Volume 3

Capítulo 3: As Dificuldades de Worst One

“Muito obrigado por terem comparecido hoje, senhores, apesar de suas agendas atribuladas. O motivo de termos convocado esta sessão é que o acusado, Kurogane Ikki-kun, envolveu-se em um relacionamento ilícito com uma hóspede nacional de honra. Como ele é legalmente considerado adulto segundo a Federação dos Cavaleiros-Magos, muitos solicitaram que fosse formalmente julgado por essa infração, e a filial japonesa decidiu que essa seria a melhor medida a tomar”, declarou Akaza, diante do púlpito.

“Cavaleiros-Estudantes desfrutam de privilégios que jovens comuns de quinze anos não possuem”, continuou ele. “Mas é justamente por isso que devem agir com responsabilidade compatível com sua posição elevada e não abusar desses privilégios. Portanto, estamos aqui hoje para examinar a personalidade e as qualificações de Kurogane Ikki-kun, a fim de determinar se ele é realmente apto a integrar a Federação dos Cavaleiros-Magos. Sei que todos são muito ocupados e agradeço por terem disponibilizado seu tempo para participar desta audiência.”

   A investigação contra Ikki estava sendo realizada no décimo subsolo da filial japonesa da Federação Internacional dos Cavaleiros-Magos. Era ali que o Comitê de Ética — por vezes chamado de polícia secreta da Federação — conduzia julgamentos de Cavaleiros-Estudantes e Cavaleiros-Magos sob suspeita.

   Akaza era o presidente do Comitê de Ética da filial japonesa, razão pela qual presidia o procedimento. Ele sorriu para Ikki, que permanecia de pé diante dele, e anunciou:

“A audiência terá início agora. Senhores, por favor, tomem seus assentos.”

   Todos os homens ao redor de Akaza se sentaram, mas nenhum assento fora preparado para Ikki. Era uma forma banal de intimidação, mas significava que ele teria de permanecer em pé por horas a fio. Naturalmente, após tanto treinamento rigoroso, aquilo sequer representava um incômodo para ele.

     Deus, que lugar deprimente.

   Ikki observou o ambiente ao redor. A iluminação era escassa, e ele estava cercado em três lados por homens idosos vestindo ternos abafados. Mais especificamente, havia três à sua frente e um de cada lado, totalizando cinco. Todos trajavam o mesmo terno vermelho que Akaza, indicando que pertenciam ao Comitê de Ética.

“Não precisa me olhar com tanta hostilidade, Ikki-kun. Todos aqui hoje estão do seu lado”, disse Akaza em tom brincalhão ao perceber Ikki avaliando os membros do comitê. “Não estamos tentando expulsá-lo. Na verdade, o objetivo desta audiência é permitir que você apresente sua versão dos fatos. Todos nós aqui sentados — inclusive seu pai — insistimos na realização desta sessão pelo seu bem. Queremos apenas conhecer toda a verdade. Não é mesmo, senhores?”

“Naturalmente. Seria uma pena se você fosse expulso da Federação sem sequer ter a oportunidade de se defender. Pelo que soubemos, você está prestes a garantir uma vaga no Festival das Sete Estrelas. Seria realmente lamentável se todo o seu esforço fosse desperdiçado.”

“Obrigado...”, murmurou Ikki, quase impressionado com a desfaçatez com que conseguiam proferir tais mentiras.

“Agora que entende que estamos do seu lado, vamos revisar os fatos. É verdade que você mantém um relacionamento amoroso com a segunda princesa do Reino de Vermillion, Stella Vermillion?”

“Sim, é verdade.”

Geh heh heh. Agradecemos sua honestidade. Há quanto tempo esse relacionamento começou?”

“Na noite após minha primeira luta classificatória para o Festival das Sete Estrelas.

   Não havia motivo para mentir sobre isso, então Ikki respondeu com franqueza. Ainda assim, os membros do comitê que supervisionavam a audiência franziram o cenho ao ouvir a resposta.

“Oh? Isso foi logo após o primeiro encontro de vocês, não foi?”

Hmph. Os jovens de hoje são apressados demais. E não têm senso algum de decoro.”

“No meu tempo, as pessoas realmente se conheciam antes de assumir um compromisso.”

“A juventude atual é escrava de seus impulsos mais baixos. Basta ver quantos casamentos às pressas acontecem.”

“Uma situação verdadeiramente deplorável.”

   Os homens partiam do pressuposto de que Ikki e Stella já haviam tido relações, algo que não poderia estar mais distante da verdade. Se havia algo notável, era justamente o quão lentamente o relacionamento deles progredira, considerando as circunstâncias. E isso acontecera porque Ikki levava a sério o futuro ao lado de Stella. Ele compreendia que a posição dela como membro da realeza era delicada — e aquilo o irritava profundamente: aqueles homens estavam presumindo o pior.

“Com licença, mas eu nunca—”

“Calma, calma, Ikki-kun. Entendo que você tenha muito a dizer, mas deve aguardar a autorização do comitê antes de falar. Interromper só piorará sua situação. Geh heh heh.

“Peço desculpas”, respondeu Ikki, inclinando a cabeça a contragosto.

   O homem barbudo, de olhar viscoso, sentado à esquerda de Ikki, falou então:

Hmph. Já que está tão ansioso para falar, responda-me: não lhe pareceu anormal iniciar um relacionamento com a princesa de uma nação estrangeira? Não temeu que isso pudesse provocar um incidente diplomático? Entendo que garotos da sua idade tenham dificuldade em controlar seus impulsos sexuais, mas certamente poderia ter escolhido outra garota.”

“Meu relacionamento com Stella não é algo superficial. Nós dois nos amamos de verdade.”

Hmph. Palavras ignorantes de uma criança.”

Geh heh heh. Houve uma época em que eu era como você. Achei que passaria o resto da vida com a primeira garota por quem me apaixonei. Mas isso não passa de tolice juvenil.”

“Perdoe-me por corrigi-lo, mas Stella e eu somos adultos perante a lei. Temos o direito de nos casar se quisermos. É natural que levemos nosso relacionamento com seriedade.”

“Bastante insolente, não é?”

“Deveria demonstrar mais respeito aos seus superiores, rapaz.”

“Eu o avisei que falar sem permissão prejudicaria sua imagem diante desses senhores. Geh heh heh.”

   Akaza retirou uma folha de papel e começou a anotar algo. Observando os velhos que o cercavam, Ikki suspirou em silêncio.

     Eu sabia que essa investigação seria uma farsa, mas não imaginei que seria tão mal encenada.

   Aqueles homens insistiam que Ikki precisava estar ciente de suas responsabilidades como adulto, mas se recusavam a reconhecer quaisquer dos direitos que ele supostamente possuía como tal. Era o cúmulo da hipocrisia. Não que Ikki esperasse algo diferente, mas agora tinha certeza de que não estavam interessados em avaliar de forma justa suas qualificações como cavaleiro. Estavam apenas pescando qualquer elemento que pudesse sustentar a alegação de que ele era inapto, para então encaminhar à sede um pedido formal de expulsão. Aquilo não era uma audiência — era uma inquisição.

     Bem, eu já sabia disso desde o momento em que vi o jornal.

   Toda aquela encenação mal se sustentava. Sim, seria um escândalo público se viesse à tona que uma princesa estrangeira arranjara um namorado enquanto estudava no exterior. Renderia fofocas. Mas isso não tinha absolutamente nenhuma relação com as qualificações de alguém como Cavaleiro-Mago.

   Como o próprio Ikki afirmara, aos olhos da Federação, tanto ele quanto Stella eram adultos. Qualquer que fosse a natureza do relacionamento deles, não havia violação legal alguma. Se decidissem se casar, nem mesmo o pai dela — o rei de Vermillion — poderia impedi-los. E, se de fato fosse contra o relacionamento, como os artigos sugeriam, teria se manifestado pessoalmente. O fato de não o ter feito deixava claro que a mídia estava sendo manipulada pela filial japonesa da Federação dos Cavaleiros-Magos — tudo para fabricar um pretexto que permitisse afastar Ikki da instituição.

     Essa é realmente uma maneira tortuosa de alcançar o que desejam.

   Ikki também compreendia por que precisavam agir de forma tão indireta. A sede central da Federação dos Cavaleiros-Magos era responsável pelo registro e pela expulsão de todos os Cavaleiros-Magos e Cavaleiros-Estudantes. Centralizar essa administração ajudava a prevenir guerras regionais e facilitava a mobilidade dos cavaleiros entre países, permitindo cooperação mútua em situações de necessidade. Além disso, caso eclodisse um conflito entre nações, a Federação poderia intervir como mediadora, selecionando cavaleiros representantes de ambos os lados para resolver a disputa por meio de um duelo por procuração.

