Volume 3

Capítulo 2: Monstro de Okutama

   No coração de Shinjuku, em meio aos arranha-céus imponentes, erguia-se a filial japonesa da Federação Internacional de Cavaleiros-Magos. Era um prédio respeitavelmente alto, com trinta andares. Sentado no escritório do último andar estava Kurogane Itsuki, chefe da filial japonesa. Ele estava ao telefone, e sua testa se franziu enquanto ouvia a pessoa do outro lado da linha.

"Entendo. Então Shizuku perdeu", disse ele com um longo suspiro que ecoou pela sala escura. Embora já fosse tarde da noite, nenhuma das luzes estava acesa.

"Ela enfrentou a Raikiri. Foi um confronto infeliz."

"Essa é a discípula favorita do Nangou-sensei, certo?"

"Sim, senhor. Shizuku-san apenas não teve sorte. Se não fosse por aquela nova política ridícula que a diretora instituiu, ela sem dúvida teria sido escolhida como uma das representantes da Hagun."

   Itsuki assentiu em silêncio. Ele também acreditava que a nova política da Diretora Shinguuji Kurono era absurda. Era uma refutação descarada de tudo aquilo em que ele acreditava.

"E quanto a Ikki?"

"Ele está mantendo sua sequência de vitórias até agora. É deprimente pensar o quanto os alunos da Hagun devem ter decaído para que um Rank F como ele consiga derrotá-los."

"Parece que ele será escolhido como um dos representantes?"

"Por mais que me doa dizer isso, acredito que sim. Ele já derrotou a Princesa Carmesin, bem como a terceira melhor aluna da escola, Runner’s High. Nesse ritmo, a menos que seja emparelhado contra a Raikiri ou a Scharlach Frau, sua entrada no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas está praticamente garantida."

"Isso não pode ser permitido", disse Itsuki, com uma voz fria como gelo. Ikki precisava ser impedido de entrar no Fesitval, custasse o que custasse.

"V-Você tem toda razão, senhor!"

"Não há nada que você possa fazer para impedir isso?"

"O senhor não poderia usar sua autoridade como chefe da filial para revogar o status dele como Cavaleiro-Estudante?"

"Se eu pudesse, já teria feito isso há muito tempo. Mas é a filial principal que gerencia o status de cavaleiro de um Blazer. Apenas Whitebeard tem autoridade para remover alguém dos registros de Cavaleiro-Mago e de Cavaleiro-Estudante. Posso enviar uma solicitação, mas não há garantia de que será aprovada. Especialmente se não houver um motivo válido para revogar o status de alguém."

   No ano anterior, Itsuki havia feito o Hunter provocar Ikki na tentativa de criar um pretexto válido para revogar seu status de Cavaleiro-Estudante. Mas Ikki se recusara a revidar, frustrando seu plano. Embora o Hunter quase tivesse matado Ikki, como ele compreendia que qualquer forma de autodefesa poderia ser interpretada como intenção de contra-atacar, recusara-se até mesmo a desviar das flechas de Kirihara. Como resultado, o máximo que Itsuki conseguira fazer fora forçá-lo a repetir um ano. Não fora uma expulsão — o que teria sido suficiente para que seu status de Cavaleiro-Estudante fosse revogado —, mas Itsuki esperava que isso levasse Ikki a ser ostracizado pelos outros alunos e, eventualmente, a abandonar a escola.

   O próprio Itsuki não possuía autoridade para expulsar Ikki. O máximo que podia fazer era convencer aqueles que a possuíam a fazê-lo por ele. Mas, para isso, precisava apresentar uma justificativa definitiva.

"De qualquer forma", continuou Itsuki, "preciso que você encontre algum meio de impedir Ikki de—"

"Tenho uma sugestão", disse subitamente um homem, surgindo à porta do escritório escuro de Itsuki.

   Itsuki voltou-se para o recém-chegado. Era um homem corpulento, de meia-idade, com um rosto que gritava “mercador inescrupuloso”. Mas era um rosto que Itsuki reconhecia.

"Akaza."

"Já faz tempo demais desde nosso último encontro, meu senhor. Geh heh heh."

   Aquele homem era Akaza Mamoru, membro de uma das famílias secundárias do clã Kurogane.

"Qual é essa sua sugestão?", perguntou Itsuki, desligando o telefone. Nem se deu ao trabalho de avisar a pessoa do outro lado da linha que a conversa havia terminado. Sua atenção estava totalmente voltada para Akaza agora.

   Akaza limpou a garganta e lançou a Itsuki um sorriso viscoso.

"Geh heh heh. Obtive uma informação bastante interessante por meio de uma das minhas muitas fontes. Se a utilizarmos corretamente, talvez possamos remover esse espinho do seu lado de uma vez por todas."

 

 

   No domingo seguinte, Kurogane Ikki e Stella Vermillion entraram em uma van junto com o conselho estudantil e partiram em direção ao alojamento em Okutama.

   Por sinal, era Saijou quem estava dirigindo. Eles haviam sido encarregados de descobrir a verdadeira identidade do gigante que, segundo relatos, fora visto na região.

   Infelizmente, o alojamento ficava nas montanhas, cercado por uma floresta densa. Era um terreno difícil para sete pessoas cobrirem, mesmo sendo Blazers.

   Assim, os sete decidiram encher o estômago antes de embarcar na busca arriscada. Saijou e Toutokubara foram interrogar os funcionários do alojamento, enquanto os demais — incluindo Ikki e Stella — ajudaram a preparar curry para o almoço. Eles pegaram utensílios e pratos emprestados do alojamento e levaram todos os ingredientes que Touka havia preparado até o acampamento ao lado do prédio. Poderiam ter usado a cozinha do alojamento, mas já que tinham vindo até ali, em meio à natureza, todos acharam que seria mais divertido fazer curry ao ar livre.

“Mmm. O ar aqui tem um cheiro tão fresco e revigorante”, disse Stella, inspirando profundamente. Ela colocou a faca e a tábua de corte que pegara do porta-malas da van sobre o muro de tijolos ao lado da fogueira.

“Não há asfalto por aqui, então o ar não esquenta tanto”, explicou Ikki.

“O Japão tem concreto e aço demais por todo lado. Dá uma sensação sufocante.”

“Bem, o calor e a umidade existem porque a maior parte do país está numa região subtropical, não por causa dos prédios.”

   A terra natal de Stella, o Reino de Vermillion, ficava no norte da Europa. A temperatura e a umidade médias eram muito mais baixas lá. Não era surpresa que ela estivesse achando seu primeiro verão no Japão sufocante. Nas últimas semanas, Ikki vinha ouvindo Stella gemer enquanto dormia quase todas as noites. Até mesmo os japoneses nativos sofriam com os verões escaldantes e abafados, então ele não a culpava nem um pouco por não conseguir lidar com aquilo.

“Olha, Stella-chan! Tem uma quadra de badminton! Vamos jogar!”, gritou Renren, acenando com uma raquete para Stella. Ela já havia descarregado todos os utensílios que ficara responsável por carregar.

“Parece bom para mim! Só para você saber, eu sou muito boa.”

“Sério?! Bem, eu não vou perder para você quando o assunto for jogo de pernas, pelo menos! Pode vir!”

Heh! Você vai se arrepender de me desafiar!”

   Stella correu ansiosamente para a quadra de badminton, pegando uma raquete pelo caminho.

“Espere, Stell—” Ikki tentou chamá-la, mas ela já tinha ido embora. “Puxa, você não acabou de dizer que ia ajudar a cozinhar?” ele disse com um suspiro.

   Touka, que estava carregando um monte de sacolas de ingredientes, sorriu para ele e disse: “Está tudo bem, nós não precisamos de tantas pessoas para fazer curry de qualquer maneira. Podemos colocar os dois no dever de limpeza depois, em vez disso.”

“Por mim, tudo bem. Ah sim, quanto custaram os ingredientes? Eu pagarei pela nossa parte.”

“Eheh heh, não se preocupe com isso. Vocês estão nos ajudando com o trabalho do conselho estudantil, então o mínimo que podemos fazer é oferecer algumas refeições a vocês. Na verdade, eu me sentirei mal se você não deixar”, Touka respondeu com um encolher de ombros.

     Eu acho que me sentiria da mesma forma na posição dela. Em momentos como este, era melhor simplesmente aceitar a gentileza das outras pessoas.

“Tudo bem, então não vou me preocupar em te pagar de volta.”

“O curry da Touka usa um roux especial caseiro que é super-hiper gostoso”, disse Utakata, aproximando-se.

“De fato. Acho que você vai gostar.”

“Ok, mas pelo menos me deixe ajudar na preparação.”

