Ano 1 - Volume 11
Capítulo 4: O que Falta à Turma
PLANEJAMOS TER OUTRA sessão de discussão no dia seguinte à definição dos confrontos. Ela seria realizada depois da aula, assim como ontem, deixando-nos livres durante o almoço. Reuni-me com o Grupo Ayanokoji na sala de aula, como de costume, e seguimos para o refeitório.
— Como foi a discussão de ontem? — decidi perguntar aos meus amigos sobre o que havia acontecido, sem hesitar.
Encontrar-me com os outros comandantes, decidir os confrontos entre as turmas e ouvir a explicação completa sobre o papel do comandante havia levado cerca de uma hora. Quando voltei à sala, os alunos já estavam a caminho dos dormitórios.
— Você não ouviu nada da Horikita-san…? Bem, acho que é compreensível — disse Airi de forma vaga, com palavras difíceis de interpretar. Após um breve instante, ela voltou a falar:
— Bom, sabe como existe um manual do evento, certo? Acabamos tendo muita dificuldade para entender as regras…
— Nós nem tivemos uma discussão de verdade. Foi uma completa perda de tempo — disse Keisei, soltando um suspiro exasperado.
Aparentemente, ler as regras durante o intervalo do almoço não tinha sido tempo suficiente para que todos as compreendessem de fato. Parecia que a discussão do outro dia havia terminado com as pessoas finalmente entendendo as regras, e nada mais. Acho que se poderia dizer que isso era típico da Classe C.
— Além disso, o problema não era só com a nossa turma — acrescentou Keisei.
— O que você quer dizer com isso, Yukimuu? — perguntou Haruka.
— Há um número limitado de lugares no campus onde um grande grupo de alunos pode se reunir, certo? — disse Keisei.
— Bem, é… Acho que seria praticamente impossível quarenta pessoas se reunirem numa sala de karaokê ou nos bancos do shopping ou algo assim. E daí?
— Eu fui a primeira pessoa a sair da sala depois que nossa discussão terminou ontem e… Bem, havia alguns alunos da Classe A lá fora. Parados no corredor do lado de fora da Classe C.
Haruka e Airi trocaram olhares confusos, como se dissessem: "Qual é o problema nisso?". Akito também não pareceu entender a princípio, mas captou o que Keisei queria dizer após refletir um pouco.
— Então você está dizendo que eles estavam nos espionando ou algo assim? — perguntou Akito.
— Exatamente. As decisões que tomarmos como turma para este exame serão ditas em voz alta na sala, certo? Mesmo que apenas escutem por acaso as nossas discussões, eles vão obter uma certa quantidade de informação — disse Keisei.
Informações como quais eventos iríamos escolher ou em que cada pessoa era boa, por exemplo. Não havia dúvida de que colocar as mãos nesse tipo de informação seria vantajoso, mesmo que fosse apenas um pouco. O que significava que a batalha já havia começado.
— Se você olhar a situação por esse ponto de vista, isso significa que a Classe C já está ficando para trás.
— Que assustador! A Sakayanagi-san já fez seu movimento! — Haruka esfregou os braços, tremendo nervosamente. Mas logo se recompôs e sugeriu que retribuíssemos à Classe A da mesma forma.
— Nesse caso, não seria uma boa ideia irmos buscar informações sobre a Classe A? Sabe, como aquele cara disse: olho por olho, dente por dente, ou algo assim.
No entanto, Keisei não estava prestes a concordar com isso.
— Se fosse tão fácil assim, não estaríamos preocupados com isso desde o início — disse Keisei.
— Hã?
— Provavelmente não sou o único que pensa assim. Tenho certeza de que a Horikita e alguns outros também sabem que seria inútil tentarmos fazer isso. Você realmente acha que todos os quarenta membros da Classe A vão se reunir para discutir isso juntos? — perguntou Keisei.
A Classe C carecia de unidade, então a primeira coisa que precisávamos fazer era reunir todos em um só lugar. Esse não era o caso da Classe A, onde Sakayanagi e vários outros alunos de elite decidiam o rumo de toda a turma. Quem seria o comandante? Quem elaboraria os eventos? Quem reuniria informações? A Classe A já havia decidido quem preencheria esses papéis no momento em que o exame começou.
Mesmo que realizassem uma discussão na sala de aula, como a Classe C havia feito, provavelmente colocariam duas ou três pessoas de guarda do lado de fora para impedir qualquer tipo de reconhecimento.
— Mas não deveríamos ao menos tentar sondar por informações? Quero dizer, eles podem baixar a guarda. Talvez acabem tendo uma reunião não planejada na sala e discutam algo abertamente?
— Se eles realmente fizessem isso, eu ficaria apavorado. Duvidaria da autenticidade de qualquer informação vinda de uma reunião dessas — disse Keisei.
Se as informações que obtivéssemos ao escutar uma reunião assim fossem falsas, estaríamos apenas desperdiçando tempo. Keisei estava absolutamente certo. As informações seriam ocultadas, e deveríamos desconfiar de qualquer informação que não fosse.
— Suponho que nos envolver nesse tipo de guerra de informações seja necessário. A parte crucial é como faremos isso…
— Será que… conseguimos vencer? — murmurou Airi, ansiosa, provavelmente já sentindo que as paredes estavam se fechando ao nosso redor.
— Neste momento, provavelmente seria uma boa ideia assumirmos que eles estão um ou dois passos à frente.
Bem, como a Classe C ainda não havia decidido nada, não estávamos exatamente liderando.
— Ainda assim, nunca imaginei que enfrentaríamos a Classe A — disse Haruka.
— Desculpa. A culpa é minha por ter perdido o sorteio — respondi.
Na verdade, eu mesmo teria escolhido a Classe A, mesmo se tivesse vencido a loteria, mas achei que deveria ao menos parecer arrependido.
— Ah, não, não quis dizer desse jeito! Desculpa, desculpa! Eu não estava te culpando nem nada, Kiyopon! — disse Haruka.
Ela deve ter levado meu pedido de desculpas mais a sério do que eu imaginava, porque parecia realmente nervosa.
— Nossa, isso foi meio cruel, Haruka. Esperar que ele tirasse o número vencedor quando havia apenas uma chance em quatro — disse Akito, fazendo Haruka se encolher ainda mais.
— E-Eu já disse que não foi isso que eu quis dizer, poxa…
Ela ficou pensativa por alguns instantes antes de falar novamente, provavelmente querendo mudar de assunto.
— Espero que eles peguem um pouco leve com a gente. Quer dizer, afinal de contas, eles só vão enfrentar a Classe C. Você também acha isso, não é, Miyachi? — disse Haruka.
— Pegar leve com a gente…? Você honestamente acha que a Sakayanagi é desse tipo?
— Não, nem um pouco. Ela não só esmagou completamente o Yamauchi-kun, como também torturou toda a Classe C — disse Haruka, olhando para o teto, completamente desanimada.
— Tenho que dizer, seus problemas realmente não têm fim, hein, Kiyotaka? Quero dizer, com essa coisa de ser o comandante e tudo mais — disse Keisei, dando um tapinha no meu ombro para demonstrar apreço por tudo o que eu estava enfrentando.
— Acho que pelo menos eu tenho um Ponto de Proteção. Na verdade, eu não tinha muita escolha além de assumir o papel de comandante. Não quero que a gente perca, mas sou bastante grato por não precisarmos nos preocupar com ninguém sendo expulso — respondi.
Era tudo o que eu podia dizer aos meus amigos naquele momento. Seja qual fosse o motivo, o fato é que fui eu quem, de forma egoísta, nos conduziu a um confronto com a Classe A.
— Estamos enfrentando a Classe A. Mesmo que a gente perca, não é como se alguém realmente pudesse te culpar por isso, Kiyotaka.
— E a Sakayanagi-san é a comandante deles.
Olhando para nossas chances, noventa e nove em cada cem pessoas diriam que Sakayanagi seria a vencedora. Ainda assim, não era como se perder mudasse minha posição dentro da turma. Na verdade, mesmo que eu vencesse, isso apenas garantiria que o crédito fosse atribuído à liderança da Horikita e ao seu planejamento meticuloso.
— Bem… vencer provavelmente vai ser difícil — disse Keisei, cruzando os braços e soltando um suspiro derrotado.
Akito disse algo inesperado naquele momento:
— Não é como se a gente estivesse garantido a perder só porque estamos enfrentando a Classe A.
— Você… acha? Não é como se eu quisesse que a gente perdesse ou algo assim, mas… — disse Haruka.
— Isso não é nenhuma conspiração secreta. Tem que haver um jeito de arrancar a vitória da Classe A, certo? — disse Akito, fazendo uma breve pausa antes de continuar. — Quando o exame foi anunciado, eu também achei ridículo lutar contra as classes superiores. Mas algo que aquele falastrão do Ike disse me fez pensar que talvez tenhamos uma chance de vencer isso.
— Algo que o Ike disse? Espera, você está falando de quando ele mencionou pedra, papel e tesoura? — respondeu Haruka, lembrando do que havia acontecido na sala.
Akito assentiu.
— No começo, achei que era uma ideia idiota para um evento. Mas então percebi que, se escolhermos eventos que dependem da sorte, sempre teremos cinquenta por cento de chance de vencer, não importa contra quem estejamos. Pode ser jogo da velha, da velha ou daifugō, ou qualquer coisa do tipo. Comecei a pensar que escolher cinco eventos no dia do exame em que a sorte tenha um grande peso não seria uma má ideia — disse Akito.
Após ouvir a explicação de Akito, os olhos de Haruka brilharam.
— E com um plano desses, poderíamos lutar em pé de igualdade com qualquer um, até mesmo a Classe B ou a Classe A!
— Isso mesmo! Acho que não é uma má ideia! — disse Airi.
— Bem… na verdade, não é tão simples assim.
Enquanto Airi, Haruka e Akito comemoravam a ideia, Keisei recuou e a analisou com calma.
— Não saberei os números exatos até fazer alguns cálculos, mas com uma estratégia dessas, nossas chances de vitória provavelmente ficariam apenas entre cinco e dez por cento — argumentou ele.
— Hã? Só isso? Quer dizer, não estou dizendo que teríamos exatamente cinquenta por cento de chance de vencer, mas não deveria ser pelo menos uns vinte ou trinta por cento? Quero dizer, conseguir escolher cinco eventos e vencer quatro deles seria tão difícil assim? — perguntou Haruka.
— Precisaríamos ter bastante sorte para que isso desse certo — respondeu Keisei.
Teríamos que apostar na possibilidade de que cinco dos sete eventos nos quais competiríamos fossem os propostos pela Classe C, sem mencionar a sorte necessária para vencer quatro ou mais desses eventos. Se assumíssemos que teríamos cinquenta por cento de chance de vencer cada evento individualmente e usássemos essa suposição como base para calcular a probabilidade de vitória geral, então…
Fiz o cálculo de cabeça.
As chances de que os sete eventos finais incluíssem cinco eventos escolhidos pela nossa turma eram de 8,33%. E, se nossas chances de vencer cada evento fossem de cinquenta por cento, então nossas chances de vencer quatro ou mais eventos no total seriam de 18,75%. Se quiséssemos cumprir ambas as condições, o resultado final seria que teríamos 1,56% de chance de conseguir tudo isso.
Ou seja, estava bem longe de cinco por cento. Era difícil chamar de bom plano algo que dependesse apenas da sorte. Dito isso, eu estava apenas examinando hipóteses simples, calculando nossas chances de vencer quatro ou mais jogos baseando-me exclusivamente na sorte. Na realidade, essas chances flutuariam devido a uma variedade de fatores. Ainda assim, não havia dúvida de que dificilmente isso poderia ser chamado de estratégia.
Com isso em mente, deveríamos escolher eventos nas áreas em que nos destacássemos, mesmo que isso significasse correr o risco de perder. Quanto menos eventos dependessem de uma chance puramente de cinquenta por cento baseada na sorte, melhor.
— Então, não vai dar, hein? Acho que só pensei que talvez pudesse funcionar — disse Akito, coçando a bochecha ao perceber o quanto sua ideia havia sido otimista demais.
De repente, notei os olhos de Airi voltados para mim. Ela parecia preocupada e, quando fiz contato visual com ela, sua expressão ficou ainda mais tensa.
— Kiyotaka-kun… Hum, você está bem? Quero dizer, sendo o comandante e—
Parecia que a dificuldade de vencermos a Classe A estava pesando em sua mente, assim como estava se tornando cada vez mais evidente para todos.
— É, Kiyopon. Você realmente não precisa se forçar a isso só porque tem um Ponto de Proteção — disse Haruka, interrompendo, como se estivesse concluindo o pensamento de Airi.
— A Haruka está certa. Pelo menos, nunca imaginamos que você tivesse alguma ligação com a Sakayanagi ou algo assim. Certo? — disse Akito.
Todos assentiram em resposta. Ter pessoas confiando em você certamente não era nada ruim.
— Acho que parece que há algumas pessoas na turma que suspeitam de você, mas acho que a maioria está bastante convencida, graças à explicação da Horikita-san. Pensando bem… achei que os Pontos de Proteção eram incríveis no começo, mas agora meio que parecem irritantes de se ter, não é?
— Antes, eu estava com bastante inveja de todos que ganharam um Ponto de Proteção. Mas, vendo o que está acontecendo com o Kiyotaka-kun agora, se eu tivesse um, sinto que provavelmente acabaria usando imediatamente se estivesse na situação dele.
A verdade é que apenas uma pessoa estava segura. Todos os outros estavam expostos. Não seria fácil continuar garantindo a própria segurança sem se envolver. Em contraste com a tímida Airi, Keisei cruzou os braços e adotou uma postura diferente.
— Se eu tivesse um Ponto de Proteção, não o usaria de jeito nenhum, não importa o que os outros dissessem.
— Mesmo que isso resultasse em animosidade, inveja ou ressentimento dos seus colegas de classe?
— Não, não, você não está entendendo. Eu não permitiria que algo assim me incomodasse, especialmente por algo que conquistei com meus próprios méritos. Na verdade, o Kiyotaka deveria manter o dele a qualquer custo, para se proteger — disse Keisei, cruzando os braços de forma desafiadora, quase como se ele próprio estivesse sendo sacrificado.
Akito, que até então permanecera em silêncio, olhou para mim.
— O fato é que enfrentar a Classe A vai ser muito difícil, então provavelmente deveríamos ser gratos por o Kiyotaka ter assumido a função. Se fosse outra pessoa, talvez já tivéssemos visto a segunda expulsão, certo? Ou você está dizendo que poderia ter se voluntariado para ser o comandante, Keisei?
— Bem… Não, acho que você tem razão.
Não era como se eu não entendesse as frustrações de Keisei. Ele provavelmente estava tentando apontar que colocar um aluno mais capaz na posição de comandante nos daria uma chance melhor de vencer.
— Acho que é verdade que também temos que lidar com o desagradável risco de expulsão neste exame. Mas, se isso não fosse um problema, quem teria sido o melhor candidato para comandante? Talvez a Horikita-san, afinal? — disse Airi, inclinando a cabeça de lado.
Ela parecia estar pensando em vários candidatos.
— Sim, isso me parece a escolha certa. Ou talvez alguém como o Hirata-kun ou a Kushida-san? O Yukimuu também teria sido uma boa escolha — disse Haruka, citando nomes de alunos que provavelmente trariam bons resultados como comandante.
— Hirata, hein… Fico me perguntando qual é a dele — disse Akito. Ele tentou mudar de assunto, talvez achando que continuar falando sobre enfrentar a Classe A só nos deixaria deprimidos. — Ei, Keisei, como você acha que vai ser o confronto entre a Classe D e a Classe B?
Ele parecia curioso sobre como as coisas estavam indo para as outras equipes, mesmo todos nós estarmos fazendo o mesmo exame especial.
— Muito provavelmente, a Classe B vai vencer. Quando se trata de trabalho em equipe, eles nem se comparam. E as habilidades gerais da Classe B também são esmagadoramente superiores — disse Keisei.
— É, verdade. Além disso, o comandante deles não é o Ryuen-kun. É o Kaneda-kun.
Eles provavelmente achavam que não havia motivo para temer a Classe D sem o Ryuen… e provavelmente estavam certos. Mas Ishizaki e o restante dos alunos da Classe D queriam enfrentar a Classe B desde o início. Embora tenha sido uma decisão surpreendente, fazia sentido. Se eu estivesse na posição de liderar a Classe D, teria escolhido a Classe B como oponente.
A Classe A era liderada por Sakayanagi e contava com adversários formidáveis que nunca baixavam a guarda, como Katsuragi e Hashimoto. Além disso, possuíam a maior capacidade acadêmica entre todas as turmas do nosso ano. E, no que dizia respeito à Classe C, bem… eu tinha certeza de que ninguém na Classe D queria me enfrentar.
Claro, eles provavelmente esperavam que eu não demonstrasse minhas habilidades abertamente. Mas, no fim das contas, a área de superioridade da Classe D não era acadêmica, e sim atlética. E, se quisessem tirar o máximo proveito disso, tinham que escolher a Classe B.
Eu apostaria, no entanto, que não haviam tomado essa decisão achando que venceriam com certeza, ou mesmo que estariam em pé de igualdade com a Classe B. No melhor dos casos, foi uma decisão tomada para reduzir as chances de derrota. Se a Classe D poderia realmente vencer dependeria das escolhas que fizessem dali em diante — e da sorte. Ainda assim, isso não passava de um pequeno passo na direção certa para eles.
— Ei, olhem só — murmurou Haruka baixinho, chamando nossa atenção para a entrada do refeitório, onde Hirata acabara de entrar. Seu andar era lento, pesado e vacilante. Ele se movia como um zumbi ou um fantasma. Seus olhos pareciam vazios, em forte contraste com seu habitual ar brilhante e alegre.
— Ele está tipo… muito doente, ou algo assim — murmurou Haruka para si mesma, acrescentando: — Não há outra forma de descrever isso.
Hirata fazia mais pela turma do que qualquer outra pessoa. Ele sempre agia pensando no melhor para a classe. Se conseguimos passar pelo nosso primeiro ano nesta escola sem que ninguém ficasse para trás, isso se devia, sem dúvida, aos esforços de Hirata.
— O Hirata basicamente não nos serve de nada neste exame especial. Enfrentar a Classe A já é difícil o suficiente. Agora teremos que carregar uma desvantagem significativa desde o início — disse Keisei. Suas palavras soaram frias.
— Não há… nada que possamos realmente fazer, há?
Hirata já vinha sendo frequentemente abordado por outros alunos. Parecia que ninguém havia conseguido alcançá-lo até agora, porque não houve mudança alguma nele. Se alguma coisa, parecia que haviam apenas aprofundado sua ferida ao tentar tocar no assunto.
Ninguém do Grupo Ayanokoji era particularmente próximo de Hirata. Havíamos concluído, obviamente, que nossas palavras não o alcançariam. Foi precisamente por isso que nenhum de nós reagiu com força à insinuação de Keisei de que aquele não era um problema nosso para resolver.
*
QUANDO AS AULAS TERMINARAM naquele dia, uma discussão de verdade finalmente estava prestes a começar. No entanto, Hirata se levantou imediatamente, pronto para ir embora. Ele foi o único a fazer isso.
— Hirata-kun!
— H-Hirata-kun!
Várias das garotas da turma gritaram para Hirata em uníssono, Mii-chan entre elas. No entanto, Hirata não parou de se mover. De fora, parecia que ele não se importava mais com o que acontecia com a classe. Mas também parecia que ele não queria incomodar a turma, então estava apenas fazendo o mínimo: vindo para a escola, assistindo às aulas e depois voltando diretamente para os dormitórios. Provavelmente permaneceria preso nesse ciclo.
— Espere, Hirata-kun!
— Acho que são vocês que deveriam esperar — disse Horikita.
Mii-chan e as outras estavam prestes a correr atrás de Hirata, mas suas palavras as fizeram parar.
— Estamos prestes a realizar uma discussão. Ou pretendem fazer com que ainda mais pessoas se ausentem? — disse Horikita.
— M-Mas…
— Não há nada que possamos fazer por ele agora. Vamos, voltem para seus lugares.
Depois de conter o desejo delas de correr atrás de Hirata, Horikita incentivou todos a se sentarem. No momento, nossa principal prioridade era pensar juntos e focar em solidificar nossos planos como turma.
— E ainda assim, de todas as pessoas, o Koenji ainda está aqui, hein — disse Sudou, com a voz tingida de surpresa, considerando o quão inesperado era vê-lo participar.
— Fufufu. Sou um membro desta classe, não sou? É apenas natural que eu participe — respondeu Koenji calmamente, como se o que dizia fosse óbvio. — No entanto, gostaria que resolvêssemos tudo hoje, tornando esta nossa primeira e única discussão. Estou bastante ocupado, como podem ver.
— Isso é um pedido difícil. Não é como se pudéssemos tomar todas as decisões necessárias para este exame especial em um único dia. Mesmo que decidamos todos os eventos hoje, ainda precisaremos de mais preparações para garantir que venceremos nesses eventos — respondeu Horikita, de pé no púlpito, rejeitando seu pedido.
Koenji não contestou. Em vez disso, exibiu um largo sorriso. Parecia que, pelo menos por enquanto, ele estava disposto a ouvir.
— Nesse caso, participarei apenas desta discussão em particular — respondeu ele, sem ceder um centímetro.
Aparentemente, não importava qual estratégia a turma elaborasse; a ideia de trabalhar com todos nem sequer passava por sua mente. Sudou se levantou em silêncio, mas rapidamente se sentou novamente depois que Horikita lhe lançou um olhar. Se as pessoas continuassem a discutir ali, nossa conversa nunca avançaria.
— Muito bem, então continuarei fazendo o possível para que você participe da próxima reunião — disse Horikita.
Koenji ouviu a resposta de Horikita com um sorriso e então cruzou os braços e as pernas. Aquela era sua forma de sinalizar: por favor, prossiga com a discussão.
— Ei, ahm, Horikita. Tenho algumas coisas que quero perguntar. Umas perguntas simples sobre os eventos dos quais vamos participar e tal — disse Ike, levantando a mão.
— O que foi, Ike-kun?
Ike, ainda com a mão levantada, ficou de pé.
— Estão dizendo que vamos competir em sete eventos no total, certo? Mas quer dizer… nem todo mundo vai participar, né? — perguntou ele.
— A quem você se refere com "todo mundo"? E do que exatamente está falando? — perguntou Horikita.
— Ah, bem, colocando de forma simples… os alunos que são meio… ruins? Quer dizer, eu só estava pensando… os alunos que não são particularmente bons em esportes e também não são exatamente inteligentes não vão participar, certo? Não é como se todos esses sete eventos fossem do tipo que precisam de muita gente. Se escolhermos eventos que só algumas pessoas habilidosas possam vencer, isso significa que um monte de gente não vai fazer nada, certo? — disse Ike.
Havia cerca de quarenta alunos em cada turma. Mesmo que um ou dois eventos que exigissem muitas pessoas fossem escolhidos, provavelmente teríamos um total de vinte ou trinta alunos competindo ao longo dos sete eventos. Ike parecia estar dizendo que, dependendo dos confrontos que organizássemos, quase metade da turma não participaria.
— Não sei não. E se houver um evento que precise de, tipo, vinte pessoas? — perguntou Kei, inserindo-se na discussão depois que Ike deu sua opinião.
— Ah, qual é. Isso é bobagem, Karuizawa. No futebol só pode ter uns onze jogadores por time, certo? Que eventos precisariam de mais gente que isso? Nem consigo pensar em nenhum, sabe? — disse Ike.
— Bem… e o beisebol? — ela rebateu.
— O beisebol tem uns dez jogadores, acho. Menos que o futebol.
— O beisebol tem nove jogadores — apontou Horikita, de forma bastante direta, interrompendo a conversa.
— Bom, tudo bem. Mas o ponto é que não precisamos de todo mundo — disse Ike.
— Não sei, tem certeza disso? O futebol americano exige onze jogadores, assim como o futebol. E o rúgbi precisa de uns quinze — disse Sudou, listando eventos que exigiam mais de dez pessoas.
— É, mas… você realmente vai escolher algo como rúgbi? Eu nem sei as regras desse negócio.
Embora o rúgbi não fosse de forma alguma um esporte obscuro, era completamente desconhecido para quem não tinha experiência direta com ele. Não era exatamente algo que se fazia nas aulas de educação física. Eu tinha certeza de que os alunos da Classe A não eram exceção. Não conseguia imaginar muitos cenários que me levassem a começar a praticar rúgbi. Era duvidoso que uma proposta para incluir o rúgbi como um de nossos eventos fosse aprovada, e provavelmente haveria pouco benefício mesmo que fosse.
— É por isso que acho que provavelmente a gente nem vai participar — disse Ike.
— Então, o que você está tentando dizer? — perguntou Horikita.
— Bem… que talvez a gente nem precise se reunir assim ou ter sessões de treino depois e coisas do tipo. Acho que é isso.
— Entendo que vocês queiram pegar leve. É verdade que é mentalmente desgastante ser obrigado a fazer algo que realmente não querem. Além disso, isso invade o precioso tempo de descanso e feriados de vocês — ponderou Horikita.
— B-Bem, eu não iria tão longe assim, mas…
— Mas determinei que todos precisamos trabalhar juntos.
— Eu gostaria de ouvir o motivo. Se parecer convincente, então vou te apoiar com tudo o que tenho — disse Sudou, tomando a palavra.
— O número de pessoas de que vamos precisar depende das regras. Por exemplo, digamos que nossos oponentes proponham vôlei como evento. O vôlei normalmente é jogado seis contra seis, mas podemos editar as regras até certo ponto. E se eles decidirem estabelecer que a partida terá um limite de trinta minutos e que todos os jogadores devem ser substituídos a cada dez minutos? Quantos participantes seriam necessários nesse caso? — perguntou Horikita.
— Ah… Deixa eu ver, seis pessoas, trocando a cada dez minutos, então…
Dezoito pessoas, considerando apenas esses critérios. Ou seja, quase metade da turma teria que participar. Além disso, ter seis alunos participando ao mesmo tempo era uma exigência fácil para qualquer classe, em qualquer série. Era provável que a escola aprovasse um evento assim.
— E se houver mais de um evento desse tipo? Se seguir essa linha de raciocínio, fica óbvio que todos na turma podem ser forçados a participar de dois ou três eventos. Precisamos estar preparados para isso — disse Horikita.
Claro, tudo isso dependia dos eventos e regras que a Classe A apresentasse. Era totalmente possível que misturassem alguns eventos falsos nas submissões apenas para dificultar as coisas para nós.
— Tenho certeza de que isso ainda não caiu totalmente a ficha para todos vocês, mas este exame especial é muito mais complexo do que parece — disse Horikita.
Se analisássemos cada evento possível, tenho certeza de que surgiriam algumas opções completamente absurdas. Pedra, papel e tesoura, como Ike havia sugerido, ou algo como um jogo de cartas. Como precisávamos vencer quatro eventos a qualquer custo, não podíamos nos dar ao luxo de tentar parecer legais. Precisávamos elaborar eventos nos quais pudéssemos vencer com certeza, independentemente do conteúdo das provas.
E também precisávamos escolher as pessoas certas para cada tarefa.
— Também não pretendo mantê-los aqui por muito tempo hoje — disse Horikita.
Ou melhor, mesmo que ela mantivesse todos ali, isso não significava necessariamente que teríamos boas ideias imediatamente.
— Então, para hoje, gostaria de passar uma tarefa para todos vocês. Quero que até o final da aula de amanhã vocês pensem em um evento no qual sejam bons e um evento no qual tenham certeza de que nunca perderiam. Não importa se é um evento individual ou em equipe — disse Horikita.