   De qualquer forma, o que tudo isso significava era que uma filial não poderia retirar unilateralmente o status de qualquer Cavaleiro-Mago ou Cavaleiro-Estudante. Eles precisavam da aprovação da matriz. Nem Itsuki, o chefe da filial do Japão, nem Akaza, o presidente do Comitê de Ética, podiam afetar diretamente o status de Ikki como cavaleiro. Foi por isso que recorreram a métodos tão indiretos. Também foi por isso que o pai de Ikki colocou o Hunter atrás dele no ano passado.

   Nesta audiência, Akaza esperava forçar Ikki a dizer algo suficientemente autoincriminador para que pudesse ter seu status de Cavaleiro-Estudante revogado. Mesmo sem provas concretas, ele poderia alegar que Ikki tinha uma má atitude, má postura, maus modos, e assim por diante. Cada pequeno detalhe ajudaria a dar mais credibilidade à alegação quando solicitassem à matriz sua expulsão. Nesse ponto, a melhor coisa que Ikki podia fazer era permanecer em silêncio a menos que lhe fizessem uma pergunta e responder da forma mais inequívoca possível, evitando dar a Akaza qualquer coisa que pudesse ser usada contra ele. Mas, embora Ikki soubesse disso, ele não suportava deixar que Akaza menosprezasse seu relacionamento com Stella.

“Eu não me importo com a sua impressão sobre mim. Eu amo Stella, e ela me ama. Disso eu sei com certeza. Nós não fizemos nada de errado, e eu não vou permitir que o senhor diga o contrário.”

   Ele sabia que discutir era um erro, mas também sabia o quanto Stella o amava. Conseguia recordar vividamente o sorriso de Stella toda vez que se beijavam ou davam as mãos. Não havia absolutamente nada de errado no que estavam fazendo, então ele não permitiria que esses velhos tolos afirmassem que o relacionamento deles era impróprio. Na verdade, permanecer em silêncio enquanto a santidade do relacionamento deles estava sendo questionada ia contra seus princípios. Essa era a verdadeira razão pela qual ele tinha vindo a esta audiência em primeiro lugar.

     Eu disse à Stella que quero ser capaz de erguer a cabeça e dizer ao mundo que a amo. Não posso recuar aqui, ou estaria quebrando essa promessa.

   Ikki não se importava que as pessoas ali jamais aceitassem o relacionamento deles. Não era como se estivesse buscando a aprovação delas. Mas ele não deixaria de dizer que o amor deles era real. Ele não podia, porque não queria mentir para si mesmo sobre seus próprios sentimentos.

 

 

   Três dias haviam se passado desde que Ikki fora preso no prédio da filial japonesa da Federação dos Cavaleiros-Magos, e a paciência de Stella estava por um fio. Ela passava a maior parte do dia constantemente franzindo a testa, e faíscas voavam de seus cabelos brilhantes. Havia muitos estudantes curiosos que tinham lido os artigos e queriam ouvir a verdade diretamente dela, mas, ao verem o quão irritada ela estava, ninguém tinha coragem de se aproximar para perguntar qualquer coisa. Mesmo na cafeteria lotada, não havia ninguém sentado nas mesas ao redor dela. Mas a própria Stella estava irritada demais para se importar com trivialidades como essa.

“Estou impressionado que você consiga ficar tão tensa o dia todo logo depois de se recuperar do seu resfriado, Stella-chan”, disse Alisuin, indiferente à sua atitude espinhosa.

   Ao se sentar ao lado da princesa enfurecida, os membros de seu fã-clube roíam as unhas de preocupação, observando de longe. Felizmente, Stella não era o tipo de pessoa que descontava sua raiva em alguém que não merecia. Mas isso não a impediu de usar um tom desnecessariamente agressivo quando respondeu.

“Como eu posso relaxar depois de ver toda a calúnia nojenta que os jornais publicaram?” Não apenas os artigos mancharam o caráter de Ikki, como também retrataram Stella como alguma mulher delicada e frágil que havia sido enganada por seus ardis. Só de pensar nisso, seu sangue fervia. “Eu tinha ouvido dizer que este país tinha padrões baixos de integridade jornalística, mas não imaginava que a barra estivesse abaixo do fundo do oceano”, ela disparou.

“Ahaha, dói dizer isso, mas não posso realmente negar”, disse Kagami, aproximando-se da mesa de Stella.

“Oi, Kagami.”

“Se importa se eu me juntar a vocês?”

“Pode ficar. Não sei por quê, mas todas as mesas por perto estão vazias, então há bastante espaço.”

“Ahaha, obrigada.” Kagami colocou sua bandeja sobre a mesa e ajustou os óculos antes de se sentar ao lado de Stella. “Bem, eu não te culpo por estar brava. Claro, é uma fofoca divertida descobrir que a princesa de Vermillion tem um namorado, mas é inaceitável que os repórteres continuem alegando que o seu relacionamento é impróprio, mesmo depois de você ter dito claramente que não é. Se for pensar bem, somos nós que estamos convidando um incidente internacional ao ignorar as suas declarações. Mas, bem, as empresas de jornal sabem disso, e ainda assim continuam divulgando isso.”

“Espere, eles sabem que estão falando besteira e mesmo assim continuam fazendo isso? Por quê?”

“Eu por acaso tenho alguns contatos na indústria, e pelo que me disseram, o Comitê de Ética está pressionando-os a continuar publicando artigos sobre o quão indecente é o seu relacionamento. Aparentemente, o Comitê de Ética ameaçou proibir qualquer empresa que se recusasse de cobrir os torneios do King of Knights.”

“A Federação é a principal patrocinadora do KOK, então acho que eles realmente poderiam se safar com isso...”, Stella ponderou.

   Os torneios do KOK eram alguns dos eventos mais assistidos do mundo. Ser impedido de noticiá-los provavelmente levaria a maioria das empresas de jornal à falência. Como resultado, elas não tinham escolha a não ser atender às exigências do Comitê de Ética se quisessem continuar no mercado. Aquilo era a prova de que o Comitê de Ética — e o homem que liderava a filial japonesa da Federação dos Cavaleiros-Magos, Kurogane Itsuki — estava fazendo tudo ao seu alcance para retirar de Ikki seu status de cavaleiro.

“Eu não posso acreditar nisso...” Stella estava atônita. “Ikki é só um estudante! Por que o pai dele está indo tão longe para se livrar dele?!” Ela não conseguia compreender o que Itsuki teria a ganhar com aquilo.

     O nome da família Kurogane não ficaria tão manchado se Ikki for expulso da Federação quanto ficaria se ele for um fracasso? Eu não entendo.

“Como ele pode fazer isso com o próprio filho?”, ela murmurou em voz alta.

“Porque esse é o tipo de pai que ele é”, disse Shizuku, trazendo sua bandeja e sentando-se em frente a Stella. Sua voz era cristalina e fria como gelo. “Esse é o tipo de pessoa que ele é. Não há mais nada a dizer.”

“Shizuku...”

“Honestamente, eu não sei o que aquele homem está pensando, nem por que ele odeia tanto o Onii-sama. A mente distorcida dele está além da minha compreensão. Mas eu sei que ele não vai parar por nada até conseguir o que quer”, disse Shizuku simplesmente, antes de começar a comer seu almoço no estilo japonês.

   Stella a encarou de maneira constrangida, reunindo coragem para dizer o que sabia que precisava ser dito. As duas não conversavam desde a luta de Shizuku contra Touka, o que tornava aquilo duplamente desconfortável.

Hum, Shizuku? Eu sinto muito por não ter te contado que estou saindo com o Ikki.”

   Stella sabia o quão profundo era o amor de Shizuku por Ikki. E estava preparada para receber quaisquer insultos que a garota quisesse lançar contra ela. No mínimo, ela merecia isso. Para sua surpresa, porém, a reação de Shizuku foi bastante contida.

“Eu não me importo. Ou melhor, eu já sabia.”

“Hã?”

“A forma como vocês dois agiam um com o outro mudou de repente depois da noite da primeira luta do Onii-sama. Nós percebemos imediatamente o que estava acontecendo. Não é mesmo, Alice?”

Heh heh. Vocês dois foram bem óbvios.”

“Sim. Até eu percebi”, acrescentou Kagami.

“Oh meu Deus...”

   Stella enterrou o rosto nas mãos, envergonhada.

     Nós fomos realmente tão óbvios assim? Eu achei que deixávamos as provocações só para quando estávamos sozinhos.

“Eu entendo por que vocês precisaram manter isso em segredo, Stella-san. Causaria um alvoroço se o relacionamento de vocês viesse a público, e tenho certeza de que nenhum dos dois queria que isso os distraísse do próximo Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Então eu não culpo você por não ter me contado. O que importa é o que você faz agora que o segredo foi revelado.” Shizuku virou-se para Kagami. “Kusakabe-san, suponho que você tenha uma ideia de como é a situação da nossa família?”

Ahaha, informação é a linha de vida de uma jornalista, afinal. Então sim, eu sei um pouco.”

“Então vou perguntar diretamente: você acha que esse escândalo é suficiente para que o status de Cavaleiro-Estudante do Onii-sama seja revogado?”

   Kagami balançou a cabeça sem hesitar. “No momento, não acho que isso seja realista.”

“Ah? Como assim?”, perguntou Alisuin, intrigado.

“Pensem bem, Alice-chan. Nem o Senpai nem a Stella-chan realmente fizeram algo ilegal, ou sequer algo moralmente duvidoso. Como eu disse antes, as empresas de jornal estão sendo muito mais inescrupulosas ao insistirem que eles têm um relacionamento impróprio quando um membro da família real está dizendo que não têm.”

   Kagami continuou.

“Normalmente, esse é o tipo de notícia que só faria as pessoas ficarem curiosas sobre como seria o namorado de uma princesa, e ficaria por isso mesmo. Mas a grande mídia continua tentando forçar a narrativa de que o relacionamento deles é, de alguma forma, errado. É difamação, pura e simples. O Comitê de Ética também sabe disso, e é por isso que estão tentando impor a ideia de que o Senpai está sendo pouco cooperativo e rebelde durante o inquérito. No entanto, o Senpai não é estúpido a ponto de lhes dar algo concreto com que possam trabalhar, então duvido que consigam encontrar qualquer coisa que leve a matriz a expulsá-lo da Federação. Especialmente porque a Federação não trata expulsões de forma leviana. Para eles, é um último recurso.”

“É mesmo? Por quê?”, perguntou Stella.

“A Federação não quer expulsar Cavaleiros-Magos ou Cavaleiros-Estudantes a menos que seja absolutamente necessário. Você se lembra de como o Kurashiki, da Academia Donrou, é violento, certo?”

“Sim.”

“Ele é um enorme caso problemático, mas mesmo assim só recebeu algumas advertências.”

“Isso é uma punição bem leve.”

“Imagino que exista algum tipo de lógica por trás dessa postura?”, disse Shizuku.

   Kagami assentiu e explicou: “A maioria dos Blazers que tem o status de cavaleiro revogado acabam se tornando criminosos.”

Cavaleiros-Magos e Cavaleiros-Estudantes eram todos Blazers que esperavam usar seus poderes para ganhar a vida. Se esses Blazers fossem expulsos da única associação que os empregava, era altamente provável que passassem a usar esses mesmos poderes para atividades criminosas, nem que fosse apenas para sobreviver. As estatísticas mostravam que a expulsão da Federação geralmente levava a desfechos ruins para todos os envolvidos.

“Claro, isso também se deve em parte ao fato de que a maioria das pessoas que é expulsa já faz coisas quase criminosas para merecer a expulsão, mas ainda assim, do ponto de vista da Federação, é melhor manter cães raivosos na coleira do que deixá-los soltos”, acrescentou Kagami. “É por isso que eles querem eventualmente administrar todos os Blazers em todos os lugares. Muitos dos países que aderiram à Federação Internacional dos Cavaleiros-Magos inclusive têm leis que exigem legalmente que todos os Blazers se tornem cavaleiros. Mas lugares como o Japão têm organizações de direitos humanos bastante ativas, então ainda não chegamos tão longe por aqui.”

   Percebendo que havia se desviado do assunto, Kagami mudou o foco.

“Enfim, isso não é o mais importante. O que importa é que a Federação vê expulsar alguém como algo equivalente a transformá-lo em um criminoso com as próprias mãos. É por isso que quase nunca fazem isso. E é ainda mais incomum que Cavaleiros-Estudantes sejam expulsos. O Comitê de Ética está tentando transformar o Senpai em um desses casos raros, então estou preocupada com o que podem estar fazendo com ele na audiência.”

   O Comitê de Ética podia reclamar o quanto quisesse da atitude de Ikki. No fim das contas, isso não levaria a nada. Mas se o forçassem a dizer que havia sido imprudente ao cortejar Stella ou que havia feito qualquer outra coisa inadequada, isso já seria uma prova muito mais concreta. O Comitê de Ética provavelmente usaria qualquer meio necessário para arrancar esse tipo de confissão de Ikki.

   Stella, Alisuin e Shizuku absorveram as palavras de Kagami em silêncio. O Comitê de Ética realizava suas audiências nas profundezas do prédio da filial japonesa, em uma sala que nunca via a luz do dia. Além disso, aquele prédio estava inteiramente sob o controle de Kurogane Itsuki. Até mesmo o próprio Comitê de Ética era composto principalmente por membros da família Kurogane, o que significava que Ikki estava cercado por Kuroganes e seus aliados. Não havia a menor chance de que estivessem tratando-o com a dignidade básica, muito menos lhe concedendo uma audiência justa. Diferentemente das inquisições de antigamente, eles não podiam simplesmente torturá-lo, mas isso não significava que não tivessem meios de pressioná-lo mentalmente até encurralá-lo.

   Quanto mais pensava nisso, mais preocupada Stella ficava. Ela mal tinha dormido nesses últimos três dias. Sempre que fechava os olhos, tudo o que conseguia imaginar era seu amado Ikki preso no subsolo, sendo submetido a sabe-se lá o quê.

     E tudo isso é culpa minha.

   Se Stella fosse apenas uma garota comum, a família de Ikki não poderia usar o relacionamento deles contra ele. O fato de estar arrastando Ikki para baixo a corroía por dentro. As partidas de seleção ainda estavam em andamento, mas seu status como membro da realeza estava atrapalhando o sonho de Ikki.

“Talvez eu devesse terminar com o Ikki...”, murmurou Stella, abatida. “Quer dizer, isso é tudo culpa minha. Se eu fosse uma garota normal, o Ikki não—”

“Stella-chan!”, disse Alisuin bruscamente, interrompendo-a.

   Os olhos de Stella se arregalaram em surpresa, e ela viu uma estaca de gelo mortalmente afiada vindo diretamente em sua direção.

“Ngh!”

   Por reflexo, ela vestiu seu Empress Dress e cruzou ambos os braços diante do rosto para se proteger. A estaca de gelo a atingiu com tanta força que a ergueu do chão, lançou-a contra a parede da cafeteria — fazendo-a desmoronar — e a arremessou para fora, no pátio.

“Eeeek!”

“O-O que foi isso?!”

   A cafeteria mergulhou em pânico. Ignorando os gritos, Stella tocou com cuidado o braço que havia bloqueado a estaca.

“Nrgh.”

   Pela dor, provavelmente havia sofrido alguma fratura. Suas chamas eram quentes o bastante para derreter balas, mas tudo o que conseguira fazer contra a estaca de gelo fora arredondar a ponta o suficiente para que não a cortasse. Havia, é claro, apenas uma pessoa ali capaz de usar magia de água em um nível tão elevado.

“O-O que foi isso, Shizuku?!”, gritou Stella, segurando o braço ferido.

“Como você pode dizer uma coisa dessas?”, perguntou Shizuku em voz baixa, de pé sobre a mesa e apontando Yoishigure diretamente para Stella. Sua expressão estava controlada, mas a raiva gélida em seus olhos fez Stella estremecer. Ela nunca tinha visto Shizuku tão furiosa antes. “Você não percebe por que o Onii-sama está cooperando com essa farsa? Ele poderia ter escolhido ignorar a convocação do Comitê de Ética e simplesmente permanecer em silêncio sobre tudo. Ele sabe que eles não vão realizar um julgamento adequado para ele. Ele sabe que não vão ouvir uma única palavra do que ele tem a dizer. A única razão pela qual ele foi até lá é porque não suportava que estivessem mentindo sobre o relacionamento de vocês. É o quanto ele valoriza o vínculo que tem com você. Se você ousar me dizer que não consegue entender isso, se ousar trair a confiança dele, então eu a cortarei aqui e agora.”

 



 




   Foi então que Stella percebeu o quão impensada ela havia sido.

“Desculpa. Eu fui idiota.” Ela abaixou a cabeça em pedido de desculpas.

     Como eu pude ser tão patética?

   Nos últimos três dias, não havia saído nenhuma notícia dizendo que Ikki considerava o relacionamento com Stella um erro. Em outras palavras, mesmo agora, ele estava proclamando orgulhosamente que o amor deles era algo bom.

   Itsuki e Akaza esperavam provar que Ikki era imprudente e usar isso como desculpa para tirar seus direitos como adulto, além de seu status como cavaleiro. Isso significava que, se Ikki em algum momento dissesse que havia sido precipitado ao sair com Stella ou que namorá-la fora um erro, eles poderiam provar que ele era irresponsável e indigno dos privilégios de um cavaleiro.

   Neste exato momento, Ikki estava cumprindo sua palavra e dizendo a todos, de cabeça erguida, que amava Stella. Seria um insulto à devoção dele se Stella começasse a duvidar do relacionamento deles.

     Numa situação dessas, só há uma coisa que eu deveria estar fazendo. E isso é—

“Aff, por que vocês duas gostam tanto de destruir propriedade escolar?” Uma voz familiar interrompeu subitamente os pensamentos de Stella. Ela se virou e viu Shinguuji Kurono caminhando em direção a ela e a Shizuku, balançando a cabeça em reprovação. “Vocês sabem que sou eu quem tem que sair por aí consertando tudo, certo?”

   Ao atravessar o buraco que Shizuku havia feito, Kurono estalou os dedos, e os escombros espalhados flutuaram no ar e começaram a se encaixar de volta na abertura. Era como assistir a um vídeo sendo reproduzido ao contrário.

   Em poucos segundos, o buraco estava completamente reparado.

“Isso deve resolver”, disse Kurono, admirando seu trabalho com um aceno satisfeito. Em seguida, voltou-se para Stella e declarou de forma direta: “Vermillion, preciso falar com você sobre Kurogane. Venha comigo até o meu escritório.”

   

 

   Como sempre, o escritório da diretora cheirava a fumaça de cigarro. Kurono gesticulou em direção a um sofá próximo, e Stella se sentou nele.

“Isso ficou muito mais complicado do que eu gostaria”, disse Kurono com um longo suspiro, sentando-se de frente para Stella. Como fora ela quem designara as duas para dividirem o quarto, provavelmente recebera muitas críticas nos últimos dias.

   Na verdade, Stella ainda achava questionável colocar homens e mulheres no mesmo quarto, então não sentia muita simpatia. — Mas já que estou aqui, devo tentar descobrir o máximo possível.

“Diretora, o que está acontecendo com as partidas de seleção do Ikki? Ele não vai ser desclassificado por causa disso, vai?”

“Eu não vou deixar isso acontecer, custe o que custar. Tenho mandado os oponentes do Kurogane até a filial japonesa para que ele possa realizar os duelos na arena de treinamento de lá. Também garanti que um de nossos professores vá junto para atuar como juiz adequado e imparcial. Se eu deixasse aqueles bastardos arbitrarem, com certeza tentariam desclassificar o Kurogane por alguma besteira absurda.”

“Seria possível eu ir visitá-lo?”

“Infelizmente, não. Ele não tem permissão para receber visitantes até que o inquérito termine.”

“Estão tratando ele como um criminoso...”

   Ainda assim, era reconfortante saber que Ikki não seria desclassificado por fatores fora de seu controle. Não era culpa dele que sua própria família o tivesse colocado no que praticamente equivalia a confinamento solitário.

   Stella esboçou um pequeno sorriso e perguntou: “Então, para que precisava de mim?”

“Quero saber o que seus pais pensam sobre toda essa situação”, respondeu Kurono, indo direto ao ponto.

     Por que a diretora se importa com o que meus pais pensam?

   Embora Stella não visse como aquilo era relevante, não tinha motivo para esconder essa informação. Ela havia ligado para eles pouco depois de Ikki ter sido levado e tivera uma longa conversa sobre seu futuro.

“Minha mãe respeita minha autonomia e aprova minha decisão, mas... Bem, meu pai não aceita nada disso. Ele está absolutamente furioso. Quando eu liguei, ele só ficava gritando ‘Como ele ousa tocar na minha filha sem a minha permissão?!’ repetidas vezes.”

“Ele realmente te ama, hein?”

“Ele só não sabe como deixar os filhos seguirem seus próprios caminhos. Aparentemente, ele está tão furioso que virá ao Japão em breve.”

“Você sabe exatamente quando?”

“Daqui a cerca de três semanas.”

“Bem na época em que as partidas de seleção estarão terminando. Suponho que só precisamos aguentar até lá, então.”

“O que quer dizer?”, perguntou Stella, inclinando a cabeça para o lado.

“Se o Rei de Vermillion aparecer no Japão e pedir para se encontrar com o Kurogane, o Comitê de Ética não poderá continuar com essa farsa de inquérito. Eles terão que permitir que Ikki se encontre com o seu pai, ou correr o risco de provocar um incidente internacional. Há grandes chances de que você também tenha permissão para participar dessa reunião, e ela será transmitida publicamente. Se vocês dois aproveitarem essa oportunidade para declarar que não há nada de impróprio no relacionamento de vocês, isso será o fim dessa caça às bruxas.”

   Kurono continuou sua explicação.

“A grande mídia só consegue publicar todo esse lixo inverídico porque o Comitê de Ética está impedindo vocês de relatarem publicamente a verdade. Além disso, se o Rei de Vermillion aceitar publicamente o relacionamento de vocês, realmente não restará nenhum recurso para o Comitê de Ética. Então será a nossa vez de partir para a ofensiva.”

“Você não vai parar depois que o Ikki estiver livre?”

“Claro que não. Aqueles bastardos invadiram meu território e mexeram com um dos meus alunos. Quando eu terminar com eles, vão desejar estar mortos.”

   A raiva de Kurono era palpável, e Stella de repente achou difícil respirar.

     Eu nunca soube que ela podia ser tão assustadora... Por outro lado, acho que ela já foi uma das três melhores cavaleiras do mundo. Enfim, só precisamos aguentar até o Pai chegar.

   O Comitê de Ética estava censurando Ikki com base na alegação de que suas ações imprudentes poderiam causar um incidente internacional. No entanto, se o pai de Stella, o chefe do Reino de Vermillion, declarasse que não havia problema algum, eles não poderiam mais sustentar esse argumento. A única questão era: Stella conseguiria convencer seu pai a aceitar o homem que ela escolhera?

Ugh. Estou começando a achar que as coisas não vão correr tão tranquilamente assim. O Pai é incrivelmente teimoso e protetor demais.”

   Quando ela havia ido a um acampamento no ensino fundamental, ele comprara uma fantasia de urso e tentara vigiá-la da floresta. Ao vê-lo, Stella pensara que havia encontrado um urso de verdade e quase o matara. Sinceramente, depois de descobrir que era apenas seu pai a seguindo, ela chegou a considerar matá-lo de verdade. De qualquer forma, ela não conseguia imaginá-lo recebendo Ikki de braços abertos.

   Enquanto Stella segurava a cabeça entre as mãos, Kurono lhe lançou um sorriso gentil e disse: “Você não precisa se preocupar tanto. Afinal, foi ele quem criou você para se tornar uma jovem esplêndida e íntegra. Se ele foi capaz disso, tenho certeza de que conseguirá enxergar o Kurogane por quem ele realmente é.”

   A lógica não fazia o menor sentido, mas, por algum motivo, Stella sentiu todas as suas preocupações se dissiparem. Ao menos era verdade que seu pai não era uma pessoa ruim. E, no fim das contas, ela o amava. Em vez de temer sua ira, seria mais produtivo tentar fazer com que ele gostasse do homem por quem ela se apaixonara.

“Espero que sim...”

“Se as coisas começarem a ficar complicadas, dê uma ajuda ao Kurogane. Você poderá fazer isso, já que estará presente na reunião. Acredite em mim, como alguém casada: dar-se bem com os sogros é o primeiro obstáculo que um casal precisa superar junto. Você não pode deixar tudo nas mãos do Kurogane. Não é só ele que seus pais estarão avaliando, sabia? Eles também vão querer ver o quanto a filha deles está disposta a protegê-lo.”

“E-Eu vou dar o meu melhor.”

Heh, é assim que se fala. Tenho que admitir, achei que você estaria mais abatida, mas parece que está lidando bem com isso.”

“Bem, minha futura cunhada acabou de me dar uma boa sacudida para eu cair na realidade”, disse Stella com um sorriso, massageando o braço direito machucado.

     Ela está certa. Eu não posso simplesmente deixar tudo nas mãos do Ikki. Como namorada dele, eu preciso lutar ao lado dele.

   Mesmo agora, Ikki estava proclamando orgulhosamente ao Comitê de Ética o quão maravilhoso era o amor deles.

     Eu também preciso cumprir a minha promessa.

 

 

   Kurogane Ikki foi conduzido a uma pequena sala no décimo subsolo do prédio da filial japonesa da Federação dos Cavaleiros-Magos.

“Deixei sua comida sobre a mesa. A audiência será retomada às 6h em ponto amanhã, então recomendo que vá dormir cedo”, disse um homem de aparência doentia, vestido com um terno vermelho, ativando a fechadura elétrica do quarto de Ikki antes de se afastar.

   A cama estava manchada e suja, e a mesa parecia prestes a desmoronar sob o próprio peso. Havia uma cadeira igualmente instável ao lado da mesa, e aquele era todo o mobiliário do cômodo. Ikki estava apenas grato por ter algo onde se sentar, depois de passar horas em pé na sala de audiência.

   Suspirando, Ikki deixou-se cair na cadeira. A audiência de hoje havia durado das 6h às 23h. Os membros do Comitê de Ética tinham cadeiras para se sentar e também podiam se revezar a cada poucas horas, então não estavam cansados, mas Ikki fora obrigado a permanecer em pé durante todas as dezessete horas. Aquilo vinha se repetindo todos os dias na última semana, e até mesmo Ikki começava a ficar exausto, apesar de seu físico bem treinado. Claro, seu cansaço não se devia apenas ao desgaste físico.

“Eu realmente gostaria de comer arroz pelo menos uma vez...”, murmurou Ikki, olhando para a refeição miserável colocada sobre a mesa.

   Duas barras energéticas sobre um prato de papel. De fato, aquelas barras continham calorias e nutrientes suficientes para fornecer ao corpo humano o equivalente a uma refeição, mas Ikki ainda era um garoto em fase de crescimento, e seu corpo de guerreiro exigia mais energia do que o de uma pessoa comum. Desde que chegara ali, vivia em constante fome.

“E, como sempre, não me dão nada para beber.”

   Seus carcereiros haviam começado a limitar sua ingestão de líquidos, e, “misteriosamente”, a água que ele deveria receber com cada refeição simplesmente desaparecia. Além disso, o encanamento do banheiro estava quebrado, então ele nem sequer podia beber água da torneira da pia. Era apenas mais uma forma mesquinha de assédio. Como resultado, Ikki fora obrigado a beber o máximo de água que conseguia durante o banho e sempre que lhe era permitido sair para ir ao banheiro durante as audiências.

   Isso, combinado ao fato de ser forçado a ficar em pé o dia inteiro, todos os dias, começava a cobrar seu preço. Ele estava sozinho em território inimigo, o que também não ajudava.

“Bem, tanto faz.”

   Ikki estava acostumado a ser maltratado, assim como a ficar sozinho. Afinal, foi assim que passou a maior parte da vida. Ele não dependia de ninguém, e ninguém jamais se dispôs a lhe ensinar coisa alguma. Aquela estava longe de ser a primeira vez que se encontrava em uma situação como aquela.

   Ao fechar os olhos, ele recordou os dias que passara nas montanhas atrás da casa de sua família, brandindo a espada sozinho no frio. Aquela época correspondia à maior parte de sua vida. Ele estava acostumado à solidão e à hostilidade, então as pequenas provocações do Comitê de Ética mal chegavam a ser incômodas para ele. Não importava o quanto Akaza e os outros tentassem fazê-lo admitir que cometera um erro, ele jamais cederia.

     Se for só até esse ponto, eu aguento.

   Mais cedo ou mais tarde, o rei de Vermillion viria ao Japão e exigiria se encontrar com Ikki. Pelo que Stella dissera sobre ele, Ikki tinha certeza de que o homem não ficaria parado sem fazer nada. Sendo assim, o papel de Ikki era manter seus princípios e continuar dizendo a verdade a esses intrometidos até que ele aparecesse. Quando chegasse, Akaza e os outros não seriam capazes de manter Ikki confinado ali.

     Na verdade, é aí que a verdadeira batalha vai começar.

   Conquistar a aprovação do pai de Stella era de suma importância para Ikki, a ponto de apenas pensar no encontro que se aproximava já o deixar nervoso. Mas ele não fugiria disso. Desde o momento em que se apaixonara por Stella Vermillion, sabia que aquele era um rito de passagem pelo qual teria de passar. Ele havia passado a maior parte do tempo em confinamento pensando no que seria melhor dizer ao homem quando se encontrassem pela primeira vez.

     Será que eu deveria usar um terno? Isso provavelmente é o melhor, né? Um cabelo repartido também seria bom, eu acho? — Ao tentar imaginar o próprio cabelo daquele jeito, Ikki estremeceu. — Esquece, isso ficaria horrível. Eu não sou um homem de negócios.

   Claro, mais importante do que sua aparência era como transmitiria sua sinceridade ao pai de Stella. Não adiantava tentar parecer sofisticado; isso provavelmente só sairia pela culatra. Ele não conseguia pensar em forma melhor de transmitir adequadamente seus sentimentos do que sendo direto e franco.

     Já que eu tenho tempo, talvez devesse praticar um pouco.

   Embora não estivesse planejando fazer nada elaborado, ainda assim ajudaria ter um discurso pronto e ensaiado com antecedência. Ikki fechou os olhos e tentou imaginar o rosto do pai de Stella, o rei do Reino de Vermillion. Stella já lhe mostrara uma foto do pai antes, então ele se lembrava de sua aparência. Ele tinha cabelos vermelho-chama como os de Stella, mas era um homem gigantesco, com quase dois metros de altura, longas costeletas e um bigode régio. Sua postura carregava a imponência galante de um leão.

   Assim que fixou esses detalhes na mente, abriu os olhos e encontrou diante de si a pessoa que havia imaginado. Naturalmente, não estava olhando para o verdadeiro rei de Vermillion, mas apenas para uma ilusão criada por meio de extrema concentração. A maioria dos artistas marciais conseguia visualizar um oponente ilusório para treinar como forma de prática. No entanto, a capacidade de Ikki de recriar pessoas com a mente estava em um nível ainda mais elevado. As ilusões que ele criava podiam mudar as expressões faciais e até mesmo emitiram calor como pessoas reais. O fantasma diante dele parecia tão verdadeiro que Ikki conseguia até ouvir seu batimento cardíaco.

   Apesar de ser uma criação da própria mente de Ikki, a ilusão o intimidava. A majestosa réplica do rei de Vermillion permanecia imóvel, sem se mexer nem dizer uma palavra. Ele apenas observava Ikki em silêncio com olhos carmesim idênticos aos de Stella. Somente aquele olhar era tão intenso que Ikki sentia como se sua pele estivesse sendo queimada. Um suor frio brotou em seu corpo e sua garganta secou. Mas, se ele não conseguisse sequer enfrentar uma ilusão, não haveria como manter a calma diante do verdadeiro rei. Assim, respirou fundo para se acalmar e sustentou o olhar do Rei de Vermillion. Em seguida, ajoelhou-se e pressionou a testa contra o chão.

“Por favor, permita que eu me case com sua filha!”, gritou com toda a força que pôde reunir.

“Absolutamente não”, disse uma voz severa, ecoando em seus ouvidos.

     Eu não fui sincero o bastante? Espera, um segundo. Tem algo errado. Claro, essa ilusão parece e soa real, mas ela ainda não pode falar.

   Confuso, Ikki ergueu o rosto.

“Não há a menor chance de eu deixar você se casar com a Shizuku.”

   Seu verdadeiro pai, Kurogane Itsuki, estava olhando para ele de cima, seus olhos cinza opacos desprovidos de emoção.

“P-P-P-P-Pai?!”

 



   Alguém trouxe uma segunda cadeira para dentro da sala, e Itsuki sentou-se nela em silêncio, mantendo o olhar fixo em Ikki o tempo todo.

“...”

“...”

   Os dois ficaram se encarando em silêncio por cinco longos minutos.

     I-Isso é tão constrangedor... — pensou Ikki, suor frio escorrendo por suas costas.

   Seu nervosismo não era apenas por causa do que havia dito antes. Na verdade, aquela era a primeira vez que falava com o pai desde aquele dia fatídico em seu quinto aniversário, quando lhe disseram para não fazer nada. Ele não conseguia pensar em nada para dizer. Nem sequer tinha certeza de como deveria se sentir.

     Para começo de conversa, por que ele sequer se deu ao trabalho de vir me ver?

“Ikki.”

   Itsuki quebrou o silêncio de repente.

“S-Sim?” disse Ikki, tropeçando um pouco nas palavras. Seu nervosismo aumentou dez vezes, e seu coração começou a bater com força. Ele estava em total expectativa, esperando para ver o que Itsuki diria a seguir. — Eu mal o conheço, então nem consigo imaginar o que—

“Você realmente ama a Shizuku como mulher e não como sua irmã?”

“Quêé?!”

“Sinto muito, mas não posso aprovar incesto. Mesmo que ignoremos a questão moral, quaisquer filhos que vocês pudessem ter—”

“E-Espere! Eu só estava praticando o que dizer aos pais da Stella quando eu os conhecer! Eu amo a Shizuku, mas só como irmãzinha! Eu não quero me casar com ela!”

“Entendo. Ótimo.”

    Ufa. Essa foi por pouco. — Ikki temeu que fosse realmente receber uma palestra sobre por que incesto era errado. — Embora eu acho que não posso culpá-lo, considerando o que ele viu ao entrar...

   Felizmente, aquela troca absurda ajudou a aliviar um pouco o nervosismo de Ikki. Reunindo coragem, ele perguntou: “Hum, p-por que o senhor está aqui, Pai?”

“Meu filho está a uma viagem de elevador de distância. Achei que ao menos deveria vê-lo uma vez.”

“Entendo...”

   Ikki não conseguia dizer se Itsuki estava sendo sincero ou não. O homem estava tão sombrio como sempre, e seus olhos não revelavam o menor traço de emoção. Mas, mesmo sem ter certeza de que dizia a verdade, Ikki ainda assim ficou abalado com a resposta.

Que sensação é essa? — Ikki levou a mão ao peito, confuso. — Eu estou... feliz por ouvir isso?

   Ele se esforçava para processar aquelas emoções. Já fazia uma década inteira desde a última vez que vira o pai, e ele não sabia em que ponto o relacionamento deles estava agora. Por outro lado, Itsuki não parecia nem um pouco nervoso.

“Parece que você está indo muito bem,” disse Itsuki.

“O que quer dizer?”

“Estou falando do seu desempenho nas partidas de seleção que a Hagun implementou. Você tem dezesseis vitórias consecutivas, não tem?”

“Ah, sim. Eu também venci a partida que foi realizada aqui ontem, então agora estou com dezessete.”

“E não é como se você tivesse enfrentado apenas oponentes fracos também. Impressionante.”

“Hã?”

     Ele acabou de... me elogiar? Caramba! Eu estou tão feliz!

   Agora Ikki tinha certeza de que o que sentia era felicidade por ver o pai, por ouvir sua voz novamente. De fato, mesmo naquele momento, Kurogane Ikki ainda amava seu pai. Foi por isso que, naquela cabana na montanha, ele dissera a Stella que queria que ela o conhecesse. Ele ainda acreditava que havia um laço familiar ali.

   No fim das contas, não importava o quão duramente Itsuki o tivesse tratado ou o quanto o tivesse ignorado, Ikki não conseguira odiar seu único pai. Pais podiam odiar seus filhos, mas filhos não tinham escolha senão amar seus pais. Ikki não era exceção. Claro, ele sabia que seu pai estava por trás daquela audiência e de todo o assédio mesquinho que o acompanhava. Mas, ainda assim, saber que seu pai estava olhando para ele, que o estava elogiando, o deixava feliz. E assim, uma tênue esperança floresceu no coração de Ikki.

     Talvez agora que eu me tornei muito mais forte, o Pai finalmente me aceite.

“Já que você não pode fazer nada, não faça nada.” Talvez Itsuki não lhe dissesse mais coisas tão cruéis agora que ele havia conquistado algo.

   Hesitante, Ikki disse: “E-Ei, hum, Pai?”

“O quê?”

“Eu-Eu estou me esforçando muito para ficar mais forte. Ainda sou Rank F, mas consegui derrotar Blazers muito mais bem ranqueados, e não pretendo perder nem mesmo no Fesitval de Artes da Espada das Sete Estrelas. Eu sou diferente daquela criança impotente que eu era. Acho que pelo menos me tornei forte o suficiente para não envergonhar mais o nome da família Kurogane, então... então...” Ikki interrompeu-se, respirou nervosamente, reuniu coragem e disse: “Se eu conseguir me tornar o Soberano das Sete Estrelas, o senhor finalmente vai me aceitar como seu filho?”

   Itsuki encarou o filho em silêncio.

“Entendo”, disse após alguns segundos, fechando os olhos. “Eu sempre me perguntei por que você saiu de casa. Mas agora eu entendo. Você acredita que eu não o aceitei porque você era fraco.”

“Sim...” respondeu Ikki com um aceno de cabeça.

   Aquela não fora a única razão pela qual ele havia fugido de casa, mas era, de fato, algo que já pensara. Contudo, ele não era mais fraco.

“Você cometeu um grave equívoco. Eu sempre o considerei meu filho.”

“Hã?” Os olhos de Ikki se arregalaram em choque. Aquilo era a última coisa que esperava ouvir de Itsuki. “O-O senhor está mentindo!”

“De forma alguma. Se não considerasse, não teria me dado ao trabalho de vir vê-lo.”

“M-Mas o senhor nunca fez nada por mim, Pai. Não me ensinou a usar meus poderes de Blazer, nem sequer qualquer uma das artes marciais que todos os membros da família Kurogane aprendem, incluindo os membros dos ramos secundários.”

   Ikki ainda se lembrava de como era sufocante viver naquela casa. Itsuki o impedira de fazer ou aprender qualquer coisa, e todos os outros membros da família presumiram que Itsuki o odiava, então também o trataram com dureza ou mantiveram distância. A dor e o isolamento que sofrera durante todos aqueles anos deixaram cicatrizes profundas em seu coração.

   Indignado, Ikki gritou: “Se o senhor realmente me considera seu filho, por que não me tratou como tratou todo mundo?!”

   Tão inexpressivo como sempre, Itsuki respondeu: “Porque não havia necessidade de lhe ensinar tais coisas. É simples assim. Ensinar alguém que não tem talento é um desperdício do tempo tanto do professor quanto do aluno. No pior dos casos, temos pessoas como você, que obtêm uma ínfima parcela de força e produzem resultados extremamente medíocres. Essa é a maior tragédia de todas.”

     O quê?!

“O-O que o senhor quer dizer com isso?” Ikki não conseguia entender por que Itsuki considerava aquilo tão abominável.

   Fechando os olhos mais uma vez, Itsuki falou em voz solene: “A família Kurogane administra os Blazers do Japão desde os tempos em que os Cavaleiros-Magos ainda eram chamados de samurais. Temos a responsabilidade de supervisionar todos os Cavaleiros-Magos desta nação. Mas é extremamente difícil unificá-los sob uma única organização. Cada um deles possui poderes sobrenaturais que lhes permitem fazer coisas que nenhum humano comum pode. Para fazer com que todos sigam a mesma linha, é necessária uma organização com uma hierarquia clara e poder para fazer cumprir suas leis. É por isso que temos um sistema de classificação tão bem definido. Ele ensina às pessoas o seu lugar dentro da hierarquia e o que podem e não podem fazer.”

   Ele continuou:

“Essa é a única maneira de manter a ordem. Cada engrenagem da máquina precisa estar ciente de seu papel e agir de acordo. Aqueles que estão no topo e aqueles que vivem na base têm ambos suas funções a desempenhar. Não podemos permitir que pessoas da base olhem para cima e, equivocadamente, pensem que são mais fortes do que aqueles acima delas. É por isso que a sua própria existência é uma ameaça à nossa organização, Ikki. Se alguém como você, que não deveria ser capaz de fazer nada, consegue realizar feitos acima de sua posição, então os outros da base começarão a ter ideias perigosas. Começarão a pensar que eles também podem realizar coisas além de sua capacidade e esquecer seus papéis predeterminados. Mesmo que alguns poucos tenham sucesso, a grande maioria apenas fará com que as engrenagens da organização travem, causando problemas para todos.”

   O pai de Ikki falava com naturalidade, como se estivesse comentando sobre o clima. Mas aquele era o conjunto de ideais pelos quais o homem conhecido como Kurogane Itsuki vivia.

“A classificação de uma pessoa pode não ser tudo, mas ainda assim é um bom indicador geral”, acrescentou. “Muito poucas pessoas conseguem derrotar alguém de classificação superior. Para a maioria, é perda de tempo sequer tentar. Foi por isso que lhe disse aquilo. ‘Já que você não pode fazer nada, não faça nada.’”

   Pela primeira vez na vida, Ikki sentiu que compreendia que tipo de pessoa seu pai era. Um homem que colocava os deveres e responsabilidades da família Kurogane acima de tudo. Para ele, as regras eram inquebráveis. Ele era a própria personificação da lei e da ordem. Era por isso que seu apelido de Blazer era Iron Tyrant.

“Espere... mas...” começou Ikki. — Isso quer dizer que... — “Então o senhor não estava preocupado que eu estivesse envergonhando a família quando me disse para não fazer nada?”

“Claro que não. Eu me importo muito pouco com a reputação da família. O papel da família Kurogane neste mundo é administrar os Blazers desta nação. Para esse fim, aqueles que foram avaliados como incapazes de realizar qualquer coisa devem simplesmente ficar em silêncio e não fazer nada. Ikki, você disse que queria que eu o aceitasse. Se isso é verdade, então desista de se tornar um cavaleiro.”

   Ikki prendeu a respiração.

“Já que você não pode fazer nada, não faça nada. Como sempre, esse é o meu único pedido a você”, concluiu Itsuki.

   Foi naquele momento que Ikki percebeu o quão sério seu pai estava. E isso doeu mais do que qualquer outra coisa.

     O que eu sou para ele, afinal?

   Ele havia descoberto que Itsuki não o odiava. Mas, sinceramente, teria preferido que fosse esse o caso. Se seu pai o odiasse por ele não ter talento, ao menos restaria uma pequena esperança de que um dia pudessem se reconciliar. Na realidade, porém, Itsuki não tinha expectativa alguma em relação a Ikki, nem se importava com ele de maneira alguma, exceto como uma engrenagem na máquina.

     Isso é cruel demais...

   Itsuki não odiava Ikki da mesma forma que não odiava uma pedra no caminho. Para ele, Ikki era tão insignificante que simplesmente não tinha importância alguma. O desespero brotou dentro de Ikki ao perceber isso.

Ngh...”

Hmm? O que foi? Por que você está chorando?”, perguntou Itsuki enquanto lágrimas escorriam pelas bochechas de Ikki.

   Aquela reação foi o golpe final. Em algum canto de seu coração, Ikki ainda nutria a esperança de construir um verdadeiro laço familiar com o pai. Ele desejara fervorosamente que chegasse o dia em que pudessem se compreender.

     Mas agora eu entendo... Estamos tão distantes um do outro que ele nem sequer entende por que eu estou chorando.

   Naquele instante, o coração de Ikki se despedaçou. E, a partir daquele momento, a pessoa conhecida como Kurogane Ikki começou a ruir.

 

 

   Depois disso, Itsuki tentou perguntar mais algumas coisas, mas Ikki continuou chorando incontrolavelmente. Considerando inútil continuar falando com o filho, Itsuki deixou a sala e voltou para seu escritório no último andar. Lá, encontrou um homem gordo de terno vermelho esperando por ele.

“Boa tarde, Chefe da Família. Ou boa noite, suponho. Já está bem tarde.”

“O que você quer, Akaza?”

“O que achou do Ikki-kun?”

“Como sempre, não faço ideia do que ele está pensando. Embora eu suponha que ele não seja tão estranho quanto o irmão.”

“Não estava perguntando sobre a personalidade dele. Quero dizer, ele pareceu doente de alguma forma?”

“Deveria estar?”

Geh heh heh. Bem, veja, temos colocado uma coisinha na comida dele. Uma droga que vai desgastando lentamente tanto o corpo quanto a mente.”

“O soro da verdade que a polícia militar tanto aprecia? Vejo que vocês estão recorrendo a medidas bastante drásticas.”

“Simplesmente sabemos o quão teimoso ele pode ser. Ele também nos conhece muito bem, então provavelmente já está preparado para esse tipo de truque. Desde o início, eu não esperava que ele cedesse durante as audiências. Este inquérito é apenas uma desculpa para isolá-lo. Tudo ainda está ocorrendo conforme o plano. Agora só precisamos esperar a chegada do Rei de Vermillion e—”

“Não há necessidade de explicar. Posso deduzir mais ou menos”, disse Itsuki, erguendo a mão para interromper a explicação de Akaza. “Deixo tudo isso com você. Use quaisquer meios necessários para expulsar Ikki. Apenas tenha em mente que falhas não serão toleradas.”

“Claro. Geh heh heh. Apenas espere. Logo tudo terá acabado.” Akaza fez uma reverência e deixou a sala.

   Itsuki caminhou até a parede que exibia os retratos de todos os antigos chefes do escritório da filial e ergueu os olhos para eles. Mais da metade eram membros da família Kurogane. Aquela fora a responsabilidade de sua família por gerações, e agora estava sobre seus ombros. Era por isso que ele levaria adiante, de forma rigorosa, as políticas que acreditava resultarem nos melhores desfechos para o maior número de pessoas.

     As pessoas precisam viver de acordo com sua posição. Essa é a melhor maneira de trazer felicidade ao maior número possível.

   Havia pouquíssimas pessoas como Ikki, capazes de superar a própria impotência. A falsa esperança que ele representaria seria prejudicial tanto para a sociedade como um todo quanto para as pessoas que, equivocadamente, passassem a acreditar que poderiam se tornar como ele. Por essa razão, Ikki simplesmente não pertencia à organização de Itsuki.

     Eu o expulsarei da Federação, não importa o que seja necessário.

   Itsuki não podia se dar ao luxo de demonstrar qualquer misericórdia a Ikki apenas por ele ser seu filho. — Essa é a responsabilidade que eu carrego.

   Tudo era pelo bem da estabilidade e da ordem. Essa era a regra inquebrável pela qual o Iron Tyrant vivera — e continuava a viver.

 

 

   Dez dias após Ikki ter sido aprisionado pelo Comitê de Ética, ele lutou sua décima oitava partida de seleção. Seu oponente era um Blazer Rank E sem nome, e Oreki Yuuri estava presente para presidir o duelo.

   Depois de aprender tudo o que pôde sobre a situação por meio de Kagami, Shizuku foi até o portão principal com Alisuin para esperar o retorno de Oreki. O sol já começava a se pôr quando a avistaram, e ela havia voltado sozinha. As duas correram até ela.

“Oreki-sensei, o Onii-sama conseguiu vencer a partida? Como ele estava?”

Hmm? Ah... Sim. Ele venceu com sucesso sua décima oitava partida”, disse Oreki, sem parecer muito feliz.

   Alisuin percebeu o tom preocupado dela e perguntou: “Há algo errado?”

   Oreki ficou em silêncio, debatendo se deveria dizer algo. No fim, decidiu que não seria bom esconder a verdade da própria irmã de Ikki.

“A verdade é que Kurogane-kun não parecia estar muito bem.”

“Fisicamente, você quer dizer?”, questionou Shizuku.

“Sim. Ele estava pálido e tossindo bastante. Embora alguém do nível dele ainda consiga vencer facilmente oponentes mais fracos mesmo nesse estado.”

   Shizuku e Alisuin trocaram olhares preocupados.

“Talvez ele tenha pegado o resfriado da Stella-chan?”, sugeriu Alisuin.

“É uma possibilidade.”

   Ikki havia se molhado tanto quanto Stella em Okutama, então, mesmo que não tivesse pego o resfriado dela, poderia ter ficado doente por causa disso de qualquer forma. Ele provavelmente também estava exausto por causa das audiências.

   Shizuku e Alisuin presumiram que fosse apenas isso, mas Oreki franziu a testa e disse: “Não, eu acho que ele está...”

   Ela era mais versada em doenças do que a maioria das pessoas, então conseguia perceber que a condição dele era mais do que um simples resfriado ou cansaço acumulado.

“Sensei?”

“Esqueça. Desculpem, mas preciso ir relatar ao diretor.”

   Oreki balançou a cabeça e se afastou. Mesmo que dissesse a Shizuku e Alisuin o que estava acontecendo, não havia nada que estudantes como elas pudessem fazer. Só as deixaria ainda mais preocupadas. Infelizmente, as duas eram perceptivas demais para o próprio bem.

“A Oreki-sensei definitivamente estava prestes a dizer algo que não gostaríamos de ouvir”, disse Shizuku.

“Ela entende mais de doenças do que a maioria das pessoas. Talvez tenha conseguido deduzir algo a partir dos sintomas do Ikki”, respondeu Alisuin.

“Então ela acha que é mais do que um resfriado comum?”

“Esse é o meu palpite. O Comitê de Ética pode estar fazendo algo para deixá-lo doente de propósito.”

   Um arrepio percorreu a espinha de Shizuku. Ela não duvidaria que seu pai fosse capaz de fazer algo assim.

Onii-sama, por favor, fique seguro...”

   Ikki estava confinado em uma prisão subterrânea muito além de seu alcance. Tudo o que ela podia fazer era rezar por sua segurança, e isso a frustrava profundamente.

 

 

“Ei! Acorda!”

   Ikki abriu os olhos quando um membro do Comitê de Ética, de rosto avermelhado, jogou água em seu rosto.

“Como ousa dormir durante uma audiência, seu delinquente!”, disse outro membro do Comitê de Ética, com franja fina, ajustando os óculos. Sua voz alta ecoou pelo pequeno tribunal. Mas, para Ikki, soava fraca e distante.

     Ah. Eu devo ter adormecido de novo.

   O inquérito já durava duas semanas, e a exaustão de Ikki havia atingido o ápice. Ele permanecera confinado o tempo todo, sendo forçado a responder às mesmas perguntas repetidas vezes. Isso desgastaria qualquer um.

   Com Ikki era ainda pior, porque ele estava com febre alta e tossindo sem parar havia vários dias. Seus pulmões pareciam estar em chamas. Cada vez que respirava, ardia. Isso resultava em uma falta crônica de oxigênio que dificultava manter a consciência. Ele claramente estava com pneumonia, e era possível que sua doença fosse ainda mais grave do que isso. Normalmente, teria sido enviado a um hospital, mas o Comitê de Ética não permitia.

Hmph. Fingindo estar doente para tentar escapar da audiência, é? Que pirralho mimado você é.” Apesar do estado crítico de Ikki, os membros do Comitê de Ética continuavam a provocá-lo. “Agora, continuemos. Gostaríamos de saber sobre o pacto secreto que você fez com a Diretora Shinguuji. O diretor anterior o reteve um ano porque o considerou inapto para ser um cavaleiro adequado, mas Shinguuji obviamente ignorou essa avaliação. Acreditamos que isso representa um enorme problema ético—”

   O Comitê de Ética já havia feito aquela pergunta a Ikki várias vezes, e ele já explicara que o diretor anterior acrescentara um requisito mínimo de habilidade para frequentar as aulas, o que o obrigara a repetir um ano — algo que, obviamente, os membros do comitê já sabiam. Na verdade, foram eles que instruíram o diretor anterior a fazê-lo.

   Naturalmente, Akaza e os outros não se importavam com a verdade. Eles apenas queriam continuar atormentando Ikki com perguntas até que ele cedesse. Enquanto isso, continuavam dizendo o quanto ele era rebelde e impertinente. No início, aquilo não o incomodara, mas, em seu estado debilitado, estava começando a afetá-lo. Ainda assim, ele não deixaria de argumentar. Porém, desta vez, antes que pudesse dizer qualquer coisa, foi tomado por um acesso de tosse e desabou no chão.

“Quem disse que você podia se sentar?! De pé agora, seu verme!”

Ngh!

   Ikki sentiu de repente um forte impacto na parte de trás da cabeça. Seu nariz bateu contra o chão. O cheiro metálico de sangue invadiu suas narinas, e gotas vermelhas se espalharam pelo piso.

     Eu devo estar patético agora.

   Ikki sorriu amargamente para si mesmo. Ele já havia percebido que aquela doença não era natural. Era bem provável que o Comitê de Ética estivesse colocando algo em sua comida. Mas, normalmente, Ikki não teria desmoronado tão facilmente, mesmo doente.

   O encontro com seu pai o havia quebrado. Ele quisera acreditar que, não importava o quão friamente o homem o tratasse ou o quanto mantivesse distância, em algum lugar de seu coração, Itsuki ainda amava Ikki. Contudo, o encontro de alguns dias atrás destruíra aquelas frágeis esperanças e despedaçara o estado mental de Ikki.

   Sem sua habitual determinação inabalável, ele não conseguia sustentar sua condição física debilitada apenas com força de vontade. O ciclo negativo resultante o levara àquele estado miserável.

“Vamos, vamos. Não há necessidade de ser tão bruto com ele”, disse Akaza, levantando-se e puxando para trás o homem que estava pisando na cabeça de Ikki. Em seguida, ajoelhou-se diante dele e, com um sorriso no rosto, disse: “Geh heh heh, parece que você está com bastante dor.”

   Ikki não respondeu.

“Suponho que seja compreensível, considerando há quanto tempo esta audiência está se arrastando”, continuou Akaza. “Mas, por favor, entenda que estamos fazendo isso para ajudá-lo a provar que você é, de fato, um cavaleiro íntegro. Infelizmente, parece que você não está disposto a cooperar, então tenho uma proposta diferente para você. Você pode silenciar de uma vez por todas todas as pessoas que afirmam que seu relacionamento é impuro. Não soa bem? Você gostaria de ouvir essa proposta, não gostaria?”

   Ikki sabia que não havia a menor chance de ser uma proposta minimamente justa. Mas, se não perguntasse do que se tratava, eles apenas continuariam girando em círculos para sempre.

“O que é? Cof, cof!

   Satisfeito com a resposta de Ikki, Akaza assentiu e disse: “Geh heh heh. É muito simples. Como você sabe, Ikki-kun, um verdadeiro cavaleiro abre seu próprio caminho com a espada. Então, que tal voltarmos aos velhos costumes para resolver este dilema?”

     Do que ele está falando?

“Por que não determinamos se você ou seus detratores estão certos apostando tudo no resultado de sua próxima partida de seleção?”

   Foi então que Ikki entendeu o que Akaza estava tentando fazer.

“Você quer que eu lute contra um representante escolhido por vocês?”

“Exatamente. Para nós, cavaleiros, o resultado de um duelo é absoluto. Independentemente de haver ou não evidências contra você, ninguém poderá dizer nada se você vencer um duelo oficial para provar sua inocência. Essa é uma regra inquebrável que todos os cavaleiros devem seguir, incluindo os membros do Comitê de Ética. Se você aceitar este duelo e vencer, ninguém jamais poderá questionar novamente suas qualificações para a cavalaria. É a oportunidade perfeita, não acha, Ikki-kun? Certamente você aceitará este duelo, não?”

“Se eu vencer amanhã, vocês prometem me deixar em paz?”

“Sim, claro. No entanto, no momento, seu próximo oponente seria um Rank E do terceiro ano. Receio que derrotar um adversário tão fraco não será suficiente para provar adequadamente sua força a todos. Então, se você concordar, providenciaremos um oponente diferente para o seu duelo amanhã.”

     É, eu imaginei que esse seria o problema.

Cof, cof. Contra quem vocês pretendem me colocar?”

   O sorriso de Akaza se alargou.

“Pretendemos nomear a Raikiri, Toudou Touka, como nossa representante.”

   Touka era tão forte que Ikki teria dificuldades contra ela mesmo estando em perfeitas condições. Afinal, ela chegara às semifinais do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas do ano anterior. Em seu estado atual, derrotá-la seria praticamente impossível.

   Não havia razão para Ikki aceitar aquele duelo. Mais cedo ou mais tarde, o pai de Stella chegaria e exigiria uma reunião. Se Ikki apenas aguentasse até lá, tudo se resolveria, e Akaza e os outros jamais poderiam assediá-lo novamente. Além disso, seria desrespeitoso com Touka enfrentá-la em seu estado atual. Ikki entendia tudo isso.

“A propósito, já informamos ao rei de Vermillion sobre isso. Houve um pequeno mal-entendido, porém, e infelizmente dissemos a ele que você já havia concordado com este duelo. Terrivelmente lamentável da nossa parte. Mas sabe, ele demonstrou bastante interesse em assistir ao seu duelo. Acredito que tenha dito algo como: ‘Um homem que não consegue superar uma provação desse nível não merece minha filha!’ Imagino que, se você recusar este duelo, a opinião dele a seu respeito será gravemente afetada.”

   Akaza havia cuidadosamente cortado a rota de fuga de Ikki.

     Entendo. Então esse era o plano deles desde o início.

   Esta audiência não passava de uma desculpa para manter Ikki longe da Academia Hagun. Akaza e os outros sabiam, desde o começo, que não conseguiriam quebrá-lo apenas com assédio mesquinho. Tudo isso fora apenas uma preparação para forçar Ikki a aceitar um duelo injusto.

“Mas, naturalmente, um homem de princípios como você aceitará este duelo, não?”

   Em um duelo, certo e errado deixavam de importar. Tudo dependia do resultado da luta. Assim fora para os cavaleiros desde tempos imemoriais.

   Mesmo que Ikki não tivesse feito nada de errado, se perdesse o duelo, seria destituído de sua cavalaria e perderia tudo. Concordar era uma proposta extremamente arriscada e, francamente, Ikki tinha muito pouco a ganhar com isso. Mesmo a vitória apenas lhe concederia a liberdade que já deveria ser sua desde o princípio. Ainda assim, ele não tinha outra escolha.

“Tudo bem. Vamos resolver tudo com um duelo”, disse Ikki, cerrando os dentes.

   Era uma proposta arriscada, mas Akaza tornara impossível recusá-la.

Bwa ha ha ha ha ha ha ha ha! Esplêndido! Geh heh heh, que jovem admirável você é! Todos ouviram isso?! Kurogane Ikki concordou em resolver esta questão com o duelo de amanhã! De acordo com nossos antigos costumes, não haverá discussão quanto ao resultado, seja ele qual for! Duelo é sagrado, e aqueles que concordam em resolver suas diferenças com um devem obedecer às suas regras! Sendo assim, declaro encerrada a investigação sobre a conduta de Kurogane Ikki!”

   E assim, Ikki foi forçado a uma situação ainda mais desesperadora. A Raikiri não era apenas incrivelmente forte, como também era mais poderosa em combate a curta distância — justamente a especialidade de Ikki. Ele já teria dificuldades para vencer mesmo em sua melhor forma, mas, no estado atual, mal tinha qualquer chance.

   Esse duelo decidiria seu destino e seu futuro. À medida que essa realidade se consolidava, Ikki lembrou-se do que Utakata lhe dissera mais cedo. “A razão pela qual você não consegue derrotá-la é porque ela carrega muito mais do que você.” Touka sustentava incontáveis esperanças e sonhos sobre seus ombros esguios. Não eram apenas as expectativas das crianças do orfanato que ela precisava corresponder. Todos os alunos da Academia Hagun esperavam que ela trouxesse a coroa para casa naquele ano.

   Eu tenho o que é necessário para derrotar alguém como ela? Minha espada é tão vazia e inútil que nem mesmo meu próprio pai espera algo de mim. Ela realmente pode se igualar à dela, tão repleta de esperanças e sonhos como é?

 

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