A Classe de Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 11.5

Capítulo 2: Encontro com Hiyori

A CERIMÔNIA DE formatura e a cerimônia de encerramento haviam terminado sem incidentes. As férias de primavera finalmente haviam chegado, e os estudantes esqueceram completamente a competição entre si, aproveitando aquela breve pausa. Embora os alunos atuais obviamente não tivessem permissão para sair do campus, eles não se sentiam particularmente incomodados com isso — em grande parte graças à presença do Keyaki Mall.

O shopping era uma comodidade essencial não apenas para os alunos, mas para todos os afiliados à escola. Provavelmente não preciso explicar isso em detalhes neste ponto, mas havia de tudo lá: cafés, lojas de eletrônicos, karaokê e muito mais. Se houvesse algo específico que você realmente quisesse, poderia pedir por encomenda após fazer uma solicitação e obter permissão. Você era livre para viver como quisesse, desde que estivesse dentro do limite permitido pelo seu saldo de Pontos Privados.

Felizmente, ninguém desta turma de calouros passaria fome por falta de pontos. Até mesmo a classe de classificação mais baixa, a Classe D, receberia um subsídio de dezenas de milhares de pontos no dia 1º de abril. Quando se considerava a média de mesada de estudantes do ensino médio em todo o país, ficava claro que o valor que recebíamos era quase exagerado.

Ainda assim, mais de alguns estudantes tinham situações complicadas em mãos. Eu podia me incluir entre eles. Como parte de um contrato que eu tinha com minha colega de classe Kushida, prometi dar a ela metade da minha renda. Embora esse contrato inicialmente tivesse servido aos meus próprios propósitos, as coisas começaram a mudar.

O que eu deveria fazer sobre o contrato que tinha com Kushida — ou melhor, o que deveria fazer sobre minha relação com ela no geral? Eu teria que decidir isso durante as férias de primavera.
Deveria seguir com o plano original? Ou escolher uma alternativa diferente?

No entanto, essa escolha já não dependia apenas de mim. De qualquer forma, as férias de primavera estavam apenas começando. Não havia motivo para entrar em pânico. Troquei para roupas casuais e me preparei para sair. Eu pretendia passar a maior parte das férias apenas relaxando preguiçosamente no meu quarto, mas hoje tinha um breve compromisso com certa pessoa.

Pensei que demoraria um pouco mais para receber notícias dela, mas ela entrou em contato comigo surpreendentemente cedo. Assim que isso aconteceu, entrei em contato com outra pessoa.

— Só mais uma última verificação, eu acho.

Era o primeiro dia das férias de primavera, então eu precisaria fazer alguns ajustes. Mas isso não seria problema. O encontro de hoje era de grande importância.

Importante não para hoje, mas para o final das férias de primavera.

*

 

Os dias começaram a ficar mais quentes e ensolarados no final de março. Assim que ouvimos que as flores de cerejeira estavam prestes a começar a florescer, elas realmente começaram — e em pouco tempo estavam completamente abertas. Mesmo tendo chegado ao local do encontro mais cedo do que o esperado, vi que a estudante com quem eu iria me encontrar já estava lá, esperando por mim.

— Olá, Ayanokoji-kun.

Hiyori, vestindo roupas casuais que a deixavam bastante elegante, aguardava em frente ao Keyaki Mall.

— Você chegou cedo.

— Bem, fui eu quem te chamou, então não seria certo deixar você esperando — respondeu ela, exibindo um pequeno sorriso. — Desculpe por ter te convidado tão de repente hoje.

— Eu não tinha realmente nenhum plano para as férias de primavera, então não se preocupe. Além disso—

— Finalmente chegaram alguns livros novos na biblioteca ontem — disse Hiyori, mostrando a bolsa que carregava. Seu sorriso ficou ainda maior do que antes. Shiina Hiyori, da Classe C do primeiro ano, era uma garota que amava ler mais do que qualquer outra coisa. — Achei que deveria compartilhar essa informação com você o mais rápido possível, Ayanokoji-kun — acrescentou ela.

Os livros de um certo autor cujas obras Hiyori e eu gostávamos especialmente eram difíceis de encontrar em lojas de conveniência e livrarias de shopping. Eles também não estavam disponíveis como e-books, então a biblioteca era a nossa única forma de consegui-los.

Suponho que sempre poderíamos fazer pedidos especiais, mas a biblioteca ajudava os livros a alcançarem um público maior. Eu valorizava poder discutir uma obra com alguém dessa maneira.

— Tem mais gente aqui do que eu imaginei.

Os estudantes ocupavam as mesas por todo o café. Afinal, eram férias de primavera. Dependendo da hora do dia, o café podia ficar bastante cheio. Felizmente, parecia haver alguns lugares disponíveis no balcão, então fomos até lá.

— Nunca tivemos realmente a chance de nos encontrar assim durante um feriado. É meio revigorante, não acha? — disse Hiyori.

Era verdade que quase nunca nos encontrávamos durante as férias, ainda mais com Hiyori vestindo suas roupas pessoais.

— É, você tem razão — respondi.

O clima entre nós dois ficou mais leve enquanto conversávamos.

— Bem, eu sei que isso é meio repentino, mas achei melhor ir direto ao ponto… Eu trouxe vários livros comigo. Quer dar uma olhada? — disse Hiyori, feliz, enfiando a mão na bolsa para pegá-los.

Mas, de repente, sua mão parou. Ela ergueu o olhar, como se tivesse acabado de se lembrar de algo.

— Ah, isso me lembra uma coisa. Antes de mergulharmos na conversa sobre livros, você se importa se falarmos rapidamente de outra coisa primeiro?

Antes que ela pudesse continuar, uma voz alta ecoou atrás de nós.

— Ah, droga. Esse lugar tá lotado, cara. Não tem nenhuma mesa livre?

A voz familiar podia ser ouvida por perto. A pessoa em questão estava reclamando do estado do café — mais precisamente, de como estava cheio.

— Esse lugar aqui tá bom?

— É… acho que sim.

No meio da atmosfera tranquila do café, os dois recém-chegados se sentaram nas cadeiras que tinham acabado de ficar vagas. Direcionei o olhar na direção das vozes — uma masculina e outra feminina — e vi meus colegas de classe Ike e Shinohara. Eles pareciam estar no meio de uma conversa, então não perceberam nossa presença. Os dois já pareciam estar se aproximando um pouco há algum tempo. Pelo visto, essa tendência continuava.

— Aqueles dois são… Ike-kun e Shinohara-san, se não me engano. Não são? — disse Hiyori.

Ela não chegou a se inclinar para sussurrar no meu ouvido, mas tomou cuidado suficiente com o volume da voz para que Ike e Shinohara não nos ouvissem.

— Você tem uma boa memória — respondi.

— Afinal, já se passou um ano inteiro. Acabei conhecendo bem alguns alunos das outras turmas — disse ela, com os olhos brilhando de orgulho. Por algum motivo, nós dois ficamos em silêncio e nos inclinamos levemente, ouvindo a conversa entre Ike e Shinohara.

— Parece que nossa renda mensal voltou a ficar abaixo de trinta mil de novo — resmungou Ike.

— Fazer o quê. Afinal, a gente estava enfrentando a Classe A. Não era como se tivéssemos chance de ganhar — disse Shinohara.

— É… acho que você tem razão. E mês que vem a gente volta a ser Classe D, né? Que saco.

Ike coçou a cabeça. Ele provavelmente estava pensando na derrota do exame de fim de ano.

— Mas… você sabe por que a gente perdeu? — perguntou Shinohara.

— O quê? Quer dizer de quem foi a culpa? — disse Ike.

Por um instante pensei que ele diria meu nome, já que eu era o comandante. Mas…

— Foi culpa minha. Minha mesmo — disse Ike.

Os olhos de Shinohara se arregalaram ao ouvir aquele comentário inesperado.

— Bem… tecnicamente, acho que eu diria que sinto que fui um dos motivos da derrota. Pra ser totalmente honesto, acho que se a turma estivesse mais unida, a gente teria vencido. Quero dizer, claro, a Classe A é absurdamente forte e tudo mais. Mas mesmo assim, a gente lutou bem — disse Ike.

— B-Bem, acho que você tem razão… mas ainda assim é uma surpresa enorme ouvir você dizer isso, Ike — disse Shinohara.

— Ei, peraí. Acho que você tá esquecendo de uma coisa, Shinohara. Você me chamou só pelo primeiro nome. Não achei que a gente fosse tão próximo assim.

— Olha quem fala. Você acabou de me chamar de Shinohara. Então acho que estamos quites — rebateu ela. Eles continuaram refletindo sobre o que tinha acontecido no fim do ano, às vezes desviando para assuntos sem importância.

— Quando começar nosso segundo ano aqui, acho que vou me esforçar ainda mais. Tanto nas aulas quanto nos esportes — disse Ike.

— Hã? Sério? Não consigo imaginar você mantendo essa promessa.

— Ei, eu não vou virar perfeito de uma hora pra outra. Mas pensei em começar a levar as coisas a sério — respondeu Ike. Pela maneira como ele falou, parecia que aquilo era mais do que um pensamento passageiro.

— Só por curiosidade… por quê? — perguntou Shinohara.

— Ken e Haruki.

Não muito tempo atrás, os três eram bons amigos, conhecidos pelos outros alunos da nossa turma como o Trio dos Idiotas. Eu me lembrava de ter ficado relativamente próximo deles quando cheguei à escola, mas acabamos nos afastando. Ou, para ser mais preciso, acho que eu deveria dizer que fui expulso do grupo.

— Quer dizer, o Ken nunca foi do tipo estudioso, mas ultimamente ele tá estudando o tempo todo, né? Ele tem levado as aulas bem a sério. No começo achei que ele estava só fingindo, mas acho que ele realmente tá ficando mais inteligente — disse Ike.

— Parece mesmo que as notas dele melhoraram — acrescentou Shinohara.

— É, com certeza. As notas dele estão melhorando aos poucos, e ele já é muito bom nos esportes. Dá até a sensação de que não tem mais nada em que eu consiga vencer ele.

— Mas você também melhorou nos estudos, não melhorou, Ike?

Se comparássemos Ike e sudou agora, sudou teria mais chances de sair na frente tanto nos estudos quanto nos esportes.

— Acho que… no ano que vem ele vai alcançar níveis ainda mais altos — disse Ike.

Parecia que, por um lado, ele estava feliz em ver um amigo próximo evoluindo. Por outro, tinha medo de ficar para trás. E o principal motivo para esse medo era…

— Se as coisas continuarem assim, provavelmente eu sou o próximo a ser expulso — acrescentou.

— Ike…

Quanto mais baixa fosse a posição de um aluno dentro da turma, maior era a probabilidade de ele enfrentar a expulsão. Esse fato era inevitável. Yamauchi tinha demonstrado muitos comportamentos problemáticos e acabou sendo sacrificado por isso. Ike começava a sentir que seria o próximo.

— Não ri, tá? E não venha dizer que não é do meu tipo falar essas coisas — disse Ike.

— Bem, é verdade que não é muito do seu tipo falar assim, mas… sabe, eu sou praticamente igual a você.

Shinohara não tinha exatamente boas notas, nem possuía talentos particularmente notáveis. Apesar da diferença de gênero, os dois estavam em posições muito parecidas.

— Além disso, eu não poderia rir de alguém que quer se esforçar — acrescentou ela, assentindo com determinação. — No ano que vem eu também vou me esforçar ainda mais. Não tem chance de eu perder pra você.

— Nem ferrando que eu vou perder pra você! — respondeu Ike.

O relacionamento deles parecia estar progredindo bem. No futuro, certamente haveria outros alunos que se sentiriam motivados a se esforçar mais ao ver esses dois. Quando alguém avança, outros acabam seguindo. Relações mutuamente benéficas como essa eram extremamente importantes.

— Então, ei, Shinohara.

— Hm?

Ike, que estava sentado ao meu lado, começou a falar em um tom sério. Mas sério de um jeito diferente de antes.

— Bem… é que… tem uma coisa que eu queria falar com você. Tudo bem?

— O que deu em você? Tá todo sério — respondeu ela.

— Bem, sabe… é que parece que a gente é aquele tipo de amigo que vive brigando às vezes e tal, mas… quer dizer…

Hiyori e eu trocamos olhares. Justamente por estarmos observando de fora é que entendíamos melhor do que a própria Shinohara o que Ike estava tentando dizer. Era possível que estivéssemos prestes a presenciar o nascimento de um novo casal ali mesmo. Pelo menos, era para onde tudo parecia estar indo.

— Eu—

— Ah!

Bem no momento em que Ike estava prestes a dizer o que queria, Shinohara soltou um grito alto. Embora o campus ocupasse uma área ampla, a maioria dos prédios era relativamente pequena. Era difícil não perceber o que acontecia ao redor, e Shinohara, que estava olhando para Ike, pareceu notar Hiyori e eu sentados bem ao lado.

Ike, percebendo a surpresa dela, seguiu a direção do olhar de Shinohara e se virou. Assim que nossos olhos se encontraram, ele praticamente saltou da cadeira.

— AAAAAH! Ayanokoji?!

A reação dele foi muito mais intensa do que eu imaginava. Provavelmente porque ele estava prestes a contar a Shinohara como se sentia.

— O-O-O que você tá fazendo aqui?! — perguntou.

— O que eu tô fazendo…? Ué, tem algum problema em eu estar no café? — retruquei.

— N-Não, não tem, mas, cara, você podia pelo menos ter falado alguma coisa! Eu nem fazia ideia de que você estava aqui! Você apareceu do nada!

Eu achei que tentar falar com ele numa situação dessas estaria fora de cogitação. Além disso, ele disse que eu apareci do nada, mas eu estava aqui primeiro.

— Cara… não me diga que você ouviu o que a gente estava falando. Ouviu? — perguntou.

— E o que vocês estavam falando? — respondi com outra pergunta.

Quando devolvi a pergunta, ele desviou o olhar, visivelmente constrangido.

— N-Nada. Quer dizer… isso importa? — respondeu.

Shinohara, que estava ouvindo nossa troca de palavras, comentou outra coisa.

— Espera, Ayanokoji-kun… você e a Shiina-san estão namorando? — perguntou ela, percebendo que eu não tinha vindo sozinho. Claro, já que ela tinha nos visto sentados juntos no café, não era estranho que perguntasse isso.

— Não, não é nada disso. E vocês dois? — perguntei.

— Ah, não, de jeito nenhum. Eu e o Ike não somos assim — respondeu ela, rejeitando completamente a ideia de que tinham esse tipo de relação. Ike rapidamente entrou na conversa, talvez porque não tivesse gostado do que acabou de ouvir.

— É-É isso mesmo, Ayanokoji! Quer dizer, não entenda errado, tá? Como se alguém fosse querer ficar com essa feiosa!

— Hã?! Quem você tá chamando de feiosa, seu feioso?! — retrucou Shinohara.

— Você! — respondeu ele na mesma hora.

Espera… por que vocês dois estão brigando agora?

Ambos se levantaram e passaram a encarar um ao outro, destruindo completamente o clima positivo que existia poucos instantes antes.

— Aff, isso é uma droga!

— Tirou as palavras da minha boca. E eu ainda fiz questão de arrumar tempo pra você nas férias de primavera.

— Hã? Espera, o quê? Hã? Eu não tinha outra opção além de você! Não tinha mais ninguém!

— O quê?! Você é um completo idiota!

Achei que eles fossem voltar a se sentar, mas por algum motivo começaram a ir embora para outro lugar, ainda discutindo enquanto se afastavam.

Estivemos a ponto de testemunhar o nascimento de um novo casal — mas, infelizmente, as coisas tomaram um rumo inesperado.

— Será que… eles vão ficar bem? — murmurou Hiyori, também surpresa com a mudança repentina da situação.

— Quem sabe…

Eles só podiam culpar a própria falta de sorte por terem acabado sentando ao lado de um colega de classe. Ainda assim, eu esperava que eles se reconciliassem e continuassem fazendo seu relacionamento avançar.

— De qualquer forma… você estava prestes a dizer alguma coisa antes, não estava? — perguntei.

— Ah, bem… sim, eu estava. Curiosamente, é algo surpreendentemente parecido com o que aqueles dois estavam falando agora há pouco — respondeu Hiyori.

Parecido? Acabei me sobressaltando um pouco ao ouvir isso. Ela não podia estar se referindo ao fato de Ike estar prestes a contar a Shinohara como se sentia, certo? Algo romântico?

Esses pensamentos passaram pela minha cabeça por um instante, antes de eu imediatamente descartá-los.

— Tem algo que eu queria te perguntar, Ayanokoji-kun, sobre o exame de fim de ano — disse ela.

Bem… suponho que Ike e Shinohara também estavam falando sobre o exame de fim de ano.

— O que você queria me perguntar?

— Desculpe se meu raciocínio estiver errado. Vou perguntar diretamente. Foi você quem mudou o Ryuen-kun?

O olhar de Hiyori estava cheio de curiosidade, sem o menor sinal de má intenção. Pensando bem, desde a primeira vez que nos encontramos eu havia percebido que ela possuía uma percepção bastante aguçada.

— Normalmente, minha resposta para algo assim seria: "Do que você está falando?"

Fingir ignorância e agir como se eu não tivesse nada a ver com aquilo teria sido a melhor atitude para mim. O motivo de eu não ter feito isso era a certeza presente nos olhos de Hiyori.

— Sim, imagino que seria assim. Mas achei que você entenderia sem que eu precisasse explicar, já que você é… bem, você mesmo, Ayanokoji-kun.

"Mudar o Ryuen." A maioria das pessoas provavelmente balançaria a cabeça ao ouvir algo assim. As únicas que não fariam isso seriam aquelas que tinham algum grau de compreensão da situação… ou a pessoa que realmente o havia mudado.

— Por que você pensa isso? — Em vez de tentar despistá-la, decidi perguntar diretamente o motivo do raciocínio de Hiyori. Eu queria saber por que ela tinha tanta certeza.

— Foi apenas uma questão de juntar lentamente as peças do quebra-cabeça. O Ryuen-kun era obcecado por você e pela sua turma, Ayanokoji-kun. Mas, a partir de certo momento, ele simplesmente saiu de cena. Oficialmente, foi por causa de uma revolta liderada pelo Ishizaki-kun, mas aquilo me pareceu mais uma cortina de fumaça. Passei a ter ainda mais certeza disso quando coloquei Ishizaki-kun e Ibuki-san, que antes eram aliados próximos de Ryuen-kun, em contato com ele novamente.

Pelo visto, Hiyori havia executado várias estratégias das quais eu não fazia a menor ideia. E ela também desconfiava do fato de Ryuen ter se retirado de forma tão silenciosa.

— Se isso te incomodar, peço sinceras desculpas. Fiquei muito preocupada se deveria ou não falar sobre isso com você hoje. Pensei que poderia te deixar irritado ao tocar nesse assunto, Ayanokoji-kun. Independentemente de qual seja a verdade, eu sabia, ao olhar para você, que você não queria falar sobre isso — disse Hiyori.

— Então você trouxe o assunto à tona já preparada para as possíveis consequências.

Aquilo estava em um nível completamente diferente de uma conversa casual do dia a dia. Era uma decisão que ela havia tomado após pensar cuidadosamente.

— Se não pudermos mais ser amigos por causa disso… então eu certamente vou me arrepender. Se eu não puder mais ficar ao seu lado por causa disso, Ayanokoji-kun, vou me arrepender profundamente de ter tocado nesse assunto — respondeu ela.

Nesse caso, teria sido melhor guardar aquilo para si mesma. Mesmo assim, Hiyori decidiu trazer o assunto à tona hoje.

— Eu apenas pensei que, se não falasse sobre isso, nós não avançaríamos mais — disse Hiyori.

— Não avançaríamos mais? — perguntei.

Quando fiz essa pergunta, Hiyori ficou de boca aberta, como se estivesse chocada. Parecia surpresa com o que ela mesma havia acabado de dizer.

— Ah… bem… hum… acho que nem eu mesma entendo muito bem o que estou dizendo — respondeu ela, com uma expressão um pouco confusa. — Hum… você ouviu falar sobre a disputa entre a nossa turma e a Classe B?

— Só o resultado.

Eu não conhecia os detalhes. Mudando de assunto, Hiyori começou a explicar como eles haviam vencido.

— Entendo. Normalmente, o que vocês fizeram seria considerado problemático — respondi.

— É verdade que o modo de agir do Ryuen-kun tem muitos pontos problemáticos. Mas também acho que existem certos males necessários que precisamos cometer para que nossa turma consiga subir para níveis mais altos. Você acha que o que fizemos foi injusto?

— Bem, não posso negar essa parte, pelo menos.

Mesmo que não fosse um método de luta digno de elogios — mesmo que isso fizesse com que falassem mal deles pelas costas — ainda assim era uma forma de garantir a vitória para a turma. A sociedade precisava de pessoas assim. Para lutar uma batalha solitária, que não renderia nenhum reconhecimento, era necessária uma força de vontade inabalável.

— É que… bem, não há dúvida de que entramos em um território extremamente perigoso. Tenho certeza de que alguns alunos da Classe B estão começando a desconfiar, mas acho que não encontrarão nenhuma prova concreta. Nós evitamos todas as câmeras de segurança instaladas pela escola — disse Hiyori.

Havia muitas câmeras de segurança espalhadas pelo campus. Elas estavam nos prédios da escola, é claro, mas lugares como o Keyaki Mall e seus arredores também eram monitorados. No entanto, não estavam em todos os lugares. Não havia câmeras nos banheiros nem em espaços privados, como as salas de karaokê.

Se Ichinose e os outros alunos da Classe B se manifestassem e dissessem que havia algo estranho no que aconteceu, provavelmente haveria uma investigação. Porém, essa investigação provavelmente acabaria estagnando, sem encontrar nada conclusivo. Era improvável que surgisse algum desenvolvimento a partir disso.

— Vocês conseguiram cinco vitórias bem impressionantes. Dá para dizer que o plano foi executado perfeitamente, não acha? — perguntei.

— Impressionantes? Eu não diria isso. Se for para falar a verdade, acho que nossos métodos foram extremamente falhos.

— Como assim? Você quer dizer que era possível conseguir seis ou mais vitórias?

— Cinco vitórias já é ótimo. Mas… bem, acho que acabamos sendo gananciosos. Ryuen-kun adotou uma estratégia extremamente perigosa para conseguir essas vitórias.

Refletindo sobre o que havia acontecido, Hiyori analisou os eventos do último exame. Então me explicou como haviam vencido.

— Acho que pressionar continuamente os alunos da Classe B foi aceitável, mas atacar a saúde física deles claramente foi um erro. Mesmo que tenhamos recorrido a isso porque há tantas pessoas boas e virtuosas na Classe B, ainda assim não é algo aceitável.

Eu sentia exatamente o mesmo que Hiyori. Sabia que a garota à minha frente havia vivido uma vida completamente diferente da minha. Não havia como sermos iguais e, ainda assim, eu tinha certeza de que existiam algumas semelhanças em nossos processos de pensamento e ideias. Foi justamente por isso que algumas dúvidas começaram a surgir na minha mente ao ouvi-la falar.

— Você sabia disso antes de Ryuen usar essa estratégia. E mesmo assim não tentou impedi-lo? — perguntei.

— Você acha que ele é o tipo de pessoa que ouviria meus conselhos?

Suponho que, ao contrário de Ishizaki e Ibuki, Ryuen talvez ao menos escutasse Hiyori. Mas provavelmente não seguiria seus conselhos. Ele nunca aceitaria sugestões de outras pessoas — tudo o que faria seria desprezá-las.

— É, você tem razão. Nesse caso, como você acha que Ryuen poderia ser detido? — perguntei.

Eu queria ver até onde ela havia pensado e quanto havia agido. Era essa resposta que eu queria extrair dela. Talvez Hiyori também tivesse entendido isso intuitivamente. Entendido os motivos que a trouxeram até ali hoje.

— Por alguém de igual nível… Não, melhor dizendo, por alguém mais capaz do que ele. Acima de tudo, ele só reagiria a uma repreensão de alguém que tivesse despertado seu interesse — disse Hiyori.

Ryuen não ouviria os conselhos de ninguém — a menos que viessem de alguém que ele reconhecesse. E foi justamente por isso que Hiyori estava me contando tudo aquilo.

— Hiyori. Você se importaria de transmitir uma mensagem por mim? — perguntei.

Escolhi deliberadamente não usar palavras que confirmassem diretamente o que ela havia perguntado antes. O que eu já tinha dito era suficiente. Se estivesse falando com outra pessoa, talvez fosse diferente, mas Hiyori provavelmente não usaria sua posição atual para me causar problemas. Ela entendia a importância do fato de que Ryuen, que me reconhecia como o líder da minha turma, não tornava pública a minha existência.

— Qual é a mensagem? — perguntou ela. Sua expressão não mudou, mas ela me olhou gentilmente.

— Diga ao Ryuen que, se fosse comigo, eu poderia ter conquistado a vitória em cinco ou mais provas com facilidade e segurança. Diga isso a ele.

— Certo, entendi. Já gravei a mensagem na memória. Vou me certificar de transmiti-la.

Hiyori sorriu, estreitando os olhos de forma satisfeita, e juntou levemente as mãos como se estivesse agradecendo. Ryuen tinha uma boa aliada, além de Ishizaki e Ibuki. Se Hiyori conseguisse controlar a tendência dos três de agir impulsivamente, eles se tornariam ainda mais formidáveis.

E assim encerramos nossa conversa sobre o exame de fim de ano.

— Bem, então…

Normalmente eu já teria me despedido nesse ponto, mas a parte mais importante do nosso encontro ainda estava por vir.

— Se encontrar algum que chame sua atenção, por favor leve para casa e leia — disse Hiyori, abrindo novamente a bolsa e retirando alguns livros. Eram esses livros que originalmente planejávamos discutir quando combinamos de nos encontrar ali hoje.

— Tem certeza de que está tudo bem? Esses livros foram retirados no seu nome, não foram?

— Já consegui permissão da bibliotecária. Embora isso não seja muito incentivado, ela disse que está tudo bem desde que os livros sejam devolvidos dentro do prazo.

Hiyori provavelmente era uma espécie de VIP na biblioteca. Não era surpreendente que recebesse um tratamento especial.

Conversamos animadamente sobre livros por um tempo, depois terminamos nossas bebidas e seguimos caminhos diferentes.

— Parece que preciso mudar um pouco minha avaliação sobre ela — murmurei para mim mesmo.

Até agora, eu só tinha pensado em Hiyori como mais uma estudante do meu ano. Ou, mais especificamente, como uma amiga com quem eu compartilhava um interesse em comum. Pouco depois de me despedir de Hiyori, encontrei Kei, que havia vindo ao Keyaki Mall.

— O que você quer? — perguntou ela.

As primeiras palavras que saíram de sua boca foram ditas em um tom ríspido. Ela não parecia estar de bom humor.

— Que tal você se sentar primeiro? — perguntei em resposta.

Eu a incentivei a se sentar no lugar que havia acabado de ser desocupado quando Hiyori saiu, mas ela recusou, apenas lançando um breve olhar para a cadeira. A expressão em seu rosto sugeria repulsa.

— Rumores estranhos começariam a circular se as pessoas nos vissem sentados juntos aqui — respondeu ela, olhando para longe, na direção oposta. Se um terceiro estivesse nos observando agora, mesmo de certa distância, provavelmente não pareceria que Kei e eu estávamos conversando.

— Seria um problema se esse tipo de comentário começasse a se espalhar? — perguntei.

— Sim, seria um grande problema. Você entende que, se interagir descuidadamente com alguém do sexo oposto, os rumores se espalham quase imediatamente, certo? Parece que você não entende nada disso — disse Kei.

Pelo visto, era exatamente isso que eu estava fazendo naquele momento: interagindo descuidadamente com alguém do sexo oposto.

— Então? O que você queria? — perguntou ela.

— Desculpa. Eu simplesmente esqueci. Quando me lembrar, entro em contato.

Eu já tinha resolvido o que precisava resolver em relação à Kei.

— O quê? Aff, isso é ridículo… Estou indo embora — bufou ela, soltando um suspiro exasperado e virando as costas para mim. Não tentei detê-la, apenas observei enquanto ela se afastava. Isso só piorou o humor dela, o que era completamente compreensível. Afinal, ela estava de mau humor porque eu deliberadamente a fiz se sentir assim.

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