“Nesse caso, você poderia descascar as cenouras e batatas, Kurogane-kun?”

“Claro.”

“E Uta-kun, você pode fazer o arroz?”

“Se você está fazendo o seu curry especial, então acho que eu deveria fazer o meu arroz especial também.”

“Por favor, faça. Eu fiz questão de comprar arroz californiano especificamente para você.”

“Perfeito. Vamos a isso, então”, disse Utakata, arregaçando as mangas.

Hmm?”

   Ikki não tinha ideia do que havia de tão especial no curry ou no arroz, mas ele podia notar pela maneira como eles falavam um com o outro que Touka e Utakata eram bastante próximos.

 

 

   Tinham se passado cinco anos desde que Ikki fugira de casa. Nesse tempo, ele aprendera a cozinhar e a fazer tarefas básicas por uma questão de necessidade. Como resultado, ele não teve problemas em lidar com o trabalho de preparação.

   Primeiro, ele descascou as batatas e as mergulhou em água morna para garantir que não se desfizessem ao serem fervidas. Enquanto elas estavam de molho, ele descascou as cenouras e as cortou em cubos do tamanho de uma mordida. Assim que terminou, ele reuniu os ingredientes e os levou até Touka. No entanto, ao se aproximar, ele parou subitamente.

Hmm hmm hmmmm!

   Touka estava usando um avental e cortando carne e cebolas, cantarolando a música tema de um renomado anime infantil sobre um herói que deixava qualquer um que estivesse com fome comer uma parte da massa que era sua cabeça.

 

 

 



Apesar de sua juventude, ela parecia a quintessência de uma mãe bela. Era impressionante.

Hmm? Tem algo errado?” Touka perguntou, virando-se para Ikki.

“Oh, uh, não é nada.” Ikki balançou a cabeça, com a voz de Touka o trazendo de volta aos seus sentidos.

     Eu não consigo acreditar que me deixei ficar maravilhado pela Touka-san desse jeito.

   A presença dela não parecia tão avassaladora nem mesmo quando ela superou Shizuku durante a partida. Ikki achou estranho como essa cena doméstica podia fazê-la parecer muito maior em comparação. Ele afastou o pensamento de sua mente por enquanto, no entanto, e ergueu um cesto cheio de batatas e cenouras.

“Os vegetais estão prontos”, ele disse. “Eu também deixei as batatas de molho para que não se desfaçam.”

“Obrigada. Uau, você descascou tudo tão perfeitamente. Você as cortou no tamanho perfeito também.”

“Já que vamos comer ao ar livre, imaginei que pedaços maiores pareceriam mais fartos.”

“Bom trabalho. Sua preparação ganha uma pontuação perfeita, Kurogane-san. Acho que você é tão bom com uma faca quanto é com uma espada.”

“Ha ha, eu tive que aprender a cozinhar já que passei tanto tempo morando sozinho. Tem mais alguma coisa em que eu possa ajudar?”

“Não, isso é tudo. Agora só precisamos jogar tudo na panela e deixar cozinhar em fogo baixo, então você pode descansar.”

     Acho que não faz sentido ter duas pessoas vigiando a panela.

   Ikki assentiu e saiu da área de cozinha.

Heh heh. O que houve, jovem? Você foi cativado pela bunda suculenta da Touka?” Utakata provocou, aproximando-se subitamente de Ikki. Parecia que ele estivera observando Ikki enquanto cozinhava o arroz.

“N-Não, você entendeu tudo errado!” Ikki gritou, agitado. Embora fosse verdade que a bunda de Touka era bem formada e parecia bem macia, não era isso que o havia hipnotizado. “É... eu não sei bem como explicar, na verdade, mas havia algo marcante no jeito que a Toudou-san estava ali cozinhando. Senti como se não devesse desviar o olhar por algum motivo.”

[Almeranto: Mano… kkkkkk. Esse Utakata quebrou totalmente o clima, eu não tava esperando por isso.]

Hmm...” Utakata pareceu intrigado com a resposta de Ikki. “Você sentiu como se não devesse desviar o olhar, hein? Bem, essa é uma maneira interessante de colocar, mas você realmente é alguém especial por perceber isso tão rápido.”

“O que você quer dizer?”

“O que você viu ali foi um vislumbre do cerne da Touka — a razão pela qual ela é tão forte quanto é.”

“E você sabe essa razão?”

“Sim. Eu conheço a Touka há muito tempo.”

     Acho que isso explica por que eles se dão tão bem.

“Então você é amigo da Toudou-san desde que eram crianças, Misogi-san?”

“Hmm? Sim. Somos do mesmo orfanato.”

“Oh...”

“Chama-se Orfanato Wakaba, e é administrado pelo braço de caridade do Conglomerado Toutokubara. Enfim, foi lá que eu e Touka crescemos. Kanata costumava nos visitar com frequência, então a conhecemos há um bom tempo também. Nós três nos metíamos em todo tipo de confusão quando éramos crianças.”

“Entendo...”

   Utakata falava sobre seu passado como se isso não o incomodasse nem um pouco, mas Ikki ainda se sentia um pouco constrangido. Embora tivesse assumido que Utakata e Touka fossem amigos de infância, ele não esperava que ambos fossem órfãos que cresceram juntos. E agora, ele não tinha certeza se deveria bisbilhotar mais a fundo o passado deles.

     Mas eu quero saber o que ele quis dizer sobre aquilo ser a razão da força dela.

   Ele queria saber mais sobre que tipo de pessoa Toudou Touka era. Por fim, sua curiosidade venceu, e ele perguntou: “Sendo assim, você se importaria de me dizer o que quis dizer quando disse que aquela era a razão da força da Toudou-san?”

   Utakata ficou em silêncio por alguns segundos, mas então olhou para cima e disse: “Quando você ouve a palavra ‘orfanato’, que tipo de lugar você imagina?”

“Um lugar onde crianças que não têm pais vivem juntas sob os cuidados de um adulto designado?”

“Isso é mais ou menos verdade, mas há muitas maneiras de as crianças acabarem sem pais. Algumas os perdem em acidentes, outras são abandonadas... e essas são apenas as sortudas. Algumas crianças precisam ser retiradas pelos serviços de proteção à criança porque seus pais tentaram matá-las.”

“Existem pais... que tentam matar os próprios filhos?”

“Sim. Tínhamos mais do que algumas crianças assim no nosso orfanato, então, como você pode imaginar, era um lugar bem porcaria. Crianças com feridas abertas no coração assim são rápidas em atacar outras pessoas, o que significa que brigas estouravam o tempo todo. Era difícil. Touka era a única lá que tentava fazer os outros sorrirem. Mesmo sendo uma órfã como o resto de nós, ela lia livros ilustrados para as crianças mais novas, fazia comida gostosa para nós quando nosso cuidador estava ocupado demais, e assim por diante. Ah, nosso cuidador era uma pessoa muito legal, mas ele não conseguia cozinhar nem para salvar a própria vida, então todos amavam quando a Touka estava cozinhando em vez dele. Aha ha.”

“Ela realmente parece bem acostumada a cuidar das pessoas.”

“Ela sempre foi assim. Está na natureza dela cuidar das pessoas. Mesmo de crianças ranzinzas que acabaram quebradas e violentas porque seus pais quase as mataram. Houve um garoto que a machucou inúmeras vezes, mas ela se recusou a abandoná-lo. É graças a ela que ele foi salvo e que foi capaz de sentir emoções humanas novamente. Esse garoto é eternamente grato a ela. Ele a ama até hoje.”

Utakata engasgou um pouco enquanto falava. Embora não tivesse declarado abertamente, Ikki podia notar que o “alguém” a quem ele se referia era ele mesmo.

“Um dia, aquele garoto perguntou à Touka como ela conseguia se manter tão forte. Como ela era capaz de continuar cuidando de crianças como ele, que apenas a machucavam. Ela tinha perdido os pais assim como todos os outros no orfanato, afinal, então como ela ainda era capaz de amar os outros apesar do que aconteceu com ela? Você sabe o que ela disse a ele? Ela disse: ‘Eu fui abençoada o suficiente para ser amada pelos meus pais. O tempo que tive com eles foi interrompido cedo, mas isso não tira nada do amor que eles já me deram. É o amor deles que continua a me apoiar até agora, e é por isso que quero trazer sorrisos de volta aos rostos de todas as outras crianças. Quero criar memórias alegres com elas que as apoiarão daqui para frente, assim como meus pais fizeram por mim. Eles me ensinaram como é importante amar os outros, e eu quero compartilhar essa lição com todos’.”

   Utakata continuou.

“E sabe, mesmo agora que ela saiu, Touka ainda está lutando para dar coragem e alegria às crianças do Orfanato Wakaba. Ela quer provar ao mundo que mesmo uma órfã como ela pode crescer e se tornar alguém incrível. Se ela conseguir fazer isso, as outras crianças também não desistirão de seus sonhos. É isso que a tornou forte o suficiente para se tornar a famosa Raikiri.”

   Após ouvir aquilo, Ikki finalmente entendeu o que Utakata quis dizer. A razão de Touka ser tão forte era sua natureza altruísta. Ela era capaz de invocar tal poder porque estava lutando por outras pessoas em vez de por si mesma. Era isso que estava no cerne da pessoa conhecida como Toudou Touka. Ikki simplesmente teve um vislumbre disso quando a viu cozinhando para todos. Seu cérebro inconscientemente o avisou sobre o quão importante era prestar atenção a essa parte integrante do caráter dela, e foi isso que o cativou tanto.

“Você é forte, garoto”, Utakata disse com uma expressão séria. “Muito mais forte do que eu esperava. Eu não teria a menor chance contra você, e até a Kanata provavelmente perderia. Mas você não pode vencer a Touka. A força dela está em um nível diferente. Tem que estar, porque ela sabe que está carregando as esperanças e sonhos de dezenas de outras pessoas em suas costas. Ela sabe quanta tristeza até uma única derrota trará a eles. É por isso que ela se recusa a perder — se recusa a quebrar. A razão pela qual você não pode vencê-la é porque ela está carregando muito mais do que você.”

   Ikki não conseguiu pensar em nada para dizer em resposta. Ele se voltou para Touka, maravilhando-se com o quanto de peso aquelas pequenas costas dela estavam carregando. Não era de se admirar que ela fosse tão forte quando tinha um fardo tão pesado para suportar.

     É verdade que eu não tenho nada parecido com isso.

   Ikki tinha lutado para chegar até aqui simplesmente acreditando em seu próprio valor, em seu próprio potencial. Ele não tinha dependido de mais ninguém, mas também não tinha lutado por mais ninguém. Ele tinha se esforçado tanto apenas para se tornar o que ele pensava ser o seu eu ideal. Sua espada carecia do peso que a de Touka possuía. Ele não estava carregando as esperanças e sonhos de ninguém mais consigo. Diante dessa percepção, uma voz pequena e sombria no fundo de sua mente lhe perguntou: “Será que essa sua espada leve será capaz de derrotar Toudou Touka?”

[Almeranto: A história da Touka eu acho muito linda cara, tem bastante peso. Ela é uma personagem que merece respeito.]

 

 

   O almoço foi curry com arroz de alho. Aparentemente, esse prato em particular era um que Touka, Utakata e Kanata haviam criado na época do Orfanato Wakaba — todos o amavam, e era barato o suficiente para que pudessem arcar com todos os ingredientes. O cheiro de seu roux secreto combinado com o perfume celestial de alho e o aroma farto de carne abriu o apetite de todos, então todos comeram com gosto, saboreando o delicioso curry. Ikki nunca havia provado um curry tão delicioso em sua vida e acabou comendo demais, a ponto de quase vomitar. Inversamente, Stella, que normalmente comia o suficiente para alimentar quatro pessoas, não comeu muito.

     Talvez não tenha agradado ao paladar dela?

   O grupo passou uma hora fazendo a digestão, após a qual Touka dividiu todos em duplas para revistar as premissas. Embora fossem todos Blazers, ainda era perigoso vagar pelas montanhas sozinhos. As três duplas eram Touka e Utakata, Saijou e Renren, e Ikki e Stella. Kanata ficaria para trás para servir como um ponto central de comunicação e para que pudesse se juntar a qualquer grupo no caso de uma emergência.

   Uma vez decididas as duplas, todos partiram em busca do gigante misterioso. Ikki e Stella ficaram encarregados de revistar o lado oeste da montanha, que era o lado com a floresta mais densa. Diferente de uma montanha normal com trilhas mantidas que trilheiros frequentavam, esta era usada principalmente para o treinamento de Blazer. Como resultado, não havia trilhas propriamente ditas, e a vegetação rasteira era espessa. Esta parte da montanha também era bastante íngreme, tornando-a ainda mais difícil de atravessar. É claro que, se fosse apenas isso, Ikki e Stella não teriam problemas. Afinal, ambos estavam em sua melhor forma física.

Tch. De novo não.” Algo saltou do matagal em direção a Ikki, e ele o agarrou no ar com a mão esquerda. Era uma víbora, com as presas expostas. Esta era a terceira com que se deparavam. A inclinação da montanha não era um grande problema, mas esses ataques surpresa de cobras estavam ficando irritantes. Ikki arremessou a víbora para longe com um movimento do pulso e virou-se para Stella. “Parece que há muitas cobras venenosas nesta região. O veneno delas não é potente o suficiente para te matar, mas você ainda deve tomar cuidado.”

“Ok...” Stella disse apaticamente. Era surpreendente o quão desanimada ela parecia. Considerando o quão animada ela estivera para caçar o gigante, Ikki esperava que ela tomasse a liderança e avançasse pela montanha. Mas, no momento, ela estava caminhando mecanicamente atrás dele, com os ombros caídos e as costas curvadas.

“O que houve? Você parece desanimada. Perder no badminton te atingiu tão forte assim?”

   Aparentemente, Renren tinha limpado o chão com ela no badminton. Embora parecesse que Stella tinha sido, em grande parte, a agente de sua própria destruição, já que disparara uma série de cortadas fortes demais que mandaram a peteca para fora da quadra. Ikki imaginou que era isso que a estava incomodando, mas Stella balançou a cabeça.

“Não... não é isso.” Havia um pouco de hesitação em sua voz, como se ela mesma não tivesse certeza do que a colocara em um humor tão deprimido.

     Eu me pergunto o que há de errado. — Ver sua namorada assim preocupava Ikki, é claro, mas ele não achava que fosse nada grave. — Talvez ela esteja apenas cansada porque estamos em um ambiente novo e ela não está acostumada a fazer trilhas em montanhas?

“Certifique-se de ficar perto de mim.”

   Ikki começou a afastar parte da vegetação rasteira com sua espada enquanto caminhava, tornando mais fácil para Stella segui-lo. Ele achou que ela se animaria em breve, mas isso provaria ser um erro fatal.

 

 

   Duas horas de trilha depois, Ikki e Stella ainda não tinham encontrado o gigante misterioso. Ao pararem em uma pequena clareira, Ikki olhou para o céu.

      Eu não gosto do aspecto daquelas nuvens.

   O dia tinha começado limpo, mas nuvens espessas e escuras agora pairavam baixas sobre eles. Ikki tinha ouvido falar que o clima podia mudar subitamente nas montanhas, mas ele não esperava que fosse algo tão drástico. Poderia começar a despencar o mundo em chuva a qualquer segundo. E, nesta altitude, a temperatura era fresca mesmo no meio do verão.

     Talvez devêssemos tentar encontrar um abrigo.

Hmm?

   Ao se virar de volta para o caminho à frente, ele notou algo estranho. Algumas dezenas de árvores jaziam no chão. Pareciam ter sido derrubadas recentemente. No centro da área destruída, havia um buraco com sólidos cinco metros de diâmetro, como se alguma criatura gigante tivesse rastejado para fora debaixo da terra. Solo ocre estava preso às raízes das árvores caídas, deixando claro que elas haviam sido arrancadas por baixo, em vez de cortadas, e havia pegadas massivas e lamacentas ao lado do buraco.

“Caramba!”

   As pegadas tinham o formato de um humano, não de uma fera. Mas tinham cinquenta centímetros de largura, e nenhum humano normal tinha pés tão grandes. Ikki tinha certeza de que aquelas eram as pegadas do gigante.

“Stella, olhe. O—”

   Ao se virar para Stella, ele notou que algo estava errado com ela.

Haaah... haaah...

   Ela estava respirando pesadamente e se apoiando em uma árvore próxima.

“Stella, você está bem?! Toda a caminhada te cansou—” A princípio, Ikki pensou que ela estava apenas cansada, mas então ele olhou mais de perto para ela. Estava bem frio nesta altitude, mas o rosto dela estava vermelho brilhante, e sua testa estava lisa de suor. Ela parecia estar queimando em febre. “Stella?! O que aconteceu com você?!”

“E-Eu não sei. Mas estou me sentindo muito cansada e tonta. Acho que posso vomitar. Ei, Ikki, posso te perguntar uma coisa?”

   Stella levantou a cabeça para olhar para Ikki, com uma expressão mortalmente séria. Ele percebeu, pela determinação nos olhos dela, que aquilo era algo de importância vital para ela. Ele engoliu em seco, preparando-se mentalmente para o que quer que fosse que ela quisesse perguntar.

“Sim?”

“Dá para ficar grávida por beijo?”

Ikki ficou simultaneamente embasbacado e aliviado por não ser nada sério.

“Não, eu não acho que isso seja biologicamente possível.” — Pelo menos, espero que minha saliva não tenha o poder de engravidar mulheres. — “Espere, aguente firme. Talvez você esteja apenas doente?”

“Doente de amor?”

“Não, do tipo normal. Uh, acho que em inglês chamam isso de cold? Na verdade, neste caso, provavelmente é uma fever.”

“Oh, é isso que você quer dizer. Eu entendi agora.” O inglês de Ikki era bem irregular, mas Stella foi capaz de captar o que ele estava tentando transmitir. “Entendo. Então este é o famoso resfriado japonês.”

“Você nunca ficou doente antes, Stella?”

“Não. Nem uma única vez. Quando eu era criança, tinha inveja quando as outras crianças podiam faltar à escola porque estavam doentes, mas agora acho que não ficar doente é um negócio melhor”, disse Stella com um sorriso sofrido.

   Esta era a primeira vez em sua vida que seu corpo se recusava a fazer o que ela queria, e era uma experiência muito séria. O fato de esta ser uma experiência nova para ela também era a razão pela qual demorara tanto para perceber que estava doente. O calor excessivo e a umidade do verão do Japão devem ter enfraquecido seu sistema imunológico.

“Bem, não podemos continuar explorando com você nesse estado. Vamos voltar.”

“E-Espere, finalmente encontramos os rastros. Não podemos parar agora.”

“Mas você mal consegue se mover.”

“Isso não é verdade. Veja, eu posso conti— H-Huh?”

“Stella!”

   Stella se desencostou da árvore para provar que podia caminhar sem apoio, mas suas pernas cederam imediatamente. Ikki correu e conseguiu segurá-la antes que ela caísse no chão. Ao envolvê-la em seus braços, ele percebeu o quão alto a temperatura corporal dela havia subido.

     Isso é pior do que eu pensava. Como Stella não percebeu que estava doente, ela continuou se esforçando, o que levou a febre dela a piorar. Precisamos descer de volta para o alojamento agora mesmo.

“Eu não me importo com o que você diz”, disse Ikki, levantando Stella em seus braços e procurando a rota mais rápida para descer. “Vou levar você de volta para o alojamento.”

Aww...” Stella fez beicinho, mas o tom de Ikki era firme, e ela decidiu não discutir. Além disso, ela estava ciente de que, mesmo que quisesse protestar, seu corpo não tinha forças para isso. Ela ficou mole nos braços de Ikki, fraca demais até para ajustar sua postura.

     Eu preciso levá-la a um médico o quanto antes.

   Sob circunstâncias normais, Ikki poderia facilmente carregar alguém montanha abaixo em pouco tempo. Mas, justo quando ele começou a correr, as nuvens acima estouraram, e o aguaceiro torrencial encharcou instantaneamente os dois. Tempestades como essa costumavam ser raras, mas as mudanças climáticas as tornaram cada vez mais comuns ao longo dos anos.

“Meu Deus, por que agora?!”

   Ikki conseguia lidar com a chuva, mas isso tornaria a febre de Stella ainda pior, conforme o frio e a umidade minavam sua força imunológica. No momento, ela provavelmente tinha apenas um resfriado comum, mas se ficasse fora sob esta chuva, era provável que desenvolvesse pneumonia. Recuperar-se disso levaria tempo suficiente para impactar suas próximas partidas de seleção. Essa situação precisava ser evitada a todo custo.

     Espere, passamos por uma cabana de abrigo de emergência no caminho para cá! Isso vai nos tirar da chuva, pelo menos!

   Assim, Ikki virou bruscamente e seguiu em linha reta em direção à cabana.

 

 

   Infelizmente, até mesmo a cabana estava a uma distância considerável, e tanto Ikki quanto Stella estavam encharcados no momento em que a alcançaram. Ikki imediatamente acendeu um fogo na lareira para fornecer algum calor e ajudar a secar suas roupas. Para a sorte deles, havia muita lenha cortada em um canto, então não precisariam se preocupar com a falta de combustível. Assim que isso foi resolvido, Ikki pegou seu manual do aluno e ligou para Kanata.

“A Stella-san adoeceu?!”

“Sim. Eu a levei para uma cabana próxima para esperar a chuva passar por enquanto.”

“Meu Deus. Quão doente ela está?”

“É apenas um resfriado, eu acho, mas não posso ter certeza até que a levemos a um médico.”

“Entendido. Vou enviar alguém imediatamente.”

“Obrigado. Além disso, encontramos pegadas que provavelmente pertencem ao gigante. Elas estavam ao lado de um grande buraco que parecia que algo havia escalado para fora da terra. É possível que este gigante seja uma criatura subterrânea.”

“Entendo. Acho difícil imaginar que uma criatura tão grande pudesse se mover debaixo da terra, mas... Muito bem. Nós assumiremos a investigação das pegadas que você encontrou. Vocês dois devem ficar na cabana até que a ajuda chegue. Não deve levar mais de uma ou duas horas para que eles cheguem até vocês. A temperatura caiu bastante, então certifiquem-se de secar suas roupas.”

“Com certeza. Muito obrigado.”

Ikki desligou e jogou outro tronco na lareira. O interior da cabana estava bem quente agora.

“Tudo bem, isso deve ser um fogo grande o suficiente para secar nossas roupas”, ele disse, tirando sua camisa e pendurando-a perto do fogo. Ele então se voltou para Stella, que estava encostada na parede, com a respiração instável. “Stella, eu sei que é constrangedor, mas você vai ter que tirar suas roupas. Se não aquecermos você, seu resfriado só vai piorar.”

“Ok...”

   Stella e Ikki estavam saindo há alguns meses agora, mas o relacionamento deles ainda não havia progredido além de beijos e mãos dadas. Ikki esperava que Stella ficasse relutante em se despir na frente dele, mas, para sua surpresa, ela não proferiu uma palavra de reclamação enquanto tirava seu colete e depois levava a mão em direção à saia.

   Stella entendia que aquele não era o momento para fazer alvoroço. Ela estava dolorosamente ciente de que, se sua condição piorasse, ficaria incapaz de participar de sua próxima partida de seleção. E se houvesse sequer uma única derrota em seu histórico, ela não seria capaz de reivindicar uma das seis vagas de representante para o Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Sua promessa de duelar com Ikki lá importava muito mais para ela do que seu senso de vergonha. Ela era o tipo de pessoa que sempre tinha suas prioridades em ordem.

“Ah...”

“Stella!”

   Mas quando Stella se levantou para tirar a saia, ela tropeçou e suas pernas cederam novamente. Como ela nunca estivera doente antes, não tinha um ponto de referência sobre o quão fraca aquilo a deixara. Por ter se esforçado sem perceber que estava doente e depois ter tomado chuva, ela estava agora tão fraca que não conseguia sequer se despir sozinha.

   Felizmente, Ikki mais uma vez a segurou antes que ela atingisse o chão. O corpo dela estava ainda mais quente do que quando ele a carregava. A febre estava piorando. Ela precisava de descanso.

   Em uma voz hesitante, Ikki disse: “Stella, tudo bem se eu tirar suas roupas para você?”

   Stella arquejou, seus olhos se arregalando de surpresa. Já era constrangedor o suficiente expor sua pele nua para Ikki, então deixá-lo despi-la seria ainda mais difícil de suportar. No entanto, após um breve silêncio, ela assentiu.

“Ok...” ela disse em uma voz minúscula.

   Isso era embaraçoso para Ikki também, é claro, mas ele deixou seus sentimentos de lado por enquanto. Cuidar de Stella era a prioridade. Stella sabia que ele estava dizendo isso por preocupação com ela também, e foi por isso que concordou tão prontamente.

   Ikki lembrou a si mesmo mais uma vez que a saúde de Stella era a prioridade e que aquele não era momento para ficar animadinho. Enquanto isso, Stella conteve seu constrangimento, entendendo que Ikki estava fazendo isso pelo bem dela. Ele era o único ali que poderia ajudá-la, o que significava que ele precisava ser um perfeito cavalheiro e não se aproveitar dela em seu estado fragilizado. Ele decidiu fazer isso da forma mais clínica possível, para não fazê-la se sentir mais envergonhada do que já estava.

     Certo, vamos fazer isso.

   Esvaziando sua mente de todos os pensamentos lascivos, Ikki estendeu a mão em direção às meias de Stella, que estavam encharcadas e grudadas desconfortavelmente em suas pernas. Primeiro, ele soltou a cinta-liga que mantinha as meias no lugar, então ele lentamente, uma de cada vez, começou a puxá-las para baixo, expondo as pernas pálidas de Stella. Elas eram magras, mas tonificadas como as de uma caçadora, e suas coxas tinham uma forma distinta em comparação com as da maioria das pessoas japonesas.

 

 

 

 

 

 

   Não importa o quanto Ikki tentasse se conter, ele não conseguia evitar olhar para as pernas perfeitamente esculpidas de Stella. Toda a situação se tornava ainda mais erótica pelo fato de ser ele quem a estava despindo. Toda a sua fortitude mental poderia não ser suficiente para mantê-lo calmo.

   Ao terminar de remover as meias de Stella, um choque de eletricidade percorreu sua espinha, e ele percebeu que havia estabelecido uma tarefa monumentalmente difícil para si mesmo.

     Não tem como eu ser calmo e clínico sobre isso!

   Se fosse qualquer outra garota, ele poderia ter sido capaz de permanecer indiferente. Mas esta era a garota que ele amava. E ele estava tirando as roupas dela. Aquilo era possivelmente a coisa mais sensual que ele poderia estar fazendo, tirando o sexo. Para piorar as coisas, enquanto ele a despia, o perfume doce de Stella fazia cócegas em suas narinas. Apenas tirar as meias dela já fazia seu coração bater tão forte que ele pensou que poderia explodir. Ele não estava confiante de que seria capaz de sobreviver ao tirar a camisa dela.

   Mas... Ikki olhou para cima para ver a expressão de Stella. Como era de se esperar, ela estava vermelha como um tomate e tinha lágrimas nos olhos. Eu preciso me controlar para poder tranquilizá-la.

“Está tudo bem, Stella. Você pode relaxar”, Ikki disse, sorrindo gentilmente para ela.

“O-Ok...”

   Apesar do que Stella disse, ela não relaxou nem um pouco. Ikki mal podia culpá-la. Aquilo era embaraçoso o suficiente para ele, então provavelmente era cem vezes mais embaraçoso para ela. A única coisa que ele poderia fazer para ajudar era acabar com aquilo o mais rápido possível.

   Armando-se de coragem, ele alcançou o botão da blusa dela e rapidamente a desabotoou, fazendo o seu melhor para não tocá-la mais do que o necessário. Assim como as meias, a camisa dela também estava encharcada e grudada firmemente ao seu corpo. O formato de seus seios era claramente visível e, cada vez que ele desfazia um botão, eles se tornavam mais e mais expostos.

   Assim que a camisa de Stella foi totalmente desabotoada, Ikki alcançou o colarinho dela e o abriu. Remover a camisa foi um trabalho lento, já que estava grudada em sua pele, mas, eventualmente, ele conseguiu tirá-la. Com ela fora, ele podia ver a maneira sedutora como a garganta dela se movia a cada uma de suas respirações irregulares, e a única coisa cobrindo seus seios era seu sutiã de renda. Assim como suas pernas, a parte superior de seu corpo também era tonificada e muscular, mas ainda retinha uma camada de flexibilidade suave. O corpo dela estava encharcado de suor por causa da febre, mas isso só a fazia parecer ainda mais atraente.

Hrngh...

   A garganta de Ikki estava seca, e estava exigindo cada grama de razão que ele possuía para não avançar em Stella. Ele queria beijá-la por toda parte, passar a língua por seu corpo de cima a baixo e saciar sua sede com a saliva dela. Mas ele manteve esses impulsos sob rédea curta. Stella estava sofrendo, e este não era o momento para ter tais pensamentos.

[Almeranto: O cara tá a um fio de virar um lobo kkkkkk.]

“Um, Ikki? Você pode... tirar meu sutiã também?” Stella solicitou, tornando instantaneamente muito mais difícil para Ikki manter suas emoções sob controle.

“O-O que você acabou de dizer?”

“Está difícil de respirar... Se você não quiser tirar completamente, pelo menos desabotoe.”

   O peito de Stella subia e descia a cada respiração que ela dava, e certamente parecia que o sutiã a estava comprimindo de forma desconfortável. Os seios dela eram massivos, afinal.

     Mas... está tudo bem eu tirar o sutiã dela?

   Ikki estava compreensivelmente hesitante, mas, ao mesmo tempo, não podia dizer não quando estava claro que Stella estava sofrendo. Ele fora quem dissera que a despiria, e seria errado voltar atrás em sua palavra agora.

“C-Claro. Só me dê um segundo”, ele disse com um aceno, tentando agir o mais normalmente possível. O sutiã de Stella tinha um fecho frontal. Também tinha alças nos ombros, então não cairia totalmente após ser desabotoado.

     Está tudo bem. Eu não vou ver nada. Vai ficar tudo bem. Por um triz, mas vai ficar tudo bem.

   Ikki continuou dizendo isso a si mesmo enquanto movia o dedo indicador sob o fecho do sutiã de Stella. O fecho foi surpreendentemente fácil de soltar, mas assim que o fez, os seios dela saltaram de seu recipiente restritivo, afastando o sutiã. Seus mamilos estavam agora à vista de todos.

Nnngh!

   Isso teria sido o suficiente para destruir qualquer fragmento restante da razão de Ikki, mas ele se preparara para essa possibilidade e mordeu a língua com força suficiente para tirar sangue no momento em que desabotoou o sutiã de Stella. A dor o trouxe de volta aos seus sentidos, e ele foi capaz de evitar cometer um erro do qual se arrependeria mais tarde.

     Cara, o que eu estou fazendo? — Ele honestamente se sentia patético por ser tão facilmente abalado apenas por ver uma garota nua. Se ele tivesse estado em mais relacionamentos e passado mais tempo com mulheres, talvez pudesse ter lidado melhor com essa situação. — Mas acho que é tarde demais para me culpar por isso agora.

   Pelo menos, Ikki estava orgulhoso por ter mantido seus impulsos sob controle durante todo o tempo em que despiu Stella. Ele tinha certeza de que conseguira manter sua expressão neutra também, então, esperançosamente, o constrangimento de Stella fora mantido ao mínimo.

“A-Aqui, enrole esta toalha em você”, Ikki disse a Stella enquanto pegava uma toalha no canto da sala e a colocava sobre os ombros dela. “Estamos em uma altitude alta o suficiente para que esteja bem frio.”

   Em uma voz baixa, Stella disse: “Sinto muito por fazer você fazer tudo, Ikki.”

“Não se preocupe com isso. Não é sua culpa que você pegou um resfriado. Este é o seu primeiro verão no Japão também, então não é surpresa que seu corpo não esteja acostumado com o calor.”

“Tem isso também, mas... você parecia estar tendo muita dificuldade quando estava tirando minhas roupas...”

Hmm? O que você quer dizer?”

   Droga, eu deixei transparecer no meu rosto? — No entanto, Stella não estava olhando para o rosto de Ikki. O olhar um tanto surpreso dela estava fixo em uma parte específica da parte inferior do corpo dele. Ah não.

[Almeranto: Ah sim kkkkkkkk.]

“Eu quero dizer... olhe para o quão grande você ficou...”

   Temendo o que encontraria, Ikki olhou para baixo, em direção à sua virilha.

“Oh não.”

   Seu amiguinho estava pronto e ansioso para entrar em ação.

     Nada bom, nada bom, nada bom.

   Ele estava com uma ereção tão rígida que escondê-la era impossível. Na verdade, ele se sentia um idiota por manter sua expressão neutra quando seus pensamentos estavam claramente vazando por sua metade inferior.

A-Aha ha... Desculpe por isso. Mas esta é apenas uma reação fisiológica inevitável, sabe? Não há nada que eu possa fazer a respeito, então, por favor, apenas finja que não viu nada”, Ikki disse sem jeito, cobrindo a virilha com as mãos.

“Está tudo bem... Você não precisa se desculpar”, Stella respondeu com um sorriso. “É verdade que deixar você me despir foi muito embaraçoso... mas, como eu disse na piscina, eu não me importo, desde que seja você, Ikki. Na verdade, estou feliz que você me ache tão atraente.”

     Oh...

   Uma súbita onda de tontura atingiu Ikki. Ele teve que dizer a si mesmo que ela só estava agindo assim por causa da febre, porque, caso contrário, não tinha certeza se seria capaz de resistir ao desejo nos olhos dela ou ao brilho sedutor de seus lábios. Ele queria tanto envolvê-la em seus braços e beijá-la.

“Ei, Ikki...”

   Ikki não estava nem um pouco preparado para as palavras que ela disse a seguir.

“Você quer fazer sexo comigo?”

Hwuh?

   Por alguns segundos, ele ficou ali, estupefato. Finalmente, seu cérebro processou o que Stella acabara de dizer.

“O quêêêê?!” ele gritou. “S-Stella, você percebe o que está dizendo?!”

“Sim. Eu sei o que é sexo.”

Ngh.

   Ela olhou diretamente nos olhos de Ikki, e ele pôde ver a determinação nos dela. Ela não estava brincando, e não estava delirando por causa da febre. Ela estava seriamente disposta a fazer sexo com ele ali mesmo, agora.

   Ikki engoliu em seco. Ele não tinha certeza se era correto dizer a verdade aqui. É claro que ele queria fazer sexo com Stella. Esta dificilmente era a primeira vez que ele pensava nisso também. Cada vez que se beijavam, cada vez que davam as mãos, cada vez que se abraçavam, ele sentia esse impulso. Ele amava Stella com cada fibra de seu ser, e não apenas em um sentido platônico. No entanto, dizer isso em voz alta carregaria consigo um significado especial. Seres humanos eram criaturas que se comunicavam através de palavras. Se Ikki comunicasse o que estava sentindo para Stella agora, e se Stella se sentisse da mesma forma, eles acabariam fazendo muito mais do que apenas falar sobre sexo.

     Eu não acho que seria capaz de me conter então.

   Mesmo que ele se impedisse de avançar sobre Stella neste instante, assim que ela se recuperasse do resfriado e eles voltassem para os dormitórios, eles quase certamente acabariam fazendo sexo. Mas Ikki não podia permitir que isso acontecesse ainda. Ele era tradicional e, para ele, havia uma ordem para essas coisas.

“Sinto muito. Eu não posso responder a essa pergunta ainda”, disse Ikki, correspondendo ao olhar determinado de Stella. “Stella. Eu quero ser capaz de dizer às pessoas que te amo com a cabeça erguida. Não apenas para Shizuku e os outros, mas até para pessoas aleatórias na rua e... o mais importante, para os seus pais. Meu amor por você é a coisa mais valiosa do mundo para mim. Mas se eu fizer sexo com você agora, então me sentirei culpado quando eventualmente for conhecer seus pais. Não serei capaz de olhá-los nos olhos quando disser que te amo.”

   Como Stella e Ikki eram ambos adultos, eles na verdade não precisavam da permissão de mais ninguém para se casar. Era o próprio conjunto de valores de Ikki que o estava segurando. Stella amava seus pais, e eles a amavam. Sendo esse o caso, era apenas adequado que ele os conhecesse antes de dar um passo adiante em seu relacionamento com Stella.

“Sinto muito”, disse Ikki novamente, e baixou a cabeça em pedido de desculpas. Na verdade, ele nem achava que o estado atual do relacionamento deles era adequado. Ele preferiria muito mais se pudessem ser abertos sobre o fato de que estavam namorando. Dessa forma, ele seria capaz de dizer ao mundo que amava Stella sem sentir qualquer culpa por isso. Mas ele entendia por que tinham que manter segredo. Seria um escândalo se o relacionamento deles se tornasse público, e isso colocaria um fardo sobre Stella. Ele queria que ela fosse capaz de focar unicamente no próximo Festival de Artes das Espada das Sete Estrelas sem que paparazzis mesquinhos a distraíssem. Por outro lado, no entanto, ele queria manter o relacionamento deles relativamente casto até que pudessem ser abertos sobre isso.

“Chame-me de antiquado se quiser, mas é assim que eu sou. Sinto muito se te decepcionei, mas não posso te dar uma resposta adequada até que eu tenha conhecido seus pais.”

   Ao ouvir isso, Stella balançou a cabeça. “Você não me decepcionou.” Ela envolveu a mão na de Ikki e sorriu para ele. “Isso apenas mostra o quão seriamente você está pensando no nosso futuro juntos. Se serve de consolo, eu é que sinto muito por te colocar contra a parede desse jeito.” Estava claro que o rubor em suas bochechas não era por causa da febre.

Ela ponderou as palavras de Ikki em sua cabeça. “Eu quero ser capaz de dizer às pessoas que te amo com a cabeça erguida.” Ele realmente se importa comigo. Ainda mais do que eu percebia.

   Na verdade, Stella não esperava que Ikki estivesse levando o relacionamento deles tão a sério. Ela estivera pensando apenas em Ikki, mas ele estivera pensando em como o relacionamento deles impactaria as pessoas próximas a ela também, e em como construir uma relação harmoniosa com elas para que pudessem ficar juntos a longo prazo. Ela estava radiante por ele estar considerando um futuro com ela e por querer fazer todo o possível para que isso acontecesse.

     Enquanto isso, aqui estou eu agindo como uma coelha no cio! — Ela não conseguia acreditar que tinha pedido para ele dormir com ela daquele jeito no calor do momento. Não apenas isso, mas ela estivera perpetuamente excitada nas últimas semanas também. Ela mal podia se chamar de uma donzela casta a essa altura. — Se bobear, o Ikki é que é mais parecido com a donzela casta estereotipada!

   Envergonhada, Stella olhou para baixo e murmurou: “Acho que a febre deve estar me afetando. Continuo dizendo todas essas coisas estranhas. Vou tirar um cochilo por um tempo.” Ela se enrolou na toalha e se deitou.

“Parece bom. Eu cuidarei do fogo enquanto você dorme.”

   Ikki decidiu encerrar o assunto por ora também. Ele se sentia mal por ter recusado Stella depois de ela ter reunido coragem para pedir para dormir com ele. Stella podia notar que ele estava, mais uma vez, sendo atencioso com ela, o que apenas a deixava ainda mais envergonhada.

     Mas ainda assim, eu gostaria que ele tivesse dito claramente que queria fazer sexo comigo.

   Ela estava absolutamente radiante por Ikki estar pensando em um futuro de longo prazo com ela. E embora ele não tivesse lhe dado uma resposta direta, era óbvio por sua expressão e tom de voz que ele de fato queria fazer sexo com ela. Ela não era tão densa a ponto de não conseguir perceber isso. Mas, mesmo assim, ela queria ouvir da boca dele. Sentimentos como esses assumiam um significado especial quando eram colocados em palavras. Ela sabia que eventualmente ouviria essas palavras de Ikki, mas será que era realmente tão errado querer apressar um pouco as coisas? Ela honestamente não tinha certeza.

   Havia uma coisa de que ela tinha certeza, porém.

     Eu sou uma garota safada...

 

 

   Não muito tempo depois, Stella adormeceu. E embora tenha acordado cerca de trinta minutos mais tarde, o breve cochilo fez maravilhas por sua condição. Sua respiração estava estável agora, e sua febre havia baixado o suficiente para que ela não estivesse mais coberta de suor. Ela também foi capaz de se levantar e caminhar até Ikki sem tropeçar. Ela ainda estava levemente corada e sua temperatura corporal não havia retornado totalmente ao normal, mas, pelo que parecia, ela não contraíra pneumonia.

     Se ela está se sentindo tão energética, acho que não há necessidade de mandá-la de volta para a cama, Ikki pensou, observando mais de perto a aparência dela depois que ela se sentou ao seu lado. Provavelmente teria sido melhor se ela continuasse a descansar, mas ele a conhecia bem demais para pensar que ela seria capaz de ficar parada por muito tempo.

   De fato, Stella estava se contorcendo um pouco, embora isso provavelmente ocorresse porque ela ainda estava envergonhada com o que havia acontecido antes. De qualquer forma, ela começou a conversar com Ikki sobre o que andava acontecendo recentemente na escola e outros tópicos mundanos. Mas, embora ele não se importasse com a conversa casual, havia algo mais importante que ele queria discutir com ela.

“Ei, Stella?” ele disse durante uma pausa na conversa.

“Sim?”

“Como são os seus pais?”

“Um, por que você pergunta?”

“Digo, nós vamos tornar nosso relacionamento público em algum momento, certo? E quando fizermos isso, eu terei que ir conhecê-los. Então imaginei que deveria aprender sobre como eles são agora, enquanto tenho a chance.”

   Conhecer os pais de Stella era algo que Ikki teria que fazer eventualmente. Na verdade, era a primeira coisa que ele queria fazer assim que o Festival terminasse. Mas ele não queria ir para esse encontro às cegas. No mínimo, ele queria saber como Stella os via.

“O-Oh sim. Acho que isso vai acontecer assim que todos souberem que estamos namorando... Ugh.” Estava claro pelo tom e pela expressão de Stella que ela realmente não queria discutir esse assunto. “Ei, Ikki? Que tal não deixarmos meus pais saberem até pouco antes de nos casarmos?”

Ikki lançou a ela um olhar incrédulo.

“Não tem como fazermos isso. Talvez possamos evitar tornar nosso relacionamento público até lá, mas eu realmente acho que preciso conhecer seus pais o quanto antes.”

“E se fizéssemos isso apenas como uma pequena surpresa divertida para o meu pai?”

“Tenho certeza de que essa ‘surpresa’ daria um ataque cardíaco nele.” No mínimo, Ikki tinha certeza de que ele cairia morto de choque se tivesse uma filha e ela subitamente aparecesse um dia e lhe entregasse um convite de casamento.

“Mas...”

“Um, existe alguma razão para você não querer que eu conheça seus pais?”

   Após um momento de hesitação, Stella assentiu.

“Sim. Veja, minha mãe é normal o suficiente. Acho que você gostaria dela. Mas meu pai é... Bem, ele é um pai muito coruja, e se ele descobrisse que eu estou namorando você, ele...”

“Ele seria contra?”

“Não, não contra, propriamente dito.”

“Então não há proble—”

“Ele provavelmente mandaria assassinar você enquanto estivesse em Vermillion e então encobriria sua morte.”

     Ok, há um problemão.

“Considerando quanto poder ele exerce, isso é um tipo de piada assustadora.”

“Não é uma piada.”

   Ikki sentiu subitamente uma dor de cabeça massiva chegando, e ele tinha quase certeza de que não era porque estava pegando o resfriado de Stella. No entanto, este era um teste que ele teria que superar se quisesse passar o resto de sua vida com Stella. Ele não podia se dar ao luxo de recuar, mesmo que estivesse lidando com o rei de uma nação.

   Fazendo o seu melhor para dar um tom positivo às coisas, ele disse: “I-Isso apenas mostra o quanto ele se importa com você, certo? Ele parece ser um bom pai.”

“Ele apenas não sabe como desapegar dos filhos. Quando eu disse a ele que iria estudar no exterior, ele caiu no choro.”

“Para ser justo, acho que qualquer pai tentaria impedir sua filha se ela lhe dissesse: ‘Vou para o exterior encontrar pessoas mais fortes do que eu’.”

“Felizmente, minha mãe o trancou por algumas semanas, então ele não conseguiu me impedir de partir.”

“Ela fez o quê?! Ele não é o chefe do seu país?! É realmente okay simplesmente trancá-lo assim?! Além disso, parece que sua mãe é ainda mais assustadora que seu pai!”

“Espere, é isso. Eu posso simplesmente pedir para a mamãe trancá-lo novamente quando você vier visitar e tudo ficará bem.”

“Espere um segundo! Você não precisa fazer isso! Está tudo bem, eu falarei com ele!”

“Mas você vai morrer.”

“Por favor, não diga isso como se fosse uma garantia!”

   Ikki estava começando a temer o encontro com os pais de Stella. Mas era algo que ele estava resolvido a fazer, porque queria ficar com Stella para sempre.

“Estou feliz que você esteja preocupada comigo e, pelo que você disse, parece que seu pai é um caso sério. Mas, mesmo assim, não posso fugir disso. Vou conhecer seu pai e vou fazer com que ele aceite nosso relacionamento. Esse é o meu dever como homem”, disse Ikki, com a voz transbordando determinação.

   Stella suspirou e respondeu: “Tudo bem, certo. Nós iremos para Vermillion depois do Festival, então.” Ela sorriu e descansou a cabeça no ombro de Ikki. “Além disso, eu quero mostrar meu namorado maravilhoso para eles.”

“Obrigado, Stella.”

   Ikki passou os dedos pelos cabelos carmesim de Stella, e ela se aninhou em seu ombro contentemente. Após alguns segundos, porém, sua expressão se obscureceu e ela olhou para Ikki.

   “Ei, Ikki, e quanto a mim? Eu deveria ir visitar seus pais também?” ela perguntou hesitante. Ela sabia o quão ruim era o relacionamento de Ikki com todos os membros de sua família, exceto Shizuku.

   Enquanto Ikki ponderava a pergunta dela, sua expressão também se obscureceu. Ele não tinha certeza se era necessário que Stella conhecesse seus pais, já que ele nem tinha certeza se eles ainda o viam como filho. Ele havia ignorado os preceitos da família Kurogane e fugido de casa. Não havia como saber se algum deles — especialmente seu pai — ainda o considerava como família.

   Depois de pensar sobre isso por alguns segundos, Ikki finalmente disse: “Acho que é importante. Assim que o Fesitval terminar, você virá visitar a família Kurogane comigo?”

   Ele não sabia como Itsuki se sentia, mas, de sua parte, Ikki ainda considerava seu pai como família. O homem nunca fizera uma única coisa paternal por ele, mas, mesmo assim, ele era o sangue e a carne de Ikki. Ikki não podia evitar a esperança de que seriam capazes de se reconciliar um dia. Assim, ele queria acreditar que esses laços familiares ainda existiam, não importa quão fracos pudessem ser.

“Ok. Se é isso que você quer”, Stella disse com um aceno.

   Na verdade, Stella já estava preocupada que o encontro não corresse bem. Ela ouvira de Kurono, Shizuku e até do próprio Ikki sobre como sua família o tratara. Qualquer homem que dissesse a seu filho: “Já que você não pode fazer nada, não faça nada”, não tinha um pingo de amor paternal em seu corpo.

   Não apenas o pai de Ikki desistira dele desde o início, mas chegara a se desviar de seu caminho para tentar anular o potencial de Ikki, dificultando suas tentativas de se tornar mais forte. Stella crescera com pais amorosos, então, de sua perspectiva, a situação familiar de Ikki era verdadeiramente perturbadora. Era difícil imaginar que o pai de Ikki sequer pensasse nele como seu filho agora, e ela tinha medo de que a esperança de Ikki de que ainda pudesse haver alguns laços familiares entre ele e seu pai fosse pedir demais. Além disso, ela estava preocupada que ter essas esperanças esmagadas deixasse cicatrizes profundas em seu coração já ferido.

   Ela não conseguia se obrigar a dizer isso a ele, no entanto. Ela não tinha coragem de dizer que o pai dele provavelmente não se importava nem um pouco com ele. Tudo o que ela podia fazer era rezar para que as esperanças de Ikki não fossem infundadas e que o pai dele não fosse uma pessoa tão horrível quanto ela pensava.

   Os dois sentaram-se em silêncio por um tempo depois disso. Não durou muito, contudo, pois ambos subitamente olharam para cima. Eles podiam sentir o chão tremendo levemente.

“O que está acontecendo? Um terremoto?” Stella perguntou.

   O tremor não parecia exatamente um terremoto. Na verdade, parecia mais um estrondo do que um tremor, e acontecia em intervalos surpreendentemente regulares. Quase como se algo pesado estivesse atingindo o chão repetidamente.

“Espere, seriam essas as pegadas do gigante?” Ikki murmurou, lembrando-se das pegadas gigantescas e das árvores arrancadas que vira perto da cratera.

   Era inteiramente possível que uma criatura daquele tamanho fizesse o chão tremer cada vez que desse um passo. Embora não acreditasse no sobrenatural, tendo visto as evidências em primeira mão, ele estava disposto a aceitar que poderia realmente haver um gigante vagando pela montanha.

“Vou dar uma olhada lá fora”, disse ele, levantando-se cautelosamente. “Nós viemos aqui para ajudar o conselho estudantil a rastrear o gigante, afinal.”

“Eu vou também!” Stella declarou, também fazendo menção de se levantar.

“Não, você não vai”, Ikki respondeu enquanto dava um peteleco na testa dela. Foi um peteleco fraco, mas ainda assim suficiente para fazê-la cair de volta.

“Por que não?! Eu também quero ver o gigante!”

“Se realmente houver um gigante lá fora, talvez tenhamos que lutar se ele for hostil. Você ainda está doente, então fique aqui e descanse.”

Awww...

   Stella inflou as bochechas em protesto, mas relutantemente fez o que lhe foi dito. Ikki caminhou até a porta da cabana e encostou o ouvido nela. Os ruídos de pisadas estavam ficando mais próximos, e o tremor mais violento.

“Venha a mim, Intetsu.”

   Imbuindo suas palavras com mana, Ikki convocou sua katana azeviche para o seu lado. Ele respirou fundo para se estabilizar, então escancarou a porta e correu para fora. Tudo o que viu foi a chuva e as árvores encharcadas. O cenário logo do lado de fora da cabana estava inalterado desde quando ele trouxera Stella pela primeira vez.

