Ano 1 - Volume 11
Capítulo 5: Armadilhas, Comida Caseira e um Pedido
UM INCIDENTE BASTANTE incomum ocorreu naquele mesmo dia. Aconteceu no início do intervalo do almoço, quando o Grupo Ayanokoji estava a caminho da cafeteria. Enquanto eu caminhava com Akito e os outros, ouvimos alguém gritar, de forma um tanto agressiva.
— Vamos, Ichinose. Precisamos dizer alguma coisa sobre isso! Temos que protestar!
A pessoa que havia gritado aquelas palavras era ninguém menos que Shibata, da Classe B do primeiro ano. Ele estava acompanhado por outros dois alunos da Classe B: Ichinose e Kanzaki.
— Hã, isso não é algo que se vê todo dia. É bem incomum o Shibata-kun ficar tão irritado — disse Haruka.
— É, definitivamente não é algo que eu esperaria — respondeu Akito.
A surpresa deles era compreensível.
— Sério? — perguntou Airi.
Ela parecia não saber absolutamente nada sobre aquilo, já que não costumava se envolver com as outras turmas. Shibata fazia parte do clube de futebol. Era alegre, extrovertido e popular, embora um pouco diferente de Hirata. Até onde eu sabia, ele não era do tipo que levantava a voz daquele jeito.
— Mas não é possível que tenha sido só uma coincidência? — respondeu Ichinose com calma, tentando argumentar com o irritado Shibata.
No entanto, Shibata parecia convencido do contrário, porque imediatamente negou essa possibilidade.
— Não foi. Essa já foi a terceira vez só hoje. Entendeu? Eles estão definitivamente tentando arrumar briga! — afirmou.
Kanzaki nos notou a caminho do almoço e fez um gesto discreto para Shibata, que olhou para nós com uma expressão constrangida no rosto. Ele tentava disfarçar, mas já era tarde demais. Instalou-se um silêncio constrangedor.
— Ei, vocês estavam indo almoçar? — perguntou Ichinose, chamando nossa atenção.
Ela não se dirigia a ninguém em específico, mas sim ao nosso grupo como um todo. Meus amigos não haviam interagido muito com a líder da Classe B, então ficaram meio sem jeito, sem saber como responder. Haruka, que estava ao meu lado, cutucou minha costela com o cotovelo. Decidi falar em nome do grupo.
— Sim. Estamos indo para a cafeteria. O que houve?
Depois de ouvir minha resposta, Ichinose juntou as mãos, animada.
— Ah, que coincidência! Nós também estamos indo para lá — respondeu. Notei algo um pouco estranho. Normalmente, Ichinose sempre fazia contato visual comigo quando conversávamos. Mas hoje, não estava fazendo isso. — Ei, se vocês quiserem, que tal almoçarmos todos juntos? — sugeriu.
Todos do Grupo Ayanokoji trocaram olhares, um pouco confusos com aquele convite inesperado.
— O que você está fazendo, Ichinose? — perguntou Kanzaki.
Ele parecia um pouco nervoso e confuso, provavelmente porque não esperava que ela nos fizesse um convite daqueles.
— O que estou fazendo…? Não estamos competindo com a Classe C nem nada, então não tem problema, tem? — respondeu ela.
— Bem, é verdade, não tem, mas…
Kanzaki não parecia muito aberto à ideia de nos convidar para almoçar com eles. Mas, se Ichinose já havia decidido, não havia como recusá-la. Nós, por outro lado, ficamos sem saber o que fazer ou como responder…
— Vamos, o tempo está passando! — disse Ichinose alegremente. Quando ela sorria daquele jeito, não havia como alguém recusar.
*
Juntamos duas mesas em um canto da cafeteria e almoçamos juntos. Não só o grupo era formado por alunos das Classes B e C, como também era, no geral, uma combinação bastante incomum de pessoas.
— Desculpem por convidá-los tão de repente. Mas hoje é por minha conta, então, por favor, aproveitem! — desculpou-se Ichinose, antes de anunciar isso com alegria.
— Você tem certeza disso, Ichinose? — disse Kanzaki, reagindo fortemente à oferta dela de pagar para todos.
No último exame especial, Ichinose havia feito um acordo com a Classe D. Ela fez com que sua turma desse os votos de elogio para Ryuen, impedindo que ele fosse expulso, e, em troca, salvou um aluno da Classe B do mesmo destino. Ao fazer isso, deveria ter usado todos os seus pontos privados. Eu tinha certeza de que ela daria um jeito de se virar, mas não era como se pudesse se dar ao luxo de viver com extravagância.
— Nós já íamos comer aqui, como sempre fazemos, então podemos pagar o nosso — respondi.
Todos do grupo concordaram com a cabeça.
— Eu praticamente obriguei vocês a virem, então não precisam se forçar… — disse Ichinose em voz baixa.
— Não, está tudo bem. Assim, todos podemos comer sem nos sentirmos culpados.
Recusei sua oferta sob o pretexto de que, dessa forma, poderíamos aproveitar o almoço como iguais.
— Então… por que você nos convidou para nos juntarmos a vocês? — perguntou Keisei, aparentemente incapaz de se conter por mais tempo.
— Bem, acho que foi porque vocês pareceram tão surpresos com o comportamento do Shibata-kun mais cedo. Achei que seria menos confuso para todos se eu contasse logo a história completa, em vez de deixar especulações malucas se espalharem — explicou Ichinose.
O julgamento dela provavelmente estava correto. Se Ichinose não tivesse vindo falar conosco, provavelmente teríamos discutido entre nós o que havia acontecido com Shibata por um bom tempo, nos perguntando por que ele estava tão irritado. Poderíamos até ter comentado com terceiros e, sem querer, espalhado a informação.
— Você tem certeza de que está tudo bem contar isso a eles? — perguntou Kanzaki.
— Você realmente acha que isso é algo que precisamos manter em segredo? — retrucou Ichinose.
— Não podemos descartar a possibilidade de que alguém da Classe C esteja envolvido.
— Mesmo que esteja, isso não faria muita diferença, faria?
— É, a Ichinose tem razão. Honestamente, estamos só reclamando — disse Shibata.
Assim que Shibata falou, Kanzaki lançou-lhe um olhar severo.
— O-O quê foi, Kanzaki?
— Nada…
Shibata não parecia entender o verdadeiro significado do olhar de Kanzaki. Provavelmente ele estava tentando repreendê-lo por usar a palavra "reclamando" de forma tão descuidada, mas como os outros alunos não perceberam, não importava muito.
— Enfim, agora que eles já ouviram isso, não acham melhor simplesmente contar tudo? — perguntou Ichinose.
— Suponho que sim.
O comentário impensado de Shibata aparentemente foi o fator decisivo, fazendo Kanzaki recuar.
— Resumindo, parece que a Classe D tem… bem, meio que nos assediado ultimamente — disse Ichinose.
— "Meio que"? — retrucou Shibata, incrédulo. — Eles têm mexido comigo, com o Nakanishi e até com o Beppu. Tipo… sei lá. Estão nos provocando sem motivo nenhum ou simplesmente nos seguindo por aí. Ouvi dizer que o Beppu quase morreu de susto quando o Albert o encurralou silenciosamente contra uma parede!
Kanzaki deve ter decidido que já não fazia muita diferença falar ou não, já que tínhamos ouvido bastante coisa. Então, ele também entrou na conversa.
— Eu conversei com o Nakanishi e com o Beppu. As histórias deles conferem.
Ou seja, a Classe D vinha mirando alguns alunos da Classe B desde o início do exame especial.
— Mas não é como se alguém tivesse realmente saído no soco, certo?
— Por enquanto, não.
Então, os alunos da Classe D estavam apenas intimidando alguns estudantes e os seguindo. Até agora, não haviam causado nenhum dano físico. Claro, se acabassem cruzando essa linha e recorressem à violência, haveria problemas.
— Imagino que essa seja apenas a maneira deles de tentar nos pressionar. Suspeito que o plano seja manter esse tipo de assédio até o dia do grande exame, para nos desgastar e prejudicar nosso julgamento — analisou Kanzaki.
— Ah, qual é. A Classe D é simplesmente assustadora, é assim que eles são. Quero dizer, até a Classe C já se envolveu nas confusões deles antes. Tenho certeza de que eles sabem do que estamos falando, né? — disse Shibata.
Shibata provavelmente estava se referindo à vez em que Sudou brigou com Ishizaki e Komiya. Keisei, que até então ouvia a conversa em silêncio, finalmente abriu a boca para falar.
— Sei que pode ser estranho receber conselhos de outra turma, mas, pensando bem, isso não é tão incomum. É verdade que a Classe D tem reputação de vilã, mas acho que um certo nível de pressão já era esperado nesse exame. Na verdade, aparentemente tivemos gente da Classe A tentando nos espionar — disse Keisei.
— Hã, sério? — perguntou Shibata.
Keisei assentiu e explicou como um aluno da Classe A ficou rondando perto da nossa sala de aula e tentou escutar nossas conversas.
— A Classe D também está desesperada. Será que eles estão tentando conseguir qualquer tipo de informação que puderem? — disse Shibata.
Ele parecia totalmente convencido, apenas com base nas poucas informações que havia recebido da Classe C. Ainda assim, parecia que a Classe B era quem mais estava sofrendo com isso.
— Bem, não dá para negar que, se jogássemos de forma justa, nossa turma teria vantagem nesse exame. Devemos considerar a possibilidade de que eles continuem nos assediando assim até o limite do que é considerado aceitável sem violar as regras da escola — ponderou Kanzaki.
A única parte dessa teoria que me chamou atenção foi o fato de que a Classe D estava assediando apenas alguns alunos. Será que decidiram que seria arriscado demais ir atrás da Ichinose e do Kanzaki…? Ou teriam outro objetivo em mente?
— Não consigo imaginar que essa tenha sido uma estratégia pensada pelo Kaneda-kun. Talvez pelo Ishizaki-kun?
— É, talvez.
— Eu sei que isso preocupa vocês, mas precisamos fazer o melhor que pudermos. Vamos escolher provas que aproveitem bem a união da nossa turma, para não deixar que nosso trabalho em equipe seja prejudicado, e dar o nosso máximo no dia do exame. Certo? — disse Ichinose.
Kanzaki e Shibata assentiram em concordância.
— Isso quer dizer que vocês não vão fazer nada em resposta à Classe D, Ichinose-san? Nem mesmo reconhecimento? — perguntou Keisei.
— Isso mesmo. Não vamos fazer isso. Vamos focar em lidar com as dez provas que sairão na próxima semana — respondeu Ichinose.
Basicamente, isso significava que pretendiam continuar lutando sendo eles mesmos, focando em se aprimorar. Não se deixariam desviar pela busca por informações, mas enfrentariam tudo de frente, confiando na verdade. Uma abordagem sólida e confiável.
— Uau… não sei o que dizer, além de que vocês da Classe B são realmente incríveis — disse Keisei, surpreso. Ele continuou: — Mas normalmente vocês não fariam o que fosse preciso para vencer uma turma acima de vocês? Quer dizer, se coisas como espionagem e intimidação silenciosa são eficazes, então provavelmente deveriam usá-las. Para ser honesto, focar em si mesmo, não fazer nada contra o oponente, seguir o caminho mais justo… isso não é algo que nossa turma conseguiria fazer.
— Bem, não sei se eu colocaria dessa forma. Talvez seja só que não somos espertos o suficiente para fazer esse tipo de coisa? — respondeu Ichinose, sorrindo.
— Enfim, acho que entendi o que você queria nos dizer. Se saíssemos por aí contando casualmente sobre o Shibata ter ficado irritado mais cedo, estaríamos basicamente sinalizando para todo mundo que a estratégia da Classe D está funcionando — concluiu Keisei, tendo finalmente entendido o motivo de Ichinose ter nos convidado para almoçar.
Se a Classe D descobrisse que tipo de dano o assédio deles estava causando à Classe B, isso apenas os incentivaria a continuar, o que significaria que a Classe B teria ainda mais com o que lidar do que já tinha. A Classe B queria, em vez disso, manter sua posição e sustentar que a estratégia da Classe D era inútil.
— Exatamente. Por isso, gostaria de pedir que, se possível, não espalhem isso por aí — disse Ichinose.
— Isso não nos traria nenhum benefício. E também não queremos fazer da Classe B nossa inimiga — respondeu Keisei, aceitando o pedido. Haruka, Akito e, em seguida, Airi assentiram em concordância, sem hesitação.
— Muito obrigada, pessoal! — exclamou Ichinose.
Nesse momento, nossos olhares se encontraram pela primeira e única vez naquele dia. Ela afastou casualmente o cabelo do rosto. Como se fosse levado pelo vento, um leve aroma cítrico fez cócegas no meu nariz. Ela rapidamente desviou o olhar, voltando sua atenção ao grupo como um todo.
Ichinose realmente estava agindo de forma um pouco estranha hoje. Não que eu fosse apontar isso agora.
*
Quando o almoço terminou e nos despedimos de Ichinose e do pessoal da Classe B, Haruka falou:
— Nossa, a Ichinose-san é mesmo fofa, não é? E aquele último sorriso que ela nos deu? Aff, chega a ser injusto. Não acham?
— Eu? Nem tanto… — respondeu Keisei.
— Ei, Yukimuu, seu rosto está ficando vermelho só de pensar nisso! — provocou ela.
— Não está! — protestou ele.
— Ah, qual é, não adianta negar. Eu sou uma garota e até eu acho ela fofa. Aposto que os caras ficam completamente caídos por ela — disse Haruka. Airi devia concordar, porque estava balançando a cabeça com vigor.
— Você também acha, né? Miyachi? Ayanokoji-kun? — perguntou Haruka.
Como Akito e eu não queríamos ser alvos como Keisei, apenas demos sorrisos sem graça e evitamos a pergunta.
— Sabe, posso estar imaginando coisas, mas… a Ichinose-san já usou perfume antes? — perguntou Airi.
— Ah, eu também percebi isso. Ela estava usando algum tipo de perfume cítrico, não estava? — disse Haruka.
— Sim. Acho que foi isso que mais me surpreendeu. Talvez ela esteja com alguma coisa na cabeça ou algo assim? — disse Airi.
— Ei, o que vocês três acham? — perguntou Haruka, nos lançando uma pergunta que não tínhamos como responder.
— Espera, ela estava usando perfume? Quer dizer, mesmo que estivesse, talvez tenha sido só porque quis, ou algo assim? — respondeu Keisei, de forma direta. O comentário displicente dele arrancou um suspiro abertamente exasperado de Haruka.
— Aff, meninos, sério… vocês nunca percebem as pequenas mudanças, não é?
— Mais importante, parece que não somos os únicos tendo problemas. Parece que a Classe B também tem um caminho difícil pela frente — disse Akito, mudando de assunto, provavelmente para evitar mais provocações de Haruka.
— A Classe D provavelmente não pode se dar ao luxo de se preocupar com aparências se quiser vencer uma turma melhor colocada. É possível que eles intensifiquem ainda mais o assédio daqui para frente — disse Keisei, aproveitando a chance para escapar da conversa anterior e entrar no novo assunto levantado por Akito. A previsão dele provavelmente estava correta. Até agora, parecia que apenas três pessoas estavam sendo assediadas, mas não seria surpreendente se o número de vítimas aumentasse.
— E o Ryuen também está desaparecido. Então provavelmente eles não teriam chance de vencer se não fizessem pelo menos isso.
— Mesmo assim, me parece que eles estão basicamente seguindo o exemplo do Ryuen-kun e fazendo o que ele faria.
De fato, aplicar pressão dessa forma era definitivamente o tipo de estratégia que Ryuen teria.
— Mas é inútil, não é? Isso não vai ser suficiente para romper as defesas da Classe B. Depois de conversar com eles hoje, pensei que talvez seja bom estarmos enfrentando a Classe A desta vez. Porque eu realmente não gostaria de lutar contra a Classe B — disse Keisei.
— Hã? Por que você acha isso, Yukimuu? — perguntou Haruka.
— Quero dizer, a profundidade da união deles e o fato de que lidam com as coisas com honestidade, sem se superestimarem, é incrível. Acho que nenhuma outra turma chega perto deles nesse aspecto. Isso permite que eles consigam bons resultados de forma consistente, independentemente da prova. Não acho que conseguiríamos vencê-los — disse Keisei.
A Classe B superaria qualquer desafio, mantendo um padrão mais elevado do que o resto de nós. Pelo menos, era isso que Keisei parecia temer.
— Mas, tipo, mesmo que eles sejam acima da média em tudo, isso não significa muita coisa se acabarem perdendo, né? — disse Haruka.
Mesmo que tirassem oitenta ou noventa pontos em todas as sete provas, se seus oponentes tirassem cem, ainda assim perderiam.
— Como você acha que podemos continuar vencendo quando nem sabemos quais serão as sete provas finais no dia do exame? Claro, pode haver algumas em que nós, das Classes C e D, sejamos especializados e possamos vencer. Mas também somos as turmas que podem acabar perdendo feio e obtendo resultados terríveis — disse Keisei.
— Entendo… você pode estar certo — disse Airi, assentindo várias vezes, convencida de que Keisei estava correto.
— Ei, espera!
Estávamos prestes a virar o corredor, com Keisei à frente do grupo. Haruka gritou e segurou o braço dele, fazendo-o parar.
— O qu—
Keisei tentou perguntar o que estava acontecendo, mas Haruka colocou a mão sobre a boca dele e apontou para a nossa frente. Ela estava apontando para Ike e Shinohara, que caminhavam um pouco à nossa frente.
— E-Ei, Shinohara — disse Ike.
— O que foi? — perguntou ela.
— Bem… humm…
— Anda, fala logo. O quê? — disse Shinohara.
Ficamos todos em silêncio, ouvindo a conversa que acontecia a poucos metros de distância.
— Ei, hum, no domingo você… v-você tá, sabe, l-livre? — perguntou ele.
— Domingo? Não tenho nenhum plano específico nesse dia, não… mas por quê?
— Por quê? Bem, é que… sei lá… eu estava pensando se você não gostaria de sair comigo. Ou algo assim. Tipo, se a gente pudesse ir a algum lugar.
Mal conseguíamos ouvir a conversa deles. Haruka e Airi trocaram olhares, aparentemente adorando aquilo. Keisei e Akito, por outro lado, estavam exatamente o oposto: pareciam completamente exasperados.
— Domingo é o White Day, não é? Será que a Shinohara-san deu chocolate pro Ike-kun no Dia dos Namorados ou algo assim? — perguntou Airi.
— Talvez — respondeu Haruka.
Embora Shinohara tivesse soado cética quanto ao convite de Ike no início, ela parecia estar entendendo gradualmente o que estava acontecendo.
— Bem, é que… como você me deu chocolate e tal, eu… pensei em, sabe… retribuir — disse Ike.
— Você está sendo tão sincero, mesmo aquilo tendo sido só chocolate de obrigação. Quer dizer, você ao menos tem dinheiro para fazer algo assim? — perguntou ela.
— Eu tenho um pouco guardado… M-Mas, enfim, se você não quiser, tudo bem, a gente pode simplesmente esquecer isso — disse Ike.
— Eu nunca disse que era contra — respondeu Shinohara.
— E-Então…?
— N-Não entenda errado, tá? É só que nosso exame especial está chegando e essa é a última chance de relaxarmos um pouco. E, se você está se oferecendo para pagar, eu me sentiria mal recusando — disse Shinohara.
Por algum motivo, isso me lembrou da história que ouvi naquela manhã, sobre o assunto dos colegas de quarto. Pequenas sementes de amor podem ter começado a brotar em lugares que eu nem imaginava.
— Vamos.
— H-Hã? Ei, espera! Agora que está ficando bom!
— Não se meta no relacionamento dos outros.
Akito segurou Haruka pela nuca e a puxou na direção oposta.
— Qual é, que mal tem ouvir só mais um pouquinho? Estou até com frio na barriga! — protestou ela.
— Eu não — respondeu ele.
— Aff, é exatamente por isso que digo que vocês meninos são tão desligados… né, Airi? — resmungou Haruka.
— S-Sim. Eu também meio que estou com um friozinho na barriga… Mas seria bem constrangedor se eles nos vissem, não seria? — disse Airi.
— Bem, é, acho que sim… mas tenho certeza de que eles ficariam ainda mais constrangidos se isso acontecesse.
Suponho que, se nos metêssemos ali, poderíamos interromper o florescimento desse novo relacionamento.
*
Ainda estávamos na fase em que todos sugeriam provas nas quais eram bons. As reuniões após as aulas estavam se tornando cada vez menos frequentes com o passar dos dias. Em contrapartida, o grande grupo de discussão da Classe C no chat estava cada vez mais ativo. Koenji e Hirata ainda não haviam contribuído na conversa, mas, da forma como estava estruturado, qualquer um poderia participar a qualquer hora do dia.
Ao que parecia, isso poderia até ser mais adequado para a nossa turma, a julgar pela troca ativa de opiniões no chat, já que as pessoas geralmente não reuniam coragem para falar em voz alta, pessoalmente. Pelo menos, foi essa a impressão que tive à primeira vista, como observador externo. Eu apenas esperava que Horikita terminasse tudo o que confiei a ela. Seria melhor pensar na nossa estratégia e no papel do comandante depois.
Ainda assim, havia algumas coisas preocupantes. Koenji e Hirata. Especialmente Hirata, no momento. Horikita provavelmente não tinha como resolver esse problema sozinha agora. A julgar pelo fato de que os dois não haviam participado do chat em grupo, provavelmente não estavam se preparando ativamente para o exame especial.
No caso de Koenji, sua ausência já era algo esperado. Mas a ausência de Hirata era dolorosa.
Hirata havia mudado quase completamente. Mesmo agora, continuava agindo como se fosse outra pessoa. Na falta de termo melhor, ele era basicamente um tumor. Um incômodo. Embora fosse alguém importante, ninguém conseguia alcançá-lo. Basicamente, não havia nada que pudessem fazer além de torcer para que o inchaço diminuísse. Era uma pena, já que, se estivesse como de costume, ele seria um verdadeiro faz-tudo — uma carta na manga que poderíamos usar em qualquer prova.
E havia outra preocupação.
— Hirata-kun!
Enquanto Hirata voltava para o dormitório, Mii-chan correu atrás dele. Quantas vezes essa cena já havia se repetido? Mesmo com cada vez mais pessoas desistindo de Hirata, Mii-chan ainda não havia feito o mesmo. Impassível, ela o chamou mais uma vez.
Seria isso o que o amor pode fazer com uma pessoa? Não… mesmo que fosse amor, ainda tinha minhas dúvidas. Ela devia ter medo de que Hirata passasse a odiá-la por insistir tanto. Então, por que continuava fazendo isso?
— É… é bem difícil ver o Hirata-kun assim… — disse Kei em voz baixa, falando com seu grupo de amigas, que havia permanecido na sala de aula.
— Pois é. Será que é certo simplesmente deixá-lo sozinho assim, Karuizawa-san?
— Acho que não faria diferença mesmo se eu falasse algo com ele. Ele provavelmente só ficaria ressentido comigo — respondeu Kei.
A forma como Hirata havia rejeitado completamente Kei quando ela tentou falar com ele outro dia provavelmente ainda estava fresca na mente de todos.
— É… quero dizer, primeiro o Hirata-kun foi dispensado, depois o Yamauchi-kun foi expulso e… — disse uma das garotas. Lancei um olhar de lado para elas enquanto conversavam, depois saí da sala. Considerando tudo, meu objetivo hoje não era Hirata. Eu ia investigar como lidar com outra coisa que estava me preocupando. Envolvia outra aluna que havia saído da sala depois da Mii-chan.
— Ei, você tem um minuto? — perguntei, chamando uma garota.
Após uma breve pausa, ela se virou.
— O que foi, Ayanokoji-kun?
Eu havia chamado ninguém menos que Kushida, que até agora não havia dado nenhuma contribuição relevante para este exame especial. Ela não estava ajudando seus colegas de classe, mas também não estava atrapalhando ninguém. Em vez disso, permanecia em silêncio, apenas sendo parte da turma.
Normalmente, Kushida teria assumido algo como uma posição de sublíder, apoiando o restante da classe. Desta vez, porém, não vi nenhum sinal disso acontecendo. Provavelmente havia duas razões para isso. A primeira era que sua posição havia sido abalada durante o último exame, a votação em sala de aula. Embora se pudesse dizer que ela havia sido usada por Yamauchi, o fato de ter sido cúmplice na tentativa de me expulsar veio à tona para todos verem.
Muitos de nossos colegas de classe pareciam ter decidido que havia margem suficiente para simpatizar com Kushida, mas isso ainda representava um problema para ela. O incidente havia prejudicado aquilo de que ela tanto se orgulhava: sua reputação como uma pessoa verdadeiramente boa.
A outra razão era que Horikita estava desempenhando o papel de líder. Esse provavelmente era o principal motivo pelo qual Kushida estava se comportando daquela maneira agora. Ela não gostava de Horikita desde o começo, porque Horikita conhecia todo o seu passado. E, além disso, Horikita a havia repreendido duramente durante a votação da classe.
Independentemente do motivo, ela havia sido atacada verbalmente e responsabilizada por tentar expulsar alguém injustamente. Aquilo deve ter sido um golpe fatal em seu orgulho. Sabendo disso, decidi falar com ela de propósito mesmo assim.
— Vejo que você não tem apoiado muito a Horikita desta vez — comentei.
Afinal, eu queria entender o que Kushida estava planejando fazer neste exame especial. A máscara sorridente que ela costumava usar tornava impossível adivinhar seus verdadeiros sentimentos, por mais que se tentasse. Era preciso ver seu verdadeiro eu — aquele que estava por trás da máscara — para entender.
— Vamos caminhar enquanto conversamos? — sugeriu ela.
— Claro.
Para evitar que nossa conversa fosse ouvida por alguém por perto, Kushida sugeriu que déssemos uma volta.
— Você tem algum plano para hoje? — perguntei.
— Sim. Vou sair um pouco com algumas garotas da Classe B. Você acha errado eu passar esse precioso tempo antes do exame saindo com amigas? — respondeu ela.
— Não, é preciso tirar um tempo para relaxar. Acho que todo mundo do nosso ano concordaria com isso — respondi.
Seria tolice passar vinte e quatro horas por dia pensando apenas no exame. Quando fosse hora de se concentrar, deveríamos nos concentrar. Quando fosse hora de relaxar, deveríamos relaxar.
— Você entende, não entende? O motivo de eu não estar fazendo nada? Eu ajudei o Yamauchi-kun. Até pensei que estaria tudo bem se você fosse expulso, Ayanokoji-kun. Agora que esse fato veio à tona, como eu poderia ser vista liderando o resto da turma? — disse ela, tocando no assunto por conta própria. Ela havia propositalmente evitado mencionar Horikita como o principal motivo.
— Você está fazendo uma cara de quem não está convencido — acrescentou.
— Bem… acho que não estou mesmo.
— Deixe-me esclarecer uma coisa. Não é como se eu não quisesse ajudar só porque a Horikita-san é a líder. Certo?
— Sério?
— Sério mesmo.
Assenti em resposta. No entanto, ela estava mentindo.
— Você não acredita em mim — disse Kushida.
Bem, é claro que não acreditava. Mas, mesmo sem demonstrar isso no rosto, Kushida havia decidido que era isso que eu estava pensando. Ela já tinha determinado que eu desconfiava dela.
— Como eu pareço para você agora, Ayanokoji-kun? Seja honesto.
— Bem… eu acho que…
Por fora, ela parecia apenas uma colega de classe com um sorriso fofo.

No entanto…
Tentei imaginar como seria a verdadeira personalidade de Kushida, aquela que ela escondia por trás de sua máscara.
"Aquela desgraçada! Eu vou acabar com ela! Ela me humilhou na frente de toda a turma?! Eu nunca, nunca vou esquecer isso! Vou matar! Matar, matar, matar! Vou destruí-la completamente!"
Com uma veia pulsando na têmpora, lançando insultos e ofensas contra Horikita. Gritando uma sequência de palavras que ninguém suportaria ouvir.

……….
Eu nem conseguia começar a descrever o que havia acabado de imaginar.
— Você pensou em algo incrivelmente rude agora, não foi? — perguntou ela.
— Não… nada disso — respondi.
Aquela imagem mental extrema me deixou momentaneamente sem palavras. Afastei aqueles pensamentos da cabeça e decidi ir direto ao ponto.
— Se você não puder me ajudar, então farei o possível para respeitar seus desejos, dentro do que puder.
— E, em troca, você quer informações… certo? — respondeu ela. Kushida estava bem ciente do que este exame especial significava.
— Exatamente — respondi.
— Não há mais ninguém na turma em quem você possa confiar agora, Ayanokoji-kun? — perguntou ela. Embora seu sorriso não vacilasse, eu sabia que ela não concordaria em me ajudar de imediato. Mesmo tendo uma relação baseada em interesses, Kushida estava começando a se tornar extremamente cautelosa novamente. Suponho que estávamos no ponto de virada em que ela finalmente decidiria se eu era um inimigo ou um aliado.
— Ninguém tanto quanto você — respondi.
— É muito gentil da sua parte dizer isso. Mas, infelizmente, tenho muita coisa acontecendo no momento.
— Muita coisa?
— Você é tão malvado, Ayanokoji-kun.
O fato de sua posição na turma ter sido abalada foi um enorme revés para ela. A persona que Kushida Kikyou havia passado um ano construindo tinha sido manchada. Não havia dúvidas de que ela ainda contava com muito apoio de seus colegas, mas, mesmo assim, ninguém estava disposto a dizer exatamente o que pensava dela agora. No fundo, talvez tivessem dúvidas. Suponho que isso apenas mostrava como é difícil conquistar confiança, mas basta um instante para perdê-la. Como geralmente acontece.
— Muito bem, então deixe-me inverter a pergunta. Como posso fazer você me ajudar? — perguntei.
— Acho que vou ter que pedir que você desista disso por enquanto. Vou apenas ficar na minha, passando meu tempo na sala de aula tranquilamente, até conseguir me sentir como antes. Isso é pedir demais? — respondeu ela.
Basicamente, ela estava dizendo que não iria me ajudar, mas também não iria me atrapalhar. Suponho que isso também significava que, se fosse escolhida para alguma prova, ela faria apenas o mínimo necessário para obter sucesso.
— Você está bem com isso? Não só por mim, mas também pela Horikita? — perguntei.
— Suponho que você possa interpretar dessa forma. Percebi que esta escola é um lugar muito mais confortável para mim, pessoalmente, do que imaginei no início.
Ela continuava interpretando o papel que queria desempenhar, enquanto mantinha sua máscara. Imagino que me oferecer uma opção favorável também fizesse parte de sua estratégia. Era uma pena não conseguir sua cooperação, mas provavelmente era melhor aceitar graciosamente o que ela estava oferecendo.
— Certo. Desculpe por pedir algo tão fora de propósito.
— Não, não, está tudo bem. Sinceramente, fico feliz que você tenha vindo falar comigo.
Quando chegamos à entrada da escola, Kushida e eu seguimos caminhos diferentes. Ela seguiu em direção ao Keyaki Mall sem sequer hesitar.
*
O fim de semana havia terminado e, antes que percebêssemos, já era domingo, 14 de março. White Day. Para ser completamente honesto, fiquei grato por ter caído em um domingo. Eu havia preparado alguns presentes, deixando-os sobre a minha mesa. Se o White Day tivesse caído em um dia de aula normal, teria sido difícil decidir quando entregá-los.
De manhã, antes da aula? Ou depois?
Eu tinha muitas coisas a considerar, como a ordem em que entregaria os presentes e o que fazer em relação aos alunos de outras turmas.
Mais importante ainda, não seria bom para a minha imagem se as pessoas vissem o que eu estava fazendo. Eu entendia que seria melhor simplesmente entregá-los sem me preocupar com os olhares ao redor, mas não conseguia deixar de pensar nisso. No entanto, como estávamos de folga, eu poderia simplesmente deixá-los nas respectivas caixas de correio.
Saí do quarto cedo para evitar encontrar alguém e fui em direção às caixas de correio do dormitório.
— Vejamos… — murmurei baixinho para mim mesmo, enquanto colocava os presentes nas caixas de cada aluno que me havia dado chocolate no Dia dos Namorados.
Certo, isso é todo o chocolate. Acho que já posso voltar, pensei comigo mesmo.
Mas, justamente quando pensava isso, esbarrei em Ichinose. Ela reagiu como se tivesse visto algo que não deveria.
— B-Bom dia, Ayanokoji-kun.
— Bom dia.
Ainda não eram nem sete da manhã, e eu já havia tido um encontro inesperado. Assim como da última vez que nos encontramos, Ichinose parecia estar evitando fazer contato visual comigo hoje também.
— Acabei acordando meio cedo hoje. Acabei de voltar de uma caminhada — disse ela.
Parecia que ela estava olhando para mim enquanto falava, mas era mais como se estivesse olhando ligeiramente para o lado. Provavelmente pretendia verificar sua caixa de correio antes de voltar para o quarto.
— Ah, com licença — disse eu, abrindo espaço para que ela passasse.
Afastei-me para que ela pudesse ver sua caixa. Ichinose respondeu com uma reverência agradecida e então verificou o conteúdo. Quando o fez… naturalmente encontrou o presente que eu havia colocado ali.
— Acho que você já percebeu só de olhar. Mas é… bem, um presente de retribuição — expliquei.
Depois de retirar o presente da caixa, ela apenas ficou ali, segurando a caixinha, imóvel, como se tivesse congelado.
— Mas você não precisava… quer dizer, um presente assim… — gaguejou ela, aparentemente tendo se lembrado de como falar depois de um tempo.
— Ah, não, eu precisava sim.
— O-Obrigada. E, hum, desculpa. Acho que não estou muito acostumada com esse tipo de coisa, então estou um pouco nervosa.
Eu me sentia da mesma forma. Entreguei os presentes cedo justamente para não encontrar ninguém, o que significava que eu estava bastante sem jeito agora. Aquilo estava começando a ficar constrangedor, então tentei mudar de assunto.
— Ah, isso me lembra. O que aconteceu depois daquele incidente de quinta-feira de que falamos? Sabe, o caso do Shibata?
— Ah, bem… você ficou preocupado? — perguntou ela.
— Um pouco, sim.
Ichinose deve ter achado mais fácil conversar agora que eu havia mudado de assunto, já que as coisas pareciam mais naturais entre nós.
— Bem, logo depois que aconteceu, eu conversei com todo mundo. Mas as únicas vítimas de que ouvimos falar foram aquelas três que o Shibata-kun mencionou. Mas, bem…
— Mas?
— Na sexta-feira, parece que o número de vítimas simplesmente disparou de repente. Três garotas e mais três garotos. Só ontem recebi relatos de que estavam sendo seguidos e assediados da mesma forma — disse Ichinose.
Ou seja, agora havia um total de nove vítimas. Então, a Classe D limitou o assédio a apenas três pessoas durante os três dias após o anúncio do exame, apenas para, de repente, aumentar o ritmo e assediar mais seis pessoas na sexta-feira?
— Você sabe quais alunos da Classe D estão fazendo esse tipo de perseguição? — perguntei.
Ichinose assentiu e então começou a listar alguns nomes.
— Pelo que sei, são o Ishizaki-kun, o Komiya-kun, o Yamada-kun, o Kondou-kun, a Ibuki-san e a Kinoshita-san.
Um total de seis pessoas, hein? Alunos dispostos a sujar as mãos até certo ponto. Não parecia que estavam agindo em segredo, já que Ichinose havia conseguido identificar os nomes com tanta facilidade.
— Será que esses seis estão apenas seguindo aleatoriamente quem encontram pelo caminho? — disse Ichinose.
Muitos dos alunos da Classe D eram completamente comuns, então suponho que fosse natural pensar assim.
— Pretendo fazer mais entrevistas na segunda-feira — disse Ichinose.
— O que você vai fazer se o dano acabar sendo tão grande quanto você imagina? — perguntei. Era possível que até Ichinose e Kanzaki acabassem sendo envolvidos eventualmente.
— Hmm… Bem, suponho que não haja muito que eu possa fazer. Não é como se eles tivessem sido violentos de fato… então decidimos apenas suportar até que causem algum dano real. Ainda assim, pretendemos oferecer apoio emocional aos alunos afetados, para garantir o bem-estar deles.
Pelo que parecia, eles estavam prontos para agir imediatamente caso alguém realmente se machucasse.
— Entendo.
A Classe D estava agindo de forma estranha. Fiquei me perguntando se realmente planejavam ir atrás de todos os alunos da Classe B. Com apenas seis estudantes participando do assédio, não era como se estivessem pressionando tanto assim. Mesmo que continuassem, no fim das contas, o comportamento deles se resumia a simples intimidação e nada mais.
Suponho que fosse possível que Ishizaki simplesmente não tivesse pensado tão à frente ao bolar essa estratégia. Ou talvez a Classe D estivesse satisfeita com o plano, desde que acreditassem que ele causasse ao menos algum dano psicológico.
— Você acha que estou lidando com isso da forma errada?
Ichinose deve ter notado que eu estava perdido em pensamentos, pois ergueu o olhar para mim com uma expressão um tanto ansiosa.
— Não… acho que o que você está fazendo é bom. Na verdade, a Classe D provavelmente nem seria punida, mesmo que você reclamasse com a escola. E, se você fosse até a escola, provavelmente estaria fazendo exatamente o que eles querem.
— Sim, acho que você tem razão — disse Ichinose.
O que ela precisava fazer era ter certeza de que o que a Classe D realmente estava buscando era aquilo que ela imaginava. Dito isso, Ichinose não parecia ter intenção de agir, então talvez dizer isso fosse desnecessário. Além disso, se a maneira dela de lidar com as coisas era focar em uma política de autodefesa não agressiva, seria errado da minha parte sugerir outra abordagem.
— Vocês já decidiram as dez provas? — perguntei.
— Sim. Conseguimos conhecer os pontos fortes e fracos uns dos outros bem cedo. Finalizamos a lista ontem, misturando algumas provas nas quais achamos que a Classe D poderia ter dificuldade também. E você, Ayanokoji-kun?
— Ah, desta vez não me envolvi em nada. Deixei tudo relacionado às dez provas com a Horikita.
— Mas e as formas de participação do comandante?
— Também deixei essa parte com a Horikita.
Ichinose pareceu surpresa. Ela provavelmente não esperava que eu fosse tão casual em relação ao meu papel como comandante.
— Bem, parece que você tem bastante confiança na Horikita-san. Ou talvez… esteja dizendo que consegue lidar com qualquer tipo de prova, ou qualquer conjunto de regras, Ayanokoji-kun?
— Ah, é a primeira opção, cem por cento. Ao contrário de você, tenho poucos colegas com quem sou realmente próximo, então, honestamente, não sei muito sobre a maioria das pessoas. Só me voluntariei como comandante para impedir que alguém fosse expulso, nada mais — expliquei.
— Mas então por que você quis enfrentar a Classe A?
— Isso também foi ideia da Horikita. Talvez ela tenha achado que teríamos alguma chance de vencer.
— Entendo — respondeu Ichinose, sem insistir mais no assunto. Com isso, nossa conversa terminou, e ficamos apenas esperando o elevador chegar.
— Ah… eu não estava nem um pouco preparada para isso… — murmurou Ichinose baixinho para si mesma. Parecia que havia se lembrado de algo. Ao meu lado, ela enrolava uma mecha de cabelo no dedo indicador.
— Preparada? — perguntei.
— A-Ah, não é nada. Não se preocupe com isso.
Entramos no elevador e logo chegamos ao quarto andar, onde ficava o meu quarto.
— Bem, até mais.
Ao sair do elevador, nossos olhos se encontraram por um instante, parecendo pegá-la de surpresa.
— S-S-Sim! A-Até mais! — gaguejou ela.
De repente, em pânico, apertou repetidamente o botão para fechar as portas. Elas se fecharam logo em seguida, escondendo-a da minha vista. Foi uma maneira bem estranha de se despedir. Suponho que apenas ter passado por esse White Day já era bom o suficiente.
— Pensando bem, hoje não senti aquele aroma cítrico — murmurei para mim mesmo.
Bem, era cedo, numa manhã de feriado. Não havia motivo para ela sair usando perfume.
*
Era segunda-feira de manhã — o dia em que as dez provas do nosso oponente seriam anunciadas. Que tipo de provas e regras a Classe A teria preparado? E qual seria o nível de participação do comandante?
A caminho da escola, por acaso encontrei o irmão da Horikita e Tachibana. Não parecia que estavam me esperando. Se fosse para dizer algo, realmente parecia ter sido apenas coincidência desta vez.
Tachibana não disse nada em particular, mas deu um passo para trás em silêncio. Talvez fosse uma forma de consideração, indicando que não se colocaria no caminho quando começássemos a conversar. Suas reações às situações eram rápidas e educadas. Eu tinha certeza de que havia sido uma fonte constante de apoio para o irmão da Horikita enquanto estavam no conselho estudantil.
— O exame especial está indo bem? — perguntou ele.
Era preciso reconhecer. Ele parecia já ter uma boa compreensão da situação, sem precisar de nenhuma explicação minha.
— Achei que eu é que deveria perguntar isso. Você vai conseguir se formar na Classe A? — perguntei.
— Não sei. Suponho que isso dependa dos resultados que veremos na próxima semana.
Eu não conseguia dizer se ele estava completamente tranquilo ou preocupado.
— Bem, posso dizer que sua irmãzinha realmente tem se esforçado ao máximo. Parece que você teve mais influência sobre ela do que eu imaginava — disse a ele.
— É mesmo?
A irmã Horikita estava incrivelmente cheia de energia naquele momento. Era quase como se tivesse encontrado e tomado algum elixir mágico. Na ausência de Hirata, ela assumiu a liderança e reuniu a turma. E agora, estava passando cada dia aprimorando nossas estratégias para que pudéssemos vencer todas as dez provas.
— Normalmente os alunos do terceiro ano não estariam de férias por esta época? — perguntei.
— Isso mesmo. Eu também fiquei surpreso ao descobrir isso depois de entrar aqui. Esta é a época do ano em que a maioria dos colégios já estaria de férias, sim. Mas, naturalmente, os alunos do terceiro ano estão progredindo favoravelmente rumo ao ensino superior ou ao mercado de trabalho. As coisas estão em andamento. Você só não está ciente disso.
Pelo que parecia, os alunos do terceiro ano tinham bastante coisa para lidar entre os exames especiais.
— Espera. As pessoas estão indo para a faculdade e conseguindo empregos mesmo sem estar decidido se vão se formar pela Classe A? — perguntei.
— Você vai entender eventualmente — respondeu ele, deixando por isso mesmo. Não me deu uma explicação detalhada. Suponho que algumas coisas simplesmente não pudessem ser reveladas aos alunos atuais. Pelo que parecia, teríamos que esperar até pouco antes da formatura para descobrir se ser da Classe A realmente valia a pena.
— Se houver algo que gostaria de me perguntar, fique à vontade. Se estiver dentro do que posso responder, responderei.
— Parece que o escopo do que você pode me dizer é bem limitado, no entanto.
Ao ouvir meu comentário um tanto sarcástico, o canto de sua boca se curvou em um leve sorriso.
— Bem, talvez você esteja certo. Considere isso como os laços de obrigação que vêm de ter sido o ex-presidente do conselho estudantil — respondeu. Suponho que ele não pudesse simplesmente falar casualmente sobre assuntos que afetavam toda a escola.
— Bem, já que o encontrei, esta é uma boa oportunidade. Há algo que venho me perguntando há algum tempo.
Decidi aproveitar essa coincidência para fazer uma pergunta ao irmão da Horikita.
— É sobre a Horikita… quer dizer, sua irmãzinha. Acho que ela é excelente. Nem suas habilidades acadêmicas nem atléticas deixam a desejar. Embora eu não ache que alguém diria que ela é a melhor entre os melhores, ela tem talento para ser a segunda ou terceira melhor desde o dia em que entrou nesta escola. Talvez não seja tão boa quanto você, que entrou para o conselho estudantil, mas não consigo imaginar que ela seja tão deficiente a ponto de você querer desprezá-la ou afastá-la.
Havia outra coisa que me parecia fora do lugar. Mais do que qualquer outra.
— Em primeiro lugar, além disso, você e sua irmã têm dois anos de diferença. Isso significa que você não acompanhou os últimos dois anos do crescimento dela. E, com o sistema da escola sendo como é, não há como perceber de relance o quanto ela cresceu — acrescentei.
Horikita Manabu não via sua irmãzinha desde que ela estava no segundo ou terceiro ano do ensino fundamental II. Mesmo que soubesse as notas que ela tirava quando entrou aqui, não consigo imaginar que isso fosse suficiente para deixá-lo tão insatisfeito com ela. Mas quando vi Horikita Manabu encontrar sua irmã do lado de fora do dormitório algum tempo atrás, seu comportamento estava longe do que eu chamaria de calmo.
— Entendo. É compreensível que você ache estranho, depois de ver o que aconteceu naquela ocasião.
Isso, acabei de lembrar, também foi a primeira vez que tive contato com o irmão da Horikita.
— Eu não fiquei decepcionado com Suzune por algo superficial, como suas notas. Fiquei decepcionado com o crescimento dela como pessoa. Com seu caráter.
— O caráter dela?
— Há muito tempo, Suzune era completamente diferente de como é agora. Ela era uma criança que sorria muito — disse Manabu.
Espere… ela sorria muito?
Era inútil. Honestamente, não conseguia imaginar isso.
— Então você está dizendo que ela finge ser essa pessoa fria e distante por sua influência? — perguntei.
— Porque ela tentou me imitar em todos os aspectos. Um mau hábito que começou a aparecer quando ela estava no ensino fundamental. Mas, pensando bem agora, a culpa foi minha por negligenciá-la. Por muitos anos, pensei que poderia torná-la melhor tratando-a com frieza, mas, na realidade, isso só teve o efeito oposto — disse Manabu.
Como resultado, Horikita continuou perseguindo a sombra do irmão, o que a levou a se tornar a pessoa que é hoje.
— Então, mesmo parecendo completamente impecável por fora, você falhou em estabelecer um diálogo adequado com sua irmã? — perguntei.
— Ninguém é perfeito. Estou errado?
— Não, você está certo.
Não havia como discutir isso.
— Então, basicamente, reencontrá-la nesta escola e ter aquela única conversa foi o suficiente para você entender a situação?
Para ser honesto, nem parecia que eles haviam tido uma conversa longa.
— Eu soube no momento em que a vi. Antes mesmo de falarmos. Entendi que Suzune não havia mudado nada nesses últimos dois anos — disse Manabu. Perguntei-me se ele havia visto algo que apenas um irmão mais velho poderia entender. — Ela se apegava a cada palavra que eu dizia. Vá estudar. Faça exercícios. Não faça isso. Não faça aquilo. Honestamente, teria sido bom se ela tivesse parado por aí… mas não parou. Ela também copiou outras coisas. O que eu gostava de comer, o que eu gostava de beber. Meu gosto por roupas e as cores que eu preferia usar. Ela era completamente dependente de mim.
O fato de ela ter levado as coisas tão longe era, honestamente, um pouco assustador. Ainda assim, lembrando de como Horikita agia quando entrou aqui, fazia sentido.
— Então, depois de se reencontrar com sua irmã aqui, você percebeu que ela ainda era completamente dependente de você?
A menos que fosse um médium, aquilo ainda era informação de menos para avaliar tudo o que ela havia passado naquele intervalo de dois anos.
— Isso mesmo. Qualquer pessoa que conhecesse a Suzune quando ela era pequena poderia perceber só de olhar para ela. Ela… — Manabu interrompeu a frase no meio. — Não, isso provavelmente é algo que devo manter em segredo, até mesmo de você. Gostaria de usar isso como meu critério final para determinar se Suzune realmente mudou.
— Imagino que isso signifique que ainda não aconteceu.
Ele assentiu. Embora ela tivesse feito um grande progresso desde o início do ano, pelo que seu irmão dizia, aparentemente ainda não era o suficiente.
— Ela tem se esforçado ao máximo para se libertar da maldição do passado, mas ainda está apenas na metade do caminho.
Perguntei-me se Horikita conseguiria satisfazer esse critério final de seu irmão antes que ele se formasse. A cerimônia de formatura seria em menos de dez dias.
— Mas, se… — disse Manabu, deixando as palavras no ar. Ele parou de falar e olhou para mim. Por algum motivo, parei de andar, preso por seu olhar intenso. — Se Suzune conseguir parar de perseguir essa ilusão que tem de mim, romper sua dependência e se confrontar honestamente, então… — uma rajada de vento primaveril passou por nós. — Ela provavelmente me superará e se tornará alguém que nem você poderá ignorar.
Horikita Manabu não era um irmão tolo e superprotetor que mimava a irmã. Ele falava sério. Eu também fiquei impressionado com o potencial que Horikita possuía em vários aspectos. Mas por quê? Seria por causa do que seu irmão havia me dito?
De repente, um pensamento me ocorreu. O que eu deveria fazer aqui nesta escola? Não… melhor dizendo, o que eu queria fazer? De repente, senti que entendia.
— Isso só… se ela conseguir mudar por conta própria.
— Mas ela vai mudar — disse a ele. — Espere, deixe-me reformular.
Corrigi minha própria fala.
— Eu vou tentar mudá-la. Não apenas esperar que ela mude, de alguma forma, como tenho feito até agora. Mas levando isso a sério.
— Oh? Nunca pensei que ouviria algo assim de você.
