Ano 1 - Volume 11.5
Capítulo 5: As Suspeitas de Matsushita
NO DIA 3 DE ABRIL, fim das férias de primavera, eu, Matsushita Chiaki, tomei uma decisão.
— Sim… isso definitivamente está me incomodando.
Desde as provas de fim de ano até hoje, há esse sentimento persistente, lá no fundo, que simplesmente não vai embora. Algo sobre meu colega de classe, Ayanokoji Kiyotaka. Ultimamente, não consigo parar de pensar nele.
Tenho certeza de que, se eu contasse isso a alguém, provavelmente zombariam de mim e diriam que é amor ou alguma paixão. Mas não é isso. Posso declarar, sem qualquer dúvida, aqui e agora, que não sinto nada romântico por ele.
O que comecei a sentir foi uma forte desconfiança em relação ao Ayanokoji-kun. Mesmo que eu comentasse isso com outros alunos, tenho certeza de que eles apenas me olhariam confusos. Ainda assim, estou tentando encontrar uma resposta, do meu próprio jeito.
Acho que, para você entender esses sentimentos, primeiro precisa me conhecer melhor.
Nasci em uma família relativamente abastada e fui abençoada com pais gentis, que me criaram muito bem e nunca restringiram minhas liberdades. Eles me deram tudo o que eu queria e, em troca, sempre estudei com dedicação, obtendo excelentes notas tanto na escola quanto nos cursos preparatórios, destacando-me em todas as matérias.
Pais se orgulham da excelência de seus filhos, e filhos se orgulham da excelência de seus pais. Temos uma relação extremamente privilegiada. Além disso, acredito que fui abençoada com uma aparência razoavelmente boa, se me permitem dizer. Imagino que muitas pessoas me invejariam se soubessem dessas coisas.
Eu vou crescer, me apaixonar e, eventualmente, me casar com um homem bem-sucedido.
Minha vida talvez não seja perfeita, mas posso dizer que sempre tive um plano sólido para ela. Também vejo boas perspectivas para o futuro. Entre várias opções que considerei, pensei que trabalhar como comissária de bordo em uma companhia aérea internacional ou ser contratada por uma grande empresa não seria nada mau.
Mas, desde que comecei a estudar nesta escola, passei a sonhar um pouco mais alto. Ser aceita em uma universidade de prestígio no exterior, depois trabalhar em uma embaixada e, no futuro, seguir para as Nações Unidas… esse é o caminho que venho imaginando.
Minha vida sempre foi tranquila, e havia um caminho que eu só precisava seguir. Nunca havia tropeçado antes. No entanto, meu primeiro erro de cálculo veio depois que entrei nesta escola.
Somente me formando na Classe A meus sonhos de faculdade e carreira seriam plenamente realizados. Ou seja, não veria valor algum em me formar na Classe B ou inferior. Claro, estou confiante de que sou capaz de garantir meu futuro por conta própria até certo ponto.
Mas… me formar na Classe B ou abaixo provavelmente seria um obstáculo. Eu ficaria marcada como "a aluna que não conseguiu se formar na Classe A".
A diferença entre as vantagens de alcançar meu objetivo e as desvantagens de falhar é significativa — e isso é um problema para alguém como eu, que busca estabilidade.
E então fui designada para a Classe D, não para a Classe A.
Isso foi um golpe extremamente doloroso.
Ainda assim, quando entrei aqui, não entrei em pânico imediatamente. Essa falta de cautela foi minha ruína. Em apenas um mês, esgotamos nossos Pontos de Classe e afundamos completamente no ranking.
— Se pensarmos com calma… nós realmente tivemos uma chance de vencer naquela época, não tivemos?
É isso mesmo. Mesmo começando na Classe D, de certa forma começamos lado a lado com as outras turmas. Se tivéssemos entendido bem a situação naquele primeiro mês, poderíamos ter subido no ranking. Apesar do pior começo possível, conseguimos recuperar alguns Pontos de Classe ao longo do ano. Chegamos até a subir temporariamente para a Classe C.
Ainda podemos mirar classes mais altas no futuro…
— Não… isso é impossível, não é?
Mesmo que tivéssemos percebido isso cedo, a diferença de habilidade básica entre nós e as outras turmas é maior do que imaginávamos. Mais cedo ou mais tarde, elas acabariam se distanciando de nós de qualquer forma.
Acontece que este ano foi favorável para nós, mas, considerando a diferença de talento entre os alunos de cada turma, estamos claramente em desvantagem. Se não fizermos algo para mudar essa realidade, minhas chances de chegar à Classe A são praticamente nulas.
Não gosto muito de dizer isso, mas me orgulho de ser uma das melhores alunas da minha série. Tenho quase certeza de que, se me esforçasse ao máximo, poderia ficar entre os 10% melhores. No entanto, a razão pela qual não estou no topo e permaneço no meio da hierarquia da turma é porque venho me segurando.
Claro, procuro não prejudicar ninguém quando algo importante está em jogo, mas realmente não gosto de chamar muita atenção. Além disso, o grupo de garotas com quem acabei me tornando amiga é composto por pessoas com um nível acadêmico relativamente baixo. Cerca de metade dos alunos da Classe D está entre os 10% ou 20% piores da série.
Se eu demonstrasse minhas verdadeiras habilidades de forma descuidada nesse ambiente, poderia acabar despertando inveja nos outros ou fazendo com que passassem a depender demais de mim — o que me colocaria em uma situação desconfortável. Eu queria evitar isso.
Ainda assim, mesmo que eu tivesse me dedicado seriamente, a situação provavelmente não teria mudado tanto. Para o bem ou para o mal, sou apenas uma aluna excelente — não um gênio.
Mais do que tudo, não sou o tipo de pessoa que toma a iniciativa. Não é como se eu quisesse depender dos outros para tudo, mas, pessoalmente, eu realmente quero me formar na Classe A. Se isso fosse possível, eu preferiria seguir um caminho mais fácil, que me levasse a um futuro estável.
Para isso, eu precisava fazer com que toda a turma se esforçasse, mas… Depois de ver tudo o que aconteceu neste último ano, senti que isso era impossível — e acabei desistindo pela metade. É verdade que há algumas pessoas excepcionais na nossa classe. Temos a Horikita-san, o Hirata-kun e a Kushida-san. Também há alunos inteligentes como o Yukimura-kun e a Wang-san.
Mas ainda faltam peças. A realidade é que muitas pessoas estão atrasando o progresso. Mesmo se tirássemos esses alunos da equação, ainda estaríamos no negativo. Se ao menos mais duas ou três pessoas se destacassem e acompanhassem aqueles alunos excepcionais…
Ah, que frustração.
É isso…
Foi sendo atormentada por esses pensamentos que Ayanokoji-kun chamou minha atenção. Isso é apenas um palpite meu, mas acho que ele é o mesmo tipo de pessoa que eu.
Ele veio para esta escola porque queria viver a própria vida, por algum motivo. Parece ser muito menos ambicioso do que eu em relação ao sucesso e dá a impressão de não se importar nem um pouco com a Classe A ou com a Classe D.
E, ainda assim, ele possui uma habilidade considerável — se minha interpretação estiver correta. Ele e eu seríamos duas cartas a mais que a Classe D poderia adicionar à mão. Se isso acontecesse, talvez pudéssemos almejar classes mais altas, dependendo do nosso esforço.
Esse pensamento tem surgido com frequência na minha mente ultimamente. Mas por que comecei a vê-lo dessa forma? Bem… por causa das evidências que encontrei até agora — ou melhor, das suspeitas que venho tendo.
Os olhares ocasionais de Karuizawa-san em direção ao Ayanokoji-kun. E essa sensação de proximidade entre eles. No começo, achei que fosse apenas um mal-entendido. Mas, quando ela e o Hirata-kun terminaram, lá no fundo, tive certeza.
Ela se sente atraída por ele. Karuizawa-san, que normalmente vê namorar um cara popular como um símbolo de status, escolheu o Ayanokoji-kun.
Por quê?
Porque ele é bonito? Não… não consigo acreditar que seja só isso.
Se fosse o caso, teria sido muito mais conveniente continuar namorando o Hirata-kun, que também é extremamente popular.
Nesse caso…
Acho que é porque o Ayanokoji-kun possui um nível de habilidade alto o suficiente para compensar a falta de popularidade.
Foi a essa conclusão que cheguei. Se isso for verdade, muitas peças se encaixam — quase de forma assustadora. Basta observar como a Horikita-san, que atua como líder da turma, interage com ele, e também como o Hirata-kun se relaciona com ele. Não tenho dúvidas de que ambos o consideram extremamente capaz.
Além disso, ele também é bastante próximo da Ichinose-san. Mesmo agora, ao relembrar, não consigo deixar de achar estranho o desempenho dele na corrida intensa contra o ex-presidente do conselho estudantil durante o festival esportivo.
E ainda teve aquele momento em que a Sakayanagi mobilizou toda a Classe A e, mesmo assim, ele acabou recebendo um Ponto de Proteção. Eu havia pensado que ele simplesmente tinha sido escolhido por acaso pelo Yamauchi-kun como alvo de expulsão na votação da turma.
Mas o fato de ele depois ter atuado como nosso comandante na prova torna tudo isso difícil demais de ser considerado mera coincidência. Acho que qualquer um sentiria que o Ayanokoji-kun é um completo mistério, diante de tudo isso.
Mas a maioria dos alunos não percebe nada. Isso mesmo. Acho que é porque ele quase nunca toma atitudes quando está sob os olhares dos outros. Mesmo que sua velocidade seja claramente excepcional, isso por si só só o colocaria entre os melhores até, no máximo, o ensino fundamental.
No ensino médio… não, na verdade, quanto mais perto da vida adulta, mais suas habilidades de comunicação são testadas. Muitos dos alunos que estão no topo da hierarquia possuem tanto habilidades excepcionais quanto boas habilidades de comunicação.
Faltar apenas um desses aspectos já faz com que as pessoas tenham uma impressão diferente.
"Ele é rápido, mas não causa muito impacto."
Essa é a impressão que muitos têm do Ayanokoji-kun. Se ele também tivesse boas habilidades de comunicação, sua posição na hierarquia seria muito mais alta.
Dependendo de sua personalidade, talvez até estivesse no mesmo nível do Hirata-kun. Mas isso tudo não passa de teoria — ou melhor, estou apenas pensando demais em algo impossível. Seria como dizer algo completamente absurdo, como imaginar o Sudou-kun sendo inteligente e sociável, ou o Yukimura-kun sendo excelente em esportes.
As maiores prioridades que nossa turma precisava atender agora eram habilidade acadêmica e, em seguida, capacidade física. E era muito provável que o Ayanokoji-kun pudesse suprir ambas.
Além disso, ele talvez até superasse o Hirata-kun nesses dois aspectos.
Ele é um verdadeiro achado. Claro, essas minhas suposições têm um pouco de desejo pessoal envolvido. Afinal, se for realmente assim e ele for tão excepcional, então seria uma enorme ajuda para melhorar a situação da nossa turma.
Na verdade, sinceramente, eu já não teria do que reclamar se ele fosse pelo menos tão capaz quanto eu. Foi o que aconteceu durante a prova final que me fez prestar tanta atenção no Ayanokoji-kun. Ele resolveu corretamente um problema durante a prova de cálculo mental relâmpago — algo que não deveria ter conseguido.
Aquele foi um dos poucos momentos decisivos que me levaram a tomar essa decisão. As habilidades desconhecidas dele. Eu queria descobrir tudo sobre isso. E, se ele fosse realmente tudo aquilo que eu imaginava, não havia motivo algum para eu não tirar proveito disso.
Estou quase certa de que ele está em um nível muito próximo ao meu, tanto academicamente quanto fisicamente. Considerando que ele passou o último ano inteiro sendo discreto e quieto, provavelmente não é o tipo de pessoa que eu conseguiria convencer facilmente a me ajudar.
Mas estou confiante na minha interpretação dos fatos. Quando se trata de jogos psicológicos… eu sou superior. Posso fazê-lo pensar que estou me aproximando apenas por curiosidade e, assim, descobrir sua verdadeira natureza — e fazê-lo cooperar.
Isso será o sinal de partida para o contra-ataque da nossa turma no próximo ano.
— É, claro.
Chegar à Classe A certamente é algo atraente. Mas não é só isso que está me motivando agora. Também há o tédio.
Eu não quero apenas seguir em linha reta, calmamente, pelo caminho da minha vida. Quero um pouco de emoção também. Quero perseguir esse elemento misterioso que meus outros colegas não têm. Essa é a principal razão pela qual quero me aproximar do Ayanokoji-kun.
Depois de terminar de me trocar, saí em direção ao Keyaki Mall, já que tinha combinado de me encontrar com minhas amigas hoje. Ultimamente, passo meus dias procurando o Ayanokoji-kun no meio da multidão.
Mas as chances de encontrá-lo por acaso não são tão altas — nem mesmo dentro da escola. Durante a primeira metade das férias de primavera, não o vi uma única vez. Foi uma perda de tempo completa. Eu queria encontrar algum tipo de pista… algum indício. Minha curiosidade e meu desejo guiavam meu olhar, egoisticamente, dia após dia.
*
— Matsushita-san! Ei, por aqui!
— Bom dia!
Eram pouco depois das onze da manhã. Encontrei meu grupo habitual de amigas, Shinohara-san e Satou-san.
Durante as férias de primavera, nós nos reuníamos praticamente todos os dias — sem motivo algum — e passávamos o tempo conversando sobre bobagens. Não é que eu odiasse isso, mas… era meio entediante. Eu vinha desempenhando o papel de "boa garota" por cerca de um ano, mas agora estava em busca de algum estímulo.
Então decidi me jogar na conversa e provocar um pouco minhas colegas, em busca de algo mais interessante.
— Shinohara-san, você já fez algum progresso com o Ike-kun? — perguntei.
Tento aliviar esse tédio com qualquer pequena dose de emoção que consigo encontrar.
— Q-Quê?! P-Por que você está perguntando isso? Ah, com ele?! Nem pensar! — gritou Shinohara-san, em pânico, negando tudo. Mas, pelo jeito que ela reagiu, não conseguiu esconder o quanto ficou abalada com a minha pergunta.
Os olhos da Satou-san se arregalaram de surpresa. Seu olhar demonstrava ao mesmo tempo espanto e empolgação, como se dissesse: "Você vai mesmo tocar nesse assunto?"
Isso foi interessante. O fato de Ike-kun e Shinohara-san terem se aproximado cada vez mais nos últimos meses já era de conhecimento geral. Tenho certeza de que os dois tentam esconder, mas esta é uma escola pequena. Por mais que tentem disfarçar, quando um garoto e uma garota começam a namorar… as pessoas percebem.
— Eu só estava pensando que já estava na hora de você admitir logo isso pra gente, sabe? — falei.
— O-Olha, já disse que não é nada disso… Além do mais, ah, ele? O Ike? Ele é o exemplo perfeito de um idiota inútil! — respondeu ela.
Shinohara-san negou. A forma como ela falou até foi apropriada. De fato, se você analisasse o Ike-kun apenas pelas "qualificações", ele estaria claramente no fundo do poço. Ele é baixo, não tem bom desempenho acadêmico e também não é nada eloquente.
Não faltam defeitos para apontar nele. Mas sentimentos não podem ser medidos só por isso. É verdade que, às vezes, as pessoas acabam se interessando por tipos problemáticos. É quase como um acidente repentino, de certa forma. Além disso, considerando o nível da própria Shinohara-san, os dois até poderiam ser considerados compatíveis. Não é como se fossem incompatíveis.
— Ah, qual é, não tem problema, né? Quer dizer, nem é como se a gente soubesse exatamente quem gosta de quem nessa situação — disse Satou-san.
Por algum motivo, os olhos da Satou-san brilharam ao falar de romance. Ela se virou para Shinohara-san com um sorriso no rosto.
— Já falei que não é nada disso — resmungou Shinohara-san.
Como ela continuava negando, resolvi intervir para incentivar a Satou-san a continuar pressionando.
— Ei, você não precisa negar tanto. Eu só queria mesmo saber o que você sente de verdade, sabe? — acrescentei.
— É, é, eu também tô super curiosa! Vai, conta pra gente, conta! — disse Satou-san.
Era realmente muito fácil fazer a Satou-san agir como eu queria com um pequeno empurrão nesses momentos. Ela é o tipo de pessoa que não pensa muito profundamente nas coisas. Não pude deixar de pensar que isso também tem um impacto negativo nas habilidades acadêmicas dela.
Mesmo fazendo essa avaliação um tanto dura, não é como se eu não gostasse dela. Tanto Shinohara-san quanto Satou-san são amigas sinceras e abertas, com quem posso relaxar e ser eu mesma. São amigas preciosas na minha vida pessoal. Se alguma delas estivesse com problemas, eu gostaria de ouvir e ajudar. Claro, se elas tivessem habilidade suficiente para me acompanhar, nem preciso dizer o quão ideal isso seria.
Nesse momento, Shinohara-san, completamente alheia aos meus pensamentos, começou a falar sobre sua relação com o Ike-kun.
— Bem, pra ser sincera, ultimamente a gente tem brigado por nada o tempo todo. Então… não parece que estamos avançando muito — disse ela, suspirando e balançando a cabeça.
Ainda assim, pelo tom dela, não era como se estivesse negando completamente que algum progresso existisse.
— Parece que vocês dois têm um tipo de personalidade parecida, sabe? Tipo… não conseguem ser sinceros com o que sentem. Mas acho que isso muda com o tempo.
Embora combinem, tenho a impressão de que acabam se chocando de maneiras estranhas. Sinto que, com o empurrão certo, a distância entre eles diminuiria rapidamente.
— Mas chega de falar de mim. E você, Matsushita-san? Tem alguém de quem você gosta? — perguntou Shinohara-san.
— Eu? — respondi.
Eu já esperava esse tipo de reação. Na verdade, fui eu mesma que conduzi a conversa até esse ponto.
— Acho que você já disse antes que, se fosse namorar alguém, seria um veterano — acrescentou Satou-san, entrando na conversa. Parecia que ela tinha se lembrado disso depois que o assunto surgiu. Não importava de quem fosse a história de romance — se fosse interessante e empolgante, já era o suficiente.
As garotas são assim.
— Sim, é verdade. Mas… desde que a pessoa atenda a certas condições, acho que não preciso me limitar apenas a veteranos.
Eu controlei o fluxo dos pensamentos delas e conduzi a conversa lentamente para onde eu queria. Não é algo tão especial assim, na verdade. Todo mundo faz isso no dia a dia, de forma natural. A única diferença é perceber ou não que está fazendo isso.
— Ah? Então quer dizer que você mudou de ideia? — perguntou Satou-san, caindo na armadilha com naturalidade.
— Quero dizer, as qualidades de um cara são algo inegociável, claro. Eu quero alguém bonito, que também seja uma boa pessoa. E além disso… uma boa origem familiar é essencial. Também gostaria que os pais dele fossem instruídos e bem-sucedidos — respondi.
Por mais incríveis que sejam as conquistas de alguém, se os pais forem inúteis… essa pessoa não atenderia aos meus padrões.
— Alguém com boas qualidades e boa origem familiar… você está falando de alguém como o Koenji-kun, por acaso? — perguntou Shinohara-san, com certo ceticismo.
— Hã? Quer dizer, em termos de aparência, até pode ser… mas ele não é meio… você sabe? — disse Satou-san, visivelmente surpresa ao ouvir o nome dele.
A reputação do Koenji-kun na nossa turma é incrivelmente ruim. O motivo é simples: ele é uma pessoa excêntrica que vive causando problemas para a classe. Ainda assim, dá para dizer que há uma grande diferença entre como ele é visto dentro da nossa turma e fora dela.
À primeira vista, ele não tem defeitos quando se trata de aparência ou origem familiar. Além disso, parece ter um lado bastante cavalheiresco no modo como trata as mulheres. Por isso, é perfeitamente compreensível que garotas de várias séries se encantem por ele.
Quanto à capacidade acadêmica, dá para perceber que ele esconde um potencial praticamente ilimitado, embora raramente mostre tudo o que pode fazer. Ele é um caso raro — alguém que atende quase todos os requisitos que procuro em um homem.
Se fosse apenas por habilidade, acho que o Koenji-kun seria a escolha número um. Mas há outras coisas sobre ele que posso entender sem nem precisar investigar. Ele não é o tipo de pessoa que pode ser persuadido a fazer algo por alguém comum. É estranho — absurdamente estranho.
Desde o início, já dá para perceber que não vale o tempo nem o esforço. Tentar fazer qualquer coisa com ele seria inútil. Nesse sentido, comparado ao Sudou-kun ou ao Ike-kun, ele é ainda pior… Na verdade, dá para dizer que ele é o maior fardo da nossa turma.
— Não, não o Koenji-kun. Na verdade… nem tenho certeza se ele é humano.
Ao ouvir minha avaliação, as duas começaram a rir imediatamente.
— Se ele levasse as coisas a sério, com certeza seria ainda mais popular que o Hirata-kun. Mas não há a menor chance de ele fazer isso — acrescentei.
Essa era a minha avaliação. E tanto Shinohara-san quanto Satou-san concordaram prontamente. De certa forma, sou até grata a ele, pois é um exemplo raro de alguém que mostra como um único defeito pode reduzir uma pessoa de cem pontos a zero.
Começamos falando sobre o relacionamento da Shinohara-san com o Ike-kun, depois passamos para minha ideia de parceiro ideal… e então seguimos para o próximo assunto.
— Ah, isso me lembra… Satou-san, o que aconteceu com o Ayanokoji-kun? — perguntei.
— Hã…? P-Por que você está me perguntando isso? — respondeu ela, ficando tensa com a pergunta repentina. Então, Shinohara-san também olhou para ela, como se tivesse se lembrado de algo. Era sobre o que aconteceu durante as férias de inverno.
Algo que a própria Satou-san havia nos contado. Ela tinha confidenciado que estava interessada no Ayanokoji-kun e estava em dúvida sobre se deveria ou não se declarar. Na época, eu e Shinohara-san apenas pretendíamos observar a situação à distância e torcer por ela — assim como estávamos fazendo agora com a Shinohara-san e o Ike-kun.
— B-Bem… eu não cheguei a…
Satou-san parecia que ia negar que algo tivesse acontecido, mas parou de falar de repente. Percebi que ela travou completamente quando o assunto passou a ser o Ayanokoji-kun. Claro, tanto eu quanto Shinohara-san entendemos o que isso significava, mas não comentamos.
Ela se declarou e foi rejeitada? Ou… será que mudou de ideia?
De qualquer forma, por consideração a ela, decidi não tocar mais no assunto — a menos que ela mesma falasse. Mas, ao mesmo tempo, era um caminho que eu não podia evitar, se quisesse entender melhor o Ayanokoji-kun.
— T-Ttudo bem se a gente mantiver isso só entre nós? — perguntou ela.
Era assim que chegaríamos ao ponto principal. Eu e Shinohara-san, já convencidas de que estávamos prestes a ouvir algo muito interessante, tocamos de leve no ombro da Satou-san.
— Claro.
*
E então fomos até o café para ouvir o que estava incomodando a Satou-san. Começamos aquele típico processo de escutar suas preocupações e, em seguida, concordar repetidamente.
Um momento de garotas, para garotas. Diferente dos homens, que vão direto para a solução, as mulheres primeiro buscam compreensão e validação. E isso não é necessariamente algo ruim.
— Bem… para ser sincera, eu… eu me declarei para o Ayanokoji-kun…
Eu e Shinohara-san quase cuspimos o chá ao mesmo tempo ao ouvir aquelas palavras saírem da boca da Satou-san.
— Hã?! O quê?! S-Sério?! Quando?! — gritou Shinohara-san.
Como ela achava que era quem estava mais "avançada" no grupo em relação a relacionamentos, não conseguiu se conter. Eu já suspeitava que algo estava acontecendo, mas não imaginava que ela tinha chegado tão longe. Por outro lado… o resultado era meio óbvio. Se eles tivessem começado a namorar, com certeza ela teria nos contado. Mesmo que estivesse escondendo por vergonha, eu perceberia. Mas, como não era o caso…
— Eu fui rejeitada.
Pelo tom dela, já havia passado algum tempo desde que isso aconteceu. Não havia sinais de tristeza ou ansiedade na sua voz. Provavelmente ela já chorou muito por isso… e agora estava tentando seguir em frente. Considerando isso, talvez ela tenha se declarado durante as férias de inverno.
E, se isso aconteceu porque nós a pressionamos sem querer… então talvez tenhamos contribuído para isso de forma negativa.
— Não acredito! Tá brincando! O Ayanokoji-kun é idiota ou o quê?! — resmungou Shinohara-san, indignada. Uma garota se declarar — ainda mais alguém como a Satou-san, que é claramente bonita — não é algo comum. Shinohara-san parecia ao mesmo tempo chocada e irritada com a rejeição. — Mas por quê? Por que ele te rejeitou? — perguntou.
— Ele disse que era simplesmente uma questão de sentimentos. Que, como não gostava de mim desse jeito, não podia sair comigo — respondeu Satou-san.
Shinohara-san levou a mão à testa e murmurou, irritada.
— Ah, inacreditável…
— Talvez seja porque ele já goste de outra pessoa? Como a Horikita-san, por exemplo — comentei, tentando confirmar essa possibilidade com a Satou-san.
Mas ela balançou a cabeça. De fato, sempre que o nome do Ayanokoji-kun surgia, o da Horikita-san vinha logo em seguida. Ultimamente, a presença dele vinha se tornando cada vez mais perceptível na turma — estava difícil ignorá-lo.
Chegou até a circular um pouco de boato de que ele e a Horikita-san poderiam acabar juntos. Mas, no fim, nada aconteceu, e o assunto esfriou.
— Ele disse que seria a mesma coisa, mesmo que fosse com a Horikita-san ou a Kushida-san — acrescentou Satou-san. Ao que tudo indica, então, ele realmente não era próximo delas desse jeito.
— Não é possível! Sério?! Tipo… sério mesmo?! Até com a Kushida-san?! — gritou Shinohara-san.
Sem reagir muito ao nome da Horikita-san, foi ao ouvir "Kushida-san" que a empolgação dela chegou ao auge.
— Tá, isso prova tudo. Ele é um esquisito antissocial que não tem interesse nenhum em romance. E ainda por cima é meio assustador. Credo…
Eu até entendi como ela chegou a essa conclusão. Mas a Satou-san, que era o centro da conversa, não parecia concordar.
— Se ele nem quer conhecer uma garota bonita… então talvez ele já tenha um amor verdadeiro? — perguntei, interrompendo a conversa e olhando diretamente para ela.
Quando olhei, ela desviou o olhar… mas assentiu. As pessoas tendem a observar mais quem gostam do que qualquer outra pessoa. Ou seja, quem provavelmente melhor percebe quem interessa ao Ayanokoji-kun… é a Satou-san.
— Eu acho que o Ayanokoji-kun… gosta da Karuizawa-san — respondeu ela, olhando para o lado.
— Não acredito! Espera, espera, pera aí. Sério? Tipo… o quê?! SÉRIO MESMO?! A Karuizawa-san?! — gritou Shinohara-san.
Eu e Shinohara-san trocamos olhares mais uma vez. Para quem não sabia de nada, aquilo soava como uma combinação totalmente inesperada. Mas eu apenas fingi surpresa. No fundo… eu já estava praticamente convencida. Porque minha interpretação da situação coincidia completamente com a opinião da Satou-san sobre quem o Ayanokoji-kun realmente gostava.
— Sim. E também… acho que, muito provavelmente, a Karuizawa-san… gosta dele também — respondeu Satou-san.
— Será que isso tem a ver com o término dela com o Hirata-kun? — perguntei.
Ao ouvir minha pergunta, Satou-san, ainda um pouco hesitante, assentiu.
— Espera aí… então ela saiu do Hirata-kun pra ir pro Ayanokoji-kun? Desculpa, mas eu simplesmente não entendo — disse Shinohara-san.
Achei curioso ela dizer isso, considerando que estava cogitando o Ike-kun como par.
— Eu não acho estranho. E-Eu, na verdade, também acho que o Ayanokoji-kun é a melhor escolha entre os dois — disse Satou-san.
— Você ainda gosta dele…? — perguntou Shinohara-san.
— Eu estou tentando esquecer o que sinto, mas… continuo me atraindo por ele… — respondeu Satou-san.
Ela já tinha percebido a verdade, depois de observá-lo todos os dias. Sinto muito, Satou-san… mas você tem sido uma fonte de informação muito útil.
— Mas, enfim… parece que eu tenho ouvido muito o nome do Ayanokoji-kun ultimamente, por algum motivo — comentou Shinohara-san, expressando casualmente suas suspeitas.
— Tipo quando ele foi o comandante? Ah, e também quando ele ganhou aquele Ponto de Proteção da Sakayanagi-san — acrescentou Satou-san.
— É estranho mesmo. Por que tinha que ser o Ayanokoji-kun? A Horikita-san disse que foi tudo coincidência, mas… sei lá — disse Shinohara-san.
Eu também achava estranho. Mas não havia muito sentido em entrar em uma discussão séria com aquelas duas.
— Pensando bem agora, acho que foi uma jogada muito boa. Se você dá um Ponto de Proteção para alguém, essa pessoa acaba ficando em uma posição onde pode ter que se sacrificar na prova final, certo? Se a Sakayanagi-san já tinha isso em mente desde o começo, então tudo faz sentido — respondi.
Decidi encerrar esse assunto com uma explicação que fosse ao menos plausível.
— Ah, entendi…!
Se tivesse sido o Ike-kun no lugar do Ayanokoji-kun, provavelmente a Sakayanagi-san teria vencido com mais facilidade. Claro, também é possível que ela tenha escolhido o Ayanokoji-kun justamente por ser uma escolha inesperada.
De qualquer forma, deixei esses pensamentos para depois. O fato de que Karuizawa-san gosta do Ayanokoji-kun — e talvez ele também goste dela — pode muito bem ser verdade. Só de descobrir isso hoje já foi um grande avanço para mim. Posso usar isso como ponto de partida para me aproximar.
— Eu achava que a Karuizawa-san era do tipo que dá muita importância às qualidades de uma pessoa, como eu — comentei.
— Mas o Ayanokoji-kun é tipo… incrível, não é? — respondeu Satou-san.
— Só por ser rápido? Não é só isso que ele tem? — retrucou Shinohara-san.
— Mas ele também é muito inteligente! Tipo… não parece que ele sabe praticamente tudo? — disse Satou-san, perguntando se concordávamos.
— Nem pensar — respondeu Shinohara-san imediatamente.
Como ela discordou, resolvi me alinhar com a Satou-san.
— Eu também tenho a impressão de que ele é mais inteligente e capaz do que aqueles caras estranhos da turma — falei.
Como Shinohara-san não parecia disposta a concordar, quis garantir que estava do lado da Satou-san.
— Não é?! — respondeu Satou-san.
Mesmo tendo sido rejeitada, os olhos dela brilharam ao me ouvir elogiar o Ayanokoji-kun. Ela parecia genuinamente feliz. Acho que, no fim das contas… ela ainda gosta dele.
— Talvez ele só pareça assim porque não fala muito — comentou Shinohara-san.
— Ele é o completo oposto do Ike-kun. O Ike-kun não para de falar, né? — comentou Satou-san.
— Total. Mesmo quando eu mando ele ficar quieto, ele continua falando — disse Shinohara-san.
Apesar do tom irritado, não parecia que ela realmente se incomodava tanto assim.
— Enfim, eu—
Quando Satou-san ia continuar, por acaso vi o Ayanokoji-kun pelo canto do olho. As outras duas estavam tão envolvidas na conversa que não perceberam.
— Ah, desculpa. Vocês se importam se eu for fazer uma ligação rapidinho? — perguntei.
Quando fiz isso, as duas responderam animadamente que não havia problema.
— Pode demorar um pouco, então, se acontecer alguma coisa, me avisem — falei para elas.
Depois disso, me levantei e fingi que ia fazer uma ligação. Assim que comecei a seguir o rastro do Ayanokoji-kun, consegui vê-lo de costas.
"É preciso agir enquanto o ferro está quente", como dizem. Tomei cuidado para não entrar em pânico e não sair do campo de visão da Shinohara-san e da Satou-san. Fingi estar falando ao telefone enquanto seguia o Ayanokoji-kun. Senti um leve nervosismo ao tentar segui-lo sem que ele percebesse.
Qual seria uma distância segura? E qual não seria? Se eu fosse descuidada, ele poderia ficar desconfiado. Era justamente por isso que, se acabássemos nos encontrando, eu queria que parecesse apenas coincidência.
Se eu perdesse essa chance durante as férias de primavera, provavelmente só conseguiria falar com ele depois do início do segundo ano. Se possível, eu queria estabelecer contato antes disso. Além disso, felizmente, o Ayanokoji-kun estava sozinho naquele momento.
Agora provavelmente seria uma boa oportunidade para falar com ele…
Foi o que pensei, mas…
Rapidamente me escondi.

Porque notei alguém se aproximando dele.
— Essa pessoa é… o novo diretor interino… se não me engano — murmurei para mim mesma.
Por algum motivo, ele parecia estar conversando com o Ayanokoji-kun. Que combinação interessante. Talvez eu conseguisse alguma informação nova. Se algo sobre as habilidades dele surgisse na conversa, eu poderia ouvir diretamente da fonte.
— Já faz um bom tempo que ele está conversando com o diretor…
Já tinham se passado quase dez minutos. Era tempo demais para ser apenas conversa casual. Será que o Ayanokoji-kun e o diretor já se conheciam? O diretor falava com ele como se fossem próximos.
Mas o Ayanokoji-kun, por outro lado, mantinha sua expressão vazia de sempre.
— Não entendo.
Ao mesmo tempo em que parecia que eles já se conheciam, também parecia que estavam dizendo coisas típicas de um primeiro encontro. O comportamento deles não revelava nada sobre seus antecedentes. Se eu me aproximasse um pouco mais, talvez conseguisse ouvir a conversa.
Mas isso seria arriscado. Eu poderia fingir ser apenas alguém passando por ali, mas não teria onde me esconder. Acho melhor ficar aqui e observar por mais um tempo… Então, de repente, a longa conversa terminou abruptamente.
O diretor foi ao encontro de outros adultos que o aguardavam perto da entrada da farmácia, um pouco mais adiante.
O que o Ayanokoji-kun faria agora…?
