A Classe de Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 10

Capítulo 6: As Ideias das Outras Turmas

À PRIMEIRA VISTA, a Classe D parecia não ter mudado em nada durante todo esse exame. Isso porque cerca de noventa por cento da turma já compartilhava da mesma opinião desde o anúncio do exame especial suplementar — e isso não havia mudado nem na sexta-feira, véspera da prova.

Ryuen Kakeru seria expulso.

Muitos alunos da Classe D haviam tomado essa decisão sem sequer precisar discutir ou conspirar. Ryuen havia sido um ditador, e por mais que tentassem amenizar isso, sua liderança não trouxera bons resultados. Pelo contrário — eles haviam sido rebaixados da Classe C e agora ocupavam o último lugar.

Mais importante ainda, muitos alunos haviam sofrido com a violência e a intimidação de seu governo. Ele se aproveitava dos mais fracos, criando um ambiente em que ninguém podia contestá-lo. Era a raiz de todos os problemas. Muitos acreditavam que, se Ryuen não estivesse por perto, ao menos não teriam sido rebaixados à Classe D — mesmo que também não conseguissem subir à Classe B.

Quando chegaram ao terceiro dia do período do exame especial, muitos alunos da Classe D já haviam decidido escrever o nome de Ryuen em um de seus votos de crítica. Os outros dois votos deveriam ser dispersos para não se concentrarem em uma única pessoa. Essa era a única forma de garantir sua expulsão.

Ishizaki não queria que Ryuen fosse expulso. Mas a situação se complicava pelo fato de que seus colegas o viam como um salvador — aquele que supostamente havia derrubado Ryuen de seu pedestal. Isso o colocava no papel de líder da turma, forçado a reunir votos de crítica contra ele.

Ryuen compreendeu tanto a situação de Ishizaki quanto a posição que sua classe tomaria assim que ouviu as regras do exame. E decidiu não resistir à própria expulsão.

Foi justamente por isso que pretendia aproveitar o pouco tempo que lhe restava até o fim do exame especial. Também precisava pensar para onde iria e o que faria depois de deixar a escola. Não havia nada mais inútil para ele naquele momento do que ficar sentado na sala de aula, então Ryuen saiu assim que a aula terminou.

Ibuki o observou partir, pensando em silêncio no que faria para passar o tempo depois das aulas. Ryuen costumava convidá-la para acompanhá-lo, mas ultimamente não vinha fazendo isso.

Então, alguém surgiu diante dela.

— Nossa, você parece tão triste. O quê? Odeia tanto assim a ideia de o Ryuen ser expulso?

— Suspiro… Você de novo? Gosta tanto assim de me provocar? — respondeu Ibuki.

— Nem tanto. Só estou falando com você porque estou preocupada. Desde que o Ryuen-kun se afastou, parece que você está cada vez mais apagada na sala, sabia?

Quem a provocava era sua colega de classe, Manabe Shiho — a garota que as outras seguiam. Desde que entraram na escola, ela e Ibuki nunca se deram bem. Já haviam se enfrentado várias vezes, mas como Ibuki tinha o apoio de Ryuen, Manabe não podia reclamar abertamente.

Isso devia tê-la irritado profundamente. E agora, ao provocá-la, estava finalmente liberando toda a raiva que guardara.

— Você vai usar um voto de crítica em mim, não é, Ibuki-san? — perguntou Manabe.

— Sei lá.

— Vá em frente. Eu vou votar em você. Assim fica justo.

— É mesmo?

A resposta desinteressada de Ibuki irritou Manabe, que queria vê-la mais abalada.

— Não está aliviada por não ser você a ser expulsa, Ibuki-san? Mesmo que alguns votem a favor do Ryuen, parece que ele ainda vai receber trinta votos de crítica ou mais.

Manabe podia estar se sentindo confiante na ausência de Ryuen, mas não era a única. O exame começaria no dia seguinte — e, depois disso, não haveria mais nada que pudessem fazer.

Ishizaki levantou-se.

— Ei, Ibuki. Vem comigo um minuto — disse, aproximando-se das duas, que trocavam olhares hostis.

— Tá, tanto faz.

Mesmo abatida, Ibuki aceitou e saiu com ele. Qualquer coisa era melhor do que continuar ali com Manabe.

— Pode continuar bancando a durona. Mas quando o Ryuen-kun for expulso, você é a próxima — disse Manabe ao se despedir, insinuando que Ibuki também era um problema para a classe.

— Então, pra onde vamos? — perguntou Ibuki, já no corredor.

— Pra lugar nenhum. Só queria conversar… sobre os pontos privados do Ryuen-san. O que vai acontecer com eles?

— Como assim? Ele ainda tem os pontos.

— Você ainda não pegou? O exame é amanhã. Se ele for expulso, tudo vai sumir.

— E quem foi que disse antes que não íamos pegar esses pontos?

— Bem… naquela hora eu não estava pensando muito nisso…

— Se quer tanto esses pontos, por que não vai implorar pra ele pessoalmente?

— Não posso fazer isso.

Ibuki já sabia disso — por isso fora cruel.

— Pra turma, você é o cara que derrotou o Ryuen. Se te virem falando com ele, vão desconfiar. E podem achar que você está traindo todo mundo.

Era exatamente o que Ishizaki queria, considerando seu desejo de impedir a expulsão de Ryuen. Mas, se fizesse isso, correria o risco de ser expulso na próxima vez. Pior ainda, a verdade — de que ele apenas fingira ter derrubado Ryuen — viria à tona.

Queria salvar Ryuen, mas também queria salvar a si mesmo. Estava preso entre esses dois desejos.

— Eu… Droga! O que eu faço…?

— O melhor é o Ryuen ser expulso. Você sabe disso também, não sabe? — disse Ibuki.

— Isso é mesmo o melhor? Você acha que podemos vencer no futuro sem o Ryuen-san?

— Ele nos fez colocá-lo num pedestal, mesmo sem trazer resultados. E o comportamento dele era totalmente incompreensível. Sinceramente, o futuro também não parecia promissor com ele por perto.

— É arriscado mantê-lo, sim. Mas sem ele, a Classe A vira um sonho impossível pra gente.

Na Classe A estava Sakayanagi, com um poder tão absoluto que até Ryuen a temia. Na Classe B, Ichinose, com uma coesão de equipe superior e notas sempre altas. E na Classe C, Ayanokoji — que não só possuía força física capaz de dominar Ryuen, como também uma engenhosidade incompreensível.

A diferença de poder entre as classes era evidente. Ishizaki estava convencido de que, se quisessem competir com tais monstros, a Classe D precisava de um monstro próprio.

Ryuen Kakeru não era alguém que deveriam perder agora.

— Bem… admito que o Ryuen não é exatamente normal — respondeu Ibuki.

Ela tinha suas próprias opiniões. Estranhamente, sua visão sobre Ryuen não mudara após sua derrota para Ayanokoji. Havia algo que só Ryuen possuía — algo que Sakayanagi e Ichinose não tinham. Talvez até algo capaz de alcançar Ayanokoji. E ela se viu pensando nisso.

— Droga… — resmungou Ishizaki, irritado.

Ibuki lançou-lhe um olhar de soslaio, pensando no que ela mesma poderia fazer. Até Ishizaki, que era impulsivo, estava se esforçando ao máximo para superar esse exame. E ela ali, cogitando se salvar deixando Ryuen cair.

Era isso. Ibuki não tinha a mesma margem de manobra que Ishizaki. Ela sabia muito bem que, sem dúvida alguma, era alguém odiado pelo resto da classe. Na verdade, se Ryuen desaparecesse, ela seria o próximo alvo. As palavras de despedida de Manabe não tinham sido mero deboche.

Ainda assim, se Ibuki permanecesse em silêncio, sobreviveria dessa vez. Talvez até encontrasse outro caminho no futuro. Era isso que a impedia de agir.

Ela se lembrou do que aquele cara havia dito:

— Esse exame não é tão fácil a ponto de você conseguir salvar alguém só porque quer.

Aquele cara entendia como Ibuki pensava. Por isso ela nunca havia considerado seriamente fazer algo.

— Ei, Ishizaki.

— O quê…?

— Você não quer que o Ryuen seja expulso. É assim que você realmente se sente, lá no fundo?

— É. Não estou mentindo.

— Entendi.

Não havia absolutamente nenhuma chance de alguém receber mais votos de crítica do que Ryuen.

— Não quero admitir, mas me sinto da mesma forma. Só lembre de uma coisa: quando o Ryuen se for, eu sou a próxima — disse Ibuki.

Uma vez que Ryuen saísse de cena, ela seria a próxima. E fez questão de deixar isso claro para Ishizaki.

— Vou me encontrar com o Ryuen hoje à noite e recuperar os pontos privados dele. Provavelmente sou a única que pode fazer isso.

Assim, manteriam aqueles pontos para serem usados em benefício da Classe D. Herdariam os arrependimentos de Ryuen e os utilizariam para sustentar a turma.

— Então não tem outro jeito…?

— É praticamente tudo o que podemos fazer — respondeu Ibuki.

Ela já havia tomado sua decisão. Pegaria todos os pontos privados restantes de Ryuen. Se era pelo bem da Classe D, então eram recursos que precisavam ser aproveitados.

*

 

Ibuki foi até o quarto de Ryuen no meio da noite, sem avisá-lo antes. O som seco de seus nós dos dedos batendo levemente na porta ecoou pelo corredor frio. Instantes depois, a porta se abriu.

— Ah, é você?

Ryuen atendeu vestindo apenas uma cueca boxer.

— O que você está fazendo? — perguntou Ibuki.

— Se fosse algo indecente, você sairia correndo?

— Eu te daria um chute bem no saco e voltaria pro meu quarto.

— Heheheh. Acabei de sair do banho. Entra aí.

O cabelo dele ainda estava molhado, então parecia estar dizendo a verdade. Ainda desconfiada das provocações e jogos de palavras de Ryuen, Ibuki entrou no quarto. Era a primeira vez que ela ia ali naquele ano. Havia mais bugigangas espalhadas do que ela imaginava. Era diferente do quarto daquele outro cara.

— Você não veio passar a noite comigo antes de eu ser expulso, veio?

Ibuki não tinha intenção de perder tempo com joguinhos.

— Seus pontos privados. Me dá todos eles.

— Hã? Você não recusou antes? Disse que não precisava?

Enquanto secava o cabelo com uma toalha, Ryuen pegou uma garrafa plástica da geladeira, abriu a tampa e começou a beber, sem sequer oferecer a ela.

— Você não tem como escapar desse exame. Ou seja, esse dinheiro vai ser desperdiçado.

— É. Se eu for expulso segurando esses pontos, eles simplesmente desaparecem.

Seu contrato secreto com a Classe A seria anulado, deixando a Classe D sem nada.

— Então eu vou pegar e dar um bom uso a eles.

— Bastante ousada.

— Era isso que você queria, não era? Se não quisesse entregá-los, já teria gasto tudo antes. Mas não parece que fez nada disso. É como se estivesse esperando que viéssemos buscá-los.

Ryuen havia permanecido quieto nos últimos dias. Era evidente que usara apenas algumas centenas ou milhares de pontos, no máximo.

— Heheheh. Interessante. Tá bom, pode pegar. São inúteis pra mim mesmo.

Ele pegou o celular e começou a mexer. Um minuto depois, todos os seus recursos foram transferidos para Ibuki.

— Pronto, já recebi. Então estamos quites, Ryuen.

Assim que ela foi guardar o celular no bolso, Ryuen segurou seu braço — e a empurrou contra a parede.

— Ei, o que você está fazendo?!

Ibuki tentou chutá-lo imediatamente, mas ele segurou sua perna com o outro braço, impedindo-a com facilidade.

— Sabe, eu nunca desgostei dessa sua personalidade agressiva — disse Ryuen.

— Hã?!

Ibuki lançou um olhar hostil por cima do ombro, como se estivesse pronta para revidar. Mas Ryuen sorriu e a soltou logo em seguida. Era a forma dele de se despedir.

— Você é forte. Mas, se quer saber, você se deixa muito exposta. Não vai vencer a Suzune assim.

— Isso não é da sua conta.

— Até mais, Ibuki.

Ryuen desviou o olhar, desinteressado, e caminhou até a porta, como se estivesse indicando que ela fosse embora. Houve um breve silêncio enquanto Ibuki calçava os sapatos.

— Você se divertiu… estando nesta escola? — perguntou ela, ainda de costas.

— Hã?

— Esquece.

Se conhecesse Ryuen, saberia que ele não poderia estar satisfeito com aquilo. Ele sairia da escola em silêncio, ainda insatisfeito. Quando Ibuki abriu a porta, o vento frio entrou pelo quarto.

— Adeus.

Deixando apenas essa palavra para trás, ela fechou a porta. Ibuki permaneceu no corredor vazio, no meio da noite. Uma enorme quantidade de pontos privados aparecia no saldo do celular, mas tudo o que ela sentia era vazio. Ela saiu da tela.

Enquanto caminhava pelo corredor, fez uma ligação imediatamente. A pessoa do outro lado talvez já estivesse dormindo — nesse caso, ela deixaria uma mensagem de voz. Mas atenderam antes mesmo do segundo toque.

— Sou eu. Já recuperei todos os pontos privados do Ryuen.

Depois de dar seu relatório à pessoa com quem deveria falar, o trabalho de Ibuki estava feito. Pelo telefone, aquele cara disse que queria encontrá-la pessoalmente.

— Tá bom… tanto faz.

Ela já estava fora mesmo. Concordando com o pedido, Ibuki seguiu em direção ao quarto dele.

*

 

Era sexta-feira, o dia anterior ao exame especial suplementar, e os alunos da Classe B ainda permaneciam na sala após as aulas. Todos estavam ali. Ninguém faltava.

Quem estava em pé no púlpito não era a professora responsável, Hoshinomiya, mas sim Ichinose Honami.

— Olá, pessoal. Obrigada por continuarem agindo normalmente esta semana. Sou muito grata por terem aceitado meu pedido egoísta.

Depois que o exame suplementar foi anunciado, Ichinose havia dito apenas uma coisa aos colegas:

— Quero que todos continuem como sempre e se deem bem até depois das aulas, na véspera do exame.

Só isso. Nenhuma estratégia detalhada. Era claro que alguém teria de ser expulso nesse exame, mas ficar em alerta constante ou discutir entre si não traria benefício algum. Ainda assim, os alunos da Classe B confiaram em Ichinose, que havia provado ao longo do último ano que tudo o que fazia era pelo bem da turma.

A professora Hoshinomiya sentia um leve desconforto enquanto a ouvia falar. Como uma das instrutoras que considerava esse exame completamente absurdo, sentia pena da Classe B por ser obrigada a passar por aquilo.

A classe era forte justamente porque havia permanecido unida, sem perder ninguém. E se perdessem alguém agora, isso certamente apagaria parte de seu brilho.

— Eu sei que deixei todos vocês preocupados… muito preocupados. Mas fiquem tranquilos. Não vou deixar ninguém da nossa classe ser expulso.

As palavras eram boas notícias — mas também levantavam dúvidas.

— Tem certeza de que pode afirmar isso, Ichinose? — perguntou Kanzaki.

Era a forma dele de demonstrar consideração, sugerindo que ela não precisava mentir pelos colegas.

— Tudo bem, Ichinose. Podemos nos preparar para isso — disse Shibata, indicando que não a culparia mesmo que ela não tivesse um plano.

Mas Ichinose voltou a falar, ainda com firmeza:

— Não se preocupem. Kanzaki-kun, você me ensinou algo. Disse que aqueles que possuem poder, mas não o usam, são tolos. Foi por isso que pensei muito, até encontrar uma solução.

Ninguém ali seria expulso. Ela tinha certeza disso.

— Então nos diga. Como vamos impedir que alguém seja expulso?

Mas, sem apresentar provas, aquilo poderia não passar de uma fantasia.

— Vocês sabem que só existe uma maneira de todos sobreviverem a este exame, certo?

— Sim. A única forma é anular a expulsão usando vinte milhões de pontos.

— Por isso, quero que todos aqui me confiem todos os pontos que possuem atualmente. Vocês ficarão sem poder usá-los até abril, mas assim poderemos garantir que todos estarão seguros.

— Eu achei que, mesmo juntando todos os nossos pontos, ainda não chegaríamos a vinte milhões — disse Shibata, olhando para o restante da turma.

Eles já tinham discutido isso exaustivamente, mas não dava para usar o que não tinham. Ainda faltavam milhões de pontos — uma diferença impossível de cobrir.

— E daí? Foi a Honami-chan quem pediu. Eu vou transferir os meus — disse uma das garotas.

Algumas alunas começaram imediatamente a enviar seus pontos para Ichinose, sem pedir mais explicações. Como já faziam isso todo mês, o processo lhes era familiar.

— Bem… é, acho que você tem razão — respondeu Shibata, convencido, enquanto também pegava o celular.

Ichinose, em quem todos confiavam plenamente, ficou responsável por guardar todos os pontos privados da turma. O saldo final exibido em seu celular ficou pouco abaixo de 16 milhões.

— Certo. Estamos com cerca de 4 milhões a menos, como eu havia calculado.

— E como pretende conseguir o restante? Não consigo imaginar outras turmas do nosso ano — ou dos anos acima — nos dando tanto dinheiro — disse Kanzaki, pedindo mais detalhes enquanto transferia seus pontos com calma.

Quando Nagumo ofereceu emprestar pontos privados à Ichinose, ela prometeu não contar a ninguém. Mas, tendo chegado até ali, não podia esconder isso dos colegas. Por isso, havia pedido permissão a Nagumo para revelar os detalhes do acordo — exceto a parte em que sair com ele era uma das condições.

— O presidente do conselho estudantil, Nagumo, vai nos ajudar. Contei a ele sobre a nossa situação, e ele disse que cobriria o que falta.

— O presidente? Ele pode mesmo nos dar tantos pontos?

— Sim. Inclusive, ele me mostrou quantos pontos possui. Claro que teremos que devolver depois.

— E como será o pagamento? Haverá juros? — perguntou Kanzaki.

— A resposta mudaria o que vamos fazer?

— Não… independentemente dos juros, não acho que possamos substituir um amigo.

Mesmo assim, Kanzaki achava importante entender os termos do acordo. Por isso, fazia as perguntas que os outros não podiam. Ichinose lhe era grata por isso.

— O prazo de pagamento é de três meses, e não haverá juros.

— Espera… ele vai mesmo nos emprestar tudo isso sem cobrar juros?

Dada a situação, ninguém estranharia se Nagumo cobrasse. O presidente, disposto a ajudar sem juros, parecia um salvador.

— Sei que isso vai causar alguns inconvenientes por um tempo… mas vocês concordam com esse plano?

— Incrível! Eu sabia que você conseguiria, Ichinose! Claro que concordamos!

Todos estavam de acordo.

Era por isso que Ichinose Honami jamais deixaria alguém ser expulso.

*

 

Naquela noite, Ichinose ligou para Nagumo para confirmar os detalhes do exame do dia seguinte.

— Nagumo-senpai. Aqui é a Ichinose.

— Ichinose? Imagino que seja sobre o nosso acordo, certo?

— Sim. Falei com a Classe B hoje, então queria confirmar tudo mais uma vez.

— Minhas condições não mudaram. Reúna o máximo possível de pontos privados dos seus colegas. Não deixe nem um ponto de fora. Afinal, todos devem compartilhar o peso disso.

— Entendo… também penso assim.

Nagumo não pretendia fornecer os pontos necessários enquanto os outros alunos ainda tivessem saldo sobrando. Era uma de suas condições.

— Quantos pontos ainda faltam?

— Quatro milhões, quarenta e três mil e dezenove pontos.

— Entendi. Posso cobrir isso. Ainda assim… ficarei em desvantagem nos próximos exames.

— Sim…

O fardo que Nagumo assumia era grande. Se alguém de sua própria classe fosse expulso depois, talvez ele não tivesse pontos suficientes para compensar.

— Desculpe por fazer um pedido tão egoísta…

— Relaxa. Não deixar ninguém para trás é bem a sua cara. Ah, e só mais uma coisa… você lembra da outra condição para o empréstimo, certo?

— Sim. Quer dizer que… nós começaríamos a sair…?

— Exato. Posso transferir os pontos agora mesmo, se você aceitar.

— O prazo é até meia-noite, certo?

— Ainda está hesitando? Você não quer evitar que alguém da sua classe seja sacrificado?

— Claro que quero. Só… estou um pouco ansiosa.

— Ansiosa?

As palavras custaram a sair.

— Senpai… você… gosta de mim?

— O quê?

— N-Não é nada. Desculpe, foi rude perguntar… só pensei que um namoro começasse com esse tipo de sentimento…

— Se eu não gostasse de você, não teria colocado essa condição.

Ichinose ficou feliz em ouvir isso, mas sua ansiedade não desapareceu.

— Se aceitar, envio os pontos agora.

— Espere. Eu… quero tentar mais um pouco. Até o último minuto.

— Você já não está tentando há dias?

A cada segundo, o prazo se aproximava.

— Você não conseguiu pontos com os outros alunos do segundo ou terceiro ano. E é ainda menos provável conseguir com os do primeiro, já que são seus inimigos.

Nagumo sabia que era o único capaz de emprestar mais de quatro milhões de pontos. Mesmo assim, não a pressionou demais.

— Só cuidado. Eu valorizo muito o meu tempo.

— Entendo. Entrarei em contato mais tarde.

Ichinose desligou e se apoiou na parede, soltando um longo suspiro. Proteger seus colegas era sua prioridade absoluta. Se Nagumo pudesse ajudá-la nisso, ela sentia que deveria aceitar.

Mas Ichinose não tinha experiência alguma com romance. Ela não conseguia imaginar que fosse normal começar um relacionamento dessa forma. Mais importante ainda… o coração dela dizia que aquilo seria um erro. Não havia sentido em namorar alguém se os dois não gostassem um do outro. Se o sentimento fosse unilateral, não teria significado algum. E, depois que começassem a namorar, não seria tão simples terminar.

— Suspiro… Eu já deveria ter me decidido, mas…

Já passava um pouco das nove da noite. Ichinose teria que dar sua resposta em menos de três horas. Ela soltou outro suspiro pesado. Se persistisse, poderia salvar seus colegas. Se aquela fosse realmente a melhor — e única — opção disponível, então…

Mesmo assim, até o último instante possível, seu coração dizia para recuar. Ela tinha o pressentimento de que deixaria de ser quem era se aceitasse aquela condição.

— Não… Vamos lá, Ichinose — murmurou para si mesma.

Por que tentar mudar de ideia agora, depois de ter chegado até ali? Se não entrasse em acordo com Nagumo naquele momento, alguém da Classe B seria expulso.

— Certo.

Ichinose deu leves tapas nas próprias bochechas para se animar.

— Eu… vou proteger todo mundo.

Tendo recuperado sua determinação, ela sorriu discretamente.

*

 

Voltemos alguns dias antes de Ichinose decidir aceitar as condições de Nagumo. Ao dia em que o exame especial suplementar foi anunciado.

A Classe A, ao contrário das outras turmas, recebeu o exame de braços abertos. Isso porque chegou a uma conclusão clara mais rápido do que qualquer outra classe.

— O restante fica para vocês discutirem entre si. Cheguem a uma conclusão no dia do exame — disse o professor Mashima, após explicar as regras.

Ele lhes concedeu o resto do período para debate. Sakayanagi começou a falar, ainda sentada.

— Acho que gostaria que o Katsuragi-kun se retirasse neste exame.

Ela o nomeou sem qualquer hesitação. Katsuragi, de olhos fechados e braços cruzados, permaneceu imóvel.

— O-O quê?! Isso é injusto! — protestou Totsuka Yahiko, leal a Katsuragi, sendo o único a resistir.

— Pare, Yahiko.

Katsuragi o interrompeu friamente.

— M-Mas, Katsuragi-san!

— Pretendo aceitar o que vier a acontecer.

— Parece que não há objeções. Ou melhor… não há espaço para objeções — disse Sakayanagi.

A maioria da Classe A já fazia parte de sua facção. Alguns se sentiam desconfortáveis, mas não o suficiente para se rebelar. Em nome de uma formatura segura, seguiram Sakayanagi. O único que resistia era Totsuka — mas o próprio Katsuragi entendia melhor do que ninguém como aquilo era inútil.

— Então, vamos decidir por votação. Aqueles que não se importam em sacrificar Katsuragi-kun neste exame, levantem a mão.

Todos levantaram a mão ao mesmo tempo. Excluindo Totsuka, Katsuragi e a própria Sakayanagi, os outros 37 alunos concordaram.

Mashima desviou o olhar silenciosamente, como se já esperasse por aquilo.

— Muito bem. Parece que a discussão terminou.

— Você vai aceitar isso mesmo?! — gritou Yahiko.

— Está tudo bem, Yahiko.

Ele resistiu até o fim, mas Katsuragi não tentou discutir.

— O contrato que fiz ainda está em vigor. Por causa dele, a Classe A vem transferindo pontos privados para Ryuen, da Classe D, sem necessidade. Assumo total responsabilidade.

— M-Mas nós ganhamos Pontos de Classe com isso! Não estamos realmente perdendo nada! Além disso, se alguém da Classe D for expulso, provavelmente será o Ryuen! Se isso acontecer, o contrato será anulado mesmo sem sua expulsão, Katsuragi-san!

— Não pense que pode fazer o que quiser só por ser a líder da classe! — completou Totsuka, encarando Sakayanagi.

— Chega, Yahiko.

Katsuragi o conteve novamente, desta vez com mais firmeza.

— Katsuragi-san…

Embora fosse quem mais sofria naquela situação, ele manteve a compostura. Comovido, Totsuka sentou-se e abaixou a cabeça.

— Pessoalmente, eu não me importaria se ele continuasse. Foi um discurso interessante — comentou Sakayanagi.

— Está tudo bem. Não tenho objeções ao plano de me expulsar.

— Entendo. Então devemos agir de acordo com sua vontade, Katsuragi-kun.

Com menos de cinco minutos de discussão, a Classe A chegou a uma decisão. Os alunos voltaram às suas atividades como se o exame nem existisse. Katsuragi se levantou e saiu para o corredor, em busca de ficar sozinho. Naturalmente, Totsuka foi atrás dele.

— Katsuragi-san, você realmente não se opõe a ser expulso?!

— Não há nada que possamos fazer. Alunos com influência têm uma vantagem esmagadora neste exame. Não importa o quanto eu lute, não posso enfrentar o número de votos de crítica da facção da Sakayanagi.

— M-Mas deve haver alunos insatisfeitos com ela! Se os reunirmos—

— Você já me ajudou muitas vezes até hoje. Sou grato por isso.

— Katsuragi-san…

— Mas, depois que eu for expulso, siga a Sakayanagi. Se você se opuser a ela de forma imprudente, será o próximo alvo, Yahiko.

Foi justamente por saber disso que Katsuragi quis evitar que Totsuka entrasse em conflito com Sakayanagi mais cedo.

— Essas são minhas últimas instruções para você.

— Droga…!

Com o rosto contorcido de frustração, Totsuka apenas conseguiu assentir.

*

 

— Vamos, Masumi-san? — disse Sakayanagi após a aula, naquele mesmo dia, chamando Kamuro enquanto se levantava.

— Claro.

— Ouvi dizer que o café do Keyaki Mall está servindo uma bebida nova. Que tal passarmos lá no caminho?

Naquele fim de semana, um de seus colegas seria expulso — um aluno que a própria Sakayanagi havia indicado. E, ainda assim, ela agia como se nada tivesse acontecido.

— Ei.

— O que foi?

— Nada.

Kamuro mudou de ideia. Achou que seria inútil perguntar. A decisão fria de Sakayanagi poderia parecer desumana, mas Kamuro era do mesmo tipo de pessoa — e foi exatamente por isso que sentiu que seria absurdo apontar aquilo.

O silêncio entre as duas foi quebrado pelo toque de um telefone. Sakayanagi tirou o celular do bolso e atendeu com um leve sorriso nos lábios.

— Boa tarde, Yamauchi-kun. Eu esperava receber sua ligação por volta deste horário.

— Você tem um gosto meio estranho pra homens… — murmurou Kamuro.

Ver Sakayanagi falando com Yamauchi já não era mais algo incomum. Nos últimos dias, os dois trocavam ligações quase diariamente, conversando sobre trivialidades.

— Hoje? De jeito nenhum, não me importo. Vamos nos encontrar. Mas receio que tenho um pequeno compromisso antes, então só poderei te ver depois — disse Sakayanagi.

Pelo teor da conversa, Kamuro entendeu imediatamente que era mais uma ligação melosa do Yamauchi.

— Estou andando agora, então te retorno mais tarde.

Ela encerrou a chamada poucos segundos depois.

— Bem, então… está decidido que vou me encontrar com o Yamauchi-kun hoje à noite.

— Parece que vocês têm conversado bastante ultimamente. O que você está tramando? — perguntou Kamuro.

— Ele despertou meu interesse — respondeu Sakayanagi.

— Despertou seu interesse? Quer dizer que você gosta dele?

— Seria estranho se eu gostasse?

Kamuro imaginou Yamauchi… e apenas balançou a cabeça.

— Você está brincando, né?

— Sim. Estou brincando.

— Ah, qual é…

— Estou treinando ele. Para ver se posso usá-lo como espião na Classe C.

— Treinando…? Não pode ser tão simples assim.

— No caso dele, é. Além disso, como anunciaram uma prova bem interessante, pensei em usá-lo como cobaia.

Suas palavras eram metade verdade, metade mentira. Mesmo Kamuro fazendo parte de seu círculo, Sakayanagi não confiava totalmente nela, então escondia o que precisava.

— Vamos nos encontrar com ele hoje. Depois disso, você terá uma ideia do que pretendo fazer.

Sakayanagi sorriu, satisfeita, ao imaginar o que estava por vir.

*

 

Naquela noite, Sakayanagi e Kamuro encontraram Yamauchi no Keyaki Mall. Usaram uma sala de karaokê como ponto de encontro, para evitar serem vistos.

— Então… vejo que a Kamuro-chan está com você de novo hoje — disse Yamauchi.

— Me desculpe. Ainda fico meio envergonhada de sair só nós dois…

— N-Não, tudo bem! Tudo bem mesmo! Sério, já estou feliz só de poder sair com você assim!

Desesperado para agradá-la, Yamauchi forçou um sorriso. Na verdade, se estivessem sozinhos naquela noite, ele teria se declarado. Queria tornar aquilo oficial — ser seu namorado de verdade. Mas reprimiu esse impulso e manteve o sorriso.

— Yamauchi-kun… você vai ficar bem nessa prova especial?

— Hã?

— Se você estiver, então está tudo bem. É que…

Sakayanagi fez uma pausa deliberada antes de continuar:

— Se você for expulso, não poderemos mais nos encontrar assim, Yamauchi-kun. E isso… é a última coisa que eu quero.

Embora a atuação doce e inocente de Sakayanagi desse náuseas em Kamuro, ela não demonstrou nada.

— E-Eu também não quero isso! — exclamou Yamauchi.

— Então sentimos o mesmo?

Sakayanagi levou a mão ao peito e suspirou, aliviada.

— Se algo estiver te incomodando, pode me contar.

— Mas…

— É verdade que, tecnicamente, você e eu somos inimigos, Yamauchi-kun. Mas essa prova é diferente. Não há motivo para competir com as outras classes, não é?

— É… você tem razão…

— Talvez possamos cooperar.

— Cooperar…?

Era algo que já havia passado pela mente de Yamauchi.

— Por exemplo… eu poderia usar meu voto de elogio em você, Yamauchi-kun.

Ao ouvir isso, Yamauchi engoliu em seco. Votos de elogios de outras classes eram extremamente valiosos — alunos em risco de expulsão os desejavam desesperadamente.

— V-Você vai mesmo me ajudar?

— Se você estiver em apuros, cooperarei com prazer.

Por fora, Yamauchi tentou manter a compostura, mas por dentro estava radiante.

— E-Eu… para falar a verdade, parece que algumas pessoas da minha classe têm inveja de mim. Então… fico com medo de que usem os votos de crítica contra mim.

— Inveja?

— Porque só eu posso me encontrar com você assim, Sakayanagi-chan.

— Entendo. Eu não tenho interesse algum nos outros garotos.

Ele jamais admitiria que poderia ser expulso por ter notas ruins. Queria parecer alguém digno do interesse dela.

— Mas eu entendo. Por isso, vou te ensinar um plano secreto para te salvar, Yamauchi-kun.

— P-Plano secreto?

— Sim. Encontre possíveis aliados e convença-os a se juntar a você. Aproximadamente metade da sua classe. Depois, concentrem-se em uma pessoa específica e façam com que ela seja expulsa.

— Mas… se eu fizer isso, podem acabar vindo atrás de mim…!

— Sim, você está certo. Qualquer um teria medo de ser visto como o líder nesse tipo de situação. Afinal, se você machucar a pessoa errada, pode acabar recebendo votos de crítica.

Yamauchi assentiu.

— É por isso que eu vou te ajudar.

— C-Como?

— Tenho cerca de vinte aliados na Classe A que me seguem. Pedirei a todos que usem seus votos de elogios em você, Yamauchi-kun.

— Hã?!

— Além disso, tenho certeza de que alguns colegas seus também lhe darão votos de elogios, não é? Somando tudo isso, mesmo que você receba trinta ou mais votos de crítica, conseguiremos compensá-los. É improvável que você seja expulso.

— V-Você está falando sério?

— Claro. Mas, mesmo que você reúna vinte votos, não podemos dizer com certeza que estará completamente seguro. E é exatamente por isso que quero que você tome a iniciativa e mire em um aluno específico — disse Sakayanagi.

— Quem?

— Sim, essa é uma boa pergunta… Obviamente, não podemos eliminar alguém que seja útil para a Classe C. Masumi-san, consegue pensar em algum candidato adequado?

— Que tal alguém como o Ayanokoji?

— Ayanokoji-kun, hm? Já ouvi esse nome antes, mas…

— Ah, bem… ele é o tipo de cara que simplesmente passa despercebido. Como eu explico…? — disse Yamauchi.

— Está tudo bem. Não há necessidade de detalhes. Parece que ele pode ser o candidato perfeito. Vocês não são particularmente próximos, certo?

— Ah, não! Nem um pouco! Somos só colegas de classe!

— Nesse caso, vamos fazer dele o sacrifício — declarou Sakayanagi.

— Mas…

O desejo de Yamauchi de se salvar colidia com sua incapacidade de sacrificar um colega. Ainda assim, era óbvio que sua vontade de se proteger era muito mais forte.

— Imagino que seja doloroso cortar laços com um colega, independentemente da relação que tenham. Então não vamos pensar muito nisso, certo? Creio que escolhemos um alvo apropriado. Agora só precisamos executar o plano — disse Sakayanagi.

Seu sorriso parecia sugerir que assim doeria menos.

— Na próxima segunda-feira, depois que a prova terminar… você poderia se encontrar comigo? Só nós dois? Há algo que gostaria de te contar então, Yamauchi-kun. Algo muito importante.

— O-O quê?!

Sakayanagi havia desferido o golpe final, garantindo que Yamauchi estivesse completamente fisgado. Sua imaginação delirante disparou, interpretando aquilo como o prenúncio de uma confissão amorosa. Ele faria qualquer coisa para evitar sua expulsão — qualquer coisa que tornasse essa fantasia realidade.

Mais importante ainda: se ele não executasse a estratégia proposta por Sakayanagi, talvez ela passasse a vê-lo com maus olhos. Esse pensamento também o assombrava.

— Então vamos começar identificando as pessoas próximas do Ayanokoji-kun. O ideal é que consigamos expulsá-lo discretamente, sem que ele sequer desconfie.

— E-Entendi.

— No entanto, antes disso, um aviso, Yamauchi-kun.

— Aviso…

— Por favor, não conte a ninguém que eu e os alunos da Classe A usaremos nossos votos de elogios em você. Se isso vazar, você corre o risco de ser alvo do ressentimento dos seus colegas.

— Ah… é verdade…

Era óbvio que os outros ficariam invejosos e hostis ao descobrir que só Yamauchi estaria a salvo.

— Entendi. Prometo que não vou contar nada.

— Obrigada.

— Mas… é que… bom…

— O que foi?

— Não é que eu esteja duvidando de você nem nada, mas… você vai mesmo usar seus votos de elogios em mim?

— Está dizendo que prefere algo por escrito?

— É que eu estou muito preocupado, e…

A ansiedade de Yamauchi era compreensível. Uma promessa verbal não era garantia absoluta.

— Você acha que eu vou te trair, Yamauchi-kun? Não haveria benefício algum para mim nisso. Mas, se você não consegue acreditar em mim, então… vamos fingir que essa conversa nunca aconteceu. Se não pode confiar na minha palavra, talvez eu deva reconsiderar nosso encontro na próxima semana também — disse Sakayanagi.

— E-Espere! Eu acredito! De verdade!

Ao ver Sakayanagi recuar, Yamauchi entrou em pânico.

— Me desculpe por duvidar de você…

— Tudo bem. Eu entendo que esteja ansioso.

Sorrindo gentilmente, Sakayanagi lhe deu um último aviso:

— E mais uma coisa… Yamauchi-kun, se por acaso você fizer algo como gravar nossas conversas secretamente ou tirar fotos às escondidas, nossa relação terminará naquele mesmo instante. Nós nos tornaremos inimigos.

— N-Não se preocupe! Eu nunca faria algo assim!

— Ótimo. Masumi-san, por favor, faça uma revista nele.

— Eu?

— Por favor.

— Tudo bem.

Mesmo relutante, Kamuro começou a revistar Yamauchi.

— As coisas estão ficando bem interessantes — disse Sakayanagi.

Para ela, aquilo não passava de um jogo. Do seu ponto de vista, o resultado já havia sido decidido há muito tempo. Depois que Yamauchi foi embora, Sakayanagi permaneceu na sala de karaokê com Kamuro.

— Você ainda não vai voltar?

Já passava um pouco das oito da noite. Os alunos só podiam permanecer até às nove, e as lojas logo fechariam.

— O que acha da minha estratégia, Masumi-san?

— O que eu acho…?

— Ayanokoji-kun não é uma pessoa comum. Você entende isso também, não entende?

— Bem, eu sei que você tem um grande interesse nele — respondeu Kamuro.

— Mas não é só isso, certo? Você já o viu de perto antes, Masumi-san. Tenho certeza de que percebeu.

Kamuro não sabia dizer exatamente o quê. A impressão que tinha dele era de alguém enigmático… e desagradável.

— Não acha que ele é forte? — perguntou Sakayanagi.

— Quão forte? — retrucou Kamuro.

— Katsuragi-kun, Ryuen-kun e Ichinose-san não são páreo para ele.

— Hã? Então… e você?

— Quem sabe? Eu mesma me pergunto.

— Você está falando sério? Não acredito que esteja dizendo isso.

Kamuro ficou chocada. Tinha certeza de que Sakayanagi diria imediatamente que poderia vencê-lo.

— Eu posso vencê-lo, claro. Mas também é verdade que não consigo ver toda a extensão das habilidades dele. Bem… não, acho que isso não está totalmente certo. Talvez haja uma parte de mim que queira que Ayanokoji-kun seja um oponente que nem mesmo eu possa derrotar.

Era um sentimento estranho… um que ela nunca havia experimentado antes.

— Espero vê-lo lutar a sério antes de ser expulso pelas minhas mãos — acrescentou ela.

Era esse o seu desejo, do fundo do coração.

*

 

Sakayanagi e Yamauchi chegaram a um acordo na terça-feira. A partir do dia seguinte, ela continuou recebendo relatórios dele.

Enquanto movia as peças de xadrez dispostas à sua frente em seu quarto, instruía Yamauchi com gentileza sobre o que fazer para atravessar aquele exame.

— Entendo… Então esse número de pessoas vai usar votos de crítica contra o Ayanokoji-kun? — perguntou Sakayanagi.

Ao todo, vinte e uma pessoas. Yamauchi havia reunido mais apoiadores do que ela esperava. Ficou impressionada — embora, sozinha, as coisas provavelmente não teriam corrido tão bem.

— Yamauchi-kun.

— O-O que foi?

— Parece que pedir à Kushida-san para atuar como intermediária foi a decisão correta, afinal.

Kushida era do tipo que sempre levava os colegas em consideração antes de agir.

— É… foi exatamente como você disse, Sakayanagi-chan.

Sakayanagi já havia concluído que Kushida dificilmente recusaria ajudar Yamauchi se ele a procurasse. Mais importante ainda, também havia descoberto algumas informações interessantes sobre ela.

— Quando você pediu ajuda, chorou para convencê-la? — perguntou Sakayanagi.

— E-Eu não fiz nada tão patético assim!

Sakayanagi e Kamuro trocaram um olhar silencioso. Ambas chegaram à mesma conclusão: Yamauchi provavelmente tinha desatado a chorar para persuadir Kushida.

— Então suas habilidades de negociação são exemplares.

— É…

— De qualquer forma, amanhã entrarei em contato novamente sobre quem você deve atrair para o seu lado.

— Certo.

O ponto crucial era que o dia seguinte seria quinta-feira. A questão agora era como Yamauchi ampliaria sua influência e conquistaria mais colegas.

Quando a ligação terminou, Kamuro falou:

— Você realmente acha que Kushida ajudaria a expulsar alguém?

— Se alguém for até ela chorando, não há como recusar. E, para convencer tanta gente assim, é preciso saber falar. Essa aluna, Kushida-san, parece ter uma lábia formidável.

Segurando sua rainha, Sakayanagi olhou para Kamuro.

— O que você acha que vai acontecer agora?

— Nesse ritmo, Ayanokoji vai receber votos de crítica suficientes para ser expulso… Mas, se ele for tão perigoso quanto você diz, não vai tentar fazer algo?

— Mesmo sem saber que está sendo alvo?

— Ele não conhece o método.

— Ele é sempre cauteloso. Mesmo que não saiba que está sendo alvo agora, dada a natureza do exame, não descartará a possibilidade de receber votos de crítica. E, considerando isso, pensará em contramedidas.

— Que tipo de contramedidas?

— Por exemplo, provar diante de todos que há um aluno prejudicando a turma. Pode ser por qualquer motivo — mas quanto mais incompetente o aluno, mais eficaz será o método.

Sakayanagi já conseguia imaginar um possível cenário futuro na Classe C.

— Tome o Yamauchi-kun como exemplo. Ele está trabalhando comigo para eliminar um colega, o Ayanokoji-kun. Se isso viesse à tona, ele seria o candidato ideal para esse tipo de contramedida.

— Então, para você, não importa se quem for expulso é o Ayanokoji ou o Yamauchi.

Sakayanagi capturou o rei adversário com a mão livre.

— Não. O rei deve ser deixado por último.

Ela controlava cada movimento daquela partida.

*

 

Era sexta-feira à noite, véspera do exame, e Sakayanagi estava em uma sala de karaokê se preparando para o teste do dia seguinte.

— Como está a situação?

Havia quatro pessoas ali: Sakayanagi, Kamuro, Hashimoto e Kitou.

— Parece que tudo veio à tona hoje. A Horikita-san descobriu o que estava acontecendo e revelou que eu estava trabalhando com o Yamauchi-kun. Fico me perguntando de onde veio esse vazamento…

Ela pegou uma batata frita e a levou à boca.

— Sakayanagi, o vazamento veio da Karuizawa — disse um dos presentes. — Eu já tinha avisado, não tinha? Se você queria garantir que o Ayanokoji fosse expulso, não deveria ter colocado a Karuizawa no grupo do Yamauchi.

Era Hashimoto Masayoshi, um dos seguidores mais próximos de Sakayanagi — e alguém que passou a suspeitar de Ayanokoji por conta própria.

Ao segui-lo, viu-o se encontrar secretamente com Karuizawa. Por isso, havia aconselhado Sakayanagi a não incluí-la no grupo de Yamauchi No início, ela concordou. Mas, na quinta-feira, mudou de ideia. E agora, a verdade havia vazado.

— A melhor estratégia não seria garantir que o Ayanokoji não soubesse que estava sendo alvo até o exame acabar? Não fui eu quem disse isso? — continuou Hashimoto.

— Sim, lembro bem do seu conselho. Você disse que Ayanokoji-kun e Karuizawa-san poderiam ter algum tipo de relação incomum. Em outras palavras, se ela descobrisse, era muito provável que a informação chegasse até ele.

Foi exatamente por isso que Sakayanagi decidiu adiar a inclusão de Karuizawa no grupo de Yamauchi. Esperou terça e quarta passarem — e só então fez isso na quinta. Diante do que ocorreu hoje, era muito provável que Karuizawa tivesse contado tudo a Ayanokoji.

— Você jogou mal, hein, Sakayanagi? — comentou Kamuro.

Hashimoto então apresentou sua análise:

— Se conseguíssemos trazer a Karuizawa, a líder das garotas da classe, poderíamos chover votos de crítica sobre o Ayanokoji. Talvez até ultrapassar vinte e chegar perto de trinta. Você foi gananciosa.

— Eu sabia que haveria um julgamento interno na classe. Era só uma questão de tempo.

— Mas, se isso não tivesse vindo à tona, Yamauchi poderia ter escapado.

Após ouvir todas aquelas teorias, Sakayanagi não conseguiu evitar um sorriso.

— Herbívoros sempre oferecem uma última resistência quando sabem que serão devorados por um predador. E é exatamente isso que torna tudo interessante. Vocês não querem ver o que ele fará com o tempo que lhe resta? Como irá se debater?

— Foi por isso que você deliberadamente deixou essa informação chegar à Karuizawa?

— Isso também me permitiu confirmar que sua suspeita estava correta.

— Mas o Ayanokoji falou com a Horikita, e ela revelou tudo à classe. Agora não sabemos mais o que vai acontecer. Mesmo que Yamauchi não seja expulso graças aos votos de elogio que vamos dar, Ayanokoji também não será. Nem sei mais quem será expulso — disse Hashimoto.

— E não foi um erro limitar tudo a promessas verbais, em vez de contratos escritos, quando se tratava de votar contra Ayanokoji? Quantos não vão mudar de ideia depois do que veio à tona hoje…? — acrescentou Kamuro.

Os votos de crítica contra Ayanokoji cairiam drasticamente, enquanto os contra Yamauchi aumentariam.

Mas Yamauchi receberia vinte votos de elogio da Classe A — o suficiente para sobreviver. Diante disso, era impossível saber quem receberia mais votos de crítica no final. Ao ouvir as análises de Hashimoto e Kamuro, Sakayanagi sorriu. Ela já conseguia ver o desfech Um desfecho que ainda não era visível para Kamuro, Hashimoto, Yamauchi — nem para mais ninguém. Ela pegou o celular, que estava desligado.

Ao ligá-lo, encontrou inúmeras chamadas perdidas e mensagens de Yamauchi. Ele queria saber para onde iriam os votos de elogio da Classe A. Se realmente votariam nele. Era natural que estivesse ansioso.

— Ah, esqueci de mencionar uma coisa a vocês. Algo muito importante sobre o Yamauchi-kun — disse Sakayanagi, como se não tivesse se incomodado nem um pouco por "esquecer".

E então começou a explicar.

 

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