Eu havia encontrado o irmão da Horikita por acaso, mas nossa conversa teria um grande impacto na minha vida. Levaria muito, muito tempo até que eu soubesse se meu pressentimento estava certo.
— Ei, posso te perguntar só mais uma coisa antes de você se formar? É uma pergunta completamente pessoal.
Não sabia se teríamos a chance de conversar assim novamente no futuro.
— O que é?
— Você e a Tachibana estão namorando?
Eu sabia que era uma pergunta boba, mas queria fazer mesmo assim. Mesmo após terem deixado o conselho estudantil, os dois frequentemente estavam juntos.
— Não, esse não é o caso — respondeu ele, negando de imediato.
Não parecia que estivesse mentindo ou tentando esconder algo. No entanto, um rápido olhar de lado para o rosto de Tachibana me disse que a situação era complicada. No mínimo, não havia dúvida de que ela nutria algum tipo de afeição pelo irmão da Horikita.
— Passei os últimos três anos pensando apenas na escola, para o bem ou para o mal — acrescentou ele.
— Entendi.
— Mas devo dizer que nunca pensei que ouviria uma pergunta dessas de você. Talvez você seja um estudante do ensino médio normal, afinal?
Talvez eu tenha sido influenciado por aquela conversa que tive com a Hoshinomiya-sensei.
— Acho que sou o tipo de estudante do ensino médio o mais próximo possível do normal.
— Entendo. Então, Estudante-san Normal, você já arrumou uma namorada? — perguntou ele.
Mesmo tendo sido eu quem trouxe o assunto à tona, não esperava que ele fosse virar contra mim.
— No momento, não. Mas se alguém aparecer, acho que estou disposto a tentar — respondi.
— Acho que eu poderia ficar tranquilo se deixasse a Suzune com você. Mas não consigo ver isso acontecendo de jeito nenhum — disse Manabu.
— É, definitivamente não. Não tem como.
— I-Isso não é bom. Você percebe que dizer algo assim praticamente garante que vai acontecer, não é?
Tachibana, nervosa, interrompeu de repente nossa conversa depois de ter ficado ouvindo em silêncio até então.
— Garante? — perguntou Manabu.
— Ah, hum, bem… digamos que é como uma regra de que as coisas acabam acontecendo ao contrário do que você diz — explicou Tachibana apressadamente. — Tipo ironia dramática… Não é tão incomum que duas pessoas que achavam que nunca ficariam juntas acabem ficando. Esse tipo de coisa.
Horikita Manabu e eu trocamos olhares, nenhum de nós entendendo sua explicação.
— E-Esqueçam, deixa pra lá — gaguejou Tachibana, aparentemente desistindo de se fazer entender e decidindo encerrar o assunto.
*
De volta à sala de aula, a reunião de classe já havia terminado. Ao mesmo tempo, as dez provas escolhidas pelo nosso oponente, a Classe A, haviam acabado de ser anunciadas por meio de documentos deixados na sala, que Horikita leu em voz alta para todos. As provas estavam listadas em ordem pelo número de participantes necessários.
Xadrez:
Participantes necessários: 1 pessoa
Tempo limite: 1 hora (ultrapassar o tempo resulta em derrota)
Regras: Aplicam-se as regras padrão de xadrez. No entanto, o tempo limite não será aumentado após o 41º movimento.
Comandante: O comandante pode dar instruções ao seu respectivo jogador por até trinta minutos, a qualquer momento. O tempo gasto dessa forma será descontado do tempo limite.
Cálculo Mental Rápido:
Participantes necessários: 2 pessoas
Tempo limite: 30 minutos
Regras: A vitória será concedida à turma do aluno que ficar em primeiro lugar em termos de precisão e velocidade, usando cálculo mental ao estilo do soroban.
Comandante: O comandante pode alterar a resposta de apenas uma questão à sua escolha.
Go:
Participantes necessários: 3 pessoas
Tempo limite: 1 hora (ultrapassar o tempo resulta em derrota)
Regras: Três partidas individuais serão disputadas simultaneamente. Aplicam-se as regras padrão de Go.
Comandante: O comandante pode fornecer aconselhamento para um único movimento, a qualquer momento.
Prova de Literatura Contemporânea:
Participantes necessários: 4 pessoas
Tempo limite: 50 minutos
Regras: Os alunos responderão a um conjunto de questões dentro do conteúdo do currículo do primeiro ano. O vencedor será decidido com base na pontuação total.
Comandante: O comandante pode responder a uma única questão no lugar de um participante.
Prova de Estudos Sociais:
Participantes necessários: 5 pessoas
Tempo limite: 50 minutos
Regras: Os alunos responderão a questões dentro do conteúdo do primeiro ano de geografia, história e educação cívica. O vencedor será decidido com base na pontuação total.
Comandante: O comandante pode responder a uma única questão no lugar de um participante.
Vôlei:
Participantes necessários: 6 pessoas
Tempo limite: Primeiro a 10 pontos ou melhor de 3 sets
Regras: Aplicam-se as regras padrão de vôlei.
Comandante: O comandante pode substituir três jogadores a qualquer momento.
Prova de Matemática:
Participantes necessários: 7 pessoas
Tempo limite: 50 minutos
Regras: Os alunos resolverão questões dentro do conteúdo do currículo do primeiro ano. O vencedor será decidido com base na pontuação total.
Comandante: O comandante pode responder a uma única questão no lugar de um participante.
Prova de Inglês:
Participantes necessários: 8 pessoas
Tempo limite: 50 minutos
Regras: Os alunos responderão a questões dentro do conteúdo do currículo do primeiro ano. O vencedor será decidido com base na pontuação total.
Comandante: O comandante pode responder a uma única questão no lugar de um participante.
Pular Corda XL:
Participantes necessários: 20 pessoas
Tempo limite: 30 minutos
Regras: Vence a turma que conseguir o maior número de saltos em duas rodadas.
Comandante: O comandante pode alterar a ordem da formação da equipe adversária uma única vez.
Queimada:
Participantes necessários: 18 pessoas
Tempo limite: 10 minutos por set, em 2 sets
Regras: Aplicam-se as regras padrão de queimada. Em caso de empate, será realizado um round de morte súbita.
Comandante: O comandante pode devolver um jogador eliminado ao jogo, colocando-o de volta em quadra a qualquer momento de sua escolha.
— Eles incluíram mais provas esportivas do que eu esperava. Achei que seriam apenas provas escritas e testes de intelecto. Dito isso, há uma boa chance de que algumas dessas provas tenham sido escolhidas para nos confundir — disse Horikita.
Essa foi sua primeira impressão. Keisei falou em seguida, aparentemente compartilhando da mesma opinião.
— Xadrez e Go são jogos bem conhecidos, mas não parece que muitos alunos realmente já os jogaram. Então sinto que isso nos coloca em uma situação complicada. Além disso, os esportes que escolheram exigem bastante trabalho em equipe.
Provavelmente não havia ninguém na turma que nunca tivesse ouvido falar de xadrez ou Go — mas também não devia haver muitos que realmente soubessem jogar.
— Tenho que dizer que não esperava um nível tão baixo de envolvimento do comandante. Embora eu, em grande parte, veja isso como algo positivo. Especialmente nas provas acadêmicas, onde a intervenção dele não teria muito efeito no resultado.
— Isso provavelmente só mostra o quanto eles estão confiantes em suas próprias habilidades. A Classe A não é apenas particularmente forte em termos acadêmicos, como também escolheu quatro provas com esse foco. E o número de participantes exigido é alto. Isso é bem complicado para nós…
A Classe A sempre ocupou o primeiro lugar em todos os testes em termos de desempenho geral. O grande número de participantes exigidos em cada uma dessas provas provavelmente era prova da confiança deles. Somado ao fato de que o comandante não poderia fazer muita coisa, isso tornava essa a maneira deles de nos forçar a um confronto puramente acadêmico.
Além disso, o fato de não terem escolhido apenas provas escritas foi uma jogada inteligente da parte deles. Se tivessem apresentado sete ou oito provas escritas, poderíamos ter direcionado nossa atenção exclusivamente para os estudos. Acredito que estavam tentando limitar nossa capacidade de competir com eles, ao mesmo tempo em que nos davam matérias para estudar que poderiam acabar sendo descartadas depois.
— O vôlei exige seis jogadores. Nove, se incluirmos os reservas. A queimada exige dezoito jogadores. O pular corda XL requer um máximo de vinte pessoas. Essas provas exigem tantas pessoas que podemos acabar tendo que fazer alguns alunos competirem mais de uma vez, caso sejam escolhidos.
Como ainda não sabíamos quais das dez provas seriam adotadas, não podíamos nos dar ao luxo de relaxar. Além disso, como muitas das provas esportivas exigiam um grande número de participantes, precisaríamos investir muito tempo e esforço para designar os participantes e treiná-los. Também não poderíamos simplesmente alugar o ginásio para praticar — a Classe A descobriria. Ou seja, precisaríamos treinar em segredo.
No entanto, o fato era que ainda não sabíamos quais eram as provas oficiais deles. Mesmo que gastássemos muito tempo treinando, todo esse esforço poderia ser em vão se as provas para as quais nos preparamos não fossem escolhidas. Seria apenas perda de tempo. Por outro lado, se presumíssemos que alguma prova estava ali apenas para nos despistar e não treinássemos, essa falta de preparo ficaria dolorosamente evidente no dia do exame. Não havia como vencer.
Embora fosse importante descobrir o que a Classe A estava fazendo naquela semana, essa informação seria difícil de obter se eles praticassem de manhã cedo ou tarde da noite. Também era possível que se dividissem em pequenos grupos para treinar.
Não podíamos relaxar em nenhuma dessas dez provas. Independentemente de quais fossem escolhidas, todas representavam um problema. Não que houvesse alguma prova que ficaríamos felizes em disputar, de qualquer forma.
— Alguém aqui tem experiência jogando xadrez ou Go? — perguntou Horikita, pedindo que levantassem a mão.
Apenas Miyamoto levantou a mão.
— Já joguei Go algumas vezes com a minha família, mas não sou bom o suficiente para sequer recitar as regras de memória — disse ele.
Pelo visto, xadrez e Go já eram casos perdidos para nós desde o início. Após um breve atraso, também levantei a mão.
— Eu sei jogar xadrez, mais ou menos. Mas não sei nada sobre Go. Nunca joguei antes — anunciei.
Embora eu fosse o comandante, achei que seria uma boa ideia informar a todos que poderia ensinar as regras do xadrez.
— Bem, suponho que seja um alívio termos algumas pessoas familiarizadas com os jogos aqui. Ainda assim, devo dizer que este é realmente um teste absurdo. Não podemos nos dar ao luxo de não levar nenhuma dessas dez provas a sério — disse Horikita.
Quanto alguém poderia realmente dominar xadrez ou Go em menos de uma semana? Se a sorte estivesse a favor do nosso oponente, apenas duas das nossas provas e cinco das deles seriam escolhidas. Não tínhamos escolha a não ser confiar nas habilidades dos nossos colegas para partes deste exame.
Mas por quê…?
— O que foi, Ayanokoji-kun? — perguntou Horikita, observando meu rosto com uma expressão confusa.
— Nada.
O grau de envolvimento que os comandantes poderiam ter na partida de xadrez era enorme. Era quase como se a partida fosse, na verdade, entre os comandantes. Tive a sensação de que Sakayanagi desejava lutar diretamente comigo por meio dessa prova.
— Ei, Horikita. Não deveríamos estar iniciando uma guerra de informação em grande escala a esta altura? — disse Keisei, parecendo impaciente com alguma coisa.
— Você quer dizer investigar para descobrir quais dessas provas a Classe A escolherá como oficiais?
— Sim. Para ser completamente honesto, será bastante difícil tentar nos preparar para todas as dez provas no tempo que temos. Se não conseguirmos algum tipo de informação, nossas chances de vitória diminuem ainda mais — argumentou ele.
— Mas não é como se a Classe A fosse entregar informações tão facilmente — disse outro garoto, afirmando algo que praticamente todos na turma já sabiam.
— Mesmo assim, precisamos tentar.
— Entendo como você se sente. Mas não posso tomar uma decisão sobre isso agora. Primeiro, deixe-me ter uma ideia de quantas pessoas aqui têm alguma experiência com cada uma das provas.
Deixando a ideia de coletar informações para depois, Horikita começou focando em compreender as dez provas da lista.
*
— Horikita, posso falar com você um minuto? — perguntou Keisei, durante o intervalo.
— Claro, sem problema. O que foi?
