Ano 1 - Volume 10
Capítulo 5: O Bem e o Mal
NO MOMENTO EM QUE coloquei os pés na sala de aula na manhã seguinte, vários olhares se voltaram para mim ao mesmo tempo. Mas aqueles alunos rapidamente desviaram o olhar em todas as direções. Logo depois, outros olhares recaíram sobre mim, vindos de vários pontos da sala. Esse processo começou a se repetir, uma e outra vez.
Eu seria expulso.
A realidade era que eles já haviam começado a agir para me expulsar. Era exatamente isso que eu havia sentido ontem — aquela estranha sensação de que algo estava fora do lugar.
Akito, Keisei e o restante do Grupo Ayanokoji não pareciam diferentes hoje. Nenhum dos quatro era um ator tão habilidoso a ponto de eu não perceber algo estranho. Como faziam parte do mesmo grupo que eu, tinha certeza de que quem estava por trás disso havia naturalmente tomado cuidado para que nenhuma informação chegasse até eles. Claro, eu também não pretendia fazê-los se preocupar comigo. Se eu deixasse escapar algo por descuido, o envolvimento da Kei poderia vir à tona. Não tinha escolha senão lidar com isso sozinho.
— Bom dia, Ayanokoji-kun.
— Ah. Bom dia.
Horikita, que havia acabado de chegar, também não parecia ter notado nada.
— E aí.
Aparentemente, Sudou havia vindo com ela, já que seu cumprimento veio quase ao mesmo tempo.
— Só para deixar claro, isso foi uma coincidência — disse Horikita.
— Eu não perguntei — respondi.
Por algum motivo, Sudou caminhava em direção ao seu lugar com o nariz empinado, parecendo orgulhoso. Provavelmente não tinha nada a ver com minha situação atual. Claro, ele poderia querer que eu fosse expulso, mas, se cooperasse com o plano do Yamauchi, isso afetaria bastante a opinião que Horikita tinha dele. Além disso, ele não era um ator habilidoso o suficiente para manter uma boa expressão neutra.
— A propósito — disse Horikita em voz baixa, quando ficamos apenas nós dois.
— O quê?
— O que você fez?
— Sou só eu ou estou perdendo alguma coisa? Pode explicar do que está falando?
— Em relação a mim. O que você fez?
Era uma pergunta bastante abstrata.
— Não sei o que está tentando dizer, mas não fiz nada. Não tenho exatamente tempo livre para me preocupar com você.
— Não tem tempo para se preocupar comigo? O que quer dizer com isso?
— Olha, não se preocupe com isso.
A aula estava prestes a começar. Pelo comportamento de Horikita, ela provavelmente ainda não havia entrado em contato com o irmão. Parecia que a ação aconteceria naquela tarde.
*
ERA HORA DO ALMOÇO na sexta-feira. O teste seria amanhã. Eu, Horikita Suzune, pensei no que havia acontecido na noite anterior.
Quando achei que já era hora de dormir, recebi uma mensagem. Lembro-me de sentir como se meu coração fosse saltar do peito ao ver o nome do remetente. Era uma mensagem do meu irmão. Ele havia escrito apenas uma frase:
"Você tem algum arrependimento?"
Ele me enviou apenas aquela pergunta. Li a mensagem várias vezes, pensando profundamente, completamente desnorteada.
O que eu deveria fazer? Aquela era uma oportunidade única que havia surgido diante de mim. Se eu a deixasse escapar… então a próxima vez que ouviria a voz do meu irmão seria na cerimônia de formatura.
Depois de me decidir, escrevi uma resposta:
"Você poderia conversar comigo?"
Mesmo depois de digitar a mensagem, meus dedos pareciam pesados. Eu não conseguia pressionar o botão de envio.
— Ah…
Respirei fundo e apertei "enviar". Tudo o que restava era esperar pela resposta do meu irmão. Quando comecei a ser tomada pela ansiedade, imaginando se ele realmente responderia, tive notícias dele.
Na forma de uma ligação. Senti até certo alívio. Fiquei feliz por ele ter ligado. Assim, não precisei observar minhas mãos tremendo enquanto digitava.
— Sou eu. Suzune — disse.
— Você disse que queria conversar? — perguntou.
— Sim…
— Sobre o quê?
— Bem, por que você me enviou uma mensagem daquelas…? — perguntei.
— Isso é realmente importante agora? Era sobre isso que queria falar comigo por telefone?
— N-Não, não é isso.
Tive a sensação de que ele estava prestes a desligar, então neguei apressadamente, tentando impedi-lo.
— Na verdade, se você não se importar… poderia me encontrar pessoalmente?
— Pessoalmente?
— S-Sim.
— Quando você se matriculou nesta escola e rejeitou minha proposta de que desistisse, nossa relação acabou. Você entende isso, não entende?
Essa era a dura realidade. Não pude deixar de pensar que ele havia me ligado apenas por capricho. Era assim que meu irmão e eu estávamos distantes agora. Honestamente, eu queria conversar com ele sobre muitas coisas. Sobre tudo o que havia acontecido. Sobre tudo o que estava por vir. Mas… meu irmão jamais me perguntaria sobre isso.
— Há algo que quero te perguntar pessoalmente — disse a ele.
Meu irmão ficou em silêncio. Continuei falando lentamente.
— Esta será a última vez… Não voltarei a me envolver com você — disse.
Era a única coisa que eu podia oferecer.
— Entendo. Muito bem.
Essa foi a conversa que tivemos na noite anterior. Agora, eu estava a caminho de encontrar meu irmão. Decidimos nos encontrar no prédio especial para evitar sermos vistos, já que quase ninguém costumava ir até lá. Quando cheguei ao local, vi que ele já estava lá.
*
— Desculpe por tê-lo feito esperar… — disse Suzune.
Manabu apenas permaneceu ali, em silêncio. Do ponto de vista de Suzune, seu irmão não havia mudado em nada. Ele ainda era o objetivo que ela perseguia todo esse tempo.
— Faz quanto tempo desde a última vez que conversamos assim? Só nós dois.
— Se não contarmos aquela vez logo após a matrícula, então já faz cerca de três anos — respondeu Suzune.
— Parece certo. Então já se passou tudo isso, hm?
Ele se lembrou da época em que Suzune estava no primeiro ano do ensino fundamental II. Quando ela decidiu que se matricularia na Tokyo Metropolitan Advanced Nurturing School, ele a havia afastado. Naquele tempo, jamais imaginou que sua irmã mais nova seguiria o mesmo caminho que ele. Mas agora ela estava ali, diante dele.
— Você disse que queria falar comigo. Estou ouvindo.
Se ela simplesmente dissesse que queria se reconciliar com o irmão, a conversa terminaria ali mesmo. Manabu iria embora sem hesitar. A Suzune de antigamente provavelmente teria respondido dessa forma.
— É sobre o exame especial suplementar. Tenho certeza de que você já sabe o que os alunos do primeiro ano estão enfrentando — disse Suzune.
— Sim. As turmas estão sendo forçadas a expulsar alunos nesse exame.
— Isso mesmo.
— E então? — Manabu a incentivou a continuar.
Suzune, que até então falava com relativa fluidez, acabou gaguejando um pouco.
— Se está perguntando sobre meus pontos privados pessoais, preciso dizer que usei quase todos durante o acampamento escolar. Se é isso que quer, então estamos apenas desperdiçando nosso tempo.
— Não é isso. Eu não estou pedindo… esse tipo de ajuda.
Ela se recompôs, como se tentasse superar a hesitação que sentia.
— Bem, o que eu queria falar com você hoje é… eu… por favor, me dê coragem.
Depois de finalmente dizer isso, ela continuou:
— Quero enfrentar este exame de frente. Outras pessoas estão formando grupos e tentando controlar a votação para evitar serem expulsas. Mas tenho certeza de que acabarão se arrependendo disso no futuro. Por isso, eu… eu quero enfrentá-los.
Manabu apenas a observou em silêncio, sustentando seu olhar enquanto ela falava. Enquanto a ouvia, lembrou-se do que Ayanokoji havia dito no dia anterior. O que sua irmã mais nova tentava fazer não era o caminho mais fácil. Mas ela estava tentando agir com as próprias mãos — fazer algo que os outros não conseguiam. E, para fortalecer sua determinação, havia vindo encontrá-lo.
— Você tem tempo agora? — perguntou ele.
— Eu não tinha nenhum plano depois disso…
— Entendo.
Suzune ficou um pouco surpresa com a pergunta inesperada do irmão.
— Então, antes de entrarmos nos detalhes da sua situação, gostaria de te perguntar uma coisa. Como tem sido a escola para você?
— Hã?
— Tem sido divertida?
— Ah, bem… s-sim…
Suzune estava claramente desconcertada. Não esperava uma pergunta dessas.
— D-Desculpe, mas…
Mesmo sem conseguir responder direito, Manabu não a repreendeu.
— Bem, se a pergunta é… se estou me divertindo, então, sinceramente, não sei. Mas não é entediante — disse Suzune.
— É mesmo?
Suzune não conseguia entender a intenção por trás da pergunta de Manabu. Afinal, fazia muito tempo desde que tivera uma conversa normal com o irmão.
— Parece que você superou uma de suas fraquezas — disse Manabu.
— Uma das minhas… fraquezas?
— Isso mesmo. Você estava tão focada em si mesma que não conseguia ver o que acontecia ao seu redor. Agora que ampliou seus horizontes, conseguiu se libertar de dias entediantes.
— De alguma forma… você não parece você mesmo.
O Manabu que Suzune conhecia era sério e dedicado, alguém que nunca deixava os outros vê-lo sorrir. Alguém que nunca parava de tentar se aperfeiçoar. Ela jamais imaginou que ele pudesse ver a escola como algo a ser aproveitado.
— Você sempre me enxergou apenas como um número. Ficava obcecada em tirar notas altas nas provas — disse Manabu.
— Isso é porque… bem, porque você sempre foi o objetivo que eu estou perseguindo.
Suzune já havia dito inúmeras vezes que seu irmão era seu objetivo. E toda vez que ele ouvia isso, ficava com uma expressão severa.
— Seu objetivo, hm?
— Eu sei. É absolutamente impossível alcançá-lo. Mas, mesmo assim, acho que tentar me aproximar o máximo possível de você não é algo ruim.
Mesmo envergonhada com a própria arrogância, ela queria que o irmão visse o quanto estava se esforçando para alcançá-lo. Manabu não respondeu aos sentimentos dela, apenas fechou os olhos em silêncio.
— Como você vê Ayanokoji?
— Como eu o vejo?
— Apenas me diga o que pensa dele, honestamente.
— Eu não gosto dele. Não gosto do fato de ele ser capaz o suficiente para ser reconhecido por você e, ainda assim, não tentar usar suas habilidades. No entanto, penso nele como alguém que quero alcançar e superar um dia.
— Infelizmente, você não vai alcançar Ayanokoji.
— Tch…
— Mas não há necessidade alguma de alcançá-lo. Está tudo bem se você crescer à sua própria maneira.
— À minha própria maneira…
Manabu deu alguns passos em direção à irmã. Se Suzune diminuísse um pouco mais a distância, estariam próximos o suficiente para se tocar. No entanto, ela não conseguiu dar esse passo.
— Está com medo?
— Sim, estou…
Desde pequena, ela nunca conseguiu diminuir essa distância. A curta distância entre eles parecia impossivelmente grande.
— Para diminuir essa distância, você precisa dar um passo à frente.
— Mas o que eu… como posso diminuir essa distância?
— Você é inexperiente. Mas eu a ajudarei a encontrar a resposta. Então, fale. O que pretende pedir à sua turma?
Suzune assentiu e, após escolher cuidadosamente as palavras, começou a falar lentamente.
*
Era o dia anterior à votação, e as aulas já haviam terminado. Amanhã, cada turma decidiria quem seria expulso — e o lugar dessa pessoa ficaria vazio. Mesmo que todos estivessem ansiosos, no fundo havia um certo alívio, já que acreditavam que ficariam bem.
Isso mesmo. Porque alguém já havia sido escolhido como sacrifício. Ayanokoji Kiyotaka seria expulso.
Metade da turma já estava de acordo com esse plano. Muitos dos meus colegas provavelmente sentiam algum grau de culpa naquele momento, mas essa culpa era um preço pequeno a pagar se significasse salvar a si mesmos. Com o tempo, esses sentimentos desapareceriam. Daqui a um ano, eles apenas se lembrariam de que eu um dia fui aluno da turma deles.
Claro, eu não pretendia guardar rancor por isso. Todos estavam desesperadamente tentando encontrar uma forma de evitar a própria expulsão. Eu apenas fui o alvo, só isso.
Yamauchi havia conseguido atrair Kushida para o seu plano apelando às emoções dela, convencendo-a a votar em seu favor por simpatia. Depois, Kushida abordou outras pessoas, pedindo que votassem como Yamauchi queria. Como ela era confiável e muitos haviam lhe contado seus segredos, não puderam recusá-la.
A estratégia de Yamauchi não era ruim. Como mentor do plano, ele assumiu alguns riscos e conduziu tudo com habilidade. Só foi uma pena ter me escolhido como alvo. Se o objetivo dele era evitar a própria expulsão, deveria ter mirado em Ike ou Sudou, que não teriam como reagir. Bem, como Sakayanagi era quem puxava as cordas nas sombras, suponho que isso fosse impossível.
De qualquer forma, como parecia que eu estava prestes a ser expulso, não tive escolha senão garantir que outra pessoa fosse expulsa em meu lugar. Mas, desta vez, não seria eu quem faria isso acontecer. Eu era apenas um aluno que não se destacava. Um aluno que estava sendo alvo de Yamauchi. Não era o tipo de estudante capaz de resolver uma situação dessas. Alguém mais teria que assumir essa responsabilidade.
A expressão da garota sentada ao meu lado era muito, muito diferente do que eu esperava. Havia algo completamente distinto em sua aura. Era quase como se tivesse sido tocada por algo mágico.
— Muito bem, a aula terminou por hoje. Amanhã é sábado, mas também é dia de prova. Não durmam demais — disse Chabashira.
E assim, o dia letivo chegou ao fim. Naquele instante, todos começaram a se preparar para voltar aos dormitórios. Um momento de silêncio absoluto. Certo… Faça o seu movimento, Horikita. Do jeito que você está agora, deve ser capaz de conseguir. Minha vizinha afastou a cadeira e se levantou.
— Com licença, posso tomar um minuto do tempo de vocês? — perguntou Horikita, erguendo a voz para chamar todos os alunos da sala.
Naturalmente, isso atraiu a atenção de todos.
— Desculpem, pessoal. Mas gostaria que todos ficassem aqui por mais um tempo — disse Horikita.
Até Chabashira parou onde estava. Talvez também estivesse curiosa para saber o que Horikita pretendia fazer.
— O que foi, Horikita-san? — perguntou Hirata, respondendo antes de qualquer outra pessoa.
— Há algo que preciso discutir com todos vocês sobre o exame especial de amanhã.
— Sobre o exame de amanhã?
— Ei, eu… tenho planos de sair com o Kanji depois da aula, então…
— É-É, isso mesmo.
Yamauchi e Ike se manifestaram, tentando indicar que não tinham tempo para aquilo.
— Vocês dois parecem bem tranquilos. Fazendo planos para sair mesmo sabendo que alguém pode ser expulso amanhã? — retrucou Horikita.
Quando o olhar dela recaiu sobre Yamauchi, ele desviou os olhos em pânico.
— É que… bem, tipo… não tem muito o que a gente possa fazer, então é melhor só se preparar, né?
— Exatamente. É uma postura admirável. Infelizmente, nem todos são tão admiráveis quanto vocês. O que vou dizer agora não terá sentido algum se todos da turma não permanecerem aqui. Podem me ajudar com isso?
— Do que você está falando? — perguntou Yamauchi.
— É sobre o teste de amanhã. Sobre quem será expulso. Gostaria de ter uma discussão séria sobre isso.
Horikita caminhou até a frente da sala e parou junto ao púlpito, posicionando-se de modo que pudesse observar o rosto de todos.
— Sobre quem será expulso…? Hã? Do que você tá falando?
Yamauchi começou a falar mais rápido do que o normal. Provavelmente era uma manifestação inconsciente de sua própria culpa — e um sinal de que algo estava errado.
— Tenho pensado muito nesses últimos dias. Quem deve permanecer? Quem deve ser expulso? Como devemos chegar a essa decisão? E hoje consegui chegar a uma conclusão clara. Então, por favor, permitam-me explicá-la aqui — disse Horikita.
— Espere um momento, Horikita-san.
Quem a interrompeu não foi Yamauchi, mas Hirata.
— Ninguém da nossa turma deveria ser expulso.
— É mesmo? Não é possível que haja alguém que deva ser expulso?
— M-Mas…
— Desde que fomos informados sobre este teste, tenho tido sérias preocupações. Embora devêssemos avaliar os alunos da nossa turma e usar o resultado dessa discussão para decidir quem será expulso, a escola nem sequer nos deu tempo para isso. Isso significa que isso vai se transformar em uma disputa de grupos tentando controlar a votação. Como resultado, há o risco de que alunos excelentes, que deveriam permanecer, acabem sendo expulsos. Isso nem pode ser chamado de "exame", na verdade — disse Horikita.
A primeira pessoa a parecer impressionada com suas palavras foi Chabashira. Em seguida, Koenji falou.
— Não faço ideia do que aconteceu com você, mas é quase como se fosse outra pessoa. Ainda assim, devo dizer que o que está dizendo é bastante pertinente — ele começou a aplaudir. — Vamos ouvir, então. O que pretende fazer?
— Bem, originalmente, deveríamos ter tido uma discussão e reduzido a lista de candidatos à expulsão. Mas, realisticamente falando, entendo que isso seria difícil de fazer agora. Por isso… gostaria de indicar alguém que deve ser expulso.
— E-Espera um minuto, Horikita-san — gaguejou Hirata.
— Sinto muito, mas estou falando agora. Explicarei devidamente o motivo da minha indicação depois.
Horikita continuou conduzindo a conversa, sem perder tempo.
— Não, isso não está certo. Sou completamente contra fazer algo que jogaria todos no caos — disse Hirata, mantendo sua posição. Ele tinha sua própria forma de lidar com as coisas.
— Pelo menos ela tem o direito de falar, cara. Levante suas objeções depois que ela terminar — interveio Sudou, tentando impedir Hirata de interrompê-la.
— Sim, sim, como o RedHair-boy disse. Isso já está consumindo meu precioso tempo após as aulas, e será um desperdício ainda maior se você continuar sendo um obstáculo — disse Koenji, apoiando Horikita. Ele também parecia interessado na discussão.
— M-Mas… — murmurou Hirata.
Aproveitando a oportunidade para retomar a palavra, Horikita voltou a falar.
— Para este exame especial… decidi que Yamauchi Haruki-kun deve ser expulso.
Com todos os olhares voltados para ela, Horikita pronunciou claramente o nome do aluno que estava indicando. Até então, vários estudantes haviam se tornado possíveis alvos de votos de crítica por meio de conversas secretas. No entanto, Horikita foi a primeira a indicar alguém direta e publicamente para votação.
Por que ninguém mais havia feito isso?
Porque, naturalmente, quem o fizesse ganharia o ressentimento da pessoa indicada. E, acima de tudo, se falhasse em convencer os outros, era muito provável que se tornasse o próximo alvo.
— P-Por que eu, Horikita?! — gritou Yamauchi.
Naturalmente, o primeiro a se opor foi o próprio Yamauchi, em pânico. Se a declaração de Horikita não fosse contestada, ele se tornaria alvo dos votos de crítica.
— Há uma razão muito clara para isso. Em primeiro lugar, sua contribuição para a turma ao longo do último ano foi extremamente pequena — disse Horikita.
— I-Isso não é verdade! Eu sempre tirei notas melhores que o Ken nas provas!
— Mas ele tirou uma nota melhor que você desta vez.
— Mas foi só dessa vez!
— Muito bem. Vamos supor que seu desempenho acadêmico seja superior ao de Sudou-kun. Sem problemas. Ainda assim, você está muito atrás dele em termos de capacidade física — afirmou Horikita.
— Então o Kanji também deveria estar na lista, não é?! Ele está no fundo do poço! — gritou Yamauchi.
Era de se esperar que ele reagisse com esse desespero. Qualquer aluno ficaria assim ao ser apontado dessa forma.
— É verdade. Tenho certeza de que há um certo número de alunos em um nível semelhante. Você está correto quanto a isso.
— Viu? Sério mesmo, pessoal? Me indicar? Qual é…
— Ainda assim, mesmo em comparação com eles, você está meio passo atrás. Se avaliarmos o valor de cada aluno para a turma com base na sua atitude em sala de aula, no número de atrasos e faltas, além de seus pontos fortes e fracos, você estaria no final da lista. Ike-kun viria logo depois de você, seguido por Sudou-kun — disse Horikita.
— E-Eu também sou candidato à expulsão?! — disse Sudou, em pânico.
— Você certamente melhorou, tanto academicamente quanto mentalmente, ultimamente. Isso é verdade. No entanto, isso não apaga o número de vezes em que foi um fardo para a turma. Apaga?
— Não. Você está certa — respondeu Sudou.
Confrontado com a verdade, ele aceitou sem hesitar. Ike também estava com uma expressão séria, tendo aceitado aquilo.
— Qual é! Você só está falando o que bem entende! Tô ficando irritado! Vocês também estão, né? Kanji? Ken?!
Yamauchi tentou trazer os outros dois alunos indicados como candidatos para o seu lado, mas eles simplesmente não tinham disposição para discutir com Horikita.
— Além disso, vamos lá, eu até que sou bonitinho, né? Não sou um problemático como o Koenji, que falta até durante exames especiais!
— É verdade que Koenji-kun tem sérios problemas de comportamento. No entanto, ele compreendeu a importância desta discussão. E, em termos de habilidade, a diferença entre vocês dois é tão grande que nem podemos comparar. No mínimo, ele não é um aluno que deveria ser expulso neste exame — disse Horikita.
Koenji cruzou os braços, exibindo um sorriso satisfeito e audacioso.
— Não! Não engulo isso! De jeito nenhum!
— Então devo explicar exatamente por que você foi escolhido dentre todos? — perguntou Horikita, focando nele calmamente enquanto ele continuava seu ataque de nervos.
— E-Exatamente por quê?
A estranha aura que emanava de Horikita o fez recuar por um instante.
— Há algo do qual você se sente culpado. Algo que não contou a ninguém em relação a este exame. Estou errada?
As palavras confiantes de Horikita o deixaram sem reação.
— Eu não tenho nada do que me sentir culpado… — murmurou.
— Se não quiser dizer, eu direi por você. Você estava usando Kushida-san como intermediária para trazer vários alunos para o seu lado, tudo para expulsar Ayanokoji-kun. Não estava?
— Hã?!
A sala explodiu em murmúrios.
Mesmo que metade da turma soubesse que a votação estava sendo manipulada, não sabiam que Yamauchi era o responsável.
— Você estava tentando expulsar o Ayanokoji-kun…? — disse Hirata.
Ele foi quem pareceu mais chocado, além do Grupo Ayanokoji. Não havia como Hirata, que sempre mantinha uma posição neutra e era próximo de todos, ter concordado com isso.
— Sim. Essa é a verdade incontestável. Não é mesmo, pessoal?
Kushida havia abordado muitos alunos a pedido de Yamauchi, o mentor do plano. Eles não fizeram contato visual agora, mas estavam claramente perturbados — caso soubessem do que se tratava.
Isso foi suficiente para que Hirata percebesse que metade da turma fazia parte do grupo de Yamauchi.
— Ainda assim… todos parecem muito mais calmos do que eu imaginava…
— Seu plano começou com um pequeno grupo. Depois, expandiu-se gradualmente. Se conseguisse concentrar a maioria dos votos de crítica em alguém, essa pessoa certamente seria expulsa. Não é verdade? — disse Horikita.
— N-Não fui eu! — negou Yamauchi, mas não tentou se explicar.
— Então, quem foi? — perguntou Horikita.
— E-Eu não sei! Tipo… só me disseram pra votar contra o Ayanokoji! — gritou Yamauchi.
Mentir por desespero raramente termina bem.
— Se você não sabe, então diga quem foi que mandou você votar contra o Ayanokoji-kun — disse Horikita.
— Isso… bem…
— Você ouviu isso de alguém, não foi? Então deve saber quem foi — continuou Horikita.
Yamauchi passou os olhos pela sala, à beira de um colapso.
— Kanji! Ouvi isso do Kanji! Não foi?!
Ele jogou o nome do seu melhor amigo no meio.
— Hã? Espera, o quê? Eu não! — Ike negou imediatamente.
— Isso é verdade, Ike-kun? — perguntou Horikita.
— N-Não, sério, não fui eu! Eu…
Ele ficou sem palavras. Era compreensível. Quem o abordara fora ninguém menos que Kushida. Não havia como simplesmente entregá-la.
— Pelo fato de você não conseguir responder, devo assumir que você é o mentor, como Yamauchi-kun disse? — perguntou Horikita.
— N-Não! É que… bem… a Kikyou-chan veio me pedir ajuda… Ela disse que alguém estava em apuros e pediu que eu votasse contra o Ayanokoji — disse Ike.
Agora, Ike havia transferido a culpa para Kushida. Claro, Kushida não ficaria sentada aceitando aquilo. Afinal, ninguém ali temia mais se tornar alvo de votos de crítica do que ela.
— Sério? Você é a mentora, Kushida-san? Não posso acreditar — disse Horikita.
Ela iria passando de pessoa em pessoa até chegar à resposta. Numa situação como essa, em que um único aluno estava sendo visado, nem importava se ela sabia quem era o responsável. A verdade acabaria surgindo se continuasse pressionando todos.
— E-Eu… Bem, alguém veio me pedir ajuda… Eu não podia simplesmente recusar… — disse Kushida.
— E quem foi essa pessoa? — perguntou Horikita.
Mesmo depois de ter jogado outro debaixo do ônibus para se salvar, aquilo voltou contra Yamauchi. Ainda em pânico, ele tentou passar a culpa novamente.
— É isso mesmo! A Kikyou-chan me pediu! Ela me pediu ajuda pra expulsar o Ayanokoji! — gritou Yamauchi.
Não havia como saber quando aquela reação em cadeia, iniciada por uma única mentira, iria terminar.
— E-Eu?! — disse Kushida.
— É! Tenho certeza de que todo mundo ouviu isso da Kikyou-chan, né? Né?!
Era verdade que Kushida fora encarregada de atuar como intermediária. Mas havia algo que muitos sabiam com certeza: Kushida Kikyou era o tipo de aluna que ajudava os amigos. Não alguém que tentava prejudicar ou colocar os outros em apuros.
Havia uma enorme diferença no nível de confiança que Kushida e Yamauchi tinham conquistado.
— N-Não acredito que você diria algo tão horrível, Yamauchi-kun… Você veio até mim pedindo ajuda e, mesmo eu não querendo abandonar o Ayanokoji-kun, você… Então eu fiz o meu melhor, apesar disso, e ainda assim… — disse Kushida, angustiada, escondendo o rosto sobre a mesa.
Era provavelmente assim que todos imaginavam a situação desde o início: Yamauchi implorando pela ajuda de Kushida. A situação de Yamauchi piorava rapidamente. Ele certamente se sentia mal por Kushida, mas precisava evitar ser alvo dos votos. O pior cenário possível para ele seria ser expulso.
— Kushida-san.
Horikita a chamou, enquanto ela ainda escondia o rosto. Todos provavelmente pensaram que ela a consolaria.
— Você também cometeu um grande erro — disse, em tom firme. — Você provavelmente tem tanta influência nesta turma quanto Hirata-kun e Karuizawa-san… não, na verdade, talvez até mais. Se você pedir para os alunos votarem contra alguém, muitos irão seguir você.
— M-Mas eu nunca… Eu só queria ajudar o Yamauchi-kun…
— Chega de sofismas. Você não é tão ingênua. Desde o começo, deveria ter percebido o que aconteceria se o ajudasse.
Enquanto Horikita continuava a repreendê-la, Kushida se levantou, chorando.
— Eu não pensei tão longe! Eu só… não podia deixar o Yamauchi-kun sozinho enquanto ele sofria… Só queria fazer alguma coisa…!
— Não, você pensou sim. Sabia o que aconteceria e simplesmente ignorou o problema — disse Horikita.
— Eu…
Horikita estava sendo severa demais, fazendo Kushida recuar. Mesmo que quisesse retrucar, não podia. Era impossível remover sua máscara angelical ali, e Horikita sabia disso.
— Você cometeu um erro de julgamento. Deveria ter agido antes — disse Horikita.
— Mas eu… O que eu deveria fazer…?
— Use isso como oportunidade para refletir e tente agir de forma que beneficie a turma no futuro — concluiu Horikita, sem interesse em ouvir mais desculpas. — Dito isso, a verdade inegável é que Yamauchi-kun é o principal responsável.
Ela desviou o olhar de Kushida e voltou a encarar Yamauchi.
— E-Espera, Horikita! Eu já disse que não fui eu… — disse Yamauchi.
— Ora, ora. Esta é uma discussão bastante interessante, devo dizer. Embora tentar expulsar alguém não seja algo tão estranho assim. Este exame, deixando de lado qualquer tentativa de civilidade, nada mais é do que uma batalha pela sobrevivência dos que estão no fundo do poço. Ou há algum motivo específico para que ele esteja sendo condenado com tanto fervor? — comentou Koenji.
Ao que tudo indicava, ele pretendia permanecer perfeitamente neutro até o fim. No entanto, tudo o que acabara de dizer serviu de gancho para a próxima declaração de Horikita.
— Você está certo. Formar um grupo e tentar forçar alguém a sair, embora não seja a atitude mais admirável, pode ser considerado necessário para sobreviver — se fosse só isso, é claro.
— Oh? — respondeu Koenji.
— Yamauchi-kun, você não está tentando expulsar o Ayanokoji-kun apenas para se proteger — disse Horikita.
— E-Espera! Já falei, não fui eu!
— Que atitude lamentável. Todos nesta sala já acreditam que isso foi obra sua — disse Koenji, antes de voltar-se para Horikita. — Então, vamos ouvir. Por que ele escolheu o Ayanokoji-boy como alvo?
Horikita assentiu.
— Ele — ou melhor, Yamauchi-kun — estava trabalhando nos bastidores com Sakayanagi-san. Ele vinha agindo sob as ordens dela.
A verdade sobre as ações de Yamauchi foi exposta diante de todos.
— Ora, que curioso. Um de nós com ligações com a Classe A? Bastante inquietante — disse Koenji.
Provavelmente havia um motivo para ele estar pressionando tanto Yamauchi. Sendo ele próprio um possível alvo de expulsão, talvez estivesse tentando garantir a própria segurança aproveitando-se do que Horikita estava fazendo: trazer à tona o aluno dispensável e julgá-lo diante de toda a turma.
Mesmo que Yamauchi não estivesse trabalhando com Sakayanagi nem tivesse escolhido um alvo específico neste exame, o fato de ele ser o aluno mais dispensável da classe não mudaria.
Provavelmente, as coisas acabariam assim de qualquer maneira. Ainda assim, foi graças ao convite de Sakayanagi para que Yamauchi cooperasse com ela que pudemos pular várias etapas para encurralá-lo.
— Ei, Haruki… você estava mesmo trabalhando com a Sakayanagi-chan? Que diabos, cara… — disse Ike.
Não apenas Yamauchi escondera que era o mentor por trás do plano, como agora sua ligação com a Classe A vinha à tona. Nem Ike conseguiu manter a calma.
— Isso é mentira! Cadê a prova?! — gritou Yamauchi.
— Nesse caso, posso ver seu celular agora? Você deve ter o contato da Sakayanagi-san salvo — disse Horikita.
— M-Mas isso é porque somos amigos! Não tem nada de estranho nisso! — protestou Yamauchi.
De fato, não seria estranho que fossem amigos. No entanto, Ike e os outros se lembraram de que Sakayanagi havia abordado Yamauchi abertamente antes. Horikita provavelmente pedira para ver o celular justamente para fazê-los recordar disso.
— Cara… você está mesmo trabalhando com a Sakayanagi-chan? — disse Ike, com desprezo na voz.
— E-Eu já falei… como se eu fosse me juntar à Classe A! Eu nunca trairia meus amigos! Não faço ideia do que vocês estão falando! Me poupem! — gritou Yamauchi, à beira do desespero, fingindo ser a vítima.
— Não. Ela deve ter instruído você a reunir os alunos da nossa classe e fazê-los mirar no Ayanokoji-kun. Ela é muito mais inteligente do que você e lhe deu instruções precisas sobre como expulsá-lo.
— N-Não! Não, NÃO!
— Tenho certeza de que houve algo mais que ela mencionou para fazê-lo cooperar com tanta disposição. Por exemplo… talvez tenha dito algo sobre um relacionamento? — disse Horikita.
— Ugh!

Acerto em cheio.
Yamauchi ficou ainda mais agitado depois que Horikita revelou a verdade que ele tanto queria esconder. Ela provavelmente deduzira essa última parte apenas por suposição — mas, pela reação dele, parecia ter acertado em cheio.
— Não podemos, de forma alguma, expulsar um aluno muito superior a você por um motivo tão estúpido. É precisamente por isso que estou indicando você para expulsão — disse Horikita.
Ela não estava falando apenas para Yamauchi, mas fazendo questão de que toda a classe ouvisse.
— Ninguém quer expulsar um amigo da própria turma. Mas a ideia de trair os próprios colegas e conspirar com o inimigo é ainda mais detestável. E você tentou transformar um amigo em alvo… É exatamente por isso que você é alguém de quem esta classe não precisa.
— M-Mas eu…! — Yamauchi tentava desesperadamente encontrar qualquer coisa que pudesse reverter sua situação. — Mesmo que… mesmo que o que você esteja dizendo seja verdade… por que só eu estou sendo culpado?! Quer dizer, mesmo que eu estivesse trabalhando com outra classe, me defender não é legítima defesa?! Eu não quero ser expulso!
— Entendo. Então o que você quer dizer é: "Qual o problema em proteger a si mesmo?", certo?
Era uma desculpa patética, mas Yamauchi se recusava teimosamente a admitir qualquer coisa.
— Proteger a si mesmo é certamente importante. No entanto, não vejo valor algum em um aluno que jogaria um amigo aos lobos para se proteger e, além disso, venderia a própria alma ao inimigo — disse Horikita.
Por mais que Yamauchi resistisse, ela não recuava.
— V-Você só está defendendo o Ayanokoji porque vocês são próximos!
— Não. Você está enganado. Este é o resultado de um julgamento objetivo e imparcial. Você e o Ayanokoji-kun começaram do mesmo ponto. Se analisarmos como ambos evoluíram desde então, a diferença no quanto cada um contribuiu para a classe é evidente. Além disso, considerando sua ligação com a Classe A, não há mais espaço para debate.
— Não tenho objeções. Concluí que é preferível adotarmos a proposta da Horikita-girl. Certamente não posso conviver com um aluno que pode trair a classe. Apoio a decisão — disse Koenji, sendo o primeiro a manifestar apoio.
— Espera! Eu não traí ninguém! Juro pela minha vida! — gritou Yamauchi em um último esforço desesperado. — Além disso, por que diabos teria que ser o Ayanokoji?!
— O que quer dizer? — perguntou Horikita.
— Se eu realmente estivesse trabalhando com a Sakayanagi-chan, ela não teria mandado eu me livrar de alguém que fosse mais problemático para ela? Em vez do Ayanokoji?
Provavelmente, isso era algo que o próprio Yamauchi havia questionado quando Sakayanagi o abordou. Por que Ayanokoji, e não Hirata ou Karuizawa, que eram muito mais importantes para a classe?
— Suspeito que a resposta seja, para o bem ou para o mal, o fato de ele não se destacar. Mesmo que ela quisesse expulsar um aluno superior, não conseguiria fazê-lo com facilidade. Por isso, escolheu alguém discreto. Talvez nem fosse tão importante para Sakayanagi-san quem seria expulso da Classe C. Talvez o que ela realmente quisesse fosse um espião que pudesse manipular à vontade, como um peão.
Não havia como alguém como Yamauchi rebater uma estratégia verbal tão astuta.
— Tenho certeza de que alguns de vocês podem não gostar do que estou dizendo agora. Se for o caso, aqueles que quiserem votar contra mim podem fazê-lo. Ou contra Yamauchi-kun. Ou contra Ayanokoji-kun. Ou qualquer outra pessoa em quem prefiram usar seus votos de crítica. Apenas achei que deveria compartilhar minha opinião pessoal sobre o assunto. Por favor, levem o que eu disse em consideração ao tomarem suas próprias decisões — acrescentou Horikita, demonstrando que estava preparada até mesmo para ser odiada.
A estratégia dela provavelmente funcionaria. No entanto, Sudou se manifestou.
— Espera aí, Suzune… Eu entendi tudo o que você disse até agora. E sei que o Haruki fez coisas ruins… — disse ele, com uma expressão triste. — Mas eu sou contra expulsar o Haruki.
— Ele é seu amigo. Eu entendo muito bem o quanto você se importa com ele — respondeu Horikita.
Ela já havia previsto que Sudou o apoiaria. Mas ele não iria recuar tão facilmente.
— Você tem que falar pelos seus amigos. Isso é óbvio, não é? Eu sei que trabalhar com a Classe A é algo muito ruim, mas… mas ele não precisa ser expulso por causa disso. Não está tudo bem se ele reconhecer o que fez e começar a contribuir com a classe daqui em diante?
— Nesse caso, também não há motivo para o Ayanokoji-kun ser expulso. Ele não fez nada.
— S-Sim, mas—
— Você sabe que não é assim que funciona, Sudou-kun.
Horikita respirou fundo e reuniu toda a coragem que havia guardado até então. Preparou-se para ser odiada por todos os colegas.
— Ao proteger uma pessoa, você abandona outra. É por isso que este exame não pode ser resolvido com argumentos emocionais. Ele exige uma abordagem analítica.
— Eu…
Sudou se calou. Seu desejo de ajudar Yamauchi era evidente — mas, para salvá-lo, alguém mais precisaria ser expulso. Até aquele momento, todos na classe vinham agindo conforme seus próprios interesses, com pensamentos negativos como Ele deveria ser expulso ou Não tem problema se aquela pessoa sair.
Foi exatamente por isso que as palavras de Horikita atingiram tão fundo — e por que Sudou as compreendeu. Ele percebeu que não poderia agir em benefício da classe se pensasse apenas em salvar a si mesmo.
— Desculpa, Haruki… Eu não posso fazer nada por você…
Para ser sincero, fiquei impressionado com o quanto Sudou havia amadurecido. Ele ainda se irritava facilmente, mas vinha ampliando sua visão aos poucos. Mesmo tendo que escolher entre um amigo próximo, como Yamauchi, e Horikita e eu — com quem não era tão próximo —, manteve-se calmo e racional.
— Parece que está decidido, então — disse Koenji.
Ele e os outros observadores já estavam prontos para dar seu veredito.
— Espera! Espera! Espera um segundo! — gritou Yamauchi, tentando impedir que dessem o veredito. — Seria simplesmente idiota usar os votos de crítica em mim!!
— Eu já tomei minha decisão. Não há ninguém mais digno de receber votos de crítica do que você — disse Horikita.
— Mas essa é só a sua opinião! Todo mundo já prometeu que ia votar no Ayanokoji mesmo! — retrucou Yamauchi.
— Eu retiro o que disse… — murmurou Kushida, ainda com a cabeça baixa.
— Hã…? — gaguejou Yamauchi.
— Eu cometi um erro… Não percebi o que estava acontecendo porque queria ajudar o Yamauchi-kun. Então retiro meu pedido para que todos o ajudassem…
Nesse ponto, Kushida não tinha escolha a não ser tomar o lado de Horikita se quisesse preservar sua reputação.
— Espera aí! Que diabos?! Você está quebrando sua promessa! Até onde você pode ir?! — gritou Yamauchi.
— Você fala isso, Yamauchi-kun… Traindo os próprios colegas…
E agora, Yamauchi estava completamente sozinho. Ele finalmente entendeu como era ter a classe inteira contra si.
— Você é a pessoa menos competente da classe. E também um traidor — declarou Horikita, com calma. — É só isso que tenho a dizer. Essa é a minha opinião sobre o assunto.
Ninguém parecia capaz de contestar seu julgamento.
— Por fim, gostaria de ouvir a opinião de todos aqui presentes. O que vocês acham?
Mas—
— Gostaria que esperasse um momento, Horikita-san.
Um único aluno levantou a mão e se pôs de pé.
— O que foi?
Se havia uma coisa que Horikita não havia levado em conta, era o garoto chamado Hirata Yousuke.
— Embora eu tenha ouvido tudo o que você disse sem interromper, preciso dizer que sou contra incitar todos a votar dessa maneira. Amigos se atacando assim está errado.
A declaração dele não era sentimental, como a de Sudou — mas também não era fria e teórica como a de Horikita. Era a resistência dolorosa de alguém incapaz de chegar a uma resposta.
— Não há outra saída. Não existem brechas. Este é um exame absurdo que exige que alguém seja sacrificado. Você ainda não aceitou isso?
— Não há como aceitar. Eu… eu não quero que ninguém perca ninguém. Se fosse uma expulsão que alguém desejasse, seria diferente. Mas nem o Yamauchi-kun nem o Ayanokoji-kun querem isso.
— Uma expulsão que alguém deseja? Ninguém quer ser expulso. Muito bem, então permitam-me fazer uma pergunta completamente inútil à turma. Alguém poderia levantar a mão se estiver disposto a ser expulso? Se alguém se apresentar, não teremos motivo para discutir. Basta concentrarmos todos os votos de crítica nessa pessoa e pronto.
Ninguém levantou a mão.
— Entendeu agora?
— Ainda não é o suficiente. Não posso aceitar algo tão terrível.
O aluno exemplar perfeito — excelente nos estudos, nos esportes e genuinamente bondoso. Mas a fraqueza de Hirata Yousuke agora era evidente. Colocado diante de uma escolha difícil, ele se paralisava.
— Independentemente do que você pense, eu vou lutar pelo que acredito. Então vamos colocar isso em votação aqui e agora — disse Horikita.
— Não adianta pedir isso. Mesmo que levantem as mãos agora, não há garantia de que votarão assim amanhã.
— Isso não é verdade. É importante para confirmar a tendência de voto dos nossos colegas.
— Não. Todos… todos estão tentando expulsar alguém, e eu simplesmente…!
Provavelmente, Hirata temia que o que Horikita estava fazendo provocasse atritos e conflitos dentro da classe, expondo antigas rivalidades.
— Muito bem, pessoal. Vamos votar — disse Horikita, ignorando-o.
Ninguém mais poderia detê-la. Era o momento decisivo.
— Horikita-san!
Tum!
O som alto de algo tombando ecoou pela sala. Ninguém poderia prever o que tinha acabado de acontecer: Hirata havia chutado sua carteira, derrubando-a para frente.
— Ei, o qu— H-Hirata-kun?!
As garotas gritaram, incrédulas. Nem eu consegui acreditar. Quis pensar que ele apenas se empolgara e esbarrara na mesa por acidente. Chabashira parecia pensar o mesmo. Aquele comportamento era totalmente inesperado — e simplesmente impossível, vindo dele.
— Poderia parar, Horikita-san? — disse Hirata, em voz baixa, como se quisesse intimidá-la.
— Parar com o quê, exatamente? — respondeu ela, afastando a franja para esconder o quanto estava abalada.
— Estou dizendo para parar com a votação.
— Você não tem o direito…
Sua voz tremia levemente diante da pressão que ele emanava.
— Essa discussão está errada.
— Se está errada, então o que exatamente seria o certo a fazer? Você também não sabe. Até hoje, você tem vivido normalmente, sem fazer nada a respeito desse exame, não é?
— E daí?
— Isso é o problema. Você não está fazendo uma avaliação justa.
— Fique quieta…
— Não, eu não vou me calar. Eu—
— Horikita… cale a boca por um segundo — retrucou Hirata.
Aquelas foram as palavras mais frias e intensas que já ouvimos sair da boca dele. Horikita parou de falar. Era como se o próprio ar tivesse congelado depois disso.
— Escutem, todos — disse Hirata, mudando o tom de voz mais uma vez e soando como uma pessoa completamente diferente ao se dirigir à turma. — Não importa se tudo o que foi dito até agora é verdade ou não.
— Não é verdade! São mentiras, Hirata! Eu sou a vítima aqui! — gritou Yamauchi, sufocado pela pressão da situação.
— Vítima?
— Err…
O olhar profundo e penetrante de Hirata atravessou Yamauchi.
— Depois de tudo o que foi revelado, não há como você ser inocente.
— Mas… isso… quer dizer…
— O fato de você não hesitar em sacrificar seus próprios amigos é nauseante.
A raiva de Hirata não era dirigida apenas a Yamauchi. Ele estava irritado com a turma inteira.
— É um exame. Era inevitável — argumentou Horikita.
— Ainda assim, manipular a votação está errado.
— A prova é amanhã. Se enfrentarmos isso sem um plano, será o mesmo que dar nosso consentimento tácito à traição do Yamauchi-kun.
— E qual é o problema em não termos um plano? Não temos o direito de julgar nossos colegas — disse Hirata.
— Do que você está falando…? É exatamente isso que este exame especial exige de nós. E, neste momento, é o que muitos alunos querem.
Ela podia perceber isso claramente por estar diante da turma, no pódio, sob o olhar atento de todos. Mas Hirata sequer tentava aceitar essa realidade.
— Talvez quem não devesse mais estar aqui seja você.
Suas palavras, baixas e intensas, ecoaram pela sala. Mesmo assim, minha mente se recusava a aceitar que aquela voz fria pertencesse a Hirata.
— É verdade que este exame é incrivelmente cruel e desumano. Eu nunca vou conseguir aceitá-lo. Mas, mesmo que conseguisse tolerá-lo, só seria na forma de uma votação natural da turma. Não isso que está acontecendo aqui, tentando influenciar os outros e arrastando uns aos outros para baixo.
— Isso é um otimismo ingênuo. Quase toda a classe já se reuniu às escondidas, formou grupos e discutiu repetidamente quem querem expulsar e quem querem proteger. E o Ayanokoji-kun seria o principal alvo disso.
— Você tem razão. Isso também é horrível. Ainda assim, não é a mesma coisa que expor todos assim publicamente.
— É exatamente a mesma coisa. Não há diferença alguma. Se vai ser hipócrita quanto a isso, deveria ter tentado impedi-los também.
Ninguém conseguia se intrometer na discussão. Hirata estava dominado pelo desespero, e Horikita era a única capaz de enfrentá-lo naquele momento.
— Além disso, mesmo que não façamos uma votação agora, já expus minha opinião à turma. Essa votação "natural" que você quer nunca vai acontecer. Você entende isso, não entende?
— Sim… você está certa. O dado já foi lançado. Não há como voltar atrás.
Hirata respirou fundo antes de continuar. Havia recuperado um pouco da compostura, mas ainda parecia frio.
— É por isso que amanhã escreverei seu nome na cédula, Horikita-san. Não vou tolerar que você vá contra a vontade da turma.
Ele devia estar ciente das contradições em suas próprias palavras. Mas ainda assim sofria, porque gostava de todos os colegas e valorizava a harmonia acima de tudo.
— Tudo bem. Faça o que quiser.
Horikita não parecia totalmente insatisfeita, como se aceitasse caso todos concordassem com Hirata. Chabashira, que assistira ao confronto entre os dois, aproximou-se silenciosamente do pódio.
— Terminou, Horikita?
— Sim.
Horikita cedeu o lugar e voltou ao seu assento. As aulas já haviam terminado, e, em teoria, não havia mais papel para a professora ali. Ainda assim, ela avançou para falar com os alunos.
— Vocês provavelmente odeiam esta escola neste momento. Devem achar este exame completamente absurdo. Mas, quando entrarem no mundo real, certamente chegará o dia em que terão de cortar alguém. E, quando esse momento vier, serão aqueles no topo — ou em cargos de gestão — que terão de tomar essa decisão. Vocês, alunos desta escola, estão sendo preparados para se tornarem contribuintes relevantes para este país. E não crescerão enquanto enxergarem estes exames apenas como uma forma de a administração assediá-los.
No mundo real, aqueles que prejudicam o grupo acabam sendo descartados para proteger o restante. Naturalmente, isso muitas vezes envolve acordos de bastidores, ofensas e difamações — como vimos aqui hoje. Era verdade que este exame especial tinha aspectos destinados a nos fazer amadurecer.
Mas forçar estudantes, muitos dos quais ainda eram crianças em mente e corpo, a fazer esse julgamento estava longe de ser algo gentil. Esse teste poderia deixar cicatrizes emocionais duradouras.
— Não tenho a menor intenção de tomar partido na discussão de hoje. Acredito que todos os comentários foram valiosos. Além disso, espero que pensem cuidadosamente antes de votar.
Depois de ouvir toda a discussão e nos dar essas palavras de conselho, Chabashira deixou a sala.
Então, quem seria? Eu? Yamauchi? Horikita? Hirata? Ou talvez outro aluno?
Não estava nada claro em quem cada um votaria amanhã — o que significava que muitos ainda poderiam mudar de ideia no último instante. Mas ninguém poderia ser culpado por isso. Esse era simplesmente o tipo de exame que estávamos enfrentando.
*
Haruka e o resto do Grupo Ayanokoji vieram falar comigo imediatamente. Horikita e Yamauchi haviam saído da sala logo após a discussão.
— Ei, você está livre agora? — perguntou Haruka.
— Hm? Ah, sim, estou — respondi.
Na verdade, eu queria conversar um pouco com o Hirata, mas… ele já havia se levantado em silêncio e saído sozinho da sala, com o rosto inexpressivo. E, agora que o que tinha acontecido já estava se espalhando, não seria uma boa ideia ignorar o Grupo Ayanokoji.
— Vamos até o café — disse Haruka.
Aceitei o convite e saímos da sala juntos, formando um grupo visível. Mesmo no corredor, ninguém parecia disposto a se separar e seguir sozinho.
— Vocês têm certeza de que está tudo bem? Se não tomarem cuidado, podem acabar virando alvo do grupo do Yamauchi — comentei.
— Se eles vierem atrás de um de nós, que venham. Eu nunca vou deixar alguém do nosso grupo ser expulso.
Haruka estava claramente irritada — e, diferente do normal, não dava sinais de que fosse se acalmar.
— Concordo. Não existe um único motivo para o Kiyotaka ser expulso — disse Keisei, compartilhando da mesma opinião.
Akito e Airi assentiram com firmeza.
— Eu achava estranho não termos conseguido nenhuma informação. Mas agora tudo faz sentido, já que o alvo era alguém do nosso próprio grupo — acrescentou Keisei.
Por mais que tentássemos investigar, não encontraríamos nem um sussurro sobre a identidade do alvo. Agora que sabia o motivo, Keisei parecia convencido. Depois que chegamos ao café e pedimos nossas bebidas, Haruka voltou a falar:
— Acho que o Yamauchi-kun é uma boa escolha para usarmos nossos votos de crítica. Na verdade… acho que é exatamente isso que devemos fazer.
— Não tenho objeções, mas e os outros dois votos?
— Não podemos simplesmente escolher as pessoas que ainda estão do lado dele?
— Mas o número de pessoas assim caiu bastante depois que todos descobriram a ligação dele com a Sakayanagi, não foi? Até o Ike e o Sudou disseram abertamente que não podem apoiá-lo.
— Sim, mas eles são amigos. Acho que ainda vão dar um voto de elogio por pena — disse Haruka.
Provavelmente ela estava certa. Mesmo tendo traído a turma, Yamauchi só estava tentando salvar a própria pele. Por outro lado, também dava para dizer que ele estava sendo usado pela Sakayanagi. Havia espaço para simpatia. No fim das contas, quem incitou todo esse ódio contra Yamauchi foi Horikita…
Não. Fui eu.
Eu contei ao irmão da Horikita o que realmente estava acontecendo — que Yamauchi estava por trás de tudo, mas era manipulado pela Sakayanagi. Depois, fiz com que ele passasse essa informação à irmã. Se, por acaso, Horikita não tivesse feito nada, eu teria feito o mesmo que ela.
— Mas quantos votos de crítica o Kiyotaka vai acabar recebendo? Entre os meninos da turma tem o Yamauchi, claro. Depois o Ike e o Sudou. E também o Hondou, Ijuuin, Miyamoto e o Sotomura. Eles são relativamente próximos do Yamauchi; acho bem provável que votem junto com ele.
Isso daria apenas sete votos de crítica vindos dos garotos.
— E as garotas?
— A Horikita-san com certeza vai dar um voto de elogio para o Ayanokoji-kun e um de crítica para o Yamauchi-kun. Mas não sei o que as outras vão fazer… Você tem alguma ideia, Airi? — perguntou Haruka.
— Acho que a Satou-san e a Karuizawa-san provavelmente não vão dar voto de crítica… — disse Airi.
— Por que acha isso? — perguntou Akito.
— Não sei… é só um pressentimento…
— Intuição feminina — comentou Haruka.
— Não podemos confiar nisso — disse Keisei, claramente achando as estimativas incertas.
— Ah, qual é. Acho que ela está certa. Além disso, se a Airi disse, então provavelmente é verdade.
— O que quer dizer com "provavelmente"? Tirando a Satou, o que ela saberia sobre a Karuizawa? — perguntou Keisei, confuso.
— Ah, para de questionar. O importante é que podemos descartar essas duas como votos de crítica — disse Haruka.
— Não entendo… — murmurou Keisei.
— Tirando essas três, não sabemos muito sobre as outras garotas.
— É. Mas há muitas que não gostam do Yamauchi-kun. Mesmo que mantenham a promessa de usar um voto contra o Kiyopon, podem acabar usando o outro nele.
— Psicologicamente, isso faz sentido — disse Keisei. — Quem quiser se proteger provavelmente vai votar nos alunos com maior chance de expulsão, para garantir que estará seguro independentemente de quem saia. Eles devem ver isso como uma disputa direta entre o Kiyotaka e o Yamauchi. O restante dos votos provavelmente vai se dispersar.
Antes, Koenji parecia o principal alvo para votos de crítica, mas agora devia ter caído algumas posições. Votar contra ele significaria ignorar suas habilidades. Com vários outros alunos prejudicando a classe, ele provavelmente havia descido para o quarto ou quinto lugar entre os alvos mais prováveis.
— Tenho certeza de que você vai ficar bem, Kiyotaka-kun — disse Airi.
— Obrigado.
Eu sabia que, no fundo, Airi ainda temia que alguém pudesse usar seus votos restantes contra ela. Mesmo assim, me encorajou de coração, sem deixar sua ansiedade transparecer.
— Tenho que admitir, você parece o mais calmo de todos aqui, Kiyopon — disse Haruka.
— É só que não há muito que eu possa fazer agora. Por dentro, estou em pânico.
— Não se preocupe. Graças à Horikita, as coisas não parecem tão ruins. Se duvidar, foi como se ela tivesse te salvado.
Se não fosse pelo que Horikita disse, muitos alunos teriam aparecido no dia da votação sem saber o que realmente estava acontecendo — e teriam colocado meu nome na cédula sem pensar duas vezes, preocupados apenas em se salvar.
Era fácil imaginar que isso teria acontecido.
— Mas… de onde será que a Horikita-san soube da traição do Yamauchi-kun? — perguntou Airi de repente, deixando a dúvida escapar. — Nós somos todos próximos do Kiyotaka-kun, então faz sentido que a informação não tenha chegado até nós, certo? Eu pensei que a Horikita-san estaria numa posição parecida, mas…
— É, você tem razão… A Horikita nem parecia que estava tentando formar um grupo — disse Haruka.
Yamauchi provavelmente também estava irritado com isso naquele momento, achando que alguém do grupo que ele mesmo havia montado o traiu e contou tudo à Horikita. Claro, ele não teve tempo nem cabeça para perceber isso na hora.
— Não sei quem foi, mas acho que isso significa que tem alguém por aí que não quer que o Kiyopon seja expulso, né? — disse Haruka.
— É. Nem todo mundo na nossa classe deve ser ruim assim.
Eles não perceberam que esse "alguém" de quem estavam falando éramos, na verdade, Kei e eu.
*
No caminho de volta, vimos Hirata sentado em um banco, com uma expressão completamente vazia. Se qualquer outra pessoa o visse daquele jeito, provavelmente hesitaria em se aproximar — ninguém jamais o tinha visto nesse estado.
— Ele parece totalmente derrotado…
— É. Nem parece ele mesmo.
Tanto Haruka quanto Akito perceberam imediatamente que havia algo errado.
— Acho que vou tentar falar com ele — disse.
— Eu pensaria duas vezes, Kiyotaka. Não acha melhor deixar ele sozinho por enquanto?
— Talvez. Mas tem algo que está me incomodando.
— Algo te incomodando?
— Desculpa. Vocês podem ir na frente. Tenho a impressão de que ele não vai reagir bem se tentarmos falar com ele em grupo. E, se por acaso ele ficar irritado, prefiro que seja só comigo.
— Tudo bem. Mas lembre-se: a votação é amanhã. Provavelmente é melhor não deixá-lo nervoso. Para ser sincero, o Hirata é o mais difícil de entender agora. Não faço ideia de em quem ele vai usar os votos de crítica — disse Akito.
Assenti em resposta ao aviso e me separei do grupo, grato por terem entendido. Eles seguiram em frente, mas eu não fui falar com Hirata imediatamente. Primeiro, tirei uma foto dele — abatido, completamente desanimado — de longe, e a enviei para Kei junto com uma mensagem curta.
— Hirata.
Sem deixar a oportunidade passar, chamei por ele logo em seguida.
— Ayanokoji-kun.
— Tem um minuto?
— Sim, tenho. Bem… na verdade, eu também queria falar com você.
Talvez Hirata estivesse esperando por mim. Caso contrário, não faria sentido ele estar sentado ali no frio. Ele não estava no meio do banco, mas perto da ponta — como se tivesse deixado espaço para alguém.
Sentei-me ao lado dele.
— A primavera vai chegar em breve — disse Hirata.
— É.
— Eu… tinha certeza de que todos nós chegaríamos à primavera juntos. Não… mesmo agora, ainda acredito nisso no fundo do meu coração.
Mesmo que o que aconteceu hoje quase tenha destruído a classe inteira. Apesar de ter exposto seu lado mais feio e vulnerável mais cedo, ele continuava o mesmo em sua essência.
— Eu odeio ter que perder alguém — disse Hirata.
— Mas é um problema sem solução. Seja eu, Yamauchi ou qualquer outra pessoa, alguém terá que ser sacrificado.
O rosto de Hirata continuava sem emoção.
— Posso deixar isso com você? — perguntou.
— Deixar o quê?
— A Classe C. Quero que você lidere a classe daqui em diante, no meu lugar.
— Não seja absurdo. Não posso assumir algo tão grande assim. Se quer proteger as pessoas da nossa classe, faça isso você mesmo, Hirata.
— É impossível. Eu simplesmente… não consigo.
Ele provavelmente se odiava por não conseguir tomar uma decisão. Era quase certo que isso estava passando pela cabeça dele — mas não era só isso.
— Eu cometi o mesmo erro de novo. Passei tanto tempo me arrependendo, refletindo sobre aquilo… e mesmo assim… — disse Hirata, a voz falhando.
As lágrimas que se formavam em seus olhos deixavam claro o quanto ele se arrependia. O quanto esse exame estava o ferindo?
— Sinto que posso descansar tranquilo deixando tudo nas mãos de alguém tão incrível quanto você — disse Hirata.
Ele soltou um suspiro; seu hálito branco se misturou ao ar frio. Ao olhar para ele agora, não havia vestígio do líder admirável da nossa classe.
— Olha, neste exame, pode usar um voto em mim, um no Yamauchi e um na Horikita — sugeri.
— Está dizendo para deixar a decisão nas mãos dos outros alunos?
Não havia necessidade de Hirata escolher entre nós três. Os outros trinta e nove fariam isso por conta própria.
— Você realmente é incrível, Ayanokoji-kun.
— Nem tanto.
— Enquanto estava aqui, tanto a Horikita-san quanto o Yamauchi-kun vieram falar comigo. A Horikita-san me pediu para votar no Yamauchi-kun. O Yamauchi-kun pediu para votar em você. Cada um tentou me convencer à sua maneira. Mas você é o único que não está tentando jogar outra pessoa aos lobos. Isso não é algo que qualquer um consegue fazer.
Era exatamente essa a minha estratégia. Apenas concluí que não era uma boa ideia forçar Hirata a votar em alguém.
— Fico feliz que tenhamos conversado. Sinto que talvez consiga encontrar minha resposta em breve.
— É mesmo?
Hirata se levantou. Talvez tivesse encontrado seu próprio jeito de enfrentar esse exame — embora eu não pretendesse permitir isso.
— Vamos voltar? — sugeriu.
Voltamos para o dormitório juntos, sem dizer mais uma palavra.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios