Ano 1 - Volume 11.5
Epílogo: A Juventude Começa a se Mover
UM GRANDE número de coisas havia acontecido ao meu redor apenas durante as férias de primavera. Houve o incidente com Matsushita, e antes disso, os envolvendo Horikita e Ichinose. Houve também o estabelecimento de uma relação de cooperação entre o diretor Sakayanagi, Chabashira-sensei e o Mashima-sensei. E, por fim, houve o meu acordo com Tsukishiro.
Provavelmente, eu deveria ser mais cauteloso com Tsukishiro do que com qualquer outro. Diferente dos outros problemas, a situação envolvendo ele só pioraria se fosse ignorada. Antes que eu percebesse, poderia acabar sendo informado de que seria expulso da escola. Era exatamente por isso que eu precisava me coordenar com os professores para tentar lidar com essa situação.
Quanto ao que Tsukishiro disse sobre enviar um aluno da Sala Branca, não era algo definitivo, mas era plausível. Não havia como ele circular livremente pelas salas de aula e corredores a qualquer hora do dia. Ele só poderia me atacar de forma indireta, como através das provas.
Mas, se eu estivesse lidando com um estudante, seria uma história completamente diferente. Um aluno poderia circular livremente pelas salas e corredores. Poderia até se aproximar de mim e fazer contato a qualquer momento, aumentando as chances de me expulsar. Também seria uma estratégia eficaz em termos de coleta de informações. Se tudo isso realmente acontecesse, seria a maior mudança que já ocorrera ao meu redor até então.
E então havia Horikita e Matsushita. Problemas internos da turma, por assim dizer, ambas desconfiando das minhas verdadeiras habilidades e querendo conhecer meu potencial completo. Eu havia prometido a Horikita que teríamos uma pequena competição, mas provavelmente não havia mais nada que eu precisasse fazer por enquanto.
Quanto a Ichinose, isso poderia esperar um pouco. Depois de observar as batalhas que estavam por vir, tudo o que restava era, de forma casual e indiferente, fazer o que precisava ser feito. No entanto, isso se aplicava apenas às coisas que estavam acontecendo ao meu redor. Quanto às mudanças internas… bem, essas ainda eram muito sutis.
Pelo menos… isso era verdade até hoje.
Restavam apenas dois dias para o fim das férias de primavera: terça e quarta-feira. Nesses dias, enquanto os alunos aproveitavam o descanso final antes das novas batalhas que estavam por vir, eu estava determinado a fazer uma grande mudança e tomar alguma atitude. Se eu fosse dar início a algo, este era o momento.
Já passava das seis horas, quando o sol começava a se pôr e a noite começava a cair. Havia uma pergunta que eu gostaria de fazer a muitas pessoas, se possível. Digamos, hipoteticamente, que houvesse alguém do sexo oposto de quem você gostasse. Como você avançaria e abriria caminho até o ponto de confessar seus sentimentos românticos?
Suponho que, se você fosse um homem ou uma mulher excepcionalmente bonito, poderia simplesmente confessar seus sentimentos sem precisar dar voltas ou prolongar as coisas. Se dissesse que gostava da pessoa, e ela dissesse que gostava de você também, tudo terminaria em um final feliz. Mas a maioria das pessoas não era tão abençoada assim. As pessoas tinham inseguranças quanto ao rosto, à personalidade, ao corpo. Complicações como triângulos amorosos poderiam surgir como obstáculos no caminho até se declarar. No fim das contas, era claro que confessar seus sentimentos a alguém — o portal para o amor romântico — definitivamente não era uma tarefa fácil.
Era exatamente por isso que eu estava refletindo tão seriamente sobre isso, deixando meus pensamentos fluírem. Pensei profundamente, quebrando a cabeça para calcular as chances de sucesso de tal tentativa. Dez por cento? Vinte por cento? Ou seria cinquenta por cento? Dependendo das circunstâncias, talvez as chances pudessem chegar a oitenta, noventa ou até quase cem por cento.
Ainda assim, haveria insegurança. As pessoas temeriam que, se falhassem, seriam rejeitadas ao revelar seus sentimentos. Que a relação que tinham com a outra pessoa mudaria drasticamente. Talvez houvesse algumas pessoas otimistas capazes de ignorar isso, mas, para estudantes do ensino médio, a escola era o nosso mundo — e esse mundo era tudo. A possibilidade de que os relacionamentos construídos dentro dele pudessem desmoronar era assustadora.
E assim, as pessoas levavam esse tipo de coisa muito a sério. Pensavam no que poderiam fazer para aumentar suas chances de sucesso, mesmo que fosse apenas um por cento, e começavam a agir em direção a isso. Poderiam mudar o penteado para agradar a pessoa de quem gostavam, dentro do possível, ou se vestir melhor. Poderiam estudar mais, se exercitar, ou tentar conquistar o coração da pessoa pelo estômago — cozinhando ou saindo para comer juntos. Poderiam até dar presentes.
Usariam todos os recursos possíveis para melhorar suas chances. Às vezes, isso poderia fazer as chances saltarem de um por cento para noventa e nove por cento. Mas um único fracasso também poderia fazer essas chances despencarem de noventa e nove para um por cento. As pessoas tentariam desesperadamente ler a outra pessoa, para entender o que ela estava sentindo.
Era assim o processo de dizer a alguém que você tinha interesse romântico por ela. E eu… passei por esse processo da mesma forma. Pensei e me preocupei, como qualquer outra pessoa.
Mas esses sentimentos não se limitavam ao amor romântico. Falando de forma mais ampla, existiam probabilidades invisíveis em tudo, e elas podiam variar dependendo do que acontecia no dia a dia — assim como estudar podia aumentar suas chances de ser aceito no ensino médio ou na faculdade.
Além disso, simplesmente estar ciente de tudo isso podia mudar bastante a forma como você enxergava a situação. E não se limitava a vestibulares ou romance. Mesmo que você tivesse sucesso nessas coisas, não significava que era o fim. Se algo, era apenas o começo de muitas outras coisas. Se você falhasse na tentativa de seguir para o ensino superior, isso poderia levá-lo a abandonar a escola ou até ser expulso. Da mesma forma, sua vida amorosa poderia desmoronar por causa de traição ou violência.
Eu imaginei como o futuro seria. Daqui a um mês. Daqui a seis meses. Daqui a um ano. Às vezes os planos mudam, mas eu não gostava muito de agir por impulso. Isso era ainda mais verdadeiro quando se tratava de ações iniciadas por mim mesmo.
Agora, voltando um pouco. Tudo o que fiz até hoje foi para influenciar uma certa probabilidade. Em outras palavras — aumentar as chances de sucesso. Se eu encontraria sucesso ou fracasso seria revelado hoje. Se minha leitura da situação estivesse correta, eu deveria receber uma resposta a qualquer momento.
O telefone que eu já segurava na mão começou a tocar. Na tela, apareceu um número de onze dígitos, sem identificação. O número não estava salvo, mas pertencia a Karuizawa Kei.
— Sou eu. Desculpa por incomodar você mais cedo — disse, atendendo depois de alguns toques.
Eu havia ligado para Kei cerca de trinta minutos antes, mas ela não atendeu. Agora, estava retornando a ligação.
— Tudo bem. O que foi? — ela perguntou.
— Você parece irritada.
— Não exatamente. Acho que, mais do que irritada… eu só quero confirmar uma coisa com você.
— Sobre quando eu te chamei mais cedo e depois não liguei de novo?
No dia em que me encontrei com Hiyori, eu tinha chamado Kei para sair. Mas, no fim, não contei nada do que havíamos conversado. Só disse que poderia ligar depois, se me lembrasse. E nem sequer tentei falar com ela de novo até quase o fim das férias de primavera.
— Então você já sabe, né? O quê, tá tentando me irritar? — ela disse.
— Que tal a gente conversar pessoalmente? — interrompi.
— Hã?
— Sobre o que eu disse. Que te contaria se lembrasse. Eu lembrei. Pode vir agora?
— Ah, fala sério… Você faz tudo no seu tempo e do jeito que te convém demais, sabia? Mas tudo bem. Só que, olha… se alguém acabar me vendo indo pro seu quarto a essa hora, você não vai se importar com o que pode acontecer? — disse Kei.
Havia muitos alunos entrando e saindo dos dormitórios naquele horário do dia. As chances de Kei ser vista indo até o meu quarto eram altas.
— Não se preocupe com isso — respondi, incentivando-a a vir.
— Tá bom. Ah, mas eu tenho planos às sete, então não posso demorar muito.
— Vou ser rápido. Uns dez ou vinte minutos, no máximo.
— Nesse caso, tudo bem. Até já — disse Kei, antes de desligar.
Agora então… vamos começar, certo? Todos os preparativos já estavam feitos. Olhei ao redor do meu quarto, que estava ainda mais arrumado do que o normal. Lancei um breve olhar para o espelho, encarando meu reflexo com uma expressão séria. Em seguida, desviei o olhar rapidamente.
*
Kei estava sentada no meu quarto, com uma expressão claramente descontente e emburrada. Pelo fato de estar bem arrumada, parecia mesmo que ela tinha planos para sair mais tarde.
— Então? O que foi? — disse Kei, me lançando um olhar irritado quando percebeu que eu não dizia nada. Eu suponho que não podia simplesmente chamá-la até aqui e ficar em silêncio.
— Como assim, "o que foi"? — perguntei.
— Como assim, "como assim"? Você me chamou aqui porque queria conversar, não foi? — disse Kei.
— Ah, é mesmo… agora que você falou.
………
………
A irritação nos olhos de Kei ficou ainda mais evidente à medida que eu continuava sendo evasivo.
— Anda logo, o que é? — resmungou ela.
— Calma, não precisa ter tanta pressa.
— Já te falei, eu tenho planos. Vou jantar com minhas amigas às sete no Keyaki Mall, entendeu?
— Ainda temos bastante tempo. Fica tranquila.
— Tá, isso já tá me dando uma sensação ruim. Parece que você tá falando um monte de coisa sem sentido.
Kei começou a desconfiar, já que eu estava agindo de forma diferente do normal. Como eu não dizia nada, ela decidiu reclamar:
— Ah, isso me lembra. Eu preciso te dizer que não tô nada satisfeita com você.
— Tem algo que você quer me dizer?
Para ser sincero, eu realmente não fazia ideia do que Kei queria falar, então perguntei diretamente.
— A Satou-san tá desconfiada. Sobre a nossa relação — disse Kei.
Satou. Uma colega de classe com quem eu não interagia muito ultimamente, mas que já havia demonstrado interesse por mim.
— Achei que ela fosse me odiar depois que eu rejeitei ela. Que tipo de desconfiança?
— Ela acha que eu terminei com o Hirata-kun pra começar a sair com você. Tentou confirmar isso de um jeito meio indireto.
Ou seja, Satou evitou dizer isso diretamente, mas falou algo ambíguo que podia ser interpretado dessa forma.
— Eu neguei, claro. Mas não sei até que ponto ela acreditou — disse Kei.
— Entendo. Eu também tenho algo parecido.
— Hã? Como assim "algo parecido"?
— Matsushita. Ela também tá desconfiada da nossa relação. Tipo… se a gente tá namorando.
Quando contei para Kei sobre a conversa que tive com Matsushita outro dia, o rosto dela ficou pálido na hora.
— Hã? HÃ? Tá brincando, né? Ou… não, você tá falando sério? Não é piada?
Assenti, mostrando que não era brincadeira. Continuei explicando o que havia acontecido. Falei que Matsushita era o tipo de pessoa que escondia suas verdadeiras habilidades, assim como eu, e que, graças ao seu poder de observação, ela tinha dúvidas sobre minha relação com Kei. E que também suspeitava das minhas próprias capacidades. Coisas desse tipo.
— E-Espera, calma aí. Eu não tô conseguindo processar tudo isso.
Ela levou a mão à testa, como se estivesse com dor de cabeça.
— Tá, eu sinto que isso tá ficando muito, muito ruim, mas… o que você acha?
Kei, já entendendo a situação, me perguntou o que eu pensava. Não — ela estava pedindo um plano de ação. Isso tinha relação direta com o motivo de eu tê-la chamado até aqui, então decidi responder de forma direta.
— Que tal a gente simplesmente deixar isso pra lá? Não se preocupar com isso?
— Nem pensar! A gente não pode fazer isso! Além disso, a nossa relação… não tem nada acontecendo entre a gente! — retrucou Kei.
— Quer dizer que você não gosta que pensem que tem algo entre a gente quando na verdade não tem? Nesse caso, mesmo que a Matsushita saia espalhando rumores, não seria melhor deixar ela falar o que quiser?
— O quê? Deixar ela falar o que quiser…? A gente não pode simplesmente ignorar isso! Vai falar com a Matsushita-san agora. Diz pra ela que não tem nada entre a gente — disse Kei.
— Mesmo que eu inventasse uma desculpa dessas, só teria o efeito contrário.
— Você já sabia disso desde o começo, né? Então por que deu uma desculpa tão meia-boca pra ela? — disse Kei.
— Não importa o que eu diga, a situação não vai mudar. A Satou suspeita que você e eu temos algum tipo de relação, certo? E, se a Matsushita é próxima dela, mais cedo ou mais tarde ela vai ouvir da Satou que tem algo estranho acontecendo entre nós. Na verdade, há uma boa chance de ela já ter ouvido algo e agido com base nisso.
Eu precisava considerar a possibilidade de que Matsushita tivesse vindo falar comigo depois de buscar a opinião de outras pessoas ao seu redor.
— Entendo. Acho que isso pode ser verdade, mas…
Depois que isso aconteceu, entrar em contato com Kei era inevitável. Mesmo que eu negasse tudo com veemência, isso só confirmaria as suspeitas delas. Se descobrissem que eu estava mentindo, poderiam espalhar isso para todo mundo. Se fosse esse o caso, o melhor seria trazê-las para o nosso lado o mais rápido possível.
Mas aparentemente não era isso que preocupava Kei.
— Mas, assim… é que, na remota chance de o pessoal da classe começar a dizer que eu terminei com o Hirata-kun pra, tipo… começar a namorar você… e isso se espalhar pela escola, seria um problema — disse Kei.
— Por que seria um problema? — perguntei.
— Ah, você sabe… é que… se isso se espalhar, vai ter certos… efeitos no meu futuro.
Ela continuou insistindo, claramente insatisfeita.
— Entendeu? Seja você homem ou mulher, se começarem a comentar ou a dar sinais de que você tem algo com alguém do sexo oposto, menos pessoas vão se aproximar de você.
Kei apontou o dedo indicador para mim, como se quisesse confirmar que eu estava entendendo.
— Quer dizer que eu estou atrapalhando você de encontrar um novo amor? — perguntei.
— Sim, é isso mesmo — respondeu ela.
Do ponto de vista de um terceiro, eu conseguia entender perfeitamente o que ela queria dizer. Pessoas que soubessem que o Sudou gostava da Horikita teriam menos tendência a se aproximar dela.
Era basicamente isso que ela estava dizendo.
— Você entendeu mesmo? Ei, espera, você tá ouvindo? — Kei deve ter achado que eu não tinha entendido, porque continuou falando. — Você… você é bem próximo daquela garota, a Shiina, né?
— Shiina? Ah, você quer dizer a Hiyori?
— Hiyo… — respondeu ela, hesitando.
Hiyori era uma das pessoas que eu chamava pelo primeiro nome. Claro, essa lista incluía também a própria Kei, além de pessoas como Haruka e Airi — e eu tinha certeza de que Kei já sabia disso. Mas parecia que ela não havia considerado as pessoas com quem eu era próximo em outras turmas.
— Sim, acho que somos bem próximos. Temos um hobby em comum: ambos gostamos de ler. Por quê? — perguntei.
Quando disse isso, a expressão de Kei mudou.
— Hm… o mesmo hobby. Gostar de ler… hm… Isso é completamente diferente de mim — disse Kei.
Claro, Kei e Hiyori eram tipos de pessoas completamente diferentes. Ela já deveria saber disso.
— E daí? — perguntei.
— Bom, é que… Ah, esquece! Já nem lembro o que eu ia dizer!
Kei, irritada, cruzou os braços e desviou o olhar. Pouco depois, pareceu se acalmar e abriu a boca novamente, aparentemente lembrando do que queria dizer.
— Bom, se começarem a dizer que você tem algo comigo, então… isso dificultaria pra você se aproximar da Shiina-san, não é? — disse Kei.
— Entendo. Acho que você pode estar certa quanto a isso.
Ao responder assim, reconhecendo a lógica da situação, Kei se levantou.
— Enfim, tanto faz. Você é livre para se aproximar de quem quiser — disse ela, virando-se de costas para mim. — Desculpa, mas… podemos falar disso outra hora? Quero chegar um pouco mais cedo no Keyaki Mall. Pode ser que tenham caras de outras turmas lá também, então preciso estar bem preparada para desfazer qualquer rumor. Não tenho tempo pra ficar me preocupando com você.
— "Preparada"? — perguntei.
— Já que terminei com o Hirata-kun, estou procurando um novo namorado. Isso é errado?
— Não, não é.
— Então, entendeu? Nesse caso, eu vou indo….
Parecia que eu tinha exagerado um pouco na provocação. Eu também me levantei, ao mesmo tempo que ela. Kei provavelmente pensou que eu ia acompanhá-la até a porta.
— Não precisa, eu me viro — disse ela, recusando de forma direta.
Chamei seu nome:
— Kei.
— O quê? O que foi? — resmungou ela.
— Se você não gosta disso, então simplesmente ignore. É só isso — respondi.
— Hã? — disse ela, exasperada. Agora, ela parecia bastante cautelosa, como se estivesse desconfiada do que eu diria a seguir.
— Quer sair comigo? — perguntei.
— Hã?
Kei franziu a testa, sem entender o que eu quis dizer.
— O quê? Tipo, espera… sair pra onde?
Pelo visto, ela interpretou minhas palavras como se eu quisesse que ela me acompanhasse a algum lugar.
— Não foi isso que eu quis dizer. Estou perguntando se você quer sair comigo… no sentido de namorar.
— E-Espera… eu não tô entendendo… o que você… quer dizer… — gaguejou Kei.
Provavelmente já não havia mais necessidade de palavras, pelo jeito como eu encarava os olhos dela. Kei percebeu meu olhar e correspondeu. Mesmo em uma relação instável, quando duas pessoas se olham assim, conseguem transmitir seus sentimentos até certo ponto.
— Q-Quê…? Hã…? Q-Quê?! Q-Que tipo de brincadeira é essa? Isso é totalmente problemático…?! — gritou Kei.
— Não é brincadeira.
— M-Mas! Agora mesmo você tava dando a entender que tinha algo com a Shiina-san! — exclamou ela.
— Aquilo foi uma brincadeira.
— Mas… esses últimos dias…
— Aquilo foi… bem… eu só estava tentando ver se conseguia te deixar um pouco com ciúmes, Kei.
Na verdade, nem havia necessidade de eu ter chamado Kei até o café para que ela me visse conversando com Hiyori. Aquilo foi apenas uma forma de mostrar minha ideia meio desajeitada e inexperiente de romance.
— S-Se você estiver mentindo sobre isso, a gente acabou de vez… entendeu? Então, se você quiser voltar atrás nessa confissão falsa, essa é sua última chance… você entende mesmo isso? — disse ela.
Kei era uma pessoa extremamente desconfiada, e essa não era uma situação em que ela pudesse simplesmente responder "sim" ou "não".
— Não é brincadeira nenhuma. Quero ouvir a sua resposta — respondi.
— M-Mas… c-como eu vou…?
— Já te disse. Se você não gostar, pode simplesmente ignorar. Ou me rejeitar. Como quiser — falei.
— Ninguém falou em ignorar nada! M-Mas mais importante… por quê?!
— Como assim, "por quê"?
— É que… eu… você sabe… e tal… quer dizer, por que me perguntar isso hoje, logo hoje…?
A primeira parte do que ela disse não foi muito clara, então respondi apenas à segunda.
— Por que hoje, é? Bom, não sei explicar exatamente por que hoje… mas posso dizer por que quis fazer isso agora. É porque eu não queria que você se tornasse namorada de outra pessoa.
— Quer dizer… você… gosta… de mim? — perguntou Kei.
A pergunta que Kei acabou de me fazer carregava uma profundidade emocional que eu nunca havia sentido antes. Naquele momento — ou melhor, pouco antes dele — meu coração tremeu. Senti que podia responder com certeza.
— Isso mesmo. Eu gosto de você, Karuizawa Kei.
Dizer a alguém que você tem sentimentos por ela deveria ser um dos momentos mais importantes da vida. O instante em que você expõe o seu coração. Eu me perguntei se realmente consegui dar a Kei uma resposta que viesse do fundo do meu coração. Normalmente, declarar seus sentimentos nasce simplesmente do fato de você amar alguém — é um ato de conquista, guiado pelo desejo de fazer aquela pessoa sua.
— Então, qual é a sua resposta? — perguntei.
Agora a decisão estava nas mãos de Kei. Restava apenas esperar pela resposta dela. Kei fazia o máximo possível para organizar o caos de pensamentos em sua mente. Sem perceber, desviou o olhar e então tentou desesperadamente encará-lo novamente.
— E-Eu… aceito sair com você.
— Então posso entender que você gosta de mim também?
— V-Você quer que eu diga isso?! — exclamou ela.
Eu entendia que ela estava completamente sem jeito, mas essa confirmação era uma parte do processo que não podia ser ignorada. Era ao receber a resposta dela que, pela primeira vez, haveria uma mudança definitiva na nossa relação.
— Sim, quero que você diga.
Eu a incentivei a falar. Kei, embora surpresa, não recusou diretamente meu pedido.
— É que…
Não havia nenhuma terceira pessoa ouvindo. Nem qualquer tipo de contrato sendo assinado ou carimbado. Apenas nós dois sabíamos. Apenas nós dois estávamos tendo aquela conversa. Uma promessa que só nós dois guardaríamos.
— Você não consegue responder? — perguntei.
Se ela não pudesse me dar uma resposta, eu teria que propor o que deveríamos fazer a partir dali.
— E-Espera, calma! E-Eu tô tentando organizar meus sentimentos agora, então…!
De repente, ela estendeu as duas mãos à frente, como se estivesse me pedindo para não apressá-la. Decidi esperar, observando em silêncio enquanto ela tomava seu tempo. Então, menos de um minuto depois, Kei me encarou — e eu pude ver a determinação em seus olhos.
— Tá, então? Ah, como eu digo isso…?
Mesmo tendo se decidido, parecia que ela ainda lutava para encontrar as palavras certas. Talvez porque vê-la assim fosse estranhamente adorável, eu não me importei em esperar.
— Então, você… quer dizer, eu…
Apesar de estar reunindo coragem — muita coragem —, ela não desviou o olhar em nenhum momento. Talvez aquilo fosse a prova da determinação firme de Kei. A força de vontade de Karuizawa Kei. A convicção de seguir em frente com uma decisão, não importando as circunstâncias.
— E-Eu gosto… é… quer dizer… acho que eu devia dizer…
Sua voz foi ficando cada vez mais baixa, até virar um sussurro, mas ela continuou, murmurando seus sentimentos enquanto avançava.
— Eu… passei a gostar… de você também… É irritante, mas… Tá, e-eu admito! Admito que gosto de você!
Eu não sabia por que ela estava brava. Mas, de qualquer forma, Kei havia colocado sua resposta em palavras. Era recíproco. Ela também gostava de mim. Estendi a mão e segurei suavemente os braços de Kei.
— E-Espera, espera?! N-Não vai me dizer que você quer começar a me beijar ou algo assim?! — exclamou ela.
A reação dela foi ainda mais intensa do que quando eu disse que gostava dela. Mesmo que eu tentasse beijá-la agora, não achei que ela fosse realmente se opor. Mas eu não iria tão longe.
— Não. Ainda não.
— A-Ainda não…
Ao dizer isso dessa forma, deixei implícito que era algo que poderíamos considerar no futuro. Quando Kei imaginou isso, seu corpo enrijeceu, como se tivesse congelado. Eu a puxei para um abraço suave. Aquilo era a prova de que nossa relação havia dado um grande passo à frente.
— Só isso já tá bom, não acha? — perguntei.
— Bom, isso… acho que tá…
Mesmo sem conseguir ver seu rosto, eu entendia. Naquele momento, Kei provavelmente estava confusa, nervosa e feliz. Eu tinha certeza de que a expressão dela agora era uma mistura de sorriso com algo indescritível.
— Ei… você não cresceu um pouco? — perguntou ela.
— Talvez — respondi.
Quando fui medido antes de começar a estudar aqui, eu tinha cento e setenta e seis centímetros. Não seria estranho ter crescido ao longo desse ano. Provavelmente os outros alunos também cresceram.
As pessoas são seres que crescem e se desenvolvem. E também são seres que gostam de aprender. Isso é instinto. Assim como aprender a andar de bicicleta ou a nadar. Assim como aprender a usar hashis ou a beber com um canudo.
Eu estava aprendendo a amar, através de Kei — algo que nunca havia aprendido até então. Algo que não pude aprender na Sala Branca. Minha curiosidade me impulsionava. Além disso, havia outro motivo importante para eu escolher Kei para isso. Era porque esse relacionamento era necessário para que Karuizawa Kei crescesse como pessoa.
Pensando no próximo ano, a relação dela comigo seria extremamente importante. Se Kei continuasse vivendo como um parasita, precisando se apegar a alguém para sobreviver, ela acabaria desmoronando. Esse passo era essencial para impedir que isso acontecesse.
Eu…
Que tipo de expressão eu estava fazendo agora? Estava sorrindo? Ou talvez estivesse envergonhado? Talvez estivesse nervoso… ou com um sorriso bobo no rosto? Eu não sabia. Não sabia que expressão eu tinha naquele momento.
…Não.
Isso não está certo. Eu sabia, sim, qual era a expressão no meu rosto agora. Eu sabia o que estava pensando e o que estava tentando fazer. As pessoas sentem alegria ao aprender. Seja estudando, se exercitando ou até jogando. Você sente prazer ao perceber que melhorou.
Com o amor, era a mesma coisa.
Eu não sabia nada sobre amor. Nem sobre amor romântico, nem sobre amor familiar ou amizade. Não sabia nada sobre as relações entre homens e mulheres. Sobre a timidez e a felicidade que existem nesses relacionamentos — eu não sabia absolutamente nada sobre isso.
Eu tinha certeza de que encontraria respostas para cada uma dessas coisas em um futuro próximo. Mas provavelmente nada mudaria por causa disso. Eu estava apenas aprendendo, só isso. Eu iria crescer e seguir em frente.
De certa forma, eu poderia dizer que Kei era como um livro didático sobre o sexo oposto para mim. Quando eu terminasse de "lê-lo", aquele livro teria cumprido seu propósito.
Ou talvez…
Talvez existisse um futuro diferente disso? Será que eu me tornaria alguém insubstituível para ela, alguém que nunca deixaria seu lado? Eu não sabia. Havia uma parte de mim que desejava que isso acontecesse. E outra parte que entendia que isso era impossível.
Por favor… eu rezei.
Naquele momento, enquanto sorria feliz ao abraçar alguém precioso para mim, fiz uma oração silenciosa. Enquanto envolvia Kei suavemente em meus braços, desejei, em silêncio, me tornar alguém que pudesse prometer cuidar dela.

Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios