Ano 1 - Volume 11.5
Capítulo 4: De Irmão Mais Velho para Irmã Mais Nova
NO DIA SEGUINTE, 31 de março, também foi um dia bastante especial para mim. Sim — foi o dia em que Horikita Manabu partiu. O horário que havíamos combinado para nos encontrar era exatamente ao meio-dia. Como de costume, adiantei minhas coisas e cheguei cedo ao portão principal. Ele provavelmente não contou aos outros kouhai que iria embora hoje, porque não havia mais ninguém por ali além de mim.
De vez em quando, enquanto esperava os outros chegarem, olhava para os alunos que seguiam em direção ao Keyaki Mall, ao longe. Pensando bem, eu havia entrado nesta escola por esse mesmo portão há um ano, não é? Era um lugar do qual eu frequentemente passava perto, mas nunca realmente atravessava a pé. Havia ocasiões em que passávamos por ele de ônibus, para atividades especiais e exames, mas fora isso, a única forma de cruzar aquele portão era ao se formar ou ser expulso. E, como não existia um sistema para repetir o ano, inevitavelmente veríamos essas situações acontecerem durante nossos três anos aqui.
— Sinto que tenho pensado nisso o tempo todo ultimamente — murmurei para mim mesmo.
Agora que estávamos prestes a entrar no segundo ano, eu vinha refletindo cada vez mais sobre meu estado atual.
Foi então que, cerca de vinte minutos antes do horário combinado, Horikita Manabu chegou. Depois de confirmar que era eu, ele deu uma rápida olhada ao redor. Nem precisei perguntar o que ele procurava.
— Infelizmente, sua irmã ainda não chegou — informei.
— Parece que não — respondeu ele.
Naquele momento, eram por volta de 11h40. Ela certamente não estava atrasada — nem de longe. Ainda assim, considerando o pouco tempo que restava, teria sido melhor se tivesse chegado mais cedo. Lembrei-me de quando Horikita Suzune e eu nos encontramos com Ichinose Honami outro dia. O fato de ela ter chegado ao local com bastante antecedência ainda estava fresco na minha memória. Será que havia se envolvido em algum tipo de acidente?
— Acho que devo tentar ligar para ela rapidamente — sugeri.
Imaginei que, se eu fizesse a ligação, o irmão da Horikita aceitaria a ideia sem dificuldade. Foi o que pensei, mas…
— Não, não é necessário.
Ele recusou minha proposta, interrompendo-me gentilmente com a mão.
— Se ela tivesse caído ou algo do tipo, teria nos avisado antes — justificou.
— Pode ser que ela só esteja dormindo demais — comentei. Era bem improvável, mas achei melhor mencionar a possibilidade.
— Se for esse o caso, então não há necessidade de acordá-la — respondeu.
Ou seja, se ela fosse capaz de dormir demais em um dia tão importante, então já não valeria mais o tempo dele, hein? Mesmo sendo a última chance de se encontrarem, sua postura permanecia a mesma de sempre.
— Bem, não há com o que se preocupar. Ainda temos bastante tempo até o horário marcado.
Também consegui imaginar com facilidade que ela estivesse sentada no quarto, nervosa, até o último minuto possível, já que iria se encontrar com o irmão mais velho.
— Deixando Suzune de lado, não esperava que você tivesse chegado tão cedo — disse Manabu.
— De alguma forma, tive a sensação de que você também chegaria cedo — respondi.
Havíamos combinado de nos encontrar ao meio-dia. Claro, ainda havia bastante tempo até a partida do ônibus. Mas aquele seria um adeus definitivo. Tenho certeza de que ambos os irmãos Horikita esperavam ter muito a conversar. E, de fato, Manabu havia chegado vinte minutos antes. A única coisa que nem ele nem eu esperávamos era a ausência da própria Horikita, que deveria ser a figura central daquele encontro.
De qualquer forma, como ela não estava ali, só nos restava conversar entre nós dois. Seria um desperdício completo passar o tempo em silêncio. Depois de pensar por um momento, abri a boca para falar, mencionando algo que vinha me incomodando ultimamente.
— Me desculpe. Eu provavelmente deveria ter feito um pouco mais por você em relação ao conselho estudantil — disse a ele.
Horikita Manabu havia vindo falar comigo para encontrar uma forma de impedir Nagumo Miyabi de agir livremente. No entanto, na época, eu não pude aceitar seu pedido com entusiasmo, pois desejava uma vida mais tranquila com muito mais força do que agora. Assim, para estabelecer uma conexão, ele me apresentou ao vice-presidente Kiriyama, mas foi só até aí que as coisas avançaram. No fim, cheguei até este momento — até hoje — sem colocar em prática nenhum plano envolvendo Kiriyama.
— Tudo sempre foi responsabilidade minha. Foi errado tentar impor isso a você. Não se preocupe com isso — disse Horikita Manabu.
Para ele, aquela escola já era coisa do passado. Agora estava em uma posição confortável, onde nem precisava mais se preocupar com o que aconteceria ali no futuro.
— Mas, ainda assim, deixe-me dar um último aviso. Eu, em geral, vejo as políticas desta escola como fundamentalmente positivas e tendo a concordar com elas. Embora a escola seja baseada na ideia de meritocracia, ela deixa espaço suficiente para que as classes de nível mais baixo possam vencer. Claro, não é uma disputa fácil — disse Horikita.
— Não acho esse argumento muito convincente, considerando que você esteve na Classe A durante três anos seguidos — respondi.
— Mas também se pode dizer que isso acontece porque muitas pessoas ainda não compreenderam a verdadeira natureza das coisas. É verdade que há vários pontos em que a escola pode melhorar. No entanto, olhando em retrospecto, você deve conseguir entender algo. Seja no exame da ilha desabitada ou na prova final de fim de ano, sempre existem oportunidades para que as classes inferiores superem as superiores — disse Horikita.
Não se tratava apenas de provas escritas. Nos exames especiais, outros fatores precisavam ser levados muito em conta. Por exemplo, no exame da ilha desabitada, não seria tão difícil derrotar a Classe A ou a Classe B apenas se unindo e demonstrando cooperação. O mesmo valia para as provas de fim de ano. Embora fosse um exame em que a sorte desempenhava um papel enorme, também provava que havia possibilidade de as classes inferiores vencerem.
— A sorte desempenha um papel importante na vitória ou derrota. Isso é necessário para que alunos do primeiro ano, ainda inexperientes e imaturos, tenham uma chance contra classes mais avançadas. No entanto… isso também é algo difícil de aceitar para as classes superiores. É um elemento que provavelmente desprezariam — disse Horikita.
As concessões da escola para os alunos das classes inferiores certamente gerariam insatisfação entre os das classes superiores. Deixando de lado o caso especial de mudança de classe por meio do acúmulo de vinte milhões de pontos privados, o sistema da escola funcionava tratando cada classe como uma unidade fundamental — e, além disso, não abandonava os alunos menos capazes. Em todas as turmas, há alunos excelentes que se destacam e outros que têm dificuldades, mesmo nos níveis mais baixos.
Imagino que Nagumo Miyabi tenha passado por um ano enfrentando exames como os nossos e, então, elaborado uma ideia. Ele queria criar um sistema ainda mais meritocrático, que permitisse aos indivíduos ascenderem por sua própria força. Um sistema onde os que estão no topo continuariam subindo e os que estão embaixo continuariam caindo.
— O que o Nagumo está tentando fazer não é necessariamente errado — respondi.
Embora alguns alunos do nosso ano pudessem estar insatisfeitos com o que ele fazia, ao mesmo tempo havia muitos que concordavam. E, no caso dos alunos do segundo ano, podia-se dizer que a maioria apoiava Nagumo. Claro, isso provavelmente não era apenas porque eram pessoas naturalmente concordantes.
Tenho certeza de que muitos não tiveram escolha a não ser aceitar, levados pela situação ao redor. Se todos buscassem se destacar, então todas as classes precisariam competir ferozmente.
— Existe uma diferença muito grande entre as classes do segundo ano? Quero dizer, em termos de pontos de classe — perguntei.
— Sim. A Classe A, à qual Nagumo pertence, tem mil quatrocentos e noventa e um pontos em março. A Classe B tem oitocentos e oitenta e nove pontos. A Classe C tem duzentos e oitenta pontos. E a Classe D tem setenta e seis pontos — respondeu Horikita.
Considerando que eles tinham apenas mais um ano restante, isso significava que a Classe A já estava praticamente garantida como vencedora. Mesmo assim, Nagumo ousava propor algo que poderia salvar as classes inferiores. De fato, com apenas setenta e seis pontos, era quase impossível para a Classe D reverter a situação.
— Há muitas pessoas que concordam com ele. Se não têm como vencer como classe, então a única forma de chegar à Classe A é se apoiar em um sistema onde indivíduos possam subir sozinhos — argumentei.
— Pode ser que você esteja certo. Mas a forma como Nagumo faz as coisas deixaria muita gente infeliz — disse Horikita.
Se o sistema se tornasse excessivamente meritocrático e individualista, a suspeita e a desconfiança cresceriam até mesmo entre colegas de classe. Era possível que todos ao seu redor se tornassem seus inimigos.
O irmão da Horikita — não, Horikita Manabu — ainda acreditava firmemente que a cooperação do grupo, das classes, era absoluta. Mais do que isso, acreditava que era uma estrutura pensada para o futuro.
— Mas não seria a mesma coisa com o sistema atual? Todas as três classes, exceto a Classe A, acabam insatisfeitas — retruquei.
Eu só conseguia imaginar como seria o sistema ideal de Nagumo Miyabi, mas, se um sistema que permitisse aos indivíduos ascender por conta própria fosse implementado, talvez trouxesse um certo alívio — um diferencial — para turmas com quarenta alunos ou menos.
— Por exemplo—
Mas, no momento em que eu ia continuar, Horikita Manabu me interrompeu:
— Reunir todos os pontos privados dos alunos da Classe B para baixo e usá-los para disputar quem consegue subir para a Classe A. Algo assim.
Ele pensou exatamente na mesma coisa que eu. Assenti em resposta. Sem considerar alunos expulsos, o número total de estudantes entre a Classe B e a Classe D era de cento e vinte pessoas. Se juntassem todos os pontos privados deles, provavelmente ultrapassariam com folga vinte milhões. Talvez até chegassem a quarenta ou sessenta milhões.
Claro, nem todos aceitariam participar dessa aposta. Embora eu não saiba como o sistema possa ter mudado, até pouco tempo atrás existia um mecanismo que permitia converter pontos privados em dinheiro ao se formar. Tenho certeza de que havia alunos que não se importariam em se formar na Classe D, desde que recebessem esse dinheiro.
Ainda assim, os estudantes que conseguissem cumprir os requisitos e reunir a quantidade necessária de pontos deveriam considerar essa aposta. Mesmo que não pudessem vencer como classe de qualquer forma, não seria uma má ideia tentar um último risco. Além disso, assim mais alguns alunos poderiam alcançar a Classe A. Quanto maior fosse a diferença de pontos de classe entre a Classe A e as inferiores no seu ano, mais viável essa última chance se tornaria.
— Ninguém discutiu isso no seu ano? — perguntei.
— Eu estaria mentindo se dissesse que não discutiram. Mas ninguém realmente colocou em prática. Como a Classe A e a Classe B estavam competindo de forma muito equilibrada, a Classe C e a Classe D não tinham pontos suficientes para tornar isso viável — respondeu Horikita.
Lembrei-me de um aluno do terceiro ano da Classe D com quem tive contato quase um ano atrás, alguém que parecia desesperado por pontos. Quando você continua perdendo, fica cada vez mais difícil acumular pontos de classe. E, se acaba preso numa situação em que passa mês após mês com zero pontos, entra numa espiral descendente.
— Se fosse só isso, ainda não haveria impacto. No entanto, Nagumo pretende levar a situação ao extremo, criando um verdadeiro caos — algo que envolverá até a própria Classe A. Em outras palavras, ele pretende colocar até os próprios aliados em risco.
Isso significava que alunos da Classe A com habilidades mais limitadas poderiam acabar ficando para trás. Era bem provável. Se apenas a Classe A estivesse completamente segura, ninguém aceitaria a proposta de Nagumo de tornar o sistema mais meritocrático. Todas as classes, da A à D, seriam colocadas em condições iguais.
— Não sei até onde ele pretende ir, mas, mesmo assim, é uma decisão que exige coragem — comentei.
— Ele está entediado. Entediado com a situação atual, onde sua vitória já está garantida. Provavelmente é por isso que está fazendo tudo isso. O motivo de ele ter entrado no conselho estudantil, desde o início, foi basicamente para passar o tempo — disse Horikita.
Se ele tinha habilidade e também o apoio dos outros, então ninguém realmente tinha o direito de reclamar.
— A classe é um todo, onde todos estão no mesmo barco. Todos compartilham o mesmo destino. Não acho que devamos ultrapassar esse princípio — disse Horikita.
— É por isso que você não pode concordar com a forma como Nagumo faz as coisas — respondi.
Embora não tenha assentido diretamente, o irmão da Horikita parecia aceitar o que eu disse. Eu entendia o ponto dele, mas não dava para afirmar com certeza quem estava certo. E, além disso…
— Por enquanto, pretendo observar o que o Nagumo está tentando fazer. Se ele vai transformar nosso ano — não, a escola inteira — em um ambiente mais meritocrático, então não posso rejeitar isso sem antes experimentar esse ambiente — disse a ele.
Decidi simplesmente dizer o que faria, sem mentiras.
— Entendo. Você vai alcançar alturas ainda maiores do que eu alcancei — disse Horikita.
— Você me superestima demais — respondi.
Além disso, eu não tinha nem a disposição nem os meios para impedir Nagumo naquele momento. Nesse caso, não era má ideia observar o mundo que ele estava tentando criar. Eu consegui gravar firmemente na memória este último ano — o ano que o irmão da Horikita havia protegido.
— Eu realmente não sou alguém tão incrível quanto você pensa — acrescentei.
— Bem, sinto dizer, mas não acho que isso seja verdade — respondeu ele.
Horikita Manabu rejeitou firmemente minha modéstia.
— De qualquer forma, parece que a avaliação que você tem de mim não piorou nem um pouco — comentei.
— Se houvesse algo que pudesse piorá-la, já teria piorado — respondeu Horikita Manabu.
Pensando bem, ele praticamente não mudou sua opinião sobre mim durante quase um ano inteiro. Independentemente do que soubesse ou deixasse de saber, esse padrão não se alterava.
— Ainda assim, não consigo entender. O que exatamente em mim você acha tão digno de elogio? — perguntei.
A única informação que ele tinha sobre mim — diferente da dos outros alunos — vinha daquela pequena luta que tivemos, quando tentei impedi-lo de ir longe demais e machucar sua irmã. Além disso, ele conhecia minhas notas de admissão, que, francamente, eram uma piada. Fora isso, o que ele sabia era bem superficial: que eu corria rápido, como demonstrado quando competi com ele no revezamento. Ele não sabia realmente do que eu era capaz em termos acadêmicos ou esportivos.
— Consigo perceber o talento de alguém, até certo ponto, por meio dos meus próprios sentidos e intuição — disse Horikita.
Ou seja, nada concreto — apenas uma percepção abstrata, hmm. Ainda assim, era impressionante que ele conseguisse me avaliar tão profundamente dessa forma.
— Então, exatamente como eu pareço para você, com esses sentidos ou seja lá o que for? Gostaria de saber, como um presente de despedida — pedi.
Fiquei curioso, então resolvi perguntar. Na verdade, queria comparar a avaliação dele comigo com a que eu fazia de mim mesmo. Tenho certeza de que o irmão da Horikita me daria uma resposta direta, sem filtros desnecessários.
— Muito bem. Pelo que vejo, você é…
Horikita Manabu fez uma breve pausa, como se estivesse revisitando mentalmente o último ano em que me observou.
— Com base em tudo que vivi até agora, você é alguém que foge completamente do que consigo prever. Não importa de que ângulo eu tente analisá-lo, não encontro falhas. Não acho que nada funcionaria contra você. Não acredito que conseguiria lidar com você pela força bruta, como em termos físicos. Sem falar em estratégia ou engenhosidade. De todas as pessoas que já conheci, você é a última com quem eu gostaria de lutar — disse Horikita.
Era uma avaliação extremamente generosa — ainda mais considerando que vinha apenas da intuição dele.
— Então isso quer dizer que você está levantando a bandeira branca? Que se rendeu completamente a mim? — provoquei.
— Isso é outra questão. Mesmo diante de alguém aparentemente perfeito, sempre existe uma chance de vitória — respondeu Horikita.
Senti um leve alívio ao ouvir isso.
— Nesta escola, isso é ainda mais verdadeiro: todos competem como Classe A, como um grupo. Por mais extraordinário que seja o indivíduo, há um limite — acrescentou.
— É verdade. E é exatamente por isso que acho tudo isso interessante — respondi.
— Ayanokoji. Em que tipo de ambiente você foi criado? Tenho certeza de que suas habilidades não surgiram por acaso. E também não são o tipo de coisa que se adquire facilmente só porque sua família contratou bons tutores — disse Horikita.
— Você também não cresceu em uma família comum, não é? — retruquei.
Se ele era um aluno de elite, alguém que chegou ao topo até como presidente do conselho estudantil, certamente sabia como alcançar esse nível.
— Não é como se eu tivesse estado no topo desde o início. Houve momentos em que tive dificuldades, em que avancei muito pouco. Mas trabalhei incansavelmente apesar disso. Desde a infância até agora — e continuarei assim — disse Horikita.
O irmão da Horikita afirmava que havia chegado onde chegou graças ao acúmulo de todo o esforço que fez.
— Bem, se eu tivesse que encaixar minha resposta nesse mesmo raciocínio… talvez eu tenha me esforçado ainda mais do que você — respondi.
— Talvez — disse Horikita.
Para superar aqueles que se esforçam, é preciso se esforçar ainda mais. Não era a resposta para tudo, mas certamente era uma resposta possível. Então, Horikita Manabu tirou o celular. Ele me mostrou a tela, onde havia um número de telefone. Em seguida, mudou a tela e exibiu outro número.
— Memorize estes dois números. O primeiro é o meu. O outro é da Tachibana. Se tiver algum problema depois de se formar, sinta-se à vontade para entrar em contato conosco a qualquer momento. Se não conseguir memorizar agora, pode anotar. Mas certifique-se de apagar depois — disse ele.
O contato com pessoas de fora da escola era proibido, até mesmo por telefone. Se eu anotasse descuidadamente aqueles números e deixasse um registro, isso só me traria desvantagens. Assenti, indicando que não havia problema, e memorizei os dois números de onze dígitos.
Pessoalmente, não conseguia imaginar um dia em que realmente ligaria para qualquer um deles, mas não havia mal nenhum em guardá-los na memória.
— Ah, é mesmo. Ainda não perguntei… Para onde você vai agora, depois de se formar? — questionei.
Considerando que ele também havia me dado o número da Tachibana, imaginei que continuariam mantendo contato após a formatura.
— Sobre isso—
Quando Horikita Manabu estava prestes a responder, interrompeu a própria fala e conferiu o horário no celular.
— Vamos continuar essa conversa depois que você se formar. Já está quase na hora do nosso encontro — disse Horikita.
Já era quase meio-dia — o horário em que encontraríamos sua irmã mais nova. No entanto, ela não estava em lugar algum. Embora a expressão dele permanecesse inalterada, como sempre, havia algo na situação que me causava uma leve tristeza.
— Talvez seja melhor eu tentar ligar para ela — sugeri.
Não conseguia imaginar que ela simplesmente deixaria de aparecer por não cumprir promessas. Mesmo que não tivesse dormido demais, era plausível pensar que algo poderia ter acontecido.
— Não… melhor não — respondeu ele.
Mesmo que tivesse acontecido algo com ela, parecia que a posição do irmão era não ligar de qualquer forma. Ainda assim, considerando o histórico deles, eu sabia bem que não era por falta de consideração.
— Você não precisa ser tão teimoso. De vez em quando, não faria mal nenhum você mesmo procurá-la — comentei.
— Tenho receio de que, ao demonstrar esse tipo de emoção, mesmo que momentaneamente, eu acabe atrapalhando o crescimento dela. Se ela se atrasou por causa de algum acidente, tudo bem. Mas, se ela decidiu que não me encontrar é algo que a fará crescer, então entrar em contato seria apenas um obstáculo para ela — disse Horikita.
— Crescer sem te ver? Você realmente acha que ela chegaria a essa conclusão? — perguntei.
— Isso cabe à Suzune decidir.
Mesmo sem dizer diretamente, ele deixava claro que aquilo não era assunto para alguém de fora interferir.
— Ainda assim, não consigo imaginar você sendo indulgente com ela desse jeito.
— Eu apenas determinei em quais situações posso ser indulgente — respondeu Horikita.
Então ele achava que aquele era exatamente o momento certo para isso. Já passava um minuto do meio-dia. Pensei que ele começaria a atravessar o portão principal imediatamente, mas ele ainda não se moveu. Embora não parecesse, aquilo também podia ser visto como uma pequena forma de indulgência.
— Há outra coisa que quero confirmar com você. Quero que me dê uma resposta. Considere isso como um presente de despedida pela minha formatura — disse Horikita, voltando o olhar para mim.
Diante da consideração que ele demonstrava por sua irmã naquele momento final, decidi corresponder e assenti.
— Se for algo que eu possa responder, claro — disse.
Provavelmente, assim que essa conversa terminasse, ele seguiria pelo portão.
— Por que você passa seus dias escondendo suas habilidades? — perguntou.
Não era como se eu não esperasse esse tipo de pergunta, mas ele foi direto ao ponto.
— Acho que é simplesmente porque não gosto de me destacar — respondi.
— Pretende continuar assim, mesmo que isso signifique esconder quem você realmente é? — perguntou.
— Não sei dizer. Nunca pensei tanto sobre isso — respondi.
Quando vim para esta escola, só queria viver como um aluno comum. No entanto, ao ouvir aquela pergunta, acabei tendo algumas dúvidas.
— Decidi viver como um estudante normal, comum. Do tipo que você encontraria em qualquer lugar. Embora as coisas tenham tomado vários rumos até agora, e tenha havido momentos em que precisei agir — acrescentei.
— Pretende continuar assim no futuro? — perguntou.
— Não faço ideia. Tenho chamado cada vez mais atenção ultimamente. Talvez comece a levar as coisas um pouco mais a sério — respondi.
Sendo sincero, havia muitas coisas que eu ainda não entendia, mas falei exatamente o que sentia naquele momento. Fiquei me perguntando como Horikita reagiria.
— O que eu conquistei nesta escola? Do que fui capaz? É nisso que tenho pensado ultimamente — disse ele, lançando um breve olhar para o prédio da escola ao longe. — Dei tudo de mim? Ainda havia espaço para crescer? Esse tipo de coisa.
Ou seja, ele viveu de uma forma quase oposta à minha. E foi exatamente por isso que chegou ao topo, tornando-se até presidente do conselho estudantil.
— Faz sentido viver aqui nessa escola mantendo-se nas sombras? — perguntou.
— Bem, se for algo que faz sentido para mim — viver tranquilamente — então não acho errado agir assim.
— Talvez você tenha razão. Mas você não veio para esta escola também para deixar algo para trás? Para marcar sua presença? Se for esse o caso, acho que deveria se esforçar ao máximo para causar o maior impacto possível — respondeu ele.
— Deixar algo para trás… Isso é algo que só pessoas brilhantes como você conseguem fazer.
Recusei a ideia de deixar minha marca, mas ele não pareceu convencido.
— Se não puder deixar sua marca na escola, então deixe nos alunos. Eles provavelmente nunca esqueceriam — as memórias da pessoa chamada Ayanokoji Kiyotaka, gravadas em suas mentes.
Gravar minha existência na mente de outra pessoa… eu nunca tinha pensado em algo assim antes.
— Agradeço por você ter ajudado minha irmã a amadurecer. Mas, ao longo deste último ano, passei a entender bem que você não é o tipo de pessoa que se contenta apenas com isso. Você está escondendo a força de um gigante. Por isso… peço que não me decepcione — disse Horikita Manabu.
Era como um conselho firme, quase uma advertência, tanto como ex-presidente do conselho estudantil quanto como meu senpai na escola.
— Se você pretende buscar a si mesmo enquanto continua se reprimindo, então torne-se alguém que permanecerá na memória das pessoas ao seu redor durante esses três anos — acrescentou.
— Alguém que ficará na memória dos outros, é? Mas posso acabar sendo expulso no segundo ou terceiro ano — respondi.
— Mesmo que, por algum acaso, você esteja destinado a ser expulso antes do fim do terceiro ano, ainda pode permanecer na memória das pessoas. Se ao menos um aluno puder olhar para trás, para os três anos que passou aqui, e ficar feliz por Ayanokoji Kiyotaka ter estado lá, então isso já pode ser considerado uma conquista — disse Horikita.
Ao ouvir isso, reforçando seu ponto, senti suas palavras se infiltrarem lentamente no meu coração.
— Entendo… vou pensar sobre isso — respondi.
Era a melhor resposta que eu podia dar naquele momento.
— Ótimo. A resposta não virá de mim. Virá de você, Ayanokoji.
O conselho estudantil liderado por Nagumo Miyabi. A irmã mais nova dele. A escola. No fim, sou eu quem tomará decisões sobre tudo isso. O mundo está cheio de coisas que ajudam no crescimento. Onde quer que se olhe, há pistas que podem levar ao aperfeiçoamento.
Acho que era isso que eu estava fazendo naquele momento, conversando com o irmão da Horikita daquela forma. Vivendo discretamente nesta escola, mantendo-me nas sombras, ainda assim eu deixaria algo para trás — minhas memórias. Apenas lembranças aleatórias que poderiam ser consideradas agradáveis. No início, isso me bastava.
Foi exatamente por isso que vivi de forma tão discreta durante o último ano. Mas talvez essa não fosse a resposta. O simples fato de ter vindo para esta escola também tem um significado. Isso mesmo.
— Desculpe, acabei ficando meio discursivo no final. Peço desculpas — disse Horikita.
— De forma alguma. Na verdade, como seu kouhai, acho que foram as melhores palavras que eu poderia ter ouvido do meu senpai — respondi.
Vou sentir um pouco de solidão quando você for embora… pensei em dizer, mas me contive.
— Hm… parece que mostramos um lado de nós mesmos que normalmente não mostramos — comentou ele.
Havia coisas que podíamos discutir justamente por entendermos a distância entre nós. E também havia coisas que compreendíamos sem precisar colocar em palavras.
— Bem, acho que já devo ir — disse Horikita, como se tivesse percebido que sua irmã não apareceria, agora que já passava das 12h10.
Então, com um leve pesar, ele olhou na direção dos dormitórios do primeiro ano. A ausência da irmã, que deveria estar ali, era algo que ninguém poderia ter previsto. Seria essa a sua resposta, Horikita? Não pude deixar de me perguntar. Era inegável que a relação entre aqueles irmãos era complicada.
Ainda assim, tenho certeza de que eles passaram anos enfrentando dificuldades para tentar mudar essa relação. E, justamente naquele momento, deveriam estar prestes a chegar a uma resposta.
Levei a mão ao celular no bolso. Deveria forçar a situação e trazê-la até aqui? Mesmo que fosse só por um instante… se isso ajudasse no crescimento da Horikita, talvez até medidas mais forçadas…
Não… isso provavelmente teria o efeito oposto. Poderia abrir uma nova fissura entre eles, justo agora que começavam a se aproximar. No fim, quer se encontrassem ou não, tudo dependeria dos sentimentos dos dois. Não era algo em que um terceiro deveria interferir.
— Desculpe. Minha irmã acabou te dando trabalho até o final — disse Horikita.
Ele se desculpou calmamente, como se tivesse percebido o que eu estava pensando.
— Não é como se eu tivesse sofrido por isso — respondi.
Virando-se de costas para mim, o homem que permaneceu na linha de frente desta escola por três anos começou a se afastar.
— Tenho muito orgulho de dizer que, nesses três anos, nunca parei e continuei liderando este lugar — disse Horikita.
Era assim que ele resumia sua trajetória ali — suas palavras finais ao relembrar o tempo que passou na escola.
— Perdi muitos colegas de classe ao longo do caminho. E também alunos de outras turmas — acrescentou.
Não senti nenhum traço de alegria nele por ter se formado na Classe A. Ainda assim, também não parecia decepcionado. Ele apenas refletia com seriedade sobre tudo o que aconteceu.
— No total, vinte e quatro alunos foram expulsos até eu me formar. Treze deles só no meu terceiro ano — disse Horikita.
Não faço ideia se isso era mais ou menos do que em anos anteriores. No ano do Nagumo, se bem me lembro, havia ocorrido dezessete desistências até o inverno.
— Vocês do primeiro ano ainda tiveram apenas três alunos que saíram — observou ele.
Não era difícil imaginar que as coisas ficariam cada vez mais difíceis conforme avançássemos nos anos.
— Quer dizer, é inevitável que os alunos que não conseguem cumprir as exigências acabem fracassando, certo? — perguntei.
— Sim, isso é verdade. Os que ficam para trás geralmente são aqueles que não atingem o padrão exigido. No entanto, às vezes… até alunos excepcionais acabam sendo perdidos — respondeu Horikita Manabu.
Talvez fosse porque aquele aluno estava protegendo alguém, ou porque acabou sendo pego em uma armadilha de um oponente mais forte. O desaparecimento de estudantes que ninguém esperava não era necessariamente um mistério.
— Há quem questione os métodos da escola. No entanto, sou muito grato a ela — disse Horikita Manabu.
Ele não rejeitava a forma como a escola funcionava, mesmo que, às vezes, isso levasse à perda de amigos de maneira bastante cruel.
— Nesta escola, os alunos são educados para carregar o futuro do Japão. É óbvio que, entre cem pessoas, nem todas conseguirão se adaptar. O mesmo vale para a universidade ou para o mercado de trabalho — continuou.
Não se tratava apenas de aptidão. A aprovação ou reprovação vinha após a avaliação de diversos fatores.
— Eu consegui aprender esse princípio fundamental. Minhas experiências me ensinaram que, depois de sair daqui, não serei facilmente descartado por motivos superficiais.
Então foi assim que ele cresceu tanto ali… Fiquei me perguntando quantos alunos do mesmo ano conseguiram chegar ao nível que ele alcançou.
— Bem… acho que é isso.
O portão principal. Horikita olhou para ele, a poucos metros à frente. Então… virou-se para mim uma última vez.
— Sei que é um pedido unilateral, mas cuide da Suzune — disse ele, estendendo a mão direita.
— Posso apertar sua mão? — acrescentou ele.
— Claro.
Segurei sua mão e a apertei. Um aperto de mão — o ato de unir sua mão à de outra pessoa. A mão do irmão da Horikita, firme na minha, carregava uma força peculiar. Em seguida, soltamos.
— Vamos nos encontrar de novo, Ayanokoji.
Após essa despedida, ele começou a caminhar em direção ao portão. Se atravessasse ali naquele momento, não haveria nada que alguém pudesse fazer. Pelo menos dois anos — ou uma expulsão. Eram as únicas formas de Horikita Suzune voltar a encontrar o irmão. E eu também nunca mais veria aquele homem.
— Onii-saaaan!
Um grito ecoou atrás de mim. Diante da situação, não havia dúvida de quem era a voz. Ao ouvi-la, Horikita Manabu parou imediatamente.
Ela havia chegado… literalmente no último segundo. Já passava do meio-dia, e ele estava a poucos passos de partir. Se tivesse chegado um minuto depois, talvez nem visse seu rosto.
Quando ele se virou, vi em seus olhos algo que nunca tinha visto antes — surpresa genuína. A chegada da irmã era tão inesperada assim? Eu pensei que sim… mas não era só isso.
A verdadeira razão daquela surpresa logo ficaria clara.
— Você…
Já havíamos passado do horário combinado. Horikita Suzune, que claramente tinha vindo correndo, estava sem fôlego. Parou ao meu lado, mas naquele momento eu era praticamente parte do cenário para ela — nem sequer estava em seu campo de visão.
Recuperando o fôlego, deu um passo à frente, aproximando-se do irmão.
— Me desculpa por chegar atrasada…!
Ela se curvou profundamente ao se desculpar. Mas por que estava atrasada? Normalmente, eu teria perguntado.
— Bem—
Mas desta vez não era necessário. Bastava olhar. Eu estava confuso? Não… apenas surpreso. Porque havia uma diferença enorme entre a Horikita de ontem e a de hoje.
Então era isso… Era por isso que o irmão dela percebeu imediatamente que ela não havia crescido nada quando entrou na escola.
Agora, ao vê-la, ele parecia sem palavras. O mesmo acontecia comigo. Aquele era o último dia — o momento de despedida. E estava claro que Horikita veio preparada para se atrasar, mas mesmo assim veio. Não havia como um irmão repreender a irmã por isso.
— Parece que você mudou — disse ele suavemente, com um certo alívio na voz.
— Eu… mudei? — repetiu ela.
— Não… deixe-me corrigir. Você voltou a ser quem era, Suzune.
Não era um novo começo. Era um retorno ao ponto de origem.
— Um ano… não, muitos anos se passaram — disse Suzune.
Ainda recuperando o fôlego, começou a responder ao irmão.
— Eu não sei por que não consegui voltar a ser quem eu era muito, muito antes… Não consigo nem explicar o quanto me arrependi disso — acrescentou.
Dando mais um passo, ela diminuiu ainda mais a distância entre os dois.
— O que você está pensando agora? — perguntou ele.
— Eu… sinceramente, estaria mentindo se dissesse que ainda não existem coisas que me confundem — respondeu Horikita.
Ela lutava para encontrar as palavras, claramente nervosa. O irmão apenas a observava com calma, aguardando.
— Mas há uma coisa que posso dizer com certeza. Eu… passei muito, muito tempo correndo atrás da sua sombra. Mas não sou mais essa pessoa — continuou.
Horikita Suzune, que vivia apenas para o irmão, que estudava e se esforçava nos esportes para ganhar sua aprovação…
— Então me diga uma coisa. Agora que decidiu parar de me seguir, o que pretende fazer? — perguntou ele.
Ela respirou fundo e respondeu:
— Já cansei de correr atrás dos outros. Aprendi minha lição. Vou buscar o meu próprio caminho.
Finalmente, começava a se livrar de suas dúvidas e hesitações. Ainda estava apenas começando a enxergar o mundo ao redor — mas não podia mais parar.
— E…
Seguir o próprio caminho. Parecia simples, mas na verdade era extremamente difícil. Só o fato de conseguir mostrar isso ao irmão já era o melhor presente de despedida que ela poderia lhe dar.
— Espero poder continuar seguindo em frente por conta própria… pelo bem dos meus colegas de classe — acrescentou Horikita Suzune.
Tornar-se um exemplo, alguém que orienta os outros — isso também é uma parte importante de ser líder.
— E, para encontrar meu próprio caminho, vou continuar aprendendo junto com meus amigos aqui na escola — disse Horikita.
Quando a conheci há um ano, nunca imaginei que ela mudaria tanto. Uma aluna exemplar, um pouco arrogante, que se destacava acima dos outros. Uma vizinha que apenas se sentava perto de mim. Eu a via como alguém focada apenas em suas próprias capacidades, para o bem ou para o mal.
— Entendo… finalmente você voltou a ser quem realmente era. Aquela versão sua que eu guardava no fundo das minhas memórias — disse Horikita Manabu.
Diferente de mim, Manabu realmente conseguia enxergar isso. Ele conhecia e acreditava no potencial da irmã mais do que qualquer outra pessoa.
Ele colocou a bagagem no chão e se aproximou dela. Com apenas alguns passos, a distância emocional entre os dois desapareceu. Agora estavam próximos o suficiente para se tocarem.
— Você sabe qual foi o principal motivo de eu ter te afastado de forma tão fria? — perguntou.
— Não…. — respondeu ela.
Provavelmente, Horikita nunca havia entendido completamente os sentimentos do irmão. Ela apenas agora começava a se libertar das amarras do passado. Era como abrir à força um baú trancado, sem ter encontrado a chave. Ou seja, ainda não tinha chegado à resposta.
Por que o irmão a rejeitou? Por que a tratou de forma tão dura?
— Porque você é muito importante para mim — disse Horikita Manabu.
— O quê…?!
E assim, naquele momento, ela recebeu um último presente — a resposta que tanto buscava.
— Eu percebi um talento extraordinário em você desde pequena. Mesmo sendo inexperiente, havia um brilho em você, como uma pedra preciosa ainda bruta. Eu esperava que, com o tempo, você se refinasse e adquirisse habilidades que até superassem as minhas.
Ele deu mais um passo, ficando ainda mais perto. Bastaria estender o braço para tocá-la.
— Mas você ficou presa a uma ilusão sobre mim. Passou a acreditar que era inferior e desistiu de tentar me superar, achando que era impossível. Você escolheu abandonar o próprio potencial de crescer. Decidiu apenas me seguir, fazendo de mim seu destino final. E isso… eu simplesmente não podia aceitar — disse Horikita Manabu.
Seguir o irmão e querer ficar ao lado dele não era algo ruim. Podia até ser considerado um objetivo admirável. Mas, ao mesmo tempo, isso significava que, ao alcançá-lo, ela teria chegado ao fim de seu caminho. Era isso que ele queria dizer com destino final.
Havia um conflito entre a irmã, que queria alcançá-lo e parar ali, e o irmão, que queria que ela o superasse e fosse além. Não era de se estranhar que isso tivesse criado um grande distanciamento entre eles.
— Seja forte pelos outros. E seja gentil.
O irmão mais velho a envolveu em um abraço. Segurou-a com firmeza, como alguém que a apoiava enquanto ela fazia o máximo para continuar de pé.

Os cabelos curtos de Horikita balançavam ao vento.
— Oniisaa—
— Está tudo bem agora. Eu tenho certeza disso — disse ele, interrompendo-a.
Já não havia nada que eu pudesse dizer. Nem espaço para isso.
— Há algo que guardei em silêncio por vários anos… e pelo qual preciso me desculpar com você.
— Se desculpar…? — perguntou Horikita, ainda com o rosto apoiado no peito do irmão. Ela não entendia.
— Eu fui o principal responsável por nossa relação ter se tornado tão distante — respondeu ele.
— O que você quer dizer com isso…? — perguntou, em voz baixa.
— Há muito tempo, eu te disse que gostava de cabelo comprido. Aquilo foi uma mentira… e foi de propósito.
— Hã…? C-Como assim…?! — respondeu ela, claramente chocada. Ela nunca soube disso — até agora.
— Eu fiz isso de propósito, para confirmar algo. Você sempre preferiu cabelo curto, e eu queria ver se aceitaria minhas palavras e deixaria o cabelo crescer, mesmo que isso significasse abrir mão de parte da sua própria personalidade — disse o irmão dela, Horikita Manabu.
Como resultado, Horikita Suzune passou a deixar o cabelo crescer para corresponder às preferências do irmão. E foi exatamente por isso que ele entendeu imediatamente a situação dela quando se reencontraram naquela escola. Ele percebeu que Suzune não havia mudado nem um pouco. Ao ver a irmã mais nova, que continuava apenas seguindo sua sombra, sem ir além disso, ele sentiu profunda decepção. Nem precisou verificar se ela era boa nos estudos ou nos esportes.
— Por favor, me perdoe por ter mentido para você..
— Isso foi muito cruel, oniisan….
— Não tenho desculpas.
Talvez ele tenha escolhido não revelar a mentira antes justamente porque esperava perceber alguma mudança na irmã — alguém em quem ele acreditava que, um dia, conseguiria mudar.
— Eu te perdoo, oniisan, por essa mentira. Tenho certeza de que foi por causa dela que estou aqui hoje.
Era justamente porque Horikita Suzune compreendia o motivo da mentira que ela sorriu e perdoou o irmão. Horikita Manabu segurou seus ombros, e os dois ficaram frente a frente. Horikita sorria abertamente ao olhar para ele. Ao ver isso, seu irmão também sorriu — como se tivesse finalmente retirado uma máscara.
Não era como se ele nunca sorrisse. Mas era a primeira vez que eu o via sorrir de forma tão gentil. E também seria a última. Só mais um ano… tive a sensação de que, se pudesse ter passado apenas mais um ano na mesma escola que ele, teria conhecido melhor quem era Horikita Manabu. Talvez tivesse me aproximado dele. E talvez… eu também pudesse ter mudado.
Era realmente uma pena.
— Suzune. Daqui a dois anos, estarei esperando por você do lado de fora deste portão. Quero ver o quanto você cresceu até lá.
— Certo. Eu vou dar o meu melhor… vou continuar lutando até o fim — respondeu ela.
Tudo o que impedia o crescimento de Horikita havia desaparecido. A partir dali, ela seguiria em frente, correndo o mais longe que pudesse.
— Ayanokoji. Também estou ansioso para te encontrar novamente — disse Manabu.
Talvez ele estivesse sentindo o mesmo que eu.
— Sim… com certeza — respondi.
Mesmo sabendo que talvez fosse um desejo que nunca se realizaria, concordei com firmeza.
— Bem, já está na hora.
Já se aproximava das 12h30. Antes que eu percebesse, o horário de chegada do ônibus estava próximo. Os irmãos Horikita se separaram lentamente, ainda que com relutância.
— Até nos encontrarmos novamente.
E, com essas palavras finais, Horikita Manabu atravessou o portão principal… e partiu. Horikita Suzune permaneceu ali, observando suas costas, sem sequer piscar. Tive a sensação de que Horikita Manabu havia deixado para trás um marco — um guia — tanto para sua irmã quanto para mim.
*
MESMO DEPOIS que o irmão da Horikita já não podia mais ser visto através do portão, nós dois continuamos olhando naquela direção por um tempo. Mas não dava para ficar presos naquele momento sentimental para sempre. Horikita parecia paralisada, incapaz de se mover. Usei minhas palavras para tirá-la disso.
— Vai dar uma sensação de vazio, não vai?
— Sim….
Mesmo não sendo exatamente uma despedida definitiva, ela não poderia ver o irmão nem ouvir sua voz por dois anos. Ainda assim, sua expressão permanecia firme — havia dignidade e determinação em seu rosto.
— Obrigada, Ayanokoji-kun… Fico feliz que você esteja aqui hoje.
— É mesmo? Achei que eu só estava atrapalhando — respondi.
— Não é verdade. Se você não tivesse conversado com meu irmão, eu não teria chegado a tempo. Sou realmente grata — disse Horikita Suzune.
Ela expressou sua gratidão mais uma vez — a alguém que claramente não pertencia àquele momento. Ainda assim, nem olhou para mim. Seu olhar estava voltado para frente, como se enxergasse o futuro.
— Além disso, hoje foi o dia em que meu irmão partiu. Teria sido triste se eu fosse a única a me despedir dele…
Embora tenha sido decisão dele, realmente teria sido um pouco solitário.
Ele era alguém que deveria ter sido acompanhado por muitos alunos na despedida. Provavelmente, o fato de só nós estarmos ali foi por causa da irmã — para facilitar que ela enfrentasse a si mesma. Talvez ele tivesse pensado nisso desde o começo.
— Eu também tinha uma certa ligação com seu irmão. O suficiente para querer conversar mais um pouco com ele — comentei.
No início, conversar com ele não era algo que eu via com bons olhos. Mas agora… eu realmente gostaria de ter tido mais tempo. É fácil pensar assim depois que tudo acaba.
Começamos a caminhar de volta para o dormitório.
— Aliás… você cortou bastante cabelo, hein?
Até ontem ela estava igual de sempre, e como chegou atrasada, não era difícil imaginar que tinha decidido cortar o cabelo às pressas naquela manhã.
— Sempre gostei dele assim. Mas agora parece um pouco estranho — respondeu.
Ainda assim, não era como se ela pudesse simplesmente cortar o cabelo de qualquer jeito e estragar um momento tão importante. Para se despedir do irmão da forma correta, ela apostou tudo em uma última decisão — mesmo que isso significasse chegar atrasada.
No fim, Horikita venceu essa aposta.
— Mas não teria sido melhor me avisar antes? Se estava com medo de perder a chance de vê-lo, poderia ter usado minha ajuda para ganhar tempo — disse.
Se eu soubesse que ela vinha, poderia ter ajudado. Foi sorte eu ter conversado com o irmão dela e, sem querer, ter ganho tempo para ela.
— Então, se eu pedisse, você me ajudaria? — perguntou.
— Hoje, pelo menos, ajudaria — respondi.
— Não tenho tanta certeza disso… Bem, era isso que eu queria dizer, mas… na verdade, tentei pedir sua ajuda — disse ela.
Peguei meu celular, mas não havia nenhuma tentativa de contato registrada.
— Acho que estava com tanta pressa que esqueci meu celular no dormitório quando saí para cortar o cabelo. Só percebi depois que já tinha começado. Sério… sou um desastre, não sou? — acrescentou.
Ou seja, ela acabou numa situação sem saída. Seria mais rápido correr direto até o portão do que voltar para buscar o celular.
— Que idiota — disse Horikita, sorrindo com autodepreciação.
— Isso só mostra o quão importante foi essa decisão que você tomou hoje.
Era até engraçado imaginar Horikita correndo para o salão assim que abriu. Como ela normalmente era tão calculista, fazia sentido que acabasse errando quando estava nervosa.
— Cortar o cabelo foi minha forma de traçar uma linha, de deixar claro onde estou — disse ela.
— Então você não estava pensando nos gostos do seu irmão? Nem passou pela sua cabeça? — perguntei.
— Claro que não. Eu só queria voltar a ser quem eu era. O momento em que comecei a deixar o cabelo crescer coincidiu com quando comecei a seguir meu irmão. Nesse sentido, achei que essa seria a melhor forma de expressar meus sentimentos — respondeu Horikita.
Então foi a melhor escolha… ainda que por coincidência. Depois de vê-la de cabelo comprido por um ano, a sensação de mudança era forte.
— E como é voltar a ser você mesma depois de tanto tempo? — perguntei.
— Como é…? Não sei bem como responder. Quando era pequena, eu gostava de cabelo curto. Mas depois de tanto tempo com cabelo comprido, você acaba criando apego. É um sentimento meio complicado, para ser sincera — respondeu.
O cabelo curto que ela gostava. O cabelo longo ao qual se acostumou. Seu antigo eu e seu eu atual. Não havia dúvida de que ambos eram Horikita Suzune.
— Agora sinto que posso aceitar qualquer uma dessas versões de mim mesma — acrescentou, tocando levemente o cabelo curto com a ponta dos dedos. — Por isso, vou repensar tudo desde o começo.
— Porque ainda há coisas sobre mim que não estou enxergando. Devo deixar o cabelo crescer de novo até a formatura? Ou mantê-lo curto? Se eu deixar crescer, provavelmente levará uns dois anos para voltar ao comprimento original… bem, isso daria bem na época da formatura.
Seu antigo eu e o eu que ela foi até pouco tempo atrás — Horikita havia aceitado ambos.
— O que eu sei é que não importa o comprimento do meu cabelo. Vou poder encontrar meu irmão com orgulho — disse Horikita Suzune.
Agora que ela havia cortado o cabelo, eu também estava curioso para ver o que o futuro reservava para Horikita. No último momento, Horikita Manabu deixou para a irmã algo valioso. Eu achava que ela não cresceria sem uma ajuda significativa, mas talvez esse tenha sido um erro de julgamento da minha parte.
— Você sente falta dele? — perguntei.
Para ser sincero, mesmo que tivesse tido uma hora… não, nem mesmo um dia inteiro, provavelmente ainda não conseguiria dizer tudo o que queria. Devia haver inúmeras coisas acumuladas dentro dela — anos de sentimentos que não podiam ser expressos facilmente.
— Bem… sim. Não tem como não sentir — respondeu, assentindo como se quisesse se convencer disso. — Mas, de qualquer forma, a barreira entre mim e meu irmão desapareceu agora. Só preciso passar por esses dois anos, e depois poderei conversar bastante com ele. Não é?
— Sim, é verdade. Ele mesmo disse que estará esperando por você — respondi.
Depois da formatura, ela poderia entrar em contato com pessoas de fora da escola livremente. Quando esse momento chegasse, será que conseguiria encará-lo com orgulho?
— Hoje foi um dia muito especial… Se eu recebesse mais alguma coisa, acho que seria ganância, e o karma acabaria me punindo — disse Horikita, mudando rapidamente de assunto.
Sim, pelo menos na superfície ela estava mudando de assunto. Mas, na verdade, estava se esforçando ao máximo para manter a calma. Só que não era tão simples assim mudar os sentimentos de repente.
— Mas… isso já é o suficiente — disse ela, parando de andar, sem se virar para mim.
Ela não mostrava o rosto. Ou melhor… não conseguia me encarar.
— O que foi? — perguntei.
Mesmo sabendo o que estava acontecendo, fingi não perceber. Normalmente, Horikita teria notado isso, mas naquele momento não estava em condições de fazê-lo.
— E-Eu vou dar uma volta antes de voltar — disse ela.
Era como se estivesse me afastando, dizendo para eu ir embora sozinho.
— Dar uma volta?
Mesmo perguntando, ela não conseguiu responder claramente.
— É que… acho que vou caminhar um pouco — respondeu de forma vaga. Sua voz tremia levemente.
— Quer que eu vá junto? — perguntei.
— Não, obrigada.
Depois disso, ainda evitando clareza, virou as costas e começou a se afastar. Não estava indo para o Keyaki Mall nem para a loja de conveniência. Parecia procurar um lugar sem ninguém por perto.
Eu a segui. Claro, ela queria ficar sozinha. Mas não conseguiria se acalmar se estivesse sendo seguida.
— Por que… você está me seguindo? — perguntou em voz baixa, sem nem olhar para trás.
— Não sei… quem sabe — respondi.
— Se não tem motivo, então não me siga — retrucou.
Ela me rejeitou, mas eu não demonstrei nenhuma intenção de ir embora. Afinal, Horikita já tinha me causado bastante dor de cabeça ao longo do último ano.
— Tudo bem, então vou te dar um motivo. Porque quero ser um pouco cruel com você — respondi.
— Do que você está falando? Não consigo entender — rebateu.
— Entendo. Então eu explico.
— Não precisa dizer nada — disse Horikita.
— Não, isso não vai funcionar — respondi.
Abri a boca novamente, com a intenção de derrubar a barreira que ela tentava manter.
— Quando você está triste… não seria melhor simplesmente deixar tudo sair e chorar? — perguntei.
Foi só isso que eu disse.
— Você não ouviu o que eu acabei de falar? — respondeu ela.
— Eu ouvi. Tenho certeza de que você ficou muito feliz por ter se reconciliado com seu irmão, não foi? — disse.
— Sim, fiquei. E estou satisfeita. Então… do que eu teria que ficar triste, hein?
— Mas não tem como você estar satisfeita. Tudo bem, é verdade que você pode falar com ele novamente daqui a dois anos. Mas as pessoas não são criaturas que se satisfazem tão facilmente — respondi.
A garota que sonhou com esse dia por tanto tempo agora precisava adiá-lo por mais dois anos. É claro que ela sentia algum alívio… mas não era só isso.
— Eu… estou satisfeita. Estou.
— Nesse caso, que tal se virar e olhar para mim? — perguntei.
Horikita Suzune continuava de costas. Ela balançou a cabeça negativamente, sem sequer considerar meu pedido.
— Recuso. Por que eu precisaria olhar para você?
— Não sei… quem sabe — respondi.
Aproximei-me rapidamente dela e disse mais uma coisa, enquanto ela tentava se afastar.
— Pode chorar.
Reencontrar o irmão depois de dois anos… apenas para ser rejeitada. Sua luta solitária na ilha desabitada, com febre alta. Assumir um papel ingrato na votação da classe. Em todas essas ocasiões, Horikita nunca chorou.
— Eu…
Ela tentou continuar andando, mas suas pernas pararam. Depois de tanto tempo, finalmente conseguiu ter uma conversa verdadeira com o irmão. A partir do dia seguinte, talvez pudessem voltar a sorrir e conversar normalmente…
Mas ele já havia atravessado o portão e começado uma nova fase da vida. E só poderiam se ver novamente daqui a dois anos — no mínimo.
— Para… para com isso… — disse, a voz tremendo cada vez mais.
Durante esses dois longos anos, Horikita teria que continuar lutando.
— Mas… não tem o que eu possa fazer…!
Ela tentava argumentar consigo mesma, mas tudo o que vinha guardando começou a transbordar.
— Porque…!
Pensava no irmão, de quem acabara de se despedir.
— Mesmo que eu finalmente… finalmente tenha entendido onde errei…!
Ela caiu de joelhos. Cobriu o rosto com as mãos, tentando conter as lágrimas que insistiam em cair.
— Eu fui separada do meu irmão de novo…!
Tenho certeza de que, se pudesse, teria corrido atrás dele naquele momento. Mas não disse nada — apenas o observou partir.
— É… tenho certeza de que você está se sentindo sozinha — falei.
— Sim… estou… estou…! — ela soluçou.
Ela chorava abertamente, grandes lágrimas escorrendo pelo rosto, como uma criança pequena.

As lágrimas continuavam a escorrer, mas Horikita Suzune ainda tentava contê-las. Se não tivesse a escola, tenho certeza de que teria seguido o irmão para onde quer que ele fosse — podendo vê-lo e falar com ele sempre que quisesse.
— Então vá em frente… pode chorar o quanto quiser agora. Coloque tudo para fora. Depois disso, quando se encontrarem de novo, você pode mostrar a ele o quanto cresceu. Você já começou a mudar, neste exato momento — disse.
Ela não precisava se preocupar. Dois anos… em dois anos, Horikita certamente poderia crescer muito mais. Tenho certeza de que o irmão dela também estava esperando por isso.
— Não é mesmo… Manabu? — murmurei para mim mesmo.
Minha voz já não podia mais alcançá-lo. Ela se perdeu no céu azul que anunciava a chegada da primavera.
*
Pouco depois de colocar seus sentimentos para fora, Horikita parou de chorar.
Mas sua força de vontade ainda não parecia ter voltado completamente, pois continuava sentada. Fiquei ao lado dela, esperando em silêncio o momento certo. Felizmente, não havia mais ninguém por perto.
— Ainda bem.
— O que tem de ainda bem? É humilhante você ter visto aquilo…
Tentei confortá-la, mas não parecia algo tão simples.
— Bem… acho que você tem razão — respondi.
Era exatamente por isso que ela queria ficar sozinha. Se eu não estivesse ali, ninguém teria visto suas lágrimas.
— Mas já que aconteceu, aconteceu. Você viu. Vou tentar encarar isso pelo lado positivo.
— Lado positivo? — perguntei.
— Estou feliz que tenha sido você quem viu. Foi assim que decidi pensar — respondeu ela.
Ela soltou um longo suspiro, como se estivesse realmente aliviada. Certamente não era o tipo de cena que gostaria que outros alunos vissem.
— Certo. Que tal eu contar para o Keisei e os outros o que aconteceu hoje? — perguntei, pegando o celular e apontando a câmera para ela.
— Quer morrer? — respondeu ela.
Ao ver seus olhos vermelhos me encarando, guardei o celular imediatamente.
— Foi brincadeira — disse.
— Esse tipo de piada idiota me dá vontade de te ensinar o que significa "hora e lugar" — retrucou. Se ela já conseguia falar assim comigo, provavelmente estava melhor. — De alguma forma, isso me lembra algo que aconteceu há um ano.
— Talvez — respondi.
Lembrei-me de quando conversamos assim, no meio da noite. Naquela época, Horikita estava arrasada após reencontrar o irmão. Mesmo que a situação agora fosse o oposto, havia uma estranha sensação de déjà vu.
— Por que será que eu sempre acabo cometendo erros quando você está por perto? Logo você, que senta ao meu lado na sala… — resmungou Horikita.
Pensando bem, desde que começamos nesta escola, parece que tenho uma ligação estranha com ela. E, aparentemente, isso a incomoda bastante.
— Que tal você me mostrar alguns dos seus erros de vez em quando? — acrescentou, reclamando da injustiça da situação.
— Erros…? Bem, você viu um recentemente. Eu perdi aquela partida de xadrez contra a Sakayanagi Arisu — respondi.
— Eu não chamaria aquilo de erro. Foi apenas uma derrota — rebateu.
Pelo visto, eu não conseguiria satisfazê-la.
— Então espere algo acontecer quando virarmos alunos do segundo ano — disse.
— Acho que é tudo o que posso fazer. Vou adicionar isso à lista de coisas que espero para o futuro — respondeu ela.
Parecia que Horikita queria "se vingar" por eu ter visto ela chorar hoje, custasse o que custasse. De qualquer forma… o corte de cabelo dela foi realmente impactante.
— Tenho certeza de que muita gente vai se surpreender quando te ver — comentei.
Entre nossos colegas, até havia quem quisesse mudar o visual, mas não tantos assim.
— Não me importo se ficarem surpresos. Isso realmente não faz diferença para mim — disse Horikita, afirmando que a opinião dos outros não importava.
Tenho certeza de que Sudou Ken seria o primeiro a notar a mudança. Ainda restavam alguns dias de férias, então a notícia provavelmente se espalharia… ou melhor, bastaria alguém vê-la para isso acontecer.
— Sei que talvez não seja o melhor momento, mas você se lembra da aposta de que falamos outro dia? — perguntei.
— Claro.
— Já pensei no que vou pedir, caso eu vença — disse.
— Hm… achei que você deixaria isso para depois, para tentar me desestabilizar — comentou Horikita.
— Não pensei em nada tão elaborado. Só não tinha decidido antes — respondi.
Mesmo ainda desconfiada, ela me incentivou a falar.
— Se eu ganhar, quero que você entre para o conselho estudantil — disse.
— Já falamos disso antes — respondeu.
Antes, eu havia sugerido isso a ela, até mencionando o apoio do irmão — mesmo não sendo verdade. No fim, ela recusou.
— Então… aceita essa condição? — perguntei.
— Não tenho interesse nenhum no conselho estudantil, mas… tudo bem. Afinal, tudo o que preciso fazer é vencer — disse Horikita. — Mas não há garantia de que eu realmente consiga entrar, certo? — acrescentou.
— Não se preocupe com isso. O Nagumo é do tipo que aceitaria qualquer um — respondi.
Ele era bem diferente de Manabu, que rejeitava muita gente. E, sendo ela irmã dele, era impossível que Nagumo recusasse.
— Pelo menos pode me dizer por que quer que eu entre? — perguntou.
— Segredo. Te conto quando você perder — respondi.
— Não gosto disso. Não pode me dizer agora? — insistiu.
— Está pensando no que vai acontecer se perder, não é? — provoquei.
— Não é isso. Eu vou ganhar. Só queria saber antes, só isso. Além disso, do jeito que você disse, parece que se você perder, não vai me contar o motivo.
E, de fato, depois que o resultado fosse decidido, não faria mais sentido explicar o motivo.
— Seu irmão vem se preocupando com Nagumo Miyabi há bastante tempo. Foi por isso — respondi.
— Então você quer que eu fique de olho nele, monitorando o presidente do conselho estudantil? — perguntou Horikita Suzune.
— É, exatamente.
— Foi o meu irmão que te pediu isso, não foi? — disse ela, me encarando com um ar irritado.
— Vocês dois não tinham uma relação muito próxima antes, então não havia muitas opções — respondi.
Se eles tivessem se entendido melhor antes, talvez Manabu tivesse falado diretamente com ela desde o início.
— Pare de se fazer de modesto. Meu irmão presta mais atenção em você do que em qualquer outra pessoa nesta escola. Se não fosse assim, ele não teria te convidado para a despedida. Sério… por que sempre você? — resmungou, levantando-se devagar. — Vamos parar com esse assunto. Vou tirar você da minha cabeça por um tempo — disse ela, claramente frustrada.
— Ainda tem uma última coisa que quero confirmar com você — falei.
— O quê? Vai dizer mais alguma coisa estranha? — respondeu.
— É sobre a Kushida Kikyo. Achei melhor te atualizar sobre a situação atual… e o que estou pensando — disse.
Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada.
— Situação atual?
Para impedir Kushida de agir livremente, eu havia feito um acordo com ela. Eu daria metade dos meus pontos privados todo mês, em troca de proteção — assim, deixaria de ser alvo dela.
— Você é… um idiota? Como pôde fazer um acordo tão absurdo?
— Fiz isso para ganhar a confiança dela — respondi.
— Mesmo assim, foi totalmente imprudente. Metade dos seus pontos todo mês é demais — disse Horikita.
— Eu não conseguiria fazê-la se abrir sem isso. Mas, de qualquer forma, acho que toda a confiança que consegui já foi por água abaixo depois que você a expôs em sala — respondi.
Ao que tudo indicava, mais do que insatisfação, ela estava voltando a desconfiar de mim.
— Sinceramente… começo a duvidar de novo se você é mesmo tão competente assim — disse Horikita.
Mesmo entendendo sua frustração, ainda não tínhamos terminado.
— E por que está me contando isso? — perguntou.
— Porque concluí que esse acordo maluco não vai mais me prejudicar no futuro.
— Você acha que continuar dando metade dos seus pontos não vai te prejudicar?
— Porque, se a detentora do contrato — a Kushida — for expulsa, o problema desaparece — respondi.
Ao ouvir isso, Horikita congelou. Virou-se para mim, ainda com os olhos levemente vermelhos.
— Você acabou de dizer algo completamente absurdo… Isso foi uma piada?
— Eu pretendia expulsar a Kushida. Na verdade… ainda acho que ela deveria ser expulsa.
— Você não está… brincando, está?
— Não. Desde o verão passado, já considerava me livrar dela — respondi.
Na verdade, oportunidades não tinham faltado.
— Mas… se está me dizendo isso agora, quer dizer que mudou de ideia?
— Sim. Quero deixar essa decisão nas suas mãos — disse.
Em vez de decidir sozinho, deixaria Horikita escolher o que fazer com Kushida. Era por isso que eu estava contando tudo.
— Não é óbvio o que vou dizer? Não tenho nenhuma intenção de deixar a Kushida ser expulsa. Aliás, não pretendo permitir que nenhum colega seja descartado tão facilmente. Nenhum deles.
Sua determinação estava ficando cada vez mais forte.
— Mas também não pretendo ser ingênua como o Hirata. Sempre haverá alguém na linha de sacrifício. Claro, quem será essa pessoa pode mudar, dependendo da contribuição para a classe — disse Horikita.
Ou seja, se surgisse uma situação como a votação da classe, ela tomaria essa decisão.
— E se a contribuição da Kushida for a menor? — perguntei.
— Então ela se tornará a principal candidata à expulsão quando esse momento chegar — respondeu.
Não havia mentira em suas palavras.
— Mas é muito improvável que a Kushida caia para o nível mais baixo da classe — acrescentou.
— Eu sei. Pelo que vi, ela contribui bastante — respondi.
Ela era capaz tanto academicamente quanto nos esportes, além de ocupar uma posição essencial na classe. A expulsão do Yamauchi a abalou, mas não foi nada fatal.
— Só te contei tudo isso porque achei que você conseguiria lidar com a situação. Mas, quanto mais você crescer e se tornar o centro da classe, Horikita, mais a Kushida vai se tornar um problema para você — acrescentei.
Pessoas que conheciam o passado de Kushida. Uma verdade que não pode ser apagada.
— Então você estava pensando em se livrar dela antes que isso acontecesse… certo? — disse Horikita.
— Sim, é isso mesmo. Quero dizer… você não é ingênua a ponto de achar que vai conseguir convencê-la a se tornar sua aliada com tanta facilidade, certo? — respondi.
— Admito esse ponto. Sei muito bem que não adianta tentar persuadi-la se eu não estiver disposta a ir até o fim — disse Horikita Suzune.
Mesmo sabendo disso, ela ainda pretendia aceitar a Kushida, hein? No passado, eu teria chamado isso de ingenuidade… mas agora era um pouco diferente.
— Nesse caso, acho que não tenho mais nada a dizer — respondi.
— Você… não estava tentando expulsar a Kushida na votação da classe, estava? — perguntou Horikita.
— Isso seria estupidez. Mesmo tendo ajudado o Yamauchi, ela ainda é muito confiável para os outros — respondi.
— Sim… faz sentido. E eu não vi nada que indicasse isso antes… Mas agora que você me contou tudo isso, posso assumir que vai deixar completamente a questão da Kushida comigo daqui para frente?
— Pode. Prometo não fazer nada — respondi.
A decisão agora cabia a Horikita.
— Então você me contou tudo isso porque acredita que consegue superar esse obstáculo? — perguntou.
— Infelizmente, não sou tão otimista assim. Ainda acho que eliminar a Kushida seria a melhor opção — respondi.
— Certo… então por quê?
Ao me fazer essa pergunta, parei para pensar.
— Você nunca pensou nisso antes? — perguntou ela.
— Não… acho que não. Bem… o que estou fazendo agora não é exatamente eficiente — respondi.
Pensando no futuro, agir silenciosamente para expulsar a Kushida seria a escolha correta. E, mesmo assim, eu não fiz isso. Em vez disso, deixei a decisão nas mãos da Horikita. O motivo…
— Acho que… eu queria ver como você lidaria com esse obstáculo — disse. Não era uma resposta muito convincente, mas era a única que eu tinha.
— Provavelmente — acrescentei.
— Então vou considerar assim. Parece melhor interpretar suas palavras com cautela — respondeu ela.
Agora completamente recomposta, Horikita começou a se afastar.
— Vou indo. E você?
— Vou ficar por aqui mais um pouco — respondi.
Após uma breve despedida, ela voltou para o dormitório. Talvez chorasse novamente à noite… mas, por ora, estava tudo bem. Lembrei-me da conversa que tive com Ichinose Honami outro dia. Sakayanagi Arisu. Ryuen Kakeru. O crescimento da Horikita.
Eu estava ansioso.
A disputa entre as quatro classes. Quanto mais elas poderiam mudar ao longo de mais um ano?
Havia inúmeros fatores que poderiam impulsionar esse crescimento. As palavras de Horikita Manabu ainda ecoavam na minha mente: tornar-se alguém que deixasse sua marca na memória dos outros.
— Que belo presente de despedida você me deu… — murmurei.
O que eu poderia fazer para ser lembrado pelos outros alunos? Talvez ajudar no crescimento deles… ajudá-los a evoluir. E então, fazer com que esses alunos amadurecidos competissem entre si, buscando níveis ainda mais altos.
Quando me imagino nessa posição…
Sim. Acho que posso dizer que isso me empolga.
Comecei, sem perceber, a analisar mentalmente a força das classes, fazendo cálculos. Os resultados que poderiam surgir após mais um ano. Todas as classes ainda tinham muito a crescer.
Mas, no momento, ainda eram frágeis demais.
Meu coração começou a acelerar ao pensar nisso…
Mas, ao mesmo tempo, também parecia esfriar rapidamente.
— O que eu buscava era… uma vida tranquila… não era isso que eu queria desde o começo?
Pela primeira vez, senti como se houvesse algum tipo de filtro no meu coração. Algo dentro de mim claramente mudou ao longo deste último ano.
Não… ainda está mudando.
Tenho certeza disso.
Tentei convencer a mim mesmo disso… mas não funcionou.
Era como se minha própria percepção de mim mesmo não estivesse mais conectada comigo.
Será que a camada que selava meu interior finalmente se desprendeu?
Uma sensação sombria… algo próximo da ansiedade… começou a me envolver.
Eu…
Será que ainda estarei nesta escola, nesta mesma época, no próximo ano…?
Uma escuridão inexplicável… tomou conta de mim.
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