Ano 1 - Volume 11.5
Capítulo 1: Cerimônia de Formatura
24 DE MARÇO. A cerimônia de formatura
Hoje foi um grande evento. Marcou o fim dos estudos dos alunos do terceiro ano e também foi o dia em que eles finalmente puderam se despedir desta escola e entrar na próxima fase de suas vidas. Para os outros estudantes, era apenas mais uma cerimônia à qual precisavam comparecer. Mas eu, pessoalmente, estava interessado em assistir.
A primeira coisa que eu queria ver era o resultado do confronto entre Horikita e Nagumo. Eu ainda não tinha ideia de como a batalha deles — travada incessantemente até o último momento — terminaria. O irmão de Horikita conseguiria se formar pela Classe A? Ou seria derrotado pela interferência de Nagumo?
Suponho que eu poderia ter descoberto o resultado ontem, no meu tempo livre, mas fiquei no meu quarto porque tinha algumas coisas para fazer. De qualquer forma, tudo seria revelado hoje. Além disso, eu simplesmente estava curioso para ver como seria uma cerimônia de formatura. Era natural ficar animado com coisas que você estava vivenciando pela primeira vez, fosse uma cerimônia de formatura ou de encerramento.
Como o horário das aulas estava se aproximando, tranquei a porta do meu quarto e segui em direção ao prédio da escola.
— Bom dia — disse Keisei, cumprimentando-me quando entrei no elevador com ele. Respondi da mesma forma. Como havia vários alunos de outras turmas conosco, não puxamos muita conversa. Apenas ficamos em silêncio e, quando o elevador chegou ao saguão, saímos juntos do dormitório.
— Finalmente conseguimos subir até a Classe C, só para sermos derrubados de novo no fim do ano. Ainda assim, acho que não sofremos tanto quanto eu pensei que sofreríamos — murmurou Keisei, suas palavras se perdendo no céu claro e sem nuvens.
A derrota da Classe C no exame especial final, no fim do nosso primeiro ano, significava que seríamos rebaixados novamente, voltando para a Classe D. Foi um choque considerável para os alunos da nossa turma. Felizmente, o fato de nosso oponente ter sido a Classe A amenizou um pouco o golpe, assim como o fato de que eu, por possuir um Ponto de Proteção, ajudei a aliviar parte da tensão ao assumir o papel de comandante. Talvez até se pudesse dizer que simplesmente demos uma boa luta — e isso, por si só, já era admirável.
Mesmo tendo sido rebaixados novamente para a Classe D, a mudança real nos Pontos de Classe não foi tão ruim. Os Pontos de Classe provisórios no final de março eram:
Classe A de Sakayanagi: 1131 pontos
Classe B de Ichinose: 550 pontos
Classe C de Horikita: 347 pontos
Classe D de Ryuen: 508 pontos
Esses números só entrariam em vigor no mês seguinte, porém. Os Pontos de Classe eram determinados no primeiro dia de cada mês, e era nesse momento que as turmas mudavam de posição. Portanto, neste momento, ainda éramos Classe C, não Classe D. Além disso, Ryuen e seus seguidores não apenas reapareceram como Classe C, como também estavam praticamente empatados com a Classe B em termos de Pontos de Classe.
Se as pontuações permanecessem assim até a chegada do dia primeiro de abril no próximo mês, as turmas sofreriam uma grande reviravolta. Mas era preciso lembrar que havia muitas variáveis nesta escola que podiam fazer os Pontos de Classe flutuarem a cada mês. A turma de Ichinose tinha muitos alunos dedicados, mas não se podia dizer exatamente o mesmo dos colegas de Ryuen — nem mesmo tentando ser gentil.
Também era provável que a maneira como os alunos levavam sua vida cotidiana fizesse diferença nos Pontos de Classe. Eu tinha certeza de que os estudantes da Classe B estavam mortos de medo agora, mas mesmo assim, o fato de Ichinose ter conseguido defender a posição deles até o fim durante todo este ano devia ser um alívio. Ainda assim, a diferença entre a turma dela e a de Ryuen era, no momento, de meros quarenta e dois pontos. Havia uma possibilidade considerável de Ryuen tomar o lugar da Classe B, por exemplo, no próximo exame especial.
Se olhássemos apenas para esses fatos, poderia parecer que éramos os únicos perdendo terreno, já que voltaríamos a ser a Classe D. Mas precisávamos lembrar como estavam os Pontos de Classe em abril e maio do ano passado. Em abril do ano passado, todas as quatro turmas começaram em igualdade de condições, com mil pontos cada. Naquele momento, a superioridade da Classe A e a inferioridade da Classe D não existiam.
Pensando bem, aquela provavelmente tinha sido nossa melhor chance de estabelecer nossa posição… mas, bem, nós, da Classe D, perdemos todos os nossos Pontos de Classe em menos de um mês. Como resultado, os Pontos de Classe em 1º de maio do ano passado eram:
Classe A de Sakayanagi: 940 pontos
Classe B de Ichinose: 650 pontos
Classe C de Ryuen: 490 pontos
Classe D de Horikita: 0 pontos
Todas as turmas perderam pontos entre maio do ano passado e agora. Na verdade, pode-se dizer que maio do ano passado foi o mês em que a competição realmente começou. Mas, levando isso em conta, nossa turma acabou ganhando trezentos e quarenta e sete Pontos de Classe em um ano. Talvez ainda perdêssemos alguns devido a fatores como comportamento, atrasos, faltas e assim por diante, mas no fim das contas provavelmente ainda teríamos ganhado algo entre trezentos e trinta e trezentos e quarenta pontos.
Examinar essas informações levava a uma única conclusão: nossa turma teve o maior aumento de Pontos de Classe ao longo do ano. Nosso crescimento foi muito maior que o da Classe A, que teve o segundo maior aumento, com cento e noventa e um pontos ganhos. Considerando que havíamos despencado até o fundo do poço no início da primavera passada e sido imediatamente reduzidos a zero pontos, dava para dizer que tínhamos ido muito bem.
E agora que estávamos entrando no segundo ano, esperava-se que meus colegas de turma fossem ainda melhores. Levando em conta fatores como o crescimento das habilidades de liderança de pessoas como Horikita e Hirata, além da melhora geral das capacidades da nossa classe, estava perfeitamente dentro do possível que competíssemos com as turmas muito acima de nós.
Quando ficamos sozinhos, Keisei abriu a boca, como se quisesse me dizer algo…
— Está tudo bem. A maioria dos nossos colegas não te culpou por nada — disse ele.
Provavelmente achou que eu estava preocupado com a nossa derrota, já que eu era o comandante. Na verdade, eu não me importava nem um pouco, mas notei a forma específica como ele se expressou.
— A maioria? — perguntei.
Tenho certeza de que ele pretendia dizer algo reconfortante, mas acabou dizendo algo que chamava atenção. Isso basicamente significava que havia alguns alunos — ainda que poucos — que estavam insatisfeitos comigo.
— Bem, é que… eu suponho que não seja uma situação perfeita de forma alguma. É só que… não é como se estivessem dizendo que a culpa é sua, Kiyotaka, mas ouvi algumas pessoas comentando que deveria haver alguém mais capaz no papel de comandante — disse Keisei.
De certo modo, isso era praticamente o mesmo que me culpar. As pessoas podiam ser irracionais. Não era surpreendente que alguns levantassem objeções depois do fato, mesmo tendo concordado antes. Também não era estranho que alguns estivessem insatisfeitos, pensando que o motivo de termos perdido para a Classe A foi a diferença entre nossos comandantes.
— Bem, mesmo que falem pelas suas costas, você tem que continuar confiante, certo? Quer dizer, não era como se outra pessoa pudesse ter sido comandante, já que ninguém mais tinha um Ponto de Proteção — acrescentou ele, depois de considerar que talvez alguns alunos viessem reclamar comigo.
— Bem, tenho certeza de que a maioria pensa assim. Mas também existe o exemplo do Ryuen.
Quando eu disse isso, um sorriso irônico apareceu no rosto de Keisei. Ele balançou a cabeça suavemente de um lado para o outro.
— Aquele cara é uma exceção. Acho que toda aquela imprudência dele faz parte da atuação. Na verdade, foi justamente o fato de o Ryuen — a única pessoa que não tinha um Ponto de Proteção — ter aparecido para competir que pegou a Classe B completamente de surpresa e levou à derrota esmagadora deles.
Mas isso não era verdade. Aquilo fazia parte de uma estratégia cuidadosamente calculada por Ryuen para alcançar a vitória. Seu comportamento aparentemente indefeso e sua entrada surpresa eram apenas componentes do plano.
— Ei, Kiyotaka, tem uma coisa que eu quero te perguntar.
Keisei voltou a falar depois que esgotamos aquele assunto e chegamos a um ponto da conversa em que podíamos mudar de tema.
— Quando eu falei sobre tentar conquistar o Katsuragi por conta própria, sem consultar mais ninguém, por que você não contou isso para a Horikita?
Para vencer a Classe A no exame final do ano, Keisei havia proposto uma ideia a Horikita. Sua estratégia era trazer Katsuragi — que havia confrontado e sido derrotado por Sakayanagi — para o nosso lado como aliado. Mas Horikita não aprovou a ideia, então Keisei tentou conquistar Katsuragi completamente por conta própria.
No entanto, ele fracassou. Bem, na verdade, seu fracasso também não teve um impacto significativo. Embora Katsuragi não tenha concordado em cooperar conosco, qualquer prejuízo resultante disso foi praticamente insignificante.
— Ei, no fim das contas, ninguém saiu prejudicado, certo? — eu disse a ele. Claro que esse não era realmente o ponto mais importante para Keisei. Mesmo sabendo disso, ofereci deliberadamente algumas palavras de conforto.
— Isso só aconteceu porque o Katsuragi não é do tipo que usa truques sujos. Se estivéssemos lidando com alguém como Sakayanagi ou Ryuen, teríamos sofrido um golpe muito mais devastador — respondeu ele.
Keisei sentia um forte senso de responsabilidade por ter tentado forçar Katsuragi a se juntar ao nosso lado. E ele estava preocupado com um futuro que nunca chegou a acontecer. Pelo jeito que falava, ele já havia contado a Horikita sobre sua tentativa de conquistar Katsuragi.
— Ah, é mesmo, lembrei agora. Eu contei para a Horikita. Achei que deveria assumir a responsabilidade — acrescentou. Ele havia admitido abertamente o que fez, preparado para qualquer repreensão.
— Kiyotaka, você tinha certeza de que o Katsuragi nunca trairia a Classe A? — perguntou ele, colocando suas preocupações diretamente diante de mim.
— Não, não tinha certeza. Para ser sincero, havia uma possibilidade real de o Katsuragi mudar de lado. Você não acha?
— Bem… eu suponho que sim, mas…
Deixei de lado, por enquanto, a questão de se havia cinquenta por cento ou apenas um por cento de chance de isso acontecer.
— Eu não contei para a Horikita porque simplesmente esqueci. Eu estava preocupado se conseguiria cumprir minhas responsabilidades como comandante, então minha mente estava ocupada com isso. Nesse sentido, eu também tinha uma grande responsabilidade. Se as coisas tivessem dado certo e você realmente tivesse conseguido trazer o Katsuragi para o nosso lado, provavelmente eu não teria conseguido desempenhar bem minhas próprias funções. Nós dois somos culpados — eu disse.
Agora que ambos tínhamos dito o que precisávamos, aquilo encerrou completamente a discussão sobre Katsuragi.
— Nós dois somos culpados, é? — disse Keisei. — Mesmo assim, agora percebo dolorosamente a minha falta de visão. Considerando os riscos, eu nem deveria ter pensado em tentar conquistar o Katsuragi em primeiro lugar.
Não podíamos desfazer o que já tinha acontecido, mas podíamos refletir sobre isso.
— Se estamos falando de falta de visão, então eu sou igualmente culpado. Eu estava lá também e não disse nada — falei.
— Ouvir você dizer isso me faz sentir um pouco melhor.
Enquanto muitos alunos permaneceram passivos durante o exame, Keisei tinha tentado desesperadamente qualquer coisa que pudesse ajudar nossa classe a vencer.
— Além disso, acho que você já percebeu agora, não é? Entendeu que não dá para ter sucesso facilmente com uma estratégia dessas.
Era possível aprender muito com os próprios erros. No entanto, aproveitar essas lições ou não dependia de cada pessoa.
— É, você está certo. Eu queria tanto vencer que não conseguia ver o que estava bem na minha frente. Cara, agora que me acalmei e penso nisso, parece até patético — murmurou ele baixinho, como se estivesse refletindo sobre o que aconteceu. Embora sua ideia de tentar conquistar Katsuragi tivesse sido certamente ingênua, o fato de ele ter tido coragem de tentar era digno de elogio.
— Então, o que a Horikita disse para você? — perguntei.
— Ela não me culpou, mesmo que toda a nossa turma provavelmente tivesse sofrido se eu tivesse lidado mal com a situação. Pelo contrário, ela disse que queria que eu a avisasse da próxima vez que eu tivesse uma ideia. Claro, ela também me alertou para não agir com excesso de entusiasmo — respondeu Keisei.
Parecia que Horikita tinha chegado à mesma conclusão sobre Keisei que eu. As pessoas crescem através de repetidas falhas. Não dá para ser um líder se você se preocupa apenas com resultados e reprime as pessoas por causa disso… embora, é claro, pessoas que fracassam incessantemente sem parar acabem tendo que ser deixadas de lado em algum momento.
— Para ser sincero, eu nunca gostei muito da ideia de a Horikita nos liderar. Claro, ela é inteligente e atlética. Mas há algo na maneira como ela age — o jeito como ela é condescendente com os outros — que torna difícil aceitá-la.
Eu não podia negar esse ponto. Pelo menos não neste momento. Horikita não era o tipo de pessoa que liderava pela virtude, como Hirata ou Ichinose. Embora tivesse conseguido conquistar alguns aliados, inevitavelmente também faria inimigos.
— Mas… eu também sou muito parecido com isso. Eu achava que esportes eram completamente desnecessários e desprezava qualquer pessoa que não fosse inteligente. A Horikita e eu somos praticamente farinha do mesmo saco — disse Keisei.
Quando Keisei começou a estudar aqui, ele costumava desprezar abertamente alunos que não eram inclinados aos estudos. Para ele, ser estudante se resumia apenas ao desempenho acadêmico.
— Mas você está completamente diferente de como era um ano atrás, Keisei. Você mudou muito — eu disse.
— Acho que sim. Sinceramente, até eu acho meio estranho sentir isso agora. Quer dizer, estudar é a coisa mais importante, claro. Mas habilidades atléticas, comunicação e até amizade também são importantes. Agora eu entendo que preciso de tudo isso… e acho que é o mesmo com a Horikita. Ela está mudando, pouco a pouco. Está se tornando mais confiável e digna de confiança do que antes.
Keisei não confiava muito em ninguém fora do Grupo Ayanokoji. O fato de ele elogiar Horikita tão abertamente, reconhecendo as qualidades que ela realmente merecia, me fez acreditar que ele estava sendo sincero.
— Pode ser que você esteja certo — concordei.
Levou um ano inteiro, e também o contato direto com ela, mas a estudante conhecida como Horikita finalmente começava a ser reconhecida. Os colegas de classe dela vinham gradualmente passando a aceitá-la desde o exame de votação em classe, mas o principal motivo não era apenas a precisão de suas estratégias ou a excelência de sua liderança.
Era porque a barreira que Horikita havia erguido ao redor do próprio coração estava lentamente se desfazendo. Quando aquela barreira existia, ela via todos os outros alunos apenas como um fardo, chegando até a considerar inevitável que os mais fracos fossem descartados. Era a mesma tendência que Keisei costumava ter.
— Claro, também não acho que fazer tudo o que a Horikita diz seja sempre a resposta certa. Se eu achar que ela tomou uma decisão ruim, não vou hesitar em apontar isso. Estou errado em pensar assim? — perguntou Keisei, depois de organizar seus pensamentos. Ele estava dizendo que confiaria no que merecesse confiança e duvidaria do que precisasse duvidar.
— Não, acho que você está certo. É assim que a classe deveria ser, em circunstâncias normais.
Por mais confiável que Horikita tivesse se tornado, ela ainda era uma estudante do ensino médio. Ela poderia cometer erros — até erros graves. Quanto mais alunos estivessem dispostos a apontar esses erros quando chegasse a hora, melhor. Poderíamos ficar lado a lado e discutir as coisas, trabalhando juntos para encontrar uma solução.
Isso não era possível nas turmas lideradas por Sakayanagi e Ryuen, que funcionavam praticamente como ditaduras. Se fosse para comparar, nossa turma talvez estivesse se tornando mais parecida com a de Ichinose.
Além disso, não bastava apenas diminuir a diferença entre as classes. Precisávamos fazer isso de uma maneira que funcionasse para a nossa turma.
*
Todo o corpo estudantil estava reunido no ginásio. Todos os professores também estavam presentes, assim como alguns adultos que normalmente não víamos pela escola. Todos os presentes, independentemente de sua posição, observavam com carinho o desenrolar da cerimônia de formatura.
Aquele era o momento em que os alunos do terceiro ano davam um grande passo rumo a um novo capítulo de suas vidas. Alguns seguiriam para o ensino superior, alguns conseguiriam empregos e outros permaneceriam indecisos, sem saber para onde ir em seguida.
Eles não seriam mais considerados crianças, mas estariam partindo para se tornar membros independentes da sociedade.
Como será que eu vou parecer ali em cima, daqui a dois anos?, pensei. E no que estarei pensando naquele momento?
Queria acreditar que ainda era possível enxergar muitas possibilidades quando você já tinha decidido qual caminho seguir. Queria acreditar que tudo o que aprendi aqui me ajudaria na vida, como uma espécie de alimento para a mente.
— Agora então, gostaríamos de pedir que o representante da turma que lutou bravamente durante três anos inteiros para se formar na Classe A venha fazer um discurso formal — disse ao microfone o adulto que conduzia o evento. O ginásio ficou ainda mais silencioso do que antes.
— Representante da Classe A—
Se o nome chamado não fosse Horikita Manabu ou o de algum de seus colegas de classe, então… bem, isso significaria que havia ocorrido uma mudança na classificação das turmas como resultado do exame final. Muitos dos estudantes presentes provavelmente estavam prestando muita atenção a esse momento. Isso porque formar-se na Classe A era o maior objetivo — na verdade, o único objetivo — de todos os alunos desta escola.
— Horikita Manabu, por favor.
Tenho certeza de que Horikita Suzune sentiu um profundo alívio ao ouvir aquele nome. Não estava claro até que ponto Nagumo havia interferido, mas aparentemente o irmão de Horikita havia conseguido se formar com segurança pela Classe A. Ele caminhou orgulhosamente até o palco e então olhou para todos os estudantes presentes e para as outras pessoas que assistiam à cerimônia.
— Saudações a todos. Reunimo-nos aqui neste belo dia, quando o ar fresco da primavera traz consigo o perfume das flores de ameixeira, para testemunhar esta cerimônia de formatura—
Horikita Manabu começou seu discurso. Parecia estar expressando sua gratidão por aquela magnífica cerimônia de formatura. Em seguida, passou a falar sobre quando começou a estudar naquela escola, três anos antes.
— Lembro-me vividamente de quando iniciei minha vida acadêmica aqui na Advanced Nurturing High School e senti uma atmosfera completamente diferente da de outras escolas. Também me recordo de ter prometido a mim mesmo tornar esses três anos recompensadores, ao mesmo tempo em que carregava uma grande responsabilidade pelo futuro.
Havia uma sensação de tranquilidade no ar enquanto ele falava lentamente e com calma. Havia algo diferente na pessoa que agora estava ali, no mesmo lugar onde havia estado no início do ano, durante a cerimônia de abertura como presidente do conselho estudantil.
Enquanto Horikita continuava seu discurso solene, percebi uma mudança. E não era apenas em Horikita Manabu. Senti que os alunos atualmente matriculados também haviam crescido significativamente ao longo daqueles últimos meses.
— Agora, isso é apenas uma observação pessoal, mas, como representante do conselho estudantil, eu disse algumas palavras aos alunos do primeiro ano no início do ano letivo.
De alguma forma, parecia que Horikita Manabu estava em sintonia com meus próprios pensamentos.
— Comparados a quando os vi pela última vez, aqui em cima no início do ano, vocês claramente cresceram.
No começo do ano, Horikita havia conseguido colocar os inquietos alunos do primeiro ano em ordem apenas com seu silêncio. Aquilo foi algo que muitos estudantes não perceberam na época. Agora, não havia um único aluno falando fora de hora ou tendo conversas paralelas. E Horikita Manabu, que agora estava prestes a partir para se estabelecer como um indivíduo na sociedade, olhava calorosamente para os estudantes que permaneceriam ali.
— Além disso, espero sinceramente que os alunos do segundo ano, que se tornarão terceiranistas e ocuparão a posição de liderar os demais estudantes, demonstrem plenamente suas habilidades enquanto observam as regras e regulamentos desta instituição.
Alguns minutos depois, ele finalmente começou a encerrar seu discurso.
— Prometo a vocês que aquilo que estão aprendendo nesta escola será mais valioso e mais útil do que qualquer outra coisa em suas vidas daqui para frente — acrescentou, olhando mais uma vez para os alunos reunidos. — Quando chegar a hora de alguém subir aqui para fazer um discurso no próximo ano, e outra pessoa no ano seguinte, tenho certeza de que eles também compreenderão isso.
A pessoa que faria o discurso no ano seguinte… Em outras palavras, o líder da Classe A que se formaria naquele ano. Imaginei que Nagumo, que havia acabado de ler o discurso de despedida mais cedo, provavelmente era o candidato mais provável entre os alunos do segundo ano.
Os alunos do primeiro ano, por outro lado, ainda estavam no meio de um caos completo. Seria Horikita? Ichinose? Ryuen? Sakayanagi? Ou alguém completamente diferente, substituindo um desses estudantes como líder de sua classe?
Um terço de nossas vidas nesta escola havia passado num piscar de olhos, mas ainda era apenas um terço. As turmas continuariam mudando e o número de alunos continuaria diminuindo. Ainda assim, apenas o líder da turma vencedora teria permissão para subir ao palco como representante.
Horikita continuou lendo o restante de seu discurso, falando de forma lenta e eloquente.
— Muito obrigado por estes últimos três anos.
Em breve, o tempo de Horikita naquela escola chegaria ao fim. Depois de se dirigir aos alunos, ele se dirigiu aos professores e então à escola como um todo. Quando seu brilhante discurso chegou ao fim, a cerimônia de formatura passou para a próxima etapa.
*
Quando a cerimônia de formatura terminou, os alunos que ainda estudavam ali foram os primeiros a deixar o ginásio, retornando para suas salas de aula. Os formandos, todos os professores e também os pais ou responsáveis legais dos formandos, por outro lado, seguiriam para participar de uma festa.
Aparentemente, era algum tipo de confraternização em que os alunos que estavam se formando e seus responsáveis demonstravam sua gratidão aos professores. Os alunos restantes estavam liberados para voltar aos dormitórios. No entanto, parecia que aqueles que tinham proximidade com alunos do terceiro ano — seja por amizade ou por participarem dos mesmos clubes — planejavam esperar os formandos saírem depois da festa.
Talvez planejassem entregar flores a algum veterano, confessar um amor, ou simplesmente dizer algo importante. Alguns alunos estavam animados, enquanto outros pareciam quietos e nervosos.
— Bem, mesmo que possamos falar sobre isso com mais detalhes na cerimônia de encerramento amanhã, vamos fazer uma breve recapitulação deste semestre — disse Chabashira pouco depois que todos se sentaram, virando-se para nos encarar. — Antes de mais nada, devo reconhecer o mérito de vocês e dizer que lutaram admiravelmente contra a Classe A no exame final do semestre. Os professores ficaram surpresos com o quanto vocês amadureceram.
Mesmo tendo perdido, a normalmente sarcástica Chabashira estava nos oferecendo elogios genuínos.
— Vocês mudaram significativamente desde o ano passado, quando começaram a estudar nesta escola. Mal consigo reconhecê-los agora. Vocês realmente cresceram muito.
— Espera aí, sensei. Mas a gente voltou a ser Classe D de novo, né? Isso não é… tipo… super vergonhoso? — disse Ike, com a voz cheia de frustração.
— Sim, certamente parece que voltamos à estaca zero. Mas todos vocês realmente cresceram neste último ano. Mais do que simplesmente diminuir a diferença em Pontos de Classe, pode-se dizer que vocês se aproximaram das outras turmas em termos de habilidade — respondeu Chabashira.
— Tá, você elogiando a gente desse jeito até que tá me assustando. Tem alguma coisa por trás disso, né, sensei? — disse Sudou.
Era perfeitamente compreensível ele reagir assim ao ouvir nossa professora nos elogiar. Para ser honesto, não ficaríamos surpresos se ela logo em seguida dissesse que teríamos outro exame ou algo do tipo.
— Não, não há nada disso. É apenas o que eu penso. Sou professora há quatro anos e já fui responsável por duas turmas. Comparados às Classes D que ensinei anteriormente, vocês realmente estão um nível acima. No entanto, o mesmo pode ser dito das outras turmas. Se vocês conseguirão ou não subir na classificação dependerá da capacidade de continuarem se esforçando a partir de agora, sem relaxar.
Tac!
Chabashira bateu levemente no quadro negro.
— Amanhã é a cerimônia de encerramento. Mesmo que não haja aulas amanhã, não se esqueçam de que ainda é um dia letivo.
Depois de dizer o que precisava, ela nos dispensou. Eu não fazia ideia de quantos alunos sairiam para esperar os terceiranistas, mas fiquei me perguntando o que minha colega de carteira faria — a irmã mais nova do rapaz que havia sido presidente do conselho estudantil e feito um discurso como representante da Classe A mais cedo.
Horikita encarava fixamente o quadro negro, como se estivesse congelada no lugar. Eu tinha certeza de que muitos pensamentos estavam passando pela cabeça dela. Mesmo que incomodá-la agora fosse como cutucar um vespeiro, resolvi tentar falar com ela.
— Vai sair? — perguntei.
— Sair para quê? — respondeu ela.
— Ah, qual é. Você sabe do que eu estou falando.
— Está perguntando se eu vou ver meu irmão? Se for isso, não, não pretendo — disse Horikita, desviando o olhar de mim enquanto falava. Então ela não pretendia ir… Hm.
— Espera, você conseguiu falar com ele antes ou algo assim? — perguntei.
— Isso realmente é da sua conta? Todos nós temos nossos próprios problemas para lidar — respondeu Horikita.
Tenho a impressão de que a única pessoa com um problema para lidar agora é você.
— Se deixar essa chance passar, vai demorar até ter outra.
— Bem, isso…
Mesmo que o gelo ao redor do coração dela estivesse começando a derreter, Horikita ainda era hesitante e indecisa quando realmente importava. Acho que isso apenas mostrava o quanto a relação entre eles tinha sido complicada nesses últimos anos.
— Eu vou ver ele.
— Hã? Você está planejando encontrar o meu irmão?
Era justamente porque eu normalmente não me envolvia muito com outras pessoas que Horikita parecia tão chocada.
— Não somos tão próximos assim, mas hoje pode ser minha última chance de vê-lo — eu disse. Pelo menos cumprimentá-lo não parecia uma má ideia.
— Entendo… — disse Horikita.
— Tem algum problema com isso?
— Não, nenhum. Você é livre para ir encontrá-lo.
No rosto dela estava praticamente escrito: "Por que você, de todas as pessoas?". Mas eu não podia simplesmente explicar. Levantei-me da carteira. Os professores estavam todos correndo para a festa de agradecimento naquele momento, o que significava que Tsukishiro, como diretor interino, certamente estaria lá também. Não havia como ele deixar de comparecer.
— Para onde você vai? — ela perguntou.
— Vou matar um pouco de tempo, já que não tenho nada para fazer enquanto a festa de agradecimento está acontecendo. Se você decidir que quer ver seu irmão também, me avise e a gente pode se encontrar depois.
— Vou pensar nisso. Fico me perguntando quanto tempo vai durar essa festa de agradecimento — disse Horikita.
Ela havia dito antes que não pretendia vê-lo, mas parecia que agora estava voltando atrás.
— Não faço ideia. Talvez uma ou duas horas, imagino — respondi.
Na verdade, a festa de agradecimento estava programada para durar noventa minutos, então ainda tínhamos bastante tempo até que terminasse. Eu pretendia cuidar de alguns assuntos que precisavam ser resolvidos nesse intervalo.
*
Agora vamos voltar um pouco no tempo. Para ontem, dia vinte e três. Na noite em que o Exame de Seleção de Eventos terminou, liguei para uma certa pessoa.
— Alô. Aqui é Sakayanagi — respondeu uma voz calma e madura. A pessoa para quem liguei não era Sakayanagi Arisu, mas sim seu pai, o diretor Sakayanagi. O homem que havia sido colocado em prisão domiciliar por causa de uma armadilha preparada por Tsukishiro.
Eu imaginei que ele não teria meu número de telefone gravado.
— Peço desculpas por incomodá-lo tão tarde da noite, e também por não ter ligado antes. Aqui é Ayanokoji — respondi, me identificando para que ele entendesse imediatamente quem estava ligando.
— Hã? Ayanokoji…? Ayanokoji-kun?
Deu para perceber que o diretor Sakayanagi ficou surpreso ao ouvir o sobrenome Ayanokoji — e a minha voz. Eu precisava dar essa informação imediatamente para provar que aquilo não era apenas um trote sem sentido.
— Desculpe por ligar tão de repente.
— Ah, não, não. Foi apenas uma surpresa. Como você conseguiu meu número de telefone?
— Eu consegui com sua filha. Ela disse que este era o número que eu deveria usar quando quisesse entrar em contato com algum responsável da escola.
Enquanto Sakayanagi e eu voltávamos para os dormitórios depois do exame final do ano letivo, eu havia perguntado a ela sobre isso, e ela me deu o número imediatamente.
— Imagino que o senhor tenha dado seu número apenas para sua filha — acrescentei. Provavelmente não era favoritismo, mas apenas o fato de ele mimar sua querida filha. Pelo menos foi o que pensei. A reação do diretor Sakayanagi, no entanto, foi inesperada.
— A Arisu fez isso…? Mas… bem… eu não dei meu número de telefone para ela — respondeu ele, claramente surpreso. Em seguida, soltou uma pequena risada constrangida. — Como e quando, afinal, ela conseguiu descobri-lo?
Não tive a impressão de que ele estava mentindo.
— O número do diretor costuma ser mantido em segredo? — perguntei.
— Bem, todos os professores sabem, é claro, e acredito que ele também esteja incluído nos materiais que distribuímos para funcionários relacionados à escola…
Se fosse assim, não seria tão difícil conseguir o número. Não me surpreenderia se Sakayanagi simplesmente o tivesse visto em algum lugar e memorizado. Mas havia algo que me preocupava. O diretor Sakayanagi era o tipo de homem que valorizava a imparcialidade, até mesmo quando se tratava de sua preciosa filha. Eu não conseguia imaginá-lo ajudando-a se ela fosse até ele chorando por alguma coisa.
Então por que ela se daria ao trabalho de memorizar propositalmente o número dele? Presumi que não fosse apenas para contar novidades ou conversar. Lembrei-me de como Sakayanagi havia respondido alegremente quando pedi o número. Talvez ela tivesse antecipado que um dia eu poderia estar em apuros e acabaria pedindo o número do diretor.
— Então… como devo reagir a você me ligar assim? — perguntou o diretor. Aparentemente, para ele essa questão era mais importante do que como eu havia conseguido o número. Bem, eu tinha certeza de que ele não recebia com entusiasmo ligações diretas de alunos.
— Existe alguma regra que diga que eu não posso ligar para o diretor? — perguntei, achando melhor confirmar primeiro. Se ele dissesse que isso era impossível, a conversa terminaria ali.
— Oh, não, certamente não. Não é como se eu recusasse ligações de imediato — respondeu ele. — Pessoalmente, porém, acho que deveríamos encerrar esta ligação o mais rápido possível. Então, qual é o assunto?
Embora parecesse um pouco confuso, não parecia que ele pretendia me repreender por nada. Imagino que isso acontecia porque não havia nenhuma regra dizendo que um aluno seria punido por ligar para o diretor.
— Diretor Sakayanagi. Ouvi dizer que o senhor foi colocado em prisão domiciliar por suposta má conduta. Isso é verdade? — perguntei.
— Essa é uma pergunta que eu realmente não esperaria de um aluno. E uma pergunta tão direta também. É bastante inadequado para um estudante desta escola perguntar algo assim ao diretor.
Ele continuou falando com um tom suave e gentil, mesmo enquanto evitava responder. Mas aquilo estava diretamente ligado ao assunto principal que eu queria tratar, então insisti.
— Eu realmente gostaria de uma resposta, se possível.
— Ayanokoji-kun. Não sei o que você pretende com isso, mas não posso responder à sua pergunta. Não preciso explicar o motivo, certo?
— Porque não é algo que um aluno deveria ouvir, imagino?
— Exatamente. Isso não tem nada a ver com você.
Considerando a posição do diretor Sakayanagi, a situação em que ele se encontrava e o fato de que os alunos desta escola não tinham relação com aquilo, era perfeitamente natural que ele me recusasse dessa forma.
— Estou plenamente ciente disso. No entanto, tenho meus próprios motivos para perguntar.
Antes de tudo, eu precisava fazer com que o diretor Sakayanagi entendesse a minha situação.
— Não sei que tipo de motivos você tem, mas você ainda é um aluno desta instituição. Mesmo que seu sobrenome seja Ayanokoji ou Sakayanagi, esse fato não muda. Você não está confundindo isso, está? — perguntou ele.
O diretor Sakayanagi me deu uma explicação completa e adequada, em vez de simplesmente me dispensar ou me tratar como uma criança. Pela forma como respondeu, dava para perceber que ele era um homem competente.
— Claro que não estou. O relacionamento que tenho com o senhor não é mais profundo do que o que o senhor tem com qualquer outro aluno aqui, diretor Sakayanagi. Na verdade, nem acho que devesse ser.
Eu realmente não queria ser colocado em uma categoria especial. Provavelmente mais do que qualquer outra pessoa.
— Nesse caso, devemos encerrar esta ligação por aqui. Vou simplesmente fingir que não ouvi nada disso e—
— Espere. Se encerrar a ligação agora, o senhor não vai remover a impureza.
Com aquelas poucas palavras, sinalizei ao diretor Sakayanagi que o que eu estava dizendo era importante, para que ele realmente entendesse o que estava acontecendo.
— Você está dizendo que existe uma impureza na nossa escola? — perguntou ele.
— Sim. E essa impureza é o diretor interino Tsukishiro.
Fui direto ao ponto, já que não havia nada a ganhar prolongando a conversa.
— O que há de errado com o Tsukishiro-kun? — respondeu ele, com o tom de voz mudando levemente. Eu tinha certeza de que a ideia de "Tsukishiro = impureza" havia se fixado imediatamente na mente dele justamente porque ele já tinha suspeitas semelhantes.
— Durante um exame importante, em que os alunos competiam entre si para testar suas habilidades, o diretor interino Tsukishiro executou um plano para sabotar esse exame. O senhor não estava ciente disso, diretor Sakayanagi? — perguntei.
— Espere um momento, não estou entendendo toda a situação. Tsukishiro-kun interferiu em um exame? O que diabos…?
O diretor Sakayanagi fingiu não saber de nada. Era uma reação natural, já que ele não podia enxergar minhas verdadeiras intenções.
— As acusações de fraude feitas contra o senhor também são obra do diretor interino Tsukishiro. Tenho certeza de que ele sentiu que o senhor e seu senso de justiça estavam atrapalhando seus planos, diretor Sakayanagi — expliquei.
Do outro lado da linha, o diretor Sakayanagi pareceu mergulhar em pensamentos. Mesmo que tivéssemos uma certa conexão por causa da Sala Branca, eu ainda era apenas um aluno. Provavelmente não tinha qualificação para discutir assuntos de adultos com ele.
Se o assunto fosse sobre mim, no entanto, a situação era diferente. Bem, eu tinha certeza de que o diretor Sakayanagi já entendia isso. Ainda assim, enquanto não houvesse dano concreto, as mãos dele estavam atadas.
— Por que o Tsukishiro-kun faria algo assim? Ele já é bastante poderoso. Não há necessidade de ele derrubar deliberadamente alguém como eu. Vir até esta escola para sabotar um exame? Não vejo por que ele precisaria fazer algo assim.
Aquilo foi a confirmação final que eu procurava. Uma confirmação sobre se ele estava disposto ou não a compartilhar informações comigo como um igual.
— O objetivo de Tsukishiro é me expulsar secretamente. Esse é o único motivo pelo qual ele veio para esta escola.
Contei a ele o que sabia, afirmando aquilo como um fato.
— Se você não tiver base para dizer isso, essa é uma afirmação bastante problemática.
— Sim, concordo. Mas não há tempo para tratar isso com calma. Não existe nada que ele não esteja disposto a fazer para alcançar o sucesso.
Tudo isso dependia do quanto o diretor conhecia meu pai. Se o relacionamento entre eles fosse frágil, seria difícil fazê-lo entender o que realmente estava acontecendo. No entanto, pelas respostas que ele havia me dado até agora, eu podia fazer uma suposição razoável: o diretor Sakayanagi conhecia muito bem os assuntos do meu pai — e também a forma como ele pensava.
— Você está dizendo que o sensei… que o seu pai iria realmente tão longe assim, apenas para trazê-lo de volta? — perguntou ele.
O que ele acabara de dizer provava que havia uma base para minhas afirmações. Eu não tinha dito uma única palavra sobre meu pai ser quem estava manipulando Tsukishiro. O fato de ele ter feito essa conexão sozinho, sem que eu precisasse dizer nada, era a prova.
— Você disse que o exame final do ano foi sabotado. Houve algum dano real? — perguntou ele.
Naturalmente, o diretor Sakayanagi não tinha como saber o que havia acontecido nos bastidores durante o último exame especial. Se soubesse, já teria reagido de alguma forma.
— Vou explicar.
Durante o exame de fim de ano, Tsukishiro assumiu o controle do sistema e alterou minhas respostas. Ele precisava roubar uma vitória de mim para remover meu Ponto de Proteção. Embora tenha sido apenas uma vitória, suas ações foram ilegítimas e tiveram um impacto significativo em todo o ano escolar. Se nossa classe tivesse vencido aquele exame, poderíamos ter sido subitamente impulsionados para o grupo das classes superiores.
Enquanto eu continuava explicando o que havia acontecido, as respostas dele foram ficando cada vez mais silenciosas. Ficava claro que estavam dispostos a fazer qualquer coisa para expulsar um único aluno. E aquilo não terminaria ali. Aquilo era apenas o começo. Eles continuariam insistindo até que o aluno chamado Ayanokoji Kiyotaka fosse expulso.
— Então é isso. O senhor acredita em mim? — perguntei.
Não seria surpreendente se ele descartasse minhas palavras como o delírio sem sentido de um estudante. Mas o diretor Sakayanagi conhecia meu pai. Conhecia o meu passado. Por isso, por conta própria, ele naturalmente chegaria à conclusão de se aquilo que eu dizia era ou não verdade.
— Não tenho escolha a não ser acreditar — disse ele. — Que ele veio a esta escola para expulsá-lo. Ouvi dizer que estavam introduzindo um novo sistema, mas nunca imaginei…
No papel, as mudanças eram apresentadas como algo feito para beneficiar a escola e seus alunos. Na realidade, não passavam de uma maneira de me expulsar.
— Isso significa que ele está disposto a fazer qualquer coisa, sem se preocupar com as aparências, para trazê-lo de volta. É isso, Ayanokoji-kun? Acho que entendo por que você entrou em contato comigo. Não há nada que um aluno possa fazer nessa situação.
Eu já imaginava que o diretor Sakayanagi diria algo assim quando entendesse a situação.
— E suponho que isso signifique que você deseja pedir minha ajuda — acrescentou.
— Algo assim.
Admiti abertamente. Olho por olho, dente por dente. A única maneira de lutar contra a escola era enfrentando diretamente os responsáveis pela escola. Sem mencionar que Tsukishiro, sendo o diretor interino, era um tipo de oponente com quem eu normalmente nunca teria a chance de entrar em contato.
— Mas antes, deixe-me perguntar… não, gostaria de confirmar algo.
— O que seria?
Preparei-me para responder ao que ele quisesse saber, fosse ou não uma pergunta que eu pudesse responder.
— Lidar com Tsukishiro-kun — um oponente que pode até interferir nos resultados dos exames — será um empreendimento extremamente árduo para você. O fato de ter vindo pedir minha ajuda, depois de concluir que seria difícil continuar como está, mostra o quão complicada é a situação em que você se encontra. E, ainda assim, você está tão calmo.
Ele fez uma pausa antes de continuar.
— Caso você esteja entendendo algo errado, permita-me esclarecer e corrigir qualquer equívoco que possa ter. Não tenho confiança de que posso atender às suas expectativas, nem estou em posição de fazê-lo.
Eu entendi o que ele queria dizer. O diretor Sakayanagi não tinha autoridade para sobrepor as decisões de Tsukishiro, e estava tentando me dizer que, se eu tivesse ligado esperando isso, eu estava completamente enganado.
— Atualmente estou em prisão domiciliar por causa de acusações de fraude. Nem sequer consigo me livrar da minha própria situação. Esperar demais de mim seria problemático.
Provavelmente era por isso que ele enfatizava tanto esse ponto, já que eu não parecia estar em pânico.
— Se esta fosse simplesmente uma ligação pedindo ajuda, talvez fosse mesmo o caso — respondi.
— O que quer dizer com isso?
— Até agora, vivi minha vida nesta escola seguindo o princípio de tentar evitar atenção o máximo possível. Eu vim para esta escola porque queria passar três anos como um estudante normal.
Esse havia sido meu objetivo quando cheguei ali. O que eu sentia. Meus verdadeiros sentimentos, que me trouxeram para aquela escola.
— Pela primeira vez em toda a minha vida, estou estabelecendo objetivos para mim mesmo… e tentando segui-los.
— Sim. Eu entendo isso muito bem. Foi exatamente por isso que eu o aceitei.
Embora eu não conhecesse toda a história por trás disso, no final das contas eu era muito grato por aquela gentileza.
— No entanto, se o diretor interino tiver permissão para interferir novamente, o objetivo que estabeleci para mim mesmo estará em risco. O Ponto de Proteção me salvou desta vez, felizmente, mas se ele fizer algo semelhante da próxima vez, minha expulsão será inevitável.
Claro, Tsukishiro usaria sua posição para agir de maneiras que eu não esperava. Se eu lidasse com ele sem dar o meu máximo, não conseguiria lutar contra a injustiça da escola. Isso significava que eu não podia continuar agindo da mesma forma que vinha fazendo até agora.
— Então você veio até mim para pedir ajuda? Ou estou enganado? — perguntou ele.
— O objetivo da minha ligação hoje não é pedir que o senhor detenha Tsukishiro, diretor Sakayanagi. Se meu oponente usar uma estratégia que quebra as regras, então eu responderei da mesma forma. Como resultado, a escola pode acabar sendo atingida no processo.
— Entendo. Então você me ligou porque…
— Sim. É absolutamente vital ter alguém que me apoie caso aconteçam circunstâncias inesperadas.
Eu não estava pedindo que ele se livrasse de Tsukishiro por mim. Em vez disso, estava pedindo ajuda para lidar com quaisquer consequências negativas que surgissem quando eu mesmo eliminasse Tsukishiro.
Se alguém viesse para cima de você com uma faca e você o esfaqueasse em legítima defesa, seria necessário alguém para reconhecer que aquilo foi autodefesa legítima. Eu certamente precisaria da ajuda da escola nesse momento. E o diretor Sakayanagi seria meu trunfo escondido.
Quando Tsukishiro fosse eliminado e as acusações contra o diretor Sakayanagi fossem esclarecidas, era óbvio que ele seria reintegrado ao cargo. Eu tinha certeza de que o diretor Sakayanagi veria com bons olhos a ideia de eu agir para ajudar a limpar as acusações contra ele.
Mas também tinha certeza de que uma parte dele ainda hesitava, incerta sobre se era uma boa ideia depositar expectativas tão grandes em um garoto. Era importante que eu eliminasse essa dúvida.
— Mas você realmente pode deter Tsukishiro-kun? Um único estudante simplesmente não poderia…
— É verdade que Tsukishiro é um problema. Ele tem a autoridade que vem com o cargo de diretor e, ao contrário de um estudante, não pode ser expulso da escola por meio de um exame. Essa é uma grande diferença.
E, como eu raramente entrava em contato com ele, também não podia simplesmente lançar um ataque contra ele. Ele estava trapaceando. Eu só podia agir livremente quando ele estivesse no processo de me atacar.
— Enquanto isso, já que não posso partir para a ofensiva, vou esperar e observar o que Tsukishiro fará.
— Mas você conseguirá resistir aos ataques dele?
— Há várias medidas que preciso tomar. Primeiro, preciso expandir minhas defesas para atingir pelo menos o mínimo necessário.
Se Tsukishiro estivesse recebendo ordens daquele homem, ele não ficaria adiando as coisas. Não faria sentido prolongar a situação e me expulsar apenas depois de um ou dois anos. Se ele fosse agir, seria em abril, logo após as férias de primavera. Provavelmente seria nesse momento que colocaria seus planos em prática.
Se eu conseguisse sobreviver a isso, Tsukishiro seria encurralado mesmo que eu não lançasse nenhum ataque direto contra ele. E, se fosse encurralado, não teria escolha a não ser tomar uma medida desesperada.
— O limite de tempo dele é sua única e maior fraqueza.
Quando esse momento chegasse, eu estaria totalmente preparado para enfrentá-lo.
— Realmente não acho que isso seja algo que um estudante deveria dizer a um funcionário da escola — respondeu o diretor Sakayanagi. — Se uma pessoa comum ouvisse você, sem dúvida ficaria furiosa… mas, como sei que você é filho do sensei, curiosamente consigo aceitar isso.
— Eu agirei com o devido respeito com aqueles que merecem respeito. No entanto, não tenho intenção de tolerar adultos que se intrometem à força em uma competição entre estudantes — respondi.
O diretor Sakayanagi não respondeu a isso. Mas o fato de ele continuar me ouvindo indicava que aceitava o que eu dizia.
— Mesmo que diga que não vai tolerar, como pretende impedir Tsukishiro-kun de interferir? — perguntou.
Ele queria saber como eu pretendia expandir minhas defesas. Eu já sabia o que precisava ser feito. Não tinha escolha a não ser usar funcionários da própria escola para impedir essa injustiça.
— Antes de mais nada, é extremamente importante ter alguém dentro da escola que possa resistir a Tsukishiro. Apenas aumentar o nível de supervisão sobre ele já ajudará a limitar seus movimentos. Assim, ele não poderá agir com tanta facilidade quanto da última vez.
Dificultar as ações do oponente era um componente essencial da estratégia, não importava o tipo de competição. Eu não precisava de alguém com poder. Precisava de alguém com coragem para enfrentá-lo.
— Sim, concordo. Acho que não podemos começar sem isso.
Aparentemente, o diretor Sakayanagi havia entendido o que eu estava pedindo. Eu não sabia nada sobre a administração da escola. Quem podia ser confiável e quem não podia? Havia alguém dentro daquela organização capaz de impor justiça até mesmo contra alguém tão poderoso quanto Tsukishiro?
Além disso, era possível que alguns professores até apoiassem Tsukishiro. Naturalmente, não poderíamos recrutar pessoas assim. Do outro lado da linha, o diretor Sakayanagi parecia perdido em pensamentos. As pessoas que você escolhe podem significar a diferença entre vida e morte. Ninguém entendia isso melhor do que ele.
— Você já sabe sobre sua professora responsável, Chabashira-sensei, não sabe? Foi a ela que pedi para ficar de olho em você.
— Sim. Parece que ela sabe um pouco sobre a minha situação.
— Sim. Na verdade, ela entende muito bem a sua situação… bastante fora do comum.
No entanto, poder utilizá-la ou não era outra questão.
— Bem, acho que não posso me dar ao luxo de ignorar alguém que conhece minha situação — disse eu. — Acho que o melhor é começar por ela e, a partir daí, trazer professores em quem possamos confiar para o nosso lado.
Se eu dissesse que meu pai estava fazendo coisas como tirar o diretor Sakayanagi do cargo e manipular a escola, ninguém acreditaria. Mas se Chabashira explicasse a situação, seria diferente.
— Nesse caso…
O diretor Sakayanagi fez uma pausa, pensou por alguns minutos e então voltou a falar.
— Acho que o professor Mashima, da Classe A do primeiro ano, seria a escolha mais adequada. Ele é responsável pelos exames dos alunos do primeiro ano e se preocupa com os estudantes mais do que qualquer outra pessoa. É um professor excelente que coloca os alunos em primeiro lugar.
— E o senhor acha que ele conseguirá perceber o quão real essa história aparentemente absurda é? — perguntei.
— Não tenho tanta certeza… Não imagino que ele aceitará imediatamente. No entanto, quando entender que é a verdade, certamente ficará do lado dos estudantes. Posso garantir isso. Ele é um professor que não se submete à autoridade e que defende aquilo em que acredita.
Se ele era realmente a pessoa mais adequada para essa situação, então eu não tinha nenhuma objeção. Na verdade, já era um bom começo ter um professor assim tão próximo de mim.
— Também podemos esperar que o fato de ele e a Chabashira-sensei terem sido colegas de classe no passado jogue a nosso favor. Não deve ser difícil fazer com que eles conversem.
— Entendo. Mashima-sensei, então. Bem, primeiro falarei com a Chabashira-sensei e depois tentarei reuni-los para uma conversa.
— Mas isso não será fácil. Há olhos por toda a escola e também muitas câmeras de vigilância. Eu aconselharia que você pensasse cuidadosamente sobre onde e quando realizar esse encontro.
Não era como se Tsukishiro estivesse me monitorando vinte e quatro horas por dia. Mesmo assim, não seria surpreendente se ele tivesse algum tipo de sistema de alerta em funcionamento.
Se Mashima-sensei e eu tentássemos conversar em particular, isso despertaria suspeitas. Eu não sabia onde Tsukishiro costumava passar a maior parte do tempo, mas ele tinha certa liberdade para circular pelo campus. Não seria nada engraçado se acabássemos nos encontrando inesperadamente.
— Acho que seria mais fácil para mim agir se o senhor pudesse me dar algumas sugestões.
Pedi conselho ao diretor Sakayanagi, que entendia melhor do que qualquer outra pessoa ali na Advanced Nurturing High School as responsabilidades administrativas da instituição.
— Se você agir rapidamente, então… Sim, após a cerimônia de formatura, os alunos do terceiro ano e seus professores se reunirão para uma festa de agradecimento. É costume que o diretor participe desse evento todos os anos. Em outras palavras, Tsukishiro certamente estará presente. Quer ele tenha interesse ou não, terá que cumprir suas obrigações.
— Então, se ele negligenciasse seus deveres como diretor, a escola o julgaria severamente por isso, certo?
— Sim. Com certeza.
Para poder agir livremente como quisesse, Tsukishiro precisava manter a aparência de alguém mais competente que o diretor Sakayanagi. Durante esse evento, inevitavelmente, sua vigilância seria muito menor.
— Os professores responsáveis pelas turmas do primeiro ano também estarão presentes? — perguntei.
— Oficialmente, a festa de agradecimento dura uma hora, mas normalmente acaba se estendendo um pouco mais. Geralmente dura cerca de noventa minutos. Não deve causar muitos problemas se dois professores desaparecerem por vinte ou trinta minutos. É normal que os professores estejam se levantando e circulando, e, na prática, os únicos que realmente precisam permanecer lá são os professores responsáveis pelas turmas do terceiro ano.
Isso significava que o momento mais apropriado para realizar a reunião secreta seria após a cerimônia de formatura, durante a festa de agradecimento.
— Quanto ao local… acho que a sala de recepção deve servir. Não há câmeras de vigilância naquele cômodo. Talvez seja melhor aproveitar isso — disse Sakayanagi.
Isso significava que não haveria nenhum registro claro da nossa reunião. Além disso, não era como se eu pudesse chamar professores para os dormitórios dos alunos.
— Não tenho nenhuma objeção a essa proposta.
Concordei com suas ideias sobre como organizar o encontro.
— Certo, então aqui está o primeiro passo — disse o diretor Sakayanagi. — Vou entrar em contato brevemente com a Chabashira-sensei antes disso. Mas caberá a você decidir quanto deseja revelar a partir daí. Se não conseguir persuadi-los, talvez não tenha escolha a não ser desistir desse plano.
— Isso é mais do que suficiente.
Se a informação viesse originalmente do diretor Sakayanagi, então Chabashira — e, por extensão, Mashima-sensei, com quem falaríamos depois — não poderiam simplesmente ignorar o assunto. Eu podia afirmar sem dúvida que aquela ligação havia rendido o máximo de apoio possível.
— Mais uma vez, peço desculpas por ligar tão de repente e tão tarde da noite — repeti.
— Não tem problema… Ah, mais uma coisa. Espero que não se importe se eu fizer uma pergunta um pouco… supérflua.
— Supérflua?
— Fico sinceramente feliz que você tenha vindo para esta escola com o sonho de viver uma vida normal. Mas você já pensou no que fará depois da formatura? Por exemplo, o que pretende fazer e para onde pretende ir?
— Não sei o quanto o senhor já sabe, mas meu destino já foi decidido — respondi.
— Isso quer dizer…
A reação dele, por si só, já bastava.
— Depois da formatura, voltarei para a Sala Branca e atuarei como mentor lá. Essa é a única razão pela qual aquele homem me criou todos esses anos.
Quando eu deixasse esta escola, a barreira de proteção ao meu redor desapareceria. Ele poderia facilmente me atacar durante a noite e me levar de volta à Sala Branca se eu estivesse morando em um apartamento barato ou algo assim.
— Então você aceitou o seu destino… e ainda assim está aqui.
— É exatamente por isso que pretendo proteger estes três anos até o fim.
Simplificando, aquilo era uma fase de rebeldia. Eu estava rejeitando as ordens do meu pai e fazendo aquilo que eu queria.
— Espero que esta escola se torne uma boa lembrança para você. Uma daquelas que você nunca esquecerá enquanto viver.
— Muito obrigado. É exatamente isso que espero também.
Depois de encerrar a ligação com o diretor Sakayanagi, soltei um suspiro de alívio. Embora uma parte de mim ainda se perguntasse o quanto eu realmente podia confiar nele, pelo menos eu sabia com certeza que ele não estava do lado de Tsukishiro. O fato de sua filha ser aluna da escola — e do meu ano — também seria uma vantagem.
*
Essa foi a conversa que tive ontem com o diretor Sakayanagi. E agora eu estava me dirigindo à sala de recepção, que havia sido escolhida como o local da reunião. Não planejava encontrar mais ninguém antes, então fui direto para lá.
Será que alguém já tinha chegado? Ou eu seria o primeiro?
— Com licença.
Depois de bater na porta, entrei na sala de recepção e fui recebido por Chabashira-sensei. Ela virou o olhar para mim, ainda de pé perto da janela.
— Você chegou cedo, Ayanokoji. Ainda faltam dez minutos para o horário combinado — disse ela.
— Não queria chegar exatamente na hora. Além disso, parece que a senhora também chegou cedo — respondi.
Chabashira-sensei me observava com um olhar investigativo, como se estivesse tentando descobrir algo. Ao mesmo tempo, parecia estar refletindo profundamente e escolhendo cuidadosamente suas próximas palavras.
Eu conseguia imaginar mais ou menos o que havia passado pela cabeça dela quando o diretor Sakayanagi falou com ela. Curiosamente, o sofá da sala estava vazio, mas nenhum de nós dois se sentou.
— E o Mashima-sensei? — perguntei.
— Estive conversando com ele. Mas ele não conseguiu sair ao mesmo tempo que eu. Ainda assim, preciso dizer… você tomou uma atitude bastante ousada, Ayanokoji. Eu achava que você queria viver uma vida tranquila e discreta nesta escola.
Eu supus que poderia entrar um pouco no jogo de palavras de Chabashira-sensei. Só até Mashima-sensei aparecer.
— Engraçado você dizer isso, já que foi você quem originalmente perturbou minha vida pacífica aqui — respondi.
— Eu realmente não acho que essa seja uma maneira adequada de agir com uma professora, independentemente das circunstâncias. Você não tem intenção de mudar sua atitude? — perguntou ela.
— Isso é conveniente, considerando o quão inadequado é o seu comportamento para uma professora — retruquei.
Ela chegou ao ponto de me ameaçar, a mim, um simples e discreto estudante, para tentar nos tirar da Classe D. Por causa disso, eu sentia um forte sentimento de desconfiança… não, um forte sentimento de repulsa por ela. Chabashira desviou o olhar de mim de forma constrangida, parecendo envergonhada.
— Certamente não posso negar isso — respondeu.
Suponho que isso apenas demonstrava o quão forte era seu desejo de chegar à Classe A. Ela não podia me usar abertamente, já que o diretor Sakayanagi confiava nela e lhe pediu que cuidasse de mim. Ainda assim, ela realmente deveria ter lidado melhor com a situação.
Bem, na verdade… não. Não importava que métodos ela tivesse usado, o resultado teria sido o mesmo. Mesmo que tivesse tentado me persuadir, eu não teria suavizado minha posição. Dito isso, minhas circunstâncias tinham mudado bastante ao longo do ano desde que comecei a estudar aqui.
— Você me odeia. Então por que me chamou, Ayanokoji? — perguntou ela.
Parecia que ela não conseguia deixar de se perguntar por que havia sido chamada ali. Mesmo que ela fosse apenas um meio para que eu recrutasse Mashima-sensei, eu certamente poderia tê-la excluído desta reunião. Não era estranho que quisesse saber por que não fiz isso.
— Bem, é verdade que, no mínimo, eu não gosto exatamente de você — respondi.
— Realmente parece assim.
Independentemente dos meus sentimentos pessoais, eu precisava aproveitar qualquer vantagem possível. Minhas preferências e aversões eram completamente diferentes dos meus potenciais ganhos e perdas. Eu havia determinado que ter Chabashira ali ajudaria a persuadir Mashima-sensei a vir para o meu lado, mesmo que isso o fizesse avançar apenas um milímetro.
— Quanto você ouviu? — perguntei.
— Ele me pediu para chamar Mashima-sensei e organizar esta reunião aqui. Também disse que você tinha algo muito importante para discutir e que queria que eu ajudasse, mas… — respondeu ela, deixando a frase no ar. Ela ainda não tinha ouvido nada sobre Tsukishiro? Parecia que o diretor Sakayanagi queria me dar controle total sobre essa situação.
— E então? Que assunto você tem conosco? — perguntou.
— Vou esperar Mashima-sensei chegar. Dizer duas vezes seria um incômodo.
— Não sei do que se trata tudo isso, mas se você vai vir até mim pedindo ajuda, não acha que deveria corrigir sua atitude? — retrucou.
Talvez por ter estado na defensiva comigo o tempo todo, Chabashira parecia bastante resistente.
— Como instrutora, basicamente seguirei as instruções do diretor Sakayanagi. No entanto, isso não é uma regra absoluta. Você entende o que quero dizer com isso? — perguntou.
— Minha atitude incomoda tanto assim você? — perguntei de volta.
— Sim, incomoda. Você age com tanta superioridade, mas ainda é apenas um estudante do primeiro ano do ensino médio, certo? E, embora o exame final de fim de ano tenha sido um confronto entre as turmas, você ainda ficou atrás de Sakayanagi e foi derrotado. Isso significa que, no fim das contas, você não tem as habilidades necessárias para superar minhas expectativas.
Então ela estava, de forma bastante egoísta, decepcionada por eu não ser tão bom quanto ela esperava?
— Se você tiver as habilidades, estou disposta a ignorar parte do que você diz e faz. Mas se aquilo que você mostrou antes é tudo do que é capaz, então a história é outra — acrescentou.
Se eu não pudesse derrotar Sakayanagi, da Classe A, não conseguiria alcançar os objetivos de Chabashira. Aparentemente, ela pretendia continuar afirmando sua superioridade sobre mim, e não tinha intenção de ficar calada a respeito.
Chabashira era professora, mas suas ações certamente se desviavam de seus deveres normais como instrutora. Dependendo do que eu dissesse, ela poderia se recusar a ajudar e talvez até passar para o lado de Tsukishiro. Eu poderia continuar tentando afirmar que não estava mais completamente sob seu controle, mas isso só seria contraproducente. Soltei um suspiro, aliviado ao ver que ela ao menos possuía algum bom senso.
— Entendo. Vou mudar minha atitude, Chabashira-sensei.
— O quê? — respondeu ela, chocada com a rapidez com que eu havia cedido. Suponho que ela não imaginava que o nível de resistência que estava impondo conseguiria me quebrar. Embora eu estivesse fazendo isso apenas por causa da conversa que viria a seguir, eu queria deixar nela a possibilidade de que eu poderia ser domado.
Bem, não — só essa possibilidade não seria suficiente para que Chabashira confiasse completamente em mim. Ela provavelmente pensaria que eu estava zombando dela, rindo dela no fundo. Então, em vez disso, reforcei a ideia de que eu era uma influência positiva para a Classe D.
— Mudei de ideia. A partir de abril, estou planejando seriamente em mirar a Classe A — disse a ela.
— Que tipo de piada é essa? O que diabos você está pensando, marcando uma reunião aqui?
— Estou dizendo a verdade. Até o fim do nosso segundo ano, planejo que nossa turma já tenha saído da Classe D e da Classe C. A diferença de pontos entre as turmas é grande demais para garantir que conseguiremos chegar à Classe A, mas… pretendo ultrapassar a Classe B.
O que Chabashira mais desejava era que a Classe D ascendesse até a Classe A. Era algo que nenhuma turma daquela escola havia conseguido fazer antes.
— Bem, isso é surpreendente… Mas é fácil fazer quantas promessas verbais você quiser.
— Isso é verdade. Mas você ainda quer manter seu bilhete para a Classe A, não quer? — perguntei.
Não importava se esse bilhete era verdadeiro ou falso. Ainda era muito melhor do que não ter nada.
— Eu já te disse antes. Você perdeu para a Classe A no exame final de fim de ano. Embora tenha lutado admiravelmente, com três vitórias e quatro derrotas, uma derrota ainda é uma derrota. E, apesar de ter havido bastante sorte envolvida naquele exame, não aceitarei desculpas — respondeu ela, enfatizando mais uma vez que minhas habilidades aparentemente haviam sido superestimadas. — Eu pensei que você poderia vencer, não importava o oponente, não importava a prova. Mas essas expectativas eram excessivas.
Na verdade, aquilo não passava de uma fantasia egoísta que ela tinha criado sobre mim.
— Você verá a verdade por si mesma hoje, depois desta reunião — disse a ela.
— Verei a verdade…?
— Ouça toda a história. Até o final. Se mesmo assim você ainda não puder acreditar nas minhas habilidades, então poderá fazer o que quiser.
— O que você qu—
Uma batida firme na porta da sala de recepção a interrompeu.
— Pode entrar — respondeu Chabashira. Mashima-sensei entrou na sala.
— Parece que vocês dois já estão aqui.
E então…
— Boa tarde.
A aluna da Classe A, Sakayanagi Arisu, entrou junto com Mashima-sensei. Uma visitante bastante inesperada. Eu não me lembrava de tê-la convidado, e era difícil imaginar Mashima-sensei fazendo isso.
— Sou da Classe A. Então, mesmo que alguém me visse com Mashima-sensei, não levantaria suspeitas — disse Sakayanagi. Era óbvio que ela havia simplesmente ido junto com ele.
— Chabashira-sensei entrou em contato comigo. Mas ela disse que essa aluna tinha alguma relação com esse assunto, então a trouxe comigo, mas…
O diretor Sakayanagi provavelmente havia dito à filha que recebera uma ligação minha, apenas para confirmar se eu realmente tinha conseguido o número de telefone dele por meio dela — e, caso contrário, se eu havia traído sua confiança. Mas isso teria algo a ver com o motivo de Sakayanagi estar ali agora? Ela teria sido encarregada de desempenhar algum papel nisso? Ou estava ali apenas por curiosidade? Se eu tivesse que apostar, diria que era a segunda opção.
— Não há problema. Isso está dentro do que eu esperava — respondi, aceitando essa visitante como alguém que deveria ser recebida de braços abertos. Sakayanagi respondeu com uma risada suave e uma leve reverência. Então, sem sequer lançar um único olhar na direção de Chabashira, ela fechou a porta da sala de recepção. Chabashira parecia estar tendo dificuldade para acompanhar a situação, quanto mais entender por que Sakayanagi estava ali. Mashima-sensei provavelmente enfrentava o mesmo problema.
De qualquer forma, todas as pessoas necessárias estavam presentes. Eu precisava usar cuidadosamente esse tempo limitado.
— Ouvi dizer que você tem algo a nos dizer, Ayanokoji. Passar deliberadamente pelo diretor Sakayanagi para organizar este encontro e realizar uma reunião secreta bem no meio da festa de agradecimento… Isso é muita coisa para assimilar. Afinal, o que você está tramando? — perguntou Mashima-sensei.
— Vou explicar agora mesmo — respondi. Primeiro, pedi que os dois professores se sentassem. No entanto, Mashima-sensei instruiu Sakayanagi a se sentar primeiro.
— Aceitarei gentilmente sua oferta — disse ela com humildade, tomando seu lugar.
Mashima-sensei permitiu que Sakayanagi, que tinha uma deficiência física, ocupasse um assento, optando por permanecer de pé com os braços cruzados. Parecia que decidir se sentar ou não dependeria do que eu estava prestes a dizer. Chabashira parecia estar adotando a mesma postura que ele.
As outras três pessoas na sala voltaram seus olhares para mim. Elas só poderiam se ausentar da festa de agradecimento por, no máximo, vinte ou trinta minutos. O tempo era extremamente limitado. Eu havia planejado ir direto ao ponto, mas não tinha certeza de quanto tempo levaria para fazê-los realmente entender.
A situação era extraordinária. Extraordinária demais para ser explicada facilmente com uma simples explicação breve. Como não havia tempo a perder, decidi começar falando sobre o diretor interino Tsukishiro.
— Pedi que viessem se encontrar comigo em um momento tão ocupado porque queria discutir algo importante. É sobre o diretor interino Tsukishiro.
— Algo importante sobre o diretor interino Tsukishiro? — disse Mashima-sensei. — Do que exatamente você está falando?
Ele parecia cada vez mais perplexo por eu ter lançado uma declaração tão inesperada logo de início. Era natural que reagisse assim ao ouvir um estudante dizer algo tão absurdo. Chabashira também parecia ter dificuldade para acompanhar, mas apenas lançou um breve olhar para Sakayanagi, a única pessoa inesperada ali. Sakayanagi sustentou o olhar dela diretamente, com um sorriso ousado.

Eu sei muito mais sobre essa situação do que vocês dois.
Era isso que seu rosto parecia dizer. Ao olhar para ela, tudo o que consegui perceber em sua expressão foi pura diversão. Para ser sincero, aquilo parecia muito típico de Sakayanagi.
— A situação se tornou algo que não pode ser ignorado. Algo que vai abalar os próprios alicerces desta escola. Espero sinceramente que vocês dois possam me ajudar a controlar a situação, mantendo total sigilo — disse a eles.
— Ouvi dizer que era algo importante, mas… Você está fazendo algum tipo de brincadeira comigo, Chabashira-sensei? — perguntou Mashima-sensei, buscando uma explicação dela. Aparentemente, ele achava impossível que o que eu havia dito fosse verdade.
— Garanto que isso não é nenhuma piada. Você acha que sou do tipo que faz jogos sem sentido, como a Hoshinomiya-sensei?
— Tudo bem, justo… mas eu não estou entendendo absolutamente nada do que está acontecendo aqui. Estamos no meio de uma festa de agradecimento na qual deveríamos estar participando.
Aquilo deveria ser uma oportunidade valiosa para se despedirem dos formandos pela última vez. A falta de interesse de Mashima-sensei era evidente. Ele não tinha tempo para ouvir a fantasia delirante de um estudante.
— O que Ayanokoji está fazendo? — perguntou ele.
— Eu não sei — respondeu Chabashira. — É impossível para mim explicar isso a você. Como eu disse ontem, tudo o que fiz foi preparar o local da reunião por ordem do diretor Sakayanagi. Nada mais. Assim como você, ainda estou tentando entender o que está acontecendo aqui.
Ambos os professores me lançaram olhares cheios de suspeita. Tentei continuar a conversa.
— O que você pensaria, Mashima-sensei, se eu dissesse que o diretor Sakayanagi está atualmente em prisão domiciliar por acusações de fraude? E que o diretor interino Tsukishiro veio para esta escola por minha causa? — perguntei.
— O quê?
Mesmo indo direto ao ponto, a conversa não ficaria mais fácil por causa disso. Na verdade, as dúvidas de Mashima-sensei só estavam aumentando.
— Eu realmente não entendo uma palavra do que você está tentando dizer. Você é a razão de ele estar aqui?
Uma reação natural, claro. A ideia de que todo o sistema escolar estava sendo manipulado para a matrícula e expulsão de uma única pessoa provavelmente nunca passaria pela cabeça dele. Talvez eu devesse começar explicando o que aconteceu durante o exame final de fim de ano.
— Vou explicar em detalhes o que aconteceu—
No entanto, no momento em que comecei a recontar os acontecimentos do exame, Sakayanagi levantou a mão.
— Por favor, perdoe minha ousadia, mas se importaria se eu interviesse para explicar toda essa situação?
Parecia que ela já havia previsto que aquilo aconteceria.
— Você disse antes que também sabe algo sobre essa situação, não é, Sakayanagi?
— Sim. Pelo menos, tenho bastante confiança de que sei muito mais do que vocês dois — respondeu ela.
Ela agiu rapidamente, talvez pensando que as pessoas interessadas compreenderiam a situação muito mais rápido ouvindo a história de um terceiro bem informado, em vez da própria pessoa envolvida. Depois que fiz um leve aceno de cabeça para ela, Sakayanagi voltou seu olhar para Mashima-sensei.
— Você ouviu falar dessa situação pelo seu pai? — perguntou ele.
— Não. Isso é algo que eu sei pessoalmente. Ayanokoji-kun e eu… bem, sim. Simplificando, pode-se dizer que nós somos como amigos de infância — explicou ela, soando bastante satisfeita. Eu me perguntei como os professores reagiriam ao ouvi-la colocar as coisas dessa maneira, mas eles pareceram surpreendentemente chocados.
— Amigos de infância… Eu nunca imaginei que vocês tivessem esse tipo de relação — disse Chabashira.
— Bem, por favor, lembrem-se de que eu disse que somos "como" amigos de infância, no máximo — continuou Sakayanagi. — De qualquer forma, vou resumir agora o que aconteceu.
Deixando de lado o assunto de sermos amigos de infância, ela começou a explicar os acontecimentos do exame.
— Tenho certeza de que a memória do confronto entre Ayanokoji-kun e eu durante o exame final de fim de ano, outro dia, ainda está fresca na mente de todos. Refiro-me ao momento em que lutamos como comandantes. Foi minha vitória na partida final de xadrez que resultou na vitória da minha turma.
Para a escola, aquela era a verdade. Naturalmente, Mashima-sensei e Chabashira não duvidavam disso.
— E daí?
— E se… durante o exame, alguém tivesse interferido na partida? E se o resultado do jogo tivesse sido alterado pelas ações dessa pessoa, causando um grande impacto no resultado geral da prova? Isso não seria um problema extremamente sério? — perguntou ela.
— Os exames são realizados de maneira justa e imparcial. Não há como algo assim acontecer.
— Como você pode afirmar que foi justo e imparcial? Nenhum de vocês estava presente durante o exame, estavam?
Como os professores responsáveis pelas turmas deveriam ser mantidos separados de suas próprias classes, Chabashira e Mashima-sensei haviam ficado encarregados de supervisionar as turmas de Ichinose e Ryuen durante o exame.
Ou seja, eles não tinham visto o nosso exame.
— Na verdade, eu havia perdido aquela partida de xadrez. Ayanokoji-kun deveria ter vencido — disse Sakayanagi.
A primeira pessoa a reagir não foi Mashima-sensei, mas sim Chabashira.
— Espere, o Ayanokoji venceu a partida de xadrez? Não, espere… Eu vi os resultados. Eu vi o que aconteceu durante a partida.
Era compreensível que aquilo a incomodasse. Havíamos sido rebaixados novamente para a Classe D por causa da minha derrota naquele jogo de xadrez.
— Você ainda não entendeu? — perguntou Sakayanagi, formulando sua resposta de um jeito que parecia testar os dois instrutores.
— Do que você está falando? Você não está sugerindo que o diretor interino Tsukishiro alterou o resultado da partida, está? Nós tivemos uma reunião com Sakagami-sensei e Hoshinomiya-sensei depois do exame, e eles não mencionaram nada problemático.
— Ele não alterou o resultado da partida. Ele alterou o que aconteceu durante a partida. Vocês não conseguem enxergar a verdade se ficarem presos aos limites do senso comum. As instruções enviadas pelos comandantes não são transmitidas diretamente aos alunos. Elas são revisadas por administradores da escola e então transmitidas pelo sistema de intercomunicação. Esse sistema faz sentido porque evita fraudes, mas, por outro lado, também permite que os administradores da escola alterem as coisas livremente — explicou Sakayanagi. — Agora vocês entendem?
Ambos os professores estavam começando lentamente a compreender o que havia acontecido. Pela primeira vez, dúvidas sobre o diretor interino Tsukishiro e sobre o exame passaram pela mente de Mashima-sensei.
— Imagino que deve ter sido algo bastante incomum, até mesmo para os professores, usar um sistema tão grande para um exame. Esse é um ponto a considerar. Esse sistema deve ter sido preparado às pressas pelo diretor interino Tsukishiro para que ele pudesse interferir injustamente no exame — disse Sakayanagi, tecendo habilmente uma mistura de mentiras e blefes.
Quanto do que aconteceu Tsukishiro realmente havia planejado? Apenas o próprio Tsukishiro sabia disso com certeza. Em vez de confirmar a verdade, Sakayanagi apresentou uma interpretação conveniente baseada em suas próprias suposições e falou como se fosse um fato.
Ela não hesitou nem por um instante em sua explicação, e eu tinha certeza de que os professores estavam aceitando suas palavras como verdade. Além disso, como Sakayanagi contou a história de forma tão eloquente e sem pausas, Mashima-sensei e Chabashira simplesmente não conseguiam lidar com o excesso de informações que estavam recebendo. Seus cérebros começariam a processar aquilo como fato.
— A última instrução que foi dada à Horikita-san, aquela que ela ouviu pelo intercomunicador — ou, para ser mais preciso, a instrução que foi lida para ela pela máquina — era diferente da instrução que havia sido originalmente inserida. Se o movimento que Ayanokoji-kun havia pensado tivesse sido executado, eu teria perdido. Vocês entendem o que isso significa? — perguntou Sakayanagi.
Ela sorriu amplamente, como se estivesse testando a capacidade deles de processar a informação. A outra pergunta implícita em seu sorriso era: Vocês entendem o que quero dizer ao contar tudo isso? E ao perguntar aquilo, ela praticamente restringia as possibilidades de interpretação deles a uma única resposta.
— Você está dizendo que… o diretor interino Tsukishiro estava por trás disso?
— Como alguém que está tentando expulsar Ayanokoji-kun, o fato de ele possuir um Ponto de Proteção era um obstáculo — respondeu Sakayanagi.
Ambos os professores ficaram em silêncio. No entanto, Mashima-sensei logo voltou a falar.
— O que Sakayanagi disse é verdade, Ayanokoji? — perguntou ele.
— Sim. Ela está correta.
— Admito que há um certo grau de credibilidade no que vocês dois estão afirmando. Sou o professor responsável pela turma de Sakayanagi há um ano e já compreendi sua personalidade e sua forma de pensar. Se ela quisesse deliberadamente deixar Ayanokoji vencer, poderia simplesmente ter perdido de propósito em cada uma das provas do exame, incluindo o xadrez. Ela não ganha nada elevando Ayanokoji e arriscando sua própria reputação dessa forma.
Não havia benefício algum para Sakayanagi, líder da Classe A, em ir tão longe a ponto de mentir sobre admitir uma derrota. Como Mashima-sensei havia dito, se ela tivesse algum motivo pessoal para me deixar vencer, havia inúmeras maneiras de me conceder essa vitória, como ultrapassar o limite de tempo. Não havia necessidade de organizar uma reunião como aquela e falar sobre algo tão duvidoso.
— Mas espere. Entendemos a ideia geral do que você está dizendo, mas não há como um terceiro confirmar se essa história é verdadeira ou não. Não é mesmo? — disse Chabashira. A história de Sakayanagi era tão absurda que seria perfeitamente natural alguém descartá-la imediatamente. — Essa história é bem difícil de acreditar… O que você acha, Mashima-sensei?
Mashima-sensei ouviu tudo com uma expressão severa no rosto.
— Não importa o que eu penso sobre isso. O que acabamos de ouvir é algo que tenho dificuldade em aceitar com base no que sabemos agora.
Ele parecia prestes a se afastar da conversa, mas Chabashira o impediu.
— Na minha opinião pessoal, acredito que há certo grau de verdade no que esses dois estão dizendo. Desde que o diretor interino Tsukishiro chegou, toda esta escola tem funcionado de maneira estranha — disse Chabashira.
— Se você pensa assim apenas porque não gosta do diretor interino Tsukishiro, ou se são apenas seus sentimentos pessoais interferindo, então essa ideia nem merece ser considerada. O mesmo vale para ter fé cega de que sua própria turma vai vencer.
Mashima-sensei respondeu duramente à tentativa de Chabashira de nos apoiar, os estudantes, e imediatamente fez uma pergunta a mim e a Sakayanagi.
— Vocês podem me mostrar alguma prova? — perguntou ele.
— Mashima-sensei, você não acreditaria em nós mesmo que disséssemos que ouvimos sobre as irregularidades do diretor interino Tsukishiro diretamente da boca dele, não é? — perguntou Sakayanagi.
— Isso é óbvio.
Não havia como alguém que cometesse esse tipo de fraude nos bastidores simplesmente se expor abertamente. Mesmo que as pessoas comentassem em particular sobre o que havia acontecido, era evidente que não faria diferença alguma enquanto ninguém falasse publicamente sobre isso.
— Para ser sincero, mal consigo imaginar que exista algum estudante nesta escola que alguém tão poderoso quanto o diretor interino Tsukishiro queira expulsar — disse Mashima-sensei.
— Sim, isso é verdade.
— Não é que eu queira duvidar dos meus alunos. Não acho que vocês sejam tão tolos a ponto de não perceber que não têm nada a ganhar desperdiçando tempo e mentindo para mim. Mas esse argumento simplesmente carece de provas — acrescentou ele.
Mesmo querendo acreditar em nós, Mashima-sensei provavelmente não poderia ser convencido sem uma fonte confiável.
— Quem exatamente é você, Ayanokoji? Por favor, me diga.
Eu imaginava que era apenas questão de tempo até Mashima-sensei fazer essa pergunta. O diretor Sakayanagi havia sido colocado em prisão domiciliar por supostas acusações de corrupção, e um homem chamado Tsukishiro havia sido enviado para a nossa escola. E esse tal Tsukishiro estaria aqui exclusivamente para me expulsar, chegando ao ponto de manipular um exame importante para cumprir sua missão.
Era inevitável que Mashima-sensei tivesse dúvidas sobre essa história. Eu deveria explicar tudo pessoalmente ou deixar que outra pessoa fizesse isso? Quando não respondi, Mashima-sensei voltou-se para Chabashira, que havia dito anteriormente que acreditava que minha história possuía certo grau de verdade.
— O que você sabe sobre Ayanokoji? — perguntou ele.
— Para ser completamente honesta, eu mesma sei muito pouco — respondeu ela.
Chabashira olhou para mim com um olhar investigativo, mas eu ignorei friamente. Não me prejudicaria se ela revelasse as poucas informações superficiais que tinha sobre mim.
— Eu vi os resultados do exame de admissão de Ayanokoji. Ele tirou cinquenta pontos em todas as matérias, o que me pareceu estranho.
— Cinquenta pontos em todas as matérias… Quer dizer que ele fez isso de propósito? — perguntou Mashima-sensei.
— Se você examinasse os resultados pessoalmente, entenderia que é verdade, Mashima-sensei — respondeu ela.
— Fufu. Nossa, você fez coisas bem interessantes — comentou Sakayanagi.
— Mas isso, por si só, não prova necessariamente nada. Pensando bem, embora nenhum aluno normalmente se segure deliberadamente dessa forma, não seria nada difícil para um estudante com certo nível de habilidade acadêmica obter notas quase uniformes em todas as matérias. Na verdade, o sistema de pontuação que usamos no exame de admissão desta escola é extremamente simples — argumentou Mashima-sensei.
— Mas há mais. Quando Ayanokoji começou a estudar aqui, o diretor Sakayanagi me disse apenas que ele era um aluno especial — disse Chabashira.
— Espere, o diretor Sakayanagi disse isso…? É por isso que você está aqui agora, Chabashira-sensei?
Ela assentiu e então passou a relatar o que havia acontecido naquela época.
— O diretor Sakayanagi me pediu que, como professora responsável pela turma de Ayanokoji, eu o informasse caso houvesse qualquer problema envolvendo Ayanokoji. O pai de Ayanokoji Kiyotaka é uma figura extremamente influente que aparentemente não queria que seu filho se matriculasse nesta escola. Ouvi dizer que o diretor Sakayanagi utilizou métodos um tanto agressivos para conseguir aprovar a admissão de Ayanokoji — explicou Chabashira.
— Ele o admitiu sem a permissão do responsável legal? Vejo que o diretor Sakayanagi também pode ser bastante decidido.
Uma criança comum só poderia entrar no ensino médio com a permissão dos pais. O mundo não era feito apenas de coisas boas. Não era como se uma criança pudesse simplesmente fazer o que quisesse, mesmo que fosse por uma causa justa como a educação.
— Meu pai e Ayanokoji-kun se conhecem — explicou Sakayanagi. — Foi exatamente por isso que ele fez o que fez, agindo por compaixão pela situação infeliz em que Ayanokoji-kun havia sido colocado. Mas isso acabou lhe trazendo problemas. O diretor interino Tsukishiro abordou meu pai, colocou-o em prisão domiciliar com acusações forjadas de fraude e agora está trabalhando para expulsar Ayanokoji-kun.
Esse ponto provavelmente foi o que mais incomodou Mashima-sensei.
— Então o pai de Ayanokoji se opôs à sua admissão forçada nesta escola e depois enviou o diretor interino Tsukishiro…
Aquilo não era algo que alguém sem autoridade seria capaz de fazer.
— Mas ele não precisava fazer isso. Poderia simplesmente ter vindo diretamente à escola e protestado — acrescentou Mashima-sensei.
— O pai de Ayanokoji já havia entrado em contato com seu filho e com o diretor Sakayanagi — respondeu Chabashira.
— Quer dizer que o diretor Sakayanagi já havia sido informado de que o responsável legal de Ayanokoji desejava retirá-lo da escola?
— Sim — respondi. — Assim como Chabashira-sensei disse, eu me encontrei com o diretor Sakayanagi e com meu pai. Tivemos uma reunião bem aqui nesta sala de recepção. Se você voltar as gravações da câmera de segurança do corredor, poderá confirmar que isso é verdade.
— Então o fato de Ayanokoji ainda estar aqui significa que o pedido para retirá-lo da escola foi recusado pela instituição, incluindo pelo diretor? — perguntou Mashima-sensei.
— Aparentemente — respondeu Chabashira, assentindo. — O diretor Sakayanagi respeitou a vontade de seu aluno. Isso pareceu resolver a situação por um tempo… Mas eu nunca imaginei que o diretor interino Tsukishiro tivesse sido enviado aqui com o único propósito de expulsar Ayanokoji.
Ao ouvir a avaliação de Chabashira sobre a situação, Sakayanagi falou, demonstrando concordância.
— Bem, não é estranho que você esteja surpresa. Você não sabia de nada disso, Chabashira-sensei.
— Mas você parece estar bastante bem informada — retrucou Chabashira.
— Sim. Eu estou muito mais familiarizada com Ayanokoji-kun do que você, Chabashira-sensei — disse Sakayanagi, exibindo sua superioridade de maneira completamente desnecessária. — Isso não é óbvio pelo fato de que ele não se opôs à minha presença aqui, mesmo eu tendo aparecido sem ser convidada?
Ela soltou uma risada arrogante ao dizer isso, como se estivesse esfregando o fato no rosto de Chabashira.
— Estou começando a entender o quadro geral. Pelo menos a parte sobre um pai que quer trazer o filho de volta para casa parece ser verdade — disse Mashima-sensei.
Ele agora tinha uma compreensão muito melhor da situação, mas ainda não estava convencido.
— No entanto… Mesmo que eu não saiba quanta autoridade o pai de Ayanokoji possui, fico me perguntando por que ele tentaria expulsar o próprio filho dessa maneira. Isso simplesmente não parece realista — acrescentou.
— É porque Ayanokoji-kun possui habilidades extraordinárias que as pessoas comuns não têm — disse Sakayanagi.
— Eu vi os resultados do desempenho de Ayanokoji no Exame de Seleção de Eventos outro dia. Não há dúvida de que ele é muito bom em xadrez e em cálculo mental rápido. Mas há muitos outros alunos extraordinários. Não consigo pensar que suas habilidades se destaquem a ponto de torná-lo particularmente excepcional — argumentou Mashima-sensei.
— Mashima-sensei, não vou impedi-lo de tentar convencer a si mesmo sobre a verdade dessa questão. No entanto, preciso lhe pedir algo: poderia, por favor, compreender o que está acontecendo neste momento? Meu pai está de olho nesse jovem desde antes de ele se matricular aqui. Além disso, o diretor interino Tsukishiro está trabalhando para expulsá-lo, chegando ao ponto de recorrer a meios desleais. Essa é a única realidade aqui — afirmou Sakayanagi. Mashima-sensei cruzou os braços e fechou os olhos por um instante.
— Tenho certeza de que você já chegou a uma conclusão, Mashima-sensei. Só precisamos encontrar as provas depois.
Após alguns segundos de silêncio, ele abriu os olhos e olhou para mim, depois para Sakayanagi e, por fim, para Chabashira.
— Sim… A parte sobre um filho ir contra a vontade do pai, sobre o pai não gostar da ideia de seu filho estudar nesta escola e estar fazendo algo para retirá-lo daqui, eu acredito. No entanto, não é como se eu pudesse simplesmente cooperar com vocês sem mais nem menos. Vocês entendem o motivo disso? — disse Mashima-sensei.
Ele entendia muito bem que tudo o que havíamos dito até agora apenas arranhava a superfície do que realmente estava acontecendo.
— Vocês não pretendem me contar tudo, pretendem? — acrescentou.
Aparentemente, ele já havia organizado a sequência dos acontecimentos em sua mente e percebeu que havia algo que não estávamos contando, algo que queríamos manter em segredo. Ainda assim, seria problemático se ele não fosse capaz de perceber isso.
— Isso mesmo. Além disso, mesmo que eu contasse tudo, não faria muita diferença. Na verdade, seria inútil — respondi.
Mesmo que eu revelasse tudo, começando pela Sala Branca, provavelmente seria algo difícil demais para os adultos sequer compreenderem. Uma simples análise lógica da situação atual já deveria ser suficiente para deixar claro que as ações de Tsukishiro eram absurdas. Além disso, mencionar a Sala Branca agora não me aproximaria da verdade. Eu tinha certeza de que sua existência havia sido completamente escondida por meio de um encobrimento minucioso. Não havia motivo para me submeter a algo tão inútil.
— Digamos que eu me recuse a ajudar vocês. E então? — perguntou Mashima-sensei.
— Bem, eu não pretendo simplesmente aceitar meu destino e chorar até dormir. Mas tenho certeza de que vou ter um trabalho infernal tentando pensar em uma forma de lidar com o diretor interino Tsukishiro. Seja em um exame ou em qualquer outra coisa, é fácil para um administrador da escola manipular o sistema. Na verdade, a escola já permitiu exatamente isso acontecer no Exame de Seleção de Eventos — respondi.
Seria quase impossível para os alunos impedirem isso sozinhos. A única questão que restava era saber se Mashima-sensei era o tipo de pessoa capaz de fechar os olhos para algo assim.
— Você está tentando me testar, Ayanokoji? …Muito bem. Faremos o máximo para impedir que o diretor Tsukishiro interfira de forma ilegítima em futuros exames especiais ou provas escritas.
Finalmente, Mashima-sensei havia declarado que ficaria do meu lado.
— Mashima-sensei, você entende que isso não vai ser tão simples, não entende? — alertou Chabashira, após ouvir sua declaração. — Mesmo que seja verdade que ele esteja fazendo algo fraudulento, podemos acabar sendo demitidos se cometermos algum erro.
Eu podia entender por que ela dizia isso. Rebelar-se contra Tsukishiro significaria, essencialmente, colocar a carreira deles como professores em risco. Ele não era o tipo de adversário que alguém enfrentaria apenas por um senso de justiça superficial.
— Embora eu ainda não acredite completamente em tudo o que está sendo dito, se o que Ayanokoji e Sakayanagi estão afirmando for verdade, então isso é algo gravíssimo. Um administrador da escola jamais deveria manipular um exame ou alterar resultados de forma fraudulenta. Se vamos fazer algo, precisamos fazer direito — argumentou Mashima-sensei.
— Mas, Mashima-sensei, não seria melhor não ficarmos presos a questões tão problemáticas neste momento? Você acabou de receber uma redução de salário esta manhã por violar as regras durante o Exame de Seleção de Eventos — respondeu Chabashira.
Sakayanagi pareceu achar aquilo interessante, pois imediatamente se interessou pela declaração.
— Uma redução de salário por violar as regras? O que exatamente você fez? — perguntou ela.
— Isso não é algo que eu pretenda contar a vocês dois — retrucou Mashima-sensei.
— Foi por causa do conflito entre a Classe D e a Classe B durante o exame? Vamos acabar ouvindo sobre isso mais cedo ou mais tarde. Além disso, se esse incidente estiver relacionado às atividades fraudulentas do diretor interino Tsukishiro, então realmente precisamos discutir questões que possam causar preocupação neste momento. Isso poderia se tornar um problema depois, não acha? — argumentou Sakayanagi.
— O que aconteceu não tem absolutamente nada a ver com esta discussão — disse Chabashira, falando no lugar de Mashima-sensei. — Mas eu explico. Durante o Exame de Seleção de Eventos entre a Classe B e a Classe D, o último evento escolhido foi judô, uma prova que a Classe D havia proposto. E o aluno escolhido para participar foi Yamada Albert. Naquele momento, Ichinose, da Classe B, havia perdido completamente a vontade de lutar, ficando incapaz de escolher um aluno para competir contra ele.
— Bem, se o oponente fosse o Yamada-kun, isso é perfeitamente compreensível. Não imagino nenhum aluno do primeiro ano capaz de vencê-lo no judô — comentou Sakayanagi.
— Claro, Ichinose originalmente tinha um aluno em mente para o evento de judô. Mas o que você acha que teria acontecido se a indecisão dela continuasse por tempo suficiente para que um aluno da turma fosse selecionado aleatoriamente? Qualquer um perceberia que poderia haver consequências imprevistas — explicou Chabashira.
Se Ichinose tivesse ficado sem tempo para escolher um participante, um aluno que ainda não tivesse competido em nenhuma prova seria selecionado aleatoriamente. E esse aluno poderia tanto ser uma garota quanto um garoto.
— Se o aluno simplesmente perdesse a luta imediatamente, tudo bem. Mas considere o quanto a Classe B é unida. Era possível que o aluno selecionado tentasse fazer absolutamente tudo para vencer por causa da Ichinose-san — continuou Chabashira.
E era totalmente plausível que Albert usasse toda a sua força para derrubar o oponente com tanta violência que ele não conseguisse mais se levantar, independentemente de quem fosse. Se isso acontecesse, poderia virar um incidente sério.
— Foi exatamente por isso que Mashima-sensei, agindo por conta própria, determinou que a luta era impossível de vencer. Imagino que foi isso que o diretor interino Tsukishiro não gostou — concluiu ela.
Então era por isso que ele havia sofrido um corte no salário. Pelo visto, o que ele fizera realmente violava as regras.
— Aquele incidente e esta situação são, essencialmente, a mesma coisa. Se há algo que consideramos perigoso para os alunos, nós interrompemos. Se há injustiça, nós a corrigimos. Ensinamos isso aos nossos alunos. O que seríamos se não seguíssemos esses princípios nós mesmos? — respondeu Mashima-sensei.
E, por isso, ele faria isso sem arrependimentos, mesmo que significasse colocar sua própria carreira em risco.
— Parece que não posso impedi-lo — disse Chabashira.
— Como professor, sempre me preparei para situações como essa — respondeu ele.
Era fácil dizer algo assim sem realmente querer dizer. Mas Mashima-sensei parecia ser um homem íntegro. Ele realmente mantinha sua palavra.
— Você… Bem, tudo bem. Se Mashima-sensei está tão decidido assim, então não há mais nada a dizer — disse Chabashira.
— Nesse caso, diria que chegamos a um acordo, pelo menos por enquanto, hm? — disse Sakayanagi, voltando-se para mim. Assenti em resposta. Talvez Chabashira tivesse percebido que tentar convencer Mashima-sensei do contrário seria inútil, porque ela recuou.
— Bem, se Mashima-sensei está disposto a arriscar o pescoço por você, então eu também ajudarei. Imagino que você não tenha problema com isso, Ayanokoji? — disse ela.
— Quanto mais pessoas estiverem do meu lado, melhor. Eu agradeço — respondi.
— Então vamos suspender esta discussão por enquanto. E ninguém diz uma palavra sobre isso para ninguém fora desta sala. Imagino que isso não seja um problema, certo? — disse ela.
— Claro que não — respondi.
Era compreensível, já que nem Mashima-sensei nem Chabashira haviam visto com os próprios olhos as irregularidades de Tsukishiro. Além disso, quanto mais professores fossem envolvidos, maior seria a chance de a informação vazar. Tsukishiro naturalmente ficaria mais cauteloso se percebesse que havia pessoas tentando expor suas fraudes.
— Eu também pretendo me aliar a Ayanokoji-kun por enquanto — disse Sakayanagi.
— Sakayanagi. Só porque você conhece a situação de Ayanokoji não significa que deva tratá-lo de forma especial. Isso seria um problema — advertiu Mashima-sensei.
— Do que exatamente você está falando? É perfeitamente natural que eu o trate de forma especial. Não, é meu direito — rebateu Sakayanagi imediatamente.
— Seu direito?
— Isso mesmo. Mesmo que esta escola seja baseada na competição entre as turmas, naturalmente existem diversas circunstâncias envolvidas. Alguns alunos traem suas próprias turmas por causa de um amigo ou amante em outra classe. Outros podem cooperar com alunos de outras turmas por dinheiro ou serem coagidos a ajudar outra classe. Uma única emoção compartilhada pode atravessar as barreiras entre as turmas e formar uma relação de cooperação. Isso não sempre aconteceu nesta escola? Na verdade… isso não sempre aconteceu na sociedade humana como um todo? Estou errada? — argumentou Sakayanagi.
Ela estava afirmando que todos tinham alguém a quem davam tratamento especial. E ninguém poderia negar isso.
— Mesmo que eu abandonasse todos os meus colegas da Classe A e os deixasse perecer, por assim dizer, escolhendo salvar apenas Ayanokoji-kun, os professores não teriam base alguma para me criticar. As únicas pessoas que poderiam me ressentir por isso seriam os alunos que foram sacrificados — acrescentou.
Eu tinha certeza de que Mashima-sensei não havia gostado nem um pouco do que Sakayanagi acabara de dizer, mas ele não discutiu.
— Dito isso… suponho que ele talvez não necessariamente aceite esse tratamento especial. Mas a questão de ele aceitar ou não é outra história — disse Sakayanagi.
— O que você quer dizer com isso?
— Quero dizer que ficarei observando atentamente até que o diretor interino vá embora. Depois disso, as coisas serão diferentes. E, se a Classe D se tornar um obstáculo para a Classe A, eu os esmagarei sem piedade, quando e onde for.
— Entendo. Muito bem, então.
Mashima-sensei compreendeu e aceitou a declaração de Sakayanagi, reconhecendo a força de sua determinação.
— Apenas para confirmar mais uma vez: não há nenhuma prova das irregularidades do diretor interino Tsukishiro em lugar algum? — perguntou ele.
— Tenho certeza de que já foi tudo apagado. Mesmo que tentássemos investigar agora, seria inútil — respondi. Não havia como ele ser estúpido o suficiente para deixar evidências para trás.
— Então parece que tudo o que podemos fazer agora é esperar pelo próximo movimento dele — disse Mashima-sensei.
Os professores sabiam muito mais do que nós sobre os exames que nos aguardavam quando entrássemos no segundo ano. Achei melhor deixar Mashima-sensei e Chabashira pensarem em como e quando Tsukishiro faria seu próximo movimento.
— Já se passaram mais de trinta minutos. Não podemos ficar longe da festa de agradecimento para sempre. Primeiro, vocês dois estudantes devem sair. Depois, cada um de nós sairá separadamente.
— Entendido — respondi.
Sakayanagi e eu saímos da sala de recepção ao mesmo tempo e seguimos pelo corredor, caminhando lado a lado.
— Foi uma decisão drástica, mas conseguir trazer Mashima-sensei para o nosso lado como aliado é uma grande vantagem. Como responsável por todo o primeiro ano, ele pode se aproximar do diretor interino Tsukishiro mais do que qualquer outra pessoa — disse Sakayanagi.
— Sim. Mesmo que ele não consiga impedir Tsukishiro completamente, será um bom elemento de dissuasão — respondi.
— Acho que me preocupa um pouco o fato de que o senso de justiça dele seja forte demais. Esse é um de seus defeitos — comentou Sakayanagi.
— Sim, acho que você tem razão. Ele é confiável, mas também existe a possibilidade de que acabe se tornando um problema.
— E se Mashima-sensei se envolver demais, provavelmente será demitido, o que talvez até seja uma espécie de misericórdia. Bem, se ele é o tipo de pessoa que faria algo assim de qualquer forma, imagino que isso acabaria acontecendo mais cedo ou mais tarde — refletiu Sakayanagi.
Quando observei o perfil de Sakayanagi enquanto ela falava, ela parecia bastante satisfeita.
— Você parece estar se divertindo com isso — comentei.
— Estou me divertindo bastante. E você, Ayanokoji-kun, não está?
— Não sei quanto a isso. Do meu ponto de vista, tudo isso é apenas uma grande dor de cabeça. E você está aqui porque—
— Sim, porque parecia muito divertido. Eu atrapalhei? — perguntou ela, admitindo imediatamente o motivo de ter vindo.
— Não. Sua presença ajudou a persuadir Mashima-sensei. Sou grato.
— Fico feliz.
Sakayanagi virou-se para mim e sorriu.
— Além disso, não podemos permitir que a escola continue interferindo em nossas batalhas repetidas vezes por meio de fraudes como essa — disse ela, demonstrando sua forte indignação diante da injustiça de Tsukishiro.
Nosso objetivo era derrubar Tsukishiro completamente. A batalha que nos aguardava seria intensa.
— Nosso inimigo está despreparado. Devemos resolver isso o mais rápido possível — acrescentou.
Do ponto de vista de Tsukishiro, nós éramos apenas simples estudantes do ensino médio. Ele estava subestimando o que poderíamos fazer. Aquela era a fraqueza que poderíamos explorar.
— Ayanokoji-kun. Por enquanto, faça todo o possível para eliminar o diretor interino Tsukishiro.
— Nesse caso, sinta-se à vontade para me deixar agir sem restrições — respondi.
Se ela podia ou não ser confiável não era algo com que eu precisava me preocupar agora. Com base nas nossas interações até então, eu acreditava compreender bastante bem a personalidade de Sakayanagi.
*
Depois que os dois estudantes deixaram a sala, Mashima contou a Chabashira o que realmente pensava.
— Ainda há algumas coisas que não consigo compreender completamente — admitiu.
— Eu sinto o mesmo, Mashima-sensei. Mas o fato é que o que Ayanokoji disse era verdade.
— Interferir na forma como esta escola funciona apenas por causa de um único aluno… — lamentou ele, percebendo que ainda tinha dificuldade em aceitar aquilo, não importava quantas vezes as pessoas ao seu redor insistissem que era real. — Você tem observado Ayanokoji durante este último ano. Que tipo de pessoa você acha que ele é?
— Essa é uma pergunta difícil, na verdade.
Sem querer prolongar demais a conversa, os dois professores deixaram a sala de recepção cerca de um minuto depois de Ayanokoji e Sakayanagi terem partido.
— À primeira vista, ele parece apático e indiferente. É um aluno comum, do tipo que não se destaca. O tipo de estudante que você poderia encontrar em qualquer lugar.
Os professores responsáveis pelas outras turmas provavelmente tinham uma impressão semelhante dele. Na verdade, talvez nem tivessem uma impressão clara. Mal seriam capazes de lembrar seu nome ou seu rosto.
— Mas eu não consigo acreditar que aqueles olhos sejam os de uma criança. Aqueles olhos permanecem impassíveis diante de qualquer pessoa, até mesmo de adultos, e parecem capazes de enxergar através de tudo e de todos.
— Ainda assim, continuo cético.
— É compreensível. Afinal, descrever um estudante do primeiro ano do ensino médio dessa maneira… é natural ter dúvidas.
— Sou professor há vários anos e já vi todo tipo de aluno nesta escola. Nos últimos anos, tive a impressão de que Horikita Manabu e Nagumo Miyabi são estudantes particularmente excepcionais — disse Mashima.
— Não posso discordar disso — respondeu Chabashira.
Ambos possuíam excelentes habilidades acadêmicas e físicas. Eram os melhores em seus respectivos anos e, além disso, tinham um carisma incomparável.
— Eu tinha a impressão de que os calouros deste ano não poderiam se comparar a esses dois. Claro, há alguns alunos que se aproximam deles em certos aspectos, mas não em todos. Na sua opinião, qual é o verdadeiro nível das habilidades de Ayanokoji no geral? — perguntou Mashima.
— O que eu disser vai influenciar o que você pretende fazer daqui para frente? — perguntou Chabashira.
— Não. Independentemente de que tipo de aluno Ayanokoji seja, não tenho a menor intenção de deixar o diretor interino Tsukishiro fazer o que quiser. Estou apenas curioso.
— Curioso… Não é algo que costumo ouvir você dizer, Mashima-sensei. De qualquer forma, eu mesma ainda estou tentando descobrir.
Chabashira também era uma das pessoas que não conseguia evitar querer saber mais sobre Ayanokoji. A verdade era que, mesmo que quisesse dar uma resposta a Mashima, ela simplesmente não podia.
— Parece que realmente nos metemos em um atoleiro — disse Mashima, exasperado, cruzando os braços. — Professores devem manter uma distância apropriada de seus alunos e permanecer numa posição de autoridade sobre eles. Não é sensato estabelecer um relacionamento tão estranho.
— E, para que isso aconteça, precisamos nos livrar do diretor interino Tsukishiro o quanto antes — respondeu Chabashira.
— Eliminá-lo realmente será suficiente para pôr fim a tudo isso?
— O que quer dizer?
— Não há garantia de que outro assassino não será enviado depois que expusermos a injustiça que está acontecendo aqui. E, se isso acontecer, o problema deixará de ser algo pessoal para Ayanokoji e passará a afetar todo o ano dele… Na verdade, dependendo de como as coisas se desenrolarem, todo o corpo estudantil pode acabar sendo afetado — disse Mashima, com um tom de inquietação.
Ainda assim, ele jamais abandonaria um aluno em necessidade.
— Tenho medo de que essa situação se torne cada vez mais grave — acrescentou.
— Concordo.
Se a situação realmente se agravasse, parte dos alunos seria privada da chance de uma avaliação justa. Era algo que os professores precisavam impedir a qualquer custo.
— Espero que minha previsão não se torne realidade.
Os dois professores, imaginando como a situação poderia se desenvolver, torciam para que suas preocupações fossem infundadas.
*
Eu matei um pouco de tempo depois que minha conversa com os professores e com Sakayanagi terminou, e então segui para o ginásio. Em pouco tempo, a festa de agradecimento acabaria e os alunos do terceiro ano começariam a sair em massa. Tudo o que eu precisava fazer era esperar.
Os alunos do primeiro e do segundo ano reunidos ali pareciam ficar cada vez mais nervosos conforme a hora se aproximava.
Alguns dos alunos do terceiro ano deixariam a escola hoje mesmo, logo após o término da cerimônia de formatura. Talvez alguns dos estudantes ali tivessem coisas que queriam dizer e que nunca tiveram a chance de falar antes de hoje.
Quantas pessoas havia ali no total, eu me perguntei. Pelo que pude ver, eram quase cem. Entre elas, havia também uma figura familiar, um pouco afastada do restante do grupo.
— Então, você veio mesmo, hein — eu disse, cumprimentando Horikita, que estava entre os outros alunos que aguardavam no local. Ela respondeu com um olhar fulminante.
— O quê? Tem algum problema eu estar aqui? — retrucou.
— Não, não tem problema. Na verdade, estou até um pouco impressionado.
— Impressionado? Não entendo o que você quer dizer.
— Só estava pensando que, se você ainda fosse a pessoa que era antes, provavelmente não teria vindo — expliquei.
Horikita pareceu um pouco desconcertada com o meu elogio.
— É mesmo? Eu só estou sendo eu mesma. Nada em mim mudou.
Ela negou ter crescido. Ou melhor, rejeitou qualquer tipo de autorreflexão. Bem, talvez não fosse exatamente rejeição — era mais que ela simplesmente não conseguia admitir isso diante de outras pessoas.
A festa de agradecimento no ginásio provavelmente havia terminado, porque as portas finalmente se abriram. Parecia que a cerimônia de formatura agora havia sido oficialmente encerrada.
Aquele momento era oficialmente a última chance para os formandos e os alunos atuais interagirem entre si.
Depois de serem dispensados, os alunos do terceiro ano começaram a sair do ginásio em massa. Muitos deles estavam radiantes, mas alguns não sorriam — talvez pela tristeza de deixar a escola, ou porque não haviam conseguido se formar pela Classe A.
Se fosse esse o caso, porém, era estranho que a maioria dos alunos não parecesse deprimida. Mesmo com apenas um olhar rápido, parecia que os rostos dos estudantes que não eram da Classe A ainda carregavam um certo traço de alegria.
— O que você acha? — perguntei, buscando a opinião de Horikita sobre aquilo.
— Acho que, mesmo que você não tenha conseguido um atalho para realizar seus sonhos, ainda pode abrir o seu próprio caminho. De modo geral, se você tem capacidade para entrar no ensino superior ou conseguir um emprego, pode tornar esses sonhos realidade mesmo sem privilégios especiais — disse Horikita.
O caminho da vida continuava, sem nunca parar. Horikita estava dizendo que muitos alunos, agora diante dessa realidade, haviam decidido seguir em frente pelo caminho que escolheram, hm? Se fosse assim, não era surpreendente que mantivessem a cabeça erguida nesse grande momento de suas vidas.
Alguns alunos não interagiram com ninguém da multidão e simplesmente voltaram para os dormitórios. Mas a maioria parou ali. Eu sentia como se pudesse ver as marcas — ou melhor, o impacto — que eles haviam deixado ao longo de seus três anos naquela escola.
Horikita Manabu, que anteriormente havia servido como presidente do conselho estudantil, era um dos alunos que permanecia por ali. Ainda ninguém havia corrido até ele.
Era a oportunidade perfeita. Se as pessoas começassem a se aglomerar ao redor dele, seria mais difícil para Horikita abrir caminho. Horikita estava esperando por esse momento havia muito tempo, mas não parecia conseguir dar sequer um passo.
— Você deveria ir — eu disse.
— Eu sei disso — respondeu ela.
Acho que o que eu disse era bastante óbvio. Horikita estava esperando ali o tempo todo justamente para poder falar com o irmão. No entanto, agora que o momento finalmente havia chegado, ela não se movia. Enquanto isso, estudantes começaram a se aproximar do irmão de Horikita, um por um, e ela ainda hesitava em dar o primeiro passo.
Decidindo que nada aconteceria se eu apenas ficasse esperando, tomei medidas mais drásticas e dei um empurrão nela.
— E-Ei, o que você pensa que está fazendo?!
— Reivindique seus direitos como irmã mais nova — eu disse.
Apesar de eu tê-la incentivado a ir, Horikita manteve os pés firmemente plantados no chão e se recusou a avançar.
— Ficaria muito estranho se eu simplesmente corresse agora até o niisan — respondeu.
— Não há nada de estranho em você ir até ele.
— Sim, há. Eu ficaria deslocada.
Ela falava de si mesma de uma forma que soava como se estivesse se diminuindo. Era muito parecido com a armadilha que ela tinha armado para mim outro dia, quando preparou uma refeição para mim, e aquilo me lembrou de como as coisas eram logo depois que começamos a estudar aqui.
Lembrei-me de como ela olhava para o irmão mais velho, Horikita Manabu, quando ele fazia um discurso para os alunos do primeiro ano. Ela olhava para ele como se estivesse muito distante, inalcançável. Mesmo que Horikita tivesse mudado em alguns pequenos aspectos, sua essência ainda era a mesma.
Embora tivesse passado por muitas coisas e amadurecido por causa disso, ainda havia coisas que eram muito difíceis para ela. Talvez fosse porque ela estava novamente com aquela expressão tímida que eu estava pensando nessas coisas…
— Mas não entenda errado. Não é como se eu estivesse sendo tímida ou algo assim. É só que o niisan… Bem, eu vim aqui porque queria ver no que esses últimos três anos resultaram para ele — acrescentou.
— Entendo.
Então, ela estava dizendo que não tinha vindo apenas para conversar com ele. Suponho que isso não fosse necessariamente algo ruim. Mais alguns alunos do segundo ano correram até lá, reunindo-se ao lado do irmão de Horikita.
— Seu irmão é bem popular — comentei.
Ele era alguém que havia permanecido na Classe A e também atuado como presidente do conselho estudantil. Naturalmente, devia ser bastante respeitado. Inicialmente pensei que ele não tivesse tido muito contato com os alunos do primeiro ano, mas, surpreendentemente, muitos calouros também correram até ele.
Com o tempo, o pequeno círculo ao redor dele começou a se expandir e passou a incluir outros formandos. O irmão de Horikita cumprimentava os alunos mais novos calorosamente, com um sorriso aparecendo em seu rosto de vez em quando. Porém, no último instante, achei que vislumbrei algo diferente em sua expressão. Parecia que um peso havia sido retirado de seus ombros, como se ele estivesse carregando uma pressão pesada e opressiva.
E então… outro estudante apareceu diante do irmão de Horikita. Era o atual presidente do conselho estudantil, Nagumo Miyabi, da Classe A do segundo ano. Logo atrás dele vinham o vice-presidente Kiriyama, os secretários Mizowaki e Tonokawa, e Asahina.
O ar ao nosso redor não ficou exatamente mais pesado. Mas parecia que algo estava fora do lugar.
— Parabéns pela sua formatura, Horikita-senpai — disse Nagumo, oferecendo palavras sinceras de congratulação. Ele se aproximou enquanto falava, com um sorriso no rosto. O irmão de Horikita recebeu Nagumo de braços abertos, sem demonstrar qualquer sinal de desdém.
— Cara, eu realmente devia saber, não é, Horikita-senpai? Quero dizer, no fim das contas, não consegui te abalar nem um pouco — disse Nagumo.
— Ah, eu não diria isso — respondeu Horikita Manabu. — Para ser completamente honesto, eu não fazia ideia de como as coisas iriam terminar até o último momento. Se eu tivesse que apontar um motivo para a sua derrota, seria o fato de você não estar no meu ano. Não importa o quanto tentasse interferir, no fim você não passava de um espectador.
Por mais que Nagumo desejasse enfrentar Horikita Manabu, ele não podia fazer nada para superar a diferença de ano entre eles. Como não podiam participar diretamente de nenhum exame um contra o outro, as opções de Nagumo eram extremamente limitadas.
Se ele realmente quisesse derrubar o irmão de Horikita, poderia ter seguido o exemplo de Ryuen e levado a disputa para outro terreno… mas parecia que Nagumo não havia recorrido a esse tipo de medida.
— É, acho que sim. Ah, cara… por que eu tinha que nascer um ano depois de você?
Não senti frustração no tom de Nagumo. Pelo contrário, parecia haver apenas arrependimento por não estar no mesmo ano que Horikita.
— Ei, desculpa pedir isso, mas você se importaria de apertar minha mão, uma última vez? — perguntou Nagumo.
— Claro. Não tenho motivo algum para recusar — respondeu Horikita Manabu.
Ele aceitou prontamente, e os dois apertaram as mãos. Por alguns instantes, houve um silêncio agradável. Suponho que, sendo ambos presidentes do conselho estudantil, eles conseguiam se entender em muitos níveis sem precisar trocar palavras.

— Você ainda tem um longo ano pela frente. Espero que leve uma vida plena aqui — disse Horikita, oferecendo alguns conselhos a Nagumo como seu veterano. Ele não disse nada que sugerisse temer que Nagumo pudesse sair do controle; apenas deu a entender que ele deveria fazer o que quisesse.
— Sim. Vou dar o meu máximo no pouco tempo que ainda me resta aqui, depois que você se for. Vou transformar esta escola em uma verdadeira meritocracia. Já terminamos todos os preparativos — disse Nagumo.
O irmão de Horikita pareceu receber isso de forma positiva, assentindo uma vez.
— Você lamenta não ter a mesma idade que eu. Admito que talvez eu compartilhe desse sentimento. Fico um pouco desapontado por não poder ver o tipo de escola que você vai construir. Tenho certeza de que há coisas que eu compreenderia muito melhor se pudesse vê-las de perto.
— Não tenho tanta certeza disso. Acho que nós dois talvez sejamos incompatíveis, senpai — disse Nagumo.
Um deles queria preservar as tradições e regras da escola, enquanto o outro queria destruí-las. Como suas ideologias eram completamente opostas, o confronto era inevitável.
— Além disso, não é grande coisa. Não precisa se preocupar. Você vai deixar alguns veteranos mais novos para trás, não é, Horikita-senpai? — acrescentou Nagumo.
Ao dizer isso, ele desviou o olhar para alguém que estava um pouco afastado, observando-os… Não para mim, mas para a irmã mais nova de Horikita, que estava ao meu lado. Pude sentir que ela se enrijeceu, ainda que apenas um pouco.
— Se a sua irmã ainda estiver por aqui, as notícias certamente chegarão até você mais cedo ou mais tarde — acrescentou Nagumo. Depois que ambos se formassem, os irmãos Horikita acabariam se reencontrando, mais cedo ou mais tarde. Nagumo estava dizendo que, quando isso acontecesse, Manabu poderia ouvir tudo diretamente de sua irmã.
— Suponho que você esteja certo — respondeu Horikita, concordando. Eles afrouxaram o firme aperto e soltaram as mãos.
— Muito obrigado.
— Não, eu que agradeço.
O ex-presidente do conselho estudantil, Horikita Manabu, e o atual presidente, Nagumo Miyabi. O encontro final entre os dois terminou de maneira surpreendentemente pacífica e amigável. Nagumo provavelmente não queria atrapalhar os outros alunos, então rapidamente se afastou do irmão de Horikita. Dois presidentes do conselho estudantil se encontrando daquela forma era algo que chamava bastante atenção, mas, ao mesmo tempo, havia algo na situação que tornava difícil para outras pessoas se aproximarem.
Em seguida, Nagumo se aproximou da irmã de Horikita, que continuava observando de longe. Com ele estava Asahina Nazuna, outra aluna da Classe A do segundo ano. Parecia que os outros membros do conselho estudantil tinham ido encontrar outros formandos ou algo assim, porque já não estavam mais à vista.
— Você ouviu o que estávamos conversando, certo? Aproveite bem o que vem no próximo ano. Se não me engano, seu nome é—
— Horiki… quer dizer, Suzune — respondeu ela, com a voz cheia de nervosismo. Horikita normalmente não ficaria tão abalada. Talvez fosse o efeito de ter essa conversa logo depois de ouvir Nagumo falar com seu irmão.
Nagumo, que parecia achar aquilo divertido, virou-se novamente para olhar em outra direção. Nem era preciso dizer para quem ele estava olhando.
O ex-presidente do conselho estudantil, Horikita Manabu — um adversário que Nagumo havia desafiado repetidas vezes, ignorando os riscos. No momento, Manabu estava cercado por alunos mais novos, recebendo coisas como buquês de flores para celebrar sua formatura.
— Suzune, seu irmão é realmente um cara incrível. Você deveria se orgulhar de verdade por ser irmã dele.
Depois dessas palavras de elogio ao irmão dela, Nagumo voltou a dirigir o olhar para Suzune.
— Sim. Eu certamente tenho orgulho — respondeu ela, com mais firmeza, ao sentir o olhar dele sobre si.
— Se tiver algo que queira me perguntar, fique à vontade. Hoje estou de bom humor — disse Nagumo.
— Então vou aceitar a oferta.
Ela fez apenas uma pergunta a Nagumo.
— Você tem algum arrependimento?
— Arrependimento?
— É que eu não vejo nenhuma dúvida em seus olhos, presidente Nagumo.
Ela provavelmente se referia ao aperto de mãos que os dois haviam trocado momentos antes, bem como à conversa que tiveram. Nagumo parecia realmente admirar, do fundo do coração, o fato de Horikita Manabu ter se formado pela Classe A.
Mas, independentemente de como a relação entre o atual e o antigo presidente do conselho estudantil pudesse parecer por fora, o fato era que Nagumo havia travado uma guerra implacável contra Horikita Manabu, tentando fazê-lo cair da Classe A.
A irmã mais nova de Manabu não poderia ficar nada satisfeita com Nagumo. E foi exatamente por isso que Nagumo havia elogiado abertamente o fato de ele ter se formado pela Classe A, mesmo que isso tivesse acontecido porque Manabu conseguiu repelir seus ataques.
— Não acho que seja tão fácil assim vencer o Horikita-senpai. Quer dizer, ele é praticamente um adversário invencível, não acha? — disse Nagumo.
— Eu… suponho que sim.
— Então você admite abertamente que perdeu para o Horikita-senpai, Miyabi? — disse Asahina, interrompendo. Miyabi lançou um rápido olhar na direção dela.
— Perdi? Em que exatamente eu perdi, Nazuna? — respondeu.
— Hã? Quero dizer, o Horikita-senpai se formou pela Classe A, não foi? Isso significa que você perdeu — respondeu ela com firmeza, como se a pergunta nem precisasse ser feita. Mas Nagumo imediatamente apontou o problema na resposta dela.
— É verdade que, olhando apenas para o resultado, parece que eu não consegui impedir o Horikita-senpai de se formar pela Classe A. Mas como exatamente isso significa que eu perdi?
— Bem… eu diria que significa que você perdeu, não? — disse Asahina, voltando-se para a irmã de Horikita em busca de concordância. Horikita Suzune não respondeu. Em vez disso, ouviu a explicação de Nagumo.
— É verdade que eu o desafiei para um confronto. Mas eu não me importava com vitória ou derrota. Mesmo que o Horikita-senpai tivesse sido rebaixado para a Classe B, o valor fundamental dele não teria mudado em nada, teria? A força e o talento daquele homem não podem ser medidos pela classe em que ele está.
Asahina ainda parecia não estar convencida depois de ouvir o argumento de Nagumo.
— Você não entendeu? Tudo bem, então me diga: o meu valor aos seus olhos diminuiu em algum momento por causa disso? Eu continuo sendo o presidente do conselho estudantil desta escola e continuo na Classe A. Existe alguma área em que você possa dizer que eu estou perdendo? — perguntou ele.
— Bem… mas mesmo assim…
— Além disso, para começo de conversa, não dá para ter um confronto de verdade entre um aluno do segundo ano e um do terceiro.
Eu entendia o que ele estava tentando dizer. Ainda assim, Nagumo havia continuado a desafiar o irmão de Horikita mesmo sabendo que eles nunca poderiam ter um confronto direto de verdade.
— Eu só estive tentando fazer com que ele me reconhecesse… Bem, não. Na verdade, é mais como se eu tivesse atacado o senpai todo esse tempo para fazê-lo me reconhecer — disse Nagumo.
Nesse sentido, pelo que eu havia visto hoje, o irmão de Horikita realmente parecia ter dado a Nagumo esse reconhecimento. Bem, não. Provavelmente ele já reconhecia as habilidades de Nagumo há muito tempo. O problema era que não conseguia aceitar seus métodos de forma alguma. Talvez Nagumo também quisesse fazê-lo aceitar esses métodos.
— Sabe, você está soando meio como uma donzela apaixonada ou algo assim — comentou Asahina.
— Talvez. Bem, já ouvi por alto o que o senpai pretende fazer depois de se formar, e acho que vou seguir os passos dele — disse Nagumo.
Não havia nenhum sinal de arrependimento em seu rosto, nem a impressão de que ele estivesse sendo um mau perdedor. Talvez ele realmente tivesse apreciado suas interações com o irmão de Horikita até o último momento.
— Depois da formatura? Sério? Você ainda vai continuar seguindo o Horikita-senpai mesmo assim? — perguntou Asahina.
— Esse é o plano por enquanto.
— Uau… você realmente gosta dele, não é? Do Horikita-senpai, digo — disse Asahina.
— Não tenho mais rivais entre os alunos do segundo ano. E também não há nenhum entre os calouros, é claro. Isso significa que só me resta uma coisa a fazer nesta escola: derrubar o sistema em que ela se baseia e tornar este lugar entediante muito mais interessante — disse Nagumo.
Metade do mandato de Nagumo Miyabi como presidente do conselho estudantil já havia passado. Até hoje, ele não tinha feito nada realmente novo de forma explícita. Mas agora que Horikita Manabu havia se formado e Nagumo estava prestes a entrar no terceiro ano, era provável que finalmente começasse a agir. Quanto ao que ele pretendia fazer… isso era algo que eu não conseguia nem imaginar no momento.
— Dito isso, ainda não sei muito bem o que pensar de você depois deste ano, Ayanokoji — acrescentou ele, olhando para mim pela primeira vez naquele dia. A forma como ele me olhou era muito diferente de como olhava para os irmãos Horikita. A expressão em seus olhos fazia parecer que ele estava entediado.
— Isso só significa que não há nada realmente digno de avaliação — respondi.
Eu tinha certeza de que a atenção que eu vinha recebendo ultimamente estava incomodando Nagumo. Mas a sensação de que havia algo estranho não era suficiente para fazê-lo realmente se interessar por mim por enquanto, o que significava que eu não tinha absolutamente nenhuma necessidade de fazer algo para mudar isso.
— Bem, quando abril chegar, vou descobrir mesmo que você não queira. Quando esta escola se tornar uma verdadeira meritocracia, todos terão que lutar, queiram ou não — disse Nagumo.
Agora que o irmão de Horikita e os outros alunos do terceiro ano haviam se formado, esta escola estava sob o completo controle de Nagumo. Eu ainda era cético quanto ao quanto o conselho estudantil realmente poderia influenciar a escola, mas a confiança de Nagumo sugeria que as coisas definitivamente seriam diferentes do que foram no meu primeiro ano. A curiosidade de Horikita deve ter sido despertada ao ouvir aquilo, porque ela falou:
— Isso significa que as disputas não serão apenas entre classes?
— Se pudéssemos fazer com que fosse assim, seria o ideal. Mas simplesmente não é possível. A escola não permitiria — respondeu Nagumo, dando de ombros e soltando um suspiro exasperado. — Mas vou mudar o sistema desta escola para fazer com que as coisas dependam mais da habilidade individual do que nunca. Quer dizer, é óbvio que alunos exemplares deveriam estar nas classes mais altas, certo?
Horikita não concordou nem discordou. Apenas ouviu em silêncio.
— Além disso, venho propondo algumas ideias interessantes que vão aproximar mais do que nunca todos os alunos, do primeiro ao terceiro ano. Se a escola aceitar essas ideias… então talvez eu até tenha a chance de enfrentar você — disse Nagumo.
Claro, alguém como eu provavelmente não valia o tempo dele. Pelo menos não da forma como eu aparentava agora. Mas, ainda assim, no fundo, tive a sensação de que ele estava avaliando minhas capacidades, tentando me analisar e me julgar.
— Ei, Miyabi, não acha que já está na hora de irmos? Ainda tem alguns senpai de quem eu queria me despedir, então vou indo — disse Asahina.
— É, você tem razão. Podemos conversar com os calouros a qualquer hora, não é?
E, com isso, eles foram embora, aparentemente para falar com alguns alunos do terceiro ano além de Horikita Manabu.
— Ufa… é realmente cansativo conversar com alguém assim — disse Horikita.
— Afinal de contas, ele é o presidente do conselho estudantil — respondi.
Embora estivéssemos separados por apenas um ano, Nagumo parecia algum tipo de deus intocável.
— Estou indo. Já resolvi o que precisava — disse Horikita. Parecia que, no fim das contas, ela havia desistido de falar com o irmão ali.
— Tem certeza de que está tudo bem assim? É possível que ele vá embora já amanhã.
— Isso… olha, eu já sei disso sem você precisar dizer, é só que…
Diante de um dilema aparentemente intransponível, Horikita parecia estar recuando, já decidida a voltar para o dormitório. Eu não podia exatamente obrigá-la a ficar, então resolvi apenas observá-la ir embora.
— Você não vai voltar? — perguntou ela.
— Não. Vou ficar aqui mais um pouco — respondi.
— Entendo… então tudo bem.
Ela parecia um pouco curiosa sobre o que eu pretendia fazer, mas acabou se virando e seguindo de volta para o dormitório. Quanto a mim, decidi observar como Horikita Manabu e os outros alunos do terceiro ano estavam. Não havia nada particularmente interessante acontecendo.
Se fosse para dizer algo, era apenas que eu queria guardar aquela cena e gravá-la na memória. Tentei me imaginar naquele lugar dali a dois anos, mas ainda não conseguia visualizar isso claramente. A animação continuou por algum tempo, mas logo vi uma pessoa ir embora, seguida por outra. Eventualmente, a multidão começou a se dispersar, e todos passaram a seguir caminhos diferentes.
O irmão de Horikita provavelmente já havia terminado de se despedir. Ele me avistou e então se aproximou.
— Você ainda está aqui? — perguntou. Tenho certeza de que ele sabia tão bem quanto eu que eu me destacava ali. — Estava me esperando? — acrescentou.
— Algo assim.
Mesmo à distância, era óbvio que eu não estava conversando com nenhum dos outros alunos do terceiro ano.
— Achei que talvez essa fosse a última chance que eu teria de conversar com você. Quando você vai deixar a escola? — perguntei.
Mesmo sendo um pouco precipitado, resolvi fazer logo a pergunta mais importante. Se ele fosse partir imediatamente, eu precisaria avisar a irmã dele.
— Na tarde do dia trinta e um. Pretendo pegar o ônibus das doze e meia — respondeu. Ou seja, ele partiria daqui a uma semana. Não seria hoje, mas ainda assim seria em breve. — Parece que Suzune foi embora — acrescentou.
— Ela apenas gravou na memória a imagem dos seus três anos nesta escola e depois voltou para o dormitório.
Ambos lançamos um breve olhar na direção do prédio dos dormitórios. Naturalmente, a irmã de Horikita já não estava mais à vista.
— Entendo — disse ele.
Eu não consegui ler nenhuma emoção em seu rosto: nem alegria, nem raiva, nem tristeza. De qualquer forma, se as coisas continuassem assim e eles não combinassem nada, os dois não se encontrariam novamente antes de Horikita Manabu partir. Pelo menos, era isso que eu temia…
— Se não se importar, gostaria que você transmitisse uma mensagem para Suzune. Diga a ela que estarei esperando na entrada principal ao meio-dia do dia trinta e um — disse Horikita.
— Não seria melhor você mesmo dizer isso a ela? Se for atrás dela agora, ainda dá tempo de alcançá-la.
Se ele estivesse disposto a encontrá-la naquele momento, essa conversa poderia acontecer rapidamente. Horikita Suzune provavelmente viria correndo.
— É possível que ela não seja muito receptiva a isso. Quero que seja você quem diga.
— Isso pode acabar dando errado. Se eu disser, é possível que ela não venha.
Afinal, ela tinha um lado teimoso.
— Se isso acontecer, apenas significará que Suzune fez sua escolha — respondeu ele.
— Você realmente está bem com isso? — perguntei, só para ter certeza. Mas ele respondeu sem hesitar.
— Sim. Estou deixando isso em suas mãos.
Se eu não seria responsabilizado caso ela recusasse, não tinha motivo para negar o pedido. Além disso, eu tinha certeza de que a irmã dele viria correndo vê-lo quando eu transmitisse a mensagem. O gelo em seu coração já havia começado a derreter.
— Eu queria conversar um pouco mais com você, mas tenho alguns compromissos — acrescentou.
Parecia que ele havia recebido convites de vários kouhai. Imagino que, pelo menos hoje, ele quisesse esquecer a questão com a irmã e apenas viver como um estudante desta escola.
— E imagino que você também não queira uma conversa longa e sem sentido.
— Sim, você tem razão — respondi.
Mesmo que sua popularidade tivesse diminuído um pouco, o ex-presidente do conselho estudantil ainda se destacava bastante.
— Se não se importar, gostaria que você também viesse se despedir de mim no dia trinta e um — disse ele.
— Eu não sou muito bom em despedidas diante de uma grande multidão.
— Não precisa se preocupar. Não pretendo convidar ninguém além de você e Suzune para se despedir de mim naquele dia.
Nesse caso, achei que não haveria problema. Assenti levemente, concordando com o pedido.
— Desculpe pelo incômodo — disse Horikita.
E, com isso, ele foi embora. Ele era a única pessoa entre os formandos com quem eu queria conversar, então, como já tinha ido embora, meus assuntos ali estavam encerrados. Achei que também deveria voltar.
— Ei, Ayanokoji-kun, se não se importar, que tal voltarmos juntos?
Nesse momento, Hirata me chamou. Mesmo estando a certa distância, dava para perceber que ele havia acabado de terminar de conversar com vários alunos do terceiro ano.
— Já terminou? — perguntei.
— Sim. Mesmo sendo o dia da cerimônia de formatura, a maioria dos formandos ainda vai ficar aqui por alguns dias. E parece que algumas das pessoas com quem sou mais próximo vão fazer suas próprias festas de despedida — disse Hirata.
Considerando quem Hirata era, eu tinha certeza de que ele havia recebido convites para várias dessas festas. Imagino que alguns formandos ficariam na escola o máximo que pudessem, ou seja, até 5 de abril. Não faltava muito para isso.
Era seguro dizer que a maioria dos alunos estava tentando resolver tudo o que ainda precisava antes dessa data. Como eu não tinha motivo para recusar o convite de Hirata, decidi voltar para o dormitório com ele.
*
Quando passamos pela loja de conveniência, Hirata virou-se para olhar para mim. Em seguida, voltou a encarar para frente, como se nada tivesse acontecido. Ele repetiu isso várias vezes nos últimos minutos, como se estivesse tentando encontrar o momento certo para iniciar uma conversa comigo…
Por fim, Hirata abriu a boca para falar, como se finalmente tivesse tomado uma decisão.
— Para falar a verdade… tem algo sobre o qual eu queria conversar com você, Ayanokoji-kun — disse ele de forma vaga. Por um momento, pensei que ele fosse falar sobre o exame de fim de ano. Mas não parecia ser esse o caso.
— Alguma coisa te incomodando? — perguntei.
— Bem… sim. Acho que isso é algo que eu gostaria de discutir com você — respondeu Hirata, depois de pensar um pouco.
— Não tenho certeza se vou conseguir ajudar, mas pode me dizer qualquer coisa — falei.
Não era nada ruim ter Hirata contando comigo. Mas eu não fazia ideia do que ele pretendia perguntar. Eu sabia que ele ainda estava abatido por causa da expulsão de Yamauchi da escola, mas aquele assunto já estava resolvido.
Talvez ainda restassem alguns sentimentos dentro dele, queimando em silêncio, mas não eram algo que valesse a pena discutir. Ele já deveria ter lidado com aquilo — pelo menos o suficiente para conseguir seguir em frente por conta própria.
— Bem, isso pode te surpreender, mas… — disse Hirata, começando sua história dessa forma. — É que… eu… bem… não sei se estou pronto para um relacionamento amoroso agora.

Aquilo realmente foi inesperado. Nunca imaginei que chegaria o dia em que Hirata viria falar comigo sobre relacionamentos amorosos.
— Você não sabe? — perguntei. Por enquanto, achei melhor ouvir toda a história, então o incentivei a continuar.
— Acho que pode ser porque eu nunca gostei de uma garota desse jeito antes, mas… — disse Hirata, parecendo um pouco envergonhado.
— Você está dizendo que nunca saiu com uma garota antes?
— Tirando o acordo que tive com a Karuizawa-san, sim, é isso mesmo.
Talvez não fosse exatamente surpreendente… mas ainda assim era um pouco. Eu tinha pensado que Hirata, que tratava as pessoas igualmente independentemente do gênero, certamente já teria tido alguma experiência romântica. Embora, claro, o relacionamento dele com Kei não contasse. Afinal, ele apenas fingiu ser o namorado dela para impedir que ela sofresse bullying.
Ainda assim, dizer que nunca havia gostado de uma garota daquele jeito antes…
— Você está dizendo que não há ninguém que tenha chamado sua atenção, nem mesmo agora? — perguntei.
— Sim, é isso…
O fato de ele conseguir ver todas as garotas da mesma forma era, de certa maneira, uma vantagem. Mas, ao mesmo tempo, era algo um pouco estranho.
— Então e a Mii-chan? — perguntei.
Mii-chan estava muito interessada em começar um relacionamento com Hirata e claramente tinha sentimentos românticos por ele.
— Eu não consigo me imaginar sendo mais do que amigo dela. Mas também não consigo simplesmente dizer isso diretamente — respondeu ele.
Mii-chan havia dito que queria começar sendo apenas amiga. Naturalmente, ela esperava que, com o tempo, isso evoluísse até que se tornassem namorados. Mas, se Hirata não estava disposto a ir tão longe, não havia muito o que fazer. E, se ele evitasse deixar isso claro sem motivo e deixasse a situação se arrastar, isso também não seria bom para Mii-chan.
Então era disso que se tratava, hein? Era isso que ele queria conversar comigo. Aquilo que estava o preocupando.
— Eu sei que deveria dizer claramente a ela como me sinto. Mas é difícil — acrescentou.
Era difícil fazê-la entender sem machucá-la.
— Tenho certeza de que eu… definitivamente não estou fazendo sentido — disse Hirata.
— Eu entendo — respondi. Era justamente porque Hirata era uma pessoa bondosa que sempre acabava enfrentando dilemas tão dolorosos. — Mas é assim que você se sente agora, certo? Você não sabe como as coisas podem ser no futuro, certo?
Sentimentos românticos não eram algo que se pudesse controlar. Eles podiam surgir a qualquer momento, completamente de repente, como um interruptor sendo ligado.
…Provavelmente.
— Bem, sim, eu suponho. Se estivermos falando da possibilidade de algo acontecer no futuro, não posso dizer que seja impossível. Mas…
Isso provavelmente significava que Hirata simplesmente não conseguia imaginar seu relacionamento com Mii-chan indo além disso. Não parecia haver nada de particularmente errado com ela — seja em aparência ou personalidade. Claro, havia muitas coisas no amor que não podiam ser medidas apenas por esses aspectos.
— Mas acho que posso dizer… com quase absoluta certeza que não vou desenvolver esse tipo de sentimento por ela.
Embora Hirata não soubesse exatamente o que o futuro reservava, ainda assim parecia ter convicções fortes sobre o assunto, à sua maneira. Nesse caso, só havia uma coisa que eu podia dizer a ele.
— Você deveria deixar isso claro para a Mii-chan, sem rodeios. Afinal, já faz um tempo que ela espera que vocês dois se tornem mais do que apenas amigos — disse, olhando diretamente em seus olhos.
Se Hirata guardasse seus sentimentos para si, isso significaria apenas que faria Mii-chan esperar ainda mais. Sendo assim, o melhor seria contar a ela o quanto antes. Se, mesmo depois disso, Mii-chan continuasse tendo sentimentos por Hirata, bem… ela seria livre para senti-los.
Mas Hirata desviou o olhar de mim por um instante.
— Mesmo que isso a machuque? — perguntou.
— Vai machucá-la muito mais se você continuar adiando isso, mesmo já tendo sua resposta agora. Não acha? — respondi, novamente encarando-o nos olhos. Hirata voltou a fazer contato visual comigo, mas logo desviou o olhar outra vez, olhando para outro lado.
— S-Sim. Você está certo. Claro… — respondeu, assentindo várias vezes, como se estivesse se repreendendo. Então, parecia que ele havia chegado a uma conclusão.
— Ainda bem que conversei com você sobre isso, Ayanokoji-kun. Isso me deu coragem. Acho que, se você não estiver preparado para enfrentar a possibilidade de machucar a outra pessoa numa situação como essa, significa que está apenas fugindo — disse Hirata.
Parecia que, mais uma vez, ele havia conseguido encontrar sua resposta.
— Então, você já consegue falar com ela agora? — perguntei.
— Não sei se é a maneira correta ou não, mas sei qual das opções machucaria mais — disse Hirata, como se tivesse pesado cuidadosamente as alternativas. Ele ficou em silêncio, mas eu podia imaginar o que estava pensando.
Quando Hirata percebeu que a segunda opção seria melhor para o bem de Mii-chan, sua hesitação desapareceu. No passado, ele provavelmente continuaria se atormentando com isso por muito mais tempo.
Seus pensamentos e emoções teriam se perdido em um labirinto enquanto ele continuaria procurando, sem parar, por uma solução que permitisse resolver tudo sem ferir a outra pessoa.
Algum tempo depois que seu problema foi resolvido, Hirata parecia ainda querer dizer mais alguma coisa.
— O que foi? — perguntei.
— Ah, hum… bem… é que eu estava pensando… Será que posso começar a te chamar de Kiyotaka-kun a partir de agora?
— Hã?
Eu estava curioso sobre o que ele diria, mas aquilo veio completamente do nada.
— E… se você quiser, também pode me chamar pelo meu primeiro nome… — acrescentou.
Seria seguro dizer que isso significava que nossa amizade havia dado um passo à frente?
Acho que era parecido com a forma como meu relacionamento com Keisei, Akito, Haruka e Airi também havia se aprofundado no passado.
— Se você não se importar, então claro — respondi.
Quando disse isso, um enorme sorriso apareceu no rosto dele, tão cheio de felicidade que parecia genuinamente radiante.
— Sério? Você quer dizer isso mesmo?
— Quer dizer, estamos apenas falando de usar o primeiro nome, certo? Tenho certeza de que isso não é algo incomum para você, não é, Hirata? Ah, quer dizer… Yousuke.
Embora eu tivesse a impressão de que Hirata normalmente chamava as pessoas pelo sobrenome, independentemente do gênero, provavelmente havia algumas pessoas com quem ele usava o primeiro nome.
— Bem, eu acho que não era algo tão incomum… até aquele incidente — respondeu.
Ele estava se referindo ao que havia acontecido quando estava no ensino fundamental II: quando seu melhor amigo sofreu bullying e acabou tentando suicídio.
— Desde então… eu fiquei com medo de me aproximar das pessoas. Em vez de tentar formar relações verdadeiras e encontrar alguém realmente especial para mim, passei a tratar todo mundo da mesma forma — disse Hirata.
Já fazia cerca de dois anos desde então. Pelo visto, durante todo esse tempo ele só havia se referido às pessoas pelo sobrenome. Pensando bem, ele realmente tratava todos os alunos exatamente da mesma maneira, não importava quem fossem.
Até mesmo Yamauchi, que havia sido expulso da nossa turma por unanimidade. Parecia que Hirata estava finalmente saindo de sua concha. E, desta vez, estava fazendo isso por conta própria. Seu crescimento era bastante significativo — até mesmo comparado ao quanto muitos outros alunos haviam amadurecido ao longo do último ano.
— Então, sou especialmente grato a você… Kiyotaka-kun.
Ele voltou a olhar para mim, depois de ter evitado meu olhar por tanto tempo. Pelo brilho em seus olhos, parecia que ele estava tentando me transmitir algo.
— Isso me deixa meio constrangido — disse. — Você sendo tão grato a mim e tudo mais.
Isso me deixou um pouco desconfortável. Mas, mesmo assim, reconheci e aceitei seus sentimentos.
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