Classroom of The Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 4.5

Capítulo 1: Ibuki Mio Tem um Surpreendente Bom Senso

EXAME ESPECIAL. Normalmente, essas palavras significariam uma prova escrita ou algum tipo de teste físico. Porém, na Advanced Nurturing High School, testes especiais não eram assuntos triviais. Um concurso de sobrevivência em uma ilha desabitada. Uma batalha de raciocínio a bordo de um navio de cruzeiro. Esses testes absurdos vinham um após o outro durante nossas férias de verão.

Entre os dois testes, eu, um mero estudante do primeiro ano, tive apenas sete dias de descanso de verdade. Isso incluía hoje. Em breve, o segundo semestre começaria. Passei os dias de folga de forma simples. Não liguei para ninguém e ninguém ligou para mim. Em outras palavras, foram dias solitários.

— Bem, não ligo muito — murmurei.

A liberdade era o suficiente. Eu não pediria mais. Ter amigos demais não era necessariamente algo bom.

Quanto mais pessoas eu me conectasse, mais trabalhoso seria administrar todos esses relacionamentos. Se alguém tivesse me ligado, talvez eu ficasse extremamente feliz. Mas também havia a chance de que eu não ficasse. 

Mesmo sozinho, eu tinha muitas coisas para fazer. E hoje eu estava fazendo uma delas: usando o celular para verificar meu saldo de pontos restantes (106.219 pontos).

Transferi 100.000 desses pontos para alguém da minha classe — Sudou Ken. Logo depois, Sudou me ligou.

— Yo, Ayanokoji. O que você tá fazendo agora?

— Nada demais. Estava só pensando no que jantar.

— Saquei. Eu comi uns pedaços de frango faz pouco tempo. Bem básico. O gosto é bom, mas eu enjoaria fácil se comesse sempre, então tento variar um pouco. Posso fritar, ferver… Espera, que diabos eu tô falando? Eu queria falar com você sobre adivinhação.

Adivinhação? Nunca imaginei que essas palavras sairiam da boca do Sudou. Ele era o tipo de cara que via o mundo em preto e branco. Gostava de coisas simples, como o frango que acabara de comer.

— A real é que ouvi dizer que tem um vidente super preciso lá no Keyaki Mall, mas ele só vai estar por aqui durante as férias de verão. Acho que virou modinha entre os veteranos. Mesmo quando tô no clube, todo mundo só fala desse vidente. Eu juntei uma graninha extra e pensei em me divertir um pouco, sabe? Vamos lá conferir juntos. Por minha conta, claro.

O Keyaki Mall era um complexo dentro do campus onde os alunos sempre iam. Como éramos obrigados a viver dentro da escola, ela era equipada com todo tipo de instalação, embora não pudesse nos oferecer tudo que existia no mundo exterior. Não tínhamos shows de idols, parques de diversões ou zoológicos. Nosso mundo era pequeno. Quando surgia algo novo, naturalmente virava assunto quente entre os estudantes.

Mesmo assim, adivinhação era inesperado.

Como fazia muito, muito tempo que ninguém me chamava para sair, não consegui esconder minha satisfação.

— Quando vamos?

— Amanhã cedo. Parece que começa às dez, mas, se você não entrar na fila antes, vai ficar esperando pra sempre. Queria chegar lá por volta das 9h30 — disse Sudou. Pelo visto, ele já tinha um plano.

— Tudo bem pra mim. Não tenho nada marcado. Mas o pessoal do clube não vai implicar?

— Não. Amanhã é meu dia de folga. O torneio acabou, então tá tranquilo. Além disso, a gente não fez nada além de treinar até cair. Se eles não deixarem a gente descansar um pouco, nossos corpos vão quebrar — disse naturalmente.

Sudou tinha acabado de participar de um torneio de basquete. Mesmo vendo ele treinar dia após dia, em silêncio, eu estava curioso sobre o resultado do torneio. Mais uma coisa para pensar.

— Teve algum problema? — perguntei.

Fiz questão de enfatizar "problema". Sudou entendeu a referência.

— Teve, sim. Foi bem puxado. Eles te supervisionam bem mais — o capitão do time e o treinador ficam te olhando o tempo todo. Nada a ver com jogar no fundamental. Não posso abrir a boca pra nada, só quando é pra falar durante o jogo. A escola coloca um monte de restrições, até pra ir ao banheiro. Achei que seria impossível — disse Sudou.

Apesar das atividades do clube serem separadas das aulas, as regras continuavam rígidas.

— Mas deu tudo certo no fim. Joguei bem, porque eu tenho talento — acrescentou.

— Entendo. Fico aliviado. E o Yamauchi?

— Eu apaguei os dados antes de voltar — disse Sudou, falando novamente sobre nossos assuntos secretos. — Não se preocupa. Nem eu sou tão idiota assim.

A vida escolar dele dependia disso. Ele provavelmente não faria nada imprudente. Mesmo assim, talvez fosse uma boa ideia falar com Yamauchi depois, só pra confirmar que os dados realmente foram apagados. Só por precaução.

— Aliás, você chegou a jogar no torneio principal? — perguntei.

— Sim. Fui o único do primeiro ano a jogar. Até marquei pontos. Perdemos no final, então nem tô tão orgulhoso assim.

Eu não entendia muito das minúcias, mas um aluno do primeiro ano jogar num torneio daquele nível parecia impressionante. Senti aceitação, e não frustração, na voz de Sudou. Ele provavelmente treinou duro e viu aquilo como progresso constante.

E ele tinha mesmo que ter treinado duro — afinal, os alunos do primeiro ano tinham saído do campus para participar daqueles exames especiais, o que significava que Sudou teve menos tempo para treinar que os veteranos.

— Então, o que vai fazer? Adivinhação — vai ou não vai?

— Bom, eu não tenho nada planejado. Então, vou sim.

Assim que eu aceitei, Sudou foi direto ao ponto.

— Chama a Suzune também. Sério. Tem que chamar, entendeu?

— Entendi.

Pelo visto, Sudou não queria ir ver o vidente comigo, mas com Horikita. Ele provavelmente sabia que, se tentasse convidá-la sozinho, as chances de sucesso eram mínimas.

— Só que… não consigo imaginar que ela goste de adivinhação — acrescentei.

— Mesmo assim, chama ela. Essa é sua habilidade especial, né?

Que habilidade especial? Eu realmente queria que ele parasse de me usar como uma espécie de Máquina de Convites para Horikita.

— Vou tentar. Mas sem expectativas — avisei.

— Tentar não é suficiente — rebateu.

— Não é suficiente?

As palavras firmes de Sudou tinham um toque de irritação. Ele parecia determinado a ter Horikita lá no dia seguinte.

— Você precisa fazer isso. Se você não convidar a Horikita, não faz sentido ir.

— Olha, eu não sei que planos ela pode ter. Nem se tem interesse em adivinhação. Não seria mais fácil chamar ela pra fazer compras ou ver um festival de filmes?

— Não tem com o que se preocupar. Toda garota ama adivinhação — afirmou.

Essa era uma generalização extremamente ampla. Eu não conseguia imaginar Horikita demonstrando curiosidade por algo que "todas as garotas gostam".

— Entendeu? Me manda mensagem depois que chamar ela. Beleza? Tem que mandar.

Com isso, Sudou encerrou a ligação abruptamente. Eu já tinha achado estranho ele me convidar pra ir ver um vidente. Agora estava claro que o verdadeiro objetivo era Horikita. Mesmo sentindo uma pontinha de decepção, eu precisava ligar para Horikita imediatamente. Se Sudou descobrisse depois que eu ignorei o pedido, seria um problemão.

Horikita atendeu imediatamente.

— Oi, Horikita. Você gosta de adivinhação? — perguntei.

Se existia uma mulher no mundo capaz de destruir a ideia de que "todas as garotas gostam de adivinhação", era Horikita.

— Você começa conversas da forma mais estranha possível — respondeu ela.

Era verdade. Mas eu realmente não tinha outra forma de começar a conversa.

— Você estaria me salvando se respondesse — falei.

— Então, se eu não responder, existe a possibilidade de você não ser salvo? — ela perguntou.

Essa possibilidade existia, sim. A imagem de Sudou me prendendo num mata-leão apareceu imediatamente na minha mente.

— Então… você vai me salvar? — perguntei.

— Se você estiver confortável em me dever uma — respondeu ela.

Eu ia ficar devendo um favor só por ela responder uma pergunta? A vontade de encerrar a ligação na hora foi enorme, mas a lembrança da cara furiosa do Sudou me fez resistir.

— Certo. Se você responder, eu fico te devendo — concordei.

Horikita, percebendo o valor de sua resposta, fez uma breve pausa.

— Entendo. Bem, não é como se eu fosse uma entusiasta ou algo do tipo, mas seria mentira dizer que eu não gosto de adivinhação.

Isso era inesperado.

— Você já teve sua sorte lida antes? — perguntei.

— Claro que não. Só notei horóscopos e coisas do tipo no noticiário da manhã.

Provavelmente ela estava falando daqueles horóscopos diários baseados no mês de nascimento. Era difícil imaginar Horikita trocando de roupa ou comprando acessórios novos só porque a TV dizia que suas cores da sorte eram vermelho e branco.

— Por acaso você é viciado em adivinhação? — ela devolveu.

— Não, nada disso. É que andam rolando uns rumores sobre um vidente. Você ouviu falar?

— Um vidente? — Horikita ficou em silêncio por alguns segundos, depois respondeu com um tom que indicava compreensão. — Sim, parece haver uma grande comoção. Ouvi sobre isso.

— Bom, eu fiquei um pouco curioso. Dizem que as previsões são bem precisas, então queria ver o quão precisas são. Mas, honestamente, não consigo imaginar que algo como adivinhação possa ser tão certeiro.

Eu achei que ela concordaria comigo, mas aparentemente tinha outra opinião.

— Sério? Eu acho possível que alguém com habilidade real seja preciso.

— Impossível. Teria que ser psíquico — retruquei.

O poder de prever o futuro lendo o rosto ou as mãos de alguém, ou baseado apenas na data de nascimento? Ridículo. Eu não acreditava que isso existisse.

— Não é isso que eu quero dizer — respondeu Horikita. — Videntes não têm poder de ver o futuro. Isso é óbvio, não é? Seria tão tolo quanto alguém dizer que acredita em fantasmas. No entanto, a grande diferença entre videntes e "psíquicos" é que videntes reais fazem leituras baseadas em uma enorme quantidade de dados do passado. Em outras palavras, eles interpretam padrões para compreender as pessoas.

Horikita não era uma garota fantasiosa. Sua explicação era lógica e fundamentada.

— Em outras palavras, você está falando da capacidade de cold reading, certo? — perguntei.

— Você é bem atrevido, mas parece que sabe algumas coisas — disse ela, com um leve tom de divertimento. — Nós não conseguimos nos avaliar objetivamente. Porém, um bom vidente consegue extrair informações da pessoa durante uma curta conversa. Pode perceber coisas que a própria pessoa não notou. Não acha?

Cold reading. Literalmente, "leitura fria". Uma técnica que consistia em extrair informações através de conversas casuais, dando à pessoa a impressão de que você sabia mais do que realmente sabia. Observação e dedução para obter dados do seu alvo; e então fazê-lo acreditar que você podia ver o passado e o futuro dele. Parecia simples, mas extrair informações sem que o alvo percebesse exigia um nível altíssimo de habilidade.

— Eu estou um pouco interessado — admiti.

— Ótimo. Acho que você deveria ir — disse Horikita.

— Que tal vir junto?

— Você está brincando?

— Não, estou falando sério.

— Recuso — respondeu. Ela me rejeitou imediatamente, mas eu não podia simplesmente aceitar.

— Eu sou um completo novato nisso de adivinhação. Pensei que seria bom ter você junto, Horikita, pra me ajudar a entender melhor.

— Sinto muito, mas vou passar. Você sabe que eu não gosto de lidar com multidões, não sabe?

E isso era verdade. A adivinhação estava tão popular que certamente haveria muitos estudantes empolgados por lá. Talvez até alguns adultos do campus. Eu realmente não conseguia imaginar Horikita entrando num lugar lotado daquele jeito.

Se eu insistisse, só acabaria irritando-a. A mensagem estava clara. Sudou provavelmente não seria um problema tão grande assim. Provavelmente.

Depois de encerrar a ligação, mandei uma mensagem rápida para ele. Notei o "visualizado" surgir imediatamente. Logo em seguida, recebi uma resposta mal-humorada: "Então esquece."

Eu existia apenas como meio para Sudou convidar Horikita. E como falhei nisso, ele não tinha mais utilidade para mim. Bem, também seria meio estranho dois caras irem juntos a um vidente.

— Mesmo assim… um vidente, hein? — murmurei.

Depois daquela conversa com Horikita, minha curiosidade tinha despertado. Decidi ir conferir o vidente no dia seguinte.

*

 

Quem, em plena consciência, acharia uma boa ideia ir ver um vidente?

— Talvez eu tenha pisado na bola — murmurei.

O calor intenso do fim de agosto queimava minha pele. À frente, sobre o concreto e entre as árvores da rua, o ar tremeluzia devido à alta temperatura. Como os dormitórios tinham ar-condicionado, não sentíamos tanto calor lá dentro. Mas, sob a luz direta do sol, o suor começava a escorrer imediatamente.

O calor transformava qualquer um num boneco mole. Eu procurava desesperadamente alguma sombra. Felizmente, o campus da escola era bem amplo e cheio de árvores.

Eram 9h30 da manhã, ainda cedo para a maioria das atividades dos estudantes, enquanto eu caminhava em direção ao famoso vidente. As leituras só começariam às dez, mas eu não pretendia ficar muito tempo. Iria, teria minha sorte lida e iria embora rapidamente. Esse era o plano.

Mas, ao me aproximar do local, percebi que meu plano estava prestes a desmoronar.

Eu esperava que o Keyaki Mall estivesse quase vazio. Em vez disso, inúmeros alunos descansavam por lá com roupas de verão. Rezei para que não estivessem ali pelo mesmo motivo que eu — mas eu sabia que estavam. Pelo menos queria escapar do calor infernal entrando no prédio, então comecei a procurar o elevador, já que o vidente ficava no quinto andar.

— Urgh.

Soltei um resmungo. Quase dez estudantes estavam aglomerados diante do elevador. Será que alguém ali entenderia meu sofrimento? Quando eu pegava o elevador sozinho, normalmente ficava apertando o botão de "fechar" repetidamente. Não me sentia à vontade dividindo o espaço com grupos grandes de pessoas da minha idade. Precisaria de muita coragem para me enfiar naquele grupo.

Apesar de inconveniente, decidi dar a volta e pegar outro elevador. Do outro lado havia um bem menos cheio.

— Calma — murmurei.

Levar mais tempo e esforço para caminhar até lá valeu a pena pela paz mental. Quando cheguei ao quinto andar, segui em direção ao vidente. Porém, uma situação ainda mais desconfortável me aguardava.

— Tem casais por toda parte.

Garotos e garotas estavam emparelhados em todos os cantos. Vários pareciam estar namorando. Claro, havia grupos só de meninos e só de meninas, mas eram minoria.

Consultar um vidente sobre futuro amoroso e compatibilidade de casal devia ser comum. Mas isso tornava minha visita bem mais constrangedora do que eu imaginava. Quase ninguém vinha sozinho. Menos ainda garotos sozinhos.

De qualquer forma, havia uma fila se formando. Decidi entrar nela. Assim que fiz isso, uma mulher que observava a área falou comigo:

— Bom dia. Sua parceira vai se juntar a você depois? — ela perguntou.

— Parceira? Ah, não, sou só eu mesmo.

Não era estranho ela perguntar, mas a forma como disse aquilo soou desconfortável. Eu queria que fosse mais sensível com pessoas solteiras.

— Humm… — A atendente olhou para mim com expressão constrangida. — Sinto muito. Mas para ter sua sorte lida hoje, você precisa de uma parceira. Então…

— Eu não posso ter minha sorte lida se estiver sozinho?

Ela fez um pequeno aceno afirmativo e apontou para um aviso escrito.

— Atendimento somente para casais. Pedimos a compreensão.

Agora eu entendia por que Sudou insistiu tanto para que eu convidasse Horikita. Ele e ela teriam que entrar juntos e conversar durante o atendimento.

— Então ele nunca quis que eu fosse junto desde o início — murmurei.

O comportamento de Sudou ganhava outro significado. Ele nunca quis me convidar de verdade. Provavelmente teria arrumado uma desculpa para me dispensar assim que ficasse a sós com Horikita. Era meio triste.

— Por curiosidade, a regra é a mesma para a fila ao lado? — perguntei.

— Sim. Ukon-sensei está lendo a sorte apenas de casais — respondeu a mulher.

— Entendi.

Inclinei a cabeça em agradecimento e saí da fila. Os estudantes atrás de mim avançaram um passo.

Eu não acreditava que tinha caído numa situação dessas. Imaginei uma mulher solitária lendo a sorte na rua em troca de algumas moedas — mas a realidade era outra. Aparentemente, esse tipo de adivinhação romântica estava na moda. Eu até queria tentar, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Tentar convidar Horikita de novo seria perda de tempo.

Decidi sair discretamente.

— O quê? Então eu não posso ter minha sorte lida sozinha?

Ouvi uma voz irritada. Outro sofredor da vida de solteiro estava na fila ao lado. Me senti solidário e virei a cabeça para olhar. Infelizmente, fiz contato visual.

— Ah.

Era Ibuki Mio, da Classe C. Quando tentei fingir que não a tinha visto, ela veio atrás de mim. Acelerei o passo.

— Espera! — Talvez Ibuki achasse que eu estava tentando fugir (o que era verdade). Ela me agarrou pelo ombro.

— Quer alguma coisa? — perguntei.

— Onde está a Horikita?

Ela olhou ao redor enquanto perguntava. Ibuki era parecida com Sudou nesse aspecto: me via apenas como uma espécie de "whisperer da Horikita". Eu queria que fosse falar com ela diretamente e me deixasse fora disso.

— Não fico com ela o tempo todo, sabe. Hoje estou sozinho — respondi.

— Ah, entendi.

Durante o exame da ilha deserta, Ibuki tinha sido enviada para se infiltrar na Classe D. Sua missão era nos espionar e causar caos, e ela acabou trocando socos com Horikita. Desde então, Ibuki era hostil com ela. Provavelmente a via como inimigas mortais.

Ibuki, com seu jeito mal-humorado e antissocial, ainda assim tinha um ótimo senso de moda. Ela estava muito bonita. Com uma atitude um pouco diferente, poderia ser popular.

— Adivinhação costuma ser algo individual, não é? Eu não esperava isso de jeito nenhum. Concorda? — ela perguntou.

— Concordo. Era o que eu achava também.

— Então, você vai convidar a Horikita ou algo assim?

Primeiro Sudou, agora Ibuki. Parecia que Horikita era o único assunto possível quando eu estava envolvido.

— Não vou. Se você quer falar com Horikita, por que não fala diretamente com ela? Diga que quer ir ler a sorte juntas.

— Hã? Sem chance. Não tenho nada pra falar com ela.

Se é assim, então eu realmente queria que você parasse de trazê-la à tona.

— Eu nem estava tão interessado em ter minha sorte lida, pra começo de conversa, então estou de boa. E você? — perguntei.

— Eu estaria mentindo se dissesse que não fiquei irritada, mas… — Ibuki balançou a cabeça, frustrada.

— Bem, não tenho escolha além de desistir. De qualquer forma, eu sou péssima em conversar.

A resposta soou suspeita. Ibuki dizia ser ruim de conversa, mas, diferente de Sakura, ela nunca me pareceu alguém que tivesse dificuldade com isso. Na verdade, ela parecia conversar comigo com naturalidade — ou, pelo menos, ser naturalmente condescendente.

— Você podia convidar o Ryuen — sugeri.

Falei meio de brincadeira, mas Ibuki lançou um olhar cheio de desprezo.

— Você só pode estar brincando. Eu odeio olhar pra cara dele, mesmo quando sou obrigada. Quero distância dele nas minhas férias.

— Mas vocês estavam sempre juntos no navio, não é? É normal achar que vocês são próximos — observei.

Ibuki desviou o olhar.

— Aquilo foi porque eu falhei em descobrir quem era o líder da Classe D — respondeu em voz baixa.

Se aquilo fosse verdade, Ibuki só estava trabalhando ao lado de Ryuen para compensar seu erro. Isso não explicava tudo, claro, mas apenas a Classe C devia saber o motivo completo. E, de todo modo, Ibuki tinha descoberto a identidade do nosso líder durante o teste de sobrevivência na ilha. Ela descobriu que era Horikita — e não estava errada. Teria ajudado muito sua classe se eu não tivesse impedido.

— Queria te perguntar. No teste de sobrevivência, quem era o líder da Classe D?

— Quem sabe? — dei de ombros.

— Quem sabe? Não é como se você não soubesse.

— Mesmo que soubesse, não poderia te contar. Honestamente, eu não sei. A maioria de nós da Classe D não faz ideia. Acho que a Horikita agiu em segredo e deu um jeito de fazer tudo sozinha. É a única explicação que tenho.

Ibuki parecia tentar ler minha mente. Porém, eu não era alguém que se deixava decifrar facilmente.

— Se Ryuen não é opção, por que não convida alguma garota da sua classe? Aposto que você tem pelo menos uma amiga — sugeri.

— Se eu tivesse, não estaria nessa situação. Eu simplesmente detesto as garotas da minha classe — respondeu.

Ibuki era como Horikita. Na verdade, provavelmente até mais antissocial. Com a oportunidade certa, talvez até se dessem bem.

— Olha, você está conversando comigo numa boa agora. Não devia conseguir falar com qualquer outra pessoa também? Não acho que você seja ruim de lidar com gente — falei.

— Não é verdade. Quando você fala comigo, você sente alguma coisa, não sente? Eu sou toda… espinhosa.

— Bem, é. Acho que sim.

Interagir com Ibuki sempre me dava a sensação de estar sendo cortado por uma faca afiada. Era a melhor forma de descrever sua vontade de isolamento. Provavelmente os outros estudantes sentiam o mesmo.

— Não importa o que eu faça, o clima sempre azeda. Entende? — ela perguntou.

Eu ainda tinha minhas dúvidas sobre ela realmente ser ruim em conversar, mas era inegavelmente distante — até com os colegas de classe. Eu podia facilmente imaginá-la encarando o vidente de forma desafiadora.

— Se você é ruim de comunicação, me surpreende que queira ter sua sorte lida.

— Esse é o problema. Sou como alguém que ama gatos, mas tem alergia — respondeu.

Aquilo parecia realmente frustrante.

— Mas você foi ótima espionando a Classe D — retruquei.

Mal-humorada e antissocial como fosse, Ibuki não pareceu nem um pouco desagradável enquanto atuava como espiã. Nossa classe a aceitou sem suspeitar.

— Isso é diferente. De qualquer forma, falar com pessoas me deixa ansiosa. E quando fico ansiosa, fico irritada. Eu odeio isso. Não é como se eu quisesse ser assim. Espera… por que eu estou te contando isso? As pessoas podem ter a impressão errada sobre nós!

Atordoada, Ibuki virou o rosto para longe. Na verdade, essa deveria ter sido minha fala. Todos que estavam na fila ao nosso redor já tinham avançado, e agora éramos só nós dois. Os outros podiam facilmente interpretar mal.

Então… Ibuki ficava ansiosa ao falar com as pessoas? Se isso fosse verdade, a solução podia ser surpreendentemente simples. Mesmo sem saber a origem da ansiedade, eu podia trabalhar com aquilo.

— Mais cedo, você disse que ser espiã era diferente, não foi? — perguntei.

— Sim. Porque é um fato.

— Qual a diferença entre antes e agora?

Ibuki ficou quieta por um tempo.

— Não sei. É só… diferente — respondeu finalmente. Parecia ter desistido de tentar explicar.

— Você não pensou muito a respeito — comentei.

— Bom, não tenho como explicar por que é diferente. Eu só estava atuando.

— Não. Acho que é simples. A diferença entre você agora e você naquela época é consciência.

— Consciência? — Ibuki virou-se para mim, levemente interessada.

— Sua ansiedade vem de estar hiperconsciente da situação. Você projeta suas inseguranças nos outros, então trava quando conhece alguém pela primeira vez — expliquei.

— Do que você está falando? Digo, talvez seja diferente para pessoas boas com comunicação, mas praticamente todo mundo fica nervoso ao conhecer alguém pela primeira vez, não fica?

— Claro. Eu também fico. Mas você ainda se sentiria nervosa falando com o atendente da loja de conveniência? — perguntei.

— Hã?

— O atendente da loja que você frequenta sempre. "Tem cartão de pontos? Quer esquentar isso?" Você não fica ansiosa com esse tipo de pergunta, certo?

— Bom, i-isso é… — gaguejou.

Se comunicação fosse uma habilidade, como atletismo, era simples: você precisava treinar. Ibuki ficava nervosa porque estava consciente demais de com quem estava falando. "O que será que pensam de mim? Espero que gostem de mim. Será que são boas pessoas?"

Quando Ibuki se infiltrou na Classe D, provavelmente não teve tempo de pensar nisso. Ela estava atuando — sem se preocupar com como reagiriam ao seu "eu" verdadeiro. E, normalmente, já transmitia um ar de forasteira, o que serviu como disfarce perfeito.

— Pensando assim… acho que você tem razão — murmurou Ibuki.

— Você estava pronta para falar com o vidente cara a cara. É natural sentir ansiedade, mas não há motivo real para isso. Se você parar de pensar demais sobre comunicação, isso deve aliviar parte da tensão.

— Entendi. Espera aí, por que diabos você está me dando sermão? — Ibuki me lançou um olhar feroz, como se fosse pular em cima de mim.

— Quando você passa muito tempo sendo solitário, começa a entender essas coisas. Você se pergunta por que não consegue fazer amigos, pensa nas diferenças entre as pessoas que deixam você nervoso e as que não deixam. E por fim, acaba refletindo sobre de onde as pessoas vêm e para onde vão.

— Você é bizarro. Parece o tipo que vai virar assassino em massa no futuro. Sempre foi assim? — perguntou Ibuki.

— Mais ou menos.

As coisas tinham tomado um rumo bem estranho. Eu provavelmente parecia um excêntrico qualquer.

— Bem, vou voltar. E você? — perguntei.

— Acho que vou voltar também. Eu posso ter minha sorte lida sozinha, afinal. Mas eu estava realmente interessada em tenchuusatsu — disse ela.

Tenchuusatsu?

Não era exatamente uma palavra comum.

— Espera. Você veio até aqui sem nem saber o que é isso? — Ibuki suspirou, exasperada. — Simplificando, é um tipo de adivinhação que diz quais períodos são azarados para você.

Será que era realmente possível identificar esse tipo de coisa no destino de alguém? Meu conhecimento sobre adivinhação era limitado a coisas como "use vermelho" ou "cuidado para não perder nada este mês". Mas Ibuki fazia parecer que havia muito mais profundidade no assunto.

— Foi por isso que vim. Adivinhação não é só romance e essas bobagens — disse Ibuki, decepcionada, olhando para a longa fila.

— Talvez alguns tenham vindo exatamente por causa desse tenchuusatsu, ou seja lá como se chama — respondi.

— Mesmo assim, dá pra sentir que o foco é romance. Afinal, o vidente está obrigando a virem em dupla — rebateu.

Dito isso, Ibuki foi embora.

*

 

Depois que voltei ao dormitório, pesquisei sobre tenchuusatsu. O assunto era surpreendentemente profundo. Antes de 1980, tenchuusatsu tinha sido um tema muito comentado no mundo todo. Porém, conforme a popularidade cresceu, as pessoas começaram a duvidar da credibilidade. Houve até um caso de um vidente famoso que foi pressionado a se aposentar depois de abandonar o uso de tenchuusatsu.

Adivinhação podia ter algum valor, mesmo que depender demais dela fosse ruim. Do ponto de vista de um verdadeiro crente, devia parecer bem precisa.

Com esse pensamento, fiquei curioso. Mas não conseguia acreditar no que lia online. Era impossível prever o futuro. Eu queria experimentar tenchuusatsu pessoalmente para ver se era mesmo uma farsa. Queria que tudo aquilo fosse apenas uma extensão de cold reading.

— Será que tenchuusatsu só está sendo oferecido este mês? — murmurei.

Aparentemente, o grupo do vidente iria embora assim que as férias de verão acabassem. Não havia informação sobre um possível retorno. Talvez nenhum vidente visitasse aquela escola novamente.

Eu não tinha ninguém para convidar. Estava completamente sem opções. Horikita me rejeitaria se eu pedisse. Eu não tinha coragem de convidar Kushida. Sakura provavelmente aceitaria, mas levá-la a um lugar cheio de casais a deixaria desconfortável. Depois havia os caras — Sudou, Ike e Yamauchi — mas eles certamente não queriam desperdiçar os raros dias de férias indo ler a sorte com outro garoto.

— Estou sem opções, hein…

Além disso, eu não gostava nada da exigência de "apenas casais". Ibuki e eu concordávamos nisso. Isso afastava quem realmente queria tentar a adivinhação. Desisti e fechei a pesquisa.

*

 

No dia seguinte, depois de eu ter desistido, me peguei indo novamente na direção do vidente.

— Ah.

Mais um encontro bizarro; o destino tinha me reunido com Ibuki. Acabamos aparecendo no mesmo lugar, no exato mesmo horário.

— Por que você veio aqui de novo? E sozinho? — Ibuki olhou para mim com nojo. Parecia sinceramente repugnada pela minha presença.

— Eu poderia te fazer a mesma pergunta — retruquei.

— Bom, eu disse que gosto de adivinhação, não disse? Pensei que talvez conseguisse ter minha sorte lida, mesmo estando sozinha — respondeu ela.

Então Ibuki veio esperando que as regras tivessem mudado desde ontem. Perguntei-me se ela gostava tanto assim de adivinhação — e, se gostava, qual parte exatamente.

— Vou perguntar diretamente. Ibuki, você acredita em adivinhação? — perguntei.

— Está dizendo que eu não deveria acreditar?

— Não. Mas geralmente não é algo em que as pessoas começam a acreditar de repente, certo?

Nem todo mundo entendia que adivinhação era basicamente a aplicação de técnicas como cold reading. Muitos realmente acreditavam no poder misterioso da adivinhação.

— Acho que muita gente começa pensando assim. Mas, se você não superar isso, adivinhação provavelmente não é para você — disse Ibuki.

— Então você está dizendo que céticos não são qualificados para ter a sorte lida?

— Não, não é isso. Deixa eu explicar. Não é como se eu acreditasse cegamente em adivinhação. Mas pessoas que já começam excessivamente céticas não conseguem tirar nada dela. Pessoas que zombam de adivinhação geralmente levam vidas cheias de contradições. Por exemplo, dizem que não acreditam em kami nem em Buda, mas quando estão com problemas, pedem ajuda para uma força maior, não é?

Era um bom argumento. Deuses não existiam — assim como fantasmas —, mas muitos que diziam coisas como "Deus não existe" ainda visitavam santuários no Ano Novo. Rezavam por saúde, sucesso nos estudos, negócios ou romance. Juntavam as mãos e diziam: "Por favor, Kamisama, ouça minhas preces."

O que você acreditava e o que desejava eram coisas infinitamente diferentes — e ninguém podia negar isso. Ainda assim, adivinhação não era a mesma coisa que acreditar em uma força superior. Videntes eram só pessoas comuns. E eu não conseguia deixar de ser cético.

— Entendeu? — perguntou Ibuki.

— Sim.

Eu ainda tinha minhas dúvidas, mas entendi o essencial. Então fiz uma sugestão.

— O vidente só atende duplas, mas ele não faz leituras apenas sobre romance, certo?

— Claro que não.

— Nesse caso, que tal irmos juntos? Nós dois realmente estamos interessados em adivinhação. Já que não temos nenhum relacionamento que possa provocar mal-entendidos no futuro, não deve haver problema.

Eu realmente não sentia absolutamente nada por Ibuki. Minhas emoções eram uma linha reta — nem positivas, nem negativas. Era como lidar com um cliente qualquer numa loja.

— Bom, eu não me importo. Quero ter minha sorte lida, afinal. E você está bem com isso? — ela perguntou.

— Mesmo que a Horikita estivesse aqui, ela é só uma amiga.

— Não é isso que eu quis dizer. Alguns alunos ainda guardam rancor de mim por causa do que aconteceu na ilha.

Ibuki estava tentando me proteger, de certa forma. Preocupada que, se meus colegas nos vissem juntos, pudesse sobrar para mim.

— Não acho que você precise se preocupar com isso.

Ibuki inclinou a cabeça, confusa.

— Não entendo.

— Se todos aqui na escola se dessem bem, então sim, o que você fez seria considerado uma violação moral gigantesca. Porém, a escola acredita que habilidade é tudo. Além disso, as classes estavam competindo umas contra as outras. Espionar e sabotar são táticas naturais nessas circunstâncias. Estou errado?

— Mas muitas pessoas agem pelas emoções, e não pela lógica, e não vão aceitar isso. Nem todo mundo tem essa flexibilidade mental.

— Não acho que gente assim teria sido aceita nesta escola para começo de conversa.

Ibuki cruzou os braços, pensativa.

— Você é surpreendentemente descarado, sabia?

— Sou só um estudante comum. Não tenho interesse em subir na hierarquia nem em ser chutado para fora dela. Se trabalhar com alguém como a Horikita me permite levar a vida num ritmo confortável, então sou sortudo.

— Isso não é incomum. Todo aluno daqui está de olho nos privilégios especiais que vêm com a formatura. Mas ninguém esperava que a escola fosse nos fazer competir desse jeito, então tenho certeza de que muitos estão confusos.

Aparentemente, os alunos da Classe C não eram tão diferentes da Classe D. Isso significava que Ibuki, que chamou a atenção de Ryuen logo no início, devia ser formidável. E, de fato, depois que sua identidade como espiã foi revelada, ela ficou ao lado dele em várias ocasiões. Ela dizia estar apenas compensando a falha, mas parecia que Ryuen confiava nela ao menos um pouco.

Ibuki e eu entramos na fila. A atendente do dia anterior voltou para confirmar que éramos uma dupla e nos entregou bilhetes. Havia oito casais na nossa frente.

— Parece que vamos esperar bastante — suspirei.

Se houvesse apenas um vidente disponível, levaríamos mais de uma hora, mesmo que eles fossem eficientes. Como nós dois suportaríamos tanto tempo? Eu certamente não conseguiria manter uma conversa longa.

— Estamos juntos só para ter as sortes lidas. Não precisamos desperdiçar tempo com conversa fiada, certo? — disse Ibuki.

— Acho que você tem razão — respondi.

Ela tinha percebido exatamente o que eu estava pensando. Ótimo. Isso me poupava muito esforço.

*

 

— Próximos, por favor.

Era o meio da tarde quando ouvi aquela voz suave vindo da tenda improvisada.

— Desculpem por fazê-los esperar.

No fim, cada leitura levava cerca de quinze minutos por dupla, o que obrigou Ibuki e eu a ficarmos na fila ainda mais tempo do que imaginávamos. Justo quando eu começava a me perguntar se ainda ligava para adivinhação, atravessei a cortina e entrei no recinto onde o vidente esperava.

Ao entrar, encontrei um ambiente que parecia saído direto de um programa de TV. Era escuro lá dentro, talvez uns 30 lux. O vidente parecia ser uma mulher idosa, mas o capuz que usava escondia seu rosto, então eu não conseguia ver sua expressão. À sua frente, havia um livro grosso — cujo conteúdo eu só podia imaginar — e uma espécie de bola de cristal, que mais lembrava aquelas usadas no lançamento de martelo no atletismo.

O clima era impecável.

A bola de cristal começou a brilhar imediatamente, como se fosse refletir o futuro de Ibuki e o meu. Havia dois assentos sem encosto diante da vidente. Assim que nos sentamos, ela soltou uma risadinha leve e moveu a mão direita.

— Primeiro… vocês devem pagar — ordenou.

Ela puxou um pequeno leitor de cartões debaixo da mesa e o colocou diante de nós. Aquela peça de tecnologia moderna parecia totalmente deslocada naquele cenário místico. Mas, claro, eu não esperava que a consulta fosse gratuita.

— Que tipo de leitura você faz? — perguntou Ibuki, entregando seu cartão de estudante.

— Pode ser sobre estudos, carreira, vida amorosa… o que quiserem — respondeu a vidente, exibindo um sorriso perturbador. A expressão combinava com o clima, mas ela parecia menos uma vidente e mais uma bruxa.

A lista de preços que nos mostrou era estranhamente variada. Havia diversas categorias. O "Plano Básico" incluía os serviços que ela acabara de mencionar. Outros planos pareciam relacionados a tenchuusatsu. Havia até opções que permitiam ver o fim da própria vida. E, claro, como era uma atividade para casais, muitas opções envolviam romance.

Eu me perguntava o que um casal faria se a vidente dissesse que tinham péssima compatibilidade amorosa. De qualquer forma, tudo era caro. Gastaríamos mais de 5.000 pontos.

— É muito dinheiro — suspirei.

Para um aluno da Classe D como eu, que vivia com poucos pontos, aquilo doía. Mesmo assim, teria sido inútil voltar para o dormitório sem descobrir mais sobre tenchuusatsu. Eu podia apenas ouvir a leitura da Ibuki e ir embora, mas assim eu não saberia o quão confiável era a vidente.

Só por garantia, conferi meu saldo no celular. Eu tinha cerca de 6.000 pontos: o suficiente, por pouco.

— Vou ficar com o Plano Básico — disse Ibuki.

Apesar do interesse inesperado em adivinhação, ela não parecia querer uma leitura aprofundada.

— E você? — perguntou a vidente.

— O mesmo — respondi.

Parecia até que eu estava fazendo um pedido em um restaurante. Apresentei meu cartão de estudante, e o leitor apitou ao descontar os pontos.

— Muito bem, vamos começar pela senhorita. Qual é o seu nome?

— Ibuki. Ibuki Mio — respondeu ela, sem emoção.

— Quando faço uma leitura, vejo o rosto, a mão e o coração da pessoa. Posso ver coisas que você não vai gostar. Está preparada para isso? — perguntou a vidente.

— Faça o que quiser — respondeu Ibuki.

Vi parte da pele enrugada da vidente sob o capuz, juntamente com um brilho afiado no olhar. Ela pediu que Ibuki estendesse as mãos e então começou:

— Primeiro, a leitura das mãos. Sua linha da vida é longa. Você tem uma vida longa, muito longa, pela frente. Não vejo sinais de que sofrerá grandes doenças, por enquanto.

Um começo típico. Eu duvidava que fosse possível adivinhar tudo isso só pelas linhas da palma. Talvez ela baseasse suas leituras em experiências pessoais?

Se fosse eu, avaliaria a saúde de alguém pela aparência: compleição, postura, vitalidade.

Mas a vidente continuou a leitura longamente, fornecendo previsões sobre estudos, finanças, amor e outras áreas. Pareciam previsões comuns e inofensivas para mim, mas Ibuki ouvia com satisfação. A vidente não disse nada particularmente negativo. A maior parte era sobre um futuro promissor. Às vezes, dava alguns avisos, mas nada grave.

— Muito obrigada — disse Ibuki, inclinando a cabeça, genuinamente agradecida.

Agora parecia ser minha vez — finalmente, eu teria a oportunidade de entender essa coisa de adivinhação.

A vidente seguiu o mesmo procedimento que usara com Ibuki, e as respostas que recebi eram quase idênticas às dela. As coisas eram essencialmente boas, mas ela disse que, em algum momento no futuro, eu precisaria ter cuidado para evitar um desastre.

— Entendo… Parece que você teve uma infância difícil — continuou.

Uma afirmação bem genérica. A maioria das pessoas diria que passou por dificuldades quando criança, especialmente meninos. Eu queria respostas mais concretas. E era estranho que uma vidente, supostamente focada no futuro, estivesse falando sobre o passado.

Ibuki continuou imóvel, sem interromper, nem mesmo bocejar, ouvindo com atenção. Talvez aquilo fosse parte essencial da experiência. Ou talvez fosse um ritual necessário: começar pelo passado.

Seres humanos eram convenientes. Uma vez convencidos de que teriam "boa sorte", passavam a reinterpretar qualquer coisa positiva como confirmação da profecia. Ah, minha sorte estava certa, pensariam. Mas, no fim, todo mundo tinha "boa sorte" em algum momento — porque a vida trazia momentos bons e ruins.

— Isto é… — A vidente parou o movimento das mãos. — Você possui o destino tenchuusatsu! — exclamou.

— O quê—? Sério? — Ibuki arregalou os olhos.

Mesmo sendo a minha fortuna, eu era a pessoa menos surpresa ali. Eu nem conhecia a palavra tenchuusatsu até o dia anterior. A vidente e Ibuki pareciam muito mais chocadas do que eu.

— Simplificando, você viveu uma vida de azar constante desde que nasceu — explicou Ibuki.

— Isso é incrível! — exclamou a vidente.

Podia ser coincidência, mas aquilo era verdadeiro. Ainda assim, vago. E, do ponto de vista cético, muita gente dizia que tinha "má sorte na vida". Imaginei que fosse arriscado para a vidente fazer uma previsão tão negativa.

— Então esse destino tenchuusatsu vai se aplicar a partir de agora? — perguntei.

— A menininha não estava totalmente certa ao dizer que tenchuusatsu significa uma vida de desgraça — respondeu a vidente.

— Menininha? — repetiu Ibuki, irritada.

— O destino tenchuusatsu é realmente raro. Entretanto, isso não significa necessariamente que sua vida inteira será marcada por infortúnio. É verdade que, no geral, a previsão é ruim. Há aspectos negativos: você não terá a bênção dos seus pais, ou da sua família. Mas o restante depende de você. Só você decide o que pode e o que não pode fazer — explicou a vidente.

Ela tinha uma expressão sombria, mas seus olhos transmitiam compaixão.

— Você não precisa ser pessimista, nem agir como se estivesse estrelando uma comédia — acrescentou.

Eu tinha ouvido algumas coisas interessantes, mas no fim, era apenas adivinhação. Eu não estava à beira da cadeira de ansiedade. Quando tentei me levantar, a vidente me deteve.

— Tenho mais um conselho para você. Vá direto para casa, sem fazer nenhum desvio. Se desviar, pode acabar preso por um bom tempo. Mesmo que isso aconteça, não entre em pânico. Se permanecer calmo e trabalhar em conjunto, conseguirão superar — disse ela.

Palavras proféticas.

*

 

— Então, como foi sua primeira experiência com adivinhação? — perguntou Ibuki.

— E a sua?

— Acho que fiquei satisfeita, no geral. Aquela vidente é bem famosa. Dizem que ela é muito precisa.

— Entendo. Parece uma profissão simples, mas imagino que seja difícil — respondi.

Adivinhação era baseada parcialmente em modelos. Um vidente misturava generalizações improvisadas com verdades calculadas para gerar expectativa no cliente. Não era só sorte — era prática e experiência.

— Não vou mais desprezar adivinhação — acrescentei.

— Ah, entendi.

A resposta de Ibuki foi curta, desinteressada. Caminhamos até o elevador.

— Urgh. Está lotado de novo — resmunguei.

Se eu continuasse, era inferno. Se voltasse, era outro tipo de inferno. Vários estudantes aglomeravam-se na área do elevador.

— Desculpa, mas acho que vou procurar outro caminho pra casa. Vou dar a volta — avisei.

— É, eu também.

Enquanto íamos até o outro elevador, lembrei-me das palavras da vidente.

— Pensando bem, mais cedo…

— A vidente disse para não pegar desvios — completou Ibuki.

Nossos olhares se encontraram por um instante. Coincidência ou inevitabilidade, acabamos escolhendo o desvio mesmo assim.

— Bem, pode ser interessante. Vamos ver o quão precisa ela é — murmurei.

Chegamos ao elevador sem incidentes. Não havia ninguém por perto quando apertamos o botão.

— Primeiro andar está bom?

— Sim — respondeu Ibuki.

Parecia que nossos caminhos logo se separariam. Apertei o botão do primeiro andar. As portas se fecharam, e o elevador começou a descer. Sem assunto para conversar, seguimos em silêncio.

Porém, quando a luz do terceiro andar acendeu, o elevador fez um barulho pesado, rangendo — e parou.

Parecia menos uma parada para embarque, e mais um colapso mecânico. As luzes se apagaram; por um instante, tudo ficou completamente escuro, até a luz de emergência acender.

— É uma queda de energia? — perguntou Ibuki.

— Parece que sim — respondi. Se era isso que a vidente quis dizer com "ficar preso", ela acertou em cheio.

— Não deveríamos usar o telefone de emergência?

Não havia motivo para pânico. Elevadores tinham medidas específicas para emergências. Havia câmeras internas e um botão de interfone conectado ao centro de atendimento. Ibuki encostou na parede do fundo. Mesmo não sendo bom em lidar com pessoas, decidi apertar o botão de chamada.

Mas…

— Não tem resposta — falei.

Eu não sabia se o telefone do outro lado tocava ou não, mas não havia sinal de conexão com o centro de emergência.

— A chamada não está indo por causa da queda de energia? — perguntou Ibuki.

— Não. Elevadores têm uma bateria reserva que dura algumas horas. A luz de emergência estar ligada prova isso. Acho que isso significa uma falha interna mais séria.

Apertei também o botão destinado a deficientes auditivos, mas nada aconteceu. Talvez o painel inteiro tivesse parado. Pelo menos a bateria mantinha o ar-condicionado funcionando. Isso era um alívio — mas ainda assim, o que faríamos?

— Consegue tentar ligar para a escola com seu celular? Devemos estar no alcance — sugeri.

— Desculpa, mas… pode fazer isso? — ela pediu.

— Eu sei que você não gosta de falar com pessoas, mas isso você consegue, não?

— Ugh… — grunhiu.

Com expressão irritada, Ibuki puxou o celular. Mas, ao olhar para a tela, seu rosto ficou ainda pior. Ela virou o aparelho para mim: um aviso de bateria fraca. Logo em seguida, o telefone desligou.

— Eu não falo com ninguém, então nunca percebo quando a bateria está acabando. Você liga — resmungou Ibuki.

— Acho que não tenho escolha — respondi.

Puxei meu celular. Assim que vi a tela, meu corpo ficou rígido.

— Anda logo — pressionou Ibuki.

— Aparentemente, nossa situação é bem mais séria do que eu imaginava.

A bateria estava em apenas 4%. Como uma chama fraca prestes a se apagar ao menor sopro de vento.

— Você só pode estar brincando — rosnou Ibuki.

— Sou igual a você. Como quase não tenho com quem falar, nunca olho a bateria.

— Você é um homem inútil.

— Você está sendo meio cruel, considerando que nós dois estamos na mesma situação. Certo, para quem eu ligo agora?

Olhei ao redor em busca de alguma informação de contato dos serviços de emergência, e encontrei um número de dez dígitos perto do painel de botões. Porém, graças a algum idiota que achou que era engraçado, os últimos quatro dígitos estavam rabiscados com marcador permanente.

— Uma pegadinha dessas é maldade — murmurei.

— Por que você não liga para alguém que você conheça? — sugeriu Ibuki.

— Alguém que eu conheça, huh? — Quem eu chamaria? — Talvez a Horikita?

— Não — cortou Ibuki imediatamente.

— Imaginei que diria isso.

— Se você ligar para ela, isso significaria que ela viria nos salvar, certo? Dá um tempo.

Eu não achava que importava quem nos resgataria. Além disso, não era como se Ibuki fosse responsável por nada disso; o elevador simplesmente quebrou. Não havia motivo para ela se preocupar… talvez só não quisesse parecer fraca diante da rival.

— Você não quer problemas, né? — arrisquei.

Ibuki assentiu de leve.

Então precisávamos de alguém que viesse nos ajudar sem alarde. Isso eliminava os três idiotas — Sudou, Ike e Yamauchi. Eles transformariam tudo num circo e ainda contariam a história para todos.

Sakura não espalharia fofoca, mas provavelmente entraria em pânico. Difícil contar com ela.

Kushida e Karuizawa também não eram boas opções: cada uma complicaria a situação por motivos diferentes.

Alguém que ajudaria sem causar problemas… havia uma única pessoa.

— Vou respeitar seu pedido. Mas me deixa escolher quem vamos contatar — falei.

— Desde que não seja a Horikita.

Liguei para ele imediatamente. Depois de tocar algumas vezes, o sujeito taciturno atendeu calmamente. Expliquei a situação e pedi ajuda. Mas, pouco depois de começar a falar, meu celular morreu. A tela apagou sem cerimônia.

— Acabou a bateria — informei Ibuki.

— Ele ouviu a mensagem?

— Provavelmente.

Agora só restava esperar. Não havia motivo para pânico — alguém notaria nossa ausência cedo ou tarde. Se tentássemos um resgate improvisado, igual em filme, só correríamos risco de machucar alguém — ou a nós mesmos.

Mas então a situação tomou um rumo inesperado. Ouvimos um rangido interno alto no elevador. O ar fresco que vinha da ventilação parou.

— Não — gemeu Ibuki.

Ela finalmente parecia perturbada. Estávamos presos em um espaço fechado no meio do verão. A temperatura aumentaria bastante. Por enquanto só estava um pouco mais quente, mas logo estaríamos encharcados de suor.

— Será que dá para escapar sozinhos? — perguntou Ibuki.

— Parece que tem uma escotilha de emergência, mas…

Poucos elevadores ainda tinham aquilo hoje em dia, mas lá estava um painel quadrado no teto. Era o tipo de coisa que se via muito em filmes, mas raramente existia de verdade.

— Como vamos abrir isso? — perguntou Ibuki.

Normalmente, você não podia abrir a escotilha por dentro. Ela existia para que resgatadores pudessem entrar quando as portas travassem. Provavelmente estava trancada por fora, exceto em inspeções.

— Acho melhor esperarmos. Em emergências dentro de elevadores, a regra de ouro é ficar parado e aguardar — expliquei. Era o caminho mais seguro.

— Se você aguenta ficar dentro de uma sauna, claro — rebateu Ibuki.

Enquanto trocávamos farpas, a temperatura subia. Eu entendia a vontade de sair, mas decisões ruins só nos colocariam em perigo. Tirei o casaco e me sentei no chão. Em situações assim, manter a calma era essencial.

— Que tal você sentar também? Se estiver calor demais, tire algumas roupas — sugeri.

— Hã? Não me venha com segundas intenções numa situação dessas. Está pensando besteira, não está? — Ibuki me lançou um olhar desconfiado.

Ela tinha interpretado errado minhas palavras.

— Eu ouvi dizer que você lutou de igual para igual com a Horikita. Não existe chance de eu vencer alguém como você numa briga.

— Bom… isso é verdade, mas…

— Se quiser tirar alguma peça, eu viro de costas. Relaxe — acrescentei.

— Eu não vou tirar roupa nenhuma! — ela explodiu.

Ibuki se sentou com um baque forte. Esperamos em silêncio por uns trinta minutos, mas nada aconteceu.

— Isso não está bom — murmurei. A respiração de Ibuki estava ficando pesada.

Suor escorria da nossa testa e pingava do cabelo. Minha camisa estava tão encharcada que parecia que eu tinha ficado sob uma cachoeira. A situação era muito mais séria do que eu havia previsto. Aquele elevador estava instalado na parede externa do Keyaki Mall. Eu não tinha percebido por causa do ar condicionado, mas isso tornava tudo ainda mais quente.

Crianças já morreram ao ficarem trancadas em carros no verão — o mesmo risco valia para adultos. Estávamos perto do limite.

— Eu não aguento mais! Sai da frente! — gritou Ibuki.

Ela se levantou e chutou a parede do elevador com toda a força, deixando um amassado. Chutou de novo no mesmo ponto. O elevador balançou ligeiramente, mas não se moveu.

— Você só está desperdiçando energia. Embora… ficar parado também não parece mais a opção mais segura — murmurei.

Mesmo que alguém do lado de fora tivesse percebido o elevador parado logo depois da falha, a equipe de resgate levaria cerca de trinta minutos para chegar. Eles podiam chegar a qualquer momento… mas, se ficássemos presos por muito mais tempo, a insolação seria inevitável. Nossas vidas poderiam estar em risco.

— Acho que não temos escolha — murmurei.

Eu não pretendia morrer assado numa sauna de elevador.

— Devemos chutar a porta? Ei, vamos chutar? — Ibuki já estava à beira da loucura.

— Vamos tentar abrir a escotilha lá em cima — sugeri. O mais importante era criar uma abertura, mesmo que não conseguíssemos escapar por ela. — O teto deve ter uns dois metros… provavelmente 2,2 ou 2,3…

Mesmo esticando totalmente o corpo, eu não alcançava.

— Sai da frente — rosnou Ibuki.

Ela saltou bem embaixo da escotilha. Um salto impressionante. Estendeu o braço e empurrou com toda força, mas a tampa nem se mexeu. Quando caiu, o impacto fez o elevador balançar violentamente.

— Parece que está travada — disse ela.

— É — concordei.

— Você disse que provavelmente estava trancada, mas como? Qual o mecanismo?

— Deve haver um cadeado, mas… nesse caso, o que podemos fazer?

Para ser honesto, eu não tinha ideia.

— Eu vou chutar.

— Não. Isso é impossível — respondi.

Ibuki podia ser muito confiante na própria força, mas não havia como arrombar aquilo com um chute.

— É uma saída de emergência, certo? Isso significa que os socorristas precisam conseguir abrir por fora. Então, do ponto de vista deles, a força necessária deve ser mínima — argumentou ela.

Eu entendia o que Ibuki queria dizer, mas não era tão simples. Além disso, era difícil chutar algo que ficava no teto.

— Não vamos saber se não tentarmos — insistiu Ibuki.

Ela começou a analisar as paredes, e por um momento achei que planejava se impulsionar nelas.

— Puxa, então o aviso da vidente realmente se concretizou, não foi? — comentei.

— Hã? Do que você está falando?

— A velha disse para eu não entrar em pânico se ficasse preso. Disse que eu deveria cooperar. — Olhei para os botões do painel. — O botão de emergência não respondeu e a chamada não conectou. Mas… e os outros botões?

Como o botão do primeiro andar ainda estava aceso, a bateria devia estar funcionando. Apertei o botão do segundo andar como teste — e ele acendeu. Valia tentar. Comecei a apertar botões aleatoriamente.

— Isso é inútil — repreendeu Ibuki. — A única opção é chutar tudo até abrir, certo?

— Não, há outra forma. Elevadores têm um comando de cancelamento, não têm?

Eu não era especialista, mas sabia de algumas coisas. Era possível cancelar um comando quando você apertava um andar errado por engano. Os comandos variavam conforme o fabricante; às vezes bastava ficar pressionando um botão.

Continuei apertando o botão do segundo andar, até que a luz apagou.

— Com certeza existem comandos de "modo expresso" também — murmurei.

— Expresso?

— Digamos que estamos no terceiro andar e queremos descer ao primeiro. Normalmente, o elevador pararia no segundo se alguém chamasse lá. Mas, com o modo expresso, ele ignora e vai direto ao destino.

Eu não sabia se aquele elevador tinha esse recurso.

— Vale tentar? — perguntou Ibuki.

— É melhor do que tentar arrombar o teto.

Na verdade, eu duvidava que aquilo funcionasse. Eu só queria ganhar tempo e dar alguma esperança à Ibuki — antes que ela perdesse completamente o controle.

— Me ajuda a pensar. Se nós dois tivermos ideias, podemos acabar encontrando a solução — sugeri.

Comecei a apertar repetidamente o botão do primeiro andar e, ao mesmo tempo, outros botões. Mas nada acontecia.

— Deixa eu tentar.

— Vá em frente.

Ibuki começou a apertar diferentes combinações. Precisaríamos mesmo de um plano caso a ajuda não chegasse. Talvez chutar a porta fosse algo a considerar de verdade. Mesmo que não conseguíssemos abrir tudo, uma abertura mínima já ajudaria.

Eu preferia não recorrer à força bruta, mas escapar era prioridade.

— Eu não entendo nada sobre esses comandos, mas não acho que você consiga ativar um modo expresso só apertando botões aleatórios — disse Ibuki.

Era verdade. Crianças apertavam botões aleatoriamente o tempo todo; se isso ativasse modos especiais, seria um caos.

— Nesse caso, melhor evitar combinações complexas — concluí.

Se para ativar o modo expresso fossem necessários códigos como "1-6-5-5-4-2-4-andares", ninguém lembraria. E seria estranho ter algo assim num elevador de apenas três ou quatro andares.

— Devíamos tentar o botão de emergência também. Então… um, dois ou três? Junto com abrir e fechar, isso dá cinco botões.

— Deve ser alguma combinação dessas — concordei.

Se houvesse mais opções, testar tudo seria impossível. Ibuki começou a calcular combinações possíveis, e eu fui mentalmente eliminando aquelas que não funcionavam.

— Ah, eu não aguento mais! Está quente demais! — reclamou Ibuki.

Ela socou a parede para aliviar a frustração. Como ela estava à beira do colapso, decidi deixar passar.

— Isso não está abrindo. Já testamos tudo? — perguntou ela.

— Quase. Se ainda restar alguma combinação…

Havia uma última possibilidade. Resolvi tentar mais um comando.

— Que tal apertar o botão do andar desejado ao mesmo tempo que o botão de fechar as portas? — sugeri.

— O botão de fechar? Certo.

Ibuki murmurou sem muita fé, mas testou a combinação.

Eu não esperava que funcionasse… mas o elevador começou a se mover. Ibuki e eu trocamos um olhar incrédulo. Alguns segundos depois, chegamos ao primeiro andar, e as portas se abriram lentamente. Um ar fresco entrou na cabine. Dois adultos nos observavam, com expressões de choque.

— Vocês estão bem?! Estão machucados?!

— Estamos bem, não nos machucamos. Só estava muito quente lá dentro — respondi.

Pelo estado encharcado em que estávamos, eles provavelmente perceberam o inferno que fora. Eles nos entregaram bebidas esportivas imediatamente e mandaram que fôssemos ao consultório médico para exames, por precaução.

— Ah, posso perguntar uma coisa? Fomos nós que fizemos o elevador se mover? — perguntei.

— Não, fomos nós que o movemos daqui.

Eles tinham um controle remoto especial que permitia operar o elevador do primeiro andar. Ou seja, Ibuki e eu não tínhamos ativado modo expresso algum — havíamos apenas pressionado os botões no exato momento em que os adultos acionaram o elevador remotamente.

— Vocês devem ter passado um aperto lá dentro.

— É, foi um desastre. Adivinhação é coisa séria — disse Ibuki.

Enquanto eu agradecia aos adultos, um homem que observava de longe se aproximou.

— Você está bem, Ayanokoji? — perguntou o homem grande. Ele parecia mais preocupado do que alguém daquele tamanho deveria parecer.

— Foi você quem nos resgatou — falei.

O homem, Katsuragi, provavelmente era quem tinha atendido meu pedido de ajuda.

— Eu entendi a situação pela informação que você me passou no telefone. Imagino que estejam aliviados por ter descido — respondeu.

— Preciso ir ao consultório agora, mas depois agradeço como deve ser — prometi.

— Não é necessário. Você e Sudou me ajudaram muito. Existem limites que não podemos ultrapassar, já que somos de classes diferentes, mas acredito que cooperação é algo excelente — disse Katsuragi.

— Parece que as coisas deram certo para você — comentei.

— Sim. Sudou teve um desempenho brilhante. Por favor, agradeça a ele de novo por mim.

— Pode deixar.

— Eu também devo agradecer você, Ayanokoji. Apesar de todas as evidências, imagino que tenha havido resistência ao plano que propus.

Katsuragi inclinou a cabeça, em sinal de gratidão. E eu também devo muito a ele — se tivesse ficado mais tempo naquele elevador, talvez tivesse perdido a cabeça.

— Se precisar de mais alguma coisa, entre em contato. Ajudarei com qualquer coisa… exceto provas, claro — disse ele, rindo levemente.

Com isso, ele se virou e foi embora. Katsuragi e eu estávamos começando a nos tornar amigos de verdade. Já éramos quase tão próximos quanto eu era dos três idiotas — talvez até mais.

Mas por que eu tinha o contato de Katsuragi, mesmo sendo ele da Classe A? E como ficamos tão próximos?

A história da nossa amizade havia começado algum tempo atrás.


ENTRE NO DISCORD DA SCAN PARA FICAR POR DENTROS DOS PROXIMOS LANÇAMENTOS DE COTE! 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora