Volume 4
Capítulo 1: Campo de Treinamento
No fim de julho, a estação das chuvas chegou ao fim, e as escuras nuvens de tempestade foram substituídas por finas nuvens brancas que apenas pontilhavam o céu azul. O primeiro semestre havia terminado, e as férias de verão da Academia Hagun haviam começado oficialmente. Eram relativamente longas, então havia muitos alunos que optaram por voltar para casa durante o verão. As únicas pessoas que permaneceram no campus foram aquelas que queriam aproveitar o verão em Tóquio, aquelas que queriam usar as instalações da escola para continuar treinando mesmo durante as férias e aquelas que tinham situações familiares complicadas e simplesmente não podiam voltar para casa.
Embora Kurogane Ikki se encaixasse em duas dessas três categorias, ele não estava no campus. Tampouco estavam quaisquer de seus amigos ou sua irmã. Isso porque o Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas seria realizado em apenas algumas semanas, em meados de agosto. E, como em qualquer torneio, os participantes estavam em campos de treinamento, fazendo tudo o que podiam para se preparar para as batalhas que se aproximavam.
A Academia Hagun também realizava um campo de treinamento para seus representantes todos os anos — um programa intensivo de dez dias em Okutama, para onde Ikki e Stella haviam ido antes a fim de investigar rumores sobre um monstro. Membros ativos da liga King of Knights haviam inclusive sido convidados para atuar como instrutores durante esse campo de treinamento, tornando-o uma excelente oportunidade para aprender e evoluir.
A razão pela qual Ikki, Stella, Alisuin e Shizuku não estavam no campus era porque estavam participando desse campo de treinamento ou, no caso de Shizuku, auxiliando aqueles que participavam. Contudo, naquele ano, o campo de treinamento da Hagun não estava sendo realizado em Okutama. Embora o gigante de pedra tivesse sido eliminado, Touka e os outros não conseguiram identificar a pessoa que o havia criado. Não havia relatos de outro golem à solta, mas a Diretora Shinguuji ainda assim considerou inseguro ir até lá e, em vez disso, pediu à Academia Kyomon que realizassem um campo de treinamento conjunto no alojamento de Kyomon, em Yamagata.
Kyomon concordou, e foi para Yamagata que todos foram.
◆
Stella Vermillion, a famosa Princesa Carmesin, havia viajado de sua terra natal até a distante nação samurai do Japão unicamente para encontrar oponentes fortes que lhe proporcionassem um verdadeiro desafio. E, naquele momento, ela estava exatamente no tipo de luta que estivera procurando.
“Ngh!”
Chamas carmesim e relâmpagos dourados riscavam a arena de treinamento, espalhando faíscas por toda parte quando se chocavam. Com a lâmina envolta em fogo, Stella investiu contra sua oponente mais uma vez.
O estilo de combate de Stella baseava-se em usar seu poder e velocidade para subjugar os adversários. Seu imenso reservatório de mana permitia que ela fortalecesse o próprio corpo a ponto de se tornar mais rápida e mais forte do que a maioria dos oponentes. Mas, embora as pessoas tendessem a focar em seu poder ofensivo, Stella era uma lutadora completa, sem fraquezas reais dignas de nota. Era tão habilidosa na defesa quanto no ataque.
Era precisamente por poder se adaptar a qualquer situação que fosse necessária que ela era Rank A.
Mas a garota com quem cruzava espadas era forte o bastante para suportar seu ataque feroz. O fato de sua oponente conseguir defender-se de seus golpes já era impressionante, considerando que Stella podia esmagar a maioria das pessoas com um único ataque; porém, em vez de apenas se defender, os aparos da adversária também criavam aberturas para contra-atacar. Isso não era nada surpreendente, considerando que ela enfrentava a Raikiri, Toudou Touka. Touka e os outros membros do conselho estudantil haviam se voluntariado para ir ao campo de treinamento como instrutores.
“Haaah!”
Quando suas espadas se chocaram novamente, Touka girou o pulso e inclinou a lâmina, usando a força do próprio golpe de Stella para redirecioná-lo. Stella projetou-se para frente enquanto Lævateinn deslizava inofensivamente ao lado de Touka.
“Ngh!”
Stella também era uma cavaleira extremamente habilidosa. Ela não deixou que aquele aparo destruísse seu equilíbrio, usando a força poderosa da parte inferior do corpo para se manter firme. Isso, no entanto, a deixou exposta por um breve instante, e Touka não era o tipo de pessoa que deixava passar uma abertura, por menor que fosse.
Ela imediatamente embainhou seu Device, Narukami, então afastou as pernas e começou a reunir eletricidade em sua bainha laqueada de preto.
“Ah!”
Um arrepio percorreu a espinha de Stella. Aquela era a postura que Touka assumia quando estava prestes a liberar sua Noble Art, Raikiri. Era sua carta na manga, e embora Ikki já a tivesse derrotado uma vez antes, isso não mudava o fato de que ela ostentava um poder esmagador em curta distância. Nem mesmo a Princesa Carmesin poderia resistir ao poder de Raikiri, porque, embora sua própria carta na manga, Karsalitio Salamandra, superasse Raikiri tanto em alcance quanto em poder, era muito mais lenta. E, como Touka já estava em posição, Stella não teve escolha senão recuar.
Mas este é o momento que eu estava esperando!
Stella realmente deu um passo para trás, mas aquilo fazia parte de seu plano. A única razão pela qual ela começara a lutar contra Touka em curta distância era para forçá-la a usar seu Raikiri.
Raikiri utilizava os princípios do eletromagnetismo para disparar Narukami para fora da bainha com a força de um canhão de trilho. Porém, devido ao poder avassalador que possuía, Touka não podia interrompê-lo depois de iniciado. O plano de Stella era provocá-lo e então desviar no último instante para tirar proveito da abertura após o golpe errar. Contudo, Touka não desembainhou a lâmina. Ela apenas permaneceu ali, ainda na postura de prontidão, observando Stella cuidadosamente. Stella não pôde deixar de se impressionar com a contenção demonstrada por Touka.
Acho que não vai ser tão fácil fazê-la morder a isca, hein?
Tentar provocar Raikiri e depois desviar era um plano tão simples que qualquer um poderia concebê-lo. Na verdade, era a estratégia padrão de quem enfrentava Touka. Ela já havia lutado contra oponentes suficientes que tentaram isso para estar mais do que preparada.
Nesse caso, vamos tentar algo que só eu posso fazer!
Stella recuou ainda mais, colocando cerca de dez metros entre ela e Touka. A essa distância, nem espadas nem lanças podiam alcançar o adversário. As únicas armas capazes de atingir alguém nesse alcance eram arcos, armas de fogo e magia — e desta última Stella tinha de sobra.
Curta distância estava longe de ser o único alcance em que podia lutar com eficácia — ela era igualmente formidável a longa distância. Ela possuía a maior quantidade de mana dentre todos os cavaleiros atualmente registrados na Federação de Cavaleiros-Magos, e, em batalhas mágicas de longo alcance, quem tinha mais mana possuía uma vantagem enorme. Touka tinha algumas técnicas de longa distância que podia usar, mas acabaria sendo desgastada pelo reservatório de mana superior de Stella se continuasse lutando daquela distância.
“Hah!”
Assim, Touka saltou para a frente, determinada a encurtar novamente a distância entre as duas. Infelizmente, ela tomou sua decisão um segundo tarde demais.
“Haaaaah!”
Stella despejou ainda mais mana em Lævateinn, que já estava envolta pelas chamas de seu Dragon Breath. A espada absorveu sua mana avidamente, as chamas tornando-se ainda mais brilhantes e mais intensas. Então, ela apontou a lâmina para Touka, que avançava diretamente em sua direção.
“Devore! Dragon Fang!”

Ela liberou todo o poder que havia acumulado em Lævateinn, e as chamas que a envolviam tomaram a forma de um dragão. A serpente flamejante abriu as mandíbulas e avançou sobre Touka. Touka desviou levemente para o lado para evitar as presas ardentes, mas o dragão mudou de direção para acompanhá-la.
O Dragon Fang de Stella era mais do que uma simples explosão de fogo em forma de dragão. O dragão flamejante que ela criava perseguia seu inimigo até finalmente abocanhá-lo com sua mandíbula incandescente. Como Stella podia controlar a mana que compunha o dragão, era impossível despistá-lo.
Havia apenas um recurso disponível para Touka contra aquele dragão: destruí-lo com sua própria Noble Art. Dragon Fang era poderoso o bastante para destruir qualquer coisa presa em sua boca, então nada menos que o Raikiri de Touka seria suficiente para aniquilá-lo. E assim, Touka rapidamente voltou à sua postura.
“Raikiri!”
Ela liberou seu ataque mais forte contra o dragão sem hesitar. Afinal, não tinha outra escolha. E aquilo era exatamente o que Stella estivera esperando.
Agora eu te peguei!
No instante em que Touka usou Raikiri, Stella avançou. Por mais poderosa que fosse a técnica, ela deixava Touka vulnerável por um breve momento logo após sua execução, e Stella pretendia tirar proveito disso. Aquela era sua oportunidade de encerrar o combate. Graças à sua velocidade quase divina, ela alcançou a oponente em menos de um segundo e então desferiu um golpe descendente com Lævateinn com toda a sua força, certa de que Touka não poderia se defender.
“O qu—”
E, ainda assim, um segundo antes de a lâmina de Stella atingir o alvo, Touka fez algo completamente inesperado.
Ela está... girando?!
Usando a propulsão de seu próprio movimento, Touka de fato girou em círculo e lançou um segundo ataque, desta vez direcionado a Stella. Ela havia percebido o plano de Stella e se preparado adequadamente, liberando deliberadamente seu Raikiri para atrair Stella a se comprometer com um ataque decisivo. E Stella havia caído na armadilha.
Narukami atingiu o estômago de Stella, atravessando-a.
“Ngh.”
Como tanto a lâmina de Stella quanto a de Touka estavam em forma fantasma, Stella não sofreu ferimentos físicos, mas teve toda a sua resistência drenada e caiu sobre um joelho. Ao fazê-lo, Touka encostou Narukami em seu pescoço, indicando que a batalha havia terminado.
“Eu não sabia que você já tinha maneiras de lidar com fintas como essa”, disse Stella, franzindo a testa.
“Isso porque é a primeira vez que uso essa técnica em uma batalha real. Você não está errada por tentar tirar vantagem das fraquezas do seu oponente, mas lembre-se de que, no nível nacional, a maioria dos Blazers é capaz de usar as próprias fraquezas para armar armadilhas contra seus adversários. Pode ter certeza de que o Soberano das Sete Estrelas do ano passado, Moroboshi-san, também é capaz disso. Se você quer chegar ao topo, vai precisar melhorar na leitura do seu oponente”, explicou Touka. “Você ainda tem um longo caminho pela frente, Stella-san”, acrescentou com um sorriso.
Stella apenas soltou um grunhido frustrado, incapaz de responder.
◆
“Bem, parece que a Princesa Carmesim perdeu.”
“Ah, qual é.”
Duas garotas suspiraram em uníssono enquanto observavam a batalha de Stella e Touka à distância. Ambas usavam braçadeiras amarelas com os dizeres “Clube de Jornal”. Eram membros do clube de jornalismo da Bunkyoku que haviam vindo até ali para coletar informações sobre os representantes da Hagun e da Kyomon.
Esses campos de treinamento ofereciam às escolas a rara oportunidade de permitir que seus alunos estudassem os Blazers mais fortes das instituições rivais. O clube de jornalismo de cada escola enviava pelo menos alguns membros a cada campo de treinamento. As duas garotas da Bunkyoku tinham vindo de Kyushu para aprender mais sobre a cavaleira de quem todos falavam: Stella Vermillion.
“Cara, que decepção.”
“Teria rendido um ótimo artigo se ela tivesse conseguido derrotar a Raikiri.”
“Pois é, quem vai querer ler um artigo intitulado ‘Acontece que a Princesa Carmesin Sempre Foi Fraca!’?”
Elas balançaram a cabeça, desapontadas. Queriam escrever artigos sobre uma vitória surpreendente de Stella, já que um artigo sobre sua derrota não seria nem de longe tão interessante. Enquanto isso, Kusakabe Kagami, que também usava uma braçadeira amarela do clube de jornalismo e observava a luta de um ponto ligeiramente diferente, lançou às duas um olhar exasperado.
“Aff, será que todos os jornalistas da Bunkyoku são cegos ou algo assim?”, murmurou baixinho.
“Parece que sim. Estão tão preocupadas em ver o resultado que querem ver que não estão prestando atenção no que realmente deveriam. São uma vergonha para os jornalistas de todo lugar.”
Alisuin Nagi, que estava ao lado de Kagami, disse isso enquanto balançava a cabeça. As duas já tinham visto Stella lutar vezes suficientes para saber que ela definitivamente não havia perdido por ser fraca. Sinceramente, qualquer pessoa com o mínimo de capacidade de observação teria percebido isso.
“Cara, aquela foi uma batalha insana”, disse alguém ao se aproximar de Kagami. “A gente poderia ter ganhado uma fortuna se tivesse cobrado ingresso pra assistir.”
“A formação da Hagun está impressionante este ano, Kusakabe”, acrescentou a pessoa que vinha ao lado.
A dupla, um garoto e uma garota, balançou a cabeça em admiração. Kagami sorriu para eles.
“Não sabia que vocês também estavam aqui, Yagokoro-san, Komiyama-san.”
“Claro que estamos. Nenhum jornalista que se preze perderia um confronto entre a Princesa Carmesin e a Raikiri.”
“Exatamente.”
Enquanto conversava, Kagami sentiu um toque em seu ombro. Ela se virou para ver Alisuin, que perguntou:
“Quem são seus amigos, Kagamin?”
Com isso, Kagami se lembrou de que era a primeira vez que Alisuin encontrava aqueles dois.
“Foi mal, esqueci de apresentar vocês. A garota animada aqui é Yagokoro-san, do clube de jornalismo da Academia Bukyoku. E esse cara aqui é Komiyama-san, do clube de jornalismo da Donrou.”
“É um prazer conhecê-la, Alisuin-san”, disse Komiyama.
“E aí?”, disse Yagokoro.
“Entendo, então vocês também são jornalistas.”
“Isso mesmo. Como pode ver, estamos usando as mesmas braçadeiras amarelas.”
Alisuin assentiu em compreensão enquanto Komiyama erguia o braço para mostrar a braçadeira.
Yagokoro aproximou-se de Alisuin e disse: “Cara, eu ouvi os rumores, mas você é ainda mais bonito pessoalmente. Poderia virar idol se quisesse.”
“Yagokoro, você está sendo rude.”
Komiyama deu uma cotovelada em Yagokoro para fazê-la parar de encarar o rosto de Alisuin. Mas Alisuin não pareceu se importar nem um pouco. Ela sorriu e disse: “Aha ha, está tudo bem. Além disso, garotas adoram receber elogios.”
“‘G-Garotas’?”, gaguejou Komiyama, confuso.
“Ah, sim, essa é a Alice-chan. Não é nada com que se preocupar, Komiyama-san”, disse Kagami alegremente.
“E-Eu vou tentar não me preocupar.”
“Espera, você não sabia sobre a Nagi-san, Komi-yan? Que tipo de jornalista não faz a própria pesquisa?”
“Urk. Olha, eu não achei que fosse importante pesquisar os fetiches dela, tá bom?”
Isso é tão a sua cara, Komiyama-san, pensou Kagami.
Naturalmente, jornalistas tinham preferências sobre o que gostavam de investigar. Yagokoro e Kagami se interessavam mais pelas personalidades e histórias dos Blazers do que por suas habilidades. Também exageravam bastante em seus artigos. Komiyama, por outro lado, relatava a verdade conforme a via e se interessava muito mais pela capacidade de combate dos Blazers competidores. Assim, era natural que ele não tivesse pesquisado que tipo de pessoa Alisuin era.
“Mas você não deveria estar treinando também, Nagi-san? Você é um ds representantes da Hagun, não é?”, perguntou Yagokoro.
“Eu só consegui entrar porque tive a sorte de não ser emparelhada contra nenhum oponente forte. Para ser sincera, não estou tão interessada no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Peço desculpas àqueles que perderam para mim, mas estou realmente aqui apenas para ajudar minha colega de quarto no que ela precisar. É por isso que estou aqui, aproveitando com calma.”
“Apenas sorte, é? Precisa de mais do que sorte para vencer vinte batalhas seguidas, não importa o que você diga.”
“Receio que seja apenas isso mesmo.”
“Bem, é sua escolha o quanto se importa com o Festival”, interveio Komiyama. “Além disso, ter representantes de todo tipo aqui vai tornar a cobertura mais interessante.”
“Mas que cavalheiro atencioso.” Alisuin lançou a Komiyama um olhar sugestivo.
“E-Eu sou hétero, tá?”, gaguejou Komiyama, recuando.
Kagami então olhou para os dois repórteres e perguntou: “A propósito, Yagokoro-san, Komiyama-san, o que acharam da luta?”
“A entre a Princesa Carmesin e a Raikiri?”
“Sim.”
“Bem, se eu tivesse que resumir, elas são absurdamente fortes.”
“Qual delas?”
“As duas, obviamente.”
Ao ouvir aquilo, Kagami sorriu. — Eu devia saber que vocês dois, pelo menos, têm olhos que funcionam. — Diferentemente das duas garotas da Bukyoku, Yagokoro e Komiyama haviam compreendido corretamente o quão impressionante fora a luta anterior.
“A Princesa Carmesin é tão forte quanto os rumores dizem. Cada um dos ataques dela é poderoso e preciso. Ela é o tipo de Blazer que surge uma vez por geração. Não perdeu porque é fraca. É só que a Raikiri é forte demais”, disse Komiyama.
“Pois é, né? O Komi-yan e eu estamos no terceiro ano e acompanhamos a Raikiri no ano passado também, durante o Festival. Posso afirmar com certeza que ela está muito mais forte agora do que estava naquela época.”
“Imagino que ela tenha treinado como nunca antes, sabendo que essa era sua última chance de conquistar o título de Soberano das Sete Estrelas. Por isso não consigo acreditar que ela esteja aqui não como representante, mas como treinadora voluntária. Ou que, mesmo tendo força para derrotar até Blazers Rank A, tenha sido um Rank F quem tomou sua vaga de representante.”
Komiyama voltou o olhar para outro canto da área de treinamento. Lá, o homem que havia derrotado Touka — Kurogane Ikki, o Rank F conhecido como “Worst One”, que abrira caminho pelas seletivas — parecia estar treinando com duas garotas.
“O que ele está fazendo ali, afinal?”, perguntou Yagokoro.
“Deve ser um combate simulado, né? Ele está com a Intetsu materializada”, respondeu Kagami.
“Ele está enfrentando as irmãs Hagure. Elas são duas das representantes da Hagun”, acrescentou Alisuin.
“Dois contra um?”, perguntou Komiyama.
“O senpai provavelmente dá conta disso sem suar”, disse Kagami com confiança.
De fato, as gêmeas do terceiro ano, Hagure Kikyou e Hagure Botan, haviam pedido a Ikki que treinasse com elas.
“Toma essaaa!”
Hagure Kikyou ativou sua Noble Art, que aumentava drasticamente sua velocidade, e avançou contra Ikki com seu Device em forma de lança. Ikki, porém, não se abalou nem um pouco com a velocidade de seu avanço; calmamente, ergueu o pé e o cravou na ponta da lança, forçando-a contra o chão.
“Isso deve resolver.”
“O quê?!”
Com a lança presa ao solo, a investida de Kikyou transformou-se involuntariamente em um salto com vara, e ela foi arremessada para o alto. Voou por cima da cabeça de Ikki e seguiu direto na direção de sua irmã, Hagure Botan, que vinha mirando em Ikki por trás com suas pistolas duplas.
“Hã?”
“Waaah?!”
“Eek!”
Kikyou caiu sobre a irmã, e as duas rolaram pelo chão em um emaranhado. Ikki correu até elas e perguntou, em tom preocupado: “Vocês duas estão bem?”
“Ai... Sim, estou bem. E você, Botan-chan?”
“Acho que ralei alguma coisa.”
“Shizuku.”
“Deixe comigo, Onii-sama.”
Shizuku, que estava esperando ao lado, deu um passo à frente e usou magia de cura em Botan. O arranhão em seu joelho começou a se fechar imediatamente. Enquanto Shizuku cuidava dela, Ikki ofereceu alguns conselhos às irmãs Hagure.
“Seu maior trunfo é a velocidade, Kikyou-senpai, mas você precisa ter cuidado com o momento em que decide usá-la. Não há muito sentido em avançar contra um oponente cuja arma tem menos alcance que a sua. Você basicamente está abrindo mão de uma das vantagens que a lança oferece. Seria melhor esperar que o oponente venha até você nessas situações. Além disso, não recomendo ficar diretamente alinhada com a Botan-senpai quando estiver tentando montar um ataque combinado. Se fizer isso...”
Não era muito diferente das aulas improvisadas que ele dava na escola.
Enquanto Kagami e os outros observavam, Alisuin comentou: “Está mais para o Ikki dando uma aula de treinamento do que para uma luta de sparring.”
A batalha havia sido unilateral demais para ser considerada um sparring adequado. Na verdade, as irmãs Hagure haviam pedido que Ikki treinasse com elas justamente porque queriam que ele as treinasse, então Alisuin estava correta.
“Então ele está treinando as mesmas pessoas contra quem vai lutar no Festival de Arte das Espada das Sete Estrelas. Mas tenho que dizer, o Worst One é mesmo impressionante. Ele nem precisou balançar a espada naquela luta”, disse Komiyama.
“Kagami-chan, as irmãs Hagure são fracas?”, perguntou Yagokoro, voltando-se para Kagami.
“De jeito nenhum”, respondeu Kagami, balançando a cabeça. “Claro, algumas pessoas estão dizendo que elas tiveram sorte por enfrentarem apenas oponentes fracos, do mesmo jeito que disseram que o Senpai e a Stella-chan tiveram sorte nas seletivas, mas isso é cem por cento falso. As duas derrotaram alguns dos cavaleiros mais fortes da escola nas seletivas também. Talvez não tenham enfrentado adversários tão fortes quanto a Raikiri ou a Runner’s High, mas de forma alguma são fracas.”
“E mesmo assim o Worst One fez parecer tão fácil derrotá-las. Ele deve ser realmente alguém especial”, disse Yagokoro, impressionada. “Ele deve ter muita confiança nas próprias habilidades para estar disposto a gastar o precioso tempo que tem neste campo treinando outras pessoas também.”
“O Senpai só gosta de cuidar dos outros, então provavelmente está fazendo isso para relaxar um pouco.”
“Além disso, o Ikki já derrotou todos os treinadores que a Kyomon tinha preparado até o terceiro dia”, acrescentou Alisuin.
Aquele era o quarto dia do campo de treinamento, e Ikki já havia derrotado, em combates simulados, todos os treinadores que a Kyomon havia convocado. Mesmo que quisesse treinar, não havia ninguém ali no mesmo nível que ele para servir de parceiro. a treinadora mais forte presente provavelmente era Touka — e Ikki a havia vencido em uma luta real.
“Bem, se as coisas continuarem assim, isso vai prejudicar a imagem da Kyomon, já que foram eles que organizaram este campo de treinamento”, continuou Alisuin. “Por isso chamaram um treinador especial só para o Worst One.”
“Fico me perguntando quem eles chamaram”, ponderou Kagami. “Tenho certeza de que a Diretora Shinguuji ou o Saikyou-sensei adorariam ter vindo, mas eles estão em Osaka para suas lutas oficiais da KOK e para se preparar para o Festival. Mas todos os treinadores que o Senpai derrotou eram membros de alto escalão da liga nacional japonesa da KOK, então qualquer Cavaleiro-Mago comum não vai conseguir fazer muita coisa.”
“O fato de precisarem de alguém mais forte que um lutador ativo da KOK já mostra o quão absurdo o Worst One é”, comentou Komiyama.
“A formação da Hagun está realmente sólida este ano, né? Dá até um pouco de preocupação se vamos ter alguma chance”, disse Yagokoro, que era da Bukyoku, em tom brincalhão.
Kagami abriu um sorriso. “Não vem com essa falsa humildade. Como se você realmente achasse que vai perder. Além disso, a Bukyoku também não tem um integrante absurdamente forte no time este ano?”
A Bukyoku vinha vencendo o Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas de forma consistente nos últimos anos. O atual Soberano das Sete Estrelas, Moroboshi Yuudai, também era de lá. A escola era famosa não apenas no Japão, mas no mundo inteiro, como uma das principais instituições de Blazers.
Além disso, havia um homem que forçou passagem pelos representantes mais fortes dessa escola renomada e garantiu para si uma vaga no Festival no último instante — o homem conhecido como Gale Emperor e o único Blazer Rank A nativo do Japão, Kurogane Ouma.
“Por algum motivo, ele não se deu ao trabalho de participar do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas quando estava no primeiro ou no segundo ano, mas parece que finalmente fará sua estreia. Quando vi a formação da Bukyoku, fiquei chocada”, acrescentou Kagami.
“Eu também”, respondeu Komiyama. “Eu tinha certeza de que ele também não participaria este ano. Acho que a Bukyoku está levando a vitória realmente a sério, se ele faz parte do time agora.”
A Hagun tinha a Princesa Carmesin, uma Blazer Rank A vinda do exterior, além do Worst One, que havia derrotado até mesmo a famosa Raikiri. Todas as outras escolas também contavam com alunos do primeiro ano que haviam demonstrado talento excepcional. Era honestamente estranho o quanto de sangue novo estava chegando ao Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas daquele ano.
Estava claro que aquele ano seria especial, e provavelmente era por isso que a Bukyoku havia convencido Ouma — que estava ranqueado ainda acima do atual Soberano das Sete Estrelas, Moroboshi — a participar também. Pelo menos, era isso que Komiyama e Kagami presumiam. No entanto, Yagokoro balançou a cabeça.
“Não é isso que vocês estão pensando. O Gale Emperor não está nem aí para o que a escola quer. Ele nunca aparece nas aulas, e ninguém consegue entrar em contato com ele. Foi ele quem fez questão de se inscrever por conta própria. Nem preciso dizer que fiquei tão chocada quanto vocês.”
“Espera, então a escola não pediu para ele participar?”, perguntou Kagami.
“Não.”
“Entendo. Bem, imagino que, se ele quis participar, a escola não tinha motivo para dizer não.”
“Basicamente isso. Por isso organizaram uma luta especial de emergência contra o Shibata-kun, o membro de classificação mais baixa do nosso time, e decidiram que quem vencesse seria o próximo representante.”
“E imagino que o Ouma-san venceu?”
“Nem dá para chamar aquilo de luta. O pobre Shibata-kun foi completamente superado”, disse Yagokoro, com uma expressão de simpatia. Estava claro que Shibata havia perdido feio.
“Sinto pena do Shibata-san, mas ter o Gale Emperor como uma adição de última hora é exatamente o tipo de história sensacional que nós, jornalistas, estamos sempre procurando.”
“É. Quanto mais lutadores fortes houver, mais interessantes serão os artigos que poderemos escrever.”
“As pessoas na internet já estão animadas com a possibilidade de um duelo entre a Pricesa Carmesin e o Gale Emperor.”
“E dá para culpar? Não temos dois cavaleiros estudantes Rank A se enfrentando desde a batalha entre a World Clock e a Demon Princess, todos aqueles anos atrás.”
Aquela batalha havia sido tão lendária que até hoje ainda era comentada. Coincidentemente, também tinha sido um confronto Leste contra Oeste — Hagun contra Bukyoku.
“É uma pena que a nossa escola não seja tão impressionante, considerando que também fazemos parte do lado Leste”, disse Komiyama, dando de ombros.
“Mas ouvi dizer que, depois de lutar com o Senpai, o Sword Eater de vocês voltou a levar os treinos a sério.”
“Se eu for honesto, ele é nossa única esperança. Estou torcendo para que consiga fazer uma boa apresentação, já que o resto do nosso time provavelmente não vai. A personalidade dele é péssima, mas não dá para negar que o Sword Eater tem talento quando o assunto é lutar. Mas, de novo, o fato de ele ter voltado a treinar tem a ver com o Worst One.”
O instinto jornalístico de Komiyama dizia que o verdadeiro azarão deste torneio não seria o Sword Eater, mas sim o Worst One — mesmo que ele preferisse ver o primeiro vencer.
“Algumas pessoas começaram a comentar sobre ele depois do duelo com a Princesa Carmesin, mas depois de derrotar a Raikiri, todo mundo só fala dele”, continuou. “Todos querem ver até onde um Blazer Rank F desconhecido pode chegar neste torneio. Você não ouviu isso de mim, mas parece que uma grande emissora de TV está planejando fazer uma reportagem especial longa só sobre o Worst One antes do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas.”
“Ele venceu a Princesa Carmesin, derrotou a Raikiri com um único ataque e ainda por cima é o irmão mais novo do Gale Emperor. Faz sentido que queiram entrevistá-lo e tudo mais”, disse Yagokoro, assentindo.
Kagami sorriu enquanto ouvia a conversa. Era uma sensação agradável ver o cavaleiro que ela vinha acompanhando pessoalmente há alguns meses receber tanta atenção. Parecia uma confirmação de que seu faro para identificar pessoas notáveis era genuíno — mas, mais importante, ela estava feliz por Kurogane Ikki finalmente estar recebendo o respeito que merecia. Ela sabia muito bem o quanto ele havia lutado para chegar até ali.
Embora, como repórter, eu não possa me deixar levar por favoritismo em relação a um único cavaleiro.
Mesmo dizendo isso a si mesma, Kagami não conseguia evitar torcer por Ikki. — Que garota não apoiaria um rapaz tão sincero? — E assim, decidiu que, só desta vez, permitiria a si mesma ser parcial.
“Hmm?”
Quando Kagami voltou o olhar para Ikki, percebeu alguém pelo canto do olho. Uma garota de cabelos loiro-acinzentados que, assim como Kagami e seus amigos, observava o combate de Ikki à distância.
“Espera… aquela não é a Icy Sneer da Kyomon?”, murmurou Kagami.
“É sim”, respondeu Yagokoro. “Será que ela está tentando coletar informações sobre o Worst One?”
“Vamos perguntar”, sugeriu Komiyama.
“É, a gente definitivamente precisa ouvir o que ela— Ei, Komiyama-san! Não sai correndo sem a gente!”, gritou Kagami.
“Espera aí, Komi-yan! Não vou deixar você ficar com ela só para você! Ah, é mesmo — depois eu volto para te entrevistar também, Nagi-san, então até já!”
Yagokoro lançou um olhar rápido para Alisuin antes de sair correndo atrás de Komiyama. Kagami, porém, não foi junto de imediato, já que estava ali acompanhando Alisuin. Não seria justo simplesmente sair correndo e deixá-la para trás.
Então, virou-se para ela e perguntou:
“Alice-chan, você se importa de esperar aqui um pouquinho?! Eu também quero entrevistar a Icy Sneer!”
Mas Alisuin não respondeu. Ela estava olhando para o chão, aparentemente perdida em pensamentos.
“Alice-chan?”
“Hmm? Ah, desculpa, Kagamin, eu não estava prestando atenção. O que você disse?”
Kagami repetiu que queria ir entrevistar a Icy Sneer, e Alisuin imediatamente assentiu.
“Claro. Divirta-se. Eu fico esperando aqui.”
“Beleza. Já volto!”
Kagami saiu correndo atrás dos dois colegas repórteres. Enquanto se afastava, lembrou-se da expressão anterior de Alisuin.
O que será que está passando pela cabeça da Alice-chan? — Kagami a conhecia havia alguns meses, e aquela era a primeira vez que a via deixar de prestar atenção no que estava sendo dito ao redor. — Será que ela está ficando nervosa agora que o Festival está tão perto? Ela ficou quieta bem quando começamos a falar sobre Kurogane Ouma… talvez tenha algo a ver com isso.
Depois de refletir um pouco, Kagami concluiu que talvez não fosse nada demais. Todo mundo se distrai de vez em quando.
Ela alcançou a Icy Sneer naquele momento, e seus pensamentos sobre Alisuin desapareceram completamente. Komiyama já havia começado a entrevista, e ela chegou bem a tempo de ouvi-la.
“Boa tarde, aqui é Komiyama, do clube de jornalismo do Donrou. Icy Sneer, Tsuruya Mikoto-san, o que você achou do Worst One — ou melhor, do Another One — depois de assistir ao combate simulado? Você acredita que as habilidades de Kurogane Ikki estejam à altura dos oito melhores do país?”
Era uma entrevista completamente improvisada, mas alguém tão forte quanto Tsuruya estava acostumada a lidar com repórteres. Ela não pareceu surpresa nem incomodada com a abordagem repentina de Komiyama.
“Repórteres não deveriam se apressar tanto em buscar respostas”, disse ela com um sorriso insinuante. “Existe realmente algum sentido em explicar com palavras qual é a minha impressão sobre ele? Para cavaleiros como nós, tudo o que importa é o resultado da luta. O palco para nossa grande batalha já está montado. Em breve, vocês verão com seus próprios olhos se as habilidades dele estão ou não à nossa altura. Nosso confronto trará à luz a verdade impiedosa.”
O sorriso de Tsuruya se transformou em um sorriso gélido. Um arrepio percorreu a espinha dos três repórteres, que finalmente entenderam por que ela era chamada de Icy Sneer.
“Agora, se me dão licença.”
Tsuruya girou nos calcanhares e seguiu em direção à saída do campo de treinamento. Embora não tivesse dado uma resposta clara, seu passo confiante deixava evidente para os três repórteres que ela tinha absoluta fé na própria força.
“Acho que, quando você está entre os oito melhores do país, pode se dar ao luxo de agir com essa confiança”, comentou Komiyama, soltando um suspiro de alívio.
“A presença dela é assustadora. Aquele sorriso quase me fez congelar”, respondeu Yagokoro.
Kagami teve uma impressão semelhante da força de Tsuruya, mas sua fé em Ikki era ainda maior. Afinal, Ikki havia derrotado o Sword Eater, que também estava entre os oito melhores lutadores do Japão, e a Raikiri, que chegara até as semifinais.
Vamos ver quanto tempo essa sua confiança dura.
Embora Kagami achasse que Tsuruya estivesse sendo excessivamente confiante, alguém que chegara ao top oito nacional dificilmente subestimaria um oponente a esse ponto.
Ao sair do campo de treinamento, uma amiga e também representante da Kyomon se aproximou dela.
“Ei, Mikocchan. O que achou dos representantes da Hagun este ano? Acha que consegue esmagá-los?”
Tsuruya exibiu o mesmo sorriso frio que lhe rendera o apelido de Icy Sneer e respondeu, com absoluta convicção:
“De jeito nenhum.”
Tsuruya Mikoto era muito mais forte do que Kagami e os outros imaginavam. Forte o bastante para avaliar com precisão a diferença de poder entre ela e seu oponente. Por isso, sabia melhor do que qualquer repórter que não tinha a menor chance contra o Worst One.
“Você viu aquele homem lutar?”, perguntou. “Ele derrotou três lutadores da KOK. Nunca ouvi falar de alguém conseguir isso.”
Tsuruya apoiou-se fracamente contra a parede. Enquanto lamentava seu destino, ouviu gritos surpresos vindos de dentro do campo de treinamento.
“Espera — aquele não é Nangou Torajirou?!”
“Você quer dizer que o treinador especial que trouxeram para o Worst One é o Deus da Guerra?! Só pode ser brincadeira!”
“Eu gostaria que fosse”, murmurou Tsuruya, escorregando até o chão e abraçando os joelhos. Ergueu o olhar para o céu e disse, em tom suplicante:
“Deus, por favor… não me coloque contra aquele monstro na primeira rodada!”
Diferentemente de antes, todos ali compreendiam corretamente o quão forte o Worst One realmente era — a ponto de ele ser considerado um dos favoritos ao título, ao lado de outros três principais candidatos.
Esses três eram, naturalmente, o atual Soberano das Sete Estrelas, Moroboshi Yuudai; a cavaleira Rank A Princesa Carmesin, Stella Vermillion; e o outro cavaleiro Rank A, Kurogane Ouma, o Gale Emperor.
A questão era: como Ikki se compararia a esses três? Será que o Mestre da Espada Sem Coroa finalmente conquistaria sua primeira coroa?
Tanto os demais participantes quanto os espectadores ansiosos aguardavam, prendendo a respiração, para ver até onde Ikki conseguiria chegar.
◆
O campo de treinamento da Kyomon não possuía um programa específico preparado para os alunos. Os treinadores voluntários ministravam aulas por iniciativa própria, mas cabia a cada estudante decidir se queria ou não participar. Era difícil estabelecer um currículo unificado para Blazers, já que as habilidades variavam enormemente de um para outro. Forçar todos a seguirem o mesmo tipo de treino não resultaria em um crescimento eficiente para a maioria dos cavaleiros.
Por isso, cada um organizava seu próprio plano de treinamento — sozinho ou com amigos, dependendo de sua preferência.
Assim, no tempo livre antes do jantar, Stella convidou Ikki para correr com ela. Eles faziam um percurso de ida e volta até o distrito comercial da cidade vizinha, totalizando vinte quilômetros. Para os dois, aquela distância sequer era suficiente para fazê-los suar de verdade. Servia mais como um exercício leve de desaquecimento após os treinos intensos. Além disso, Stella queria descarregar o estresse acumulado por ter perdido para Touka.
“Ugh! Eu ainda não acredito que caí naquela!”, exclamou Stella, sentada ao lado de Ikki em um banco de parque perto da área comercial. Ela balançava as pernas no ar como uma criança emburrada.
“Correr não te fez se sentir melhor?”, perguntou Ikki.
“Nem um pouco!”
Eles haviam corrido ao dobro do ritmo habitual, mas mesmo depois de lavar o rosto na fonte do parque, Stella continuava frustrada. Na verdade, desde a viagem a Okutama, ela já tinha a vaga sensação de que Touka era mais forte do que ela. Esse sentimento só aumentara após assistir ao duelo entre Touka e Ikki. Ainda assim, perder em uma luta real a incomodava profundamente.
“Agora que lutei contra ela, posso afirmar com certeza: ela é absurdamente forte.”
“Toudou-san é praticamente invencível em combate corpo a corpo. É difícil enfrentá-la nessa distância.”
“Mas você conseguiu, Ikki.”
“Porque combate corpo a corpo é a única distância em que eu posso lutar. Se eu não vencer ali, não venço em lugar nenhum.”
Stella não conseguiu evitar sentir um pouco de inveja. Ela não tivera a menor chance contra a Raikiri, mas seu namorado, que desafiara Touka em seu próprio território e vencera, tratava aquilo como algo trivial. O duelo deles estava gravado em sua memória como uma imagem permanente — ela se lembrava de cada detalhe com nitidez. E, embora estivesse orgulhosa do que Ikki havia conquistado, não suportava a ideia de que não estava mais próxima do nível dele do que quando se conheceram.
“Não acredito que ela só ficou em quarto lugar no torneio do ano passado. O Japão deve ter Blazers realmente incríveis”, comentou Stella.
“Em torneios de eliminação simples, às vezes você só acaba enfrentando o oponente errado na hora errada. O fato de a Toudou-san ter ficado em quarto não significa necessariamente que existam três pessoas mais fortes que ela. Além disso, ouvi dizer que ela precisou abandonar a disputa pelo terceiro lugar porque um parente dela ficou doente.”
“Pode ser, mas isso não torna aceitável eu perder para ela. Tanto você quanto o atual Soberano das Sete Estrelas conseguiram vencê-la, o que significa que há pelo menos duas pessoas mais fortes que ela neste torneio. Se eu estou perdendo para ela, então não há como eu te derrotar e conquistar o título de Soberana das Sete Estrelas para mim. E ainda tem outro representante que estou de olho.”
“Quem?”
“Ele é de Bukyoku, a mesma escola do Soberano das Sete Estrelas. Ouma Kurogane.”
Ikki arquejou de surpresa ao ouvir aquele nome.
Ao perceber sua reação, Stella disse:
“Então ele realmente é da mesma família que você e a Shizuku.”
“É… Ele é meu irmão mais velho.”
“Eu não sabia que você tinha um irmão mais velho, Ikki. Na verdade, só depois de vê-lo na lista da Bukyoku é que descobri que o Japão também tem um Cavaleiro-Estudante Rank A.”
“Isso porque, nos últimos dois anos — ou melhor, desde que entrou no ensino fundamental, então já faz uns cinco anos — ninguém fazia ideia de onde ele estava ou o que andava fazendo.”
“Quer dizer que ele estava desaparecido?”
“Não exatamente. Pelo que a Shizuku me contou, ele liga para casa de vez em quando, e já apareceu em público algumas vezes. Mas ele some por dias sem que ninguém saiba o que está fazendo, e não participa de nenhuma luta pública há cinco anos. Ele foi campeão da liga infantil no ensino fundamental, e todo mundo estava ansioso para ver até onde ele iria depois disso. Só que, como nunca mais apareceu, a mídia perdeu o interesse. A esta altura, mais gente se interessa pela Shizuku do que por ele. É por isso que você provavelmente nunca ouviu falar.”
“Entendi. Faz sentido. Mas então por que ele decidiu voltar a lutar agora? Você faz ideia?”
“Não faço a menor ideia”, respondeu Ikki, balançando a cabeça.
“Mesmo sendo seu irmão?”
“O Ouma-niisan era uma ovelha negra na família, assim como eu”, explicou Ikki, exibindo um sorriso triste. “Eu praticamente nunca conversava com ele. Conheço ele menos do que conheço meu próprio pai. Então realmente não saberia dizer o que ele está pensando. A principal impressão que tenho dele, pelas poucas vezes que o vi, é que ele era extremamente obstinado.”
“Em que sentido?”
“Ele acreditava que a vida girava em torno de ficar mais forte.”
“Então ele era como você?”
Ikki voltou a balançar a cabeça.
“Não. Ele era muito mais radical do que eu. O Ouma-niisan literalmente não se importava com nada além de se tornar mais forte. Não tinha interesse nenhum no irmão ou na irmã, que eram mais fracos do que ele. Nem mesmo se importava com o pai, que também era mais fraco. Em uma entrevista, ele disse que não tinha interesse em participar do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas ou de qualquer outro torneio porque ‘Não há ninguém lá que valha a pena enfrentar.’”
“Parece que ele confia bastante nas próprias habilidades.”
“Ele tem força para sustentar essa confiança. E, como tudo o que importa para ele é ficar mais forte, provavelmente está participando deste Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas porque acredita que isso o tornará ainda mais forte. É só um palpite, mas acho que o alvo dele é você, Stella. Vocês dois são estudantes que alcançaram o Rank A. Existem pouquíssimos assim no mundo inteiro. Se eu estivesse no lugar do Ouma-niisan, com certeza iria querer lutar contra você.”
Stella assentiu, compreendendo. Ela também tinha grande interesse em encontrar outro cavaleiro estudante Rank A. Naturalmente, queria enfrentá-lo — portanto, era lógico supor que ele estivesse pensando exatamente o mesmo.
“A propósito, quão forte você diria que o Ouma é?”
“Tão forte quanto ele diz ser.”
“Sério?”
“Quando ele disse que não havia ninguém nos torneios anteriores que valesse a pena enfrentar, não estava se gabando.”
Houve um leve tremor na voz de Ikki ao dizer isso — e mais do que suas palavras, foi esse detalhe que fez Stella estremecer.
Ainda assim, o que ele havia dito já era assustador o bastante. Se Kurogane Ouma não havia participado do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas nos anos anteriores porque acreditava que não havia ninguém forte o suficiente para desafiá-lo, isso significava que ele considerava a Raikiri e até mesmo o Soberano das Sete Estrelas do ano passado inferiores a ele. E o fato de Ikki demonstrar cautela em relação a ele indicava que Ouma poderia realmente ser mais forte do que ambos. Stella jamais ouvira Ikki falar tão seriamente sobre a força de outra pessoa. Se alguém como ele estivesse competindo no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas, então ela definitivamente não podia se dar ao luxo de perder para Touka.
“Certo, já decidi! Vou ficar mais forte que a Touka antes que este acampamento termine!”
Ainda restavam cinco dias. Se enfrentasse Touka uma vez por dia, poderia ter seis combates contra ela, contando o que já havia acontecido. Decidiu que sua meta seria terminar com mais vitórias do que derrotas. E, agora que havia estabelecido um objetivo, sentiu a motivação transbordar. Não era hora de ficar relaxando em um parque.
Ela saltou do banco e se virou para Ikki.
“Ikki, vamos voltar para o alojamento! Depois do jantar, eu vou treinar como se—”
O estômago de Stella roncou alto, interrompendo-a. O parque estava deserto, exceto pelos dois, então o som foi perfeitamente audível para Ikki.
“Ha ha ha, parece que alguém está com fome”, disse ele, sorrindo.
Stella ficou vermelha até a ponta das orelhas.
“E-Eu não tenho culpa, tá? Eu me exercitei muito hoje e já está quase na hora do jantar!”
“É, você tem razão. Você se esforçou bastante hoje, então é claro que está com fome. Não tem motivo para ficar envergonhada.”
“É-Exatamente. Ainda bem que você entende.”
“E também não adianta treinar de estômago vazio, então que tal comermos alguma coisa primeiro?”
Ikki também se levantou e segurou a mão de Stella.
“Ah.”
Ela se surpreendeu com o contato repentino, mas Ikki apenas disse, de forma natural:
“Tenho certeza de que vamos encontrar algo no distrito comercial. Vamos.”
Ele sorriu para ela e puxou sua mão suavemente.
◆
O distrito comercial estava lotado de estudantes aproveitando as férias de verão e donas de casa fazendo compras para o jantar. Ikki e Stella caminhavam pela multidão de mãos dadas, sem tentar esconder. Como era de se esperar, várias pessoas paravam para olhar os dois.
“Espera, aquela não é a princesa Vermillion e aquele Kurogane que apareceu nas notícias recentemente?”
“É sim. Não disseram no noticiário que ele estava brincando com os sentimentos dela ou algo assim?”
“Ouvi dizer que aquilo foi tudo invenção da mídia.”
Graças ao escândalo de relacionamento que Akaza tentara fabricar, agora todos conheciam tanto Ikki quanto Stella. Naturalmente, também sabiam que os dois estavam namorando. Por isso, sempre que apareciam juntos em público, chamavam atenção.
“Olha, eles estão de mãos dadas. Eu disse que estavam saindo.”
“As fotos não fazem jus. Aquela princesa é mesmo linda.”
“Cara, eu queria sair com uma garota assim.”
Stella corou até a ponta das orelhas ao perceber os olhares da multidão. Já estava acostumada às provocações dos colegas no campus, mas ainda assim era constrangedor ter desconhecidos na rua encarando-a daquela maneira.
Percebendo seu desconforto, Ikki perguntou gentilmente:
“Ei, Stella, se estiver constrangedor demais, quer que a gente solte as mãos?”
“N-Não é constrangedor coisa nenhuma”, mentiu ela, balançando a cabeça com firmeza. Na verdade, era extremamente constrangedor — mas ela adorava segurar a mão de Ikki.
“Se você diz. Mas não precisa se forçar”, respondeu Ikki com um sorriso, percebendo corretamente que, apesar da vergonha, Stella queria continuar de mãos dadas. Ele apertou levemente sua mão, como se quisesse tranquilizá-la, e a conduziu pela rua.
Stella ergueu o olhar para ele e pensou: Sou só eu ou o Ikki mudou um pouco?
O Kurogane Ikki que ela conhecia não era, de forma alguma, alguém assertivo. E, assim como ela, não tinha experiência alguma com amor ou romance. Até então, os dois haviam sido igualmente desajeitados ao explorar o relacionamento e tentar avançar.
Recentemente, porém, Ikki parecia muito mais confiante — como quando segurara sua mão no parque. Claro, ambos adoravam andar de mãos dadas, mas antes aproximavam as mãos aos poucos, até que os mindinhos se tocassem por acaso, e então, constrangidos, acabavam entrelaçando os dedos.
[Almeranto: Fofos.]
Mas agora ele estava diferente… Como posso dizer…
Ikki já não esperava que simplesmente acabassem de mãos dadas — ele tomava a iniciativa de segurar a mão dela. Além disso, não parecia minimamente incomodado com os olhares ao redor. Antes, ele era bem mais reservado ao iniciar esse tipo de contato. Stella sabia que isso vinha do código moral pessoal dele, e por isso nunca o culpara, mesmo que, secretamente, desejasse que ele fosse um pouco menos rígido.
Justamente por isso, aquela mudança repentina a surpreendia tanto.
O que será que aconteceu com ele?
Decidindo que não adiantava ficar remoendo aquilo sozinha, Stella resolveu perguntar diretamente a Ikki.
“Ei, Ikki? Sou só eu ou você mudou um pouco?”
“Mudei?”
“Sinto que você está… mais ousado do que antes.” E mais masculino… e mais incrível…
Ikki pareceu surpreso por um instante, mas logo coçou a bochecha de maneira sem jeito e disse:
“Eu devia saber que você perceberia, Stella.” Ao que parecia, ele também estava ciente dessa mudança em si mesmo. “Desculpa se estou sendo meio forçado.”
“N-Não me incomodo nem um pouco! Eu só estava curiosa sobre o que causou isso.”
“Não foi nada grandioso”, respondeu Ikki. Mas então acrescentou: “Acho que é só que, depois de te pedir em casamento, acabei me apaixonando ainda mais por você. Então sinto vontade de mostrar para todo mundo que você é minha namorada. Que não existe ninguém mais importante para mim do que você.”
De fato, Ikki sentira algo mudar dentro de si depois de pedir Stella em casamento. Ele já acreditava amá-la mais do que qualquer pessoa, mas, após ela aceitar sua proposta, seu desejo por ela se tornara ainda mais intenso. Saber que ela sentia o mesmo por ele o deixou muito menos contido do que antes. Agora, estava decidido a não permitir que ninguém a tirasse dele. Era um instinto primitivo — o desejo de um homem de proteger a mulher que ama. Era isso que o estava tornando tão mais assertivo.
“Para ser sincero, estou com vontade de te abraçar aqui mesmo, no meio da rua. Desculpa por ser um namorado tão tarado”, acrescentou, corando levemente.
O coração de Stella começou a bater mais rápido ao ouvir aquilo.
Ikki…
Era, na verdade, adorável saber que ele queria mostrar a todos que ela era sua e que não permitiria que ninguém mais a tivesse. Ela sentiu os lábios se curvarem em um sorriso e rapidamente baixou o olhar para esconder o rosto.
Você é tão fofo, Ikki…
Ela amava aquele lado infantil e ciumento dele. Provavelmente ele não gostaria se ela dissesse que era fofo em vez de másculo ou incrível, mas não conseguia evitar. Ele era simplesmente fofo demais. Ao mesmo tempo, como namorada, queria recompensá-lo de alguma forma por todo aquele esforço.
Assim, passou o braço pelo dele e o puxou para perto.
“S-Stella?”
“Assim você consegue mostrar ainda melhor que eu sou sua namorada, não é?” disse ela com um sorriso, encostando o rosto no braço dele. A essa altura, já não se importava com o que os outros pensassem. Tudo o que queria era recompensar o garoto que estava se esforçando tanto para ser um bom namorado.
No entanto, parecia que, embora Ikki tivesse coragem suficiente para andar de mãos dadas em público, entrelaçar os braços daquela maneira já era um pouco demais para ele. Ele começou a se remexer, envergonhado. Mas, como fora ele quem dissera que queria exibi-la, não podia agora dizer que estava constrangido demais.
“V-Você tem razão. Boa ideia, Stella.”
Ikki tentou agir normalmente, mas agora era ele quem estava vermelho até a ponta das orelhas, e suas palmas haviam começado a suar.

Hee hee. — Era fofo vê-lo se esforçando tanto para manter a calma. — Acho que sou a garota mais feliz do mundo agora.
Sorrindo como uma boba, Stella se aninhou mais contra Ikki, deixando que ele a conduzisse. Sabia que provavelmente pareciam um casal meloso exibindo afeto demais em público, mas já não se importava. Ela amava Ikki — e isso era o que realmente importava.
É melhor você fazer um bom trabalho me escoltando, meu pequeno príncipe fofo. — Ela queria dizer aquilo em voz alta, mas era constrangedor demais.
“Hmm?”
De repente, Ikki parou. A princípio, Stella pensou que ele tivesse encontrado um restaurante agradável, mas ao erguer o olhar percebeu rapidamente que não era isso. Ele estava olhando por cima do ombro, com uma expressão sombria no rosto.
◆
“O que foi?”, perguntou Stella.
“Aquele homem de macacão que acabou de passar por nós…” Ikki fez um leve gesto com a cabeça na direção da pessoa em questão. “Você não acha estranho o jeito como ele está andando?”
“Talvez ele esteja machucado?”
“Não…”
Foi o que Ikki pensara no início, mas agora já não tinha tanta certeza. Ele respirou fundo e intensificou seu foco. Mesmo àquela distância, a altura do homem e a largura de seus ombros revelavam muito sobre sua estrutura óssea e sua musculatura. Ikki conseguia extrapolar como seus membros deveriam se mover com base em sua constituição — e havia definitivamente algo errado em sua marcha. As pernas direita e esquerda não estavam sincronizadas. Mas não do modo que estariam se ele estivesse mancando ou lesionado.
Todas as articulações das pernas pareciam funcionar normalmente. Não… era outra coisa. A presença de algum obstáculo estava alterando seu passo.
Pelo modo como ele está andando e pelas dobras do macacão… há algo no bolso direito.
O homem mantinha a mão enfiada no bolso direito, mas, pelo que Ikki conseguia observar, havia mais do que apenas sua mão ali dentro. Se estivesse segurando o objeto com firmeza, tratava-se de algo comprido, porém não muito largo. Possivelmente uma faca.
Pelas roupas, é possível que ele seja apenas um eletricista comum.
Eletricistas costumavam carregar facas para cortar revestimentos de cabos. No entanto, se aquilo realmente fosse uma faca, era ligeiramente comprida demais para uso cotidiano. De fato, facas de combate costumavam ter aquele tamanho. Ainda assim, Ikki não era eletricista — não sabia ao certo que tipo de faca eles utilizavam. Mas, ao se cruzarem, ele captara um vislumbre do rosto do homem sob a aba do chapéu. Havia ali o olhar sanguinário de alguém à espreita de sua presa.
Claro, havia muitas pessoas que simplesmente tinham uma expressão naturalmente severa. Também era possível que os olhos estivessem vermelhos por falta de sono. Além disso, Ikki não podia afirmar com certeza que o homem carregava uma faca — poderia ser qualquer outra ferramenta de dimensões semelhantes.
Existiam muitos motivos para não presumir o pior. Ainda assim, seus instintos diziam que algo estava errado.
“Certo.”
“Hã? Ikki? Aonde você vai?!”
“Só um segundo. Já volto.”
Ikki soltou o braço de Stella e começou a seguir o homem de macacão. Seu plano era puxar conversa e tentar encontrar uma oportunidade para confirmar o que havia no bolso dele. Se estivesse apenas exagerando, tudo bem — bastaria pedir desculpas. Mesmo que o homem não aceitasse, Ikki não se importaria de levar um ou dois socos no rosto. Valeria a pena para ter certeza de que o pior não aconteceria.
Quando estava prestes a chamá-lo, o homem parou no meio de um cruzamento. Não havia nada ali, e as pessoas normalmente atravessavam aquele ponto o mais rápido possível. Então por que ele parara justamente ali?
“Ai! Ei, senhor, não para no meio da rua assim!”
Um grupo de garotos do ensino fundamental esbarrou nele, e o homem soltou um som estranho — algo entre um grito e um gemido. Em seguida, começou a tirar a mão direita do bolso, e Ikki imediatamente concentrou-se ao máximo para aguçar sua visão cinética.
Tudo passou a se mover em câmera lenta enquanto ele absorvia cada detalhe possível.
Um brilho refletiu do objeto na mão do homem, e Ikki viu o fio metálico de uma faca de combate. Só havia um motivo para alguém sacar uma faca no meio de um cruzamento. Seus instintos estavam certos.
No momento em que confirmou que os garotos estavam em perigo, ele disparou para frente. Tudo ainda parecia se mover em câmera lenta, e ele atravessou a multidão com facilidade. Estava agora a apenas cinco metros do homem, e a faca mal havia saído pela metade do bolso. Os estudantes ainda nem haviam percebido o que estava acontecendo.
Vou chegar a tempo!
Ikki era rápido o suficiente para alcançá-lo antes que atacasse. Também tinha certeza de que poderia nocauteá-lo com um único golpe nas costas. Sim, causaria alvoroço, mas era melhor do que permitir que o homem puxasse a faca e ferisse alguém. Ikki ficou satisfeito por ter confiado em seus instintos e agido imediatamente.
Infelizmente, foi nesse instante que algo inesperado aconteceu.
“Ei, espera um pouco! Você não pode simplesmente fazer isso!”
Antes que Ikki o alcançasse, alguém segurou o braço do homem e tentou puxá-lo para longe.
O quê?!
O homem ainda não havia puxado totalmente a faca. Quem quer que o estivesse interrompendo agora devia estar prestando muita atenção ao bolso dele — e ter reflexos tão bons quanto, ou até melhores que, os de Ikki.
Ikki definitivamente não esperava que mais alguém interviesse naquele momento. Fora pego completamente de surpresa. Para piorar, a garota que surgira estava agora diretamente na trajetória dele, o que dificultava acertar o homem com um único golpe limpo.
“Tch!”
Seria perigoso avançar com tudo agora, então Ikki reduziu a velocidade e ajustou o ângulo de aproximação. Enquanto isso, a garota que segurava o braço do homem gritou:
“Não jogue sua vida fora, senhor! Mesmo que tenha sido demitido e esteja afundado em dívidas, suicídio não é a resposta! E como pôde sequer pensar em arrastar pessoas inocentes com você?!”
“O quê?!”
Os outros transeuntes se viraram ao ouvir a confusão.
“H-Hey, aquele velho está com uma faca!”
“O quê?! Ei!”
“Aaah! Ele é um assassino!”
Embora o homem ainda não tivesse puxado completamente a faca do bolso, era óbvio para qualquer um o que era. A multidão entrou imediatamente em pânico, com pessoas correndo para se afastar o mais rápido possível.
Ignorando a agitação, a garota manteve o olhar fixo no homem.
“Você ainda não cometeu nenhum crime, então vamos à polícia e entregamos essa faca, certo?” disse ela. “Pense em como sua pobre mãe ficaria triste se você se tornasse um assassino! Está tudo bem. Enquanto continuar vivo, sua sorte pode mudar!”
Ela sorriu para ele, o suor perlando sua testa. Infelizmente, porém, suas tentativas de acalmá-lo não estavam funcionando.
“Sua pirralhaaa!”
“Wah?!”
Uivando, o homem arremessou a garota para longe. Quando ela caiu no chão, o agressor finalmente puxou a faca e a apontou para ela.
O-O que eu faço?!
Ikki alternou o olhar entre o homem e o garota, hesitando. Normalmente, teria avançado para salvá-la — ou melhor, salvá-lo, pois ao observar com mais atenção percebeu que não era uma garota. A voz era aguda e os traços delicados, mas ele era, sem dúvida, um rapaz.
Esse não era o motivo da hesitação de Ikki, contudo. Ele hesitava porque, além de o garoto vestir o uniforme da Academia Kyomon, também reconhecia aquele rosto. No início não havia percebido, mas agora se lembrava de tê-lo visto na lista de participantes do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas que Kagami lhe mostrara alguns dias antes. Não recordava o nome associado ao rosto, mas, independentemente disso, o jovem encolhido diante da faca era um Blazer forte o bastante para competir em um dos torneios mais prestigiados do Japão.
Não há como alguém assim ter interferido sem um plano.
Qualquer lutador daquele nível teria calculado seus movimentos com antecedência. Ele devia possuir algum meio de neutralizar o homem. E, sem saber quais eram seus poderes, Ikki temia que intervir agora apenas atrapalhasse o que quer que tivesse planejado — assim como ele próprio fora atrapalhado momentos antes. Devo deixar isso com ele.
Mas, para a total surpresa de Ikki, o garoto cobriu a cabeça com os braços e gritou:
“A-Alguém me ajude!”
Ele realmente não tinha plano nenhum?!
Atônito, Ikki ainda assim agiu de imediato. Já não conseguiria alcançá-lo a tempo, mas o chão estava cheio de objetos que as pessoas haviam deixado cair ao fugir. Ele chutou um tubo de batom, que acertou a faca do homem antes que pudesse desferir o golpe.
“Ngh?!”
O impacto inesperado fez o homem largar a faca. Ikki então avançou e o acertou com um soco no rosto.
“Gaaah?!”
O homem caiu no chão, sangue escorrendo do nariz. Não fez menção de se levantar — aquele único soco fora suficiente para nocauteá-lo. Afinal, tinha sido um golpe perfeitamente calculado.
“Haaah, haaah, haaah!”
Ainda assim, Ikki estava ofegante, o corpo coberto de suor.
F-Foi por pouco! Não acredito que esse cara não tinha pensado em uma forma de impedir aquilo!
Se Ikki não tivesse interferido, o garoto certamente teria sido morto. Era o quão indefeso ele estivera no instante anterior ao golpe da faca. E não fora encenação. Apesar de ser um Blazer, ele sequer envolvera o corpo com um manto de mana para se proteger. Estava genuinamente indefeso diante daquela lâmina.
Não fora a ameaça representada pelo homem que fizera Ikki suar frio — e sim a imprudência do próprio garoto.
“Ikki!”
“Hah... Stella, você pode chamar a polícia e avisar que eu capturei um homem armado que estava atacando pessoas com uma faca?”
“C-Certo!”
Enquanto Stella pegava o celular, Ikki se virou para o garoto no chão. Sinceramente, queria repreendê-lo por ter se lançado na situação sem um plano, mas ele também estava tentando impedir uma tragédia. Então Ikki engoliu as palavras mais duras e estendeu a mão.
“Você está bem?”
“Oh, sim. Obrigado.” O garoto segurou a mão de Ikki com um sorriso aliviado. “Espera...”
Os olhos dele se arregalaram ao ver o rosto de Ikki.
“Hmm? Tem alguma coisa no meu rosto?”
“N-Não! Hum, v-você é o Kurogane Ikki-kun?!”
“Sou. Acontece que—”
Antes que Ikki pudesse terminar, o garoto soltou um gritinho de empolgação.
“Uaaau! É o Ikki-kun de verdade, em carne e osso!”
Ele saltou para ficar de pé e abraçou Ikki.
“O-O quê?!”
“H-Hey, o que você está fazendo?!”
Ikki e Stella olharam para o garoto, confusos.
Ignorando a pergunta de Stella, ele disse:
“Estou tão emocionado! Eu estava esperando ter a chance de encontrar você aqui, mas não pensei que realmente aconteceria! Sou tão sortudo!”

Ele agia como se Ikki fosse um amigo de infância que não via há dez anos. Seus olhos azuis límpidos transbordavam afeição. Estava claramente radiante, feliz do fundo do coração. E era justamente por isso que Ikki estava tão confuso.
Por que ele está tão feliz em me ver?
“Quem é vo—”
Desta vez, foi Stella quem interrompeu antes que Ikki concluísse a pergunta. Ela guardou o celular, marchou até Ikki e o garoto e os separou à força. Em seguida, posicionou-se protetoramente à frente de Ikki e disse:
“Quem é você?! Está vestido como um garoto e parece um garoto, então... você é gay? Temos mais um gay agora?! Eu já tenho o suficiente para lidar!”
Stella lançou um olhar fulminante ao rapaz. No começo, ele pareceu surpreso com a brusquidão dela, mas logo percebeu que falava com a namorada de Ikki, e o motivo da irritação ficou claro.
“Ah, desculpe, Stella-san. Não se preocupe, eu não sou gay. Só fiquei empolgado por ver o Ikki-kun pela primeira vez,” explicou ele. “É um prazer conhecer vocês dois. Eu sou Shinomiya Amane, aluno do primeiro ano da Academia Kyomon. E, assim como vocês, também participarei do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Além disso, sou um grande fã de Another One!”
◆
Depois disso, Ikki e Stella entregaram o criminoso à polícia e entraram em uma lanchonete de hambúrguer próxima para matar a fome. Shinomiya Amane, o novo fã de Ikki, juntou-se a eles também. Disse que queria pagar a refeição dos dois como agradecimento por terem salvado sua vida.
“Mmm, essas batatas estão ótimas! Têm a quantidade certa de óleo e sal. Nunca vim aqui antes, mas talvez eu vire cliente fixo,” comentou Amane, saboreando uma batata frita.
“Eu também não como junk food com frequência, mas gosto daqui. Ainda assim, você não precisa pagar para nós, sabia?”, disse Ikki a Amane.
Amane balançou a cabeça. “Claro que preciso! Você salvou minha vida! Um McRonald’s não é nada comparado a isso!”
[Almeranto: Nada supera o Mac Sato Naldo]
Ele não estava exagerando. Ikki literalmente salvara sua vida. Pelas informações visuais que captara, Amane certamente teria morrido se ele não tivesse intervindo. E não parecia que Amane tivesse algum trunfo escondido, considerando o quanto insistia em agradecer.
“Tudo bem, se você insiste.”
Pensando que Amane se sentiria mal se não pudesse retribuir de alguma forma, Ikki decidiu deixá-lo pagar. Desembrulhou o hambúrguer e começou a comer. Estava delicioso — nada comparado à comida saudável, porém sem graça, servida no dormitório.
“A propósito, Amane-san,” disse Stella, voltando-se para ele. Ela já havia terminado seus dois hambúrgueres e agora beliscava distraidamente sua porção gigantesca de batatas.
“Pode me chamar só de ‘Amane’. Temos a mesma idade, não precisa de honoríficos. Além disso, é estranho uma princesa usar honoríficos comigo.”
“Se você diz. Enfim, você é um dos representantes da Kyomon, certo?”
“Yep, isso mesmo.”
“Então por que eu não te vi no acampamento de treinamento?”
“Ah, é porque eu não participei. Na verdade, cheguei nesta cidade hoje. Por isso você não me viu por aí.”
“Entendo. Então você vai começar a participar do acampamento a partir de hoje?”
“Não. Só vim entregar algumas coisas para um senpai. Depois disso, volto para casa.”
“Não acha um desperdício? Já que está aqui, poderia aproveitar para participar.”
“Aha ha. Entendo o que quer dizer, mas, ao contrário de você, Stella-san, eu não tenho tanto interesse no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Não tenho muita força física e também não treinei artes marciais. Só fui escolhido como representante porque meu poder é do tipo mais raro.”
Para escolas que não realizavam seletivas internas como a Hagun ou a Bukyoku, não era tão surpreendente que alguns alunos sem grande interesse no torneio ainda assim fossem escolhidos como representantes. Amane também não estava sendo modesto — Ikki percebia que ele realmente era tão fraco fisicamente quanto afirmava.
“Foi esse poder especial seu que te avisou que o homem ia tentar esfaquear alguém?”, perguntou Ikki.
Amane inclinou a cabeça e devolveu a pergunta:
“O que faz você pensar isso?”
“Processo de eliminação. A julgar pelo seu físico e pela forma como reagiu ao ataque daquele homem, você realmente não tem treinamento em artes marciais. Mas segurou o braço dele exatamente no momento certo para impedir que esfaqueasse aqueles garotos. Normalmente, isso só é possível com reflexos lapidados e muito treino. Como você não tem nenhum dos dois, a única explicação restante é o seu poder de Blazer.”
Amane lançou a Ikki um olhar surpreso.
“Uau. Acho que eu já devia esperar por isso. Você é tão perceptivo quanto dizem os rumores, Ikki-kun.”
Na internet, os fãs do Mestre da Espada Sem Coroa frequentemente exaltavam a capacidade de observação de Ikki. Amane ficou feliz por ter visto aquilo de perto. Sorrindo, respondeu:
“Você não está errado, mas infelizmente não posso dizer qual é o meu poder. O sensei disse que não posso revelar isso para pessoas de outras escolas. Desculpa.”
“Tudo bem. Não precisa se desculpar. Nós dois vamos lutar no mesmo torneio, então não seria justo você me contar.” Não havia vantagem alguma em divulgar seus poderes para alguém que poderia se tornar seu adversário. Ikki não tinha intenção de insistir. “Mas, Amane-kun, se o seu poder não permite neutralizar o oponente, você deveria pensar um pouco mais antes de agir. Pode acabar morrendo se não tomar cuidado.”
Sua expressão era severa.
Amane desviou o olhar, constrangido.
“É-É, você tem razão. Eu fiquei tão abalado que até esqueci de usar mana para me proteger. Talvez eu realmente tivesse morrido se você não tivesse aparecido, Ikki-kun. Eu sei que tive sorte. Mas...”
“Mas?”
“Graças a isso, pude ver você lutar pessoalmente! No fim das contas, acho que saí ganhando. Você foi super legal, Ikki-kun. Parecia um super-herói de filme.”
Amane ergueu o olhar para Ikki, os olhos brilhando. Ikki balançou a cabeça, exasperado com o otimismo inesgotável dele.
B-Bom, pelo menos ele não parece ser uma má pessoa.
“Ah, é mesmo,” disse Amane de repente, começando a vasculhar a bolsa. “Quando soube que Hagun e Kyomon fariam um acampamento conjunto, comprei isto para o caso de conseguir encontrar você. Então... você poderia assinar, Ikki-kun?”
Ele retirou uma placa de autógrafos de aparência bastante sofisticada e encarou Ikki com olhos suplicantes.
“V-Você quer meu autógrafo?”
“Quero! Você não costuma dar autógrafos?”
“Não, eu posso dar, mas...”
Ikki não sabia muito bem o que dizer. Depois da luta contra Stella, sua popularidade dentro da escola aumentara, e ele já tinha apertado algumas mãos e assinado cadernos. Porém, era a primeira vez que alguém trazia uma placa de autógrafos de verdade para ele assinar. Ainda não tinha assimilado totalmente sua súbita ascensão à fama.
Isso é coisa que atores famosos fazem, não eu.
“Só acho que meu autógrafo não é digno de uma placa tão chique...”
Ikki virou-se para Stella em busca de ajuda.
“Assina logo. Se não gostar de como a assinatura fica, escreve seu nome normal mesmo,” disse ela, sem rodeios.
“Mas...”
“Ele é seu fã. É o mínimo que você pode fazer por ele. Além disso, independentemente do que você acha, ele claramente vê muito valor na sua assinatura.”
“Ugh...”
Ela tem razão.
Era Amane quem queria que Ikki assinasse aquela placa sofisticada, então não cabia a ele dizer que seu autógrafo não era digno. Assim, assentiu e pegou a placa.
“Eu não tenho uma assinatura especial nem nada do tipo, então vou só escrever meu nome normal. Tudo bem?”
“Claro que sim!”
Ikki escreveu seu nome completo com certa hesitação. Como nunca treinara uma assinatura, sua caligrafia estava longe de ser elegante.
“Uau! Muito obrigado, Ikki-kun! Vou colocar isso numa moldura e guardar comigo para sempre!”
Amane apertou a placa contra o peito, sorrindo de orelha a orelha. Parecia uma criança que acabara de ganhar exatamente o brinquedo que queria no Natal.
Não acredito que alguém gosta de mim a ponto de emoldurar minha assinatura...
Ikki sabia que deveria se sentir feliz, mas não estava acostumado a ser tratado como celebridade, então aquilo parecia mais constrangedor do que gratificante. Até conhecer Stella, não havia sequer alguém que o respeitasse — muito menos que o admirasse abertamente.
Enquanto isso, Stella estava satisfeita em ver Ikki conquistando mais fãs.
“A propósito, Amane, o que você gosta tanto no Ikki para ter virado um fã tão fervoroso?” perguntou ela, animada para falar mais sobre ele.
“O estilo de luta dele, em primeiro lugar. Derrubar tudo no caminho usando apenas uma katana é incrível, não acha?”
“Aliás, como você conseguiu ver as lutas dele? Eu achei que a Hagun proibia a divulgação de gravações das seletivas.”
“Oficialmente, sim. Mas toda escola tem alunos dispostos a quebrar as regras e postar tudo. Especialmente em Hagun e Bukyoku, onde qualquer estudante pode assistir às lutas — sempre tem gente tentando gravar e subir os vídeos. Enfim, foi assim que consegui ver todas as lutas importantes do Ikki-kun! Tenho todas baixadas e já assisti centenas de vezes! Até decorei as falas dele! Minha favorita foi: ‘Usando tudo o que eu tenho, vou destruir sua técnica invencível!’”
“Bwah?!”
Ikki quase cuspiu o refrigerante de gengibre quando Amane fez uma pose estilosa e repetiu as mesmas palavras que ele dissera a Touka durante o duelo.
“Cada vez que eu ouço isso, fico arrepiado! Também adoro o que ele disse ao Hunter antes de derrotá-lo!”
“E-Ei, p-podemos mudar de assunto? Qualquer outro assunto? Por favor?!”
“‘Usando tudo o que eu tenho, vou capturar você, mestre da furtividade.’”
“Aaaaah!”
“Acho muito legal como o Ikki-kun adapta sua frase de efeito às habilidades do oponente.”
“Eu estou implorando, para! Eu sei que às vezes me empolgo nas lutas, mas normalmente eu não sou tão vergonhoso assim! Eu prometo!”
Ikki segurou Amane pelos ombros e começou a sacudi-lo. Seu rosto estava vermelho como um tomate, mas Amane claramente não tinha a menor intenção de parar.
“Hã? Não é vergonhoso, é legal. Não é, Stella-san?” Ele se virou para Stella, que lutava para conter o riso.
“S-Sim, totalmente. O Ikki é super legal. Bwah ha ha ha ha.”
No fim, ela não conseguiu se segurar e caiu na gargalhada.
“Se você realmente acha isso legal, por que não olha nos meus olhos e diz, Stella?”, pediu Ikki.
Stella imediatamente desviou o olhar. Ikki não podia culpá-la. Nem ele mesmo achava aquilo tão legal assim. Se fosse sincero, ficava impressionado por ter conseguido dizer aquelas frases com tanta convicção até agora. As coisas que as pessoas falavam no calor do momento eram absurdas.
Ignorando o constrangimento de Ikki, Amane continuou despejando elogios sobre tudo o que achava incrível nele.
“Claro que o jeito como ele luta é legal, mas o que eu mais gosto é da mentalidade do Ikki-kun ao encarar as batalhas.”
“O que você quer dizer com isso?”
“Não quero ser rude, mas o Ikki-kun mal se qualifica como um Blazer. Ele praticamente não tem poderes, certo? Mesmo assim, isso nunca o impediu de tentar. Não importa o quão forte seja o oponente ou quanto mais talento ele tenha recebido, o Ikki-kun entra em cada luta acreditando que vai encontrar um jeito de vencer. É incrível o quanto ele acredita em si mesmo. Isso é o que há de mais deslumbrante nele.”
Ao ouvir isso, Ikki ficou mais surpreso do que envergonhado.
Uau… ele é realmente perceptivo. E tem me observado com atenção.
De fato, fora sua fé no próprio potencial que o levara até ali.
“Aha ha, é meio constrangedor dizer isso na sua frente, Ikki-kun. Desculpa. Eu me empolguei.”
“É ainda mais constrangedor ouvir isso, sabia?”
“Ha ha ha, foi mal.” Amane terminou as últimas batatas e se levantou. “Certo, já está na hora de eu ir.”
“Você não ia ao acampamento entregar algo? Nesse caso, podemos ir juntos.”
“Se eu tentar acompanhar vocês dois, vou vomitar essas batatas deliciosas em cinco minutos. Além disso, ainda preciso comprar algumas coisas que o Senpai me pediu.”
Enquanto se afastava, virou-se para Ikki e disse:
“Muito obrigado pelo autógrafo. Espero que você consiga lutar até o topo e se torne o Soberano das Sete Estrelas!”
Amane abriu um grande sorriso. Era estranho ser incentivado por alguém que talvez tivesse de enfrentar no torneio, mas o sorriso era tão sincero que Ikki achou desnecessário apontar isso.
Tenho que fazer o meu melhor para corresponder às expectativas dele também!
Ikki sorriu de volta e abriu a boca para agradecer.
Hã?
Mas então percebeu algo, e as palavras morreram em seus lábios.
“Ikki-kun?”
“Oh, ah, desculpa. Sim, vou dar o meu melhor. Obrigado por torcer por mim,” disse Ikki após um breve silêncio.
Amane lançou-lhe um olhar curioso, mas logo sorriu novamente.
“Até mais!”
A resposta de Ikki pareceu satisfatória, e ele saiu da lanchonete.
◆
“Hee hee hee, parece que você já é popular o bastante para ter fãs fora da nossa escola também, Ikki. Você evoluiu tanto desde quando nos conhecemos”, disse Stella, mastigando as batatas restantes.
Ikki assentiu. “É...”
“O Amane parece ser um fã bem hardcore.”
“Você parece feliz com isso, Stella.”
“Claro que estou. Sua força finalmente está sendo reconhecida por todos, e o Amane gosta de você não só pela sua habilidade, mas porque enxergou as mesmas coisas em você que eu enxerguei. Por que eu não ficaria feliz? Você não fica feliz de ter alguém que te entende tão bem torcendo por você? Não existem muitos fãs tão perceptivos assim.”
“É. Você tem razão. Eu deveria estar feliz.”
“Ikki?” Stella inclinou a cabeça ao perceber a hesitação na voz dele. Ele encarava a porta pela qual Amane havia saído, expressão rígida. Além disso, suava excessivamente, mesmo com o ar-condicionado funcionando perfeitamente. “O que foi?”
“Ei, Stella.” Ele se virou para ela. “Que tipo de pessoa o Amane pareceu ser para você?”
“Bem... ele é animado, é fofo e entende você muito bem. Então acho que é uma boa pessoa.”
Ikki concordou com um leve movimento de cabeça.
“É. Normalmente, é isso que se pensaria...”
Ele franziu o cenho e fechou os olhos.
Não há um único motivo para desgostar dele.
Shinomiya Amane era um garoto de traços delicados e personalidade alegre, disposto a se jogar no perigo para ajudar os outros, apesar de não ser particularmente forte. Além disso, respeitava Ikki do fundo do coração. Ikki deveria achar essas qualidades cativantes. E, no entanto...
Por algum motivo, não tenho a impressão de que ele seja uma boa pessoa.
Quando tentara sorrir de volta para Amane, descobrira que aquilo fora surpreendentemente difícil. Embora as palavras, expressões e gestos dele fossem, em tese, agradáveis, nada daquilo deixara em Ikki uma impressão positiva. Ele não conseguia entender o porquê. O fato de não conseguir simpatizar com Shinomiya Amane o deixava inquieto — quase como um presságio.
Perturbado por essa sensação, ele tirou o manual estudantil do bolso e discou o número de Kagami. Ela atendeu no primeiro toque.
“Alô? É raro você me ligar, Senpai. O que houve?”
“Você tem alguns minutos, Kagami-san? Tem algo que eu quero perguntar.”
“Tenho, sim. Estava só tomando chá com Alice-chan. Então, o que quer saber?”
“Você investigou os representantes de todas as escolas, não só da Hagun, certo?”
“Pode apostar. Qualquer repórter que se preze já teria checado todos os participantes do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas.”
“Você pode me dizer que tipo de pessoa é o Shinomiya Amane, da Kyomon?”
“Essa é uma pergunta bem ampla.”
“Ah, é mesmo, desculpa. Hmm...”
Ikki mergulhou em pensamentos, tentando formular uma pergunta mais concreta. No entanto, ele próprio não sabia o que precisava descobrir sobre Amane para se livrar daquela sensação incômoda.
Depois de alguns segundos, Kagami pareceu perceber sua dificuldade em ser mais específico.
“Deixa pra lá, pode ser algo amplo mesmo. Para falar a verdade, eu só sei umas poucas coisas vagas sobre o Shinomiya-san.”
“Sério?”
“Não há muita informação sobre ele. Ele não participou de torneios no ensino fundamental, então tudo o que eu realmente sei é que ele é um dos raros Blazers cujo poder interfere no destino, e foi por isso que foi escolhido como representante este ano. O estranho é que há vários participantes assim neste ano. Calouros desconhecidos que não competiram em torneios no fundamental ou no primário, mas ainda assim foram selecionados como representantes de suas escolas. Infelizmente, tudo o que sei sobre o Shinomiya-san é que ele é um desses calouros sem histórico. Mas por que você quis saber especificamente dele, Senpai?”
Por um instante, Ikki não teve certeza se deveria tentar explicar a estranha desconexão entre o comportamento de Shinomiya e a impressão que tivera dele. No fim, decidiu que não seria correto falar mal de alguém que mal conhecia — especialmente quando nem conseguia colocar em palavras o que estava sentindo.
“Esbarramos com ele durante nossa corrida, então fiquei curioso sobre que tipo de pessoa ele era”, respondeu por fim.
“Hm. Ouvi dizer que ele não viria para o acampamento de treino, mas acho que ainda está em Yamagata.”
“Ele disse que veio entregar algo ao senpai dele.”
“Oho, então talvez eu tenha a chance de entrevistá-lo.”
“Ahaha. Não pegue pesado demais com ele, tá? E desculpa por ligar do nada.”
“Sem problemas. Se for para alguém pedir desculpas, deveria ser eu por não ter conseguido te dizer nada útil. Aviso você se a entrevista render alguma informação interessante.”
“Muito obrigado. Até mais.”
Ikki desligou e baixou o olhar para o manual estudantil. Se alguém tão bem-informada quanto Kagami não sabia quase nada sobre Shinomiya, ele duvidava que encontraria algo pesquisando na internet.
“Acho que você está pensando demais. Talvez você e o Amane simplesmente sejam incompatíveis por natureza”, disse Stella. “Vai saber? Talvez vocês dois tenham se matado por causa da mesma garota em uma vida passada ou algo assim.”
“A reencarnação funciona desse jeito?”
“Mesmo que não funcione, todo mundo tem certas pessoas de quem simplesmente não consegue gostar, não importa o quanto tente.”
Ikki não tinha certeza se o que sentia era algo tão simples quanto antipatia. Mas também não sabia definir o que era.
“É... talvez você esteja certa”, disse, tentando se convencer de que Stella realmente tinha razão.
Infelizmente, ele não conseguia dissipar a estranha sensação que se agarrava ao seu peito como piche. Seus instintos lhe diziam que o encontro com Amane fora um mau presságio. A pessoa que saíra por aquela porta — sussurravam seus instintos — era muito mais aterrorizante do que aparentava.

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