Eu queria garantir que uma de nossas cinco escolhas finais fosse um evento um contra um. Havia boas chances de que todas as turmas estivessem incluindo algo assim em suas listas, com absoluta confiança de que não perderiam. Por outro lado, se você acabasse perdendo um evento desses, as consequências seriam imensuráveis. Dito isso, alunos com habilidades e talentos especiais, cujas chances de vitória fossem praticamente garantidas, estariam em alta demanda.
— Mas não adianta nada se forem eventos que a escola não aprova, certo? Eu não entendo quais são os critérios.
Eventos e regras excessivamente complicados seriam rejeitados pela escola. A falta de clareza em relação a essa exigência provavelmente era um problema com o qual muitos alunos estavam lidando.
— Não precisam se preocupar com isso agora. Vamos descobrir se são eventos que a escola aceitará depois de ouvir todos e reunir uma ampla gama de opções. Por enquanto, vocês podem sugerir quaisquer eventos que conseguirem pensar — disse Horikita.
— Então você está dizendo que coisas como jogos de luta, karaokê e assim por diante estão liberadas?
— Sim. Não há problema — respondeu Horikita, enfatizando novamente que ninguém precisava se preocupar com isso no momento. Provavelmente era a maneira certa de lidar com a situação. Era importante começarmos perguntando a nós mesmos em que éramos bons.
— E o que fazemos se não houver nada em que sejamos realmente bons? — perguntou Haruka, direcionando a questão a Horikita.
— Se não houver nenhum evento no qual você se sinta particularmente confiante para vencer, não há problema em não enviar sugestão alguma. É arriscado demais propor eventos nos quais você não tenha absoluta confiança.
Ela provavelmente queria reunir o máximo de eventos possível, mas, pelo visto, não tínhamos tempo para ser seletivos. Até agora, parecia que as decisões de Horikita estavam no caminho certo, então achei melhor apenas observar.
— Está mesmo tudo bem encerrar a discussão tão cedo? — perguntou Koenji.
— Se a discussão de hoje for breve assim, ficará mais fácil para você participar da próxima vez, não é, Koenji-kun? — ela respondeu.
— Eu disse que participaria desta vez, e apenas desta vez — disse Koenji.
— Mas será ruim se você não fizer a "tarefa" que passei hoje. Se não fizer isso, não poderá dizer que realmente participou, poderá? — rebateu Horikita.
— Pensar em um evento no qual eu sou bom, era isso? — disse Koenji.
Ele levou a mão ao queixo, sem que o sorriso desaparecesse.
— Exatamente. Se quiser dizer que realmente participou ao menos uma vez, então precisa fazer ao menos isso — disse Horikita.
Horikita provavelmente estava tentando dizer que, se ele não fosse capaz de fazer isso, então teria que comparecer à discussão uma segunda vez. Koenji se levantou com elegância e então fez uma declaração dirigida a Horikita.
— Não há nada que eu não possa fazer. Porque, veja bem, eu sou um ser humano perfeito.
— Então, não importa que tipo de oponente você enfrente nem em que tipo de evento esteja competindo, você tem absoluta certeza de que vencerá? Tem certeza disso? — disse Horikita.
Ela dizia isso em parte para provocá-lo, mas eu tinha certeza de que uma parte dela também queria saber como Koenji responderia.
— Entendo. Então quer que eu faça uma promessa? "Eu prometo obter a vitória em todos os eventos dos quais participar." Algo assim? — disse Koenji.
— Exatamente. Se você me prometer isso, então estou disposta a deixá-lo fazer o que quiser durante este exame especial. Você não precisará participar de futuras discussões, e não pedirei sua opinião sobre nada daqui em diante — disse Horikita.
— E-Ei, Suzune — disse Sudou, aflito com o absurdo da proposta. Mas Horikita continuou falando:
— Mas lembre-se disto: se você não participar, ou se perder em algum evento… tudo o que disser será recebido com desconfiança, e a falta de confiança de seus colegas em você aumentará drasticamente.
Nada mal, Horikita. Ela estava tentando tirar o máximo proveito das habilidades de Koenji no dia do exame. Koenji era o melhor dos melhores tanto em capacidade acadêmica quanto física. A única preocupação era sua personalidade. A ideia dela era tolerar seu comportamento por enquanto, para garantir que ele não faltasse de forma irresponsável no dia do exame. Como ele responderia a isso?
Koenji, que estava prestes a sair da sala, parou no meio do caminho.
— Vou lhe dizer isto: não pense que pode me prender com palavras assim. Embora seja verdade que sou um prodígio que jamais perderá para ninguém, cabe a mim decidir se utilizarei ou não meus talentos por vocês.
Em outras palavras, ele estava basicamente dizendo "não". Não importava se as pessoas passariam a duvidar do que ele dissesse, ou se a desconfiança em relação a ele aumentaria. Ele só faria o que quisesse fazer. E, com isso, Koenji voltou a caminhar e saiu da sala.
— Suponho que métodos comuns realmente não vão funcionar com ele, afinal — disse Horikita.
— Aff, aquele cara realmente olha de cima pra gente… Sério, dizer que é um prodígio que não perderia para ninguém? O quê? Eu pisaria nele no basquete se a gente jogasse — disparou Sudou.
Eu entendia muito bem como ele se sentia. Não importa o quão brilhante alguém seja, isso não o torna todo-poderoso. Na verdade, eu tinha minhas dúvidas se Koenji realmente conseguiria vencer Sudou em uma partida de basquete.
— Se ele estiver disposto a se esforçar por nós no dia do exame, talvez vejamos resultados até certo ponto. Não sei o quanto do que eu disse teve efeito nele, mas acho que teremos que esperar para ver. Certo?
— É, acho que sim…
Era difícil imaginar Koenji perdendo, com certeza. Considerando o quanto ele falava e a confiança que demonstrava, era honestamente difícil até mesmo imaginar essa possibilidade. Tenho certeza de que até Sudou sabia disso.
— Mas você realmente acha que ele vai, sabe… levar isso a sério no dia do exame? — disse Sudou.
— Não sei.
Poderíamos vencer se ele levasse o exame a sério. Não venceríamos se não levasse.
*
Quando cheguei à escola na manhã seguinte, Horikita me informou de algo.
— Decidi não considerar o Hirata-kun como um recurso neste exame — disse ela.
Ontem, Hirata havia recusado silenciosamente participar de uma reunião após a aula à qual Koenji havia comparecido. Considerando seu comportamento, não era surpresa que Horikita tivesse tomado essa decisão.
— É uma boa decisão. Há motivos demais para preocupação para contarmos com ele.
Poderíamos tentar forçá-lo a participar, mas provavelmente isso só sairia pela culatra.
— Está tudo bem se for apenas neste exame. Mas é possível que esse comportamento continue por muito tempo — disse Horikita.
Suas preocupações não eram exageradas. Todos podíamos concordar que queríamos que ele se recuperasse, mas, no momento, não estava claro como trazê-lo de volta.
— Bem, se você acha que não há nada a ser feito quanto ao afastamento do Hirata, sempre existe a opção de expulsá-lo, certo? — respondi.
Embora Horikita tenha ficado claramente surpresa com o que eu disse, respondeu com calma:
— Isso… Bem, sim, essa opção existe. Talvez seja algo que eu tenha que considerar. Suponho que, no mínimo, seja um alívio que ele não tenha ficado desesperado a ponto de dizer que queria ser o comandante, ou algo assim.
Era fácil imaginar Hirata se voluntariando para ser o comandante neste exame especial. Assim, poderia perder deliberadamente e ser expulso. Simples. Mas, mesmo que ele não tivesse mais nenhum apego à escola, ainda não queria causar problemas aos outros — e foi justamente por isso que não se voluntariou para a posição. Se eu tivesse que adivinhar, o motivo pelo qual ele vinha frequentando as aulas silenciosamente todos os dias era porque a turma seria penalizada caso ele fosse expulso. Provavelmente estava esperando a oportunidade certa para fazer sua saída, quando isso não causasse inconvenientes a mais ninguém.
Mas essa lógica só se aplicava ao seu estado atual.
— Não é como se ele fosse necessariamente continuar sendo uma boa pessoa para sempre, certo? Ele pode acabar cedendo ao desespero e à angústia e então…
— Suponho que sim.
Como Horikita havia dito, não havia como saber o que Hirata faria se ficasse desesperado o suficiente. Não podíamos descartar a possibilidade de que ele quase destruísse a turma ao sair.
— É exatamente por isso que não quero que ele participe agora. Ele é uma bomba-relógio. Também gostaria de manter a turma unida, para não detoná-la — disse Horikita.
Conflitos dentro da Classe C eram exatamente o que Hirata mais odiava. Horikita estava sendo proativa desde o início para evitar que esse tipo de conflito surgisse.
— Parece complicado — respondi.
— Bem, você assumiu o papel de comandante, então receio que sua situação também seja complicada — disse Horikita.
— Vou deixar tudo com você. Tenho certeza de que conseguirá ter boas ideias, até mesmo sobre como o comandante deve se envolver.
Ela me lançou um olhar penetrante.
— E é assim que você pretende derrotar a Sakayanagi-san?
— Não sei.
— "Não sei"? Bem, eu pretendo vencer. Posso pedir que você se envolva um pouco mais aqui? — disse Horikita. Ela não precisava me dizer isso. Eu já sabia.
— Você está me pedindo para me envolver ativamente com a turma? Decidir quem participará de quais eventos e elaborar as regras que determinam o envolvimento do comandante? Tente imaginar isso, pode ser?
O rosto de Horikita ficou rígido.
— Na verdade, não consigo imaginar. Nem um pouco. É até assustador.
— Pois é.
Eu era, na melhor das hipóteses, alguém que permanecia nas sombras. Nem mesmo ser o comandante mudava isso. As pessoas ficariam desconfiadas se eu de repente começasse a dar ordens sobre tudo. Deixaria Horikita elaborar uma estratégia, usaria isso como ponto de partida e então colocaria em prática.
Enquanto conversávamos, senti o clima na sala de aula mudar repentinamente. Hirata havia chegado. A maioria dos alunos tentava não olhar diretamente para ele, mas era evidente que estavam preocupados. Ele havia chegado por pouco, mas ainda dentro do horário.
— B-Bom dia, Hirata-kun — chamou Mii-chan. Ela estava sendo corajosa, não deixando que o clima constrangedor a impedisse.
Mas Hirata não respondeu à sua coragem. Ele a ignorou e foi silenciosamente até seu lugar, sem responder a ninguém. Ainda assim, o sorriso de Mii-chan não vacilou.
— Quem poderia imaginar que as coisas acabariam assim?
— Nem me fale.
Apesar dos esforços de Mii-chan, Hirata continuava seu isolamento autoimposto.
— Ela é a única que ainda não desistiu de tentar falar com o Hirata-kun, não é? Eu não imaginava que ela tivesse uma ligação tão profunda com ele… — Horikita também havia notado que Mii-chan vinha dando atenção especial a Hirata e estava começando a se perguntar por que ela continuava tentando.
— Não é só porque ela é gentil?
— Então ela teria que agir da mesma forma com os outros alunos. Caso contrário, essa teoria não se sustenta — disse Horikita.
— É verdade.
Se fosse esse o caso, Mii-chan teria reagido da mesma forma quando Yamauchi estava prestes a ser expulso. O que significava que havia apenas um motivo para que ela continuasse tentando falar com Hirata.
— Ela provavelmente está apaixonada — eu disse.
— Suponho que essa seja a possibilidade restante… Meu Deus, que sentimento idiota — disse Horikita.
Ela cruzou os braços, exasperada, balançando a cabeça de um lado para o outro, como se achasse a ideia incompreensível.
— Talvez devêssemos limitar os recursos que estamos gastando para lidar com ele… O que acha? — perguntou ela.
Em outras palavras, fazer com que todos na turma deixassem Hirata em paz por um determinado período de tempo.
— Isso não seria difícil? — perguntei.
— De forma alguma. Não há ninguém se esforçando para falar com ele, exceto ela — disse Horikita.
Hirata havia decidido ignorar até mesmo Mii-chan, apesar de sua evidente devoção. Certamente não havia muitos alunos dispostos a ir muito além disso.
— Bem, sejam quais forem os motivos dela, espero que esqueça isso logo — disse Horikita, aparentemente pensando em como poderia fazer Mii-chan desistir. — Se for só isso, não vou reclamar. Mas está claramente tendo um efeito negativo nela.
— Sim. Acho que é verdade que ela não tem sido ela mesma.
Além disso, o humor de toda a turma ficava pesado sempre que a situação de Hirata vinha à tona.
Mii-chan, sem se deixar abalar pelo fato de Hirata tê-la ignorado completamente, tentou se aproximar dele mais uma vez.
— Ei, ahm, Hirata-kun. Hoje no almoço, eu—
Ela provavelmente estava pensando em convidá-lo para almoçar quando falou com ele, mas…
— Você poderia, por favor, me deixar em paz? — disse Hirata.
— E-Eu—
As palavras duras ecoaram pela sala de aula. Ele havia rejeitado a oferta de Mii-chan antes mesmo que ela pudesse terminá-la.
— Você está me incomodando.
Não havia nada além de frieza em sua voz.
— M-Mas eu… eu só queria, bem, almoçar junto com você e…
Mii-chan tentou ao máximo manter um sorriso no rosto, mas suas emoções falaram mais alto. Seu sorriso começou a desaparecer.
— Eu não vou comer. E definitivamente não com você.
Ele não poderia ter recusado de forma mais firme, mesmo que tentasse. Muitas das garotas desviaram o olhar, não querendo ver Hirata daquele jeito.
— Ei, espere um segundo, Yousuke-kun. Você não acha que está exagerando um pouco? — disse Kei, decidindo intervir.
Não — dadas as circunstâncias, talvez fosse mais correto dizer que ela foi forçada a intervir. Eu podia facilmente imaginar o grupo de amigas de Kei pedindo para que ela fizesse alguma coisa. Se Hirata recuasse naquele momento, Kei salvaria a aparência, e a turma se acalmaria, ao menos por enquanto.
No entanto…
— Você poderia não me chamar pelo primeiro nome e agir como se fôssemos próximos? Você e eu não temos mais nada a ver um com o outro — disse Hirata.
— T-Tudo bem, então. Bem, nesse caso, Hirata-kun, você está sendo duro demais com a Mii-chan.
Kei se corrigiu e passou a tratá-lo pelo sobrenome, confiante em seu papel de líder que unia as garotas.
— Não é muito diferente de como você normalmente trata todo mundo — ele rebateu, sem recuar.
— O quê—? Eu só estou, sabe, fazendo isso pela turma…!
— Poderia ficar quieta agora? Se não… você entende o que quero dizer, não é? — disse Hirata.
A ameaça a silenciou antes que pudesse dizer qualquer outra coisa. Hirata estava dizendo que, se ela continuasse, ele a exporia. Pelo menos, era inevitável que Kei interpretasse dessa forma, considerando que havia compartilhado sua fraqueza com ele.
— Mas que inferno?! Tanto faz, esquece. Eu nem ligo mais — resmungou Kei.
Não havia mais nada que ela pudesse fazer naquele momento. Ela não teve escolha a não ser recuar, ainda que relutantemente.
— Até quando pretende ficar parada ao meu lado?
Depois de calar completamente Kei, Hirata voltou sua atenção para Mii-chan, que permanecia imóvel e à beira das lágrimas. Agora totalmente rejeitada por ele, ela voltou ao seu lugar, abatida. Hirata provavelmente achou que isso garantiria que ela não tentasse falar com ele novamente.
— O moral da turma está despencando…
— O Koenji não parece se importar nem um pouco, no entanto.
Apenas um homem permanecia alheio à atmosfera opressiva que pairava no ar. Mesmo em meio à discussão de Hirata com Mii-chan e depois com Kei, ele parecia estar focado apenas em si mesmo.
— Por que diabos há tantas crianças problemáticas na nossa turma? — disse Koenji.
Pensei em dizer a ele que ele próprio era uma criança problemática, mas decidi deixar para lá.
*
POR PIOR QUE estivesse o clima, o tempo continuava avançando. Quando as aulas terminaram naquele dia, chegou a hora da nossa segunda discussão em turma. Para ser mais preciso, era na verdade a terceira, se eu incluísse aquela da qual não participei.
Também era o terceiro dia desde o início do exame. Já estava mais do que na hora de começarmos a nos mexer.
Mais uma vez, Hirata se levantou e deixou a sala imediatamente após o fim da aula. Mii-chan parecia dividida. Ela se levantou rapidamente, como se algo a tivesse impulsionado. Mas suas pernas não se moveram, e ela não deu um único passo. A rejeição de Hirata naquela manhã provavelmente estava se repetindo em sua mente.
Suas pernas cederam, e ela voltou a se sentar.
— É melhor assim… — murmurou Horikita baixinho, suas palavras cruéis, porém gentis, mal chegando aos meus ouvidos.
Era melhor não se envolver com Hirata naquele momento. Horikita e os outros alunos entendiam que essa era a aposta mais segura. Ocasionalmente, alguns garotos invejosos reclamavam de Hirata, mas essas reclamações haviam se tornado raras ultimamente. Será que esses reclamões eram do tipo que desprezam alguém depois que ele cai em desgraça? Ou era justamente por se tratar de Hirata que eles não conseguiam falar mal dele?
— Ei, Mii-chan, você quer voltar para o dormitório comigo depois da discussão de hoje? — perguntou Kushida, tendo previsto os problemas que poderiam surgir com o estado mental de Mii-chan.
— Ela é bem confiável em momentos assim, não é?
— Acho que sim.
Kushida não era alguém que abandonaria um amigo em apuros. Se não pudesse salvar Hirata, então se sentiria compelida a pelo menos salvar Mii-chan. Mesmo que sua motivação fosse apenas ganhar pontos e melhorar sua própria imagem, não havia problema, desde que estivesse ajudando os outros. Mii-chan aceitou com um leve aceno de cabeça.
— Bem, então creio que irei embora — disse Koenji.
Como esperado, ele não tinha intenção de participar. Koenji deixou a sala logo depois de Hirata, caminhando orgulhosamente, como se já tivesse sido autorizado por Horikita e recebido seu selo de aprovação. No fim das contas, parecia que haveria trinta e sete pessoas presentes para essa discussão.
Horikita observou Koenji enquanto ele saía, e então se levantou para ocupar seu lugar atrás do púlpito. Chabashira deixou a sala, lançando-lhe um olhar de soslaio.
— Muito bem, espero que todos tenham pensado em coisas nas quais são bons — disse Horikita.
— Espere um momento. Há algo que gostaria de mencionar antes de começarmos — disse Keisei, o primeiro a levantar a mão.
— O que foi, Yukimura-kun? — perguntou Horikita.
— Estou preocupado com a possibilidade de alguém estar escutando nossa discussão.
