Ano 1 - Volume 11.5
Capítulo 3: Cordeiro Perdido
AS FÉRIAS DE PRIMAVERA haviam chegado, e abril estava prestes a começar. Hoje era 30 de março. Eu não tinha feito praticamente nada nos últimos dias, além de passar a maior parte do tempo no meu quarto, apenas aproveitando o descanso. Achei que poderia levar as coisas com calma e receber o início do novo ano letivo desse jeito, mas…
Quando acordei naquela manhã, pouco antes das oito horas, vi que tinha uma mensagem. O remetente era uma aluna da Classe B do primeiro ano: Ichinose Honami. Na mensagem, ela perguntava se poderíamos nos encontrar em algum momento durante as férias de primavera.
Pelo visto, o restante das minhas férias não passaria tão tranquilamente assim.
Ichinose disse que qualquer dia ou horário servia, mas pediu que Horikita também viesse, se possível. Pela forma como escreveu, imaginei que Horikita fosse, na verdade, a principal pessoa que ela queria ver, e que eu era apenas um bônus.
Eu conseguia imaginar mais ou menos sobre o que seria a conversa — o exame final do nosso primeiro ano, o Exame de Seleção de Eventos. Ichinose certamente já devia ter reunido algumas informações sobre o que aconteceu com nossa classe, mas apostava que ela queria saber mais sobre nossas três vitórias e quatro derrotas contra a Classe A.
Além disso, provavelmente queria falar sobre a transição para o segundo ano. Mais especificamente, sobre a aliança que minha classe havia formado com a dela.
Essa relação continuaria? Ou seria desfeita?
Tenho certeza de que Ichinose queria esclarecer isso. No momento, qualquer uma das opções parecia igualmente possível, mas a segunda, em particular, era algo que seria melhor discutir com calma durante as férias de primavera.
— Será que a Ichinose já se recuperou? Ou não? — perguntei a mim mesmo.
Pensei na garota que eu não tinha visto nenhuma vez desde que as férias começaram. Eu imaginava que os resultados do exame de fim de ano ainda pesavam na mente dela. Duas vitórias e cinco derrotas. Foi uma derrota esmagadora para a Classe B.
Mesmo que minha própria classe tivesse sido rebaixada novamente para a Classe D, a diferença de pontos entre as classes certamente estava diminuindo. Agora parecia bem provável que um único exame especial pudesse mudar completamente o ranking.
Não seria exagero dizer que as Classes D e C estavam praticamente empatadas com a Classe B.
Diante dessa situação, uma discussão sobre o que fazer daqui em diante era necessária — mais cedo ou mais tarde. A aliança que firmamos no início do primeiro ano não foi algo ruim. Se mantivéssemos essa relação de cooperação meio vaga no próximo ano, isso reduziria bastante a pressão mental sobre nós.
Por outro lado, também era possível perceber que, em um futuro próximo, essa relação poderia acabar prejudicando ambas as classes. E quando chegasse o momento em que essa relação se tornasse tensa, provavelmente teríamos que encerrá-la à força. E algo assim normalmente seria chamado de desonesto. De qualquer forma, para esclarecer a situação, tanto as classes inferiores quanto as superiores precisariam definir políticas para orientar o que fariam no futuro.
Se Horikita já soubesse da proposta de Ichinose, então provavelmente estava pensando na mesma coisa que eu. Aquilo não seria uma conversa simples. Muito provavelmente seria um grande ponto de divergência para as duas classes, algo que poderia determinar o rumo que seguiríamos daqui para frente.
Mesmo que Ichinose ainda não estivesse em um estado mental para pensar tão adiante, havia uma boa chance de que Horikita trouxesse o assunto por conta própria. O que eu podia dizer naquele momento era que recusar essa conversa não era uma opção.
Restava apenas decidir quando.
Para mim, hoje não era problema, mas eu me perguntava quanto a Horikita. De acordo com o que o irmão dela havia dito, ele deixaria a escola no dia 31. No fundo, eu tinha certeza de que Horikita queria conversar com ele no pouco tempo que restava.
Não seria estranho se eles quisessem passar um tempo em família, sem mais ninguém por perto, pelo menos hoje. Agora, se o irmão dela permitiria isso — e se Horikita realmente conseguiria ir encontrá-lo — já era outra história.
Por enquanto, decidi enviar uma mensagem para Horikita. Aproveitei e acrescentei uma observação perguntando se ela já tinha conseguido conversar com o irmão. Fora isso, apenas disse que Ichinose queria se encontrar conosco. Alguns segundos depois, vi que a mensagem havia sido lida. A resposta veio logo em seguida.
— Estou livre a qualquer momento.
Essa foi a resposta dela. Bom… não, "a qualquer momento" não ajuda em nada.
Enquanto comentava mentalmente sobre a mensagem que ela tinha acabado de me mandar, pensei em qual seria a reação dela se eu marcasse o encontro para amanhã, dia 31. Mas imaginei que ela não ficaria muito satisfeita se eu tocasse deliberadamente em algo que sabia que a incomodava. Isso ficou claro pelo fato de que ela ignorou completamente o assunto do irmão na resposta.
— Nesse caso, que tal 2 de abril? — respondi.
Levei a situação com o irmão dela em consideração e decidi deixar hoje e amanhã fora da equação.
— Estou livre hoje.
A resposta veio imediatamente. E havia algo de intenso nela — como se estivesse me dizendo para cuidar da minha própria vida. Mesmo que admitir que queria passar um tempo com o irmão fosse difícil para ela, poderia simplesmente ter dito que já tinha planos. Além disso, mesmo que eu dissesse que tinha planos hoje, provavelmente seria difícil convencê-la.
— Certo. É melhor resolver logo as coisas problemáticas — respondi.
Seria cansativo tentar contrariar o que Horikita queria naquele momento, então decidi simplesmente acompanhar. Mesmo que nossa conversa terminasse à tarde, ainda haveria tempo suficiente para ela encontrar o irmão.
— É, isso provavelmente é impossível — murmurei para mim mesmo. Parecia improvável que aqueles dois fossem se encontrar em particular, exceto quando chegasse a hora de se despedirem amanhã.
Enviei minha resposta para Horikita e decidi confirmar o encontro com Ichinose ainda hoje. Depois disso, conversando com Ichinose, acabamos marcando às dez horas, no café do segundo andar do Keyaki Mall.
*
Devia ser porque abril já estava logo ali, mas a temperatura estava ficando gradualmente mais quente. Agora eram pouco depois das nove e meia da manhã. Embora o céu estivesse limpo e ensolarado naquele momento, a previsão do tempo indicava chuva forte pouco depois do meio-dia, então decidimos marcar nosso encontro cedo e terminar tudo antes do meio-dia.
Ainda havia algum tempo antes do horário combinado. Saí tranquilamente em direção ao Keyaki Mall e apertei o botão do elevador, passando por vários estudantes que também aproveitavam as férias. Colegas de classe, claro, mas também alunos do segundo ano de outras turmas. Mesmo que eu não conhecesse muita gente, imaginei que, se andasse um pouco pelo campus, acabaria encontrando alguém conhecido.
Porém, a cada dia mais formandos estavam indo embora, e agora quase não se via mais nenhum deles por perto. Assim que chegasse 1º de abril, só restariam alunos do segundo e do primeiro ano.
Provavelmente o lugar ficaria bem mais silencioso por alguns dias. Foi justamente quando pensei nisso que, por coincidência, esbarrei em uma garota que eu conhecia do meu ano. Ela estava no elevador que eu tinha acabado de chamar.
— Você de novo… — resmungou ela.
A garota, que falou comigo naquele tom claramente desagradável e ainda se afastou um pouco, era uma aluna da Classe D do primeiro ano: Ibuki Mio. Por algum motivo, acabei imaginando o que Ibuki estaria fazendo durante essas longas férias. Tenho certeza de que ela provavelmente pensava o mesmo de mim.
De qualquer forma, já que estávamos juntos dentro de um elevador, dava para dizer que estávamos em um espaço privado.
— Estamos de férias. Não é tão estranho assim a gente se esbarrar de vez em quando, é? — falei.
— Bem… não. Mas… eu simplesmente não quero mais ter nada a ver com você.
— Eu sei.
Pelo visto, da última vez que ela veio ao meu quarto também não tinha ficado muito satisfeita. Se Ishizaki não tivesse praticamente a forçado a acompanhá-lo, ela provavelmente nem teria ido. Mesmo assim, apesar de me odiar, Ibuki veio ajudar por causa de Ryuen.
Só isso já era prova suficiente de que ela considerava Ryuen uma parte essencial da classe dela. De qualquer maneira, eu não tinha como simplesmente deixar de pegar o elevador, então entrei junto com Ibuki.
— Não vai quebrar de novo, vai?
— Agora que você falou… isso já aconteceu antes, não foi?
Se bem me lembrava, tinha sido durante as férias de verão. Ibuki e eu tínhamos ficado presos em um elevador juntos. Embora nós dois estivéssemos um pouco receosos de que algo parecido acontecesse de novo, aquilo obviamente seria coincidência demais.
O elevador chegou ao saguão do primeiro andar, e Ibuki saiu imediatamente. Aparentemente, ela também estava indo em direção ao Keyaki Mall.
— Você não se importa? Quero dizer… em manter o mesmo ritmo que eu.
Ela poderia simplesmente começar a correr se quisesse se afastar de mim imediatamente.
— Por que eu teria que fazer algo diferente? Por que você não anda mais rápido, então? — respondeu ela, irritada.
Apesar de odiar estar perto de mim, aparentemente Ibuki também não suportava a ideia de recuar. Isso realmente parecia muito com ela. Não pude deixar de pensar que tinha a ver com aquele tipo de espírito competitivo que odeia perder.
Dito isso, seria estranho eu sair correndo só para me afastar dela. Para mim, caminhar no mesmo ritmo que Ibuki não era problema. Além do mais, se eu fosse correndo até o Keyaki Mall, acabaria chegando cedo demais. Seria apenas um desperdício de energia.
No fim das contas, nenhum de nós recuou. Continuamos andando lado a lado, mantendo praticamente o mesmo ritmo. Meu destino ficava a cerca de cinco minutos do dormitório. Logo iríamos nos separar.
— Fico feliz que o Ryuen tenha voltado.
— Aff, cala a boca. Só cala a boca. Não fala comigo.
Nem conversa fiada eu tinha permissão para fazer. Achei melhor não dizer nada desnecessário. O silêncio aparentemente não incomodava Ibuki, então resolvi ficar quieto também. Continuamos andando lado a lado, enquanto eu me sentia como se estivesse pisando em ovos o tempo todo.
— Ei, Ibuki! Espera aí! — gritou Ishizaki.
— Aff, cala a boca! Não precisa gritar tão alto quando você está tão perto — retrucou Ibuki.
— Ué, só fiz isso porque você não tava respondendo! Hein? Espera… você tá com o Ayanokoji. Não me diga que vocês dois estão num… encontro? — perguntou Ishizaki, que tinha corrido para nos alcançar. Assim que ouviu essas palavras, Ibuki imediatamente chutou a parte de trás do joelho dele.
— Ai! Ei, que diabos foi isso?!
— Você sabe muito bem por que levou esse chute. Além disso, é estranho ficar perto de você. Cai fora — disse Ibuki.
— Hã? Qual é, tá tudo bem, não tá? Quer dizer, a gente já tinha combinado de se encontrar mais tarde mesmo — respondeu Ishizaki. Aparentemente, os dois tinham marcado de se encontrar no Keyaki Mall.
— Imagino que o Ryuen também vai estar lá? — perguntei.
— Sim, ele vai— quer dizer, não… Ah…
Depois que perguntei casualmente se Ryuen estaria lá, Ishizaki acabou deixando escapar a resposta sem querer.
— Idiota — disse Ibuki.
Pelo visto, os dois tinham planejado se encontrar no Keyaki Mall separadamente, por algum motivo. Não era difícil deduzir isso, considerando a reação exagerada de Ishizaki quando ouviu o nome de Ryuen. Provavelmente estavam tentando se encontrar em segredo.
— B-Bom, tanto faz, né? Não adianta tentar esconder isso do Ayanokoji mesmo — disse Ishizaki, tentando se justificar. Ibuki, porém, continuou com uma expressão severa.
— Importa sim. Porque, no fim das contas, se não derrotarmos ele, nunca vamos chegar ao topo.
— É… acho que você tem razão…
Eles não deveriam estar tendo esse tipo de conversa quando eu estou por perto? Mesmo que eu ainda estivesse um pouco cético sobre o retorno de Ryuen, pelo que parecia, era bastante provável que ele realmente fosse voltar. Imaginei que o motivo de estarem se encontrando em segredo fosse porque ele ainda não tinha oficializado o retorno.
Ryuen já tinha abdicado do trono uma vez. Obviamente, seus colegas de classe não aceitariam tão facilmente que ele o retomasse. Além disso, Ishizaki também estava enfrentando seu próprio dilema, já que foi ele quem recebeu o crédito por ter derrotado Ryuen. Enquanto eu organizava esses pensamentos na cabeça, Ishizaki me chamou.
— Ei, Ayanokoji.
— Hm?
— Eu bolei o plano definitivo para chegar à Classe A. Quer fazer parte dele? — perguntou. O que ele acabou de dizer foi tão repentino que fiquei completamente sem saber como responder.
— Então deixa eu ouvir. Qual é esse seu plano definitivo?
— Claro! — respondeu ele, batendo orgulhosamente no peito. — Escuta só. Você vem pra nossa classe. Aí chegar à Classe A vai ser garantido, né?
— Hã? Que merda você tá falando de repente? — perguntou Ibuki.
— Se o Ryuen-san e o Ayanokoji unirem forças, a gente fica invencível, cara. Dá pra derrotar a Sakayanagi e a Ichinose.
— Não. Não. Nem ferrando — disse Ibuki, rejeitando a ideia na mesma hora.
Então esse era o plano definitivo que Ishizaki tinha bolado. Hm… unir forças com o Ryuen, é…?
— Não é uma ideia ruim — eu disse.
— Você… está falando sério? — perguntou Ibuki, olhando para mim com nojo.
— Viu só? Se você disser que vai entrar pro nosso time, a gente te recebe de braços abertos. Acho até que você e o Ryuen-san iam se dar bem, surpreendentemente. E, sabe, o Albert gosta de você. Quando você apareceu na conversa outro dia, o cara ficou todo animado — disse Ishizaki.
Era a primeira vez que eu ouvia que Yamada Albert gostava de mim. Espera… um minuto. Será que dava mesmo para interpretar isso como "gostar"? Nós quase nem tínhamos interagido. A única vez de que eu me lembrava era quando nos encontramos no telhado.
Será que ele tinha o hábito de gostar das pessoas com quem lutava? Se fosse o caso, eu imaginaria mais que ele guardasse ressentimento.
— Mas ele não disse isso explicitamente, disse? — perguntou Ibuki, claramente desconfiada também.
— Cara, homem percebe esse tipo de coisa. É um pressentimento. Intuição.
Sim… uma intuição bem pouco confiável. Se eu realmente aceitasse a proposta e entrasse para a classe do Ryuen, era até possível que Albert tentasse lutar comigo de novo. Era evidente que Ishizaki tinha inventado essa ideia sozinho, e ele era o único que parecia ficar cada vez mais empolgado com ela. Embora eu apreciasse o entusiasmo dele, resolvi responder com sinceridade.
