntou Ike.

— Sei. Acho que memorizei mais ou menos os aniversários de todo mundo que me contou. De quem vocês querem saber? — respondeu Kushida.

— Então… talvez nem seja alguém da Classe D — acrescentou Ike.

— Se for alguém do segundo ou terceiro ano, eu não sei a maioria. Mas se for do primeiro ano, provavelmente sei — disse Kushida, exatamente como eu esperava.

— Quais garotas fazem aniversário no dia vinte e nove deste mês? — perguntou Ike.

— Uma garota que faz aniversário no dia vinte e nove? Me dá um minuto — disse Kushida.

Ela pegou o celular e abriu o que parecia ser uma lista de aniversários. Depois de rolar por um tempo, ergueu o olhar.

— Desculpa, mas não parece ter ninguém que eu conheça fazendo aniversário nesse dia.

— Aposto que é uma garota da Classe A.

— Da Classe A? Hmm… Eu sei o aniversário de todas elas.

Mas parecia que havia exatamente uma garota cujo aniversário ela não sabia — e era justamente depois de amanhã.

— Se for do primeiro ano, eu deveria conhecer todas, mas não consigo pensar em ninguém que se encaixe — murmurou Kushida. Se nem a extensa rede de contatos dela produzia um nome, provavelmente significava que a garota era de outra série.

— Então quer dizer que deve ser uma veterana? — resmungou Ike, se jogando de costas na cama em derrota.

— O que tem a garota que faz aniversário no dia vinte e nove? — perguntou Kushida.

Ike respondeu com naturalidade:

— Escuta isso! Sabe o careca da Classe A, o Katsuragi?

— Sei. O Katsuragi-kun é famoso. Ele é o líder da classe. Eu fiquei no mesmo grupo que ele durante a prova no navio — explicou Kushida.

— Então, esse careca vai dar um presente de aniversário no dia vinte e nove. Mesmo sendo careca!

Ike continuou repetindo "careca", o que fez Kushida adverti-lo:

— O Katsuragi-kun perdeu todo o cabelo quando era pequeno, por causa de uma doença. Você não deveria zombar dele.

— Ah…

Repreendido, Ike ficou em silêncio. Ele sabia muito bem que fazer piada da doença de alguém era vergonhoso. E fazer isso só pra arrancar risada piorava ainda mais.

— Então, a partir de agora, você vai se referir a ele direito, certo?

— C-Claro. Desculpa, Kikyou-chan.

— Tudo bem, desde que tenha entendido. — Ela fez uma curta pausa. — Aliás, sobre o que aconteceu hoje com a Shinohara-san…

— Ah…

Ike aparentemente tinha esquecido do incidente, mas Kushida não.

— Você sabe o que deve fazer, certo? — ela perguntou gentilmente, sem tocar diretamente no assunto.

— Eu vou pedir desculpas — respondeu Ike, contrariado. Parecia insatisfeito, mas sincero. Ele lançou um olhar feio para Yamauchi, que estava rindo.

— Ótimo. Se fizer isso, acho que a Shinohara-san vai te perdoar.

Talvez Ike tivesse amadurecido um pouco, graças à Kushida.

— Então, vocês estavam dizendo que o Katsuragi-kun vai dar um presente de aniversário para alguém? — perguntou ela.

— Ah, sim, sim! Eu queria saber se você sabia de algo sobre isso, Kikyou-chan.

Kushida pareceu vasculhar mentalmente sua rede de contatos, mas não encontrou nada.

— Hmm. Eu nunca tive a impressão de que o Katsuragi-kun fosse do tipo romântico — ela disse .— Pelo menos, não antes.

— Será que o presente é para uma veterana?

— Pode ser. Ainda falta muita gente que eu não conheço.

Seria impressionante se Katsuragi já estivesse namorando uma veterana tão pouco tempo depois de entrar na escola. Eu realmente admirava o líder da Classe A. Mas será que deveríamos mesmo estar reduzindo as possibilidades tão cedo? Nós já tínhamos praticamente decidido que ele tinha uma namorada.

— Já que chegamos a esse ponto, vamos encontrar a namorada do Katsuragi a qualquer custo! — instou Ike.

Senti-me mal por interromper o entusiasmo deles, mas achei que devia apontar outra possibilidade.

— Será que podemos mesmo concluir que o Katsuragi estava comprando presente para uma veterana? — perguntei.

— A Kikyou-chan disse que não conhece ninguém com aniversário no dia vinte e nove, então não há muitas opções, né? Ou estou perdendo alguma coisa? Não pode ser a Horikita, né?

Era uma suposição totalmente sem base, mas eu não podia excluir a possibilidade.

— Bom, acho que isso é possível.

— Hã? Ah qual, você tá de sacanagem, né? — Sudou, que vinha escutando quieto, de repente agarrou Ike pelo colarinho e me encarou.

— Guh! Que isso. Eu só disse possivelmente! — gritou Ike, em pânico.

— Ei, Ayanokoji. Quando é o aniversário da Suzune? — Sudou rosnou.

— Não sei — respondi.

— Que merda, cara? Você é inútil — retrucou ele.

Eu ainda não sabia quando era o aniversário da Horikita.

— Eu realmente não acho que alguém da nossa escola saiba — acrescentei. A única pessoa que poderia saber seria o irmão mais velho dela, Horikita Manabu, presidente do conselho estudantil.

— Entendi. Tá, você tem um ponto. Só porque eu não sei, e o Ayanokoji também não sabe, não quer dizer que ele saiba, né — Sudou deu de ombros.

— Eu sei o aniversário da Horikita-san. É 15 de fevereiro. Não acho que isso tenha relação com isso aqui — anunciou Kushida.

— Exatamente como esperávamos, Kushida — elogiei sem pensar.

Elogiei-a sem querer. Não esperava que nem mesmo Kushida conseguisse informações sobre solitárias teimosas como Horikita e Ibuki, especialmente Horikita. Eu era um dos poucos que sabia que Kushida odiava Horikita, e que Horikita odiava Kushida.

Não pensei que elas estivessem tão bem a ponto de trocarem aniversários.

— 15 de fevereiro, hein? Parece que peguei uma informação valiosa — Sudou riu, exibindo um sorriso largo. Ike, ainda preso no estrangulamento, tentou desistir enquanto o rosto ficava azul. — Ah, desculpa. Minha mão escapou. Quase esqueci de você.

— Ken, tem que tomar mais cuidado. Você é forte demais! — gemeu Ike, arfando.

— Você pediu — respondeu Sudou.

— Então devia ter feito isso com o Ayanokoji também! Por que só comigo?!

— Porque você tava mais perto.

— Seu organismo unicelular!

— Hã?

Sudou foi agarrar Ike de novo pelo colarinho, e Ike entrou em pânico e se afastou. Eu queria que eles não fizessem bagunça no quarto de outra pessoa. Ou, pelo menos, não no meu quarto.

— Bom, a conversa meio que desviou, mas eu tenho outra ideia. Também existem outras potenciais destinatárias do presente do Katsuragi. Pode ser para uma professora, ou para alguma funcionária do Keyaki Mall. Quer dizer, as pessoas que vimos enquanto fazíamos compras hoje eram todas bonitas, né? — disse eu.

— É… Quando você coloca desse jeito, faz sentido.

Quem sabe se um adulto consideraria namorar uma caloura? Do ponto de vista legal e moral, praticamente não haveria como. Eu tinha certeza de que Katsuragi sabia disso também. Porém, não podíamos excluir a possibilidade. Tínhamos que tomar cuidado para não decidir arbitrariamente que era uma veterana.

Queria que Ike e Sudou entendessem que talvez fosse melhor deixar pra lá.

— Que tal a gente parar por aqui e não se empolgar demais procurando quem é a parceira do Katsuragi, certo? — propus.

— Você tá falando sério?! Mesmo se esse careca tiver uma namorada com peito enorme, que é louca por ele, e ainda por cima for mais velha?! — Ike protestou.

— Quero dizer, ele é da Classe A. Não seria estranho se ele fosse popular entre garotas mais velhas — respondi. E se ele tivesse essa namorada idealizada, eu não desejaria nada de ruim por causa disso.

Nós, por outro lado, éramos da Classe D. Só ser um pouco atraente ou ter uma boa personalidade não era suficiente para nos tornar populares. Dito isso, Hirata era popular tanto na nossa classe quanto entre veteranos. Koenji também parecia ter certa popularidade.

No fim das contas, a única coisa que eu tinha em comum com Ike e os outros era que não éramos exatamente populares.

— Odeio a ideia do Katsuragi me vencer! — resmungou Ike.

— Olha, não tem muito o que fazer, né?

— Isso não é verdade! Só porque a gente provavelmente vai perder não significa que não temos chance! — Sudou gritou.

Ele nos fitou, batendo a palma na coxa, que estava com bermuda.

— No basquete, você usa jogadas que são quase permitidas. Pode até cometer falta, se for necessário pra ganhar. O que importa mesmo é o desejo ardente pela vitória. Se o Katsuragi dar um presente para alguma garota e isso os aproximar, então temos que impedi-lo — explicou Sudou.

Era um argumento excessivo. Em uma competição atlética, a lógica dele poderia fazer sentido, mas o que ele dizia ali não vinha de ciúme racional. Não era bom, embora Sudou parecesse ferozmente motivado.

— A propósito, teu torneio tá chegando — disse Yamauchi a Sudou.

— É, é quinta-feira. Não sei se vou entrar no jogo, mas vou estar pronto, com certeza — respondeu Sudou. Smash! Ele bateu o punho direito na palma esquerda aberta.

— Certo, é isso! Eu vou atrapalhar ele! — Ike entrou no plano de Sudou de interferir com Katsuragi.

— Kushida, por favor, diga algo pra ele — pedi.

— Kanji-kun, você não pode interferir — ela disse.

— Hã? Mas… Kikyou-chan, você também quer saber quem é a namorada do Katsuragi, né?

— Claro que eu tenho curiosidade, mas atrapalhar não é aceitável — respondeu ela.

Assim, Kushida apagou o entusiasmo de Ike como quem apaga um fósforo. Ike pareceu desapontado. Virou-se para mim, talvez descontente porque Kushida rejeitara seu plano de atrapalhar, ou lembrando-se do que aconteceu com Shinohara antes.

— Certo. Você, então, Ayanokoji. Descobre a identidade da pessoa misteriosa. Descobre para quem o Katsuragi está dando o presente.

— Impossível.

— Você tem que fazer isso. Quer dizer, você tem tempo livre, né? — insistiu Ike.

Eu não podia negar, mas preferia que Ike investigasse isso ele mesmo.

— Ok, certo, vocês querem que eu descubra quem é essa pessoa. Mas eu nem estou na mesma classe que o Katsuragi, e também não somos amigos — respondi.

Tentar investigar alguém cujo nome eu nem conhecia, muito menos obter contato ou número do quarto, seria um trabalho hercúleo.

— Eu tenho o contato do Katsuragi-kun. Quer que eu te passe? — perguntou Kushida.

……………

Não era estranho ela ter o número dele. Kushida era uma garota bonita com uma rede social enorme. Ela até conhecia o aniversário da Horikita, afinal.

— Como você conseguiu o número do Katsuragi? — perguntei.

— Nós ficamos no mesmo grupo na prova especial passada, lembra? Eu pedi pra ele. — Trocar contatos assim, casualmente, era algo realmente impressionante. — Então, quer que eu te diga?

— Não, tudo bem. Se eu entrar em contato do nada, até o Katsuragi ficaria surpreso — respondi. Ele talvez até ignorasse uma chamada de um número desconhecido.

— Você me impediu de atrapalhar os planos do Katsuragi, então tem que assumir a responsabilidade — disse Ike.

— Certo, mas mesmo que eu tenha que assumir…

— Também tô curioso. Você tem que investigar — acrescentou Sudou, dando uma ordem totalmente autoritária.

— Não acham que vocês mesmos deviam fazer isso? — questionei.

— Hã? Meu torneio é na quinta. Não tenho tempo livre até lá. Só restam alguns dias de treino, sabia? — Sudou me lançou um olhar ameaçador quando fiquei em silêncio. — Quer que eu te force?

Ele girou os braços, como se estivesse se preparando para me pegar no mata-leão. Se decidisse isso, eu não teria como escapar.

— Ok, entendido. Vou investigar um pouco amanhã. Só não esperem muito. Não faço ideia de como isso vai sair — respondi.

Por enquanto, era melhor só aceitar e seguir o fluxo. Mais tarde eu poderia simplesmente dizer que não descobri nada, e estaria resolvido.

*

 

— Tá tão quente. Tão quente que eu acho que vou morrer…

No dia seguinte, parei no cruzamento que ligava os caminhos para os diversos dormitórios, escolhendo uma sombra sob as árvores que ladeavam a estrada. O cruzamento era inevitável se eu quisesse encontrar um veterano. Também cruzava o caminho para o Keyaki Mall e para o prédio da escola. Não importava para onde Katsuragi fosse — eu o veria.

Seria melhor esperar no saguão fresco, mas infelizmente algumas garotas de outra classe tinham escolhido justamente aquele local para tomar chá. Descobrir isso foi como entrar num restaurante e ver que não restava nenhuma mesa. Eu não tinha confiança suficiente para entrar, esperar vagando, e sentar quando abrisse vaga.

Claro, todos os estudantes estavam vestidos casualmente. Isso me fez lembrar do Katsuragi ontem, usando uniforme. Não havia nenhuma regra proibindo usar uniforme nas férias de verão, mas mesmo sem se importar com moda, os uniformes ficavam absurdamente quentes. Katsuragi ainda usava a camisa de manga comprida, e não a versão de verão.

Como eu geralmente tinha poucos pontos, só descobri recentemente que roupas de verão eram vendidas por preços bem altos. Algumas garotas da nossa classe queriam comprá-las, mas tinham que se virar sem. Certamente havia razões para alguém preferir usar o uniforme — e não só gente como Katsuragi, embora ele fosse o primeiro que vinha à mente. Na verdade, muitos outros pareciam preferi-lo também.

Um casal saiu do dormitório dos veteranos — um garoto e uma garota. Quando me viram, mudaram de direção e caminharam até mim.

— Ei. Faz tempo.

— Estava me perguntando quem teria coragem de usar uniforme nesse calor absurdo. Acho que a resposta é o irmão da Horikita — murmurei.

Diferente de Katsuragi, os dois vestiam os uniformes de verão. Mesmo assim, havia algo estranho na cena.

— Uau. Presidente, esse estudante tem uma cara bem azeda — disse a garota ao lado do presidente do conselho estudantil, Horikita Manabu, em tom exagerado. Era Tachibana, a secretária do terceiro ano.

O uniforme feminino parecia não esquentar tanto quanto o masculino.

— O conselho estudantil parece bem ocupado, mesmo nas férias — comentei. Tachibana segurava um caderno. Por um momento, quase tive a impressão de que o segundo semestre já tinha começado.

— Decidimos reorganizar a sala do conselho estudantil — explicou Tachibana.

— Entendi.

— Nossa, que resposta mais sem graça. Você devia tomar cuidado com o que diz, sabia? Você sabe com quem está falando? Este é o temível presidente do conselho estudantil!

Sim, eu sabia. E também sabia que Horikita Manabu provavelmente exercia um grau enorme de influência. Considerei usar um tom mais respeitoso, mas descartei a ideia. Ele não parecia esperar isso de mim.

Enquanto isso, Tachibana era bem diferente do que eu imaginava. Achei que fosse séria, mas ela era até bem leve e descontraída.

— Quer me punir? Porque estou com bem poucos pontos — retruquei, dando de ombros.

Eu imaginei que o irmão da Horikita nem perderia tempo comigo. Porém, o presidente semicerrrou os olhos e disse:

— Ayanokoji, se você não tiver nenhum compromisso agora, gostaria que me acompanhasse.

— P-Presidente? — Tachibana se surpreendeu com o convite. Eu também. Mas…

— Minha agenda está cheia. Desculpe.

— Hã?! Você recusou ele?! — Tachibana parecia completamente atônita.

— Podemos marcar para quando estiver livre. Não me importo em ajustar a data, mesmo que seja depois do início do semestre — disse Horikita.

Aparentemente, ele não pretendia desistir. Evitar a questão não ia ajudar. Não queria perder tempo depois, então talvez fosse melhor resolver logo.

— Certo. Vamos fazer isso agora. Eu tenho tempo antes do meu próximo compromisso — respondi.

— Mas você não disse que sua agenda estava cheia? — Tachibana questionou, incrédula. Eu a ignorei.

— Para onde você estava indo? Não me importo de ajustar minha agenda para acompanhar a sua — disse Horikita.

— Hã… eu estava esperando por alguém. Se possível, preferia não me mover.

— Mas não está muito quente aqui? Esse lugar definitivamente não é adequado para uma conversa.

— Sei muito bem disso.

Não me importava sofrer um pouco. Se me permitem puxar um pouco o saco, achei até meio badass.

— Bem, acho que podemos conversar aqui mesmo. Se você se sentir desconfortável, pode voltar para o dormitório antes de mim — disse o presidente a Tachibana.

— Não. Meu instinto diz para não deixá-lo sozinho com esse garoto, Presidente! — Tachibana o saudou como se fosse sua guarda-costas.

O Irmão Horikita voltou-se para mim.

— O conselho estudantil recebeu os relatórios dos resultados do teste na ilha e do teste no navio. Foram difíceis? — perguntou.

— O conselho estudantil realmente tem muita influência, hein? Quero dizer, pensar que vocês conseguiriam obter esses resultados — respondi.

— Bem, não sei o quão detalhados são os relatórios. As ações individuais durante os testes continuam obscuras.

— Fico aliviado.

— Você está aliviado que o presidente não descobriu sua falha, aposto — murmurou Tachibana.

A Secretária Tachibana realmente não parecia gostar de mim. Talvez isso fosse compreensível, dado o tom com que eu havia respondido ao presidente do conselho.

— De qualquer forma, alguma informação sempre acaba vazando. Sei que vocês superaram as outras turmas na ilha, e que o VIP do Grupo Coelho da Classe D conseguiu evitar a detecção — disse o presidente Horikita.

Ele tinha dito que as coisas eram obscuras, mas parecia saber bem mais. Suspeitei de conivência.

Horikita continuou: — O nome Horikita Suzune apareceu depois do teste na ilha. Ouvi dizer que ela virou a verdadeira líder da turma e enganou todo mundo. Contudo, creio que você foi o responsável.

— Não estará me superestimando? — murmurei.

— No fim, o nome do líder foi trocado pelo seu. Como explica isso?

— Você soube até disso?

— O comitê dos exames especiais e eu somos os únicos que sabem disso. Bem, e agora a Secretária Tachibana. Os professores responsáveis pela turma não têm essa informação, então pode ficar tranquilo.

Quanta autoridade esse cara tinha? Organizações estudantis normalmente eram decorativas. Não tinham poder real. Que tivessem acesso a informações que os professores não tinham? Impensável.

— O que exatamente é o conselho estudantil? — perguntei.

— O conselho em si não tem poder. O que importa é a habilidade de quem está no topo.

— Uau, que declaração impressionante. Você realmente é da Classe A, não é?

— Isso não é óbvio?! — retrucou Tachibana.

— Mas tem algo que ainda não entendo. A diferença entre a Horikita e eu é enorme. Se você examinar os dados, a Horikita é muito superior. Por que se dar ao trabalho com um perdedor da Classe D como eu?

— Você está enganado. Não considero os alunos da Classe D estúpidos. Esta escola não joga todos os alunos com habilidades superiores na Classe A — respondeu ele.

— Presidente? Acho que o senhor falou demais — disse Tachibana. — Não está passando dos limites?

— Não há problema. Tenho certeza de que esse jovem já entende isso.

Desde nosso primeiro encontro, o presidente do conselho parecia excessivamente focado em mim. Até quando ele pretendia continuar assim?

— Nesse caso, por que rejeita a Horikita? Não é por ela ser da Classe D? — perguntei.

— Conheço tudo sobre as capacidades da minha irmã. Ela é uma fracassada que pertence à Classe D. Nada mais, nada menos — retrucou.

Ele claramente via a irmã com uma avaliação duríssima.

— Tudo foi ideia da Horikita. Sua irmã não tem amigos além de mim, então ela teve que me contratar para desempenhar os papéis necessários — respondi.

— Isso não é verdade. Ela nunca pensaria em algo assim.

Parecia que ele compreendia perfeitamente a Horikita, talvez porque cresceram juntos. Ainda assim, entendi algo: esse sujeito provavelmente me observava pelo mesmo motivo que a professora Chabashira.

Se o presidente havia notado que tirei exatamente 50% em todas as provas de ingresso, talvez também tivesse percebido a diferença entre meu currículo e meu relatório estudantil.

— Pare de pescar informações sobre minha vida pessoal. Eu só quero passar meus dias aqui em paz — disse.

Em resposta, o presidente do conselho ajeitou os óculos e falou algo surpreendente.

— Já lhe perguntei antes. Você se juntaria ao conselho estudantil? — Os olhos de Tachibana se arregalaram, chocados.

— Uau, isso parece super fácil. O quê, ainda há cargos vagos? — perguntei.

— P-Presidente? — Tachibana gaguejou. — Não acabamos de aceitar uma aluna do primeiro ano no conselho há pouco tempo? Também tivemos novas nomeações das turmas do segundo ano. Todas as vagas deveriam estar preenchidas.

— Ainda sobra uma posição, não é? — ele perguntou.

— Uma? V-Voocê não pode querer dizer—?!

— Ayanokoji, se desejar, eu o nomearei vice-presidente — disse o presidente.

— E-Espere um minuto! — Tachibana pareceu recuperar a compostura num instante. Interessante pessoa. — Isso é completamente sem precedentes! Ele é calouro e ainda por cima da Classe D! Não podemos simplesmente nomear esse garoto rude vice-presidente!

— Já disse, recuso qualquer cargo — disse eu.

— E além disso, ele ainda recusa! — Tachibana lamentou.

Tudo aquilo era estranho. Não conseguia imaginar o presidente brincando; sua avaliação parecia sincera. Horikita Manabu realmente tinha acesso a informações, e eu podia entender por que escolheria a mim em vez de pessoas como Katsuragi e Ichinose (sem ofensas aos rapazes). Mas ele deveria ter começado com candidatos mais óbvios, como Katsuragi, Ichinose, Hirata ou até Koenji, que também parecia ter habilidades latentes fortes.

O presidente não tinha motivo para se fixar em mim. Havia que haver uma razão.

— Não sei se me cabe dizer isso, mas a partir do ano que vem a escola mudará drasticamente. Não para melhor. Quando chegar a hora, precisarei de poder para combater essa mudança. Pode já ser tarde. A necessidade cresce a cada dia.

— Presidente, o senhor está falando sobre o que vai acontecer quando o Nagumo-kun for eleito presidente, certo? Não consigo imaginar que ele mudaria a escola tanto assim para pior — disse Tachibana.

Eu nunca tinha ouvido o nome "Nagumo" entre os alunos do primeiro ano. Se o presidente dizia que a mudança viria no ano seguinte, Nagumo provavelmente era do segundo ano.

— Podem existir dois vice-presidentes do conselho estudantil. Normalmente só há um por ano, mas se você quiser o cargo, não seria impossível — ele disse.

— N-Não, não não não, Presidente! Isso é impossível…! O Nagumo-kun jamais permitiria algo assim! — protestou Tachibana.

— Olha, não sei nada sobre vice-presidentes, ou esse tal de Nagumo, ou seja lá o quê. Não vou aceitar. E além disso, o senhor vai se formar, não vai? Não precisa se preocupar com os alunos que vão ficar. Ou precisa? — pausei por um momento, usando o silêncio para destacar o que viria a seguir. — Enfim, se quer minha ajuda por estar preocupado com sua irmã, talvez eu consiga te encaixar para uma consultoria.

— Entendo.

Horikita Manabu pareceu desistir de mim.

— Desculpe por tomar seu tempo. Sinta-se à vontade para passar na sala do conselho estudantil quando quiser. Ficarei feliz em oferecer chá — ele disse.

Mesmo alguém como o presidente parecia estar lutando com preocupações. Eu queria voltar para o dormitório, mas não podia. Precisava esperar pelo Katsuragi.

*

 

Trinta minutos depois da conversa com o irmão da Horikita, observei Katsuragi se aproximar. Ele usava a mesma roupa de ontem e carregava uma sacola de compras. Talvez tivesse o presente dentro.

O que será que está acontecendo?

Ainda faltava algum tempo para o dia vinte e nove. Mas se Katsuragi já estava levando o presente com ele agora, provavelmente pretendia entregá-lo imediatamente. Certo?

Além disso, eu ainda queria entender por que ele estava usando uniforme. Talvez planejasse encontrar essa pessoa de forma mais formal, mas era difícil imaginar alguém passando por algo tão importante no calor usando uniforme. Prendi a respiração quando ele chegou ao cruzamento.

Ele não tomou o caminho para o dormitório dos veteranos. Inacreditavelmente, seguiu numa direção que eu não esperava: em direção à escola. Segui atrás, tomando cuidado para não ser visto.

— Então é por isso que ele está de uniforme, hein?

Finalmente entendi. Ele não estava usando porque gostava: era para entrar no prédio da escola. Katsuragi passou direto pela entrada principal, e eu não podia simplesmente segui-lo. Entrar usando roupas casuais era proibido.

"Você encontrou o Katsuragi?!"

Meu celular vibrou com uma mensagem impensada no chat, enviada com certeza por alguém no quarto. Ignorei e guardei o celular, mudando minha estratégia.

Fui até a loja onde Katsuragi tinha comprado o presente no Keyaki Mall. Curioso sobre o que havia nas outras lojas, entrei primeiro numa voltada para meninas, mas não consegui entender as diferenças entre os produtos. Acabei voltando para a loja onde Katsuragi estivera. Fiquei diante das pilhas de caixas de chocolate e tentei imaginá-lo comprando aquilo para um homem — não parecia provável. As caixas tinham corações e enfeites claramente voltados para garotas.

— Hahaha! Pois é!

Algumas estudantes barulhentas passaram atrás de mim. Senti um empurrão leve nas costas.

— Oof.

Reflexivamente, meu cotovelo esbarrou nas pilhas de caixas. Os chocolates desabaram numa avalanche. As garotas, ocupadas na própria conversa, sequer notaram o desastre. Continuaram andando.

— Puxa… — murmurei. Seria pedir demais que me notassem um pouco?

— O que você está fazendo?

— Geh!

Enquanto eu tentava desesperadamente recolocar as caixas na prateleira, uma voz grave me chamou. Era Katsuragi. Ele parecia extremamente confuso.

— Eu vim aqui comprar… um presente de aniversário — gaguejei.

Foi a única resposta que consegui inventar. Katsuragi olhou para as caixas caídas, depois se abaixou para pegá-las.

— Ah, tudo bem. Eu cuido disso — falei.

— Não se preocupe. Acho que essa bagunça pode deixar os clientes desconfortáveis. É melhor limparmos rápido. Duas pessoas fazem isso mais rápido que uma.

Não havia nem um traço de desagrado na voz dele. Eu provavelmente tinha passado uns trinta minutos no shopping. Seria possível que Katsuragi tivesse terminado seus assuntos na escola tão rapidamente? Mesmo assim, ele ainda segurava a sacola com o presente. Espiei discretamente e vi uma caixa fina embrulhada. O presente. Ele ainda não o entregara.

Terminamos de arrumar tudo antes que percebêssemos. Felizmente, nem os funcionários nem os clientes notaram.

— Obrigado.

Katsuragi era um cara legal. Mesmo na ilha desabitada, ele mostrou boa vontade quando encontramos o milho. Eu não esperaria misericórdia dele numa situação extrema, mas ele não parecia alguém ruim.

— Você vai dar um presente para sua namorada? — ele perguntou.

— Hã? Ah, não, eu não tenho namorada. O presente é só para uma colega. Acho que vou comprar algo da próxima vez — respondi.

Afastei-me das prateleiras. Katsuragi, quase sincronizado comigo, também deu um passo para trás. Decidi tentar pescar mais informações.

— Você está comprando um presente de aniversário? — perguntei.

— Hmm? Por que acha isso?

— Você está com uma sacola dessa loja — respondi.

— Entendo. Bem, sim, você acertou. Acho que nem percebi isso — murmurou Katsuragi.

Olhei nos olhos dele.

— Não consegui encontrar o que queria. A seleção não é grande. O que você comprou? — perguntei.

— Nada demais. Uma das caixas de chocolate. Não acho que a seleção desta loja seja ruim, mas acho que depende do gosto pessoal. Eu deveria dar uma olhada em outros lugares — respondeu ele.

Katsuragi caminhou em direção à porta, e eu o segui. Saímos juntos antes que eu conseguisse perguntar para quem era o presente.

— Por que você está usando uniforme? — perguntei. Eu não teria tocado no assunto ontem, mas ele já estava no segundo dia seguido com aquilo.

— Você é obrigado a usar uniforme para entrar na escola — respondeu.

— Então você foi até a escola? — Claro que eu já sabia. O que eu queria mesmo era perguntar para quem ele daria o presente. Achei que seria fácil descobrir, mas infelizmente as coisas não estavam indo como eu esperava.

— Bem, tenho vários assuntos pessoais para resolver — disse ele.

Apesar da resposta vaga, Katsuragi parecia ter algo na cabeça. Olhou rapidamente na direção da escola.

— Ei, já pensou nas desvantagens de estudar aqui? — perguntou.

— Desvantagens?

— Sim. Não estou falando da divisão entre classes. Quero dizer algo que afeta todos os alunos igualmente.

Pensei na pergunta misteriosa. O sistema de classes tinha suas desvantagens, claro, mas isso afetava mais as classes inferiores — como a nossa Classe D e a atual falta de pontos. Era difícil imaginar a Classe A enfrentando algo assim.

Como Katsuragi dizia que era algo que afetava todos igualmente, não devia ser isso. Mas então, do que ele estava falando? Nada me vinha à mente.

— Sabe… a regra de não poder ter contato com o mundo exterior — explicou.

— Ah, entendi.

Pessoalmente, eu considerava isso uma vantagem, mas para uma pessoa normal provavelmente era ruim.

— Você não quer falar com seus pais ou irmãos?

— Eh. Bom, acho que muitos alunos concordariam com você — respondi.

Algumas garotas, especialmente, diziam se sentir solitárias. A escola controlava rigidamente o fluxo de informações, então a comunicação externa era proibida. Quebrar essa regra podia significar expulsão.

— Mas os benefícios que a escola oferece são enormes. Essa desvantagem não é suficiente para deixar você insatisfeito, certo? — perguntei.

— Verdade. O sistema de pontos e a qualidade das instalações são coisas com que estudantes comuns só sonham — respondeu.

Além disso, Katsuragi se formaria na Classe A. Por que eu estava conversando casualmente assim com ele? E no meio das férias de verão?

— Você é próximo da Horikita, não é? — ele perguntou.

— Essa ideia está se espalhando ou o quê? — retruquei.

— Ideia errada? Eu vi vocês trabalhando juntos antes.

— Bem, é uma daquelas coisas. Não é como se nenhum de nós tivesse escolhido isso, mas fomos meio que forçados a trabalhar juntos. Só conversamos porque sentamos lado a lado — expliquei.

Katsuragi pareceu entender. Ele assentiu.

— Ah, então é assim. Bom, apesar de parecer que sei muito sobre as outras classes, há muita coisa que eu não sei. Se te ofendi, me desculpe. Não tive intenção alguma — disse.

— Relaxa, escuto isso o tempo todo. Não se preocupe. A Horikita é bem ativa e faz muita coisa — respondi.

— Realmente parece — concordou ele, mudando de assunto. — Para falar a verdade, esta é a terceira vez que venho a esta loja. Eu sou do tipo que agoniza com as coisas. Mesmo que seja só um presente, não consigo decidir rápido quando envolve os sentimentos de alguém.

Alguém por quem ele agonizava tanto? Quem poderia ser? Tentei cavar um pouco mais.

— Você é bem sincero. Digo, sair para comprar um presente de aniversário para alguém — comentei.

— É estranho celebrar o aniversário de alguém?

Olhando para aquela enorme cabeça brilhante na minha frente, a aparência rígida dele entrava em conflito com suas ações gentis. Mas isso era só meu preconceito. Existem até delinquentes que salvam gatinhos na chuva.

— Certo, vou perguntar direto. Para quem é o presente? — perguntei.

Ficar rodeando não levaria a nada.

— Para quem vou dar? — Ele parecia genuinamente confuso. — É pessoal. Não é algo que você deva ouvir.

Ele driblou a pergunta. Se fôssemos melhores amigos, eu poderia insistir, mas do jeito que era, não tinha muito o que fazer.

— Com licença — disse ele.

E assim, Katsuragi voltou em direção ao dormitório.

Eu tinha resolvido o mistério do uniforme, mas vários outros surgiram. Por que ele foi ao prédio da escola? Por que voltou à loja? Eu não tinha a menor ideia.

*

 

— Ei, Ike. Investiguei o caso Katsuragi.

— Uou, sério? Caramba, mandou bem, Ayanokoji! Agora vejo você com outros olhos!

Ike me deu um tapa no ombro enquanto me elogiava. Será que eu tinha feito algo digno de mudar a opinião dele? Talvez ele nunca tivesse pensado grande coisa de mim para começo de conversa.

— Infelizmente, não consegui descobrir para quem era o presente — expliquei.

Para ser mais preciso, eu não havia encontrado nenhuma garota que se encaixasse. Como eu disse antes, ninguém do nosso ano fazia aniversário naquele dia. Também não me lembrava de nenhuma aluna de outros anos com aniversário em vinte e nove. Portanto, a pessoa poderia não ser aluna.

Yamauchi arregalou os olhos.

— Ah, não… Já sei o que está acontecendo. Sei exatamente para quem o Katsuragi quer dar aquele presente.

Mas, em vez de empolgado, ele parecia abatido.

— Ei, Kanji. Você não achava que o Dia dos Namorados era um inferno, lá no fundamental? — perguntou Yamauchi.

— Q-Que diabos você tá me perguntando? Bom… sim. Era difícil, claro. Por quê? — respondeu Ike.

— Acho que isso aqui é praticamente uma extensão daquilo. Acho que ele comprou o presente para si mesmo — disse Yamauchi.

— Ah, não… n-não, pera, até que faz sentido. Não consigo imaginar aquele careca sendo popular…

Os dois pareciam convencidos. Eu não havia considerado essa possibilidade, e algumas dúvidas começaram a surgir.

— Vocês estão dizendo que ele comprou o presente para si mesmo? Para o próprio aniversário? — perguntei.

— Você acha que é para outra coisa então, Ayanokoji? — Eles me encararam.

Normalmente, as pessoas não compram presentes de aniversário para si mesmas… certo? Talvez, se fosse como um "auto-presente", tipo se recompensar com algo gostoso ou comprar algo que se queria. Mas isso era diferente. Katsuragi havia comprado chocolates com embalagem claramente feminina e ainda mandado embrulhar para presente.

Se ele fosse apenas guloso, teria outros jeitos de se mimar.

— Você sério não entende? — disse Ike.

— Infelizmente, não.

— Tá. O Katsuragi não parece popular com as garotas, certo? Mas agora ele é o líder da Classe A — explicou Ike. Eu decidi não comentar.

— Ele tem muito orgulho. Com certeza quer que os outros pensem que ele é popular. É tudo encenação.

— Então ele vai fingir que alguém deu os chocolates para ele? — perguntei.

Ike e Yamauchi pareciam bem certos disso, porque ambos assentiram.

— Eu fiz a mesma coisa no fundamental — confessou Ike. — Fingi que recebi um presente da garota mais bonita da escola.

— Quando você coloca assim, fica… meio triste.

— Bom, é claro que é triste! Mas assim você evita o desespero absoluto de não receber nada! — Ike parecia irritado. Para ele, Dia dos Namorados e aniversários eram eventos enormes. — Além disso, você é igual a mim — ele acrescentou. — Né, Haruki?

— Hã? Não, nada a ver. Eu era popular com as garotas. Você não sabia?

— Então por que chegou a essa conclusão? É porque achou que o Katsuragi tava fazendo a mesma coisa que você fazia!

— Nada disso. No fundamental, tinha um cara super impopular que era igualzinho a você, Kanji. Eu sabia da história. Só isso.

Yamauchi estava claramente mentindo, mas não dava tempo de desmascará-lo.

— Vocês não estão só especulando? — perguntei.

— Não! É isso mesmo que tá acontecendo! — insistiu Ike.

Eles realmente gostaram dessa teoria, e não mostravam intenção de discutir mais.

— Ei, Haruki. Talvez a gente tenha julgado mal o care—digo, o Katsuragi. O que acha? — disse Ike.

— Verdade. A gente tratou ele como inimigo da Classe A, mas agora até me sinto mais próximo dele — comentou Yamauchi.

— Então você era um cara impopular que comprava presentes para si mesmo, hein?

— Errado! Ele só me lembrou daquele colega. Fiquei com pena dele — retrucou Yamauchi, orgulhoso.

— Ei, quer me ajudar numa coisa? — Ike se voltou para mim.

Foi abrupto.

— Ajudar com o quê?

— Vamos comprar um presente de aniversário pra ele — disse Ike, com genuína simpatia recém-descoberta. — Seria melhor se uma garota desse o presente, mas isso é impossível agora. Acho que receber um presente de qualquer pessoa já deve ser uma bênção pra ele, né?

A lógica era estranha, mas não totalmente falsa. Normalmente, as pessoas preferiam ganhar algo de outra pessoa em vez de comprar para si mesmas. Porém, pena demais também não ajuda. Se Katsuragi realmente tivesse comprado para si mesmo, seria certo que esses dois interferissem?

Ike e Yamauchi já discutiam o que comprar, mas minhas dúvidas persistiam. Não havia nenhuma garota com aniversário no dia seguinte. Mas ainda não tínhamos eliminado todas as opções: professoras, funcionárias do campus, empregadas do Keyaki Mall… Abrindo o leque, havia várias candidatas.

Além disso: se Katsuragi estivesse comprando para si mesmo, por que fazer isso tão abertamente? Ele estava de uniforme no meio das férias. Ele chamava atenção demais. Era fácil imaginar outros suspeitando.

— Ayanokoji, você tem que contribuir com alguns pontos também. Se juntarmos uns 1.500, dá pra comprar algo legal.

Isso soou familiar… Igual ao que aconteceu ontem. E minhas despesas estavam dobrando. Mil pontos não eram pouca coisa.

— Ayanokoji, talvez seja meio rápido, mas vamos comemorar o aniversário do Katsuragi amanhã.

Ike e Yamauchi mudaram completamente de atitude, como se alguém tivesse acionado um interruptor. De odiar Katsuragi, passaram a gostar dele em dois segundos.

— Vocês vão mesmo comprar algo?

— Claro. Não quer salvar um homem solitário e impopular?

Isso estava ficando problemático. Percebi que era melhor não recusar. Combinamos de nos encontrar no dia seguinte e nos dispersamos.

*

 

Quando nos reunimos na tarde seguinte, Kushida também estava lá.

— Olá, Ayanokoji-kun — cumprimentou ela.

— Oh, oi — respondi. O que ela estava fazendo ali?

Ike respondeu minha dúvida antes que eu perguntasse:

— Então, conversei com a Kikyou-chan ontem. Quando eu disse que íamos comprar um presente para o Katsuragi, ela disse que definitivamente queria ajudar. Tipo, "por favor, deixem eu ajudar", sabe? Enfim, o Katsuragi deve ficar mais feliz comemorando com uma garota do que com um monte de caras.

Ike continuou tagarelando sobre o quanto Kushida era incrível, mas provavelmente ele só queria uma desculpa para se encontrar com ela. Além disso, para ela, isso provavelmente fazia ele parecer um cara bondoso — do tipo que se preocupa com os outros.

— O Katsuragi-kun já fez bastante por mim também. Vou ajudar com o custo do presente, claro — acrescentou Kushida.

O olhar de Ike brilhava de felicidade. Yamauchi também parecia bem mais animado com ela por perto. Os encantos da Kushida também afetavam ele, mesmo que estivesse mirando a Sakura.

— A propósito, Ayanokoji-kun, por que você está usando uniforme? — perguntou Kushida.

— Meh. Sem motivo.

Eu tinha tirado o blazer porque estava calor, mas o uniforme ainda me fazia chamar atenção, infelizmente.

— Vamos lá, pessoal! — disse Ike.

Ele e Yamauchi caminharam um de cada lado da Kushida, enquanto eu seguia atrás. Poucos instantes depois de começarmos a andar, eles já estavam conversando animadamente.

Enquanto caminhávamos, avistei alguém que raramente via do lado de fora.

— Ei, desculpem. Podem ir na frente? Quero parar aqui um instante — pedi.

— Claro, mas não deixa a Kikyou-chan esperando muito — respondeu Ike.

— Beleza.

Afastei-me deles e fui até Horikita.

— Você parece bem tranquilo, não? Os quatro vão sair casualmente para fazer compras? Mesmo depois de termos sofrido tanto nas mãos do Ryuen-kun? — disse Horikita.

— Bom, isso só significa que a Classe C fez algo certo. Não adianta se preocupar com isso agora.

— Suponho que não. Mas ainda estou inquieta com certas coisas.

— Como o quê?

— Esquece.

Ela virou o rosto com total indiferença, como uma atriz arrogante.

— Onde estamos? Digo… em que ponto do ano escolar estamos agora? Sabe o mês? — perguntei.

— Hã?

— Estou falando do momento atual. Acabamos de terminar o primeiro semestre do primeiro ano. Não precisamos ficar ricocheteando entre alegria e desespero, só porque eles têm uma pequena vantagem agora.

— Mas, mesmo assim, sofremos uma perda severa. Se não pensarmos em uma solução—

— Embora você não enxergue o que está bem debaixo dos seus pés, está sempre olhando para longe. Em estudos, você é impecável. Mas quando se trata desses testes estranhos, você meio que corre em círculos. Essa é a impressão que tenho.

— Eu sei disso — respondeu.

— Então está consciente. Acho que é melhor você descer até o fundo do poço primeiro.

— O que você quer dizer?

De vez em quando, era bom ser completamente derrotado, desde que você conseguisse subir de volta depois. Eu achava que Horikita tinha esse potencial.

— As coisas têm uma ordem. Provavelmente é melhor você não entrar em pânico e lidar com tudo devagar, certo?

— Você fala nessa "ordem das coisas", mas se isso é verdade, por que você fez tanto esforço lá na ilha? Isso não é contraditório?

— É, provavelmente.

Fazia sentido que Horikita estivesse confusa. Ela não fazia ideia do que eu tinha combinado com a Chabashira-sensei. No teste da ilha, fui forçado a mostrar minhas habilidades. Não tive escolha a não ser agir.

No teste do navio, eu não tinha peões à disposição, tornando tudo muito mais difícil. Havia outros métodos, mas exagerar poderia ser pior, então me contive. Eu não tinha interesse real em rankings da classe. Ao mostrar apenas uma parte do meu potencial à Chabashira-sensei, ganhei tempo sem chamar tanta atenção. Assim, os testes foram um sucesso para mim.

— Mais importante: você não tem nenhuma pergunta sobre minha aparência? — perguntei.

— Bom, acho que suas roupas não combinam com esse clima, mas não é da minha conta — respondeu Horikita.

Desinteressada nos outros, como sempre.

— O que está lendo hoje? — perguntei.

— Não é da sua conta.

Pelo visto, não pretendia me mostrar o título.

— Certo, tanto faz. Ike e os outros estão me esperando. Quer vir?

— Está brincando, né? Recuso.

Eu já esperava essa resposta desde o início.

*

 

— O que vocês estão fazendo? — Katsuragi, normalmente tão calmo, não conseguiu esconder a surpresa ao ser cercado por Ike e os outros. Kushida se apressou em falar — depois do último teste, ela era quem ele mais conhecia.

— Desculpe incomodá-lo, Katsuragi-kun. Você tem um minuto? — perguntou ela.

— Kushida? O que está acontecendo?

— Para ser sincera, ouvi tudo pelo Ike-kun e pelos outros. Hoje é seu aniversário, não é, Katsuragi-kun?

— Bom, é, mas… estou surpreso que tenham descoberto.

Ele parecia um pouco confuso, como se não lembrasse de ter contado sua data para alguém.

— Os quatro queríamos comemorar com você, Katsuragi-kun — explicou Kushida.

— Ah, não precisa. Não há motivo para vocês fazerem algo especial.

Longe de receptivo, Katsuragi estava na defensiva. Era esperado: provavelmente achava que isso era alguma armadilha da Classe D. O fato de não nos expulsar imediatamente certamente era mérito da Kushida.

— Você tem planos hoje? — perguntou ela.

— Bem… não. Não exatamente.

Kushida bateu palmas e sorriu, como se dissesse "Que bom!". Qualquer garoto comum ficaria encantado naquele instante. Katsuragi, líder da Classe A, provavelmente não era tão fácil.

— Desculpe ser rude, mas não somos exatamente amigos próximos. Se tiverem algum motivo oculto, peço que me digam — disse ele.

— Não temos motivo oculto nenhum. Só queremos comemorar seu aniversário, Katsuragi — disse Ike, sério. Ele provavelmente sentia simpatia de verdade.

— Hrm.

A boca de Katsuragi se contraiu; parecia prestes a recusar. Então percebi que ele ainda segurava a sacola do presente de aniversário que comprou ontem. Algo estranho: ele havia comprado dois dias antes… por que ainda estava andando com ela?

Ike e Yamauchi não pareciam compartilhar minhas suspeitas — ou fingiam não compartilhar.

— Desculpem, mas tenho assuntos a tratar no prédio da escola. Com licença — disse Katsuragi.

— Escola? Pensando bem… você tem usado uniforme direto esses dias. O que está rolando? — perguntou Ike.

— O que quer dizer com isso? — Katsuragi mudou de expressão, como se tivesse entrado em modo de combate.

— Hã? Como assim "o que quero dizer"? — Ike pareceu assustado.

— Como você sabia que venho usando meu uniforme? — Katsuragi o encarou com tanta intensidade que parecia querer devorá-lo.

— Hã? Não, eu… isso não—

Ike engoliu seco.

— Depois que conversamos ontem, encontrei com Ike e os outros. Eu contei. Isso é um problema? — perguntei. Não havia outra saída senão intervir. — Achei incomum alguém usar uniforme nas férias de verão.

— Entendo. Bem, olhando por esse lado, acho que faz sentido — respondeu Katsuragi.

— É isso que eu quis dizer, cara — acrescentou Ike.

— Então por que você vai à escola? — perguntei. Pelo menos mudei de assunto por ora.

— É pessoal. Nada que te diga respeito — ele respondeu.

— Bem, talvez eu esteja exagerando, mas tem algo te incomodando? — perguntei.

— Como assim?

— Você também estava com aquela sacola ontem, não estava? É meio esquisito levar isso pra escola. Você a carrega desde que nos encontramos na loja ontem. Acho que já te vi com ela pelo menos três vezes. Certo? — perguntei.

— Tenho alguns assuntos com o conselho estudantil. Só isso — disse Katsuragi.

Mais uma vez, o nome de certa organização apareceu.

— Você usou o uniforme ontem porque ia à sala do conselho estudantil? — perguntei.

— Isso mesmo. Só que eles não estavam lá — respondeu Katsuragi.

— Se não me engano, a sala do conselho estava em reforma até ontem. Não deveria estar indisponível? — comentei.

Katsuragi pareceu surpreso. Perguntou como eu soube.

— Tenho uma pequena ligação com o presidente do conselho — disse.

— Você é conhecido dele? — perguntou Katsuragi.

— Bom, não diria que somos próximos, mas… algo assim.

— Ah, entendi. A Horikita da Classe D é irmã dele, né? — Katsuragi chegou a essa conclusão com rapidez. — Se for o caso, talvez valha a pena você me acompanhar, se não for problema. Você se importaria?

Com isso, mais ou menos entendi o que Katsuragi procurava.

— Que coincidência. Eu também tenho assuntos com o conselho estudantil — respondi.

— É por isso que você está com o uniforme? — ele perguntou.

Claro, eu só o vesti para descobrir as intenções de Katsuragi. Agora, porém, pensei que poderia entrar na sala do conselho mais facilmente e me aproximar.

Katsuragi assentiu. Deixando os outros para trás, seguimos em direção ao prédio da escola.

— Desculpem a intromissão — disse Katsuragi em voz alta, ao bater na porta da sala do conselho. O presidente do conselho, Horikita Manabu, e a secretária Tachibana nos receberam. O Horikita mais velho notou minha presença de imediato.

— Parece que temos visitantes inesperados — disse ele.

Fiz uma leve reverência. A secretária Tachibana parecia desgostosa.

— Vim aqui hoje com um pedido. Ouvi dizer que as solicitações dos alunos passam pelo conselho estudantil — começou Katsuragi.

— Ao que parece, você passou por aqui ontem. E anteontem também. Estávamos ausentes porque a sala estava em reforma. Peço desculpas — explicou o Horikita mais velho.

— Ah, tudo bem. É férias de verão. A culpa é minha. De qualquer forma, fico feliz por nos encontrarmos hoje. Temei ter que ir até seu dormitório — continuou Katsuragi.

Por que Katsuragi quis ir à sala do conselho no meio das férias? O que exatamente ele queria?

— A escola proíbe contato com o exterior enquanto estamos matriculados. Vim para perguntar sobre isso — disse ele.

— Parece que você leu o regulamento escolar. Não, contato externo não é permitido, salvo por motivo urgente, como doença grave ou lesão — respondeu o presidente.

— Certo. Contudo, eu gostaria de enviar um pacote e uma mensagem para minha família fora do campus. Não espero resposta — disse Katsuragi.

Ou seja, estava falando de comunicação unilateral?

— Mesmo que seja unilateral, ainda assim não é permitido — disse o presidente de forma profissional.

No entanto, Katsuragi não teria vindo até ali se fosse tão fácil desencorajá-lo.

— Ouvi dizer que as regras sobre cortar contato não se aplicavam a encomendas. Certamente, se o que for enviado não contiver texto, informação ou comunicação, isso não violaria as regras, certo? — ele argumentou.

— As regras proíbem. As restrições existem por um motivo. Quando a escola foi fundada, as normas não eram tão rígidas — explicou o Horikita mais velho, olhando para Tachibana e assentindo.

— Exatamente como o presidente disse. Originalmente, era permitido enviar pacotes. Porém, vários alunos quebraram as regras. Esconderam cartas nas encomendas sem pedir permissão. Então, agora esse tipo de contato foi banido — completou a secretária.

— E pronto — acrescentou o Horikita mais velho, cortando as esperanças de Katsuragi com uma rejeição firme. Katsuragi, contudo, não estava disposto a recuar. Mesmo sendo calouro, liderava a Classe A e logo reavaliou a situação, mantendo a compostura.

— Peço que reconsidere. Permitam que eu peça o envio direto na loja. Pago pelo frete para o endereço que eu indicar e mais nada. Nem sequer toco no item. Com essas restrições, não há como eu fraudar nada.

— Mas isso ainda viola as regras — retorquiu o presidente.

— Violar regras? Esta escola diz cultivar habilidades. Ouvi dizer que com pontos você pode fazer muitas coisas: comprar notas, negociar com colegas. Os pontos têm muitos usos. Estou errado? — perguntou Katsuragi.

Claramente, esse presente era muito importante para ele.

— Isso muda um pouco as coisas — disse o Horikita mais velho, mudando de tom ao ouvir Katsuragi. — Antes de falarmos sobre um gasto de pontos, pode me dizer para quem você quer enviar isso?

— Para minha irmã gêmea. Como somos órfãos, sou eu quem comemora o aniversário dela — respondeu Katsuragi.

A razão era bem diferente das teorias levianas que havíamos inventado.

— Preciso corrigir uma coisa na sua teoria. O sistema de pontos não é todo-poderoso. É possível usar pontos para comprar notas ou negociar, sim, mas essas práticas não estão explicitamente previstas nas regras. O que está proibido explicitamente não pode ser facilmente alterado com pontos. Sem autorização da escola, simplesmente não é possível — explicou Horikita.

Uma situação complicada. Vamos usar notas de prova como exemplo. Eu tinha usado pontos para comprar um ponto na nota de um teste para o Sudou há algum tempo — um ato que, por si só, não era ilegal. Era permitido comprar pontos nas notas com pontos. Tentar trapacear em um exame, no entanto, era contra as regras, e não podia ser legalizado por meio do uso de pontos.

— As regras da escola precisam ser respeitadas.

— Bem, isso é estranho. Se isso for verdade, as regras estão cheias de lacunas.

— Não há nada de estranho. A escola propositalmente fez regras que permitem brechas — respondeu Horikita de imediato, como se aquilo fosse fácil de entender.

……

O presidente era um oponente complicado, mesmo para alguém perspicaz como Katsuragi. A diferença entre as posições deles era evidente. Horikita, que estava no terceiro ano, na classe A e era presidente do conselho estudantil, não tinha pontos fracos.

— Então quer dizer que eu não posso fazer nada? — perguntou Katsuragi.

— Correto. Se as regras da escola proíbem algo, você não pode contorná-las, nem mesmo com pontos.

Katsuragi provavelmente estava preparado para gastar uma grande quantia, mas aquilo parecia o fim da linha.

— Se terminou, por favor, vá embora.

— Entendi. Compreendo. Então, se me permite — Katsuragi lançou um olhar para mim apenas uma vez. Quando fiz um gesto dizendo que eu ia ficar, ele saiu silenciosamente da sala.

— Você não vai? — perguntou Horikita mais velho.

— Mais cedo você estava falando sobre o que acontece quando uma infração às regras é descoberta, certo?

— Como assim?

— Você se lembra de um incidente que ocorreu há algum tempo? Sudou, da nossa classe, brigou com alguns alunos da classe C.

Horikita assentiu. Afinal, aquilo havia sido um grande caso.

— Naquela época, o caso foi levado adiante precisamente porque os alunos da classe C recorreram à escola. Katsuragi, por outro lado, não fez nada de errado. Ele só quis perguntar sobre algo que poderia, potencialmente, quebrar as regras. Só vocês dois, Katsuragi e eu sabemos disso. Você não conseguiria fechar os olhos para essa instância em particular?

Escolhi cuidadosamente as palavras, mas tinha certeza de que entenderam o que eu insinuava. Digamos que você cometeu uma infração de trânsito; seria questionado por um policial, mas poderia suborná-lo para que deixasse passar.

— Enviar um pacote normalmente seria difícil, mas para você provavelmente é uma coisa simples. Não é? — perguntei.

— Entendo. Você quer resolver tudo sem envolver a escola — respondeu Horikita mais velho. Alguém tão correto como Katsuragi provavelmente jamais pensaria em usar tal brecha.

— Violar as regras! Que delinquente terrível você é — exclamou a secretária Tachibana. Fiz o possível para ignorá-la.

— Como você chegou a essa conclusão? — perguntou Horikita mais velho.

— As regras da escola dizem que atos de violência são proibidos. Porém, quando nos conhecemos, você não mostrou piedade, mostrou? Você provou que, enquanto a escola não souber, dá para escapar de qualquer coisa — respondi.

Presidente ou não, Horikita definitivamente não deveria ter levantado a mão para agredir alguém em público.

— É isso. Só há uma maneira de contatar alguém de fora. Mas Katsuragi não percebeu isso e perdeu a chance — admitiu Horikita.

— Você vai ajudá-lo agora? — perguntei.

— Não. Não vou violar as regras por causa dele.

— Você é bem rígido.

— Se acha isso, deveria ter contado a Katsuragi sobre a brecha antes de ele ir embora. Mas você não contou.

Lidar com um sujeito tão astuto era um incômodo. Ele me enxergou por completo. Entendeu que eu havia evitado avisar Katsuragi.

— Bem, já esfriei. Vou voltar — disse eu.

— Posso pedir à Tachibana que prepare um chá, se quiser?

— Não, obrigado. De qualquer forma, não faço ideia do que você colocaria nele.

— Q-Que primerista grosseiro! — gaguejou Tachibana.

Por algum motivo, quando saí, o irmão de Horikita me acompanhou até a saída.

— Oficialmente, eu não me encontrei com Katsuragi hoje. Mesmo que você aja nos bastidores, eu não vou investigar. Faça o que quiser — disse ele.

— Não tenho muita vontade de fazer nada, na verdade.

— Estou apenas dizendo que não vou me envolver.

Eu tinha a permissão tácita para enganar a escola o quanto fosse preciso. O olhar de Horikita me atravessou. Ele provavelmente viu tudo.

— Caramba, o presidente é astuto — resmunguei.

*

 

Quando voltei ao saguão do dormitório, Katsuragi estava sentado ali, com uma expressão abatida. Ele imediatamente percebeu minha chegada e se levantou.

— Sinto muito por ter te envolvido em uma tarefa tão estranha — disse ele.

— Ah, relaxa. Eu que insisti em ir junto. Desculpa não ter conseguido ajudar — respondi.

— Não, de jeito nenhum. Era impossível, de qualquer forma — disse Katsuragi.

Parecia que Katsuragi tinha desistido. Ele queria entregar o presente para a irmã, custasse o que custasse, mas as regras da escola o impediram.

— Toma. Coma isso com seus amigos. Eu não ligo muito para doces — disse ele, estendendo o presente. Porém, eu não peguei.

— Seria desperdiçado comigo.

— Entendo. Suponho que você não ficaria feliz com um presente de segunda mão — disse Katsuragi, inclinando ligeiramente a cabeça antes de voltar para o quarto.

— Katsuragi.

Eu o fiz parar no mesmo instante.

— O que foi?

— Talvez eu possa ajudar. Pensei em um jeito de entregar o presente para sua irmã.

— Mas o conselho estudantil me rejeitou. Não consigo imaginar que exista uma solução.

— Isso porque você não quer quebrar as regras — respondi.

— Eu não vou fazer algo tão arriscado — replicou Katsuragi, de forma direta.

Suponho que fosse pedir demais para alguém como Katsuragi, líder da Classe A, aceitar uma proposta dessas. Principalmente vindo de alguém como eu.

— Acho que vale a pena me ouvir. Especialmente se entregar esse presente para sua irmã é importante para você.

Katsuragi tinha ido repetidas vezes à sala do conselho estudantil durante as férias de verão para conseguir permissão. Claramente, isso não era algo trivial para ele.

— Devemos mesmo discutir isso em público? — Katsuragi olhou ao redor, observando as pessoas e as câmeras de segurança.

— Suponho que você esteja certo. Quer ir para o meu quarto?

De qualquer forma, gente entrava e saía do meu quarto o tempo todo. Felizmente, não encontramos nenhum aluno no caminho. Abri a porta e acendi a luz.

— Entre.

— Seu quarto é bem organizado. Ou melhor, eu diria que é espartano. Está igualzinho ao dia em que chegamos à escola — comentou Katsuragi.

— Escuto isso bastante.

Depois que ele se sentou, liguei o ar-condicionado e servi um pouco de chá.

— Mais cedo, você falou algo sobre as regras da escola? — perguntou Katsuragi.

— Digamos que você queira enviar um pacote da escola. Como isso é algo geralmente proibido, não é simples. Você provavelmente não conseguiria usar o correio, também.

Havia uma agência postal no campus, mas ela era basicamente para uso dos professores. Alunos não iam lá.

— Mas então não há nada que eu possa fazer. Ou você está dizendo que existe outro meio de entrega?

— Existe. Se você simplesmente levar o presente para fora do campus, estará tudo certo.

— Não seja ridículo. Quem faria uma coisa dessas? Você não está pensando em algum funcionário do campus, está? — perguntou Katsuragi. Só os empregados das lojas do campus podiam entrar e sair livremente. — As pessoas que trabalham aqui têm regras rígidas. Elas não correriam esse risco por causa de um simples estudante. Podem nos denunciar à escola.

Se o fizessem, Katsuragi seria severamente punido.

— Isso não vai acontecer. Não acho que exista alguém em quem possamos confiar para servir de intermediário.

— Espera. Você não está querendo dizer que deveríamos sair do campus sem permissão, está?

— Claro que não. A punição seria extremamente severa. — As entradas e saídas eram rigorosamente vigiadas. Seríamos expulsos se nos pegassem. — Você tem razão que não dá para usar um funcionário. Porém, um estudante é outra história. Há vários em quem podemos confiar.

— Um estudante? Isso é ainda menos provável. Estudantes não podem sair sem um motivo contundente.

— Não existem exceções relacionadas a esses "motivos contundentes"?

— Exceções? Se o estudante pudesse sair do campus, então... Não, não pode ser! — Katsuragi chegou rápido à conclusão que eu vinha conduzindo. — Torneios de clube, hein?

— Exato.

Durante os torneios de clube, a escola precisava permitir que certos estudantes saíssem do campus para se deslocarem a locais externos.

— É possível, de fato. Mas a escola certamente antecipa isso. Haverá revista nas bolsas — raciocinou Katsuragi.

— Claro. Mas existem maneiras de passar por essas revistas, não existem? Não é como no caso dos Jogos Olímpicos testando atletas para substâncias. Eles não vasculhariam cada centímetro do seu corpo.

— Isso é verdade, mas…

Katsuragi parecia levar o plano a sério.

— Seria um risco enorme para o estudante. No entanto, pelo que você disse, Ayanokoji, você tem alguém talentoso e confiável em mente. Não é?

— Isso mesmo. Mas você precisa confiar em mim se quisermos que isso dê certo.

*

 

Uma hora depois, entrei em contato com Sudou quando ele voltou das atividades do clube. Ele iria participar de um torneio depois de amanhã, e Katsuragi e eu precisávamos da ajuda dele.

— Hein? Não me venha com essa conversa fiada. Sério, quem em sã consciência faria uma coisa dessas? — bufou Sudou. Rejeitou a proposta com tanta força que parecia cuspir as palavras. Claro, se descobrissem que ele violou as regras, não dava para prever qual seria a punição.

— Além disso, não sou obrigado a atender um pedido do careca aqui — acrescentou.

— O que foi agora? — Katsuragi parecia não confiar em Sudou. Continuava cético quanto ao plano.

— Deixando de lado se você vai fazer ou não, quero te perguntar uma coisa, Sudou. Que tipo de revista a escola faz?

— Sei lá — respondeu ele, de modo despreocupado. Sudou ainda não tinha entendido totalmente a situação.

— Dependendo de como as coisas forem, o Katsuragi pode te dar uma recompensa — disse eu.

— Recompensa? — ecoou Sudou.

— Isso mesmo. Eu já sabia que teria que pagar, claro — respondeu Katsuragi.

Sudou começou a considerar a questão com seriedade.

— Eles revistam nossas bolsas de manhã, antes de pegarmos o ônibus para o torneio. Depois disso, confiscam nossos celulares. Quando chegamos ao estádio, trocamos de roupa e vamos para a quadra. Quanto às refeições, comemos lá, quando o torneio termina. Não sei mais detalhes exatos — explicou Sudou.

— E quanto ao vestiário? E as bolsas? — perguntei.

— Normalmente, usamos armários e tal. Quando nos trocamos, não tem professor por perto, mas nos vigiam de perto. Tem até banheiros separados, então não podemos falar com estudantes de outra escola — continuou Sudou.

Katsuragi ouviu atentamente.

— Tudo isso soa bastante rigoroso. Duvido que seja uma boa ideia levar bolsas desde o começo — ponderou ele.

— Dá para levar comida? — perguntei.

— Dá sim, se quiser. Tem gente que leva — respondeu Sudou.

— Se isso for verdade, então na prática parece razoavelmente simples transportar o presente.

Peguei uma marmita e uma garrafa de água da minha prateleira e voltei ao meu lugar.

— Vou colocar o presente dentro da marmita. Deve caber. Quanto à bolsa, vou enrolá-la e colocá-la dentro da garrafa. Assim, ninguém deveria descobrir.

Os professores não chegariam ao ponto de verificar o conteúdo de um almoço.

— Espera. Mesmo que eu leve o presente, como vou enviar? Não tenho dinheiro nem tempo — apontou Sudou.

— Se você está preocupado com dinheiro, relaxa. Use isto. — Entreguei a ele um formulário dos correios que eu tinha pego. — Espere uma oportunidade e então aproveite para despachar.

— Você fala como se fosse fácil. Essa é a parte mais difícil, né? — retrucou Sudou.

— Bem, os riscos podem ser grandes — disse Katsuragi.

Não só Katsuragi estaria violando as regras da escola — ele havia envolvido Sudou. Normalmente Katsuragi já teria desistido, mas aquilo devia ser importante demais. Isso mostrava o quanto a irmã dele significava para ele.

— Infelizmente não confio em ninguém da minha classe para lidar com algo assim. Você me ajuda? — Katsuragi perguntou a Sudou.

— Sudou, eu sei que você normalmente não faria isso. Mas tem benefícios significativos, não acha? — eu perguntei.

— Benefícios? Você quer dizer a recompensa? — Sudou retrucou.

Katsuragi assentiu.

— Eu te pago 100.000 pontos se você conseguir.

Aquilo foi uma oferta e tanto. Sudou estremeceu. Para alguém que vivia com cerca de 1.000 ou 2.000 pontos, 100.000 era uma quantia inacreditável.

— Por que você quer ir tão longe para entregar um pacote? — perguntou Sudou. A recompensa o deixava desconfiado.

— Eu tenho uma irmã gêmea. Ayanokoji já sabe disso — disse Katsuragi.

Eu sabia. O resto do motivo, porém, era mais pesado do que eu esperava.

— Minha irmã é frágil. Como nossos pais e avós morreram, são os parentes que cuidam dela agora. Eu sou algo como um pai substituto. Se eu não comemorar o aniversário dela, quem vai? — Katsuragi perguntou. — Eu entendi as regras da escola quando entrei, mas achei que poderia enviar um pacote. Foi meu erro. Mesmo assim, quero dar um presente à minha irmã, custe o que custar.

Bem, eu não tinha visto nada nas normas da escola que tratasse especificamente disso. Só dizia que sair dos limites do colégio sem permissão não era permitido. Não havia detalhes sobre como a comunicação com o mundo exterior era proibida.

— Então é por isso que veio até mim, né? — Sudou agarrou meu ombro e sussurrou num tom alto o bastante para que Katsuragi ouvisse. — O que eu faço se você decidir me trair? Não quero que aconteça algo como com a Classe C, sabe?

Ele tinha razão. Sudou havia caído numa armadilha e, por causa disso, quase foi expulso do clube de basquete.

— Não precisa se preocupar. Tenho certeza de que ele já pensou nisso — disse eu a Sudou.

Katsuragi assentiu.

— Vou te oferecer 20.000 pontos agora, como adiantamento. Pago os 80.000 restantes como recompensa depois que você cumprir a tarefa.

O pagamento de 20.000 pontos provaria que Katsuragi estava conivente com o ato. Se qualquer um dos lados traísse o outro, ambos sofreriam as consequências.

— Então, 20.000 de adiantamento? Mas...

Mesmo sendo uma soma grande, eu entendia a hesitação de Sudou. Ele pensava no futuro no basquete. Se a escola descobrisse que ele violou as regras durante atividades do time, ele podia até ser cortado da equipe.

— Acho que é um plano perfeito. Obviamente, se vocês forem descobertos, eu também sofrerei muito — disse Katsuragi. A escola provavelmente o puniria tão severamente quanto puniria Sudou. O plano só funcionaria se Katsuragi tivesse resolução para levá-lo até o fim, e eu acreditava que ele tinha.

— Então a questão é só se eu vou ser pego, né? — Sudou ponderou, avaliando a grande quantia de pontos envolvida. O que faria?

Seus olhos voltaram-se para mim por um instante. Parecia ter decidido.

— Certo. Só tenho que pegar um pacote? Acho que sou alguém que corre esse risco — ele disse.

— Tem certeza? — perguntou Katsuragi. Sudou acabara de se tornar seu salvador inesperado.

— Quer dizer, já que você falou da sua irmã doente e tal, é meio difícil recusar — Sudou coçou a cabeça, com ar compadecido.

Katsuragi, no entanto, não demonstrou alegria. Ficou em silêncio, de braços cruzados e com expressão severa.

— Que porra? Já disse que vou fazer. Tem mais alguma coisa? — Sudou retrucou.

— Talvez ele ainda tenha dúvidas. Talvez esteja se perguntando se vamos traí-lo — eu apontei.

— Sério? Katsuragi foi quem veio pedir ajuda e agora ele desconfia de mim? — Sudou protestou.

Katsuragi era do tipo que priorizava a cautela. Talvez fosse da natureza dele ficar cada vez mais desconfiado quanto mais as coisas corriam bem. Claro que eu já sabia disso. Infelizmente, era uma ansiedade desnecessária. Sudou não era uma pessoa dupla. O mesmo valia para mim. Nunca pensei em armar uma cilada para Katsuragi durante tudo isso. Eu realmente acreditava que valia a pena que Katsuragi ficasse nos devendo.

Além disso, mesmo se Katsuragi nos traísse, nós também poderíamos derrubá-lo. Eu havia apresentado Sudou como intermediário depois de chegar a essa conclusão. Eu não sabia quantos pontos Katsuragi ia oferecer, mas 100.000 pontos eram bastante atraentes.

— Só para garantir, não vou transferir os pontos diretamente para o Sudou. Eles vão para o Ayanokoji. Desculpe, Ayanokoji, mas gostaria que você transferisse os pontos para o Sudou depois que ele tiver sucesso — explicou Katsuragi.

— Por que temos que passar por essa complicação? — perguntou Sudou.

— Seguro, eu acho — respondi.

Se alguém da escola visse Sudou retirando ou enviando o presente e depois percebesse um grande depósito de pontos na conta dele, naturalmente ficariam desconfiados. Contudo, se os pontos passassem por outra pessoa, não poderiam ser rastreados até Katsuragi. Sudou ficou um pouco irritado, mas concordou.

— Tem mais uma coisa. Quero uma prova inquestionável de que você não está mentindo para mim — disse Katsuragi.

— Hã? Que porra é essa? — Sudou bufou.

— Não posso ter certeza de que você vai entregar o presente.

Katsuragi ainda temia que Sudou estivesse lhe pregando uma peça. Como não podia contatar a família lá fora, teria de esperar pela formatura para saber se a irmã recebera o presente.

Eu havia pensado em várias maneiras de fornecer uma "prova". O método mais simples e confiável seria uma evidência fotográfica por celular. Contudo, mencionar isso me deixou hesitante. Não queria mexer e acabar chamando a atenção de Katsuragi por motivos errados.

— Que porra é essa, cara? Não tem como eu mentir sobre isso. Você é burro ou o quê? — Sudou exclamou.

— Claro que quero acreditar em você. Mas ainda não temos esse tipo de relação — explicou Katsuragi, cruzando os braços. — Que tal usar seu telefone? Quero que você grave um vídeo no momento em que enviar o pacote.

Aparentemente Katsuragi e eu estávamos na mesma sintonia.

— Cara, você não ouviu o que eu falei? Já disse que os celulares do time são confiscados — rosnou Sudou.

— Claro. É por isso que gostaria da sua cooperação também, Ayanokoji.

— Cooperar como? — perguntei.

— Ainda há espaço na garrafa de água. Coloque seu celular dentro. Assim, Sudou pode levá-lo sem ser descoberto — explicou Katsuragi.

Como regra geral, cada aluno tinha direito a um único celular. Se Sudou entregasse o dele durante a revista das bolsas, não haveria suspeitas adicionais.

— Naturalmente, pretendo oferecer uma recompensa para você também — acrescentou Katsuragi.

Ele disse que me pagaria 10.000 pontos. Nada mau.

— Entendi. Vou fazer isso.

— Tem certeza, Ayanokoji? — Sudou perguntou.

— Tenho. Já que posso ajudar, vou ajudar. Além disso, os pontos também vão ser úteis pra mim.

— Bem, deixo tudo nas suas mãos, então — disse Katsuragi.

Ele se curvou profundamente, em gratidão, antes de sair do quarto.

— Cara, agora fiquei nervoso — suspirou Sudou.

— Você tá bem, Sudou? — perguntei.

— Esse é meu segundo torneio. Acho que já peguei o jeito, mas…

Eu entendia por que ele estaria um pouco resistente à ideia de ajudar quebrando regras. Ainda assim, o passado delinquente de Sudou lhe dava uma certa flexibilidade diante de toda essa situação.

— Então, quando é que quer que eu leve seu celular?

— Ah. Bem, vai ser fácil a escola rastrear tudo até mim, já que muitos pontos vão cair na minha conta. Se possível, gostaria de usar o celular de uma terceira pessoa — expliquei. A melhor opção seria usar o celular de alguém completamente não relacionado, como Ike ou Yamauchi.

— Não tem chance de alguém te emprestar o celular, cara — disse Sudou.

— Se eu disser que pago 5.000 pontos, eles me emprestam o que eu quiser.

— Sabe… você é mais sombrio do que parece.

Sudou e eu nos preparamos para entregar o pacote. Resumindo, ele conseguiu evitar a detecção da escola, passou na revista sem incidentes e enviou o presente. Também conseguiu filmar o envio e mandar o arquivo para Katsuragi antes de deletá-lo. Não sei se a irmã de Katsuragi recebeu o presente, mas a parte sob nosso controle deu certo. Sudou fez tudo perfeitamente.

Fiquei me perguntando se o irmão mais velho da Horikita tinha alguma participação nisso. Ele provavelmente estava ciente de que faríamos alguma manobra. Como presidente do conselho estudantil, ele deveria ser capaz de fazer os arranjos necessários. Por outro lado, também poderia ter observado exatamente o momento em que Sudou violou as regras.

Talvez fosse só minha imaginação, mas eu queria saber a verdade. Se o envolvimento do presidente fosse uma possibilidade, talvez uma verdade maior aparecesse um dia.

*

 

Depois que Katsuragi saiu do quarto de Ayanokoji, pegou o elevador para voltar ao seu andar. Quando chegou, dois alunos estavam parados do lado de fora de seu quarto, aparentemente esperando por ele.

— O que vocês estão fazendo? — perguntou Katsuragi.

— Ah! Finalmente voltou, Katsuragi! Caramba, demorou. Babaca!

— Hm? Vocês são da Classe D, não são? — Katsuragi desconfiou dos dois, embora parecesse reconhecê-los de algum lugar.

— Bah, isso não importa! De qualquer forma, parabéns! — Pof! Katsuragi foi atingido por estalinhos de festa.

— O-O que está acontecendo?!

— Como assim, "o que"? Seu aniversário tá chegando, né?! Então viemos comemorar!

— Comemorar? Mas vocês são da Classe D. Por quê? Não têm motivo algum.

Katsuragi ficou desnorteado.

— Temos motivo, sim. Tipo… somos todos virgens aqui, então vamos ser amigos, né?

Katsuragi estremeceu diante da linguagem vulgar de Ike, que entregou um presente de aniversário.

— Toma, come isso. Nossa idol, Kushida Kikyou-chan, escolheu esse bolo!

— Mas eu não posso aceitar…

— Pode sim, pode sim! — Ike enfiou a caixa à força nas mãos de Katsuragi.

— Beleza, até mais!

Com isso, os alunos da Classe D saíram correndo. Restaram apenas os restos dos estalinhos e o bolo.

— Disseram que era um bolo, mas está até quente — murmurou Katsuragi.

Ele abriu a caixa e viu um bolo de sorvete de chocolate em temperatura ambiente, derretido em um tipo de gosma viscosa.

— Isso é algum novo tipo de assédio? — imaginou Katsuragi.


ENTRE NO DISCORD DA SCAN PARA FICAR POR DENTROS DOS PROXIMOS LANÇAMENTOS DE COTE! 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora