Ano 1 - Volume 11
Capítulo 3: Oponentes
QUASE TODOS OS alunos da Turma C haviam decidido se reunir na sala de aula durante o intervalo de almoço naquele mesmo dia. Aqueles que não tinham levado comida de casa deveriam ir até a loja comprar algo e depois voltar direto para encontrar o restante da turma. Eu era um desses alunos, então saí da sala imediatamente, fui até um lugar onde não havia ninguém por perto e mandei mensagem para duas pessoas específicas da minha lista de contatos.
Consegui falar com a primeira pessoa na mesma hora, já que havia enviado uma mensagem antecipadamente pelo celular. Restava apenas a outra. Depois de resolver o que precisava, terminei minhas compras e voltei para a sala. Havia dois alunos que ainda não tinham retornado. Um deles era Koenji Rokusuke, um homem que ninguém conseguia controlar. O outro era Hirata Yousuke. Tirando esses dois, havia trinta e sete alunos reunidos ali.
— Parece que o Hirata-kun não vai participar, afinal.
— Parece que sim.
Embora alguns soassem preocupados, o tempo estava passando. Quanto mais tempo pudéssemos dedicar à discussão conjunta dos acontecimentos, melhor.
— Pff, "virar uma nova folha", é? No fim das contas, esse cara não tá levando isso a sério coisa nenhuma! — bufou Sudou.
Eu entendia por que ele levantaria a voz, irritado. Por outro lado, tinha certeza de que alguns alunos acreditaram que Koenji talvez tivesse começado a levar as coisas a sério, pelo menos na superfície. A realidade não era tão gentil — ou melhor, suponho que as pessoas não mudem assim tão facilmente. Koenji provavelmente continuaria escapando das responsabilidades, escorregadio como sempre, sobrevivendo com palavras vagas e sem compromisso.
Mas eu não conseguia imaginar que esse tipo de abordagem funcionaria para sempre. Mais cedo ou mais tarde, provavelmente haveria outra prova como o Teste de Votação em Classe. Quando esse momento chegasse, Koenji teria que pagar o preço.
— Vamos esquecer esse cara e começar logo com isso, droga.
— Não vale a pena ficar se exaltando por causa dele. Bem, eu já fiz cópias do manual que explica os eventos e que nos foi fornecido. Vou distribuí-las a todos vocês. Leiam com atenção enquanto almoçam. Pretendia que discutíssemos os detalhes depois da aula — disse Horikita.
Agora que não havia mais ninguém para assumir a liderança, Horikita não teve escolha a não ser tomar a frente.
— Se houver algo que vocês não entendam, fiquem à vontade para vir tirar dúvidas comigo a qualquer momento, mesmo enquanto eu estiver comendo.
Parecia que ela já havia analisado o manual minuciosamente e não tinha mais nenhuma dúvida.
*
As aulas terminaram sem incidentes naquele dia. Depois disso, Chabashira nos disse para enviar ao corredor quem quer que tivéssemos escolhido como comandante e saiu da sala. Hirata se levantou imediatamente após a saída dela. Uma das garotas da turma, Nishimura, tentou chamá-lo às pressas.
— Hum… Bem, sobre os eventos, nós pensamos em discutir—
Ela interrompeu a frase ao perceber que Hirata simplesmente saiu da sala em silêncio, sem que suas palavras o alcançassem.
— Hirata-kun…
Nishimura e os outros conseguiam ver claramente a intensa e sombria aura de depressão que envolvia Hirata. A única exceção era Koenji, que permanecia olhando para o celular de forma despreocupada, como se estivesse completamente alheio a toda aquela sequência de acontecimentos.
— Eu… eu vou ao banheiro. Já volto — disse Wang MeiYu, a quem todos chamavam de Mii-chan, levantando-se do lugar. Foi o que ela disse, mas provavelmente estava indo atrás de Hirata.
— Bem, já que ele não está sendo de nenhuma utilidade, suponho que não tenho escolha a não ser assumir isso eu mesma — disse Horikita, tomando a iniciativa e se preparando para ir até o púlpito.
— Desculpa, mas vou deixar a parte da discussão com você. Tenho coisas de comandante para resolver — falei.
— Tudo bem. Acho que vamos descobrir contra quem vamos competir quando você chegar à sala multiuso. Se tiver escolha, selecione a Turma D — disse Horikita.
— Entendido. Mas não espere muito de mim — respondi, levantando-me.
Como eu era a pessoa que havia assumido o papel de comandante, saí da sala e fui para o corredor.
— Ah, é você, Ayanokoji. Afinal, quem vocês escolheram como comandante? — perguntou Chabashira, soltando um suspiro exasperado enquanto olhava na direção em que Mii-chan e Hirata haviam desaparecido.
— Eu. Eu sou o comandante — respondi.
— Oh?
Chabashira e eu seguimos juntos até o prédio especial.
— Precisamos vir até o prédio especial só para decidir quais turmas vão se enfrentar? — perguntei.
— Você também receberá uma explicação sobre como as coisas vão funcionar no dia da prova — disse Chabashira. Quase não havia ninguém no prédio especial, então o som dos nossos passos ecoava com mais facilidade. — Você passou por tanta coisa para conseguir um Ponto de Proteção, só para ser forçado a virar comandante. Que situação.
— Não fui forçado. Eu me voluntariei — respondi.
Chabashira parou de andar.
— Você se voluntariou?
— Tem algo de errado nisso?
— Pensei que você odiasse chamar atenção.
— No fim das contas, tudo se resumia a aceitar o papel passivamente ou não.
— Entendo. Então, de um jeito ou de outro, você foi colocado numa situação em que não podia dizer não.
No fim, era muito mais fácil para o aluno que possuía o Ponto de Proteção se tornar o comandante. Se esse aluno se recusasse a assumir o cargo, significaria que apenas uma pessoa estaria segura. A única diferença, nessa situação, era se você se deixava ser empurrado daquele penhasco… ou se tomava a iniciativa e saltava por conta própria.
— Mas, independentemente de como você acabou assumindo esse papel, ser o comandante traz consigo uma grande responsabilidade. Se você cortar caminho em qualquer coisa, isso significará a derrota da Turma C — disse Chabashira.
Como não havia mais ninguém por perto, ela falou com mais firmeza.
— Isso foi uma ameaça? — perguntei.
Quando me virei para olhá-la, ela esboçou um leve sorriso.
— Interprete o que eu disse como quiser. Mas estou ansiosa por isso, Ayanokoji. Agora finalmente poderei ver do que você é capaz.
Chabashira tinha como objetivo chegar à Turma A. Aquela parte dela parecia estar depositando grandes expectativas em mim.
— Não há garantia de que eu vá vencer.
— É mesmo? Desculpe, mas eu simplesmente não consigo imaginar você perdendo — disse ela.
Depois disso, seguimos praticamente em silêncio até o prédio especial.
*
A sala multiuso ficava no prédio especial. Ao que parecia, ela serviria como uma espécie de base central para essa prova.
— Os outros três alunos já chegaram — disse Chabashira.
A porta da sala multiuso se abriu, e imediatamente avistei os professores e os alunos representantes das outras turmas. Vi Sakayanagi, da Turma A, Ichinose, da Turma B, e Kaneda, da Turma D. Como era de se esperar, todos eram alunos que possuíam Pontos de Proteção. Também notei dois computadores posicionados um de frente para o outro, cada um conectado a um grande monitor.
— Bem, agora que os comandantes de cada turma estão todos reunidos, gostaríamos de determinar quais turmas se enfrentarão. Cada um de vocês deverá retirar um papel desta caixa. O aluno que tirar o papel com o círculo vermelho terá o direito de escolher seu oponente — disse Mashima-sensei, apresentando-nos a caixa com os papéis do sorteio.
Ele pediu que a Turma A fosse a primeira a sortear, mas Sakayanagi recusou.
— Dizem que coisas boas vêm para aqueles que sabem esperar. Não me importo em ir por último. Pode ir primeiro, Ichinose-san — disse Sakayanagi.
— Então, com licença — disse Ichinose, retirando um papel.
Depois dela veio a Turma C, seguida pela Turma D. Como os papéis não estavam dobrados, entendemos os resultados quase imediatamente após retirá-los. Kaneda, da Turma D, foi quem tirou o papel com a marca vermelha. Isso significava que a Turma D havia conquistado o direito de escolher seu oponente.
— Parece que não há necessidade de eu verificar o que está no último papel, não é mesmo, Mashima-sensei? — disse Sakayanagi.
Mashima-sensei retirou ele mesmo o papel restante da caixa. Naturalmente, não havia um círculo vermelho nele.
— Parece que coisas boas não vieram para quem esperou, afinal — disse ele.
— Não tenho tanta certeza disso. Não é necessariamente sorte ser quem o tira — respondeu Sakayanagi.
— Será que isso significa que a Turma A pode realmente ficar tranquila, não importa quem enfrente? — disse Ichinose.
— Oh, não, não é nada disso. Se possível, eu gostaria de evitar enfrentar a sua turma, Ichinose-san — respondeu Sakayanagi.
Era difícil dizer se ela estava apenas sendo educada ou se falava sério.
— Por favor, diga-nos qual turma vocês escolherão — disse Mashima-sensei, incentivando Kaneda a responder.
Kaneda respondeu com um leve aceno de cabeça. Provavelmente, a Turma D já havia realizado suas próprias discussões pela manhã e após as aulas, decidindo qual turma teria mais chances de vencer.
— Então, serei direto. A Turma D deseja… enfrentar a Turma B — anunciou Kaneda, declarando guerra a um oponente inesperado.
— Tem certeza de que deseja escolher a Turma B? — perguntou Mashima-sensei, buscando confirmação.
— Sim — respondeu ele, firmemente.
Depois de se certificar, Mashima-sensei finalizou os confrontos. Se a Turma D enfrentaria a Turma B, naturalmente isso significava que a Turma A enfrentaria a Turma C.
— Eu tinha certeza de que escolheriam a Turma C, mas optaram pela Turma B. Por quê? — perguntou Sakayanagi, pressionando Kaneda pelo motivo de sua decisão.
— Se quisermos reverter nossa situação, precisaremos tirar o máximo de pontos possível das turmas de nível mais alto. Dito isso, gostaríamos de evitar enfrentar a Turma A neste momento — disse Kaneda.
Assim, ao considerarem a Turma A um oponente compreensivelmente difícil, optaram pela Turma B.
— Entendo. Bem, no que me diz respeito, isso significa que você me poupou do trabalho de enfrentar o poderoso oponente que é a Turma B, e por isso sou grata. Desejo boa sorte à Turma D em seus esforços — disse Sakayanagi.
Ela fez uma leve reverência em agradecimento a Kaneda, mas não pude deixar de perceber um certo jogo de manipulação envolvido em nos trazer até esse ponto. É claro que o fato de Kaneda ter conquistado o direito de escolher foi totalmente coincidente, mas o resultado teria sido o mesmo independentemente de quem tivesse tirado o papel vencedor. Eu havia entrado em contato com Ichinose e Ishizaki com antecedência, antes do fim das aulas daquele dia, dizendo que queria que eles recuassem e me deixassem lidar com a Turma A.
Ichinose parecia realmente querer enfrentar a Turma A pessoalmente, mas concordou em deixar isso comigo, como forma de me retribuir. E, ao que parece, Ishizaki e o restante da Turma D já haviam planejado escolher a Turma B de qualquer forma, então estava tudo certo. Tudo para organizar um confronto com Sakayanagi e a Turma A.
O único problema teria sido se eu tivesse sido o vencedor do sorteio. Horikita havia me dito especificamente para escolher a Turma D, então eu teria que inventar alguma desculpa se isso acontecesse. Uma chance em quatro não era algo com que valesse a pena se preocupar. Basicamente, todo esse sorteio havia sido manipulado.
Além disso, eu tinha certeza de que Sakayanagi sabia que eu havia preparado o terreno para esse desfecho. E assim, todos os confrontos já estavam determinados de antemão.
— Muito bem, agora explicarei o sistema que vocês utilizarão no dia da prova especial. Durante o exame, vocês estarão na sala multiuso, usando um computador como os dois que estão instalados aqui. Vocês cumprirão o papel de comandante a partir daqui, designando, em tempo real, qual aluno participará de cada evento — explicou Mashima-sensei.
A tela do computador à esquerda foi projetada no grande monitor. Enquanto Chabashira operava o computador, Mashima-sensei continuou a explicação.
— Esta é uma lista de alunos da Turma A. Usando o mouse, vocês devem arrastar e soltar a foto de perfil do aluno selecionado na caixa correspondente a um evento específico. Se cometerem um erro ou quiserem reconsiderar sua escolha no meio do processo, podem usar o mouse para arrastar a foto do aluno para fora da caixa e então selecionar novamente. Ou podem usar o dedo para operar via tela sensível ao toque — disse Mashima-sensei.
— É meio que como um videogame, não é?
— Realmente é!
Ichinose e Hoshinomiya-sensei estavam entretidas em sua própria conversa animada.
— Há um limite de tempo para a seleção dos alunos em cada evento, representado pelo número que vocês estão vendo na tela agora, em contagem regressiva. Quanto mais participantes forem necessários para um evento, mais tempo será concedido para a escolha. Podem esperar cerca de 30 segundos por pessoa — acrescentou ele.
Isso significava que teríamos trezentos segundos para um evento com dez pessoas.
— Observem que, se vocês não fizerem suas seleções dentro do limite de tempo, os espaços restantes serão preenchidos com alunos escolhidos aleatoriamente. Além disso, se selecionarem alunos demais para um evento, os participantes excedentes também serão removidos por meio de seleção aleatória.
Ou seja, esses limites eram absolutamente rígidos.
— Assim que os jogos começarem, a ação será exibida no grande monitor em tempo real.
Um vídeo de demonstração de uma partida de shogi começou a ser exibido no monitor.
— As informações que descrevem como o comandante pode participar da partida serão exibidas em seu monitor pessoal assim que ela começar.
A imagem no grande monitor voltou a mostrar o que estava na tela do computador à esquerda. As palavras "O comandante pode pausar o jogo e refazer um movimento uma vez" apareceram na tela, provavelmente como um exemplo de como o comandante poderia se envolver em um determinado evento, exatamente como Mashima-sensei havia explicado.
— Lembrem-se de que vocês podem confirmar os detalhes dessas regras e ativá-las clicando nelas.
O grande monitor voltou a exibir a partida de shogi.
— Além disso, as instruções dos comandantes para seus colegas de equipe não serão transmitidas por ligações telefônicas, mas por mensagens de texto, que serão automaticamente lidas em voz alta por meio de um sistema de conversão de texto em fala. Tudo o que vocês precisam fazer é digitar as palavras e pressionar enter, e a mensagem será reproduzida no headset do participante.
Então nossas mensagens seriam lidas automaticamente por uma máquina, hein? Provavelmente para impedir que espalhássemos desinformação ou revelássemos mais do que o permitido. Usando o jogo de shogi exibido como exemplo, embora a regra afirmasse que o comandante só poderia se envolver pausando o jogo e refazendo um movimento uma única vez, uma redação inteligente tornaria possível que o comandante basicamente desse instruções para dois ou três movimentos.
— Se o comandante se desviar das regras estabelecidas e se envolver mais do que o permitido, a escola poderá desclassificá-lo por violação das regras.
Suponho que isso faça sentido. Era seguro assumir que todas as mensagens enviadas pelos comandantes estavam sendo analisadas por terceiros.
— Apenas um participante usará headset por evento. Mesmo em eventos em equipe, isso significa que apenas uma pessoa poderá receber instruções. O comandante também deverá especificar qual participante usará o headset.
Parecia que eu teria bastante trabalho pela frente. Havia coisas que poderíamos decidir com antecedência, mas ainda precisaríamos nos preparar para o inesperado.
— O comandante pode emitir instruções sempre que desejar, desde que esteja de acordo com as regras.
Podíamos alterar livremente a exibição em nossa própria tela, incluindo alternar entre telas, maximizar ou minimizar janelas e assim por diante. Havia mais do que algumas coisas que poderíamos observar, desde acompanhar os alunos que participavam do evento atual até nos preparar para o próximo.
— Isso conclui minha explicação sobre as funções do comandante e os sistemas envolvidos. Alguma pergunta?
Mashima-sensei olhou ao redor, mas parecia que ninguém tinha dúvidas.
— Então é só por hoje. Caso desejem revisar o sistema operacional, poderão retornar à sala multiuso, acompanhados por um professor, até uma semana antes da prova. É só isso.
E assim, após ouvirmos como funcionaria o cargo de comandante, nos dispersamos.
*
Voltei para o meu dormitório, mandei uma mensagem para Horikita informando contra qual turma iríamos competir e, em seguida, comecei a pensar imediatamente nas minhas responsabilidades como comandante. Pensando bem, era a primeira vez que eu enfrentava uma das provas desta escola de frente. Para ser completamente honesto, eu realmente não achava que poderia perder em uma luta individual. Mas, nesta prova, eu estaria travando uma guerra ao comandar a turma inteira.
Eu só poderia lutar dentro dos limites das capacidades da minha turma. Mesmo um estrategista incomparável como Sun Tzu não teria a menor chance de vencer se liderasse um exército de crianças contra um exército de adultos totalmente crescidos. Embora a capacidade dos comandantes de se envolver nos eventos fosse crucial, havia algumas coisas fundamentais que eu precisava saber antes de entrarmos nessa batalha.
Uma delas era compreender o potencial atual da Turma C. De quem eles gostavam e de quem não gostavam? No que eram bons e no que tinham dificuldade?
Eu não conseguiria encontrar o caminho para a vitória sem entender como agrupar meus colegas de classe. E, quando se tratava de coleta de informações e habilidades de liderança, eu provavelmente estava entre os piores da turma. Eu nem sequer sabia do que Shinohara e Onodera gostavam de comer.
Então, o que eu deveria fazer primeiro?
A resposta era óbvia. Eu precisava conversar com alguém que conhecesse bem a turma. Era uma abordagem simples, com certeza, mas totalmente inevitável. Provavelmente havia três pessoas com quem eu poderia contar nessa situação: Kei, Hirata e Kushida.
Idealmente, eu poderia consultar os três. No entanto, dada a situação atual, a única que com certeza me ajudaria era Kei.
Hirata estava quebrado além de qualquer recuperação naquele momento, e Kushida havia sido profundamente ferida pela votação em classe. Embora não demonstrasse isso na superfície, eu tinha certeza de que estava extremamente irritada com Horikita. Eu não fazia ideia do quanto Kushida estava desconfiada de mim agora, mas achei seguro assumir que ela estava mais cautelosa comigo do que antes.
Pouco antes das seis da tarde, quando o sol começava a se pôr e dar lugar ao crepúsculo, a campainha da minha porta tocou. Uma única visitante havia vindo ao meu quarto. Não hesitei em abrir a porta e convidá-la a entrar.
— E aí.
A visitante… não era ninguém menos que Karuizawa Kei, ainda vestindo o uniforme escolar.
— Você ficou no prédio da escola esse tempo todo? — perguntei.
— Ao contrário de você, eu tenho muitos amigos. E, além disso, hoje eu meio que tô em alta — respondeu Kei, de forma estranha. Ela se virou para me encarar.
— Em alta? Por quê? — perguntei de volta. Ao perceber que eu não entendia o que estava acontecendo, Kei desviou o olhar, aparentemente irritada.
— Tanto faz. Isso não importa. Mais importante, é bem incomum você me chamar a essa hora. E, aliás, você tem certeza de que tá tudo bem ser tão casual assim? Você não disse que daria problema se alguém nos visse? — disse ela, olhando ao redor do meu quarto, desconfortável.
— Está tudo bem. Depois de tudo o que aconteceu, a necessidade de sermos cautelosos diminuiu bastante.
— Você tá falando sobre o que aconteceu com o Hashimoto-kun da Turma A, né? E aquele veterano que nos viu juntos?
— Algo assim.
— Então o nosso relacionamento vai, aos poucos, se tornar de conhecimento público. Kiyotaka… isso não é um problema? — perguntou ela.
— Não é problema nenhum.
Minha resposta imediata pareceu tranquilizá-la, já que ela soltou um suspiro de alívio.
— Então acho que tá tudo bem.
Era verdade que havia algumas coisas que eu só podia fazer se ninguém soubesse da minha ligação com Kei. Mas a situação estava começando a mudar, pouco a pouco. Além disso, era mais fácil para mim ter Kei agindo abertamente, em vez de nos bastidores, como uma espiã.
— Mas… quer dizer, somos um garoto e uma garota da mesma turma, né? Se alguém me vir vindo aqui, vão surgir boatos estranhos sobre nós dois estarmos sozinhos juntos — disse Kei.
Ela era do tipo que se preocupava com esse tipo de coisa?
— Eu assumi o papel de comandante nesta prova. E você, Kei, é uma das pessoas mais influentes da nossa turma. Nós dois nos encontrarmos não deve parecer tão estranho para ninguém — respondi, tentando tranquilizá-la.
— Hm. Bom, acho que sim.
Parecia que algo ainda a incomodava.
— Sabe, pensando bem, por que você assumiu o papel de comandante, afinal? Quer dizer, você não é exatamente o tipo de cara que se sente obrigado a fazer algo só porque tem um Ponto de Proteção ou coisa assim.
Como esperado, ela me entendia até certo ponto.
— Deixando meus sentimentos pessoais de lado, preciso considerar a forma como meus colegas de classe me veem. Além disso, Yamauchi acabou de ser expulso, e todo mundo na turma está em estado de alerta agora. Essa foi a melhor opção disponível.
— Só isso? — perguntou ela.
— Só isso.
— Se fosse comigo, eu não teria virado comandante, não importa o que dissessem — disse Kei.
Algo que ela podia fazer justamente por causa da reputação que havia estabelecido na turma. Mesmo que insistisse teimosamente que o Ponto de Proteção era dela e apenas dela, ninguém realmente a criticaria por isso. Honestamente, era algo bastante inteligente.
— Deixando isso de lado, me conte o que está acontecendo na turma — pedi.
— O que tá acontecendo, hein? Sinceramente, nem sei por onde começar. E, só pra você saber, não é como se eu soubesse de tudo, ok? Especialmente quando se trata dos garotos. Não faço ideia do que tá rolando com eles.
— Isso não é um problema. Eu gostaria de conversar com Kushida e Hirata individualmente mais tarde, se for possível.
Era exatamente o que eu esperava, na verdade. Meu cenário ideal. Eu não tinha a menor ideia se realmente conseguiria falar com eles.
— Bem, sim, conversar com esses dois te daria todos os detalhes do que está acontecendo na nossa turma, mas… — disse Kei, fazendo uma breve pausa. Ela cruzou os braços, parecendo conflitante, e voltou a falar.
— Tirando a Kushida-san, você não acha que falar com o Yousuke-kun pode ser impossível agora? Ele parece totalmente derrotado.
— Você também está preocupada com ele?
— Bom, sim. Quer dizer, ninguém da Turma C gosta de ver o Yousuke-kun desse jeito.
Era verdade que a Turma C estava sem um recurso importante sem o Hirata, e estávamos sofrendo por isso. Com ninguém assumindo o papel de mediador, nossa turma estava sem estabilidade.
— De qualquer forma, vou começar com o que você puder me contar.
— Hum, é meio difícil só eu ficar falando, sabe? Que tal você me fazer perguntas e a gente ir conversando?
Se era isso que ela queria, então eu perguntaria sobre cada uma das garotas da Turma C, uma por uma. Percorremos a lista, e eu memorizei os perfis de todas elas.
*
— E é basicamente isso, eu acho.
Menos de dez minutos depois, eu já tinha conseguido todas as informações de que precisava com a Kei.
— Ei, hã… você não devia estar anotando isso ou algo assim? Você sabe que eu não vou repetir tudo de novo, mesmo que você me peça, né? — disse Kei.
— Sem problemas.
— Então, espera… você está dizendo que memorizou tudo?
— Em grande parte.
— Ah, entendi. Uau. Você é incrível. Absolutamente incrível. — O elogio não soou nada sincero. — Enfim, nosso oponente é a Classe A, certo? Isso não vai ser um confronto bem difícil pra você?
— Eu não estou na linha de frente. Você e o resto dos nossos colegas vão cuidar disso. Só porque eu posso assumir como comandante não significa necessariamente que eu tenha o poder de virar o jogo. Se for pensar bem, eu é que deveria perguntar se você vai ficar bem. Vai ficar?
— E-Eu? Eu, hã…
Kei tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não pareciam sair.
— Você pode fazer com que eu não precise participar de uma rodada? — ela perguntou.
— Essa não é uma decisão que eu possa tomar sozinho. Dependendo da estratégia do nosso oponente, existe a possibilidade de que todos tenham que participar duas vezes.
— Não, não, não tem como eu fazer isso! Eu não sou boa em estudar nem em esportes! — gritou Kei, balançando a cabeça freneticamente para enfatizar o quanto não queria participar. — Além disso, tenho certeza de que você, mais do que qualquer outra pessoa, pode derrotar a Sakayanagi-san, Kiyotaka! — acrescentou, fazendo um joinha para mim.
Ela provavelmente só queria participar o mínimo possível, evitando assim qualquer responsabilidade. No entanto, a verdade era que nem mesmo a Kei compreendia totalmente quem eu era.
— Quer dizer, não ajuda o fato de que ninguém está esperando que você vença? — ela argumentou.
— É, acho que sim.
Era verdade que, quando todos presumiam que você ia perder, algumas coisas ficavam mais fáceis.
— Então, hã… era só isso que você queria dizer? Você disse que tínhamos que conversar pessoalmente para isso? Se era só isso, por que não ligou?
— Algumas coisas são mais fáceis de entender quando discutidas pessoalmente.
Talvez não fosse a resposta que ela esperava, porque a expressão de Kei permaneceu rígida.
— Hmph… Então terminamos de conversar, né? Nesse caso, eu… vou embora, ok? — disse Kei, preparando-se para sair.
Ela parecia achar que era só isso — que a conversa não iria mais a lugar nenhum. Já tínhamos abordado o mínimo necessário do que precisávamos discutir, e ela se preparou para voltar para o próprio dormitório.
— Eu entro em contato de novo se precisar de mais alguma coisa.
— Tá, tá.
Pela expressão em seu rosto, ela esperava que algo acontecesse, mas agora havia desistido. Ainda assim, aparentemente pretendia permanecer teimosa até o fim, porque não dizia nada. Teria sido muito mais fácil para nós dois se ela simplesmente falasse logo, mas…
— Espere um segundo. Ainda tem algo sobre o qual eu queria falar com você — eu disse.
Levantei-me e fui até a cômoda, onde mantinha algo escondido para que ninguém visse caso entrasse no meu quarto.
— O quê…? Se você tinha algo a dizer, deveria ter falado antes — disse Kei.
— Hoje é seu aniversário, não é? — perguntei.
— Hã… Espera, você sabia…? — ela retrucou.
Peguei o item da gaveta. Eu o havia encomendado na loja da escola e mandado entregar. Até pedi para embrulharem, já que era para o aniversário de alguém.
— Eu só estava te provocando um pouco.
— E-Ei, não tente fazer nada estranho comigo. Se tinha um presente, devia ter me entregado logo. Mas já vou avisando, ganhei várias coisas boas de outros amigos, então o seu presente tem muito com o que competir — ela me disse.
Kei estendeu as mãos para receber o presente enquanto falava, embora tivesse virado o rosto para o lado para não me encarar. Quando vi isso, parei imediatamente de entregá-lo.
— Você estava ansiosa por isso? — provoquei.
— N-N-Não muito…
— Ah. Bom, se você não se importa tanto, então acho que não preciso te dar.
— H-Hã?! Você não pode simplesmente decidir não dar um presente no último segundo depois de já ter decidido que ia dar! Isso não faz o menor sentido!
— Bem, este também é o seu presente de White Day. Sabe, como retribuição pelo Dia dos Namorados. Além de ser um presente de aniversário — eu disse.
— E lá está… Então você é do tipo que junta tudo porque dá muito trabalho fazer as coisas separadamente, né? — disse Kei, soltando um suspiro exasperado ao pegar o presente de mim. Ela pareceu confusa com o quão pequeno e leve ele era. — Tem mesmo alguma coisa aqui dentro?
— Não sou corajoso o bastante para te dar uma caixa vazia — provoquei.
Quero dizer, era óbvio que ela ficaria chateada se eu fizesse algo assim.
— Então tudo bem se eu conferir, hm? — ela respondeu, soando como uma policial interrogando um suspeito.
Ela cuidadosamente retirou o papel de presente e, em seguida, tirou a tampa da caixa para examinar o conteúdo. O que surgiu da caixa aberta foi algo metálico que brilhava em dourado.
— Q-o… o que é isso?! — ela gritou, surpresa. Mesmo que soasse chocada, deveria estar claro para qualquer um o que ela estava vendo.
— É um colar.
— E-Eu posso ver isso! Mas isso é um presente super extravagante!
— Extravagante?
— Q-Quer dizer, um colar não é o tipo de coisa que você consideraria dar de presente entre amigos!
Foi o que ela disse, mas… Inclinei a cabeça para o lado, expressando minha confusão. Eu não entendi muito bem o que Kei queria dizer. Mas, em vez de explicar o que quis dizer, parecia que ela ainda tinha mais alguma coisa a falar.
— E, além disso, sabe de mais uma coisa? Nem parece que combina comigo! Quer dizer, tem formato de coração!
Ela provavelmente estava se referindo ao pingente do colar ser em forma de coração. Aparentemente, meu presente de aniversário para ela não tinha sido uma escolha muito boa.
— Tem formato de coração!
Ela devia ter desgostado particularmente dessa parte, já que repetiu para dar ênfase. Sua respiração estava pesada agora. Seu rosto estava completamente vermelho. Até eu me senti um pouco atingido depois de ela protestar de forma tão dura. Independentemente de para quem sejam, presentes são dados para fazer as pessoas felizes.
— Isso não foi muito caro? — ela perguntou.
— Não foi barato. Cerca de vinte mil, mais ou menos.
— V-Vinte… por que você fez questão de me dar um colar tão caro…? — ela perguntou.
— Como assim, por quê…? — perguntei.
O rosto de Kei ficou ainda mais vermelho enquanto ela me olhava. Parecia que responder com sinceridade provavelmente seria o melhor.

— Para ser sincero, nunca dei um presente de aniversário para uma garota antes. Achei que primeiro deveria pesquisar um pouco na internet, para tentar reunir informações. Aí vi que um grande varejista online, a Rakkan Ichiba, tinha um colar recomendado como o presente de aniversário número um para garotas. Também diziam que fazia muito sucesso entre estudantes do ensino médio — respondi.
Eu também me lembrava de ter visto que ele era divulgado como o presente de retribuição perfeito, independentemente de ser para alguém com quem você tivesse um envolvimento romântico ou não. Decidi que, se fosse combinar o presente de aniversário dela com o de White Day em um só, também precisaria gastar uma quantia razoável.
— Uau…
Por algum motivo, Kei estava me olhando como se eu fosse maluco. Comecei a achar que tinha estragado tudo.
— Sabe, mesmo você sendo inteligente, também é meio burro em algumas coisas. Parece que você não sabe muito sobre o mundo. Um presente desses pode até fazer sucesso com garotas do ensino médio, mas é o tipo de coisa que elas preferem escolher por conta própria, para garantir que combine com o estilo e o gosto delas. Acho até um alívio você não ter escolhido um anel ou algo assim, porque aí teria que acertar o tamanho do meu dedo… Mas, sendo bem direta, isso aqui merece tipo dez pontos de cem, ok? — disse Kei.
Mesmo tendo comprado um presente caro, ao que parecia, no fim das contas eu tinha fracassado miseravelmente. Ela me explicou como as garotas do ensino médio pensavam, deixando-me com várias coisas para refletir. Foi um presente bem-intencionado, mas eu não tinha certeza de que realmente o tinha escolhido levando os sentimentos da Kei em consideração.
— Bom, e se eu tivesse te dado uma caixa de doces? — perguntei.
— Provavelmente aumentaria sua nota para quinze pontos.
Uau. Pensar que uma caixa de doces teria uma pontuação maior do que um colar de vinte mil ienes…
— Provavelmente não posso devolvê-lo agora que foi aberto, mas se você não precisar dele, pode simplesmente deixá-lo aqui antes de ir embora. Se você preferir receber uma caixa de doces, posso comprar uma para você em alguns dias — sugeri, lamentando minha falta de pesquisa e compreensão.
Afinal, um presente de quinze pontos provavelmente deixaria a Kei mais feliz do que um de dez. Ou foi o que pensei, mas…
…………
Kei olhou para o colar por um tempo e depois voltou o olhar para mim. Então, quando achei que ela fosse guardá-lo, ela o colocou no pescoço. Disse que ia usar meu espelho por um minuto e foi verificar como o colar ficava nela.
— Hm. Bom, a parte do pingente em forma de coração é um pouco infantil, como eu imaginei. Mas eu sou bem gata, então consigo fazer qualquer coisa ficar boa — disse Kei.
Embora eu não pudesse deixar de me perguntar do que diabos essa estudante do ensino médio estava falando, ela parecia completamente séria. Depois de examinar como o colar ficava nela de todos os ângulos, assentiu para si mesma, satisfeita.
Achei que ela estivesse apenas experimentando e que o devolveria depois, mas ela cuidadosamente colocou o colar de volta na caixa e, em seguida, guardou a caixa na bolsa.
— Bom, foi tipo a sua primeira vez dando um presente para uma garota, né? Então eu vou aceitar, só desta vez.
— Tudo bem por mim.
Afinal, não era como se eu pudesse dar isso a outra pessoa se ela me devolvesse.
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