— Isso não vai acontecer. O que vocês fariam com os vinte milhões de pontos necessários para a transferência de classe? Esse é o requisito básico.
Mesmo tendo derrotado a Classe B no exame de fim de ano, não havia como eles terem juntado tantos pontos.
— Ah, sei lá… o Ryuen-san daria um jeito — disse Ishizaki.
— Não. Ele não faria nada disso — respondeu Ibuki.
— Você acha? Eu acho que o Ryuen-san ajudaria se o Ayanokoji resolvesse se juntar à gente.
— Não consigo imaginar ele ajudando em nada.
Nesse ponto, eu concordava com Ibuki. Ryuen não era o tipo de cara que aceitaria uma ideia tão bem-intencionada assim. Ele não iria tão longe a ponto de unir forças comigo para chegar à Classe A.
O orgulho dele como homem simplesmente não permitiria isso. Para falar a verdade, eu também não queria que ele fosse o tipo de pessoa que aceitaria algo assim.
— Pra ser sincero, é mais divertido ter você como inimigo do que como aliado. Fico feliz com a oferta, mas vou ter que recusar.
Esse ponto era importante mesmo antes de considerar o problema dos Pontos Privados.
— Sério? Poxa… e eu achando que era uma ideia tão boa.
— Você é mesmo esquisito. Acha divertido ser inimigo dos outros? — disse Ibuki, soltando um bufar. Ela nem sequer virou o rosto para olhar para mim.
— Sim. Estou ansioso para ver o que você vai fazer — admiti abertamente. Quando eu disse isso, Ibuki fez uma cara de nojo, como se estivesse prestes a vomitar. Eu não queria chamar atenção agindo de forma provocativa ou algo do tipo, mas ficaria feliz em ter uma revanche com Ryuen.
No entanto, para que isso acontecesse, ele precisava crescer mais. Precisava mostrar que conseguia vencer Horikita, Ichinose e Sakayanagi. Pouco depois, chegamos perto do Keyaki Mall.
— Foi mal, Ayanokoji, mas a gente vai se separar por aqui. Seria um saco se alguém visse a gente andando com você — disse Ishizaki. Nos despedimos perto da entrada principal do shopping, e eu decidi entrar no prédio por outro caminho.
Embora eu não soubesse onde eles planejavam se encontrar depois, imaginei que não fazia mal trocar ideias como acabamos de fazer. Não era muito típico de Ishizaki demonstrar tanta consideração pelos outros, então eu sinceramente fiquei grato.
Quando conheci Ishizaki pela primeira vez, nunca imaginei que acabaríamos desenvolvendo um relacionamento em que conseguiríamos conversar assim. Quanto à Ibuki, eu sentia que nosso relacionamento tinha até regredido em comparação com antes, mas suponho que isso também era uma forma de desenvolvimento.
— Um ano realmente passou, hein…
O ambiente ao meu redor tinha mudado bastante no último ano. Agora eu conseguia ter conversas normais com alunos de outras classes, como Ryuen e Sakayanagi, entre outros.
Mesmo que tenha sido apenas um ano, ainda assim foi um ano inteiro. Era a prova de que o tempo não fica parado. Agora eu conseguia perceber a passagem do tempo — algo que eu não conseguia quando era criança. Falando nisso… aquilo me fez lembrar desta mesma época no ano passado.
Do período antes de eu começar a frequentar a Advanced Nurturing High School, quando eu passava meus dias discretamente, tentando não deixar ninguém perceber que estava prestes a começar na escola. Eu saboreava aquela sensação de vazio. Principalmente porque tentava não provocar… ele.
Aquele homem. Porque eu sabia muito bem que, se chamasse a atenção dele, ele teria me impedido. Eu havia sido salvo por uma série de fatores. Se ele estivesse por perto com mais frequência, talvez não tivesse deixado passar o que eu estava fazendo. No entanto, ele era um homem ocupado, então raramente voltava para casa.
Embora houvesse empregados encarregados de me vigiar, o próprio homem passava setenta ou oitenta por cento do ano vivendo em hotéis. Não era como se eu fosse muito familiarizado com aquela casa, mesmo tendo morado lá. Passei a maior parte da minha vida na Sala Branca. Aquela casa não tinha sido nada além de uma moradia temporária por menos de um ano.
Para mim, não era muito diferente de um hotel.
— A Sala Branca, hein…
Aquele homem ainda não tinha desistido. Se fosse o caso, eu sentia que ele estava fazendo tudo ao seu alcance para resistir aos meus esforços. Eu não sabia o que tinha acontecido durante o último ano, mas era seguro presumir que a Sala Branca havia retomado suas atividades.
Enquanto a Sala Branca precisasse de mim, era praticamente certo que eu voltaria para lá. Eu teria que enfrentar esse problema num futuro não muito distante. Daqui a dois anos.
Eu esperava poder passar mais dois anos nesta escola, mas… Não adiantava pensar nisso agora.
Além disso, no momento eu estava vivendo uma situação que nem conseguiria imaginar um ano atrás. E eu tinha certeza de que tudo isso ficaria gravado na minha mente como uma memória insubstituível.
Eu havia chegado ao nosso ponto de encontro, perto da entrada norte do Keyaki Mall. Normalmente, as lojas abriam às dez da manhã nos dias de semana, mas durante períodos longos de férias algumas começavam a funcionar às nove. O café no segundo andar, onde combinamos de nos encontrar, era uma dessas lojas.
— Isso aqui realmente é vida… — murmurei para mim mesmo. Fazer o que quisesse. Viver a vida despreocupada de um estudante do ensino médio. Conversar com colegas pelo celular e marcar pequenos encontros.
De alguma forma, esses dias ainda pareciam irrealistas. Eu estaria mentindo se dissesse que não era gratificante. Claro, a vida nesta escola também tinha sua parcela de problemas. Muita coisa havia mudado desde alguns meses atrás. Eu tinha ficado muito mais à vontade lidando com a garota que estava caminhando em minha direção agora.
Sim… Eu estava quase me tornando uma pessoa diferente. Pelo menos na superfície. Por enquanto, parei de pensar nisso e assumi novamente aquele outro "eu". Decidi focar toda minha atenção na conversa que estava por vir.
— Você chegou bem cedo. Ainda faltam quase vinte minutos para o nosso encontro. O quê? Está com tempo livre demais? — disse Horikita. Como era de se esperar, Horikita estava vestida com roupas casuais. Ela olhava deliberadamente para a tela do celular enquanto me cumprimentava.
— Você também chegou vinte minutos antes. Então é a mesma coisa que eu, não é?
Era como se estivéssemos provando um ao outro que nenhum de nós tinha planos para as férias de primavera. Seguimos em direção ao nosso destino no segundo andar, sem realmente entrar em nenhuma conversa profunda.
— Pelo visto, você também já entendeu sobre o que vamos falar hoje — disse Horikita.
Ela parecia ter chegado a essa conclusão pelo fato de eu não ter perguntado nada para confirmar. Ela estava correta, mas achei que seria divertido provocá-la um pouco.
— Como assim?
— Você já sabe e ainda assim vai fingir que não entende? Vai mesmo fazer todo esse teatrinho inútil? — retrucou ela.
— Não, eu realmente não entendo. Sobre o que a Ichinose pretende falar conosco?
Eu pretendia enganar Horikita, que parecia desconfiar de mim, insistindo nisso, mas…
— Você realmente não entende? Se souber e estiver só se fazendo de idiota, eu não vou deixar isso passar. Entendeu?
— Certo, calma.
Horikita estava me encarando como se estivesse prestes a me morder. Decidi parar de provocá-la imediatamente.
— Eu consigo imaginar mais ou menos sobre o que é. Não é tão difícil assim.
— Se não é tão difícil para você entender, então pare de tentar me provocar — respondeu ela, com toda razão. Achei que não havia muito sentido continuar tentando mexer com a cabeça de Horikita desse jeito.
— Você estava me testando? Para ver o quanto eu tinha entendido? — perguntou ela.
— Você está pensando demais.
— Tem certeza?
Ela parecia estar ficando mais perspicaz. Ou melhor… talvez eu devesse dizer que ela estava começando a entender meus métodos. Provavelmente truques superficiais já não funcionariam mais com ela. Resolvi recuar, já que continuar insistindo provavelmente acabaria me causando algum dano.
— Bem… mais importante que isso… ela está ali.
Consegui ver Ichinose esperando perto da entrada do café, então mudei de assunto. Ainda faltavam dez minutos para o horário combinado. Pelo visto, Ichinose tinha chegado bem cedo.
— Talvez a Ichinose tenha tão poucos planos para as férias quanto nós — comentei. Era difícil imaginar que ela tivesse acabado de chegar ali. Quanto tempo ela estava esperando na entrada, eu me perguntei.
— Não tem como ela ser como nós. No caso dela, imagino que seja apenas responsabilidade… ou melhor, disciplina demais para chegar atrasada. Provavelmente ela só não quer fazer a pessoa que vai encontrar esperar — disse Horikita. Ela provavelmente estava certa.
— Então é assim que você vê a Ichinose também?
— No começo, eu pensei que ela fosse falsa. Alguém que apenas fingia ser uma boa pessoa — disse Horikita. As palavras dela foram tão diretas e francas que quase pensei que estivesse exagerando. — Mas depois deste último ano, a imagem que eu tinha dela mudou completamente. Ela é uma pessoa pura, genuinamente bondosa.
Existem muitas pessoas que fingem ser boas, mas encontrar alguém que realmente seja assim é bastante difícil. A maioria das pessoas fala mal dos outros pelas costas e age de forma hipócrita. Mas não havia dúvida de que Ichinose era uma dessas raras pessoas genuinamente boas.
— Que tipo de vida ela teve antes, eu me pergunto… para se tornar uma pessoa tão boa assim? — disse Horikita. Essa era a única coisa sobre a qual eu não tinha a menor ideia. — Ser uma boa pessoa é a força dela. Mas, ao mesmo tempo, também é a fraqueza dela — acrescentou Horikita, soltando um suspiro que parecia misturar admiração e preocupação por Ichinose enquanto nos aproximávamos.
Quanto mais genuinamente boa uma pessoa fosse, mais pessoas ruins tenderiam a se aproveitar dela.
— Você acha que seria melhor não ser uma boa pessoa? — perguntei.
— Se você vivesse sozinho nas montanhas, cercado pela natureza, então tudo bem. Mas, se quiser sobreviver em uma sociedade competitiva, acho que precisa abandonar a ideia de ser completamente bom — respondeu Horikita.
— Entendo.
— Mas, no caso dela, tenho certeza de que continuará sendo uma boa pessoa até o fim da vida — disse Horikita. Ela estava dizendo que Ichinose provavelmente continuaria sendo boa mesmo que isso acabasse prejudicando ela mesma.
— Mesmo assim, a Ichinose sabe distinguir entre certo e errado, entre o bem e o mal. Tenho certeza de que ela está preparada para fazer o que for necessário para proteger os colegas de classe — argumentei.
— Se for assim, então ótimo. De qualquer forma, acho que já chega dessa conversa boba — disse Horikita.
A expressão dela ficou séria enquanto se preparava para a conversa que estava por vir. Decidimos parar com a conversa casual e chamamos Ichinose.
— Você chegou cedo, Ichinose-san. Espero que não tenha esperado muito por nós — disse Horikita.
— Bom dia, Horikita-san, Ayanokoji-kun. Ah, e de jeito nenhum! Eu também acabei de chegar.
Ichinose nos recebeu calorosamente, com o sorriso de sempre no rosto, vestindo roupas casuais. Provavelmente era apenas educação da parte dela — um cumprimento típico. Ainda assim, eu me perguntava quando ela realmente tinha chegado ali.
— Imagino que seja fácil encontrar lugar logo cedo — comentei.
Parecia que ainda havia poucos estudantes por ali, então podíamos sentar praticamente em qualquer mesa.
— Podem pedir o que quiserem. Eu pago hoje — disse Ichinose, batendo levemente no peito com o punho, como se estivesse declarando que ficaria responsável pela conta.
— Isso não é… uma espécie de moeda de troca para usar na nossa conversa, é? — perguntou Horikita.
Por um momento, Horikita ficou em guarda. Afinal, ela mesma já havia preparado uma refeição caseira para certa pessoa no passado com a intenção de tirar proveito da situação.
— Ela não é você. Ela não faria isso — respondi.
— Eu realmente não gostei da forma como você disse isso, mas… você tem razão — respondeu Horikita. Como a própria Horikita havia dito antes, a pessoa com quem estávamos nos encontrando era Ichinose. Eu simplesmente não conseguia imaginá-la fazendo algo assim para nos colocar em dívida. Mesmo que ela tentasse algo desse tipo, tenho certeza de que Horikita daria um jeito de recuperar o controle da situação.
— Bem, então acho que vamos aceitar sua oferta, se você realmente não se importar — disse Horikita.
— Claro! Por favor, fiquem à vontade. Você pode pedir primeiro, Horikita-san.
Como Ichinose insistiu, Horikita decidiu fazer o pedido primeiro. No entanto, havia uma coisa que me preocupava, então me aproximei de Ichinose e falei em voz baixa. Mais uma vez, consegui perceber um leve aroma cítrico vindo dela.
— Ichinose, mas isso vai ficar tudo bem? Quero dizer… com seus Pontos Privados?
Apesar de eu ser grato pela oferta dela de nos pagar algo, ela deveria estar com zero pontos agora, já que havia impedido que um colega da Classe B fosse expulso. Provavelmente ela sentia que deveria pagar porque foi quem nos convidou, mas eu estava preocupado com a situação financeira dela.
— Ah, está tudo bem. Mesmo depois de pagar isso, ainda devo ficar com uns três mil pontos. Não tem problema — respondeu ela.
Abril estava logo ali.
Se ela ainda tinha essa quantia, provavelmente conseguiria aguentar até lá sem problemas. Mesmo assim, eu tinha certeza de que ela deveria estar com zero Pontos Privados. Talvez Ichinose tenha percebido minha dúvida, porque voltou a falar.
— Eu consegui vendendo meu secador de cabelo. Vendi para a Nishikawa-san da Classe A para conseguir algum dinheiro. Achei que era a única forma de passar pelo mês de março. As outras garotas também estão fazendo coisas parecidas para conseguir aguentar — explicou Ichinose.
Embora existam sistemas na escola que permitem sobreviver mesmo sem dinheiro, às vezes ainda é necessário ter algum em mãos. Se alguém estiver disposto a vender um item por um preço menor do que nas lojas, é possível negociar e fechar um acordo.
— Então você realmente não precisa se preocupar, Ayanokoji-kun. Por favor, vá lá e faça seu pedido — disse Ichinose, me empurrando gentilmente para frente.
De fato, ela provavelmente não ficaria muito feliz se eu fosse o único que não aceitasse sua oferta. Depois que Horikita terminou de fazer o pedido, fui até o balcão e pedi um café. Em seguida, pegamos nossos pedidos e nos sentamos em uma mesa no canto do café. Eu queria começar logo a conversa, enquanto ainda havia poucos estudantes por perto, e imaginei que Ichinose e Horikita pensavam o mesmo. Assim que nos sentamos, Horikita iniciou a discussão.
— Então… eu estava pensando se você nos chamou aqui para falar sobre o exame. Ou talvez sobre quais serão nossas políticas a partir de abril?
Parecia que ela havia previsto corretamente o assunto que Ichinose queria tratar, mesmo sem discutir nada comigo antes.
— Ahaha! Você me pegou direitinho. Está absolutamente certa — respondeu Ichinose, admitindo com uma risada. Mesmo rindo, seus olhos tinham um olhar sério — prova de que ela entendia que aquela conversa não era nem um pouco trivial.
— Foi um incômodo eu ter chamado vocês para conversar? — perguntou ela.
— De forma alguma. Eu também achei que essa conversa precisava acontecer em breve, então fiquei feliz que tenha nos procurado, Ichinose-san. Além disso, você é uma pessoa bastante popular, então imaginei que fosse difícil conseguir marcar algo — disse Horikita.
— Ah, não, nada disso. Na verdade, eu tenho estado bem livre nessas férias de primavera. Podem me chamar quando quiserem — respondeu Ichinose, com um sorriso gentil.
Ainda assim, havia um leve traço de tristeza dolorosa naquele sorriso. Provavelmente algo tinha acontecido — talvez ela tenha recebido convites e os recusado. Claro, Horikita provavelmente também percebeu isso.
— Parece que você realmente teve dificuldades no exame final — eu disse.
Talvez não fosse a forma mais apropriada de começar a conversa, mas resolvi tocar no assunto mesmo assim. Mesmo que tentássemos conduzir a conversa de forma indireta para evitar reabrir aquela ferida, mais cedo ou mais tarde teríamos que falar sobre isso. Era melhor enfrentar a dor logo no começo, para que ela pudesse se recuperar mais rápido.
Talvez Horikita tivesse planejado adiar um pouco esse assunto, porque por um instante uma expressão tensa apareceu em seu rosto. Mesmo assim, ela pareceu perceber minha intenção ao trazer o tema à tona, e sua expressão mudou.
— Bem… é verdade. Eu perdi completamente. Senti como se tivesse sido totalmente dominada pela estratégia do Ryuen-kun — disse Ichinose, confirmando o que eu havia dito. Ela balançou a cabeça de um lado para o outro e soltou um longo suspiro, como se estivesse relembrando o que havia acontecido. Depois suspirou novamente, parecendo deprimida e claramente frustrada.
— Eu ainda não sei os detalhes. O que fez vocês perderem? — perguntou Horikita.
— A causa é clara. Foi porque eu não fui boa o suficiente — respondeu Ichinose.
Ela não disse que foi culpa do comandante adversário, nem culpou seus colegas de classe. Respondeu à pergunta de Horikita sem qualquer hesitação, colocando toda a culpa somente em si mesma, como comandante.
— Mesmo que não tenhamos assistido diretamente ao exame de vocês, é difícil imaginar que você tenha cometido algum grande erro — disse Horikita.
— Você está me dando crédito demais. Para ser sincera, senti como se estivesse em pânico o tempo todo… — disse Ichinose.
Horikita tentou elogiá-la, mas Ichinose rejeitou humildemente. Para dizer a verdade, eu acreditava que ela realmente esteve em pânico. Eu tinha visto o quanto ela ficou abalada desde o momento em que Ryuen apareceu. Provavelmente ele conseguiu manter aquela sensação de choque durante todo o exame.
— Nós assumimos que o Kaneda-kun seria o comandante deles. Mas não foi. Aquela primeira surpresa nos desestabilizou completamente — explicou Ichinose.
— Isso é perfeitamente compreensível. O Ryuen-kun havia se retirado da posição de líder da classe. Além disso, não havia como um aluno sem um Ponto de Proteção se tornar comandante. Tenho certeza de que foi isso que todos pensaram. O Ryuen-kun foi a exceção — disse Horikita.
Isso era verdade. Nem Sakayanagi, nem eu havíamos imaginado que Ryuen apareceria daquela forma. Seria completamente irracional esperar que Ichinose, sendo a oponente direta dele, não se surpreendesse. Se Ryuen tivesse perdido, teria sido expulso. Ninguém além dele seria capaz de colocar a própria vida escolar em risco e lutar uma batalha tão desesperada.
— O fato de que a culpa é minha não muda. Eu não consegui me recompor durante todo o teste… até o final — disse Ichinose.
Ela pensou que enfrentaria Kaneda, mas de repente Ryuen apareceu. Mesmo não sendo problema meu, toda aquela situação me fazia sentir pena de Ichinose. O comandante tinha limitações no que podia fazer. Porém, como os comandantes podiam conversar livremente durante o exame, tenho certeza de que Ryuen a pressionou completamente com suas palavras.
— Ouvi dizer que você e sua classe lutaram muito bem contra a Classe A, Ayanokoji-kun — disse Ichinose, oferecendo palavras de elogio e mudando o rumo da conversa. Se havia algum problema que poderia surgir com essa mudança de assunto, era o fato de que eu havia dito a Ichinose que queria enfrentar a Classe A. Horikita não sabia disso. Ela havia me instruído a enfrentar a Classe D. Mas eu perdi o sorteio e nunca tive a chance de escolher a Classe D como nossa adversária.
Dependendo de como a conversa avançasse, inconsistências poderiam aparecer, e isso poderia acabar me colocando em uma situação complicada. Poderia parecer que teria sido uma boa ideia encontrar Ichinose antes para discutir isso, mas o problema era que eu havia dito a ela que quem queria enfrentar a Classe A era a própria Horikita.
Ichinose acreditava que Horikita havia me ordenado a escolher a Classe A como adversária.
Horikita acreditava que havíamos perdido o sorteio e não tivemos escolha além de enfrentar a Classe A. Tanto Ichinose quanto Horikita estavam numa situação em que nenhuma das duas conhecia a verdade.
Eu poderia simplesmente conduzir a conversa de maneira que impedisse as duas de perceberem isso. Normalmente, o "eu de antes" teria preparado tudo com antecedência. Ou, como uma medida de emergência, tomaria providências naquele momento para impedir que descobrissem.
Depois de pensar cuidadosamente, decidi me expor deliberadamente diante de Horikita. Foi por isso que eu não tinha tomado nenhuma ação até então. Eu queria descobrir o quanto Horikita havia evoluído.
— Uma derrota é uma derrota. Eu até me dei ao trabalho de pedir para você abrir mão do direito de escolher a Classe A como adversária, para que nós pudéssemos enfrentá-los no lugar de vocês. Acho que, se a Classe B tivesse enfrentado a Classe A, o resultado poderia ter sido diferente — respondi.
Ao ouvir meu comentário casual, Horikita voltou o olhar para mim por um instante. Claro, eu não precisava me perguntar o que aquele olhar significava. Era como se dissesse: "O que você quer dizer com "para que nós pudéssemos enfrentar a Classe A"?"
Mas, considerando a forma natural como inseri isso na conversa, Horikita decidiu deixar passar por enquanto. O olhar que ela me lançou foi tão natural e tão breve que nem mesmo Ichinose teria motivo para desconfiar. Isso provava que Horikita havia entendido, no momento em que ouviu minhas palavras, que aquele não era um assunto para ser abordado ali.
A Horikita de antes provavelmente teria dito em voz alta: "Do que você está falando?"
E, ao fazer isso, teria despertado suspeitas em Ichinose. Mesmo que não chegasse a tanto, teria plantado uma dúvida na mente dela, fazendo-a sentir que algo estava errado. A capacidade de compreensão e julgamento de Horikita havia melhorado consideravelmente… ou talvez fosse melhor dizer que agora isso simplesmente estava mais evidente.
Graças ao fato de Horikita ter permanecido em silêncio, a única "verdade" que restava para Ichinose era que essa havia sido uma decisão de Horikita desde o início. Além disso, isso também ajudava a manter minha presença menos perceptível para as outras classes.
— Como resultado do meu pedido, você e sua classe tiveram que enfrentar uma batalha difícil, Ichinose-san — disse Horikita, pedindo desculpas enquanto acompanhava o ritmo que eu havia imposto à conversa.
— A responsabilidade é minha. Não é algo pelo qual você deva se desculpar, Horikita-san — respondeu Ichinose. Era fácil perceber que foi um confronto desfavorável para a Classe B. Como resultado da batalha contra a Classe D, a Classe B terminou com duas vitórias e cinco derrotas. Mais importante ainda, isso levou a Classe B a perder muitos Pontos de Classe de uma só vez.
— Além disso, tudo isso é apenas um "e se". No fim das contas, foi o Kaneda-kun da Classe D quem venceu o sorteio e escolheu a Classe B como adversária. Então não há problema — acrescentou Ichinose.
Isso era verdade. Pelo menos, era essa a conclusão que se chegaria observando apenas os resultados. Mesmo sem preparação prévia, o confronto entre Classe B e Classe D era inevitável.
— Não se preocupe com isso, Horikita-san. Eu… eu deveria ter pensado melhor e elaborado uma estratégia mais sólida para vencer. É algo sobre o qual tenho refletido bastante — disse Ichinose.
Embora fosse uma declaração proativa, o quanto isso realmente mudaria as coisas era outra questão.
— Se você não se importar, posso perguntar quais estratégias de batalha vocês usaram e em quais eventos? Claro, em troca eu conto em detalhes como foram as coisas do nosso lado — disse Horikita.
Horikita provavelmente já havia ouvido rumores sobre o que aconteceu com a Classe B. Mas os detalhes exatos do que ocorreu entre os comandantes eram algo que apenas os envolvidos poderiam saber. Ichinose respondeu à proposta de Horikita com um aceno de cabeça. Ela explicou tudo em detalhes, sem esconder nada.
Quais eventos ela e sua classe haviam escolhido.
Quais eventos Ryuen e sua classe haviam escolhido.
Quais eventos foram finalmente selecionados e em que ordem.
As armadilhas que Ryuen havia preparado.
Onde eles venceram e onde perderam.
Ichinose contou tudo. Inclusive as razões pelas quais perderam. A classe de Ryuen havia adotado um sistema brutal de competição eliminatória, com todos os eventos focados em artes marciais. Era uma formação extremamente perigosa para a Classe B.
— Bem… dá para dizer que eles realmente usaram uma estratégia que explorava ao máximo os próprios pontos fortes — comentou Horikita.
— Provavelmente nós também não teríamos nenhuma chance contra eles — acrescentei.
— Sim, acho que você tem razão… Pelo menos entre os meninos nós temos o sudou-kun. Ele é o único em quem poderíamos confiar para vencer. Bem… na verdade, não. Não há garantia de que ele venceria o Yamada-kun — refletiu Horikita.
Se Koenji levasse as coisas a sério, ele também seria um forte candidato. Mas eu não esperava que Horikita trouxesse isso à tona. Quanto às garotas da nossa classe, era duvidoso que qualquer uma delas — exceto a própria Horikita — conseguisse avançar muito em uma competição daquele tipo.
— Com o estilo de luta do Ryuen-kun, ele talvez até conseguisse vencer a Classe A — disse Horikita.
— Sim, concordo com você — respondi.
No fim das contas, tudo se resumiu à sorte. Se a sorte pendesse um pouco a favor de Ryuen, havia uma chance de ele vencer qualquer classe. Ainda assim, no geral, sua maior taxa de vitória aparecia quando enfrentava a Classe B. Isso era prova de que ele tinha a Classe B como alvo desde o início.
— Mas espere… por que vocês acabaram com apenas duas vitórias, mesmo tendo muitos eventos do teste que foram escolhidos pela Classe B? — perguntou Horikita.
A estratégia de Ryuen realmente era formidável, mas a Classe B também teve sorte no sorteio dos eventos. Ichinose deveria ter tido boas chances de vencer, considerando que quatro dos eventos escolhidos eram da Classe B.
— Certo — disse Ichinose.
Horikita ainda não sabia o que realmente havia acontecido. Eu também não. Então ouvimos com atenção, sem fazer suposições. O que aconteceu fazia parte da estratégia que Ryuen havia colocado em prática. Ichinose explicou como Ryuen e os alunos da Classe D não fizeram nada diretamente contra os estudantes da Classe B, mas passaram a segui-los constantemente, causando pressão mental e emocional.
Eles se aproximavam de forma agressiva, encaravam os alunos de perto, pressionando-os psicologicamente. E no dia do exame, vários estudantes da Classe B adoeceram repentinamente, incapazes de demonstrar todo o seu potencial. Depois de terminar de contar tudo o que havia acontecido, Ichinose acrescentou mais uma coisa.
— Eu falhei no evento em que eu mesma era especialista… aquele que eu escolhi. Não consegui me adaptar à situação. Isso é uma falha minha como comandante.
Ela deixou muito claro que a culpa não era de Ryuen. Era dela mesma.
— Várias pessoas com dores de estômago… e estudantes sofrendo pressão mental e emocional… Isso significa que… — começou Horikita. Naturalmente, ela também entendeu que aquilo fazia parte do plano de Ryuen.
— Eu acredito que foi uma armadilha do Ryuen-kun, sem dúvida. Quando conversei com alguns colegas que passaram mal, eles disseram que tinham encontrado o Ishizaki-kun e outras pessoas no karaokê antes do exame — explicou Ichinose.
Karaokê, hein. Era um dos poucos lugares onde os estudantes não eram monitorados. Então eles devem ter feito algo ali… talvez colocado algo na comida ou bebida dos alunos da Classe B. Era uma jogada extremamente arriscada.
— Você não deveria reportar isso à escola? Não custa nada fazer uma denúncia — disse Horikita.
Já havia passado uma semana desde o fim do exame. Claro, qualquer comida ou bebida dos estudantes já teria sido descartada. Mesmo que encontrassem provas de que alguém comprou algum medicamento na farmácia, isso não significaria muita coisa. A discussão provavelmente ficaria presa em um debate interminável sobre se o remédio realmente foi dado aos alunos da Classe B ou não.
— Levantar a questão não é uma má ideia. Mesmo que nada aconteça desta vez, isso pode servir como um aviso para a próxima. Se continuarem fazendo coisas tão imprudentes, a escola naturalmente passará a julgá-los com mais severidade — argumentou Horikita.
Se a escola descobrisse que a Classe D realmente fez aquilo, seria um problema sério. Provavelmente seriam implementadas medidas para impedir que algo assim acontecesse novamente.
— Você provavelmente está certa. Mas, de qualquer forma, não pretendo denunciar o que aconteceu desta vez.
Ichinose recusou a sugestão de Horikita. Já havia passado uma semana desde o exame, e era quase certo que seus colegas de classe haviam pedido repetidamente que ela denunciasse o ocorrido. Mesmo assim, ela não fez nada. Bem… isso não era exatamente surpreendente.
— Por quê? Você simplesmente vai aceitar isso? Isso é um assunto sério. Se o Ryuen tivesse cometido um único erro — mesmo que fosse um pequeno deslize — e você denunciasse, isso poderia virar completamente o resultado do exame — disse Horikita.
Ela queria dizer que não havia como ter certeza de que nenhuma prova poderia ser encontrada. Dependendo de como as coisas se desenrolassem, Ryuen e outros alunos da Classe D poderiam receber suspensão… ou algo pior. E quanto mais tempo passasse, mais difícil seria fazer esse tipo de denúncia à escola.
— Se você quiser, eu posso ajudá-la — acrescentou Horikita.
Se Horikita estivesse no lugar de Ichinose, definitivamente não aceitaria essa injustiça em silêncio. Era exatamente por isso que ela estava fazendo uma oferta tão firme naquele momento.
— Obrigada, Horikita-san. Mas eu não acho que posso recorrer à escola. Não há provas concretas neste momento e, além disso… quero que isso sirva como uma lição importante.
Apesar da tentativa de Horikita de convencê-la, Ichinose recusou a oferta.
— Uma lição? O que você quer dizer com isso? — perguntou Horikita.
— Eu acho que tive sorte — disse Ichinose.
Momentos antes, Ichinose parecia abatida. Mas agora um pequeno brilho havia retornado aos seus olhos. Como um motor danificado tentando voltar a funcionar com esforço.
— Se algo assim tivesse acontecido no final do nosso segundo ano, ou em um momento crítico do terceiro ano, eu não faço ideia do tamanho do problema que seria. Mas como aconteceu agora… acho que vou ficar bem.
Depois de dizer isso, Ichinose assentiu. Seus olhos carregavam uma espécie de força enquanto olhava para mim e para Horikita. Provavelmente eu era o único que compreendia o brilho daquele momento.
— Toda a nossa classe está levando essa derrota muito a sério. E decidimos que vamos usar essa experiência da melhor forma possível daqui para frente — disse Ichinose.
— Entendo. Nesse caso, acho que não há mais nada que eu, como alguém de outra classe, precise dizer — respondeu Horikita.
— Acho que sim — acrescentei.
Com isso, a discussão sobre Classe B contra Classe D chegou ao fim, pelo menos por enquanto. Já tínhamos ouvido os detalhes do que aconteceu no exame entre Ichinose e Ryuen. Horikita então me lançou uma pergunta apenas com o olhar: "Você era o comandante. Vai falar sobre isso?" Era isso que ela queria confirmar. E eu, como comandante, relatei os resultados do nosso exame e dos eventos da mesma forma que Ichinose havia feito.
Tudo o que eu disse foi simples, sem destaque, direto ao ponto.
Quais eventos foram escolhidos.
Que tipo de estratégias usamos.
Como perdemos.
Claro, não mencionei nada desnecessário — como o fato de eu ter respondido à última pergunta no evento de cálculo mental rápido.
— Eu já tinha ouvido os resultados do exame de vocês, mas mesmo assim preciso dizer que vocês lutaram muito bem — disse Ichinose.
— Ainda assim, entre os sete eventos do exame, não conseguimos competir contra Sakayanagi no xadrez — disse Horikita. — E por isso perdemos.
Era apenas uma partida. Desde que disséssemos que era apenas um evento no qual confiávamos, ninguém teria motivo para investigar mais a fundo. Além disso, o fato de termos perdido justamente para Sakayanagi já era suficiente para qualquer pessoa considerar a derrota compreensível.
— A única coisa boa nisso… Bem, não sei se realmente dá para chamar de algo bom, mas o fato de termos perdido apenas trinta pontos é um alívio. Não podemos permitir que as classes superiores se afastem ainda mais de nós — disse Horikita.
— Você e sua classe têm ficado cada vez mais fortes, Horikita-san. Não podemos baixar a guarda — respondeu Ichinose. Ela elogiou sinceramente Horikita e nossa classe, claramente esperando que nos tornássemos rivais em um futuro próximo.
— É isso mesmo. Nossa classe está ficando mais forte — afirmou Horikita. Ao ver a confiança nos olhos de Horikita e ouvir a firmeza em suas palavras, Ichinose assentiu suavemente.
— Há outra coisa que eu queria dizer hoje, relacionada a outro ponto da nossa conversa, se não se importarem — disse Horikita.
— Claro — respondeu Ichinose.
A segunda metade da conversa começou ali. A parte realmente importante. E quem iniciou essa parte não foi Ichinose, mas Horikita.
— Para ser franca, eu gostaria de encerrar nossa parceria a partir do próximo ano — disse Horikita.
A proposta de Horikita foi inesperada. Mas, aparentemente, não para Ichinose. Ela parecia já estar preparada para isso.
— Eu tinha a sensação de que você provavelmente sugeriria isso — disse Ichinose.
— Perdemos para a Classe A no exame final do primeiro ano e fomos rebaixados novamente para a Classe D. Se você olhar apenas para a classificação, parece que perdemos. Mas, na realidade, não foi bem assim. Se for o caso, acho que diminuímos a diferença — disse Horikita.
— Isso é verdade. Considerando que sua classe chegou a ficar com zero pontos, significa que vocês foram a classe que mais ganhou Pontos de Classe ao longo do ano, Horikita-san. Além disso, vocês só perderam por pouco para a Classe A naquele exame, com três vitórias e quatro derrotas — disse Ichinose.
Era fácil entender isso apenas fazendo as contas, mas parecia que Ichinose também tinha plena consciência da realidade. A diferença nos resultados foi mínima. Não teria sido estranho se o resultado tivesse sido o oposto. Embora a interferência de Tsukishiro tenha sido um fator decisivo no que aconteceu, ainda assim era possível dizer que tivemos uma chance real de vencer.
— Mesmo assim… não haveria alguma forma de mantermos uma relação cooperativa? — perguntou Ichinose, sem aceitar imediatamente o fim da parceria. — Por exemplo, poderíamos manter as coisas como estão por enquanto e discutir isso novamente quando a diferença de Pontos de Classe diminuir ainda mais?
— Sou muito grata pela oferta. No entanto, acho que não devemos continuar essa relação de cooperação — respondeu Horikita. Para que aquela parceria existisse e fosse mantida, duas condições eram necessárias. A primeira era que a diferença de Pontos de Classe fosse grande o suficiente, a ponto de ser difícil para nós diminuí-la sozinhos. A segunda era que a classe em posição superior estivesse em uma situação estável.
Em maio do ano passado, havia uma diferença de seiscentos e cinquenta pontos, e a Classe B vinha mantendo seus pontos de forma estável. Foi justamente por isso que fazia sentido para nossa classe, que na época estava lutando para sobreviver, se aproximar da Classe B.
Mas agora a situação era diferente. Nossa classe havia conquistado mais de trezentos pontos ao longo do ano, enquanto a Classe B acabou perdendo pontos perto do final. A diferença estava diminuindo rapidamente. Ou seja, nenhuma das duas condições anteriores ainda existia.
— Eu gostaria de estabelecer como objetivo definitivo alcançar a Classe B ou algo acima disso no próximo ano. E, para ultrapassar a Classe A, pretendo nos colocar dentro da faixa de pontos necessária — disse Horikita.
Ichinose pareceu visivelmente abalada ao ouvir Horikita declarar objetivos tão firmes.
— Entendo. Faz sentido.
O que Horikita acabara de dizer significava que ela pretendia derrotar a Classe B, liderada por Ichinose — a pessoa que estava sentada diante de nós naquele momento. Claro que não poderíamos continuar aliados nessas circunstâncias. Horikita havia recusado continuar a parceria porque concluiu que uma relação pela metade apenas atrapalharia seus objetivos.
— Imagino que você não tenha objeções, Ayanokoji-kun — disse Horikita.
— É isso mesmo. Eu vou seguir sua decisão, é claro. Essa é a escolha correta se queremos chegar à Classe A — respondi, assentindo à pergunta dela. A decisão que ela estava tomando não era errada. Ichinose fechou os olhos por um momento e então respirou profundamente.
— Sou muito grata a você, Ichinose-san, por ter nos oferecido ajuda e essa parceria quando não tínhamos outra forma de nos salvar. No entanto… mesmo que você venha a me ressentir por isso, a partir de agora seremos inimigas — disse Horikita. Ichinose ouviu a decisão firme de Horikita com aceitação silenciosa.
— Eu nunca guardaria ressentimento por isso. Além disso, desde o começo nós já éramos inimigas. Apenas fizemos uma trégua temporária. Eu também sou extremamente grata a você — respondeu ela.
Ichinose abriu lentamente os olhos novamente. Não havia nenhum sinal de ódio em seu olhar quando nos encarou.
— Acho que seremos inimigas de verdade a partir do nosso segundo ano aqui.
— Sim — respondeu Horikita. Ichinose estendeu a mão para nós. Horikita a segurou e apertou firmemente. Tenho certeza de que Horikita já estava fazendo cálculos em sua mente.
Sobre os pontos fortes e fracos da Classe B. Sobre como poderíamos derrotá-los. Da mesma forma, eu tinha certeza de que Ichinose também era capaz de perceber coisas sobre nós — como a força que nossa classe possuía.
Como lidaríamos uns com os outros?
Isso era algo que precisaríamos pensar. E assim, nossa breve conversa chegou ao fim com aquele aperto de mãos. A partir de abril, uma batalha de verdade contra a Classe B começaria.
*
Terminamos nossa reunião e nos despedimos, mas Ichinose decidiu ficar no café por mais algum tempo. Depois da derrota que sofreu e do fim da nossa parceria, imaginei que havia muitas coisas sobre as quais ela queria refletir.
Decidi voltar para o dormitório. Cheguei às escadas e comecei a descer.
— Espere um minuto.
Enquanto eu voltava do café no Keyaki Mall, Horikita me chamou, fazendo-me parar. Eu estava prestes a me virar, mas ela disse outra coisa.
— Não se vire para olhar para mim. Tem algo que eu quero perguntar, e quero que você responda sem se virar.
Foi esse o pedido dela. Pelo tom sério da voz, decidi não me virar, sinalizando que aceitava.
— O que é isso de repente?
— O que quer dizer com "de repente"? Acho que você me deve um pedido de desculpas. Hm? — respondeu ela.
Sua voz cheia de irritação atingiu minhas costas.
— Não faço ideia do que você está falando — respondi.
Tentei me fazer de inocente. Mas Horikita foi direto ao ponto, sem hesitar.
— Então você conversou com a Ichinose-san da Classe B com antecedência, para poder lutar contra a Classe A, não foi?
— Ah… isso.
— Se eu não tivesse apoiado sua história, isso teria sido um problema para você, não teria? — perguntou ela.
— Mas você apoiou, sem nenhum problema.
— Isso é… porque achei que seria uma dor de cabeça dizer o contrário. Pode me explicar o que foi aquilo?
— A própria Ichinose já disse, não foi? Kaneda venceu o sorteio e escolheu a Classe B como adversária. Ou seja, não importa o que eu tenha feito nos bastidores, o resultado acabou sendo o mesmo.
— O que estou perguntando é por que você decidiu enfrentar a Classe A sem minha permissão.
— Porque eu decidi que isso nos daria as maiores chances de vitória — respondi.
— Mas você não acha que, muito provavelmente, teríamos tido mais chances se lutássemos contra a Classe C? Contra o Kaneda-kun e o Ryuen-kun? — perguntou Horikita.
— Havia grandes chances de sermos completamente dominados, assim como aconteceu com a Classe B. Você e o sudou seriam praticamente os únicos capazes de competir de igual para igual — argumentei.
— Esse argumento se baseia no que você sabe agora, olhando para trás. Naquela época, a escolha lógica teria sido a Classe D — disse Horikita. Pelo som da voz dela, percebi que ela havia dado um passo em minha direção. Mesmo assim, não reduziu muito a distância entre nós. — Estou errada no que estou dizendo? — perguntou.
— Não, de forma alguma. É verdade que enfrentar a Classe A trazia as maiores desvantagens. Não posso negar isso.
— Vou deixar de lado o fato de você ter ignorado meus avisos. Por que escolheu a Classe A?
Mesmo entendendo que foi uma decisão que tomei sozinho, parecia que essa parte em específico ela não conseguia compreender.
— Por que você acha? Você entende por que eu preparei tudo para que isso acontecesse?
Decidi devolver a pergunta para ela… Embora fosse algo que provavelmente ela não conseguiria responder. Apenas alguém que conhecesse a relação entre Sakayanagi e eu, e o significado da Sala Branca, poderia responder.
— Com base no que eu sei… eu inferiria a resposta a partir do que você disse agora, sobre termos a maior chance de vitória. Nesse caso, por que você excluiria a Classe B e a Classe D como opções? Bem… acho que podemos descartar a Classe B sem dificuldade — disse Horikita.
Embora não tivéssemos planejado isso explicitamente, ainda existia uma aliança com a Classe B naquela época. Então era natural concluir que as chances de Ichinose quebrar nosso acordo e lutar contra nós eram baixas.
— O problema é a Classe D. Normalmente, ela seria a escolha óbvia como adversária. Não deveríamos ter hesitado em escolhê-la… mas, na realidade, a Classe B foi derrotada de forma esmagadora por eles desta vez. Tudo por causa daquele plano estranho do Ryuen-kun que os pegou completamente desprevenidos. Não há como saber como teríamos nos saído se estivéssemos na mesma situação — continuou Horikita.
Não podíamos descartar a possibilidade de que teríamos ficado em igualdade… ou até em desvantagem.
— Todo mundo pensava que a Classe D seria um adversário fácil para nós. E foi exatamente por isso que você sentiu que havia algo estranho — concluiu ela. Claro, essa provavelmente era a melhor hipótese que ela conseguia formular com base nas informações que tinha.
— Você previu que o Ryuen-kun voltaria? E quais eventos ele escolheria? — perguntou Horikita.
— Talvez. Então decidi usar a Classe B como sacrifício por causa disso — respondi.
— Mesmo que o que você esteja dizendo seja verdade, você deveria ter discutido isso comigo — disse Horikita.
— Talvez.
Eu ouvi o que ela disse sem negar nada. Aquilo realmente não era uma boa justificativa para eu ter agido sozinho.
— Mas… essa é mesmo a razão? — perguntou ela.
— O que você quer dizer?
— No exame de votação da classe, você recebeu muitos votos da Classe A e ficou em primeiro lugar. E então ganhou um Ponto de Proteção. Isso realmente foi apenas coincidência? É quase como se… você e a Sakayanagi-san tivessem conspirado juntos antes… — disse Horikita.
O que ela estava mencionando naquele momento era apenas uma coincidência simples. Ainda assim, Horikita começava a perceber a relação entre Sakayanagi e eu, e parte do que estava acontecendo nos bastidores.
— Não… acho que isso é absurdo. Mais importante, não há nenhuma prova que sustente essa ideia. Esqueça o que eu disse — falou Horikita, retirando a própria suspeita. — Gostaria de ouvir sua opinião novamente. A partir de agora, você realmente pretende subir até a Classe A, certo?
— Eu já disse isso antes — respondi.
— Sim. Mas eu não sei se você realmente quis dizer isso ou não. Pelo que posso ver, desde que a escola começou você sempre foi extremamente indiferente à ideia de subir para as classes superiores — disse Horikita.
— As pessoas mudam. Assim como você mudou. Você cresceu tanto que sinto que minha impressão inicial de você, quando entrou nesta escola, estava errada — respondi.
Na verdade, eu já havia começado a considerar a ideia de buscar as classes superiores. Mas era compreensível que Horikita duvidasse de mim e não conseguisse confiar totalmente. Especialmente porque eu não tinha sido exatamente cooperativo até agora. Não seria estranho se ela me considerasse alguém difícil de entender.
— É verdade. As pessoas mudam… e os pontos de vista também — disse Horikita.
Mesmo que ainda parecesse um pouco insatisfeita, Horikita pareceu se convencer à força a acreditar no que eu disse. No entanto, nossa conversa não parecia terminar ali.
— Nossa classe cresceu. É evidente que estamos ficando mais fortes. No entanto, isso ainda não é suficiente. A sua ajuda é absolutamente vital para alcançar a Classe A — disse Horikita.
— O que quer dizer com isso?
— Até agora, você tem cortado caminho e feito o mínimo possível tanto nos estudos quanto nas atividades físicas. É verdade que, mantendo um desempenho mediano, você não está puxando a classe para baixo. Mas isso também não significa que esteja contribuindo — disse Horikita.
Aquilo era dolorosamente verdadeiro. Em termos de contribuição visível para a classe, eu praticamente não tinha feito nada.
— Gostaria de saber se você pode se libertar dessas limitações por mim. Quero que se dedique totalmente a tudo o que fizer daqui para frente. Isso provaria que você realmente tem vontade de chegar à Classe A — disse Horikita.
O que ela disse não foi uma ameaça. Também não foi exatamente um pedido. Ela estava apenas observando minha reação. Claro, o fato de ela dizer algo tão provocativo me divertia um pouco.
— Recuso — respondi.
— Eu sabia — disse Horikita.
Em vez de parecer irritada, ela soltou um pequeno riso nasal, como se já esperasse essa resposta.
— Você só fala. Não tem nenhuma intenção real de ajudar nossa classe a chegar à Classe A — disse Horikita.
— Pelo menos, não neste momento — respondi, entrando no mesmo tom provocativo.
— Hã? "Neste momento"? — perguntou ela.
Ela achava que nunca conseguiria me fazer cooperar. Mas agora eu estava disposto a fazer algumas concessões.
— Lembre-se de que um ano inteiro de atividade nos trouxe até aqui. Eu agi assim durante todo esse ano. Se de repente eu começar a dar tudo de mim depois das férias de primavera, esqueça nossos colegas de classe — todos do nosso ano, não, todos na escola começariam a falar disso. Quero evitar isso o máximo possível — expliquei.
— Reconheço que você é um bom aluno, mas parece ter uma opinião muito elevada sobre si mesmo. Se focarmos apenas no desempenho acadêmico, na sua própria classe já existem o Yukimura-kun e eu. Em outras classes há Ichinose-san e Sakayanagi-san. E tenho certeza de que existem muitos outros estudantes cujos nomes poderiam ser adicionados à lista dos melhores da escola, não é? Não tenho tanta certeza de que você conseguiria competir de igual para igual com eles — disse Horikita.
Horikita descartou essa possibilidade sem hesitar, sugerindo que eu não poderia ser comparado a esses alunos.
— Embora eu admita que, se houver uma grande diferença entre como você era antes e como passará a ser agora, isso chamará atenção por um tempo — continuou ela. — Mas se você acabar ficando entre os dez ou vinte por cento melhores do nosso ano, tenho certeza de que rapidamente será aceito como um dos alunos de alto nível. Não é incomum que estudantes melhorem muito suas notas em pouco tempo.
Aparentemente, essa foi a conclusão à qual ela chegou após refletir sobre o assunto. Se as observações dela estivessem corretas, essa conversa poderia terminar ali. Mas, se não estivessem… Então a discussão ainda não havia acabado.
— Desculpe, Horikita. Mas, neste momento, acho que não há ninguém no nosso ano que esteja no meu nível — disse a ela. Claro, excluindo alunos que ainda têm espaço para crescer ou aqueles que não levam as coisas a sério o suficiente para mostrar sua verdadeira capacidade.
— Nossa. Estou sinceramente impressionada com o tamanho do seu ego — respondeu Horikita, sem acreditar no que eu havia acabado de dizer. — Só porque meu irmão tinha interesse em você não significa nada. Você nunca me mostrou claramente o quão incrível realmente é.
— O que você viu de mim até agora não foi suficiente? — perguntei.
— Você tem alguma prova de que é o melhor nos estudos? Não, espere — alguma prova de que é o melhor em qualquer coisa, mesmo fora da parte acadêmica? Você precisa ser bom o suficiente para vencer em qualquer situação para que eu aceite uma afirmação tão grandiosa. Foi apenas um evento, é verdade, mas você perdeu aquela partida de xadrez contra a Sakayanagi-san. Admito que vocês dois estavam jogando em um nível inacreditável, mas derrota ainda é derrota. Como pode dizer que ninguém no nosso ano é páreo para você? — disse Horikita.
— Você é livre para ver as coisas como quiser, Horikita. O que eu disse antes pode muito bem ter sido apenas um blefe.
— E no final você simplesmente foge. Você é apenas um mentiroso insincero.
— Nesse caso, você ficará satisfeita se simplesmente me rotular assim e encerrar o assunto?
Quando fiz essa pergunta, ela ficou em silêncio. Se chamar-me assim fosse suficiente para aliviar sua frustração, a conversa terminaria ali mesmo. Decidi dar um passo à frente, como se estivesse prestes a descer as escadas.
— Deixe-me testá-lo — disse Horikita em um tom firme.
— Testar o quê?
— Suas verdadeiras habilidades. Até certo ponto eu entendo que você é inteligente e tem boas capacidades físicas, mas não consigo avaliá-lo completamente. É como tentar agarrar o ar. Suas habilidades continuam completamente indefinidas.
Ela estava dizendo que queria me avaliar com seus próprios critérios.
— Quero saber se suas habilidades realmente valem a pena ser escondidas — acrescentou.
— Você tem confiança de que consegue medir minhas habilidades com precisão? — perguntei.
— Tenho confiança de que posso tirar uma nota mais alta que você em uma prova escrita. E também tenho confiança de que posso vencer você em uma luta, se lutarmos seriamente — disse Horikita.
De fato, durante o último ano Horikita sempre tirou notas mais altas que as minhas. Também era compreensível ela dizer a segunda parte, mesmo que homens geralmente tenham vantagem em velocidade e força muscular. Se levássemos em conta técnica, ela provavelmente teria vantagem em uma luta. Na verdade, Horikita já havia conseguido enfrentar Ibuki de igual para igual, mesmo quando estava se sentindo fisicamente mal.
Além disso, ela tinha visto a pequena luta entre mim e seu irmão logo depois do início das aulas. Com base no que viu naquele momento, ela acreditava que poderia me derrotar.
— Nesse caso, como pretende me testar? — perguntei.
— Existem inúmeras maneiras de fazer isso. Podemos competir fazendo uma prova escrita no seu quarto — disse Horikita.
Ela havia pedido que eu não me virasse porque queria evitar usar qualquer coisa além de palavras e voz para negociar comigo. É possível perceber muitas emoções apenas pelo contato visual.
Ela julgou que isso seria uma desvantagem para ela. A última coisa que queria era entrar em jogos mentais comigo, por isso estava sendo cautelosa.
— Não tenho problema com isso, mas tudo isso é muito unilateral. Eu não ganho nada com isso — respondi.
— Isso é realmente uma questão de ganho ou perda? Você tem escondido suas verdadeiras habilidades e praticamente colocado esse segredo bem diante de mim. Se você não aceitar meu desafio aqui e agora, eu poderia forçar esse segredo para fora e expô-lo, trazendo você para a luz, não poderia? Afinal, você tem chamado bastante atenção ultimamente. Você não pode escapar de tudo, pode? — disse Horikita.
Como ameaça, aquilo era fraco. Horikita jamais me exporia se achasse que isso poderia prejudicá-la no futuro. Mesmo assim, considerando o quanto ela havia crescido, talvez fosse um bom momento para eu fazer uma concessão. Enquanto eu pensava cuidadosamente no que responder, Horikita esperou em silêncio pela minha resposta.
— Nesse caso, que tal o seguinte? Vamos escolher uma matéria na próxima prova escrita que acontecer em abril ou depois, e competir para ver quem tira a maior nota apenas nessa matéria — sugeri. — Assim, mesmo que eu tire cem pontos, posso simplesmente dizer que estudei desesperadamente apenas para essa matéria.
Se eu não tirasse notas altas nas outras matérias, isso serviria como uma desculpa perfeitamente aceitável.
— É uma forma um tanto imprecisa de medir suas habilidades, mas… tudo bem. Mas você realmente acha adequado competir em um ambiente formal como esse? — perguntou ela.
— Bem, preciso considerar o que pode acontecer caso eu perca para você. Se você pretende que eu comece a tirar notas altas em todas as matérias no futuro, quero ter certeza de preparar o terreno antes — respondi.
— Tudo bem. Aceito sua proposta. Mas como vamos decidir qual matéria será usada na competição? — perguntou Horikita.
— Você pode escolher qualquer matéria que quiser, claro. Também deixo você escolher o momento. Além disso, não tenho problema se você só me disser qual será a matéria no próprio dia da prova, pouco antes de ela começar — expliquei.
— Entendo… Para você vencer nessas condições, sem saber a matéria com antecedência, no mínimo teria que estudar todas as matérias igualmente todos os dias. Assim consigo avaliar até certo ponto suas habilidades gerais, mesmo que a competição seja apenas em uma matéria — disse Horikita.
Eu tinha certeza de que isso ajudaria a convencê-la.
— Se eu vencer, vou concluir que suas habilidades não são nada extraordinárias. E, a partir daí, espero que você enfrente todos os problemas que surgirem dando o máximo de si. Está bem assim? — perguntou Horikita.
— Claro. Mas se eu vencer, quero que você me faça um favor — respondi.
— Certo. Realmente seria injusto se esse acordo fosse unilateral. Que favor?
— Não sei ainda. Vou pensar em alguma coisa.
— Isso é bem suspeito. Se eu aceitar esses termos, significa que talvez tenha que lidar com algum pedido absurdo seu caso eu perca — disse Horikita.
— Você já está preocupada com o que vai acontecer quando perder? Achei que você estivesse muito mais confiante.
— Não acredito em você… — resmungou ela.
— Você não precisa se forçar a fazer isso. Se não está confiante, podemos simplesmente esquecer essa ideia de competição — respondi. Mas dizer isso apenas garantiu que Horikita não poderia mais recuar.
— Tudo bem. Se eu perder, farei qualquer coisa que você pedir, seja o que for. Está decidido.
— Certo. Então está combinado.
Assim, Horikita e eu decidimos competir na próxima prova escrita que acontecesse, em algum momento a partir de abril. Horikita caminhou para frente e parou ao meu lado. Em seguida continuou andando, descendo as escadas.
— Estou ansiosa por isso. Por enfrentar você diretamente.
Claro, eu tinha certeza de que ela usaria todos os meios possíveis para se preparar para essa prova.
Quanto a mim… provavelmente faria as coisas como sempre fiz. Observei Horikita se afastar, com uma determinação firme. Enquanto eu permanecia ali parado, ela foi desaparecendo gradualmente de vista.
— Agora… o que devo fazer em seguida? — murmurei. A princípio eu pretendia voltar diretamente para o dormitório. Mas mudei de ideia. Eu estava um pouco preocupado com Ichinose. Mesmo que ela tenha nos dito para irmos primeiro, fiquei me perguntando no que ela estaria pensando agora, sozinha.
No entanto, no momento em que tive esse pensamento, percebi um certo sujeito me observando. Não parecia que nossos olhares tinham se cruzado por acaso. Desci as escadas, quase como se estivesse sendo chamado pelo olhar dele.
*
Por volta das onze e meia da manhã daquele mesmo dia, dois rapazes conversavam no banheiro masculino do segundo andar do Keyaki Mall. Um deles era o líder que havia abdiciado do trono, apenas para depois retornar ao palco mais uma vez: Ryuen Kakeru.
O outro era Hashimoto Masayoshi, um aluno da Classe A, a classe que conseguiu manter sua posição durante todo o primeiro ano. Eles não haviam se encontrado por acaso. Foi Hashimoto quem entrou em contato com Ryuen e escolheu aquele lugar especificamente por ter poucas pessoas por perto.
— Então? Que tipo de plano maligno você vai me contar agora que me chamou até aqui? — perguntou Ryuen.
— Ei, cara, "plano maligno"? Assim você faz parecer que eu sou suspeito. Só pensei que poderíamos recapitular nosso primeiro ano de escola, só isso — respondeu Hashimoto, com um ar de quem tentava arrancar alguma coisa de Ryuen. Ryuen não odiava pessoas que tinham aquele tipo de jeito escorregadio. Mas também não gostava delas. Para ele, idiotas musculosos como Ishizaki e Ibuki eram muito mais fáceis de entender e, por isso, preferíveis.
Claro, Hashimoto também não confiava em Ryuen, assim como não acreditava que Ryuen confiasse nele. Eles tinham o tipo de relação em que se aproximavam apenas quando seus interesses coincidiam. Mas ambos sabiam que esse tipo de relação às vezes podia ser uma conexão poderosa.
— Então parece que você realmente deu uma surra na Classe B no exame final do ano, hein? Posso assumir que você voltou com tudo? — perguntou Hashimoto.
— Quem sabe? Talvez eu só tenha feito aquilo por capricho — respondeu Ryuen, cruzando os braços e sorrindo, sem nenhum sinal de seriedade.
— Por capricho, é? Se for assim, esse deve ser o capricho mais assustador do mundo. Nem consigo imaginar o que aconteceria se você resolvesse mirar na Classe A por capricho.
Hashimoto levantou as mãos casualmente, como se estivesse levantando uma bandeira branca, indicando que não queria brigar.
— Está tão preocupado assim com o que eu vou fazer? — perguntou Ryuen.
— Você recuou completamente e depois voltou para a linha de frente. Seria estranho se eu não estivesse preocupado — respondeu Hashimoto. As pessoas costumavam prestar muito mais atenção nos movimentos de quem poderia se tornar um obstáculo.
— Veio aqui investigar por ordem da Sakayanagi? — perguntou Ryuen.
— Infelizmente, essa é uma pergunta que não posso responder facilmente — respondeu Hashimoto. Mesmo com a resposta vaga, Ryuen percebeu que Hashimoto não estava ali por ordem de Sakayanagi. Ele mencionou o nome dela de propósito, apenas para observar a reação de Hashimoto. — Então? O que você pretende fazer agora? — perguntou Hashimoto.
— O que diabos você acha que eu vou fazer? — respondeu Ryuen com um sorriso provocador, aproximando-se dele.
Hashimoto ficou levemente tenso, assumindo uma postura defensiva, pronto para reagir caso algo acontecesse. Apesar de ter escolhido aquele local, quase não havia ninguém por perto. Se algo acontecesse, não havia câmeras de vigilância ali para garantir sua segurança. Certamente a ideia de gravar a conversa com o celular já havia passado pela mente de Hashimoto. Mas, se fosse pego fazendo isso, arriscaria destruir sua relação com Ryuen.
— Não vá achando que pode conseguir uma vitória fácil só porque joga de forma esperta e tenta agir como agente duplo, entendeu?
A pressão que Ryuen exercia ao falar — mesmo sorrindo — era completamente diferente da de uma pessoa comum.
— Heh. Caramba… então, mesmo que sua classe ainda esteja meio bruta, você deve ser o verdadeiro "diamante no meio da pedra". Você realmente impõe respeito — disse Hashimoto.
Embora estivesse um pouco nervoso, Hashimoto também parecia satisfeito. A Classe A era como uma rocha. Estável. No entanto, dependendo dos caprichos de Sakayanagi, a situação poderia subir ou descer. E, caso chegasse o momento de cair, provavelmente seria a classe de Ryuen que subiria e tomaria o topo.
Por isso era natural que Hashimoto quisesse garantir algum tipo de vantagem para si mesmo. Foi então que ele trouxe à tona algo que sabia que deveria provocar uma reação.
— Desculpa, Ryuen. Mas eu não pretendo resolver as coisas apenas entre duas classes.
— Kuku. O que quer dizer com isso?
— Ainda é um pouco cedo, mas…
Hashimoto pegou o celular e mostrou a tela para Ryuen por um instante. Enquanto demonstrava que não estava gravando a conversa, também mostrava que estava prestes a ligar para alguém. A ligação durou apenas alguns segundos. Ryuen percebeu imediatamente que a pessoa do outro lado já estava esperando aquela chamada.
— Pode vir. Ainda estamos naquele lugar que eu te falei.
Com essa breve mensagem, Hashimoto encerrou a ligação.
— Quem você acha que era, Ryuen?
— Não faço ideia.
— Ayanokoji.
— Ayanokoji? Ah… achei que pudesse ser ele.
Mesmo ao ouvir aquele nome, Ryuen não demonstrou nenhum sinal de pânico. O plano de Hashimoto de surpreendê-lo e arrancar alguma informação falhou. Mas ele ainda não estava disposto a desistir.
— Consegue adivinhar por que chamei o Ayanokoji para cá? — perguntou Hashimoto.
— Não — respondeu Ryuen, de forma clara. Logo em seguida, contra-atacou: — Mas você realmente ligou para ele? Porque, para mim, não parece.
Hashimoto tinha preparado uma armadilha para Ryuen. Mas Ryuen virou o jogo com facilidade.
— Droga, cara. Pelo visto conversa fiada não funciona com você, né?
Hashimoto esperava que mencionar o nome Ayanokoji provocasse alguma reação diferente. Mas Ryuen agia como se aquilo não tivesse importância nenhuma.
— Que tipo de besteira você está falando? Tem alguma coisa acontecendo por trás disso tudo, Hashimoto?
Justamente porque Hashimoto parecia preocupado com Ayanokoji, Ryuen suspeitava que havia algo mais por trás daquilo. Não havia sinais de que Ryuen estivesse fingindo. Mesmo assim, Hashimoto não conseguia eliminar completamente suas suspeitas sobre Ayanokoji e Ryuen.
Era difícil imaginar que Ryuen — que havia sido o rei da sua classe — tivesse sido derrotado tão facilmente por Ishizaki e os outros. Além disso, Hashimoto também conseguia perceber a sombra de Ayanokoji por trás de várias ações de Sakayanagi. Se ele conseguisse apenas mais uma peça de informação, teria certeza de tudo.
— A pessoa para quem eu liguei foi—
O som de passos se aproximando pôde ser ouvido vindo em direção ao banheiro do segundo andar. Logo depois, a figura de um único estudante apareceu.
— Oh? Oh ho… parece que você chamou alguém bem interessante, Hashimoto — disse Ryuen.
A pessoa que apareceu diante de Ryuen e Hashimoto era Kanzaki Ryuji, da Classe B do primeiro ano. Assim, três pessoas que normalmente nunca interagiam entre si estavam reunidas no mesmo lugar.
— Ele disse que queria falar com você. Então decidi juntar vocês dois — explicou Hashimoto.
— Então? O que você ganha em troca? — perguntou Ryuen.
— Isso não é óbvio? Uma conexão com a Classe B.
— A Sakayanagi deu um golpe baixo na Ichinose. Ou seja, vocês deveriam ser inimigos. Você realmente achou que o Kanzaki toparia algo assim? — disse Ryuen.
— Claro que ele vai. Não é mesmo, Kanzaki? — respondeu Hashimoto.
— Eu não confio em você, Hashimoto. Mas acho que você pode ser útil — disse Kanzaki.
— Aí está.
Hashimoto havia persuadido Kanzaki dizendo que poderiam cooperar se seus interesses coincidissem. Sorrindo despreocupadamente, Hashimoto colocou a mão no ombro de Kanzaki.
— Vamos lá, apenas ouça o que ele tem a dizer. Por mim — disse Hashimoto.
— Entendi. Então foi isso que você quis dizer quando falou que não pretendia resolver as coisas apenas entre duas classes, hein? — comentou Ryuen. Até então, Hashimoto só havia se interessado na classe de Ryuen. No entanto, depois que Ryuen se retirou da liderança, ele mudou de estratégia e ampliou seu alcance.
— Exatamente. Também pretendo plantar algumas sementes na classe do Ayanokoji mais tarde — disse Hashimoto.
Ele revelava assim o movimento que planejava fazer para garantir sua própria sobrevivência, independentemente de qual classe acabasse vencendo. Mas o interesse de Ryuen já havia mudado de Hashimoto para Kanzaki.
— Você não vai dizer algo que me faça morrer de tédio, vai?
— Não faço ideia do que você espera ouvir, mas certamente não será algo que te deixe feliz — respondeu Kanzaki, sem demonstrar qualquer intimidação, mesmo diante de Ryuen. — O exame final de fim de ano. Quero falar sobre o que aconteceu naquela ocasião. Só isso.
— O quê? Vai me contar como se sente depois de ter sido completamente esmagado?
— Desculpe, Ryuen. Eu não acho que perdi para você — disse Kanzaki.
Ao ouvir aquela declaração firme, Hashimoto assobiou.
— Você só arrancou aquela vitória usando truques sujos. Nada mais. Não se esqueça disso — acrescentou Kanzaki.
Kanzaki tinha orgulho e confiança na ideia de que, se a luta tivesse sido justa, eles poderiam ter competido de igual para igual — ou até que a Classe B teria tido vantagem. A vitória foi roubada deles pelas táticas desonestas de Ryuen.
— E daí? Você realmente veio até aqui só para dizer isso? — respondeu Ryuen. Para Ryuen, não existia diferença entre luta limpa ou suja. Uma vitória era uma vitória. A derrota de Kanzaki era um resultado que jamais poderia ser alterado. — Além disso, que truques sujos? Está falando de eu ter sido o comandante? — perguntou Ryuen.
— Não se faça de idiota. Estou falando das dores de estômago no dia do exame e dos ataques psicológicos contra alguns alunos — disse Kanzaki.
Hashimoto, que não sabia exatamente o que havia acontecido durante o exame, bateu palmas divertidas.
— Uau, cara… agora entendi por que ele está irritado! Que plano absurdo, Ryuen.
— Digamos apenas que atos covardes como esses não vão funcionar contra a Classe B no futuro — disse Kanzaki.
— Kuku. Você realmente acha que a Ichinose pode me parar? Ou talvez esteja pensando em chorar para a escola? — provocou Ryuen.
— Não. Isso seria inútil.
Kanzaki rejeitou imediatamente a sugestão. Isso não era algo que a bondosa Ichinose conseguiria resolver.
— Então quem vai me parar? — perguntou Ryuen.
— Eu.
Kanzaki respondeu sem hesitar por um segundo sequer. Ao ouvir isso, dois pensamentos passaram pela mente de Ryuen.
Ele estava apenas blefando?
Ou talvez…
— Você não passa de um cachorrinho da Ichinose. O que você pode fazer? — provocou Ryuen, avançando um pouco para descobrir o que Kanzaki realmente queria dizer.
— É verdade que eu fiquei ao lado da Ichinose e a apoiei durante nosso primeiro ano. Mas isso aconteceu porque, quando começamos a escola, eu determinei que ela era uma pessoa talentosa — alguém capaz de demonstrar liderança e trabalho em equipe superiores aos estudantes das outras classes. Nesse sentido, minha confiança nela ainda não mudou. Porém percebi que ela tem uma grande fraqueza: tende a evitar situações de crise em vez de enfrentá-las e não consegue abandonar os mais fracos em momentos de emergência — disse Kanzaki.
— Oh ho? Hm… pensei que isso seria uma completa perda de tempo, mas está ficando interessante. Quem diria que na Classe B — onde todo mundo quer dar as mãos e viver em harmonia — existiria alguém que pensa assim? — disse Ryuen. Mesmo assim, ele descartou as palavras de Kanzaki com desdém. — Você só sabe falar. Até um cachorro de colo consegue reclamar desse jeito.
— Nesse caso, eu vou mostrar. Vou provar.
Talvez ele seja mais capaz do que eu imaginava.
Hashimoto havia cooperado com Kanzaki apenas para criar uma conexão com a Classe B, mas agora sua opinião sobre ele havia mudado um pouco.
— Muito bem. Se é isso que você quer, da próxima vez eu vou te esmagar completamente — disse Ryuen.
— Não sei que tipo de truques sujos você pretende usar, mas eu não sou como a Ichinose. Eu não mostro misericórdia. Se você odeia perder em seu próprio território, então lute de forma justa.
— Vamos torcer para que sua classe não seja tão patética — disse Ryuen com um sorriso, enquanto se aliviava no mictório.
Hashimoto se posicionou ao lado dele.
— Bem, bem… isso está ficando interessante, não acha? De qualquer forma, se algo acontecer, venha falar comigo, Kanzaki — disse Hashimoto, imaginando que Kanzaki iria embora depois de fazer sua declaração.
Mas, em vez disso, Kanzaki se aproximou mais e ocupou o mictório ao lado de Hashimoto, em um claro gesto de intimidação — talvez para mostrar que não ficaria atrás nem de Hashimoto nem de Ryuen.

Depois de terminar, ele lançou uma última frase de despedida, falando com intensidade:
— Lembre-se do que eu te disse, Ryuen.
Depois de dizer isso, Kanzaki deixou o banheiro.
— Kukuku… uau, que assustador — disse Ryuen, rindo.
— Então, o que você pretende fazer agora para derrubar a Classe B de vez até o fundo? — perguntou Hashimoto.
— Não faço ideia — respondeu Ryuen com uma risada, desviando da pergunta.
Ao mesmo tempo, ele se lembrou de outra coisa. Algo que havia acontecido apenas uma hora antes da conversa com Hashimoto e Kanzaki.
*
Depois de me despedir de Ichinose e Horikita, eu estava pensando se deveria simplesmente voltar para o dormitório. Mas então acabei esbarrando em Ryuen, que parecia estar me conduzindo para algum lugar.
Nós nos deslocamos para um corredor dentro do Keyaki Mall onde quase não havia pessoas.
Ficamos parados a uma distância suficiente para que, caso alguém nos visse, pudéssemos simplesmente nos afastar e fingir que estávamos ali por motivos completamente diferentes.
— Você ouviu do Ishizaki? Que eu vim ao Keyaki Mall? — perguntei.
— Ouvi. Eu mesmo vim te procurar — respondeu Ryuen.
Então a conversa dele com Ishizaki e Ibuki tinha terminado depois de cerca de uma hora? Ou eles apenas fizeram uma pausa? De qualquer forma, os olhos de Ryuen pareciam ter mais brilho do que antes.
— Sabe, você já tem meu contato. Podia simplesmente ter me ligado ou mandado mensagem.
— Preferi falar com você cara a cara, seu rosto chato e sem graça — zombou Ryuen.
Nesse caso, resolvi ouvir o que ele tinha a dizer no pouco tempo que eu tinha.
— Então? O que foi aquilo? — perguntou ele.
Presumi que estivesse se referindo à mensagem de Hiyori. Aquela em que eu disse que poderia ter garantido cinco ou mais vitórias com facilidade, usando uma estratégia muito melhor. Eu havia pedido a Hiyori que transmitisse a mensagem para Ryuen, e aparentemente ela cumpriu a tarefa perfeitamente. Eu já esperava que ele tentasse me procurar depois de ouvir aquilo.
— Significa exatamente o que parece. Se eu estivesse no seu lugar, teria feito melhor.
— Eu não me importo com métodos. Eu faço as coisas do meu jeito — disse Ryuen.
— Eu não quero que você termine assim. Se fizer algo imprudente e acabar tendo que sair da escola, vou ficar solitário.
As palavras saíram naturalmente da minha boca, mas aparentemente não foram bem recebidas por Ryuen.
— Kuku… que tipo de piada é essa? Para um fracote de classe inferior que perdeu para a Sakayanagi, você fala com bastante confiança — disse ele.
— É verdade que minha classe perdeu para a Sakayanagi. E como eu era o comandante, não posso dar desculpas. Mas quanto à questão de ela realmente ser melhor do que eu… você terá que enfrentá-la diretamente para descobrir.
— Ha! …Está me subestimando? — rosnou Ryuen.
O sorriso desapareceu de seu rosto. Ele encurtou a distância entre nós.
— Você já me derrotou antes. Não tem como você ser mais fraco que a Sakayanagi.
Aparentemente, quando me chamou de fracote antes, ele estava apenas tentando me provocar.
— Fico grato por você me avaliar tão bem, mas não é possível que eu simplesmente tenha feito um trabalho descuidado no exame? — perguntei.
— Desculpa, mas não acredito nisso. Não parece que você tentou seriamente e perdeu. Parece mais que você nem ligava para a competição… ou que algo fora do seu controle aconteceu. Isso parece muito mais plausível. É muito mais fácil acreditar que alguém da escola manipulou as coisas para que a Classe A vencesse, por causa da reputação deles — disse Ryuen.
Embora ele não estivesse completamente certo, chegou mais perto da verdade do que eu imaginava. Ryuen provavelmente era a única pessoa nessa escola capaz de perceber coisas tão profundamente. Essa certeza vinha do fato de já ter me enfrentado antes.
— Então? Agora que você voltou, o que pretende fazer, Ryuen? — perguntei.
— Não decida que eu voltei sem minha autorização. Pretendo aproveitar essas férias mais um pouco — respondeu ele, insinuando que ainda não iria entrar totalmente na ofensiva.
— Mas… acho que se eu me cansar dessas férias, vou esmagar a Ichinose e a Sakayanagi como aquecimento.
— Que mudança dramática de atitude.
— Kukuku… é, acho que sim. Eu mesmo estou surpreso. Não achei que ficaria tão ansioso para me vingar de você tão cedo.
— Entendo — respondi.
Parecia que a serpente estava prestes a despertar da hibernação. Quando isso acontecesse, nem a Classe B nem a Classe A poderiam ignorar Ryuen. Do ponto de vista de Sakayanagi, isso provavelmente era exatamente o que ela queria. Mas, no estado atual das coisas, não seria surpreendente se qualquer um dos dois acabasse vencendo.
— Bem, sou bastante grato por isso. Se você esmagar Ichinose e Sakayanagi primeiro, tudo sairá exatamente como eu espero. Meu caminho até o topo ficará muito mais fácil — disse a ele.
Era importante para nossos planos que as classes superiores se envolvessem em conflitos entre si.
— Achei que você não se importava nem um pouco com classificação de classe — disse Ryuen.
— As coisas são um pouco diferentes agora. Nossa classe estará em uma posição alta por volta desta época no próximo ano. Mesmo que eu não esteja mais na classe até lá.
— Hã?
Ryuen me lançou um olhar suspeito ao ouvir a parte sobre eu não estar mais na classe.
— Talvez eu acabe em uma posição em que serei alvo no futuro. Se isso acontecer, não seria surpreendente se alguém conseguisse me expulsar da escola. Não acha?
Se Tsukishiro quisesse, muitas coisas poderiam acontecer. Mesmo que eu tentasse resistir, provavelmente ele ainda conseguiria agir. Claro, eu me certificaria de não cair tão facilmente.
— Relaxa. Se alguém aqui vai te expulsar da escola, sou eu. Só eu.
Essa confiança era muito típica de Ryuen.
— Mas—
Ryuen ainda estava na minha frente, prestes a dizer algo. De repente, ele desapareceu do meu campo de visão. Num instante, encurtou a distância entre nós e lançou um golpe com o braço direito em direção ao meu rosto. Sem hesitar, tentou atingir diretamente meu olho com as pontas dos dedos, obrigando-me a reagir.
— Rah!
Em seguida, girou o corpo e executou um chute giratório. Parecia que ia atacar com o pé direito, mas era apenas uma finta. O verdadeiro golpe veio com a perna esquerda, aproveitando o impulso da rotação. Desviei novamente e criei distância entre nós.
— Ha, caramba… e isso foi um ataque totalmente surpresa. Sério, cara… que tipo de monstro você é?
— Foram movimentos bem chamativos — respondi.
Mesmo sendo um lugar relativamente isolado, havia muitas câmeras de segurança pelo Keyaki Mall. Claro, desde que nenhum estudante reclamasse, dificilmente aquilo chamaria muita atenção. Ainda assim, era o tipo de coisa audaciosa que só Ryuen faria.
— Meu coração está me dizendo algo. Está dizendo para eu te devorar — disse Ryuen.
Mesmo em hibernação, a serpente mordia por instinto.
— Você não vai me atacar? — perguntou ele.
— Prefiro evitar lutar com você aqui. Além disso, ainda não é a hora.
— Hah. Então é isso… a compostura dos fortes, hein? Quando você diz isso, parece totalmente sincero. Dá até arrepios.
O brilho em seus olhos era tão intenso quanto antes. Não… talvez ainda mais intenso agora. Vendo o quão animado ele estava naquele momento, era difícil acreditar que tinha passado meses se mantendo quieto.
— Você tem potencial. É exatamente por isso que precisa crescer mais e se tornar ainda melhor, Ryuen.
Ele aparentemente não gostou do que ouviu — ou achou que eu estava lhe dando uma lição — porque bateu o punho contra a parede.
— Crescer mais? Ficar melhor? Quando foi que você virou meu mestre? — disse Ryuen.
— Estou apenas dizendo a verdade. Truques sujos, ataques covardes, até atos criminosos… acho que está tudo bem usar qualquer estratégia necessária para vencer. Mas não faça nada que possa ser tão facilmente rastreado até você.
— Hã?
— Ouvi do Ishizaki que você usou laxantes. Misturar laxantes nas coisas deles enquanto estavam na sala de karaokê não foi uma ideia ruim, mas se a comida e as bebidas que sobraram tivessem sido preservadas como prova, tudo teria acabado para você. O que você fez é motivo de expulsão sem discussão. Mesmo que tivesse escapado no começo, os responsáveis da escola naturalmente ficariam desconfiados de algo tão estranho acontecendo durante o exame. A única coisa que te salvou foi o fato de a Ichinose não ter levantado a questão — expliquei.
— Eu já tinha considerado no meu plano que a Ichinose é uma certinha — respondeu Ryuen.
— Se isso for verdade, então você está sendo ingênuo. Desse jeito, nunca vai conseguir me superar.
— Agora você falou demais — rosnou Ryuen, aproximando-se novamente. Mas, diferente de antes, não havia sinais de que pretendia atacar. Mesmo que estivesse escondendo sua intenção, não seria difícil lidar com ele. Ainda assim…
— Você é livre para ouvir meu conselho ou ignorá-lo. A escolha é sua. Mas… se as coisas continuarem como estão agora, nunca teremos nossa revanche.
Como Ryuen reagiria ao receber um conselho amigável de um inimigo? A resposta dele me ajudaria a avaliar sua capacidade de raciocínio. Ryuen ainda mantinha o punho apoiado na parede. Então o abaixou lentamente, como se estivesse se acalmando.
— Tudo bem. Vou aceitar seu conselho idiota por enquanto. Mas um dia eu definitivamente vou te esmagar — disse Ryuen.
— Esse é o espírito, Ryuen. Se eu for derrotado por você e acabar sendo expulso, não seria tão ruim assim.
Mesmo que no fundo ele ainda estivesse irritado, parecia que minhas palavras tinham chegado até ele. Isso significava que, daqui para frente, as estratégias que Ryuen elaborasse provavelmente seriam mais refinadas. A corrida que nos aguardava a partir do segundo ano havia se tornado ainda mais difícil de prever.
Será que Ryuen devoraria Sakayanagi e subiria direto para a Classe A? Ou Sakayanagi impediria isso? Ou talvez Ichinose voltasse à disputa e tentasse uma recuperação? E como Horikita, enfrentando esses três, se encaixaria nessa disputa?
As coisas seriam bem diferentes do primeiro ano. E essas mudanças logo começariam a aparecer.
*
Aquilo foi o que Ryuen fez antes de ir ao banheiro. Ele lançou um olhar de canto para Kanzaki, enquanto Kanzaki saía do banheiro, e então voltou a falar.
— Estou voltando para o campo de batalha. Embora eu tenha usado alguns movimentos bem chamativos contra a Classe B, admito que há algumas coisas nas quais preciso pensar.
Ele havia admitido. Para derrotar Ayanokoji, precisava reconhecer certas coisas.
— Bem, isso é admirável, cara. E eu achando que você só gostava de usar truques sujos. Então você pretende lutar de forma justa, como o Kanzaki quer? — perguntou Hashimoto.
— Hah. Quem disse algo sobre isso? — respondeu Ryuen.
— Oh?
— Eu me aproveitei da ingenuidade da Ichinose e ganhei fácil. Mas fazer isso acabou me dando muitas oportunidades para ser atacado de volta. É por isso que aquele figurante ficou todo convencido — disse Ryuen.
— Entendi.
O problema não era exatamente o uso de métodos covardes. O problema era ter se deixado vulnerável a contra-ataques.
— Da próxima vez, eu vou esmagá-los ainda mais… e de uma forma ainda mais espetacular.
Não importava o que Kanzaki tivesse proposto, Ryuen não pretendia concordar com aquilo naquele momento. Se ele realmente tivesse escondido suas presas, logo entenderia isso.
— Você também cresceu bastante neste último ano, Ryuen. Fico feliz por termos conseguido estabelecer algum tipo de conexão. Acho que é melhor eu considerar seriamente a possibilidade de que a Sakayanagi possa acabar sendo devorada por você — disse Hashimoto.
O observador atento que era, Hashimoto também estava se aproximando da Classe B, esperando pacientemente por uma oportunidade. Assim, não importava qual classe vencesse no final — ele ainda teria uma chance de se formar na Classe A.
*
Logo depois do meio-dia, começou a chover como se alguém estivesse virando baldes de água sobre a cidade. Mais de trinta milímetros de chuva. Por algum motivo, eu não consegui me convencer a voltar para o dormitório, então fiquei no Keyaki Mall sozinho.
O campus tinha muitas conveniências. Por isso, mesmo com chuvas repentinas, não era difícil voltar para os dormitórios. Havia guarda-chuvas provisórios disponíveis para os estudantes, e como eram gratuitos desde que fossem devolvidos no prazo, muitos alunos aproveitavam.
Alguns estudantes que haviam saído para se divertir pela manhã não levaram guarda-chuva, justamente para não carregar coisas extras. Mesmo assim, hoje era um caso à parte. Com uma chuva tão forte, você acabaria completamente encharcado mesmo com um guarda-chuva.
— Não parece que essa chuva vai parar hoje… — murmurei para mim mesmo.
Se a previsão estivesse correta, a chuva continuaria desde o meio-dia até a manhã do dia seguinte. De vez em quando, o som de notificações do meu celular tocava. Sempre que isso acontecia, eu via que o pessoal do grupo de mensagens do Grupo Ayanokoji estava conversando sobre a chuva e outros assuntos aleatórios. No momento, parecia que estavam comentando sobre o quanto estava chovendo forte.
— O que eu devo fazer agora…?
Eu não estava com vontade de participar da conversa, então apenas deixei as mensagens como lidas. Fiquei olhando distraidamente para a tela, passando pelas mensagens do grupo. Depois olhava pela janela para a chuva, como se tivesse lembrado de algo de repente.
Repeti esse processo várias vezes. Era um tempo completamente improdutivo. Mas, às vezes, era bom passar um tempo assim. Em vez de voltar ao café, sentei-me em um banco qualquer e fiquei apenas relaxando. Claro, não pretendia ficar ali por horas.
Depois de ouvir o som da chuva por cerca de vinte ou trinta minutos, decidi ir embora. Passei meu cartão de estudante na máquina e aluguei um guarda-chuva. Mesmo que a parte inferior do meu corpo — especialmente abaixo dos joelhos — acabasse molhada, ainda era muito melhor do que não ter nenhum guarda-chuva. Quando saí para voltar ao dormitório, vi um estudante familiar perto da saída do shopping.
Era Ichinose. Mesmo estando sob aquela chuva forte, ela não tinha guarda-chuva. Ela provavelmente estava no Keyaki Mall todo aquele tempo. E não estava com amigos. Estava sozinha. Talvez tivesse muitas coisas passando pela cabeça depois de se despedir de mim e de Horikita.
— Acho que ela estava tentando organizar os pensamentos… — murmurei.
Mas, pelo que parecia, não tinha conseguido muito sucesso. Se voltasse para o dormitório sem guarda-chuva, ficaria completamente encharcada. Por um momento pensei que talvez estivesse esperando algum amigo com guarda-chuva.
Mas não parecia ser o caso. Talvez fosse um ato de gentileza simplesmente deixá-la sozinha. Mas… eu estava um pouco preocupado. Afinal, a Classe B tinha acabado de sofrer uma derrota devastadora no último exame. Voltei rapidamente e aluguei outro guarda-chuva. Quando saí novamente, algum tempo depois, Ichinose já estava caminhando sob a chuva.
Pelo visto, ela realmente havia decidido se molhar. Ela não estava indo na direção dos dormitórios. Ichinose estava seguindo na direção oposta, em direção à escola. Sem um guarda-chuva, continuava sendo encharcada pela chuva. Eu poderia simplesmente ficar olhando ela ir embora, mas…
Corri atrás de Ichinose, com os guarda-chuvas na mão. Por causa do som da chuva, que caía com tanta intensidade, parecia que ela não me ouviu correndo em sua direção. Provavelmente não conseguiria me ouvir se eu a chamasse em um volume normal.
Eventualmente, Ichinose chegou a um ponto de onde já era possível ver o prédio da escola, continuando a caminhar pelo caminho. Como era de se esperar, não havia sinal de mais ninguém por perto, no meio daquela chuva pesada. Então, ela ergueu o olhar para o céu. Em vez de parecer que não queria se molhar, dava a impressão de que, se dependesse dela, queria mesmo que aquilo acontecesse.

O que ela estava sentindo agora? No que estava pensando? Não era difícil para mim entender.
Suponho que não seria uma má ideia simplesmente deixá-la ali, parada, se encharcando até ficar satisfeita. Mas ela definitivamente pegaria um resfriado. E, se ficasse doente, tenho certeza de que seu coração também sofreria ao mesmo tempo, junto com sua saúde. Isso provavelmente seria um pouco demais — um pouco cruel demais para Ichinose suportar agora.
— Você vai pegar um resfriado se ficar parada aqui por muito tempo — eu disse, falando um pouco mais alto enquanto me aproximava dela.
— Ayanokoji-kun.
Ichinose provavelmente não esperava que alguém surgisse ao seu lado. Depois daquele momento de surpresa, ela virou o olhar para mim.
— É, você provavelmente está certo — acrescentou.
Mesmo tendo me respondido em voz baixa, ela não se moveu. Voltou a olhar para o céu, sem demonstrar medo de continuar se encharcando na chuva.
— Você pode voltar. Acho que quero sentir um pouco da chuva caindo sobre mim — disse Ichinose, quando eu já estava perto o suficiente para ouvir sua voz claramente.
— Entendo.
Aquela tempestade era forte demais para ser chamada apenas de "um pouco de chuva". Se eu simplesmente deixasse as coisas como estavam, Ichinose provavelmente ficaria ali por uma ou duas horas. Também não parecia que ela estava em condições de me ouvir, mesmo que eu tentasse convencê-la. Nesse caso, eu teria que adotar medidas um pouco mais enérgicas para fazê-la parar.
Havia uma maneira específica de lidar com Ichinose que costumava funcionar bem. Coloquei no chão o guarda-chuva que estava segurando e o fechei. Em um instante, todo o meu corpo começou a se encharcar com a chuva, da cabeça aos pés.
— A-Ayanokoji-kun?
— Achei que poderia fazer companhia a você — respondi.
Naturalmente, Ichinose não conseguiria ignorar um comportamento tão estranho.
— Por quê…?
— Às vezes eu simplesmente sinto vontade de ficar na chuva sem motivo nenhum — respondi.
Mas isso era diferente do caso de Ichinose, que tinha um motivo para estar ali. Mesmo segurando dois guarda-chuvas, nós dois estávamos completamente encharcados. Era uma experiência estranhamente curiosa.
— Você não vai pegar um resfriado? — perguntou ela.
— Eu poderia te perguntar a mesma coisa — respondi.
— Eu estou bem. Na verdade… estava pensando que não teria problema se eu pegasse um resfriadinho — disse Ichinose.
Entendo. Nesse caso, ficar muito tempo sob a chuva fria provavelmente seria a solução ideal.
— Então talvez eu pegue um também — respondi.
Se eu desse uma resposta dessas, era óbvio que Ichinose ficaria sem reação. Afinal, ela jamais diria algo como: "Tudo bem, então vamos pegar um resfriado juntos!".
— Não, você não pode. Ayanokoji-kun, você deveria voltar. Você até tem um guarda-chuva — disse Ichinose.
— Bem, agora não adianta muito eu ter um — respondi.
Eu já estava completamente encharcado, até a roupa de baixo.
— Nossa… isso foi maldade.
— Desculpa.
Se Ichinose não voltasse, eu também não voltaria. Diante da minha "ameaça", Ichinose acabou cedendo.
— Tudo bem, eu entendi. Vamos voltar — disse ela.
— Nesse caso—
Eu ia entregar um guarda-chuva para ela, mas parei.
— Bem… acho que já estamos encharcados mesmo. Então vamos assim.
— Hahaha! É, acho que você tem razão — respondeu Ichinose.
Se voltássemos direto para os dormitórios, chegaríamos em poucos minutos. Já não faria muita diferença usar os guarda-chuvas ou não. Então começamos a caminhar de volta, já completamente molhados. Achei que não seria tão ruim voltar em silêncio, mas pouco depois de começarmos a andar, Ichinose soltou um suspiro.
— Sinto que sempre acabo parecendo completamente sem esperança na sua frente, Ayanokoji-kun… Que vergonha…
— Sem esperança? Bem… acho que você pode ter um ponto.
Também houve aquela vez em que ela foi atormentada por Sakayanagi. Naquela ocasião, ela também tinha perdido de vista quem realmente era.
— As pessoas só mostram esse lado delas… esse lado fraco… para alguém em quem confiam. Pelo menos é o que eu penso — disse a ela. Pelo menos, acho que ninguém mostraria fraqueza na frente de alguém de quem não gosta. As pessoas fingiriam ser fortes, mesmo que fosse só fachada, e só revelariam suas fraquezas quando estivessem sozinhas. — Isso soou meio pretensioso. Esqueça o que eu disse agora — acrescentei.
— Não… acho que você provavelmente está certo. Eu confio muito em você, Ayanokoji-kun. Acho que é por isso que sinto que estou sempre reclamando e lamentando meus problemas quando estou com você. Mas… sinto que você está sempre ao meu lado quando eu estou fraca, Ayanokoji-kun.
— Isso foi só coincidência — respondi.
— Eu sinto muito — disse Ichinose.
— Não precisa se desculpar. Na verdade, não acho ruim você desabafar assim. Mas acho que, se os outros alunos descobrissem, provavelmente ficariam bem irritados — respondi.
Ichinose era uma garota extremamente popular no nosso ano. Esse tipo de conversa provavelmente deixaria os caras comuns morrendo de inveja se ouvissem falar disso.
— Se quiser, pode continuar vindo reclamar comigo. Não tem problema.
— Isso é—
Ichinose balançou a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse constrangida.
— N-Não deveria. Eu pareceria tão patética mostrando meu lado frágil.
Mesmo já estando um pouco mais quente, a temperatura ainda era baixa. Eventualmente, caminhando sob a chuva forte e sem mais ninguém por perto, chegamos à frente do dormitório. Estávamos prestes a entrar no saguão quando, mais uma vez, Ichinose parou.
— Acho que… você deveria entrar sozinho, Ayanokoji-kun.
— O que você vai fazer, Ichinose?
— Vou ficar mais um pouco… não quero voltar para o meu quarto agora — respondeu ela, recusando-se a entrar. Era uma recusa mais fraca do que a anterior.
— Mesmo assim, é melhor você voltar — eu disse. Talvez ficar ali fora, se encharcando na chuva, realmente a distraísse um pouco de seus problemas. No entanto, isso não levaria a uma solução fundamental. Mesmo que Ichinose demonstrasse alguma resistência, não achei que seria uma boa ideia recuar.
— Mas… eu realmente não quero voltar… pelo menos não agora — disse Ichinose.
— Tudo bem. Nesse caso, eu fico aqui também — respondi.
Ichinose parecia ao mesmo tempo surpresa e confusa com a forma como eu estava sendo insistente.
— Eu só sinto que, se ficar sozinha no meu quarto, vou começar a pensar em um monte de coisas… e acabar me sentindo mal… então não quero voltar — disse ela.
Provavelmente ela não iria se mover, mesmo que eu continuasse ali na chuva e me encharcasse junto com ela. Nesse caso, eu teria que encontrar outra maneira de fazê-la seguir em frente.
— Tudo bem, então. Que tal irmos para o meu quarto? — perguntei.
— Hã?
Depois de ouvir uma pergunta completamente inesperada, Ichinose me olhou diretamente nos olhos.
— Se você tiver alguém com quem conversar, provavelmente não vai ficar deprimida — expliquei.
— Mas… eu estou encharcada…
— Eu também estou. Não faz muita diferença. Mas, se você disser que não vai voltar, então eu simplesmente vou ficar aqui com você, pelo tempo que for preciso — respondi.
— Você é surpreendentemente insistente, não é, Ayanokoji-kun?
— Talvez.
Assim, nós dois, completamente encharcados, entramos no prédio. Foi uma sorte que, naquele momento, não houvesse ninguém no saguão. Pegamos o elevador e subimos até o meu quarto, no quarto andar.
— Entre — eu disse.
— Isso… está mesmo tudo bem? — perguntou ela.
— Está.
— Obrigada, e desculpa pelo incômodo — disse Ichinose.
Ichinose entrou no meu quarto e, por enquanto, pedi que ela se sentasse. Sentar no chão frio provavelmente só a faria sentir ainda mais frio. E não dava para dizer que ficar com roupas tão molhadas fosse bom para a saúde.
Então, pelo menos, resolvi ligar o aquecedor para evitar que ela ficasse ainda mais fria. Depois peguei uma toalha e a entreguei a Ichinose.
— Então, que tal conversarmos com calma sobre isso?
— Sobre… isso? — perguntou ela.
— Sobre o que você está pensando agora, Ichinose. Sobre o que está te preocupando. Tudo.
— Mas… e-eu não posso, não deveria incomodar você.
Ichinose recusou minha oferta, aparentemente constrangida.
— Ultimamente tenho dependido de você o tempo todo, Ayanokoji-kun. Sinto que tenho pedido tanta ajuda… mais do que de qualquer outra pessoa. E falar com você sobre essas coisas… seria pedir demais… Meu Deus, que vergonha… eu simplesmente não consigo.
Ichinose Honami era uma garota fraca. No entanto, como líder, ela sempre manteve uma postura calma e firme. Essa era uma habilidade necessária para um líder. Era preciso fazer as pessoas acreditarem que estava tudo bem seguir você. Era algo que o líder precisava demonstrar às pessoas que estavam sob sua liderança.
— Eu já te contei tantas coisas sobre mim, Ayanokoji-kun.
— Bem, é verdade que eu sei bastante sobre você. Mas isso se limita a você como indivíduo. A estudante Ichinose Honami. Eu ainda não sei muito sobre as suas preocupações como líder que guia a Classe B.
— Mas, se você se esforça tanto assim por mim, eu…
Incapaz de ser honesta sobre o que sentia, Ichinose cobriu o rosto com a toalha. Era como se estivesse se recusando a me deixar ler qualquer coisa em sua expressão.
— Você não consegue confiar em mim? — perguntei.
— Hã? — respondeu ela, ainda com o rosto escondido.
— Se for esse o caso, você não precisa se forçar a falar. Na verdade, provavelmente seria errado tentar arrancar isso de você.
— Não, não é isso. Eu provavelmente confio em você mais do que em qualquer outra pessoa, Ayanokoji-kun…
Se aquilo era verdade ou mentira, pouco importava. De qualquer forma, eu já tinha decidido o que dizer em seguida.
— Fico honrado, mas como você pode ter tanta certeza disso? Talvez eu só esteja me aproveitando da sua honestidade. Embora eu já saiba um pouco sobre isso… você contou todo o seu passado para Sakayanagi, não contou? Certo?
Tenho certeza de que aquele incidente ainda estava fresco em sua memória. O crime que ela cometeu no ensino fundamental — um episódio do passado que ela queria manter em segredo. Mesmo tendo feito aquilo por causa de sua irmã mais nova, ela ainda tinha roubado em uma loja. E sua inimiga, Sakayanagi da Classe A, acabou descobrindo.
Ichinose contou a Sakayanagi coisas que você dificilmente confiaria nem mesmo ao seu melhor amigo. É claro que ela foi levada a fazer essa confissão. Ainda assim, mesmo para uma pessoa bondosa, aquilo foi demais.
— Normalmente, você não contaria seus segredos a alguém quando ainda nem sabe direito qual é a relação entre vocês — acrescentei.
Claro, se isso fosse feito intencionalmente, com algum propósito, seria outra história. Mas o que Ichinose fez foi completamente sem sentido. Na verdade, ela fez aquilo mesmo sabendo que isso poderia causar problemas para si mesma.
— Então, se você acabar se encontrando em uma situação parecida novamente… o que vai fazer? — perguntei.
— Bem… acho que também não quero passar pela mesma coisa de novo — respondeu ela, tocando a franja, que estava lisa e brilhante.
— Entendo. Nesse caso, ótimo. Agora que você aprendeu a ser cautelosa, não vou insistir mais.
— Ah… bom… não, quer dizer… é verdade que não posso me dar ao luxo de cair numa crise como aquela de novo. Mas você é diferente, Ayanokoji-kun — disse Ichinose.
— Também estamos em classes diferentes. Não há como mudar o fato de que eu sou seu inimigo, não é, Ichinose? — respondi.
— Eu não quero te chamar de inimigo tão facilmente — disse ela.
— Quer você diga isso ou não, essa é a realidade da situação — respondi.
— Mas…
Ela provavelmente não conseguia aceitar isso, então escolheu palavras diferentes.
— Você não é um aliado… mas é alguém em quem eu posso confiar — disse Ichinose.
Pela forma como falou, era evidente que ela detestava usar a palavra "inimigo". A água que eu estava esquentando já havia começado a ferver.
— Eu tenho café, café com leite e chocolate quente — falei.
— Então… eu vou querer chocolate quente, por favor — respondeu ela, assentindo com um pequeno sorriso. Servi uma xícara de chocolate quente para ela. Uma bebida quente podia aquecer o corpo por dentro. Depois de algum tempo, a chuva começou a diminuir, e o brilho alaranjado do pôr do sol passou a aparecer entre as nuvens.
Após observar a paisagem lá fora por um momento, Ichinose voltou a olhar para mim, ainda com aquele sorriso tímido no rosto. Um pouco depois, ela começou a falar lentamente sobre o que estava sentindo, pouco a pouco.
— Quando fui designada para a Classe B e conheci meus colegas, tive certeza de que iríamos vencer. Pode parecer arrogância, mas senti que tinha sido abençoada com amigos maravilhosos. Esse sentimento ainda não mudou — disse Ichinose.
Então ela falou novamente, como se quisesse esclarecer algo.
— No entanto, o único erro de cálculo foi ter me tornado a líder. Acho que, se eu tivesse lidado melhor com as coisas, a Classe B teria muito, muito mais pontos do que tem agora.
— Não tenho tanta certeza disso. Acho que não há dúvida de que você é uma pessoa incrivelmente talentosa, Ichinose — respondi.
Ela negou, balançando a cabeça de um lado para o outro.
— Percebi algo muito claramente quando conversei com a Horikita-san hoje. Ela realmente cresceu muito neste último ano. O Ryuen-kun e a Sakayanagi-san também parecem ter evoluído. Todos os líderes das outras classes estão ficando muito, muito mais fortes — disse Ichinose.
Ela não conseguia enxergar nenhum crescimento em si mesma durante esse último ano. Ao contrário das pessoas ao seu redor, que pareciam estar avançando rapidamente, ela sentia que estava parada. Por causa disso, sua confiança estava diminuindo. Enquanto sentia que suas próprias emoções a estavam dominando, também começava a sentir cada vez mais que estava ficando para trás.
— Será que… eu realmente vou conseguir vencer… no futuro?
— Será que você consegue vencer, hein… — repeti.
— Ayanokoji-kun, se eu dissesse que quero saber sua opinião… você me diria honestamente o que pensa? — perguntou ela.
— Se é isso que você quer, não vejo motivo para não responder — respondi.
Minha resposta não era necessariamente a correta. Mas havia uma resposta que Ichinose queria ouvir naquele momento. No entanto, isso não era algo que eu pudesse afirmar com certeza agora. O futuro ainda não estava definido, e existiam infinitas possibilidades. Mesmo assim, eu sabia muito bem que Ichinose não era o tipo de aluna que desistiria aqui.
— Estamos prestes a começar o segundo ano. Ou seja, um novo ano inteiro está prestes a começar — eu disse.
— É…
— Durante esse ano, você vai avançar junto com seus colegas, o mais longe que puderem. Haverá momentos felizes e momentos tristes ao longo do caminho. E acho que também haverá momentos em que você vai se sentir esmagada e desanimada. Mas, mesmo assim… não pare nunca.
O que Ichinose Honami, líder da Classe B, podia fazer agora?
Tudo o que ela podia fazer era continuar vivendo o dia a dia, avançando com a mesma determinação um tanto imprudente que sempre teve até agora. A única opção que ela tinha era confiar em seus aliados e lutar até o fim. Era uma arma que só a Classe B podia usar.
— Isso… será… será a resposta que estou procurando… daqui a um ano…?
Ela mesma, daqui a um ano. Ela não conseguia imaginar como seria essa versão de si mesma. Tenho certeza de que isso a deixava profundamente ansiosa.
— Eu estou com medo. Tenho medo de… do que você vai dizer para aquela versão de mim… daqui a um ano, Ayanokoji-kun…
Ela começou bem no Colégio, sendo colocada na Classe B. Passou o primeiro ano ao lado de seus colegas e conseguiu defender sua posição. Cercada por muitos amigos, sua vida ali parecia tranquila. No entanto, antes que percebesse, a realidade da diferença entre as classes estava bem diante de seus olhos. A palavra derrota estava na mente de Ichinose Honami.
— Eu…
— Eu sei. Tenho certeza de que é difícil aceitar isso como resposta — eu disse.
Ichinose desviou o olhar de mim. De propósito, não respondi à pergunta dela sobre se conseguiria ou não vencer no futuro. Bem, na verdade, eu nem precisava responder. Pelo que podíamos ver da situação atual, começava a surgir uma grande diferença de força entre as classes. Falando objetivamente sobre o estado das coisas naquele momento, a Classe B poderia muito bem acabar afundando para o último lugar no ranking no próximo ano.
Esse pensamento parecia ter despertado ainda mais as ansiedades de Ichinose. Ela tremia levemente — não por causa do frio, mas de medo.
— O que eu devo fazer…? O que eu devo fazer…? — murmurou baixinho para si mesma.
Tenho certeza de que Ichinose não podia deixar os outros alunos vê-la em um estado tão frágil. Especialmente seus colegas de classe. Seria fácil dizer algumas palavras gentis para ela naquele momento. Não seria difícil sussurrar coisas doces e reconfortantes para Ichinose, que havia aberto seu coração para mim.
Assim eu poderia me aproveitar da sua vulnerabilidade. Ou talvez pudesse tocar sua pele, escondida sob aquelas roupas molhadas. Quando me movi, Ichinose reagiu de forma forte — quase exagerada — e levantou o olhar para mim. Aproximei-me dela e me sentei ao seu lado, encontrando seu olhar. Pelos seus olhos, parecia que ela queria fugir.
— A-Ayanokoji…-kun…?
Estendi a mão direita e toquei o cabelo de Ichinose. Em seguida, coloquei suavemente a palma da mão contra sua bochecha. Senti uma sensação fria e macia, e depois um leve calor que começou a surgir sob a ponta dos meus dedos.
Então movi o polegar e acariciei suavemente seus lábios. Enquanto fazia isso, o tremor do corpo dela começou a diminuir, e logo seus lábios também pararam de tremer. Normalmente, Ichinose teria rejeitado algo assim. Não seria estranho se ela tivesse se afastado. Mas ela não fez isso.
— Que estranho… Você realmente é uma pessoa misteriosa… Ayanokoji-kun…
— Talvez você tenha razão.
Paramos de falar. Ichinose e eu apenas nos encaramos. Apenas isso — nada mais, nada menos.
— Ei, Ichinose. Que tal nos encontrarmos assim de novo… daqui a um ano? — perguntei.
— O que você quer dizer?
Ela não afastou o rosto da minha mão. Seus olhos úmidos e brilhantes me prenderam, como se não quisessem me deixar escapar.
— Exatamente o que parece. Quero nos encontrar exatamente como estamos agora… daqui a um ano. Só nós dois. Você e eu, Ichinose.
O que eu disse poderia soar como se eu estivesse confessando sentimentos românticos por ela. Mas foi só até aí. Afastei minha mão suavemente e soltei Ichinose. Depois me levantei e criei um pouco de distância entre nós.
— Neste próximo ano, não se deixe prender pela hesitação. Encontre-se comigo de novo. Você pode me prometer isso?
— Eu…
Ela fez uma pequena pausa.
— Mas… e se, naquela época… eu… a minha classe…
— Não importa. Eu só quero me encontrar com você daqui a um ano, Ichinose.
Ichinose fechou os olhos e então assentiu suavemente.
— Eu vou te dizer aquilo que queria te dizer agora quando nos encontrarmos então. Eu prometo.
— Certo. Obrigada… Ayanokoji-kun.
Um pouco de vida voltou aos seus olhos, que antes haviam perdido o brilho.
— Eu também vou fazer uma promessa para você. Vou dar tudo de mim neste ano… e vou lutar para chegar à Classe A — disse Ichinose.
Ichinose estava sorrindo mais do que havia sorrindo em muito tempo. Nós fizemos uma promessa de nos encontrar novamente dali a um ano. Se ambos sobrevivessem e atravessassem aquele período, essa promessa seria cumprida.
A Classe B, liderada por Ichinose Honami. O que aconteceria com a Classe B no futuro?
Mesmo havendo muitos motivos para pessimismo, o futuro ainda não estava decidido.
No entanto…
Se a Classe B caísse, eu seria aquele que acabaria com Ichinose.
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