Então ele se moveu. Começou a caminhar, como se nada tivesse acontecido. Eu esperava conseguir alguma informação daquela conversa com o diretor, mas… parece que não consegui nada.
Eu planejava chamá-lo, mas comecei a pensar que talvez fosse melhor desistir. Talvez fosse melhor me preparar melhor antes… conseguir algum tipo de apoio. Enquanto o seguia após ele virar a esquina, pensei:
Vou segui-lo só mais um pouco… e, se nada acontecer, volto para me juntar à Shinohara-san e à Satou-san.
*
NAQUELE DIA, fui ao Keyaki Mall sozinho para fazer algumas compras. As férias de primavera estavam chegando ao fim e o novo semestre estava prestes a começar, então pensei em procurar algumas roupas novas e coisas do tipo.
Era só isso que eu pretendia fazer hoje, originalmente. Mas as coisas começaram a mudar. E a primeira mudança veio de trás de mim. Depois, a próxima veio bem à minha frente.
Mudanças… para pior.
— Posso tomar um momento do seu tempo?
Tudo começou quando quatro adultos se aproximaram de mim, justo quando eu pensava por onde começaria minhas compras. Três deles estavam vestidos como operários de construção, com pranchetas nas mãos. Mas um deles estava de mãos vazias, usando um terno elegante.
Era o Tsukishiro. Assim que parei de andar, Tsukishiro se virou brevemente para olhar os outros três.
— Continuem com o trabalho de construção conforme o planejado — disse ele.
Depois de receberem as instruções, os três seguiram em frente.
— Ora, Ayanokoji-kun, parece que você está aproveitando bastante as férias de primavera. Como um estudante comum, de verdade.
Fiquei imaginando o que ele diria com aquele tom suave, mas suas palavras estavam carregadas de sarcasmo.
— O senhor tem algum assunto comigo, diretor interino Tsukishiro? — perguntei.
— Ora… você não parece muito contente em me ver — respondeu ele.
Mesmo sabendo disso, Tsukishiro elevou levemente o tom de voz de propósito. Era apenas o suficiente para que pessoas próximas pudessem ouvir — claramente intencional.
— É que conversar com o diretor chamaria atenção desnecessária. Acho que alunos sem habilidades deveriam permanecer nas sombras nesta escola — respondi.
Eu queria resolver logo o que quer que ele quisesse comigo. Além disso, também estava preocupado com a Matsushita, que me seguia.
— Então vou perguntar de novo. O que o senhor quer? — insisti.
Ela estava longe o suficiente para não ouvir nossa conversa, mas ainda assim poderia gerar especulações desnecessárias.
— Eu lhe direi quando quiser lhe dizer. Imagino que isso seja frustrante para você, mas terá que suportar. Está insatisfeito? — perguntou ele.
Era óbvio que Tsukishiro não demonstraria nenhuma consideração. Ele agia apenas conforme sua própria conveniência — e deliberadamente começou a conversar comigo ali, num local movimentado.
— Entendo. Nesse caso, fique à vontade — respondi.
— Pretendo mesmo. Primeiro… que tal falarmos sobre o clima? — sugeriu ele.
Ele bateu as mãos com um estalo e estreitou os olhos, sorrindo de forma exagerada. Se ele estava fazendo isso só para ver minha reação… era algo extremamente superficial. Não havia como algo assim afetar minhas emoções.
— Estou brincando. Tenho compromissos mais tarde, então vamos direto ao assunto — disse Tsukishiro.
Ele sabia disso desde o início. Mesmo assim, parecia gostar de tentar me provocar. Ainda assim, claramente havia algo que ele queria dizer. Escola e aluno. Essas posições jamais poderiam ser invertidas. Enquanto eu fosse um estudante, havia uma hierarquia que eu não podia ignorar.
— Que tal isso? — disse Tsukishiro. — Considere estas férias de primavera como suas últimas… e depois retorne ao seu pai.
Ele não se importava nem um pouco com o local. Falava abertamente, sem esconder nada. Mesmo que outros alunos ouvissem, não seria um problema para ele. Mesmo em desvantagem… ele não sofreria qualquer consequência.
— Imagino que você queira me ignorar e ir embora. Mas é melhor não fazer isso. Afinal, eu sou o diretor. Se um aluno me tratar com desrespeito… terei que agir de acordo — acrescentou.
Tsukishiro sorriu, como se enxergasse através de mim.
— Sinto muito, mas não tenho a menor intenção de sair desta escola por vontade própria — respondi.
— Você odeia tanto assim a ideia de voltar para a Sala Branca? — perguntou ele.
— Eu gosto desta escola. Só pensei que gostaria de me formar aqui como um estudante comum. Não tenho outro motivo além disso — respondi.
— De fato, é uma escola muito boa. Construíram tudo isso, até mesmo este shopping, com o grande financiamento do governo. Se isso se tornasse amplamente conhecido, muita gente reclamaria, dizendo que é desperdício de dinheiro público. Centenas de milhões gastos todos os anos. Ainda assim, a maioria das pessoas neste país é idiota. Basta ouvir por alto que o dinheiro é para educar seus filhos… e já ficam convencidos, sem nem saber os detalhes.
Tsukishiro observou o interior do shopping enquanto suspirava.
— Justamente por isso, há muitas coisas que precisam ser feitas. Agora eu também sou o diretor desta escola. É porque me importo com ela que estou trabalhando aqui assim — acrescentou.
Provavelmente ele se referia ao trabalho com aqueles supostos operários. Pelo menos na superfície, ele precisava agir como um diretor competente. Então, era verdade que ele tinha muito a fazer.
— A propósito… aquela garota que está te seguindo. É a Matsushita Chiaki, da sua turma, não é? — murmurou Tsukishiro, sem desviar o olhar de mim. — Foi só por um momento, mas a vi escondida do outro lado daquela parede. Parece que você é bem popular — acrescentou.
Eu tinha certeza de que Tsukishiro não estava olhando diretamente para mim a maior parte do tempo, mas ainda assim parecia me observar atentamente. Isso significava que ele estava sempre atento ao que acontecia ao redor, mesmo enquanto conversava com outras pessoas.
— Uau… você até memorizou os nomes dos alunos da minha turma — comentei.
— É uma boa ideia pelo menos conhecer os seus colegas — respondeu ele.
Parecia que a forma dele agir era tentar atacar minha mente — mexer comigo psicologicamente.
— Aquela garota percebeu a resposta que você deu na prova de cálculo mental rápido. Bem… parece que as coisas estão ficando cada vez mais difíceis para você ultimamente, não é? As paredes estão se fechando, você está se sentindo encurralado, não? Você quer viver aqui como um estudante comum, mas isso está ficando cada vez mais complicado — disse Tsukishiro.
Parecia que ele estava tentando plantar uma impressão negativa da escola na minha mente.
— Se for só isso, eu aguento.
— Para ser completamente honesto, eu não poderia me importar menos com você. Na verdade, fico até irritado por ter que desperdiçar meu tempo lidando com você — disse Tsukishiro.
— Nesse caso, por que não parar com isso agora? Não é como se alguém estivesse te obrigando — respondi.
— Seu pai jamais permitiria isso. Se eu fosse contra ele, não poderia continuar vivendo no mundo em que estou agora. Afinal, eu ainda sou alguém que quer ir mais longe — respondeu.
Ele não deu nenhum sinal de que pretendia ir embora. Continuou falando, sem pressa.
— Ora, não me olhe com tanta desconfiança. Eu poderia inventar qualquer desculpa, se quisesse. Não acha?
— Sim… suponho que sim — respondi.
— Eu revisei seus registros na Sala Branca. Admito sem hesitar que você é uma criança extraordinária. Com pouco mais de dezesseis anos, você possui um conjunto de habilidades que só pode ser descrito como anormal. Um adulto comum ficaria muito, muito atrás de você em todos os aspectos: mente, técnica e corpo — disse Tsukishiro.
Ele diminuiu a distância entre nós, sorrindo amplamente.
— Ainda assim, você conseguiu passar um ano aqui sem problemas. Então, que tal encerrarmos isso por aqui? É isso que significa ser maduro — acrescentou.
Ele basicamente estava me dizendo para voltar à Sala Branca e tratar este último ano como uma lembrança.
— Eu ainda sou um estudante, sabe. Não tenho intenção de encerrar nada.
— Hmph. Você acha que pode escapar de mim? — perguntou ele.
— Pretendo resistir até o fim — respondi.
— Existe um ditado, sabe? "O sapo no fundo do poço não conhece o oceano." Você parece ter uma visão exagerada de si mesmo. Imagino que seja por isso que consegue agir com tanta confiança, como se fosse maior do que realmente é — disse Tsukishiro.
Ele abriu os braços, mostrando as mãos.
— Independentemente de qual seja a sua posição nesta escola, você definitivamente não é o número um. Já existem vários alunos criados na Sala Branca que são iguais ou até melhores do que você — e vieram depois. Você deveria estar ciente de que não passa de uma unidade produzida em massa — disse ele.
— Se isso é verdade, então não há motivo para se preocupar comigo, não é? — perguntei.
— Se você não fosse filho dele, realmente não haveria. Seu pai deve ter um forte desejo de levá-lo ainda mais longe. Isso significa que ele é seu pai, por mais obstinado que pareça. Ele não vai deixar de acreditar que você pode se tornar um exemplo e liderar os outros — disse Tsukishiro.
Ele não escondeu o descontentamento que sentia por aquele homem. Era como se estivesse demonstrando o poder e a posição que possuía.
— O que o senhor acha da Sala Branca, diretor interino Tsukishiro? — perguntei.
— O que quer dizer com isso? — retrucou.
— Quero saber o que o senhor pensa sobre a existência dela. Acha que é necessária ou desnecessária? — perguntei.
Como eu não podia simplesmente aceitar tudo aquilo em silêncio, resolvi pressioná-lo um pouco.
— Não há motivo algum para eu responder essa pergunta — disse ele.
— Dependendo da resposta, posso mudar de ideia agora mesmo — respondi.
— Você sabe que palavras são baratas. Mas tudo bem. Se isso pode influenciar sua decisão, Ayanokoji-kun, então é um preço pequeno a pagar.
Mesmo sabendo que eu provavelmente estava blefando, Tsukishiro aceitou.
— No entanto, se vamos falar daquela instalação… precisamos voltar à sua história. A Sala branca foi construída há cerca de vinte anos. Você sabe disso, certo?
— Claro. Eu fiz parte da "quarta geração".
— Sim. Como você sabe, a Sala Branca cria um novo grupo a cada ano, começando pela primeira geração. Cada grupo é treinado sob a supervisão de um mentor específico. Depois, fazemos avaliações para verificar qual grupo pode ser desenvolvido de forma mais eficiente. Devido à suspensão das atividades no ano passado, apenas dezenove gerações foram formadas, mas… centenas de crianças já passaram pelo programa educacional, sendo criadas na Sala Branca — explicou Tsukishiro.
Crianças de diferentes idades nunca se viam. Mesmo estando na mesma instalação, ninguém conhecia o rosto ou o nome dos outros.
— Você sabe bastante sobre a Sala Branca. Está bem informado — comentei.
— Mais ou menos.
Conversar com ele deixava claro o quão próximo Tsukishiro era do meu pai. Dependendo do ponto de vista, ele podia parecer insignificante… mas, sob outro ângulo, parecia exatamente o oposto. Era alguém capaz de mudar completamente a própria postura conforme a situação. Talvez fosse por isso que foi encarregado de atividades de espionagem.
— Toda criança pode apresentar certo nível de crescimento até um determinado padrão. Porém, não conseguem ultrapassar esse limite. Como resultado, em quase vinte anos de funcionamento, nenhuma criança conseguiu atingir plenamente os objetivos estabelecidos… exceto você. Bem, isso era verdade até dois anos atrás — disse Tsukishiro.
Quanto dinheiro já foi investido na Sala Branca?
Provavelmente nem centenas de milhões seriam suficientes. E, no fim, apenas eu alcancei o objetivo. Mais uma vez, não pude deixar de pensar no quão inútil aquilo parecia.
— E quanto aos melhores, os mais talentosos? Eles ainda estão por aí, certo? O que essas crianças estão fazendo agora? — perguntei.
Essa era uma parte que eu não conhecia. Eu nem conseguia imaginar o que meus colegas — aqueles da mesma geração que eu deixei para trás — estavam fazendo agora. Tsukishiro pareceu surpreso por um instante, mas entendeu imediatamente.
— Imagino que você não tenha como saber para onde foram as crianças que fracassaram e foram removidas da instalação. Seria reconfortante dizer que estão se desenvolvendo bem e contribuindo para a sociedade… não acha? Na realidade, a maioria apresentou diversos problemas. Em muitos casos, tornaram-se inúteis. Não conseguem suportar o ambiente, e suas mentes acabam quebrando — disse ele, com um ar de exasperação.
— Um controle e educação completos desde o nascimento… se isso fosse plenamente possível, o Japão alcançaria um crescimento sem precedentes. Mas não é tão simples assim. Curiosamente, o desenvolvimento de cada indivíduo varia drasticamente. No fim, não conseguimos educar todos da mesma forma com sucesso. Ainda assim, continuamos produzindo resultados sólidos. Aliás, nas gerações seguintes à sua — a quinta e a sexta — alguns dos sobreviventes floresceram e se tornaram indivíduos extremamente talentosos. Se esse sistema for aperfeiçoado, nas próximas décadas, a Sala Branca pode ser considerada um recurso indispensável. Os planos do seu pai são grandiosos… absurdos… e também bastante assustadores.
Ele explicou tudo com uma eloquência impressionante.
— Então… essas são minhas opiniões sobre a Sala Branca. É algo absurdo e assustador.
— Muito obrigado pela explicação detalhada. Aprendi bastante — respondi.
— O seu grupo era conhecido como a "quarta geração demoníaca". Os alunos abandonavam o programa um após o outro, incapazes de suportar o rigor extremo do treinamento… até restar apenas uma única criança, que concluiu todo o currículo sem dificuldade. Você também é uma amostra valiosa. Seria melhor voltar para casa antes que esse histórico brilhante seja manchado — disse Tsukishiro.
Então, ele tirou o celular e o estendeu em minha direção.
— Ligue para o seu pai agora mesmo e diga que vai abandonar a escola. Assim você preserva seu orgulho… e retribui o amor dele — acrescentou.
— Diretor interino Tsukishiro… é verdade que nada do que o senhor disse pode ser considerado mentira. Parece que me contou tudo com total honestidade — respondi.
Não apenas sobre a Sala Branca, mas sobre mim também. Tsukishiro sorriu amplamente, como se dissesse: "Claro, você está absolutamente certo".
— A impressão que tenho do senhor é a de alguém que usa uma máscara de ferro para esconder suas emoções. Mas, nesta conversa, parece que o senhor a retirou — continuei.
Em outras palavras, ele estava manipulando deliberadamente a impressão que passava, para tornar suas palavras mais convincentes. E, por isso mesmo… tudo soava falso. Alguém tão habilidoso quanto ele não precisaria misturar verdades e mentiras. Provavelmente tinha domínio total disso — capaz de fazer o preto parecer branco e o branco parecer preto. Ou seja, poderia dizer algo completamente falso… e ainda assim fazer parecer verdade.
— Parece que não consegui fazer você confiar em mim — disse Tsukishiro.
— Infelizmente — respondi.
— Ora, ora…
— Diretor interino Tsukishiro, não seria melhor parar por aqui e recuar? Se não conseguir me forçar a abandonar a escola, vai perder a confiança do meu pai. Acho que seria mais prudente recuar agora, mesmo que receba alguma repreensão. Caso contrário… vai acabar se envergonhando — falei.
— Agradeço sua preocupação. No entanto, isso é completamente irrelevante. Eu não vou falhar.
Tsukishiro exibiu um sorriso estranho. Mas não dava para saber o quanto daquilo era sincero.
— Além disso, eu sou um adulto. Não tenho medo de cometer um erro. Mesmo que, por acaso, você consiga escapar de mim… paciência. Eu apenas seguirei para o próximo trabalho. Vergonha não é algo tão importante assim — disse ele.
— Apesar de você temer meu pai e cooperar com ele, parece estranhamente tranquilo em relação ao fracasso. Quais são suas verdadeiras intenções? — perguntei.
— Quem sabe? — respondeu ele.
Tsukishiro provavelmente vinha lutando na linha de frente há décadas. Aquela "máscara de ferro" que imaginei antes talvez fosse ainda mais profunda do que eu pensava. Se ele tinha sido enviado por aquele homem, então definitivamente não era alguém que agia de forma leviana.
— Se não há como convencê-lo, então não tenho escolha. Vamos competir entre nós — disse Tsukishiro.
— Sim… acho que é isso mesmo — respondi.
Nesse ponto, Tsukishiro finalmente pareceu satisfeito, pois começou a se afastar.
— Vou me retirar agora. Seria falta de educação fazê-los esperar mais — disse ele.
Provavelmente estava se referindo às outras pessoas com quem estava antes.
— No entanto… devo dizer: se você não abandonar a escola por vontade própria, sua vida aqui ficará bastante difícil — acrescentou.
— Eu gostaria de viver em paz, mas acho que não tenho escolha. Estou preparado.
Tsukishiro continuou me encarando com um sorriso largo. Então, pouco antes de ir embora, fez uma proposta:
— Que tal jogarmos um jogo? Um em que você terá uma vantagem considerável.
— Um jogo?
— No início do novo semestre, vou trazer uma pessoa da Sala Branca para se matricular aqui como novo aluno — respondeu.
Eu me perguntava o que ele diria… Mas isso foi inesperado.
— Tem certeza de que pode me contar isso? — perguntei.
— Não há problema algum. Tenho certeza de que essa possibilidade já passou pela sua cabeça. Estávamos pensando em deixar essa criança responsável por lidar com você. Quando esse aluno descobrir quem você é, começará a trabalhar para expulsá-lo.
Então ele decidiu que nem precisava agir diretamente. Minha cautela não aumentou nem diminuiu. Guardei suas palavras na memória… mas não acreditei em nada.
— Você não parece acreditar. Está pensando que eu enviaria quatro ou cinco pessoas? A escola não é tão permissiva assim a ponto de eu poder infiltrar quantos quiser. Isso é absurdo — disse Tsukishiro.
— Seja uma pessoa ou cem, eu não acreditaria em uma única palavra sua — respondi.
Se ele realmente quisesse infiltrar alguém, tenho certeza de que daria um jeito. Eu sabia muito bem que ele era esse tipo de pessoa.
— Talvez você tenha razão.
— Mas como exatamente eu venceria esse jogo? — perguntei.
— No novo semestre, cento e sessenta e quatro novos alunos entrarão como calouros. Se você conseguir identificar qual deles é o aluno da Sala Branca antes do fim de abril, eu me retirarei de bom grado. O que acha? Não é uma oferta extraordinária? — disse Tsukishiro.
Se fosse verdade… de fato era uma proposta tentadora. Se Tsukishiro saísse de cena, isso reduziria bastante meus problemas.
— Acho isso difícil de acreditar — respondi.
— Pode desconfiar à vontade. Ainda assim, não há risco algum para você, certo? — disse ele.
Além do desgaste psicológico, realmente não parecia haver risco direto. Não havia desvantagem clara em aceitar.
— Tudo bem. Aceito o jogo, mesmo que seja apenas uma formalidade. No entanto, embora você pareça bastante confiante nas habilidades desse aluno da Sala Branca… há algo em que eu também tenho total confiança — respondi.
— Ah? E o que seria? — perguntou ele.
— Mesmo que o sapo no fundo do poço não conheça o oceano… ele conhece a profundidade do céu — respondi.
— Quer dizer… por ter vivido tanto tempo naquele mundo fechado da Sala Branca, você entende sua profundidade melhor do que qualquer um? — disse Tsukishiro.
Foi aquela educação peculiar da Sala Branca que me deu uma confiança inabalável. Não importa quantas outras crianças tenham passado pelo mesmo treinamento — nenhuma alcançaria o mesmo nível.
Seja alguém da terceira geração ou da quinta… O resultado seria o mesmo. Continuei falando, enquanto Tsukishiro me observava atentamente.
— Claro, existem pessoas superiores a mim neste mundo. Afinal, há bilhões de pessoas neste planeta. No entanto… dentro da Sala Branca, é diferente.
Não havia ninguém melhor do que eu naquele lugar. Essa era a única coisa da qual eu tinha absoluta certeza.
— Esses olhos… são iguais aos do seu pai. Olhos sombrios, profundos… assustadores. Essa profundidade é algo que nenhum outro aluno da Sala Branca consegue imitar, por mais talentoso que seja — disse Tsukishiro.
Talvez por perceber que continuar aquela conversa não levaria a nada… Tsukishiro simplesmente se virou e foi embora.
*
Depois de me separar de Tsukishiro, fiquei andando pelo Keyaki Mall por um tempo. Provavelmente não havia problema em ignorá-lo por enquanto. O verdadeiro problema era a Matsushita, que vinha se mantendo escondida e ocultando sua presença há algum tempo.
Mesmo que eu pudesse simplesmente ignorar, seria problemático se começassem a surgir rumores sobre mim e o diretor. Depois de confirmar que ela ainda estava me seguindo, decidi surpreendê-la.
Eu precisava descobrir por que ela estava me seguindo. Embora não parecesse provável, considerei a possibilidade de ela ter alguma ligação com Tsukishiro. Eu não sabia se ela me seguia desde o começo ou se começou no meio do caminho.
Só isso já era motivo suficiente para agir. O problema era onde falar com ela. Era quase meio-dia, perto do fim das férias de primavera, e o shopping estava lotado. Se eu fosse descuidado, chamaria atenção desnecessária. Então, decidi esperar o momento certo e resolver aquilo rapidamente.
Pelo menos havia um ponto positivo: Matsushita era da minha própria turma. Mesmo que alguém nos visse conversando, provavelmente pareceria algo normal. Virei a esquina rapidamente e me preparei para pegá-la de surpresa. Se ela não me seguisse, usaria isso como desculpa para agir. Pouco mais de dez segundos depois, Matsushita virou a esquina atrás de mim.
— Wagh?!
Ela claramente não esperava que eu estivesse esperando por ela e soltou um grito de surpresa. Se não estivesse me seguindo, não teria reagido assim.
— Precisa de alguma coisa comigo? — perguntei.
Ao ouvir minha pergunta, ela colocou a mão no peito, tentando acalmar o coração acelerado.
— Preciso? O que você quer dizer com isso? …Bom, era isso que eu ia dizer, mas acho que fui descoberta, né — respondeu.
Ela parecia ter percebido que uma desculpa esfarrapada não funcionaria. Mas o mais importante era: por que ela estava me seguindo?
Se quisesse apenas conversar, não precisava agir assim.
— É… então… eu estava te seguindo um pouco, na verdade, Ayanokoji — admitiu Matsushita, depois de confirmar que não havia ninguém por perto.
Nós não tínhamos muita proximidade. Quase nunca conversávamos. Mas, observando-a com atenção, percebi que ela era bastante cautelosa. E estava tentando me sondar… ao mesmo tempo em que evitava revelar seus próprios pensamentos.
— Por que você acha que eu estava te seguindo? — perguntou.
Aquilo não era uma pergunta simples. Era claramente um ataque psicológico. Ela queria arrancar alguma informação de mim.
— Não faço ideia. Sério, nenhuma. Mas, mais importante… quando você começou a me seguir? — retruquei.
Não tinha intenção de dizer quando percebi que ela estava me seguindo. Respondi à pergunta dela… com outra pergunta.
— Ah… faz pouco tempo. Tipo—
— Pouco tempo? — interrompi.
Cortei a fala dela antes que pudesse inverter a situação e começar a me questionar. Se eu desse abertura, ela perguntaria: "Quando você percebeu, Ayanokoji-kun?"
— Foi quando mesmo…? Ah, é. Quando você estava conversando com o novo diretor, acho — respondeu.
Ela admitiu que me viu com o diretor… mas misturou uma mentira. Logo depois, abaixou levemente os cantos da boca. Percebeu o próprio erro. Decidi dar uma abertura. Se tivesse dúvidas sobre minha relação com o diretor, ela inevitavelmente perguntaria.
— Então… eu vi você conversando com o diretor. Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— Parece que vão reformar o Keyaki Mall. Ele me viu por acaso e pediu minha opinião. Perguntou várias coisas, como que tipo de instalações eu gostaria de ver aqui — respondi.
— Ah… entendi… — disse Matsushita.
Ela havia mentido sobre quando me viu. Talvez tentasse usar alguma informação que tinha, mas acabou jogando contra si mesma. Se ela tivesse visto os operários com o diretor antes, minha explicação soaria convincente.
— Então, o que foi? — perguntei.
— Não é nada demais… é só que… fiquei curiosa sobre uma coisa — respondeu.
Depois disso, ela finalmente revelou o motivo.
— Na prova final… Ayanokoji-kun, você era o comandante, não era?
Pronto. Só com essa pergunta, entendi tudo.
— Na prova de cálculo mental rápido… a resposta que você deu foi a mesma que o Koenji deu — acrescentou.
Era difícil tratar isso como coincidência.
— Eu costumava fazer esse tipo de exercício no ensino fundamental, então sou relativamente bom nisso — respondi.
— Eu também fazia. Mas o seu nível não é só "relativamente bom". Acho que você está no nível de competições nacionais — disse Matsushita imediatamente. Parecia que ela não tinha gostado de eu ter cortado o assunto antes.
— É só algo em que sou naturalmente bom. Para ser sincero… eu já participei de competições nacionais — respondi.
— Sério? — perguntou ela.
— Sim. Só aconteceu de ser uma prova em que eu sou bom. Acho que foi isso que te deu uma impressão errada, Matsushita.
— Mas, nesse caso, você não deveria ter dito isso antes? — retrucou ela.
— É… você tem razão. Mas você sabe como eu sou, né? Não sou o tipo de pessoa que se levanta e se impõe na frente da turma. Eu só fui um comandante improvisado… e ainda por cima consegui aquele Ponto de Proteção por pura coincidência. Além disso, estávamos enfrentando a Classe A, a Sakayanagi. Mesmo sendo bom em cálculo mental rápido, eu estava preocupado, porque não sabia até onde isso me levaria.
Falta de autoconfiança = falta de habilidades sociais. Era essa a impressão que meus colegas tinham de mim.
— Isso… bom, acho que faz sentido — disse Matsushita.
Apesar de achar minhas palavras plausíveis, ela não se deu por satisfeita e avançou mais um passo.
— Sabe… eu vi você. Você e o Hirata-kun. Vi vocês conversando no banco, Ayanokoji-kun.
Ela provavelmente estava falando daquela vez em que conversei com o Hirata durante a votação da turma. Eu não tinha como saber que alguém estava observando. Mas também não era algo para se preocupar.
— Fiquei longe porque achei que você perceberia se eu me aproximasse. Mas… tive a impressão de que ele estava chorando — disse Matsushita.
Então, com base nisso e no que aconteceu na prova de cálculo mental, ela juntou várias peças. As intenções dela começaram a ficar claras. Pelo comportamento e pela forma de falar, dava para concluir que ela não tinha nada a ver com Tsukishiro.
— Não foi coincidência o Hirata-kun ter voltado ao normal no dia seguinte, foi? — perguntou ela.
Eu achava que ela era apenas uma aluna comum… Mas ela era surpreendentemente perspicaz. O que me intrigava era o fato de ela ter vindo falar comigo diretamente. Não parecia algo impulsivo.
Talvez fosse curiosidade… Mas havia algo mais. Pelos pequenos gestos dela, ficou claro que estava blefando. Ou seja, tinha outro objetivo. Ela já tinha decidido antes vir falar comigo. Provavelmente só aproveitou a oportunidade de me ver sozinho no shopping.
— Se juntarmos tudo… sua habilidade em cálculo mental, sua velocidade no festival esportivo e o fato de você ter ajudado o Hirata-kun… parece que você está se segurando. Não está, Ayanokoji-kun? Você é muito mais capaz do que demonstra, tanto nos estudos quanto nos esportes — disse Matsushita.
Ela veio até mim com esse propósito. Queria confirmar suas suspeitas. Era completamente diferente da imagem que eu tinha dela até então. Percebi isso cedo e decidi ir direto ao ponto.
— Você quer que eu ajude a turma porque quer chegar à Classe A, não é? — perguntei.
— Então você admite? — respondeu ela.
Matsushita pareceu levemente desconcertada com a facilidade com que confirmei.
— Digamos que… talvez eu esteja me segurando, sim.
— Por quê? Não é melhor manter boas notas nesta escola? — perguntou ela.
Agora que achava ter vantagem, começou a me pressionar com perguntas.
— Acho que… é porque não gosto de chamar atenção. Quer dizer, mesmo que você seja apenas razoavelmente bom nos estudos, acaba tendo que ajudar outros alunos, não é? Eu não sou bom lidando com isso. E com esportes é a mesma coisa — respondi.
— Entendo…
Matsushita também parecia esconder algo, assim como eu. Talvez por isso tenha sentido uma certa identificação. Ela acreditou no que eu disse.
— Eu quero que você contribua com a turma daqui pra frente. Se você tem habilidade, quero que mostre isso. Para que nossa classe continue vencendo. Se suas capacidades forem reais e você tiver qualidades de liderança, não tenho problema algum em te apoiar, Ayanokoji-kun.
Em resumo, ela queria a mesma coisa que a Horikita. As duas diziam que, se alguém tem habilidade, então deve usá-la.
— Bem… eu já estava pensando em fazer exatamente isso — respondi.
— Hã?
Ela provavelmente não esperava que eu aceitasse cooperar tão facilmente, pois deixou escapar essa reação.
— Mas não crie expectativas altas demais. Eu já estou mostrando uns setenta ou oitenta por cento do que posso fazer. Para ser sincero, mesmo que desse o meu máximo, ainda não chegaria ao nível do Hirata, seja nos estudos ou nos esportes — continuei.
Por enquanto, deixei de lado como pretendo viver nesta escola daqui em diante. Agora, o mais importante era convencer a Matsushita… ao menos até certo ponto. Ao admitir que escondo minhas habilidades, passo a impressão de que não há mais segredos. E, claro, não mencionei em nenhum momento que suspeito que ela também esconde suas próprias capacidades.
Naturalmente, isso a faria acreditar que estava em vantagem nesse jogo psicológico.
— Espera… você disse setenta ou oitenta por cento, mas… isso é verdade? — perguntou ela.
Ela não tinha informações suficientes para comparar meu nível com o do Hirata. Mas fez a pergunta para testar minha sinceridade.
— É — respondi.
Ela assentiu novamente, mas claramente não estava totalmente convencida.
— E sobre a Karuizawa-san? — perguntou.
— Do que você está falando? — retruquei.
— Sobre você ter alguma ligação com o término dela com o Hirata-kun, Ayanokoji-kun.
— E de onde veio essa informação?
— É só uma intuição… algo que percebi. Tenho certeza de que existe alguma conexão.
Pelo visto, ela investigou bastante. Não seria fácil convencê-la. Aquela confiança dela aparecia e desaparecia ao longo da conversa.
— Por que a Karuizawa-san te vê como alguém especial… a ponto de terminar com o Hirata-kun? Me diga o motivo.
— O motivo, é…
Basicamente, se eu fosse inferior ao Hirata, ela não conseguia entender as ações da Karuizawa.
— Vai dizer que ela não te vê como alguém especial? — perguntou.
— Acho que pode ser que veja — respondi.
Ao ouvir isso, ela assentiu levemente, parecendo parcialmente satisfeita.
— Eu sabia. Você realmente é muito mais—
— Não… acho que você está entendendo tudo errado, Matsushita.
— Errado? Estou te perguntando isso porque tenho provas.
— Bem… é verdade que eu e a Karuizawa temos uma relação meio incomum.
— É isso que eu quero saber. Suas verdadeiras habilidades, Ayanokoji-kun.
— Bem… isso é—
— Você não vai me contar, mesmo depois de tudo que já disse até agora? — perguntou.
— Não é isso. Como eu explico… é difícil colocar em palavras.
Hesitei várias vezes, desviando o olhar para longe. Mas, com a pressão dela, não tive escolha.
— Não é tão difícil assim, na verdade… mas… acho que é simplesmente porque eu tenho alguns sentimentos pela Karuizawa e contei isso pra ela. Então, provavelmente é só isso — ela acaba ficando mais consciente da minha presença… não é que ela me veja como alguém especial ou algo assim — respondi.
— Hã…?
— Hã?
Trocamos olhares.
— Então a Karuizawa-san não percebeu suas habilidades e te achou especial por causa disso, Ayanokoji-kun?
— Não tem nada a ver com isso.
— Mas… mesmo assim, não consigo imaginar que ela te veja como especial só porque você gosta dela — disse ela.
Aproximei-me da Matsushita e coloquei as mãos em seus ombros. Ela claramente não esperava por isso, e seus olhos se arregalaram em surpresa. Olhei diretamente nos olhos dela e disse:
— Eu gosto de você, Matsushita. Quero sair com você.
— Hã?!
Por um instante, Matsushita deve ter entrado em completo pânico. Soltei imediatamente os ombros dela.
— Se alguém dissesse algo assim para você, não ficaria na sua cabeça depois, sendo algo bom ou ruim? — perguntei.
— V-Você estava brincando… entendi… certo…
Ao fazê-la passar por isso diretamente, ela mesma preencheria as lacunas depois. Quando alguém do sexo oposto diz seriamente que gosta de você, é natural que você passe a se tornar mais consciente dessa pessoa — a menos que seja alguém de quem você realmente não gosta.
— Acho que foi só coincidência ela e o Hirata terem terminado. Eu contei o que sentia por ela depois disso — expliquei.
Como eu nunca tinha dito algo assim para a Karuizawa, Matsushita não tinha como verificar a ordem dos acontecimentos.
— Entendi. Então foi isso que aconteceu. Desculpa por ter te seguido.
— Eu tenho um pedido. Sobre a Karuizawa—
— Eu entendo. Não vou sair contando isso para ninguém.
Não posso dizer com certeza que ela acreditou completamente em tudo o que falei. Mas, por enquanto, isso bastava. Era exatamente esse o nível de informação que eu pretendia dar. Também não acredito que ela sairia falando sobre mim e a Kei para outras pessoas.
Afinal, isso só a colocaria em desvantagem — já que poderia me irritar e fazer com que eu deixasse de cooperar.
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