Mesmo com a porta fechada, nossas vozes seriam audíveis para alguém que permanecesse no corredor do lado de fora.
— Suponho que você esteja certo. Parece que nem podemos ter uma discussão adequada nesta escola, não é? — disse Horikita.
— Não deveríamos pensar em alguma contramedida? Por exemplo, poderíamos colocar alguém de vigia ou algo assim. Honestamente, acho ruim discutirmos o exame abertamente sem tomar alguma providência primeiro — respondeu Keisei.
— Sim, você está absolutamente certo — disse Horikita, assentindo. Ela provavelmente já havia percebido isso. — Mas não acho que colocar alguém de vigia seja uma contramedida eficaz.
— Por quê?
— Você pretende que quem estiver de guarda avise os outros alunos para não se aproximarem da nossa sala? O corredor é um espaço compartilhado ao qual todos os alunos têm acesso igual. Na verdade, isso também se aplica a esta sala de aula. Não temos o direito de impedir o acesso de alunos de outras turmas — disse Horikita.
Ela acrescentou que, se bloqueássemos alunos que tentassem passar, poderiam fazer reclamações contra nós.
— É por isso que não adianta simplesmente colocar alguém de vigia — concluiu.
— Então pretende deixar que tudo o que discutirmos fique ao alcance de qualquer um? Divulgar livremente informações sobre nossos pontos fortes e fracos pode ser extremamente prejudicial. Isso não nos ajuda em nada.
— Tenho uma solução para isso. Usando isto, contornaremos o problema — disse Horikita, tirando algo do bolso. Ela estava falando de nossos celulares.
— Vou criar um grupo de chat para toda a turma, que usaremos para discutir especificamente este exame especial. Podemos expressar nossas opiniões verbalmente, mas restringiremos o compartilhamento de informações importantes a esse grupo. Assim, mesmo que outras turmas tentem escutar, não haverá problema — disse Horikita.
Keisei assentiu, convencido.
— Entendo… Parece bom para mim.
— Certo, então posso reunir as informações de contato de todos e criar o grupo? — propôs Kushida.
Horikita não teve objeções. Não seria exagero dizer que Kushida era provavelmente a única pessoa da turma que conhecia o contato de todos.
— Ahm…
Enquanto Horikita e Keisei ainda estavam no meio da discussão, Mii-chan se levantou.
— Desculpe. Há algo que… eu, ahm, preciso fazer hoje, então…
— E esse algo seria… correr atrás do Hirata-kun? — perguntou Kushida.
Mii-chan assentiu. Seus passos eram pesados enquanto se movia para segui-lo.
— Espere. Mesmo que tente ir atrás dele agora, não adianta — disse Horikita.
— O… O que quer dizer? — perguntou Mii-chan, com um tom surpreendentemente intenso.
— Ele está inútil agora. Só vai te arrastar junto com ele.
— Eu não quero abandonar o Hirata-kun.
— Não estou falando em abandoná-lo. Só estou dizendo que ele deve ser deixado em paz neste momento — disse Horikita.
— Nesse caso, quando você pretende ajudar o Hirata-kun? — perguntou Mii-chan.
— Isso depende dele — disse Horikita.
— Você está errada. Isso… isso está simplesmente errado. Não acho que esse seja o jeito certo — retrucou Mii-chan. Ela se afastou, claramente decidida a não ouvir mais o que Horikita tinha a dizer.
— Francamente… só precisamos deixá-lo em paz por enquanto — suspirou Horikita. Claro, nem uma única pessoa na turma se levantou para correr atrás de Mii-chan.
— Vou me ausentar por um momento. Por favor, não vão embora ainda. Apenas esperem aqui — disse Horikita. Ela deixou a sala, sinalizando sua intenção de correr atrás de Mii-chan e trazê-la de volta. Provavelmente não sentia que poderia deixar essa tarefa para outra pessoa.
— Que bagunça completa… Nem conseguimos ter uma discussão adequada, graças ao Hirata — resmungou Keisei. Era compreensível que ele se sentisse assim. Afinal, já estávamos no terceiro dia e ainda não havíamos feito progresso algum. Levantei-me do meu lugar.
— Ei, Ayanokoji, você tá pensando em ir atrás deles também? A Suzune disse pra esperar — disse Sudou, me alertando. Era verdade que as coisas só piorariam se as pessoas continuassem saindo assim.
— Eu sei — respondi, ignorando Sudou e saindo para o corredor.
— Você sabe? Ei! — gritou ele. Assim que cheguei ao corredor, chamei:
— Horikita.
— Acredito que eu tenha instruído você a não se mover — respondeu ela.
— Se você pretende forçar a Mii-chan a voltar, não precisa ser você a fazer isso. Eu vou. Seu trabalho é reunir a turma — eu disse.
— Você é o comandante. Isso não é algo que pode simplesmente empurrar para outra pessoa, entendeu? Você não será capaz de demonstrar todo o poder da sua posição como comandante se não avaliar as habilidades da sua turma — disse Horikita.
— Você pode me ajudar com isso depois. Além disso, não há nada que eu possa fazer quanto a isso agora.
— Esse não é o pro—
— Você acha mesmo que pode resolver o problema do Hirata? — perguntei.
— Bem…
— Alguém que acha que ignorá-lo é a melhor solução não deveria ser quem vai atrás dele.
Horikita era uma das principais razões para ele estar assim. Ela não deveria ser a pessoa a se aproximar dele.
— Nesse caso, você… acha que consegue? — perguntou ela.
— Isso depende dos esforços das pessoas ao redor dele — respondi.
— Se essa fosse a solução, isso já teria sido resolvido há muito tempo.
Muitos alunos haviam procurado Hirata por preocupação. Não apenas Mii-chan. Horikita começava a questionar as ações de Mii-chan justamente porque nada parecia estar funcionando.
— Enfim, continuamos isso depois. Vou perder Mii-chan e Hirata de vista — disse a ela.
— Volte logo — disse ela.
Ela soou como uma mãe mandando o filho sair. Quando comecei a caminhar, de repente esbarrei em Hashimoto. Uma simples coincidência? Sim, provavelmente não. Aposto que ele estava ali para espionar a Classe C — e também que tinha ouvido minha conversa com Horikita agora há pouco.
Hashimoto não pareceu surpreso. Ele me chamou com um sorriso, como se tivesse achado algo divertido.
— E aí, Ayanokoji.
Dito isso, eu não tinha tempo para uma conversa casual naquele momento.
— Desculpa, mas estou com um pouco de pressa.
— Se você está indo atrás da sua colega, ela foi por ali.
Respondi com um leve aceno e então fui atrás de Mii-chan. O comportamento de Hirata havia sido o mesmo nos últimos dois dias. Provavelmente tinha ido direto para o dormitório após o fim das aulas, para não encontrar ninguém.
*
Pouco depois de sair do prédio da escola, avistei Mii-chan. E, logo à frente dela, pude ver Hirata, a caminho do dormitório. Mesmo tendo reunido coragem para sair da sala e persegui-lo, Mii-chan não parecia corajosa o suficiente para realmente chamá-lo. A rejeição daquela manhã provavelmente ainda se repetia em sua mente.
— Você não vai tentar falar com ele? — perguntei.
— Ayanokoji-kun.
Mii-chan me notou. Alcancei-a e passei a caminhar ao seu lado, nós dois olhando para as costas de Hirata.
— Acho que estou me sentindo um pouco hesitante… — disse ela suavemente. Fazia sentido, considerando como ele a havia rejeitado quando ela tentou falar com ele naquela manhã.
— Nesse caso, por que você foi atrás dele? Todo mundo já desistiu — eu disse.
— Isso… eu não sei.
Aparentemente, ela não havia pensado muito nisso. Mii-chan parecia refletir agora sobre por que havia ido atrás de Hirata. Provavelmente não era apenas porque tinha uma queda por ele. Após alguns instantes de reflexão, ela deve ter chegado a uma resposta, porque voltou a falar:
— Todos estão dizendo que deveríamos deixar o Hirata-kun em paz por enquanto. Mas… acho que isso está errado. Acho que é justamente quando alguém está sofrendo, quando está com dor, que precisamos ajudá-lo. Então…
— Então você não se importa se ele acabar te odiando por causa disso, Mii-chan? — perguntei.
Uma vez talvez não fosse problema, mas se ela continuasse tentando falar com ele, as respostas de Hirata se tornariam cada vez mais duras. Não dava para dizer com certeza que ele não poderia acabar gritando com ela, furioso.
— Eu não quero que isso aconteça, não — disse Mii-chan, balançando a cabeça ao se lembrar da rejeição de Hirata mais cedo. — Eu odiaria que isso acontecesse, mas… se me odiar fizer o Hirata-kun sentir que não está sozinho, nem que seja só um pouquinho, então isso já seria um alívio. Acho que… nesse caso, eu ficaria bem mesmo que ele me odiasse! — afirmou com firmeza.
Ela estava se fazendo de forte. Fazendo-se de forte para que seu coração não se quebrasse. Ainda assim, pensei que a determinação em seus olhos era, sem dúvida, genuína.
— Estou fazendo a coisa errada, Ayanokoji-kun? — perguntou ela.
— Não. Você está certa.
Ignorar Hirata agora definitivamente não melhoraria as coisas. Se fizéssemos isso, apenas o prenderíamos em uma escuridão profunda da qual ele não conseguiria escapar.
— Então, você vai falar com ele? — perguntei.
— Sim!
