Volume 4
Capítulo 2: Planos e Lotes
Quando o sol começava a surgir sobre a terra coberta de neve, Alice iniciou o caminho de volta para casa após concluir seu mais recente trabalho para a máfia local. O frio da madrugada de inverno era intenso o suficiente para matar quem não estivesse bem agasalhado. Felizmente, ele tinha o cachecol quente que suas irmãzinhas haviam tricotado para ele.
“Yo, Alice”, chamou alguém lá do alto.
Ele ergueu o olhar e viu uma garota ruiva familiar caminhando sobre um muro de pedra com cerca de dois metros de altura.
Ela é mesmo como um gato, pensou Alice, com um leve sorriso. “É raro terminarmos ao mesmo tempo, Yuuri.”
“Pois é, né?” Yuuri saltou do muro e se aproximou. Abraçou Alice, tentando aquecer o próprio corpo gelado. “Tá tããão frio. Deve ser bom ter esse cachecol.”
“Hee hee hee. Com inveja?”
Alice levantou o cachecol, e Yuuri lançou-lhe um olhar cheio de cobiça.
“Deixa eu usar também!”
“Nem pensar. Você vai sujar, como faz com todas as suas roupas.”
“Mrr. Que tipo de cara deixa uma garota congelar num dia frio desses?”
“Você mal se qualifica como garota. Mas tudo bem...”
Alice se encostou nela e envolveu os dois com o cachecol. “Pronto. Agora nós dois podemos ficar quentes.”
“É-É meio constrangedor...”
“Se você estiver corando, vai ficar ainda mais quente”, disse Alice com um sorriso travesso.
Os dois seguiram por uma das ruas mais novas da cidade. Como ainda era antes do amanhecer, quase não havia pessoas circulando. Enquanto caminhavam, conversaram sobre o ritual que Yuuri fizera os garotos mais novos passarem no dia anterior.
“Não acredito que os dois já têm idade para querer virar adultos agora”, disse Alice, com um sorriso nostálgico.
“Bom, já faz dois anos desde que a gente os encontrou. Mas ainda são só crianças. A gente era muito mais durão quando tinha a idade deles.”
O sorriso de Alice se transformou em expressão séria. “Prefiro não lembrar daqueles dias.”
“Ah, qual é, não eram tão ruins assim. Além disso, eu ainda tenho as cicatrizes de quando você me esfaqueou, e nunca vou deixar você esquecer isso.”
“Você fala isso, mas foi você quem venceu nossa luta no final. É por isso que faço parte do seu grupo agora. Então não aja como se fosse a vítima”, retrucou Alice, fazendo bico.
Tanto Alice quanto Yuuri eram Blazers — além de órfãos. Por serem mais fortes que as outras crianças ao redor, passaram por inúmeras lutas entre si antes de estabelecerem a relação atual. Quase se mataram dezenas de vezes disputando comida ou um lugar quente para dormir.
Com o tempo, porém, cansaram de roubar um do outro apenas para sobreviver mais um dia. Então, certa vez, dividiram um copo da bebida alcoólica que Yuuri sempre carregava e juraram usar sua força para proteger o maior número possível de crianças, em vez de tirar delas. Perceberam que seus poderes não existiam para saquear os outros, mas para ajudá-los. Afinal, era isso que adultos legais faziam — e eles queriam se tornar adultos legais.
Desde aquele juramento, mantiveram-se fiéis a ele, acolhendo qualquer criança indefesa que encontrassem em seu pequeno grupo e cuidando delas.
“Agora que eu penso nisso, a gente não tentou se matar nesta mesma rua antes?”, perguntou Alice.
“Sim. Mas ficou bem mais limpa nesses últimos anos.”
Como Yuuri havia dito, a rua fora recapeada com pedras bem alinhadas, e os prédios ao redor já não estavam mais em ruínas, com tinta descascando. Na época em que lutavam ali, o asfalto era tão esburacado que carros sequer conseguiam passar, e qualquer turista tolo o bastante para atravessá-la era roubado em questão de segundos.
Aliás, o motivo de a rua estar tão mais bonita agora era simples: aquela cidade sediaria as Olimpíadas naquele ano. Havia cartazes anunciando o evento espalhados por toda parte.
“Eles não querem passar vergonha diante do resto do mundo, já que vão sediar um evento tão grande”, explicou Alice.
“Não querem passar vergonha, é?” murmurou Yuuri, franzindo a testa.
Alice percebeu a mudança em seu tom. “Aqueles funcionários do governo vieram de novo?”
“Vieram. Ontem.”
Apesar de serem pobres, Alice estava satisfeito com a vida que levavam. Todos conseguiam sobreviver, e estavam juntos. Porém, com a sombra das Olimpíadas pairando sobre a cidade, manter aquele estilo de vida se tornara muito mais difícil.
O governo, querendo evitar má impressão internacional, começara a expulsar moradores de rua — mandando oficiais espancá-los até que fossem embora, em vez de encaminhá-los a instituições ou moradias. E agora, esses oficiais haviam encontrado o grupo de Alice.
“Aqueles desgraçados disseram que estariam dispostos a me adotar e a você também, já que somos Blazers”, disse Yuuri entre dentes.
“Não vai acontecer.”
“Exato. Se a gente for embora, não dá pra saber o que vai acontecer com a Natasha e os outros. A irmã sabe disso também, por isso conseguiu expulsar os caras do governo. Eu odeio aqueles desgraçados.”
“Acho que eles estão com medo de a gente começar a assaltar turistas.”
Claro, Alice e os outros não tinham intenção de sair. Se fossem obrigados a abandonar o galpão onde viviam naquele frio congelante, provavelmente morreriam antes de encontrar outro lugar para ficar.
“Se eles estivessem dispostos a colocar todo mundo num orfanato em algum lugar, eu até consideraria ir com eles. A gente consegue sobreviver em qualquer lugar, afinal”, comentou Yuuri.
“Provavelmente não vão”, respondeu Alice. “Se fosse tão fácil encontrar lares para crianças, não haveria tantas de nós vivendo nas ruas.”
De fato, naquele país havia uma epidemia de órfãos vivendo nas ruas. Eram muitos para o governo cuidar. Ou melhor — a liderança da nação poderia ter resolvido o problema a qualquer momento, direcionando recursos para isso, mas claramente faltava vontade política. Estavam ocupados demais gastando dinheiro limpando ruas e reformando prédios para se preocupar com crianças sem-teto.
Era por isso que Alice sabia que precisavam sobreviver por conta própria. Não podiam se dar ao luxo de serem expulsos da cidade. Pelo menos, não no inverno.
“Mas... talvez esteja na hora de arrumar as coisas e ir embora”, murmurou Alice.
Yuuri assentiu.
“É. A irmã tem sido gentil com a gente, mas não podemos depender dela para sempre.”
A irmã que permitia que usassem o galpão da igreja era uma boa pessoa. Mantinha praticamente sozinha a velha igreja, que mal recebia verbas, e ainda pagava do próprio bolso para preparar sopa para as crianças. Pelo menos para Yuuri e Alice, ela fora a primeira adulta bondosa que conheceram em suas curtas vidas.
Por isso, não suportavam vê-la sendo constantemente pressionada por funcionários do governo. Era evidente que estavam forçando-a a expulsar Alice e os outros.
“Certo, então está decidido!” Yuuri se afastou de Alice e apontou para o sol nascente. “Alice, assim que o inverno acabar, vamos deixar esta cidade. Podemos ir para o sul, onde é mais quente. Estou cansada de lugares frios.”
Você sabe que o sol nasce no leste, né? — pensou Alice. Provavelmente ela só estava apontando para o lado que parecia mais quente.
“Tudo bem”, respondeu ele, assentindo. “Parece uma boa. Vamos encontrar um lugar mais quente para viver.”
Na verdade, Alice já vinha considerando mudar para um clima mais ameno há algum tempo. As outras crianças já tinham idade suficiente para aguentar uma viagem longa, desde que não fosse no auge do inverno.
“Vamos até a linha do equador!”
“Nem os pássaros migram tão longe assim”, disse Alice, balançando a cabeça.
Ainda assim, ele não se importaria de ir tão longe. No fundo, estava ansioso pela viagem. Duvidava que chegassem mesmo ao equador, mas uma cidade mais ao sul, com clima mais quente, era uma meta realista.
Infelizmente, jamais teriam a chance de realizar essa grande mudança. Em breve, a tragédia atingiria, destruindo o pequeno fragmento de felicidade que Alice havia conquistado.
Enquanto os dois continuavam pela rua, um carro preto passou por eles. O homem idoso sentado no banco traseiro disse ao seu secretário, que dirigia:
“Parece que as reformas nesta área estão atrasadas.”
“Acha mesmo, senhor? A rua principal já foi recapeada, e estamos quase terminando de repintar os prédios.”
“Talvez. Mas acabei de ver sujeira à beira da estrada.”
“O senhor quer dizer aqueles pivetes?”
“De que adianta estender tapetes persas pelas ruas se esses moleques vão sujá-los com seus pés imundos? E imagine o que dirão se deixarmos mendigos vagando perto do público.”
“Mas, senhor, há tantas crianças órfãs nas ruas que seria impossível realocar todas. Além disso, o grupo daqui, liderado por Yuuri, é composto principalmente por crianças menores. Sem contar que ela e o amigo são Blazers, então a polícia teria dificuldade em removê-los.”
“Está com medo de dois pirralhos? Covarde.”
“Muito bem. Pedirei à polícia que os retire.”
“Não seja tolo. O chefe de polícia está de olho na cadeira de prefeito na próxima eleição. Se você o fizer agir, parecerá um monstro sem coração aos olhos do público. A oposição vai destruí-lo.”
“O que devemos fazer, então?”
O secretário já estava farto de seu chefe, que vivia dando ordens absurdas sem qualquer compreensão da realidade no terreno.
“É melhor deixar que o lixo limpe o outro lixo. Tudo fica mais fácil assim”, o velho respondeu com um sorriso. Ele falara com tanta indiferença quanto se estivesse pedindo um café.
◆
Chovia torrencialmente na noite anterior ao último dia do acampamento de treino conjunto entre Hagun e Kyomon. Não chegava a ser uma tempestade com trovões, mas a chuva era forte o bastante para fazer qualquer um preferir ficar em ambientes fechados.
Kusakabe Kagami estava sentada no quarto que as escolas gentilmente haviam cedido a ela e aos outros membros do clube de jornalismo que vieram cobrir o acampamento, revisando todos os dados que coletara até então. O som agradável das gotas batendo contra a janela servia como um ruído de fundo reconfortante enquanto organizava tanto as informações que reunira pessoalmente quanto aquelas obtidas de outros clubes de jornalismo.
O laptop sobre sua mesa exibia todas as anotações que seus colegas presentes no acampamento haviam lhe enviado. Ela estava compilando uma estimativa da força relativa de combate de cada escola e o quanto seus representantes poderiam ter evoluído durante o período de treinamento, a fim de escrever um artigo com suas previsões para o torneio.
Graças à ligação de Ikki, Kagami havia notado algo interessante ao revisar seus dados. Para ser honesta, no início ela não tinha muito interesse em Shinomiya Amane. Ele era um dos representantes sobre os quais havia pouquíssima informação disponível online. Ninguém sequer sabia quais eram seus poderes. Mas isso era compreensível, já que ele não havia participado de nenhum torneio antes.
A maioria das escolas mantinha as informações sobre seus Blazers representantes em absoluto sigilo. Afinal, não havia vantagem alguma em fornecer dados à concorrência. Além disso, havia vários alunos do primeiro ano participando naquele ano que não tinham experiência prévia em torneios, então Amane não era exatamente uma anomalia. Por isso, Kagami não o considerara alguém digno de atenção especial e optara por não reunir muitas informações sobre ele. Havia diversos outros competidores que mereciam muito mais destaque — como Kurogane Ouma, o Gale Emperor, Stella Vermillion, a Princesa Carmesim, ou o Soberano das Sete Estrelas do ano anterior, Moroboshi Yuudai.
Após conversar com Ikki, no entanto, seu interesse por Shinomiya Amane aumentara um pouco. Assim, ao revisar suas anotações, passou a prestar atenção especial ao perfil dele. E, ao fazê-lo, percebeu algo absurdo.
“O que é isso...?” murmurou Kagami, encarando suas anotações, chocada. A noite estava relativamente quente, mas ela sentiu um frio percorrer sua espinha. O que tinha diante de si eram os resultados das seis batalhas simuladas que Shinomiya Amane disputara durante seu primeiro semestre em Kyomon. Ele vencera todas as seis — todas por desistência. Em outras palavras, cada um de seus oponentes havia abandonado antes mesmo de a luta começar.
“O que há com esse cara?”
Kagami já havia coletado informações sobre inúmeros Blazers durante seu tempo no clube de jornalismo, mas jamais vira um histórico como aquele.
E isso nem é a única coisa absurda aqui.
Ao revisar suas notas com mais atenção, começou a perceber que era estranho haver tantos calouros desconhecidos participando. No início, imaginara que simplesmente fosse um ano especialmente promissor para novos talentos. Mas agora percebia que era coincidência demais.
No mundo dos Blazers, os fortes atraíam atenção, quisessem ou não. Era praticamente impossível que tantos calouros poderosos tivessem passado completamente despercebidos até agora.
É quase como se todos estivessem escondendo suas habilidades para este momento...
Kagami engoliu em seco. Tinha plena consciência de que talvez tivesse acabado de descobrir uma conspiração de grandes proporções. Era algo muito além do que uma simples estudante poderia lidar sozinha.
Mas também não posso simplesmente ignorar isso.
Buscar a verdade custasse o que custasse fazia parte da natureza de Kagami. Ela se orgulhava de ser uma repórter íntegra. E assim, voltou a folhear suas anotações, procurando por mais indícios.
Revisou todos os Blazers que participariam do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas naquele ano, bem como os membros do Comitê de Administração do Festival, seu conselho diretor e até mesmo todos os patrocinadores que financiavam o evento.
Foram necessárias algumas horas de análise minuciosa, mas pouco depois da meia-noite, Kagami conseguiu compreender o panorama geral. Seus instintos de repórter, aguçados por anos de prática, a haviam conduzido a uma verdade que claramente não deveria ter sido descoberta.
Sem dúvida alguma.
Enquanto encarava a lista de participantes, murmurou:
“Há uma oitava escola escondida entre os competidores!”
No instante seguinte, uma dor aguda e ardente atravessou suas costas.
“O qu—”
Ela baixou o olhar e viu uma lâmina cinza-escura emergindo de seu peito. Era uma lâmina que ela conhecia bem demais.
Eu... sabia...
A adaga com que fora apunhalada era Darkness Hermit. Naturalmente, ela sabia exatamente a quem aquele Device pertencia.
“Alice...-chan...”
Esgotando o último resquício de força, Kagami virou-se lentamente. Sua amiga, Alisuin Nagi, a encarava com uma expressão mais fria do que ela jamais havia visto.
Com uma voz plana, desprovida de emoção, Alisuin declarou:
“Você é inteligente demais para o seu próprio bem.”
Ela puxou Darkness Hermit para fora com um ruído úmido e perturbador. Kagami tombou para frente, a cabeça caindo sobre a pilha de documentos em sua mesa.
Não...
Sabia que precisava fugir, mas não conseguia reunir forças para se levantar. Sentia o cansaço provocado pelo golpe de um Device em forma fantasma corroer lentamente sua consciência.
Senpai... Stella-chan... tomem cuidado...
Sem força sequer para gritar, tudo o que pôde fazer foi rezar pela segurança de seus amigos.
Há demônios à espreita neste Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas!
Com esse último pensamento, Kagami perdeu a consciência.
◆
Alisuin se agachou e verificou se Kagami estava realmente inconsciente. Pelo que parecia, ela permaneceria apagada por pelo menos um dia inteiro.
“Sinto muito. Se você fosse só um pouco menos inteligente, poderíamos ter sido amigas por mais algumas horas.”
A conclusão de Kagami — de que havia uma oitava escola infiltrada no próximo Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas — estava correta. O nome da escola clandestina que havia se infiltrado no torneio era a Academia Akatsuki. Tratava-se de uma instituição recém-criada com o único propósito de derrubar o Festival.
No momento, apenas sete alunos estavam oficialmente matriculados nela. Todos eram Blazers poderosos oriundos do submundo — a maioria membros da organização Rebellion — contratados por patrocinadores para ingressar nessa escola e participar do plano de destruir o Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Cada um havia se infiltrado em sua escola-alvo e garantido uma vaga como representante. A missão deles era dominar o torneio e provar que indivíduos de fora das sete escolas oficialmente reconhecidas pela Federação eram capazes de derrotar os cavaleiros estudantis que ela tanto valorizava.
Kagami conseguira descobrir tudo isso — e era por isso que Alisuin a havia silenciado.
“É realmente uma pena”, murmurou Alisuin.
No instante seguinte, seu manual estudantil começou a vibrar. Ela havia recebido várias ligações nas últimas horas, mas, por estar observando Kagami das sombras, ignorara todas.
Alisuin enfiou a mão no bolso e retirou seu manual — o manual estudantil da Academia Akatsuki. Nem precisou olhar para a tela para saber quem estava ligando. A única pessoa que usava aquele canal era o homem que servia como intermediário dos alunos de Akatsuki: o Jester, Hiraga Reisen.
“O que você quer?”
“Finalmente. Estou te ligando há séculos. Achei que tivesse me bloqueado.”
“E eu teria bons motivos para isso.”
“Ai.” Hiraga soltou uma risadinha estridente, e Alisuin franziu o cenho. Não gostava daquele homem. Embora ele sempre agisse com cordialidade, sua postura denunciava que, no fundo, desprezava tudo e todos. “Por que não atendeu imediatamente?”
“Houve um pequeno incidente.”
“Ah? O que aconteceu?”
“Um membro do clube de jornalismo da Hagun descobriu o que estávamos fazendo, então precisei silenciá-la.”
“O quanto exatamente ela descobriu?” A voz de Hiraga tornou-se séria.
Alisuin pegou as anotações que Kagami examinara momentos antes e leu:
“Academia Donrou — Tatara Yui.
Academia Kyomon — Shinomiya Amane.
Academia Rokuzon — Sara Bloodlily.
Academia Bunkyoku — Hiraga Reisen.
Academia Rentei — Kazamatsuri Rinna.
Academia Bukyoku — Kurogane Ouma.
Academia Hagun — Alisuin Nagi.
Ela marcou esses sete nomes a partir da lista completa de participantes do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas.”
“Impressionante”, comentou Hiraga.
“Eu não sei quem são os outros membros além de você, nosso intermediário, e do Ouma-san, nosso membro convidado, então não posso afirmar que essa lista esteja totalmente correta. Mas ela também parece ter deduzido nosso objetivo, por isso precisei agir... Quão precisa é a lista dela?”
“Desculpe, mas ainda não posso divulgar as informações pessoais dos outros membros. Isso só tornaria tudo mais arriscado. De qualquer forma, o evento de apresentação antes do torneio é hoje à noite. Vocês todos vão se ver lá, então eu faço as apresentações. Mas você sabe com certeza que ela acertou pelo menos três dos sete. Como ela descobriu?”
“Pelas anotações, ela investigou o passado de cada participante. Tirando nosso membro convidado, todos os nossos históricos escolares e registros de torneios são falsificados. Se alguém realmente fosse a fundo, perceberia que há algo errado.”
“Entendo, entendo. Então deveríamos ter feito um trabalho melhor forjando nossos passados. Depois eu puxo a orelha de quem ficou responsável por isso. De qualquer modo, bom trabalho. Nada menos do que eu esperaria da famosa Black Hand. A propósito, como exatamente você lidou com a nossa ratinha curiosa?”
“Eu a deixei inconsciente. Se quiser que eu a mate, posso fazê-lo.”
Não havia o menor traço de hesitação na voz de Alisuin. Não importava que estivesse falando de alguém que, até pouco antes, era considerada sua amiga próxima.
“Não, não, está tudo bem!” apressou-se Hiraga. “Encobrir um assassinato dá muito trabalho. Além disso, o mundo inteiro saberá da Academia Akatsuki até o fim da noite. Apenas mantenha-a presa em algum lugar pelo dia. É tudo o que preciso.”
“Entendido. Desculpe, foi só uma piada. Então, por que me ligou?” perguntou Alisuin de forma direta. Não nutria simpatia alguma por Hiraga; quanto mais curta a conversa, melhor.
“Na verdade, não sou eu quem quer falar com você. Pediram que eu ligasse em nome dessa pessoa. Um instante, vou passar o telefone.”
Ouviu-se um leve ruído enquanto o aparelho era transferido.
“Alô, Alice.”
A expressão de Alisuin enrijeceu no mesmo instante em que ouviu aquela voz. Era firme, severa — impossível de confundir.
“Faz tempo, Mestre Wallenstein.”
“De fato. Não conversamos desde que você partiu para o Japão.”
O Mestre Espadachim de Um Braço, Sir Wallenstein. Um dos Numbers da Rebellion — os doze membros de elite da organização — e o homem que acolhera Alisuin quando ela ainda era órfã, treinando-a para se tornar a Black Hand, uma das principais assassinas da Rebellion.
“Eu não sabia que o senhor também estava no Japão.”
“Estou supervisionando toda esta operação. Naturalmente, vim pessoalmente.”
Saber que Wallenstein já se encontrava no Japão fez Alisuin enrijecer de apreensão. Ela conhecia perfeitamente a força de seu antigo mestre. Se fizesse parte da Federação dos Cavaleiros-Magos, teria sido classificado como um Blazer de Rank A. Sua esgrima era incomparável, e seus poderes de Blazer eram igualmente adequados tanto para ataque quanto para defesa. Sem dúvida, era um dos indivíduos mais fortes da Rebellion.
O fato de ele estar presente fisicamente significava que a organização levava extremamente a sério a queda do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas.
“Entendo. Por que o senhor queria falar comigo?” perguntou Alisuin após alguns segundos.
Com uma voz fria e controlada, Wallenstein declarou:
“Alice, você é uma das melhores alunas que já treinei. Em certos aspectos, é mais difícil assassinar chefes da máfia, líderes de seitas e células terroristas do que eliminar figuras políticas de alto escalão. Ainda assim, você nunca falhou em uma única missão. Provavelmente nem preciso perguntar, mas quero confirmar por garantia: você sabe qual é o seu papel hoje, correto?”
Alisuin fechou os olhos, como se estivesse se despedindo mentalmente de algo.
“Sim, estou ciente. E estou totalmente preparada para fazer o que precisa ser feito. Já conquistei a confiança da maioria dos representantes da Hagun. Meu primeiro ataque certamente acertará, e com meu Shadow Bind, posso neutralizar completamente qualquer um que eu atingir. Não há motivo para preocupação, Sensei. Garantirei que nosso espetáculo seja um sucesso absoluto. Juro pelo meu nome como Black Hand.”
Sua voz estava firme, sem a menor vacilação.
“Fico aliviado em ouvir isso”, respondeu Wallenstein, com um leve sorriso perceptível no tom. “Estou contando com você, Alice.”
Alisuin assentiu, ainda que ele não pudesse vê-la.
“Deixe tudo comigo.”
Ao ouvir isso, Wallenstein desligou.
É raro o Sensei me ligar... embora, considerando a situação, faça sentido.
Os patrocinadores da Rebellion queriam que o espetáculo pré-Festival ocorresse sem falhas. Afinal, seria o grande evento que revelaria ao mundo a existência da Academia Akatsuki. Se algo desse errado, tudo o que a Rebellion e seus financiadores haviam arquitetado iria por água abaixo.
Melhor resolver isso aqui primeiro.
Se quisesse que tudo transcorresse sem problemas, Alisuin precisava garantir que Kagami — e as descobertas dela — permanecessem ocultas pelo resto do dia.
Ela ativou seus poderes de Blazer. Lentamente, tanto a repórter quanto suas anotações começaram a afundar na própria sombra de Alisuin.
“Sinto muito por isso, mas preciso eliminar qualquer risco em potencial para garantir o sucesso do plano.”
Em poucos segundos, os riscos haviam desaparecido completamente.
◆
Depois de esconder Kagami e seus documentos em um local discreto, Alisuin retornou ao prédio do dormitório destinado aos participantes do torneio. Foi direto ao seu quarto e abriu a porta.
“Bem-vinda de volta, Alice”, disse Shizuku, sem sequer erguer os olhos do livro que lia. Vestia um negligê e havia deixado acesa a luminária ao lado da cama de Alisuin.
“Ah, não sabia que você ainda estava acordada, Shizuku.”
“Já vou dormir.”
Enquanto falava, virou a página. Pelo volume restante, parecia estar perto do final.
“O que você está lendo?”
“108 Maneiras de Atormentar Sua Nora.”
Meu Deus...
“A propósito, Alice, notei que você tem saído bastante à noite nesses últimos dias.”
Alisuin ponderou cuidadosamente como responder. Ela havia escutado a ligação de Ikki com Kagami e, desde então, passara a maior parte das noites observando a repórter. Não era surpreendente que Shizuku começasse a suspeitar de algo. Ainda mais porque naquela noite ela saíra mesmo sob chuva torrencial.
O problema era que Alisuin não tinha certeza se conseguiria mentir de forma convincente para Shizuku. A garota tinha talento para ler as pessoas — era perspicaz demais.
“Não estou me metendo em nada suspeito, se é isso que você está pensando. Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas está próximo, e tenho alguns preparativos a fazer antes.”
Não era mentira — mas também não era exatamente a verdade.
“Entendo”, respondeu Shizuku simplesmente, voltando sua atenção ao livro.
Em momentos assim, Alisuin era grata pela falta de interesse de Shizuku pelas outras pessoas. A mente dela estava ocupada quase exclusivamente por pensamentos sobre seu irmão, Kurogane Ikki.
Tenho um pouco de inveja disso.
Ela só admitia isso para si mesma porque sabia que aquele era o último dia em que poderia continuar sendo amiga de Shizuku. Assim que o espetáculo de abertura da Academia Akatsuki terminasse, ela deixaria Hagun para sempre.
“Ei, Shizuku.” Alisuin foi até sua bolsa de viagem e retirou uma garrafa de álcool manchada de fuligem. “Quer beber comigo?” Pelo menos poderiam compartilhar uma bebida na última noite juntas.
Shizuku fechou o livro e se levantou. Mas, ao ver a garrafa nas mãos de Alisuin, franziu a testa.
“Não é aquela bebida horrível que você levou da última vez que fomos ao bar? Aquela que tem gosto de xarope para tosse?”
Ah, é mesmo. Fomos beber depois que o Ikki venceu sua primeira luta classificatória.
Na ocasião, Shizuku dera apenas um gole do uísque forte, fizera uma careta e em seguida bebera um copo inteiro de água para apagar o gosto.
“Desculpe. Esqueci que você não gosta. Nesse caso, eu só—”
“Tudo bem. Eu bebo com você.” Shizuku caminhou até o sofá e se sentou.
“Tem certeza? Não precisa se forçar.”
“Tenho. Afinal, hoje é um dia especial.”
É? Aconteceu alguma coisa especial hoje?
Confusa, Alisuin pegou dois copos e os colocou sobre a mesa de centro. Em seguida, sentou-se na cadeira em frente a Shizuku e serviu uma pequena dose do uísque âmbar em cada um. Entregou um dos copos à colega, que o recebeu com certo cuidado.
“Ugh.” Shizuku fez uma careta quando o cheiro medicinal do álcool invadiu suas narinas. Levaria um bom tempo até que se acostumasse com aquele sabor específico. “Você é estranha, sabia, Alice? Tem um monte de bebidas que são muito mais gostosas do que isso.”
“Hee hee, talvez seja mesmo.” Alisuin não negou que o uísque tinha um gosto horrível. “Mas, no caso dessa bebida em particular, seria um problema se fosse gostosa demais.”
“Por quê?” Shizuku inclinou levemente a cabeça.
Alisuin lançou um olhar para a garrafa manchada de fuligem e respondeu:
“Há muito tempo, quando eu ainda era criança, meus amigos e eu costumávamos dizer: ‘Adultos legais bebem essa coisa nojenta. Por isso, qualquer um que consiga beber isso é um adulto legal.’”
Shizuku caiu na gargalhada.
“Aha ha ha! Que fofo.”

[Almeranto: Que roupa é essa? Kkkkk.]
“Sim. É o tipo de lógica que só criança inventaria. Mas, na nossa cabeça, qualquer um que conseguisse beber isso deixava de ser criança e virava adulto.”
“Então era tipo um ritual de passagem no seu grupo?”
“Pode pensar assim.”
“Você era bem levada, hein, Alice? Nem tinha idade para beber naquela época, tinha?”
“O país de onde eu vim nem sequer tinha idade mínima legal para beber.”
Sorrindo levemente, Alisuin tomou um gole do uísque. O líquido ardeu ao descer pela garganta, e o odor intenso quase a fez perder o equilíbrio por um instante. Aquela marca específica tinha um sabor tão peculiar que mesmo entre apreciadores de uísque eram poucos os que a suportavam.
“Para ser sincera, eu mesma não gosto muito desse uísque”, confessou.
“Mas continua bebendo?”
“Porque ele traz lembranças boas. Embora eu quase nunca beba exatamente desta garrafa.”
“Entendo... Eu não tenho nenhuma memória ligada a isso, então só tem gosto ruim mesmo.”
Dizendo isso, Shizuku ergueu o copo e virou o conteúdo de uma vez. Em seguida, fez uma careta intensa.
“Acho que não consigo beber mais. Minha garganta está ardendo, e esse gosto de xarope é tão forte que está me dando dor de cabeça.”
“Eu disse que você não precisava se forçar.”
“Não tem problema. Hoje é um dia especial”, respondeu Shizuku, massageando a garganta.
É a segunda vez que ela diz isso.
Intrigada, Alisuin perguntou:
“Você já falou isso antes. Aconteceu algo bom? O que há de especial hoje?”
Shizuku balançou a cabeça.
“Não é especial para mim. É especial para você.”
Hã?
O coração de Alisuin falhou uma batida. De fato, aquela era a última noite que passaria ao lado de Shizuku. Quando o sol se pusesse novamente, ela declararia oficialmente sua afiliação à Academia Akatsuki. Mas não havia como Shizuku saber disso.
“Por que você acha isso?”, perguntou Alisuin, sem tentar esconder a surpresa.
“Porque é a primeira vez que você me convida para fazer algo por iniciativa própria.”
É mesmo?
“Isso não é verdade. Eu te convidei para beber depois que o Ikki derrotou o Hunter, não foi?”
“Naquela vez, você me chamou porque queria me animar depois que aquela vaca roubou o Onii-sama de mim. Você nunca se aproximou de alguém — nem de mim — por vontade própria até agora. Você é sociável e se dá bem com todo mundo, mas nunca deixa ninguém chegar perto demais.”
Alisuin prendeu a respiração. Era verdade — desde o primeiro dia, ela vinha agindo deliberadamente daquela maneira. Era cordial com todos, mas jamais abria o coração para ninguém. Pelo contrário, tomava cuidado para que ninguém sequer tentasse se aproximar demais. Afinal, havia se infiltrado na Hagun com a intenção de traí-la — e aos seus alunos.
Ela acreditava ter sido natural o bastante para que ninguém percebesse, mas aparentemente Shizuku havia notado.
Balançando a cabeça, meio admirada, Alisuin comentou:
“Estou impressionada que você tenha percebido isso, Shizuku. Acho que tem prestado mais atenção em mim do que eu imaginava.”
“Claro que tenho prestado atenção”, respondeu Shizuku com um sorriso suave. “Você é minha querida irmã mais velha, Alice. E agora, finalmente, me convidou para beber por sua própria vontade — não pela minha. Não sei por que hoje é especial para você, mas é, não é? Então eu aguento um copo de uísque por você. Só um, porém. Da próxima vez, escolha algo que não tenha gosto horrível.”
Ela fez um biquinho enquanto encarava a garrafa manchada de fuligem. A expressão era tão genuinamente adorável que Alisuin não conseguiu evitar um sorriso.
“Hee hee, um copo é mais do que suficiente. Obrigada, Shizuku.”
◆
Shizuku devia estar exausta, pois começou a cochilar pouco depois de terminar o uísque. Em questão de minutos, já estava completamente adormecida.
Pensando bem, quando fomos ao bar, ela também dormiu logo depois de beber... Talvez álcool simplesmente dê sono nela.
Com cuidado, Alisuin a pegou no colo e a levou até a cama. Estava quente o bastante para que não pegasse um resfriado dormindo no sofá, mas aquilo certamente não seria confortável.
“Mmm... Onii-sama...”
Shizuku se mexeu levemente nos braços de Alisuin.
“Heh. Que tipo de sonho será que ela está tendo?”
“Saia da frente... preciso matá-la... Zzz...”
“S-Sério, que tipo de sonho é esse?”
A expressão de Alisuin enrijeceu um pouco enquanto a acomodava na cama, tomando o máximo cuidado para não acordá-la. Shizuku sorriu em meio ao sono e se aninhou sob as cobertas.
“Ela realmente é bem fofa...”
Alisuin a observou por alguns segundos antes de se deitar em sua própria cama. As palavras de Shizuku ecoaram em sua mente.
“Sua irmã mais velha, hein?”
Seu olhar deslizou até a garrafa de uísque ainda sobre a mesa perto do sofá. Um leve torpor começou a envolvê-la, e ela se deixou levar pelas lembranças de uma época em que aquela bebida significava tanto para ela — os dias anteriores a ser acolhida pela Rebellion e transformada em uma assassina de sangue-frio.
Com o passar dos minutos, suas recordações tornaram-se mais sombrias, até que sua mente retornou ao último dia que passara com Yuuri — quando ainda era a irmã mais velha das crianças mais novas.
◆
Naquele dia, uma chuva gelada caía sem cessar. Não fazia frio o bastante para nevar, mas as gotas cortantes penetravam o corpo com mais intensidade do que a neve jamais conseguiria.
Abrigo sob um guarda-chuva barato de vinil, Alice aproximou-se de um homem alto — um cobrador de dívidas da máfia local. Alice era obrigado a entregar a maior parte do dinheiro que ganhava fazendo trabalhos para a organização a esse homem, de modo que sua parcela dos lucros era mínima. Mas esse era o preço por ser um subordinado. Ainda assim, os homens que trabalhavam para a máfia estavam longe de serem honestos.
“Aqui.”
O dinheiro que o homem lhe entregou era muito inferior à porcentagem prometida.
“Você disse que eu receberia vinte por cento de—”
Antes que pudesse terminar, o homem cuspiu em seu rosto.
“Cala a boca, moleque. Você devia agradecer por deixarmos você trabalhar aqui.”
O homem olhou para Alice como se ele fosse lixo, então virou-se e foi embora. Assim que desapareceu de vista, Alice mostrou a língua na direção em que ele partira.
Você também já foi um moleque de rua, sabia, pensou amargamente, enquanto limpava o cuspe do rosto.
Em seguida, caminhou até um canto do beco e afastou um pequeno monte de neve, revelando um recipiente de plástico embrulhado em um pano rosa.
“Espero que não tenha ficado frio demais.”
Dentro havia uma torta de carne que um cliente generoso lhe dera. O cobrador da máfia certamente a teria tomado se a encontrasse, por isso Alice a escondera ali.
“Todo mundo vai ficar tão feliz. Faz tanto tempo que não comemos carne.”
Devo dividir um pouco com a irmã também. Ah, mas ela tem aquela grande reunião na igreja da cidade vizinha hoje.
Alice começou a percorrer a estrada de volta para casa, o desejo de ver os sorrisos de todos acelerando seus passos.
“O quê...”
Mas, ao retornar, encontrou a porta do galpão arrombada, mal presa às dobradiças. Ele estava acostumado à violência, então entendeu de imediato que alguém havia atacado o pequeno lar deles.
“N-Não!”
Alice deixou cair tudo o que carregava e correu para dentro do galpão. Não havia ninguém ali. Ainda era cedo, o que significava que suas irmãs mais novas deveriam estar dormindo. No entanto, sobre a cama havia apenas o cobertor sujo que todas compartilhavam.
O que aconteceu?! Para onde todo mundo foi?!
Alice ergueu o cobertor — e prendeu a respiração em choque. Havia manchas de sangue na cama, ainda frescas. Olhando ao redor, percebeu mais rastros levando para fora.
Os do lado de fora quase haviam sido apagados pela chuva, mas ainda eram visíveis, ainda que de forma tênue.
Desesperado, Alice seguiu as marcas, temendo já estar atrasado demais. Gotas de suor frio escorriam por sua testa. A explicação mais provável para aquelas manchas de sangue era que alguém de sua família tivesse sido ferida.
Não, pode ser qualquer coisa! Alice tentou convencer a si mesmo, recusando-se a acreditar que algo tivesse acontecido à sua família.
Mas a realidade foi implacável.
Ele seguiu os rastros de sangue até a rua principal em frente à igreja — o lado oposto da viela por onde costumava ir e voltar do trabalho — e encontrou exatamente aquilo que mais temia.
“Ah...”
Uma garota de cabelos vermelhos estava caída contra uma parede de tijolos, o ventre encharcado de sangue.
“Y-Yuuri!”
Alice correu até ela. A garota ergueu a cabeça com dificuldade.
“Nh...” Forçou as pálpebras pesadas a se abrirem e encarou-o. “Ainda bem... que você está bem... Alice...”
“O que aconteceu?! Quem fez isso?!”
O rosto de Yuuri se contorceu entre dor e raiva.
“Não sei por quê... mas os homens do Sergei nos atacaram de repente... Disseram que estavam... limpando o lixo... Levaram as crianças... Droga... Se eu fosse mais forte...”
“A máfia atacou vocês?! M-Mas por quê?! Nós pagamos a taxa de proteção!”
“Não sei... Cof, cof!” Yuuri tossiu sangue, que manchou o asfalto gelado.
“Yuuri! N-Não force a voz!”
Alice sabia que precisava levá-la a um médico — e rápido. Felizmente, aquela era uma rua movimentada, e algumas pessoas começavam a notar que havia uma garota gravemente ferida no chão.
“Com licença! Alguém, por favor, chamem um médico!” gritou Alice.
Mas foi recebido por silêncio.
As pessoas que estavam olhando desviaram o olhar constrangidas e começaram a se afastar. Fingiam não ouvi-lo.
M-Mas por quê?
“Por favor! Estou implorando! Ao menos me deixem usar um telefone! Eu pago, eu prometo!”
Mais uma vez, ninguém respondeu.
Alguns lançaram olhares curiosos para Yuuri, mas não permaneceram. Ninguém queria se envolver naquela situação problemática. Alice ficou atônito diante de tamanha indiferença.
Por que ninguém ajuda? Não conseguem ver o quanto ela está ferida?
“Por favor! Eu sei que vocês estão ouvindo! Ela vai morrer!”
“Não desperdice... seu fôlego...” Yuuri murmurou, arrancando as palavras em meio à dor. “Ninguém vai nos ajudar... moleques de rua... Você já devia saber disso...”
“Ngh!”
Alice sabia que ela estava certa. Não havia nada a ganhar ajudando órfãos abandonados e sem dinheiro como eles. Os adultos sabiam disso — e por isso mantinham distância.
“Mas nós não somos como eles”, acrescentou Yuuri.
“Hã?”
“Nós somos adultos legais. Não somos?”
Os olhos de Alice se arregalaram ao recordar a promessa que ele e Yuuri haviam feito anos atrás, quando apertaram as mãos pela primeira vez e beberam aquele uísque ardente. Haviam jurado não viver pensando apenas em si mesmos. Juraram se tornar adultos legais — pessoas que amavam e ajudavam os outros.
“Sim. Sim, somos! Mas por que está falando disso agora?”
“Então você precisa salvá-los...” respondeu Yuuri, encarando Alice diretamente nos olhos.
Ela falava como se já tivesse aceitado a própria morte — como se estivesse confiando tudo a ele.
Tomado pelo pânico, Alice segurou-a pelos ombros e gritou:
“N-Não fale besteira! Reaja, Yuuri! Eu não consigo fazer isso sozinho! Eu perdi para você antes, lembra?! Se vamos salvá-los, temos que fazer isso juntos!”
“Heh heh. Cof.” Ela tossiu. “Mentiroso... Quantos anos você acha que nos conhecemos? Eu sei... que você se conteve... para não me matar...”
“Eu—”
“Eu sei que você pode protegê-los... Você é forte o bastante... então...”
“Pare de falar como se fosse morrer!” gritou Alice, lágrimas escorrendo pelo rosto.
A luz começou a desaparecer dos olhos de Yuuri enquanto ela murmurava:
“Agora tudo... depende de você... Alice...”
Seus olhos se fecharam. No instante seguinte, seu corpo perdeu toda a força.
“Yuu... ri?”
Alice sacudiu seus ombros.
“Vamos, diga alguma coisa. Por favor.”
Mas os olhos dela permaneceram fechados.
“Você não pode ficar deitada aqui, Yuuri. Nós prometemos que iríamos para o sul... lembra...”
Alice chorava de forma descontrolada agora, mas Yuuri não respondia. Não podia. No fundo, ele sabia que ela jamais abriria os olhos novamente.
Não era a primeira vez que um órfão morria nas ruas daquela cidade. Na verdade, Alice já tinha visto isso acontecer antes. Mas ele não queria aceitar que o lugar que havia se esforçado tanto para proteger pudesse desmoronar com tanta facilidade. Não queria aceitar a realidade.
Ainda assim, o tempo cruel não lhe concedeu nem mesmo o pequeno consolo da negação por mais que alguns minutos.
“Oh, ali está ele. Chefe, encontramos o moleque Alice.”
“Certo, capturem-no. Não marquem o rosto dele. Com essa aparência, ele vale vinte vezes mais que os outros pirralhos.”
Alice ouviu passos se aproximando por trás. Virou-se e viu membros da máfia para a qual ele e Yuuri trabalhavam cercando-o — armados com armas de fogo ou Devices, dependendo se eram Blazers ou não. Apontaram suas armas para ele.
Alice ergueu o olhar vazio, desprovido de emoção.
“Por quê? Nós pagamos o que vocês pediram”, perguntou simplesmente.
“Heh heh. Estamos só prestando um serviço público, sabe? Os grandões do palácio pediram para limpar as ruas. E pagaram muito mais do que você ganharia em toda a sua vida. Além disso, ainda vamos ganhar um bônus vendendo você para algum bordel. Então, é claro que vamos trair você.”
“É um mundo onde os fortes devoram os fracos, garoto. Desista e aceite seu destino — ou vamos abrir você do mesmo jeito que abrimos aquela vadia estúpida ali.”
Um dos mafiosos estendeu a mão para agarrar Alice pelos cabelos. Alice fixou o olhar no braço que se aproximava lentamente.
É... acho que realmente é um mundo onde os fortes devoram os fracos.
Aqueles homens haviam sobrevivido muito mais tempo do que ele e os outros. Havia peso nas palavras deles. Afinal, se estivessem errados, Yuuri não teria morrido.
O mundo não estava errado. Não havia nada de injusto ou irracional naquela situação. O erro fora deles — por perseguirem um ideal de “adultos legais” que não existia na realidade. Alice compreendia isso de forma dolorosa.
Mas, nesse caso, vocês também não podem reclamar se eu tirar tudo de vocês.
No instante em que o homem agarrou seu braço, a visão de Alice ficou vermelha — uma fúria fervente tomou conta dele.
“Raaaaah!”
Ele não se lembrava do que aconteceu depois.
Quando voltou a si, estava dentro do quartel-general da máfia, coberto de sangue. O aposento também estava encharcado de vermelho. Dezenas de cadáveres jaziam espalhados pelo chão, tão mutilados que mal pareciam humanos. Órgãos esmagados e ossos partidos estavam dispersos por toda parte.
Encolhidos em um canto estavam seus irmãos mais novos, os dentes batendo de medo.
“E-Eeeek...”
“P-Por favor... não... nos mate...”
“Aaah...”
Todos olhavam para Alice com olhos cheios de terror e desespero. O respeito e o carinho que antes demonstravam haviam desaparecido.
Ele sabia que jamais veria novamente os sorrisos calorosos que costumavam lhe oferecer.
Embora tivesse conseguido protegê-los, tinha plena certeza de que, naquele momento, também os havia perdido.
◆
Algum tempo depois, Alice caminhava pelas ruas sem sequer se dar ao trabalho de abrir um guarda-chuva para se proteger da chuva congelante. Não tinha destino algum; vagava pela cidade como um fantasma. Estava encharcado da cabeça aos pés, mas isso não lhe importava. Já estava coberto de sangue desde antes — que diferença faria um pouco mais de líquido?
Os transeuntes olhavam para ele por causa das roupas manchadas de vermelho, mas ninguém se aproximava. O que importava para eles se um órfão estivesse à beira da morte? Alice também não conseguia se importar. Não restava raiva nem tristeza em seu coração. Ele havia chorado todas as emoções ao abraçar o corpo sem vida de Yuuri.
E, ainda assim, não se incomodava por elas terem desaparecido. Recordou o instante em que sua melhor amiga esfriara em seus braços. O momento em que seus irmãos mais novos o encararam com medo. Se o preço de ter emoções era suportar a dor lancinante de perder aqueles que amava, então era melhor não tê-las.
Nesse momento, alguém o chamou por trás.
“Nunca imaginei que seria passado para trás por uma criança.”
Alice virou-se lentamente, os olhos ainda vazios. O homem que o interpelara era um cavalheiro de meia-idade vestindo um manto negro. Após tantos anos no submundo, Alice percebeu de imediato — pelo porte e pela presença — que aquele não era alguém respeitável. Na verdade, parecia ainda mais vil do que o chefe da máfia que ele acabara de matar. Mesmo assim, Alice não sentiu medo. Essa emoção também já havia sido drenada.
“Quem é você?”, perguntou em tom inexpressivo.
“Um assassino tolo que teve o alvo roubado por um garoto.”
O homem explicou que fora contratado pelo prefeito da cidade para eliminar a máfia que dominava aquelas ruas. Alice achou aquilo profundamente irônico. A mesma máfia que o chamara de lixo também era considerada lixo por alguém acima dela.
É tudo tão ridículo.
Um sorriso cruel surgiu nos lábios de Alice.
“Então veio reclamar por eu ter tomado sua presa?”
“Oh, não, de forma alguma”, respondeu o homem mais velho. “Vim agradecer por ter facilitado meu trabalho. Aqui está sua recompensa.”
O cavalheiro retirou um objeto arredondado de dentro do manto e o lançou aos pés de Alice. Ele olhou para baixo — era a cabeça decepada de um velho. A cabeça do prefeito daquela cidade. O homem que ordenara à máfia que matasse Alice e sua família.
Curiosamente, ele não ficou surpreso.
“Obrigado pelo presente maravilhoso”, disse Alice.
Em seguida, pisou na cabeça do prefeito com toda a força que conseguiu reunir. Depois de esmagá-la até reduzi-la a uma massa irreconhecível, soltou uma risada oca.
“Heh... Aha ha ha...”
Que mundo é esse.
Yuuri fora morta pela máfia. O prefeito então mandara alguém eliminar a máfia que ele próprio utilizara para matar Yuuri — apenas para ser morto por aquele assassino que agora estava diante de Alice.
Naquele momento, Alice teve certeza de que o inferno não era um lugar para onde se ia após a morte. Ele já estava ali. Não poderia existir universo pior do que aquele. Fora tolice acreditar que poderia proteger alguém — que poderia amar alguém — em um mundo tão desprovido de coração.
Nós realmente fomos idiotas, não fomos?
“A conclusão à qual você chegou está correta”, disse o cavalheiro com uma voz grave. “Amor, dinheiro, moral, virtude — tudo isso são hipocrisias inúteis às quais a humanidade se agarra para desviar o olhar da realidade. Da única verdade constante neste mundo. Os fortes roubam, e os fracos são roubados. O ser mais poderoso sempre consegue o que quer. Essa é a única e absoluta verdade deste mundo. Agora que você percebeu isso, é digno de se tornar um de nós. Somos a Rebellion, um grupo que busca arrancar as mentiras que cobrem este mundo e revelar a verdade a todos. Suas habilidades de assassinato seriam de grande valor para nós. Venha comigo, garoto.”
Aquele homem estava convidando Alice para um lugar ainda mais sombrio do que aquele onde ele já se encontrava. Com a voz plana, ele perguntou: “E se eu recusar?”
“Eu já disse: a única verdade deste mundo é que os fortes roubam e os fracos são roubados. Se você tentar dizer não, eu simplesmente o forçarei a dizer sim.”
O cavalheiro levou a mão ao bolso do casaco, e seu olhar de repente se tornou hostil.
Alice achou aquela hostilidade nua quase reconfortante. A ameaça de violência não era ameaça alguma para ele. O propósito da violência era tirar algo dos outros — e ele já não tinha mais nada que pudessem lhe tirar.
“Ha ha ha. Entendo, entendo. Direto e simples. Eu gosto disso.” No entanto, era justamente porque Alice não tinha mais nada que a proposta do homem o intrigava. “Certo, eu vou com você. Não é como se eu tivesse algum lugar para chamar de lar. Mas tenho uma condição.”
“E qual é?”
“Cem milhões. Esse é o meu preço. Dê-me essa quantia e eu trabalharei para você.”
Alice estava pedindo uma soma exorbitante.
“Você acha que um pirralho órfão como você vale cem milhões? Você tem uma opinião bem elevada sobre si mesmo, garoto”, disse o homem, franzindo a testa. Após pensar por um instante, perguntou: “E se eu recusar?”
“Tenho certeza de que não preciso explicar. Você já conhece a verdade deste mundo, não é?” respondeu Alice com um sorriso de canto. Se aquele homem não lhe desse o dinheiro, ele o roubaria. Era o tipo de arrogância imprudente que só alguém sem nada a perder poderia ter.
“Heh heh heh heh. Eu gosto de você, garoto. Muito bem. Você terá seus cem milhões.”
A atitude de Alice impressionou o homem, que aceitou prontamente seu pedido. “Então, qual é o seu nome?”
“Alice. É assim que todos me chamam, pelo menos.”
“Eu sou um dos Doze Numbers da Rebellion, Wallenstein, o Mestre Espadachim de Um Braço. Bem-vindo ao grupo, Alice.”
Wallenstein estendeu sua única mão para um aperto, e Alice a segurou, selando o contrato.
Depois disso, Alice entregou o dinheiro que Wallenstein lhe deu à irmã da igreja, dizendo-lhe para usá-lo na criação de seus irmãos e irmãs mais novos. Em seguida, cortou todo contato com as pessoas de sua antiga vida e deixou a cidade com Wallenstein.
Livre dos fardos da moralidade, Alice aperfeiçoou seu talento para matar sob a tutela de Wallenstein. Tornou-se o Black Hand da Rebellion e executou incontáveis assassinatos. Foi assim que a pessoa conhecida como Alisuin Nagi passou os anos seguintes de sua vida.
◆
Que piada, Alisuin pensou com um sorriso amargo enquanto relembrava como passara a última metade de sua vida. Embora soubesse que era apenas uma persona que assumira ao se infiltrar em Hagun, era irônico que tivesse acabado desempenhando o papel de irmã mais velha novamente. Mas em menos de vinte e quatro horas, essa farsa chegaria ao fim. Os falsos laços que construíra com Shizuku e os outros seriam estilhaçados.
Eu me pergunto que tipo de expressão ela fará quando souber a verdade.
Alisuin relembrou os olhares de medo e nojo que seus irmãos mais novos ostentavam quando ela os resgatara. Eles olharam para ela como se fosse uma assassina implacável. Ela não tinha dúvidas de que Shizuku, também, ficaria enojada com ela por sua traição. No entanto, isso não a incomodava muito. Afinal, ela só se aproximara da garota como parte de sua missão. Lorelei era uma das Blazers Rank B mais proeminentes em Hagun, então é claro que Alisuin precisara ficar de olho nela. Foi por isso que ela desempenhou o papel de irmã mais velha — para ganhar a confiança de Shizuku. Ela não tinha apego algum ao relacionamento delas.

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