— Bem, talvez não devêssemos falar disso aqui… é sobre o exame especial.
Keisei pediu silenciosamente que Horikita saísse para o corredor, não querendo que os outros ouvissem a conversa. Eu pretendia apenas vê-los sair, mas Horikita lançou-me um olhar.
— Você se importa se o Ayanokoji-kun nos acompanhar?
— Não, não me importo.
Embora Keisei não parecesse muito satisfeito com a ideia, ele concordou. Eu não ia recusar o convite, então segui os dois até o corredor.
— Você pensou no que eu disse? — perguntou ele.
— Sobre reunir informações?
— Sim.
— Ah, entendo… Bem, não consigo imaginar que será tão simples obter informações sobre a Classe A — disse Horikita.
— Mas seria um desperdício não tentar. Devemos usar nosso tempo de forma eficaz — disse Keisei.
Ele parecia querer começar a reunir informações e agir o quanto antes. O desejo de esgotar todas as opções possíveis em busca da vitória era algo que eu compreendia muito bem.
— Você acha que vamos descobrir alguma coisa apenas ficando por perto dos alunos da Classe A?
— Acho que não. É duvidoso que um aluno comum da Classe A saiba quais das dez provas serão as cinco oficiais.
Era possível que apenas Sakayanagi soubesse. Ou que tivesse contado apenas aos mais próximos. Não seria incomum alguém como ela controlar rigidamente o fluxo de informações.
— Mesmo que a Sakayanagi seja a única que saiba quais são as cinco provas oficiais, os colegas dela devem ter pelo menos alguma ideia do que está acontecendo, certo? Você concorda comigo, não é, Kiyotaka? — disse Keisei.
— Bem, suponho que os colegas dela provavelmente saibam de alguma coisa, sim.
Como os alunos da Classe A estavam juntos há cerca de um ano, eu tinha certeza de que conheciam, até certo ponto, os pontos fortes e fracos uns dos outros. Pelo menos poderiam arriscar quais provas achavam que seriam escolhidas.
— Certo. Então, pensei em uma maneira de obter informações da Classe A — disse Keisei.
— E qual seria? — perguntou Horikita.
— Vamos trazer o Katsuragi para o nosso lado. Torná-lo um aliado da Classe C — disse Keisei em voz baixa, certificando-se de que ninguém mais estivesse por perto.
Katsuragi. O antigo líder da Classe A e aquele que se opunha à Sakayanagi.
— O Totsuka, que seguia o Katsuragi, acabou sendo expulso por causa da Sakayanagi. Você não acha que o Katsuragi guardaria rancor por isso? Tenho cruzado com ele várias vezes nos últimos dias. Ele claramente não é mais o mesmo.
Não havia dúvidas de que ele nutria ressentimento contra Sakayanagi. Lembrei-me da conversa que havia ocorrido entre Katsuragi e Ryuen no dia em que Yahiko foi expulso.
— Você acha que ele trairia a própria turma apenas para frustrar a Sakayanagi-san e arruinar seus planos? — perguntou Horikita.
— Bem, provavelmente precisaríamos de uma boa moeda de troca, claro.
Aparentemente, Keisei já havia pensado nisso.
— Se ele ajudar a Classe C a vencer, mesmo que acabemos ganhando quatro provas e perdendo três, ainda sairíamos com cento e trinta pontos de classe. Pensando na turma como um todo, isso equivale a seis milhões de Pontos Privados por ano. Se separarmos alguns pontos todo mês, não seria impossível acumular perto de vinte milhões — explicou Keisei.
Ao ouvir tudo isso, entendi onde ele queria chegar.
— Então, quando alcançarmos a Classe A, propomos conceder ao Katsuragi o direito de se transferir para a nossa turma. O que acha dessa condição? Além disso, dessa forma, nós o tornamos um aliado — disse Keisei.
— Antes de mais nada, não há como um aluno comum aceitar um acordo desses. Não importa o que tentemos dizer a ele, você percebe que ainda somos apenas a Classe C? — disse Horikita.
— Mas, considerando a situação atual do Katsuragi, você pode realmente afirmar que ele não aceitaria? — retrucou Keisei.
— Embora seja verdade que o Katsuragi talvez sinta que não tem lugar na turma agora, se os colegas descobrirem que ele os traiu, ele certamente será o próximo a ser expulso. Ele não pode se dar ao luxo de esperar enquanto acumulamos vinte milhões de pontos. Mesmo que assumamos que nossos pontos de classe continuem a se acumular de forma constante, e que toda a turma coopere plenamente, ainda levaria pelo menos seis meses ou mais, na melhor das hipóteses — respondi de forma direta.
Se quiséssemos economizar os vinte milhões sem nos sobrecarregar, o mais realista seria esperar algo próximo de um ano. Além disso, mesmo recebendo pontos de classe, vinte milhões de pontos não era um valor pequeno.
— O que acha, Horikita? — perguntei.
— Bem, como você disse, Yukimura-kun, é extremamente importante que consigamos informações — disse Horikita.
— Nesse caso—
— No entanto, quanto à sua proposta, não posso dizer que concordo com ela.
— P-Por quê? — gaguejou Keisei.
— É verdade que o Katsuragi está sendo encurralado. Ainda assim, não consigo imaginar que ele aceitaria essas condições para trair sua turma. Nossa moeda de troca está longe de ser suficientemente atraente — disse Horikita.
Seria diferente se pudéssemos dar os pontos imediatamente, mas o fato de que provavelmente levaria mais de um ano tornava improvável que ele aceitasse.
— Mas se não fizermos nada, não vamos conseguir nenhuma informação — disse Keisei.
— Acho difícil imaginar que consigamos alguma informação mesmo que façamos alguma coisa — rebateu Horikita.
— Como você pode ter certeza se nem sequer tentar? — insistiu Keisei.
Ele era persistente, mas Horikita se manteve firme.
— Não estou descartando a ideia de reunir informações em si. No entanto, esse seu plano simplesmente não é bom. Se tiver outra ideia, venha falar comigo novamente.
Ela encerrou a conversa ali e voltou para a sala.
— Droga! — gritou Keisei, chutando a parede em frustração. — Ei, Kiyotaka, você vai me ajudar?
— Convencer a Horikita? — perguntei de volta.
— Não… me ajude a convencer o Katsuragi. Só nós dois.
Era um pedido ousado.
— Eu não diria que a Horikita desistiu de vencer. Mas tenho a sensação de que, no fundo, ela não acredita que sejamos páreo para a Classe A, sabe? Quer dizer, se não fosse o caso, ela pelo menos deveria tentar. Mesmo que descubram que fizemos contato com o Katsuragi, não é como se isso colocasse a Classe C em desvantagem — acrescentou.
Do jeito que as coisas estavam indo, mesmo que eu dissesse a Keisei que discordava da ideia, provavelmente não o impediria de agir sozinho. Talvez eu conseguisse entender melhor a situação se o acompanhasse.
— Certo. Mas como vamos entrar em contato com o Katsuragi?
— Isso… ainda preciso pensar. Ainda temos algum tempo antes do exame.
— Tudo bem. Me avise quando decidir, então.
Concordei com a ideia de Keisei apenas para impedi-lo de agir por conta própria. E, por enquanto, decidi cooperar com ele.
*
— Ei. Se não se importa, podemos conversar um pouco agora?
Já passava um pouco das seis da tarde, pouco antes do jantar. Horikita havia feito essa pergunta justamente quando eu observava a água ferver na panela sobre o fogão.
— Você estava no meio de fazer o jantar? — perguntou ela.
— Sim, mas não se preocupe com isso.
Até então, eu só havia fervido água. Ainda nem tinha começado de verdade.
— Então, você queria conversar? Sobre o quê?
Se ela pretendia pedir minha ajuda para decidir as provas, eu recusaria.
— Não se preocupe. Não vou pedir que você decida quais provas vamos escolher. Prometo — disse ela, aparentemente adivinhando o que eu estava pensando. — Mas, se não se importar, prefiro que conversemos pessoalmente. Deve levar só uma hora. Apenas isso.
Era algo difícil de discutir por telefone? Ou talvez houvesse algo que ela queria confirmar me vendo pessoalmente? Bem, uma hora não era tanto tempo. Eu não iria recusar.
— Certo. Você vem aqui? — perguntei.
— Não tenho problema com isso, mas você tem estado envolvido em muitas controvérsias ultimamente. Que tal no meu quarto?
Ela parecia cautelosa quanto à possibilidade de alguma visita inesperada. Bem, eu já havia ido ao quarto da Horikita antes. Não havia motivo para recusar. Desliguei o fogão, peguei apenas o celular e saí do meu quarto. Então peguei o elevador e fui até o quarto da Horikita.
O sol já havia se posto, mas ainda era relativamente cedo, então não era surpreendente ver garotos andando pelos andares superiores, que eram a área feminina.
*
Pouco depois de tocar a campainha do quarto da Horikita, ouvi o som da porta sendo destrancada. Esperava que ela me recebesse com sua expressão séria de sempre, mas fui surpreendido quando abriu a porta.
— Bem-vindo.
Surpreendentemente, ela não parecia estar de mau humor. Eu, por outro lado, fiquei um pouco desconfortável com essa mudança. Um leve aroma de missô vinha do interior do quarto.
— Eu estava preparando o jantar. Entre — disse Horikita.
Se ela estava no meio de fazer o jantar, poderia simplesmente ter me chamado depois… Quando hesitei em entrar, Horikita me lançou um olhar, incentivando-me a me apressar, então decidi entrar. Talvez ela estivesse relutante em me receber mais tarde à noite ou algo assim. Resolvi não pensar demais nisso.
Mas, assim que pisei no quarto, notei algo estranho. Por algum motivo, havia lugares postos para duas pessoas na pequena mesa dela. Perguntei-me se ela iria jantar com alguém depois que terminássemos de conversar.
— Bem…
Assim que tentei confirmar quais eram seus planos, Horikita me interrompeu.
— Por favor, não seja tímido. Sente-se.
Espere um segundo… Havia claramente um par de hashis colocado no lugar onde ela me indicou para sentar. Meus instintos diziam que aquilo era uma armadilha para me forçar a fazer alguma coisa.
— Então, sobre o que você queria conversar?
Em vez de me sentar, tentei iniciar a conversa imediatamente.
— Vai ficar em pé enquanto conversamos? Ainda tenho algumas coisas para terminar, então poderia se sentar e esperar?
— Bem… eu só sinto vontade de ficar em pé.
— Vontade de quê? Ter você parado aí me deixa desconfortável. Sente-se.
O tom dela estava ficando mais severo, então decidi me sentar. Já fazia um bom tempo desde que eu havia sido submetido à sua atitude usual — insistente, impositiva e um tanto irracional. Talvez eu tivesse me esquecido de como Horikita normalmente se comportava, já que estava começando a me distanciar dela. E ela de mim.
De qualquer forma, achei melhor apenas me sentar e esperar em silêncio. No entanto, bastou uma rápida olhada para perceber que o jantar ainda estava longe de ficar pronto. Parecia que levaria um bom tempo até que ela terminasse de cozinhar.
— Ei, você disse que isso levaria uma hora, certo? — perguntei.
— Sim. A conversa em si não deve levar mais de uma hora — respondeu Horikita, de costas para mim.
Não pude deixar de notar a forma como ela havia dito aquilo. Era verdade que, quando falamos ao telefone, ela disse que a conversa terminaria em uma hora. Ou seja, qualquer coisa fora da conversa em si não entrava nessa estimativa.
— Certo… e com todo o resto?
— Vamos ver… diria que terminaremos em cerca de uma hora e meia a duas horas.
Eu sabia.
— Considerando o horário, pensei que pelo menos poderia lhe oferecer o jantar — acrescentou ela.
Ninguém havia pedido isso. Senti como se estivesse à mercê dos jogos de palavras absurdos dela. Dito isso, ela já havia começado a cozinhar, e eu não me sentia confortável recusando e voltando para o meu quarto. Ela havia me atraído até aqui com habilidade.
Mesmo de costas para mim, dava para ver que as habilidades culinárias de Horikita não eram ruins. Na verdade, ela era bem competente para uma estudante do primeiro ano do ensino médio.
— Meus pais trabalhavam, então eu frequentemente ficava encarregada de preparar o jantar — murmurou Horikita, como se tivesse entendido o que eu estava pensando apenas pelo meu olhar.
— Você não acha isso trabalhoso ou demorado? — perguntei. Embora cozinhar pudesse ser divertido, havia vários aspectos irritantes no processo.
— Quando soube que o onii-san foi aceito nesta escola, aproveitei a oportunidade para cozinhar com mais frequência.
— Em preparação para vir estudar aqui e morar sozinha, imagino?
— Correto.
Clack. Ela terminou de cortar algo com a faca e passou a finalizar a sopa de missô. Perguntei-me sobre o que ela queria conversar, se não fosse sobre o exame especial. Era a única coisa que eu ainda não conseguia entender.
*
Cerca de quinze minutos depois, Horikita terminou de cozinhar e colocou tudo sobre a mesa. Tudo parecia melhor do que eu esperava — era o tipo de refeição que às vezes se vê em programas de TV.
Horikita sentou-se à minha frente. Se Sudou visse isso, provavelmente ficaria furioso e me acertaria um soco. Mesmo que eu dissesse que era um mal-entendido, ele provavelmente não ouviria. Eu esperava que ele já tivesse sido servido com algo assim… mas, bem, mesmo que tivesse, ainda ficaria com ciúmes.
— Coma — ordenou Horikita. Em resposta, peguei os hashis. Sentamos frente a frente, com a comida entre nós. Por algum motivo, aquela situação me trouxe uma forte sensação de déjà vu. Lembrou-me de quando começamos a escola e Horikita me trouxe uma refeição da cafeteria… e depois me usou.
— Você está desconfiado de mim? — perguntou ela.
— Bem, para ser honesto, não consigo evitar me sentir desconfortável com tudo isso.
— Se você começa a duvidar da gentileza dos outros, isso prova que você tem problemas, como pessoa.
— Isso vindo de você?
— Hoje é especial — respondeu ela.
………
Se ela havia feito aquilo por consideração, seria rude da minha parte nem tocar na comida. Mas estava na minha natureza desconfiar. Bem… não. Foram minhas experiências que me ensinaram a ser assim. Ainda assim, eu havia sido completamente encurralado por ela. O resultado desse pequeno jogo foi decidido no momento em que entrei despreocupadamente em seu quarto.
Por ora, decidi experimentar a sopa. O aroma de missô fez cócegas no meu nariz. Ela parecia ter usado ingredientes particularmente saudáveis, sendo o principal o nabo-daikon.
— Missô de cevada, hein?
O sabor intensamente adocicado característico se espalhou pela minha boca ao tomar um gole.
— Você entende do assunto. É um tipo de missô preferido em Kyushu, mas não sabia se seria do seu gosto — respondeu ela.
— Você cozinha bem.
Tentei fazer um elogio sincero, mas ela não pareceu particularmente satisfeita.
— Hoje em dia, não é preciso nenhuma habilidade especial para cozinhar. Não é nada de que se orgulhar. Se quiser fazer algo, basta comprar os ingredientes no mercado ou na loja de conveniência e procurar a receita online. Certo?
Claro, era fácil improvisar algo. Mas ainda assim era possível demonstrar habilidade de outras formas, como na apresentação do prato ou no corte dos vegetais. Essas não eram exatamente coisas que se aprendem da noite para o dia.
— Você também tem cozinhado assim para o Sudou? — perguntei.
Ela me lançou um olhar irritado.
— Por que eu teria que alimentá-lo com a minha comida?
— Bem… você tem dado aulas particulares para ele com frequência.
— Sim. Mas isso não tem nada a ver com eu cozinhar para ele, tem?
Achei que fosse uma pergunta trivial, mas Horikita continuou a rebater.
— Agora, se fosse ele quem estivesse me ensinando, eu até entenderia sua pergunta. Faria sentido como um gesto de agradecimento. Mas considerando que sou eu quem está ensinando, não há motivo para eu me dar a esse trabalho por ele.
Era uma lógica tão impressionante que fiquei sem palavras, mas…
— Não consigo dizer se você é inteligente ou apenas idiota — acrescentou ela.
Sinceramente, ela disse exatamente o que eu estava pensando. Sudou tinha uma queda por Horikita, e por isso achei que ela pudesse ter cozinhado para ele alguma vez. Mas parecia que ela ainda não havia lidado com os sentimentos dele, provavelmente porque não dava muita importância a coisas como amor. Ela ainda não havia amadurecido a ponto de sequer perceber isso.
— Bem, então. Que tal irmos ao que interessa? — disse Horikita, pegando um caderno.
Ela o entregou a mim. Eu não precisava perguntar sobre o conteúdo. Era nisso que Horikita vinha trabalhando há algum tempo.
— Elaborei um plano que acredito ser o melhor para a Classe C. Gostaria que você me desse sua opinião — disse Horikita.
Depois de dizer isso, acrescentou mais uma coisa:
— Afinal, você comeu a minha comida, não foi?
Isso sim era jogar sujo. Primeiro ela oferece a recompensa e depois espera que eu faça o trabalho para merecê-la?
Sem hesitar, peguei o caderno e o abri. Estava repleto de informações sobre o exame especial. Havia também anotações sobre as dez provas da Classe A, mas como tinham sido anunciadas apenas hoje, pareciam ainda estar em elaboração.
Aliás, as dez provas escolhidas pela Classe C eram: Inglês, Basquete, Arco e Flecha, Natação, Tênis, Tênis de Mesa, Digitação, Futebol, Piano e Pedra-Papel-Tesoura. Esta última parecia ter sido incluída como uma medida secreta de último recurso para quando estivéssemos realmente em apuros. Horikita também havia anotado quem seria mais adequado para cada prova e quais eram nossas chances de vitória.
Tudo o que precisávamos estava reunido naquele caderno. Examinei silenciosamente as anotações com atenção. Horikita fez uma expressão surpresa ao perceber isso.
— Deixando de lado o fato de que você me deu jantar, você não achou que eu fosse ler isso seriamente, não é?
— B-Bem, é verdade, não achei. Eu estava preparada para você recusar, mas…
— Você reuniu todos esses dados por meio de uma análise cuidadosa para o exame. Isso é crucial. Eu não conseguiria cumprir meu papel como comandante sem dar uma olhada — disse a ela.
Não havia uma única discrepância entre o que ela havia registrado ali e as coisas que eu mesmo havia percebido.
— Os dados que você reuniu aqui praticamente expõem toda a turma.
— Esses dados são o resultado de tudo o que coletei após uma semana de muito esforço. Se não fossem precisos, eu estaria em apuros.
Com isso em mãos, qualquer um provavelmente poderia ser o comandante, se necessário.
— Vou continuar refinando as informações incluídas nas anotações. Eventualmente, incluirei quem deve ser designado para cada uma das dez provas da Classe A. Pensei que você poderia dar uma olhada, para usar no seu papel como comandante — disse Horikita.
— Entendo. Bem, suponho que tanto o Sudou quanto o Akito seriam adversários formidáveis, mesmo fora de provas individuais. No caso da Onodera, porém, acho que as chances de vitória dela diminuiriam se fosse colocada contra um garoto. Provavelmente seria prudente considerar um terceiro ou quarto candidato com antecedência — disse a ela.
Horikita assentiu em silêncio. Seria um desperdício designar alguém para uma prova específica cedo demais, quando havia a possibilidade de que essa pessoa pudesse se destacar mais em outra. De qualquer forma, até agora, eu não tinha nada a reclamar. Era um ótimo trabalho.
— Não tenho objeções a nada do que está nas suas anotações. No entanto, posso acrescentar uma coisa?
— O que seria? — perguntou ela.
— Uma das provas que a Classe A escolheu foi xadrez, se não me engano, certo?
Tomei um gole de água ao trazer o novo assunto à tona. Como nenhum dos nossos colegas era bom em xadrez, aquele espaço no caderno havia sido deixado em branco.
— Sim. Tenho adiado a decisão sobre o que fazer com essa prova. Nunca joguei antes. A única pessoa na nossa turma que conhece as regras é você, o comandante. Então pensei em pedir sua orientação — disse Horikita.
— Bem, quanto a isso, gostaria que você fosse quem jogasse.
— Eu? É verdade que, independentemente de quem fosse escolhido, teria que treinar de qualquer forma, mas… por que eu? — perguntou ela, acrescentando que não conseguiria ficar muito boa no jogo, nem vencer.
— Porque acho que você é a pessoa certa para eu ensinar.
— Quer dizer que seria mais fácil me ensinar, já que você não teria que construir um relacionamento com alguém novo?
— Bem, eu estaria mentindo se dissesse que isso não faz parte.
— Suponho que não me oponho a assumir esse papel, mas… tenho certeza de que há alguns alunos que também seriam receptivos a você, não é? Além disso, acho que há outras provas nas quais eu seria útil — disse Horikita.
Horikita era essencialmente boa em tudo. Seja em provas escritas ou esportivas, ela entregava resultados. Eu não tinha dúvidas disso.
— O que estamos procurando é habilidade pura. Há um limite de tempo para o envolvimento do comandante no jogo. Não importa o quão confiante Sakayanagi esteja no xadrez, não há tempo suficiente. Não consigo imaginar que a Classe A usará a opção de trazer o comandante logo no início da partida. Mas, se fizerem isso, então as jogadas iniciais serão cruciais para a vitória.
Se fôssemos dominados nessas jogadas iniciais, seria extremamente difícil nos recuperar.
— Você não está focando no xadrez só porque conhece as regras, está? Você acha que a Classe A vai escolher o xadrez como uma das cinco principais provas? — perguntou ela.
— Tenho quase certeza de que sim. O fato de o xadrez ser a única prova em que o comandante tem tanta influência me preocupa — respondi.
— Isso certamente também tem me preocupado… Muito bem. Vou confiar no seu julgamento.
Agradeci pela aceitação e continuei comendo.
— A propósito, como vamos treinar xadrez? — perguntou ela.
— Provavelmente será difícil para você, mas teremos que treinar online, no meio da noite.
— De fato, assim ninguém nos verá. E, além disso, ninguém saberá o que estamos fazendo.
Outra vantagem era que isso não atrapalharia o treino para outras provas.
*
Eu esperava que nossa conversa tivesse terminado ali, mas, infelizmente, as coisas raramente acontecem como desejamos.
— Tenho um favor a pedir, Ayanokoji-kun. Afinal, você comeu a minha comida, não foi? — disse Horikita.
— Você não acha desleal usar a mesma tática comigo repetidamente?
Justamente quando estávamos na metade do jantar, aquele demônio reapareceu. Pelo visto, o caderno que ela me mostrou antes não era o fim.
— Desleal? Considerando os métodos que você utiliza, acho que seria mais apropriado descrevê-lo dessa forma, não acha? — retrucou ela.
— Do que você está falando?
— O exame de votação da turma. Foi você quem andou agindo pelas minhas costas, não foi? Responda.
— Espera. Eu não fiz—
— O onii-san me deu um conselho. Mas foi você quem estava por trás disso — disse ela, cortando-me.
Pelo jeito que falava, não parecia estar apenas supondo. Por outro lado, era improvável que seu irmão tivesse revelado algo.
— Não percebi no início. Mas depois de pensar por um tempo, eu soube.
Ou seja, ela havia chegado a essa conclusão sozinha.
— Você previu tudo o que eu ia fazer — acrescentou ela.
— Mesmo que eu negasse, não parece que você acreditaria — respondi.
— Sim. Bem, é claro que não tenho nenhuma prova conclusiva de que você tenha feito algo. Se eu perguntasse ao onii-san sobre isso, tenho certeza de que ele não diria nada que sequer implicasse seu envolvimento. Mas, para mim, isso já é uma certeza — disse Horikita.
Pouco a pouco, Horikita havia amadurecido ao longo deste último ano. Tanto seu irmão quanto eu reconhecíamos isso. Mas, à medida que o antagonismo entre ela e o irmão diminuía, ela começou a florescer quase imediatamente. Eu tinha certeza de que o irmão dela, que conviveu com ela por muito mais tempo do que eu, estava ciente de seu grande potencial latente. Provavelmente foi por isso que ele ficou tão frustrado ao vê-la apenas correndo atrás dele o tempo todo.
— Você parece bem desconfortável — disse Horikita.
— É porque parece que estou no meio de um interrogatório hostil.
— Seja como for. A julgar pela sua atitude, está claro que não vou conseguir fazê-lo ceder — disse Horikita, encerrando o assunto por enquanto. Pelo visto, manipular as coisas por trás dos bastidores seria mais difícil daqui em diante.
— Tenho mais algumas perguntas, mas você é livre para não responder — acrescentou ela. Seu olhar era intenso, como se me prendesse no lugar.
— Você acha que podemos vencer a Sakayanagi-san? — perguntou.
— Não acho que seja totalmente impossível, pelo menos. Essa é a impressão que tenho ao olhar suas anotações.
— Muito bem. Contribuirei da melhor forma possível, reunindo a turma.
— Você tem feito um ótimo trabalho nisso ultimamente.
Na ausência de Hirata, quase todos da turma vinham seguindo as instruções de Horikita. Ela estava preparada para assumir a liderança e nos guiar à vitória. Sinceramente, eu queria agradecê-la por assumir responsabilidades que eu não podia.
— Deixo o resto com você. A decisão é sua.
— Entendido. Ainda assim, não seria melhor que você tomasse as decisões relacionadas às regras de envolvimento do comandante?
— Não, tudo bem se você cuidar disso.
— Você está dizendo que pretende travar essa batalha apenas com as informações que eu preparar para você?
— De qualquer forma, eu não sei muito sobre a nossa turma.
— Céus… Se acha que pode vencer a Classe A assim, então está sendo ingênuo.
— Talvez.
Horikita me acompanhou até a entrada do quarto e me observou enquanto eu saía.
— Agradeço pela refeição desta vez, mas… não faça isso comigo de novo — disse. Eu já conseguia me imaginar ficando paranoico sempre que alguém me convidasse para dividir uma refeição.
— Tudo bem. Vou bolar outro plano.
Não, não foi isso que eu quis dizer…
*
Alguns dias antes do nosso confronto com a Classe A, Keisei conseguiu entrar em contato com Katsuragi. Pouco depois, ele me ligou, pedindo que eu fosse até um lugar onde ninguém mais estivesse por perto. Como Katsuragi estava praticamente isolado e agindo sozinho no momento, provavelmente não foi difícil encontrá-lo.
— Então, o que você quer, Yukimura? — perguntou Katsuragi, provavelmente ardendo de raiva contra Sakayanagi, fixando seu olhar afiado em Keisei.
— Há algo com que gostaríamos que você nos ajudasse, Katsuragi — respondeu Keisei.
— Considerando que você me chamou para conversar agora, suponho que nem preciso perguntar o que pretende sugerir.
Pelo visto, Katsuragi já havia percebido o que Keisei estava prestes a propor.
— Então, serei direto. Gostaria que você nos dissesse quais cinco provas a Classe A pretende escolher oficialmente. E mais uma coisa. Gostaria que você sabotasse qualquer prova da qual participe durante o exame — disse Keisei.
Essa última parte era algo que ele não havia mencionado nem a mim nem à Horikita.
— E o que exatamente eu ganharia em troca? — perguntou.
— Nós o receberíamos em nossa turma.
— Que proposta interessante. Você quer que eu traia a Classe A e desça para a Classe C? — respondeu ele, soltando um sorriso irônico e descartando a proposta de Keisei.
— Chegaremos à Classe A algum dia. Somos capazes disso — disse Keisei, insinuando que Katsuragi poderia mudar de turma quando nos tornássemos Classe A. Mas, para Katsuragi, aquelas palavras provavelmente soaram como puro absurdo.
— Vocês chegarão à Classe A algum dia, é? Se perguntar a qualquer outra turma, ouvirá a mesma coisa.
— Bem, mas…
— E se realmente possuem a capacidade para isso, então por que não tentam vencer a Classe A sem recorrer a táticas desleais como esta? Vocês não conseguem, por isso estão tentando me usar. Não é?
Keisei ficou em silêncio diante dessa repreensão contundente. O tom de Katsuragi beirava o desprezo, e suas palavras o deixaram sem resposta.
— Muito bem. Suponhamos que vocês realmente cheguem à Classe A. Está dizendo que vão me oferecer vinte milhões de pontos em troca dessas informações agora? Não, isso é improvável. Se pudessem me dar essa quantia agora, teriam usado para impedir a expulsão do Yamauchi.
É claro que Katsuragi também sabia que não tínhamos tantos pontos assim.
— Bem, isso… — gaguejou Keisei.
— Estavam planejando me pedir para esperar dois anos até juntarem vinte milhões de pontos?
— Sim.
— Você deve entender o quão ridícula é essa fantasia. Mesmo que cheguem à Classe A, não há garantia alguma de que conseguirão juntar vinte milhões de pontos até lá. Podemos redigir um contrato, mas isso não significa nada se vocês não tiverem os pontos. Não se pode dar o que não se tem. Espere um momento. Toda a Classe C sequer concordou com essa oferta?
Katsuragi não era nenhum idiota. Eu tinha certeza de que ele entendia muito bem a situação da nossa turma. Se fosse uma proposta acordada por todos, quem teria vindo falar com ele seria Horikita. Como éramos Keisei e eu ali, era óbvio que aquilo estava sendo feito por conta própria.
— Entendo perfeitamente que vocês estão desesperados, mas nem sequer estão preparados para negociar. Pretendiam falar com o resto da turma depois que eu cooperasse com vocês, para então obter a aprovação deles? Realmente acharam que eu aceitaria uma proposta dessas?
Trair seus colegas não era algo que se fazia com facilidade. Ainda mais para alguém com um forte senso de dever, como Katsuragi.
— E-Então você vai simplesmente ficar parado e deixar a Sakayanagi te silenciar? Te manter no seu lugar? — perguntou Keisei.
— O quê?
— Você realmente quer continuar na Classe A, mesmo depois de terem expulsado o Totsuka?
Ao perceber que não conseguiria convencê-lo, Keisei decidiu ir até o fim, mesmo que isso significasse ser rejeitado.
— Eu não poderia simplesmente ficar sentado, esperando a formatura nesse estado patético. Isso seria coisa de covarde.
— Então, no fim das contas, você recorre a tentar me provocar dizendo que sou patético. Você ganha zero pontos em habilidades de negociação com isso, Yukimura.
— Grr…
Katsuragi voltou seu olhar para mim.
— Há algo que gostaria de dizer, Ayanokoji?
— Não. Acho que você está absolutamente certo, Katsuragi. Não há espaço para argumentarmos.
Reconhecendo isso como uma bandeira branca, Katsuragi voltou sua atenção para Keisei.
— Yukimura, não é que eu queira criticá-lo. Mas, se quer que eu traia minha turma, precisa estar muito mais preparado.
Katsuragi se encostou na parede e desviou o olhar, como se encarasse o vazio.
— Dito isso, você estava certo sobre uma coisa — acrescentou.
— Certo sobre o quê?
Mesmo tendo perdido totalmente a vontade de discutir, Keisei ergueu o olhar ao ouvir isso.
— É verdade que sinto uma raiva inexplicável da Sakayanagi. Para mim, isso já basta para agir contra ela pessoalmente, mesmo que vocês não possam me oferecer nada em troca — disse Katsuragi, agora de braços cruzados, fixando o olhar em Keisei. — Talvez já tenham imaginado, mas Sakayanagi não compartilhou com ninguém quais serão nossas cinco provas oficiais.

Exatamente como eu esperava. Sakayanagi estava mantendo seus planos em segredo.
— E, pessoalmente, não gosto disso. Não é assim que deveríamos agir. Em um exame como este, a turma inteira deveria trabalhar junta. Devemos compartilhar informações com nossos aliados e adotar estratégias que garantam a vitória.
A maior vantagem de não compartilhar informações com a turma era evitar vazamentos sobre as cinco provas escolhidas. No entanto, isso também dificultava o treinamento para essas provas. Tentar se preparar igualmente para as dez reduziria naturalmente a eficiência da turma.
— Ainda assim, se não tiverem problemas com o fato de eu apenas dizer quais são as minhas previsões, posso compartilhá-las com vocês.
— S-Sério?! — exclamou Keisei.
Justo quando ele havia concluído que não tinha como convencer Katsuragi, recebeu uma ajuda inesperada. Isso só mostrava o quanto Katsuragi ressentia Sakayanagi.
— Isso… desde que prometam não contar a ninguém o que vou dizer agora — acrescentou Katsuragi.
— C-Claro. Vou esperar um pouco e depois falar sobre os vinte milhões de pontos com a Horikita e os outros — respondeu Keisei, assentindo.
— Não será necessário. Mesmo que as informações que eu fornecer sejam úteis, vocês provavelmente não conseguirão juntar vinte milhões de pontos.
— Então o que quer em troca?
— Nada. Se tiver que pedir algo, seria apenas que derrotassem Sakayanagi.
— Tenho absoluta certeza de que Xadrez, Inglês e Matemática serão escolhidos como provas oficiais. Esses três, com certeza. Depois disso, acredito que Literatura Contemporânea e Cálculo Mental Rápido sejam os mais prováveis.
— Por outro lado, é justo assumir que provas que exigem muitos participantes, como Pular Corda XL e Queimada, estejam ali apenas para despistá-los. Pelo que pude observar, nossa turma não parece estar treinando para essas.
Não saberíamos se ele estava correto até o dia do exame. Se mais de três das provas que ele apontou como prováveis fossem realmente escolhidas, então seria justo assumir que ele estava certo.
— Tem certeza de que está bem com isso? Quero dizer, sem receber nada em troca — disse Keisei.
— Já disse. Mesmo que vocês não tenham poder de barganha suficiente para me convencer, ainda vale a pena ajudá-los.
Keisei conseguiu obter de Katsuragi informações que julgava difíceis de conseguir — ainda que de forma inesperada. Provavelmente estava radiante naquele momento.
— I-Isso é incrível, Kiyotaka! Agora temos uma chance de vencer isso! — exclamou Keisei, cerrando o punho com entusiasmo.
— Mais uma coisa. Você disse que queria que eu sabotasse qualquer prova da qual eu participasse, não foi? — disse Katsuragi.
— Ah… bem, você não precisa—
— Hmph. Você veio até aqui para negociar comigo e agora está satisfeito apenas com algumas informações? — respondeu Katsuragi, soltando uma leve risada, aparentemente achando a reação atrapalhada de Keisei divertida.
— Não é isso, é que…
— Não pense que pode derrotar Sakayanagi de qualquer jeito. É melhor assumir que ainda mal conseguirão se manter de pé, mesmo que eu alivie nas provas. No entanto, a única prova em que posso realmente ajudá-los provavelmente é o Cálculo Mental Rápido. Ou, na improvável hipótese de ser escolhida, o Pular Corda XL.
Decidi fazer uma pergunta a Katsuragi.
— Sakayanagi está tão cautelosa com você agora. Você sequer poderá participar? Suponho que talvez tenha que participar ao menos uma vez se o Pular Corda XL for escolhido. Mas, no fim, como apenas um ou dois participantes podem decidir o resultado no Cálculo Mental Rápido, o que faz você achar que ela contará com você?
— Isso porque os alunos da nossa turma que são melhores em cálculo mental somos eu e outro estudante, Tamiya. E o Tamiya não é tão bom assim. Sendo assim, me deixar de fora só reduziria nossas chances de vitória. Sakayanagi provavelmente acha que já me subjugou completamente ao expulsar Yahiko. Ela deve me designar algum papel para poder me usar como peão — disse Katsuragi.
Para Sakayanagi, a ideia de transformar Katsuragi — alguém que se opunha a ela — em um peão deveria ser bastante atraente. Ele se ofereceu para nos ajudar errando deliberadamente questões, caso o Cálculo Mental Rápido fosse escolhido, ou errando o ritmo logo no início, caso o Pular Corda XL fosse selecionado.
— No entanto, gostaria de evitar que Sakayanagi descubra que estou perdendo de propósito. No Pular Corda XL, posso fazer parecer que errei por acidente. Mas não posso errar intencionalmente questões fáceis no Cálculo Mental Rápido.
Ou seja, fingiríamos competir em igualdade, mas acabaríamos vencendo por pouco.
— Se o Cálculo Mental Rápido for escolhido como uma das provas, mas eu não for selecionado para participar, então terão que aceitar que a sorte não estava do lado de vocês e desistir — disse Katsuragi.
De qualquer forma, havíamos recebido informações extremamente valiosas. Não havia do que reclamar. Depois que Katsuragi foi embora, Keisei falou animadamente:
— Vamos contar isso para a Horikita agora mesmo!
— Não… acho melhor não contarmos ainda que entramos em contato com o Katsuragi hoje — respondi.
— P-Por quê?
— Pensando bem, as coisas só deram certo por acaso. Ela ficará irritada se descobrir que tomamos uma atitude por conta própria — expliquei.
— Mesmo assim, deveríamos usar bem essas informações, não acha?
— Quero encontrar o momento certo para contar a ela. Vou garantir que dê tudo certo.
Keisei pareceu um pouco incomodado no início, mas acabou concordando — provavelmente por se sentir culpado por ter se encontrado com Katsuragi em segredo daquela forma.
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