Mii-chan avançou, dando um passo pesado de cada vez. Então correu, diminuindo a distância entre ela e Hirata. Hirata provavelmente ficaria bastante irritado comigo depois, mas este era o melhor curso de ação naquele momento. Se quiséssemos encurralar Hirata, a gentileza de Mii-chan era a forma mais eficaz de fazer isso — e também a que causaria mais impacto. E então, em um futuro próximo, seu coração se quebraria, e ele provavelmente seria forçado a escolher abandonar a escola.
Enquanto voltava para a sala de aula, Hashimoto, mexendo no celular, me viu.
— E aí.
— Conseguiu roubar alguma informação da Classe C? — perguntei.
— Não, infelizmente. Não dá pra conseguir nada com todas as informações importantes sendo comunicadas por mensagem, sabe?
Hashimoto deu de ombros e guardou o celular. Parecia que ele havia ouvido a ideia de Horikita de usar nossos telefones.
— Eu estava esperando você voltar. Então, como foi? Depois de ir atrás da sua colega, quero dizer.
— Como você pode ver, voltei de mãos vazias.
Enfatizei o fato de que não havia trazido Mii-chan de volta comigo.
— Cara, parece bem difícil e tudo mais. Ser o pilar da sua turma, com todo mundo vindo até você.
— Reunir a turma é trabalho da Horikita. Ela é quem tem a parte difícil.
— Então você teve que se tornar o comandante porque tem um Ponto de Proteção?
Hashimoto estava mais falante do que o normal, provavelmente tentando extrair o máximo de informação possível de mim.
— Estamos enfrentando a Classe A. Nossa turma nunca teve chance de vencer. Como não havia outra forma de evitar uma expulsão, acho que essa era a única opção que tínhamos — respondi.
— Entendo. Acho que faz sentido. Bem — eu vim aqui fazer um pequeno reconhecimento, mesmo que nossa princesa tenha me dito para não me incomodar. Ainda assim, pensei em tentar conseguir qualquer informação que pudesse. Mas acho que vocês não são tão idiotas assim, afinal.
Hashimoto não parecia totalmente convencido, mas deu um leve tapinha no meu ombro e foi embora, aparentemente tendo desistido. Observei-o se afastar e então voltei para a sala de aula, onde a discussão sobre quais eventos escolher já havia começado. Informei a Horikita com o olhar que não havia conseguido trazer Mii-chan de volta e me sentei. Ela não insistiu no assunto.
A discussão sobre os pontos fortes e fracos de cada um parecia estar avançando razoavelmente bem pelo grupo de chat, com respostas de mais da metade dos alunos da turma. As coisas estavam ocorrendo mais ou menos como eu havia imaginado, com base no que já sabia e nas informações complementares que havia obtido com Kei.
Primeiro, havia os esportes nos quais alguns alunos eram bons. Por exemplo, Sudou no basquete, Onodera na natação e Akito no tiro com arco. Depois, havia alunos confiantes em suas habilidades acadêmicas, como Horikita e Keisei, que listaram matérias nas quais acreditavam poder obter notas especialmente altas. No entanto, ao contrário dos esportes, nos quais você podia concentrar seu talento em uma área específica, testes de habilidade acadêmica representavam um desafio significativo, a menos que você se destacasse em praticamente todas as matérias.
— Ayanokoji-kun, havia alunos de outras turmas no corredor? — perguntou Horikita.
— Parece que havia alguém até pouco tempo atrás, mas quem quer que fosse foi embora quando percebeu que estávamos realizando a discussão pelos celulares — respondi.
— Entendo. Bem, isso já era esperado.
Sudou, ao perceber pela nossa conversa que ninguém estava nos espionando naquele momento, fez sua jogada.
— Basquete! A gente tem que escolher basquete! — gritou ele, apelando diretamente a Horikita.
— Não duvido da sua habilidade. Tem certeza de que não perderá para ninguém, independentemente da turma de onde seja? — perguntou ela.
— Há várias formas de jogar basquete. Se escolhermos uma partida um contra um, eu definitivamente vou vencer. Pode apostar.
O basquete normalmente é jogado cinco contra cinco, mas havia várias variações do jogo. Uma delas era justamente o confronto um contra um que Sudou havia proposto. Se as regras fossem bem definidas, deveria ser uma aposta segura o suficiente para ser aprovada pela escola como evento.
— Suponho que sim. Não há como duvidar da sua habilidade como jogador. Em uma partida um contra um, acredito que você certamente conseguiria a vitória — disse Horikita.
— Com certeza!
— Mas não é tão simples assim neste exame especial — disse Horikita.
— P-Por quê?
— Porque só podemos escolher um único evento um contra um — disse Horikita.
Uma das regras que determinavam quais eventos poderíamos enviar era que não podíamos ter dois eventos com o mesmo número de participantes.
— Se pudéssemos escolher quantos eventos um contra um quiséssemos, usaríamos apenas pessoas especializadas nesses tipos de prova. A Onodera-san é particularmente boa em natação. Se estivermos apenas buscando vitórias, também poderíamos colocá-la em uma partida de natação um contra um — disse Horikita.
Assim, poderíamos garantir facilmente uma vitória para nossa turma. Claro, havia o risco de Onodera ter que competir contra um garoto, mas considerando seus tempos, ela teria uma chance suficientemente alta de vencer.
— Se tivéssemos uma competição que testasse habilidades de conversação em inglês, a Wang-san tira notas quase perfeitas de forma consistente. Há vários alunos na nossa turma que têm grandes chances de vencer um confronto um contra um dessa forma, em áreas nas quais se especializam — acrescentou ela.
O ânimo de Sudou pareceu diminuir um pouco. Ele estava contando com garantir a vitória da nossa turma.
— Sou totalmente iniciante quando se trata de basquete, então esta é uma pergunta sincera. Suponhamos que você jogasse uma partida normal de basquete, ou seja, cinco contra cinco. E digamos que as outras quatro pessoas do seu time fossem garotas que não são particularmente boas em esportes. Você acha que definitivamente conseguiria vencer com um time assim? — perguntou ela.
— Para ser completamente honesto, estou bastante confiante de que poderia carregar o time e vencer sozinho, mesmo que meus companheiros não sejam tão bons. Mas se eu estiver enfrentando jogadores experientes do outro lado, então… bem, não posso dizer com certeza — disse Sudou.
— Aprecio sua sinceridade e respeito o fato de não se gabar inutilmente dizendo que venceria não importa o quê. É por isso que…
Horikita fez uma pausa antes de apresentar sua sugestão.
— Gostaria que você pensasse bem sobre isso. Certamente seria uma pena descartar o basquete como um dos nossos eventos. Então, escolha um time com o qual você acha que pode vencer com certeza em uma partida cinco contra cinco, com o mínimo de esforço. Se eu ficar devidamente convencida, prometo submetê-lo à escola como um dos nossos eventos — disse Horikita.
— Entendi — disse Sudou.
Sudou assentiu, aceitando o que Horikita disse. Em seguida, voltou a se sentar e começou a simular vários cenários em sua mente. Essa era a parte difícil. Sudou era bastante atlético. Embora ninguém duvidasse de que ele estaria em seu melhor em uma partida de basquete, ele era um aluno que poderíamos usar de várias maneiras. Em um exame como este, ele era um trunfo. Precisávamos ter em mente que talvez fosse um desperdício usá-lo em um evento um contra um.
Além disso, provavelmente deveríamos levar o tempo necessário para avaliar racionalmente se realmente queríamos o basquete como um de nossos eventos. Mesmo que tivéssemos uma chance de vencer no cinco contra cinco, nossos oponentes não eram tolos. Se o basquete estivesse entre nossos dez eventos, a Classe A poderia facilmente presumir que Sudou participaria. Eles poderiam escalar cinco bons jogadores e conseguir vencer, mesmo contra Sudou. Ou, ao contrário, poderiam simplesmente desistir de vencer esse evento e focar nos outros.
Horikita e os demais continuaram discutindo esse tipo de questão por um bom tempo. Saí do grupo de chat, mas fingi continuar acompanhando, olhando para o meu celular. Afinal, eu era o comandante. Não iriam me perguntar sobre meus pontos fortes e fracos. Eu estava participando dessas discussões apenas por formalidade. Isso não mudava meu plano de deixar todos os detalhes nas mãos de Horikita.
Após cerca de uma hora de discussão, Horikita havia terminado de coletar as opiniões de todos. A partir desse ponto, ela provavelmente mudaria o foco para reuniões individuais, em vez de reunir toda a turma dessa forma.
*
A manhã de quinta-feira chegou. Parecia que seria um dia mais frio do que o normal enquanto eu ia para a escola, mesmo com a primavera já tendo chegado.
— Booom diiia! Está frio, não é?
Ouvi uma voz animada atrás de mim. Não achei que estivessem falando comigo, então ignorei e continuei andando. Mas a pessoa que falava se atrapalhou e chamou novamente:
— E-Ei, espere, espere um minuto! Ayanokoji-kun?
Aparentemente, a saudação tinha sido direcionada a mim, afinal. Quando me virei, vi a Hoshinomiya-sensei, professora responsável pela Classe B.
— Espere, aguarde um momento!
Ela segurou minha mão com as dela, que estavam frias. Não pude deixar de me perguntar que tipo de professora simplesmente seguraria a mão de um aluno desse jeito.
— Desculpe. Não achei que estivesse falando comigo. Posso ajudá-la com algo? — perguntei.
— Não posso falar com você sem precisar de nada? — respondeu ela.
Ela olhou para mim de baixo para cima, ainda segurando minha mão. Só alguém que sabe exatamente o quanto é fofa agiria dessa forma. Talvez por estar observando cada movimento de Kushida, eu estivesse começando a perceber essas coisas.
— Bem, não estou dizendo isso, mas…
Soltei minha mão do aperto de Hoshinomiya-sensei, de forma um pouco forçada. Por algum motivo, ela deu uma leve risadinha quando fiz isso. Um sorriso malicioso surgiu em seu rosto.
— Ei, conseguiu arrumar uma namorada? — perguntou ela.
— Não, nem um pouco. Também não há sinais de que eu vá conseguir.
— Sério? Mesmo tendo sido abençoado com um ambiente tão maravilhoso? Que desperdício.
Que tipo de "ambiente maravilhoso"?
— Ora, você não entende, não é? — provocou ela.
Suas próximas palavras foram sussurradas diretamente no meu ouvido:
— Isso não tem graça. Os alunos daqui estão em um ambiente onde é suuuper fácil se apaixonar.
— Por quê?
Quando fiz essa pergunta, Hoshinomiya-sensei pareceu ligeiramente surpresa.
— Você realmente não entende? — perguntou ela.
— Não, nem um pouco — respondi.
Quando disse isso, ela me deu vários tapinhas leves no ombro.
— Sabe, quando olho bem para você, você é até que bem bonitinho, Ayanokoji-kun.
Sinceramente, eu não fazia ideia do que ela estava tentando dizer.
— Deixe-me te contar uma coisinha… sinceramente, não sou fã de como as coisas estão agora. Já venho pensando nisso há um tempo, e acho problemático que meninos e meninas estejam vivendo no mesmo dormitório.
— É mesmo? — perguntei.
Como todos os quartos eram separados, eu não via o problema. Afastei-me um pouco de Hoshinomiya-sensei, tentando ganhar algum espaço pessoal. Mas, quando fiz isso, ela se aproximou novamente.
— Isso é algo que ouvi de uma amiga minha, mas aparentemente era tradição que os jovens que conseguiam emprego em uma certa empresa passassem por dois meses de treinamento nos dormitórios da empresa. Eram dois por quarto e, claro, os gêneros eram separados — disse ela.
— Certo.
Toda vez que eu tentava colocar alguma distância entre nós, ela simplesmente se aproximava de novo, então desisti e apenas ouvi sua história.
— Mas é fácil começarem a surgir problemas quando duas pessoas ficam no mesmo quarto. Um dos caras odiava natto, aparentemente. Não suportava o cheiro. Odiava até olhar para aquilo. Então, claro, a primeira coisa que ele disse ao cara com quem dividia o quarto foi: "Nunca coma natto na minha frente". Só que o colega de quarto adorava natto. Então, mesmo o cara dizendo que odiava, o colega achou que estaria tudo bem desde que não o obrigasse a comer. E assim, ele comeu natto na frente do colega que odiava aquilo. Como resultado, bem, o cara que odiava natto ficou super bravo e saiu furioso do dormitório, acho.
O que diabos essa mulher estava tentando dizer? Para mim, isso não parecia ter nada a ver com meninos e meninas morando juntos nos dormitórios.
— Certo, tenho certeza de que você está pensando que o que eu disse não tem nada a ver com meninos e meninas vivendo juntos, mas isso é importante — acrescentou ela, antes de continuar. — Enfim, a empresa descobriu o que aconteceu e aboliu o sistema de quartos compartilhados naquele mesmo ano. A partir do ano seguinte, todos os novos contratados passaram a receber quartos individuais. Assim como temos aqui nesta escola. E, como resultado, houve uma grande mudança em relação aos anos anteriores. O que você acha que foi?
— Imagino que tenha sido um problema envolvendo garotos e garotas, como você mencionou antes? — perguntei.
— Isso mesmo. Quando a empresa usava o sistema de quartos compartilhados, havia no máximo um ou dois casos de pessoas começando a namorar. Mas no momento em que mudaram para o sistema de quartos individuais, passaram a ter uns sete ou oito casais se formando. Quer dizer, mesmo que você conheça uma garota de quem gosta e vá ao quarto dela para sair, se você tem colegas de quarto, sempre vai ter outra pessoa no meio do caminho, certo? Também fica mais fácil os boatos se espalharem, então todo mundo fica na defensiva e não quer se apaixonar. Mas…
Com quartos individuais, garotos e garotas podiam se encontrar sem hesitação. E em particular.
— A mudança fez a taxa de relacionamentos disparar — concluiu ela.
Então era por isso que ela estava surpresa por eu ainda não ter arrumado uma namorada, hein?
— Certo, então deixe-me perguntar: há muitos alunos que realmente têm namorado ou namorada agora? — perguntei.
— Bem, na verdade, parece que ninguém está realmente ficando junto este ano.
Ei. Nesse caso, não está errado você estar me dando sermão por isso? Provavelmente seria inútil dizer isso em voz alta, então engoli as palavras.
— Talvez sua teoria esteja errada, sensei? — perguntei.
— Nunca — respondeu ela, com total convicção. — Você simplesmente não entende o quão favorável é o ambiente em que está agora, como estudante.
Não consegui dizer se isso vinha de um pensamento positivo ou de outra coisa.
— Você vai se arrepender se não aproveitar. Não seria melhor se apaixonar agora, enquanto tem essa chance?
Que tipo de coisa essa pessoa estava dizendo a um aluno — alguém que normalmente deveria estar se dedicando aos estudos? Eu sabia que existiam todos os tipos de professores por aí, mas, de certo modo, ela podia ser de um tipo que eu nunca tinha visto antes.
— Ei, posso perguntar uma coisa?
— Hm? Ah, você quer saber qual faixa etária é aceitável para mim? Desculpe, mas namorar um estudante do primeiro ano do ensino médio está praticamente fora de questão—
— Não estou perguntando isso.
— Eu sei, eu sei. Este é o momento em que você deveria estar rindo, sabe? — provocou ela.
Eu deveria estar rindo? Senti como se estivesse sendo arrastado para um vórtice incompreensível, mas estranhamente envolvente.
— Então, o que é? Vamos, diga, diga!
Apesar de ter sido ela quem desviou a conversa do assunto, puxou-a de volta com força.
— Você está incentivando a ideia de relacionamentos românticos, mas parece que seria bem difícil para alunos terem relacionamentos com estudantes de outras turmas — raciocinei.
— Por quê? — perguntou ela.
— Porque as turmas estão competindo entre si. Isso só semearia discórdia, não é? — respondi, de forma direta.
Eu havia dito algo que considerei perfeitamente razoável, mas vi seus olhos se iluminarem.
— Isso só torna tudo ainda melhor, não acha?
— Torna? — respondi, atônito.
— Normalmente, você faria absolutamente tudo ao seu alcance para ajudar sua turma, certo? Mas seu namorado ou namorada está em uma turma rival. E isso causa tanta angústia e conflito. E tcharam, você tem drama! — exclamou ela. Ela assentiu repetidamente após dizer isso, aparentemente profundamente comovida com suas próprias palavras. — Quer dizer, é óbvio que quanto mais complexa for a relação, mais intensa será a competição, certo? — acrescentou.
— Bem, sim, suponho que seja verdade.
Sinceramente, ela estava certa. Não seria surpreendente que algumas pessoas se tornassem traidoras por causa de seus parceiros. E seria praticamente impossível monitorar e gerenciar todos esses relacionamentos.
— Sobre o que vocês dois estão conversando?
— Falando no diabo… — disse Hoshinomiya-sensei.
"Falando no diabo"? Foi uma escolha de palavras estranha, Hoshinomiya-sensei. A pessoa em questão também não parecia entender o que ela queria dizer. Hoshinomiya-sensei encerrou abruptamente nossa conversa e se afastou de mim.
— Estávamos apenas conversando, Sae-chan. Ora, não precisa me olhar desse jeito assustador.
— Ele é meu aluno.
— Você parece estar muito preocupada com o Ayanokoji-kun. Bem, acho que logo descobriremos se ele é realmente capaz ou não no exame especial que está por vir, certo? Ele vai enfrentar a Sakayanagi-san, que dizem ser a melhor que a escola tem a oferecer.
— Nesse caso, não há realmente necessidade de você se forçar a se envolver.
— Ah, bem, sim, isso é verdade. Você tem toda razão, Sae-chan.
Hoshinomiya-sensei sorriu, provocando Chabashira. Não parecia nem um pouco que ela tivesse vindo falar comigo sem motivo algum. Depois que Hoshinomiya-sensei foi embora, Chabashira me lançou um olhar de lado, por algum motivo. Parecia que ela estava se perguntando sobre o que havíamos conversado.
— Quer saber sobre o que estávamos falando?
Como estávamos a caminho da escola, resolvi falar ao notar sua curiosidade. Ela não disse nada, aparentemente esperando que eu continuasse.
— Estávamos falando sobre o sistema de colegas de quarto.
— Colegas de quarto? …Ah, essa história idiota.
Chabashira parecia já conhecer a história. Em outras palavras, eu podia supor que a empresa de que Hoshinomiya-sensei havia falado era, na verdade, esta escola. E isso significava que a escola originalmente tinha um sistema de quartos compartilhados, em vez de oferecer quartos individuais aos alunos.
Suponho que seria uma história fácil de confirmar, se eu quisesse. Mas não me importei.
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