     O que está acontecendo?

   Pela sua estimativa, aquelas pegadas estavam próximas o suficiente para que ele pudesse ver o gigante. Não apenas isso, mas as pegadas e o estrondo também haviam parado visivelmente agora que ele estava do lado de fora.

“O que diabos?”

   Confuso, Ikki virou-se.

“Oh...”

   Ele viu um gigante de cinco metros de altura feito de pedra parado entre ele e a cabana. Ele havia corrido exatamente por entre as pernas dele sem perceber.

     P-Puta merda!

   Ikki olhou para cima em choque, boquiaberto. Mas no instante seguinte, ele recobrou os sentidos ao observar o gigante erguer um de seus braços massivos, do tamanho de um rochedo, e começar a baixá-lo sobre a cabana.

“S-Stellaaaaa!” Ikki gritou, disparando para frente.

 

 

   Ikki deu um suspiro de alívio ao pousar em segurança no chão atrás da cabana, com Stella em seus braços.

“O quê?! O que está acontecendo?!” Stella gritou.

   Tinha sido por pouco. Se ele não tivesse ativado o Ittou Shura exatamente antes de a cabana ser destruída, não teria sido capaz de alcançá-la a tempo.

“Você está bem, Stella?”

“S-Sim. Mas por que você—”

“Veja por si mesma.” Ikki acenou com a cabeça em direção ao gigante. “Parece que o gigante é real.”

“O quê...” Os olhos de Stella se arregalaram ao olhar para o gigante que havia esmagado a cabana. “Eu não achei que ele seria assim!”

“Espere, essa é a sua preocupação?!”

Para ser justo, Ikki entendia como Stella se sentia. Quando ouviram a palavra “gigante”, presumiram que fosse uma pessoa muito grande. Mas isso era apenas um monte de rochas compactadas na forma vaga de um ser humano. Era discutível se aquele gigante era sequer uma criatura viva. De qualquer forma, ele era claramente hostil em relação a Ikki e Stella. Ele ergueu o braço alto novamente e o desceu sobre os dois.

Ngh!Ikki rapidamente saltou para o lado, com Stella ainda em seus braços.

   O braço do gigante colidiu com o chão, enviando uma chuva de terra e pedregulhos voando para todos os lados. Nem mesmo o corpo resistente de um Blazer seria capaz de suportar um golpe desse monstro. Ikki precisaria derrubar aquela coisa sem ser atingido por um único ataque.

“Stella, espere aqui. Tente encontrar uma árvore para se esconder e não se molhar tanto”, disse Ikki. Ele colocou Stella no chão e empunhou a Intetsu.

“Tem certeza de que ficará bem? Não acho que espadas vão funcionar contra aquela coisa.”

“Não se preocupe, eu criei uma técnica para lidar com inimigos assim.”

   Ikki puxou a Intetsu para trás com a mão direita, colocando a mão esquerda contra o lado chato da lâmina, e baixou em uma postura de estocada. O gigante ou não se importava ou não era senciente o suficiente para entender o que Ikki estava fazendo, já que novamente balançou um braço mecanicamente em direção a ele. Seu padrão de ataque era simples demais para ser uma ameaça real para Ikki, e ele desviou facilmente daquele golpe também antes de avançar, impulsionado pela velocidade que o Ittou Shura lhe concedia.

   Assim que esteve ao alcance, ele estocou a Intetsu para frente com toda a força que pôde reunir. Toda a força de seus braços, pernas e até o impulso de sua investida estavam concentrados na ponta de sua espada. Essa estocada ostentava o maior poder entre todas as técnicas de Ikki. Ele havia desenvolvido essa técnica específica justamente para lidar com objetos robustos que não quebravam facilmente.

“Primeiro Estilo de Espada: Rampage Thrust!”

   Ikki colidiu contra o peito do gigante como uma bala, com a Intetsu perfurando direto através da rocha densa. A força do impacto fez o gigante desmoronar no chão, e as rochas de que ele era composto começaram a se separar umas das outras. O buraco enorme em seu peito tornou impossível para ele manter sua forma humanoide.

“Eu consegui!” Ikki comemorou, pousando atrás do gigante. Um segundo depois, no entanto, sua exultação transformou-se em desespero conforme as rochas se formavam juntas novamente. Era como se fossem magneticamente atraídas umas pelas outras. “O quê?!”

   Em questão de segundos, o amontoado de rochas havia se reformado. Mas desta vez, em vez de assumirem a forma de um gigante, tornaram-se algumas dezenas de homens-pedra de tamanho humano, não mais altos que Ikki. Além disso, enquanto se reformavam, Ikki notou que havia minúsculos fios de mana conectando as rochas, que era o que as estava unindo. Aquilo não era um monstro; era uma marionete — ou melhor, várias marionetes — criadas por alguém que podia usar magia.

“Isso é uma Noble Art!” Ikki gritou. “Estamos enfrentando um Blazer! Stella, fique de olho em ataques surpresa!”

“Ikki, cuidado atrás de você!”

Ngh?!”

   Graças ao aviso de Stella, Ikki foi capaz de aparar o punho do homem-pedra que se aproximava dele por trás. No entanto, o impacto da rocha contra sua lâmina entorpeceu seu braço, enquanto o punho de pedra mal chegou a rachar.

     Eu não consigo causar dano a essas coisas sem o Rampage Thrust!

   Infelizmente, o Rampage Thrust exigia uma corrida de aproximação para funcionar. Ele não seria capaz de criar o espaço ou o tempo de que precisava ao enfrentar uma horda como esta.

Gah!”

“Ikki!”

   Em pouco tempo, os homens-pedra conseguiram sobrecarregar Ikki com números absolutos, e um deles foi capaz de desferir um golpe sólido em sua testa. Embora Ikki estivesse tentando usar o Celestial Counter para aparar o assalto dos homens-pedra, havia simplesmente muitos deles. De vez em quando, ele perdia um, permitindo que o ataque passasse.

Isso não é bom. — Embora não tivesse tido outra escolha, Ikki usou o Ittou Shura cedo demais. Ele tinha apenas trinta segundos restantes e não seria capaz de destruir todos os homens-pedra nesse tempo. — O que devo fazer?!

   Infelizmente, os homens-pedra sequer lhe deram tempo para pensar. Enquanto a maioria deles o cercava, cerca de cinco se separaram e correram em direção a Stella.

“Stella!” ele gritou para avisá-la, mas isso foi tudo o que pôde fazer. Ele estava cercado de forma muito apertada para conseguir escapar. Stella ainda estava fraca por causa do resfriado, então não seria capaz de lutar efetivamente — ou assim Ikki pensava.

Hi-yaaah!

   Para a surpresa de Ikki, Stella convocou a Lævateinn e obliterou os cinco homens-pedra com um único golpe. Além disso, ela cortou uma seção dos homens-pedra que cercavam Ikki e correu para o lado dele.

“Sabe, pessoas doentes geralmente não têm tanta energia assim”, Ikki disse maravilhado.

“Honestamente, eu também estou surpresa. Acho que sou forte a esse ponto.” Não era vanglória quando Stella dizia aquilo, e tudo o que Ikki pôde fazer foi assentir em resposta. “Aquele cochilo realmente ajudou. Eu basicamente consigo me mover como quero de novo. Deixe-me lutar com você. Eu sou melhor em lidar com inimigos assim do que você, de qualquer forma.”

     Justo.

Stella conseguia se fortalecer a tal ponto que era capaz de esmagar esses homens-pedra com pura força bruta. Na verdade, Ikki não queria que ela se esforçasse até que estivesse completamente recuperada do resfriado, mas estava claro que ele não conseguiria lidar com esse enxame sozinho. Justo naquele momento, porém, alguém novo apareceu, surgindo aparentemente do nada.

“Ora, ora. Você não deveria se esforçar tanto quando está doente, Stella-chan.”

   Felizmente, essa era uma voz que Ikki e Stella reconheceram.

“Vice-Presidente Misogi!”

 

 

“Como estão as coisas, vocês dois? Vim salvar vocês.”

“Você chegou bem rápido”, respondeu Ikki a Utakata. “Achei que demoraria mais meia hora.”

Aha ha ha, isso é porque eu sou o cara que torna o impossível possível. Isso aqui não é nada”, disse Utakata, piscando de forma brincalhona.

Graaaaah!

   Ao que parecia, os homens de pedra estavam atacando qualquer coisa que se movesse. Rugiram e imediatamente passaram a golpear Utakata também. O que estava mais próximo ergueu o braço e desferiu um golpe em direção à cabeça dele, e Ikki gritou em alerta.

“Misogi-san, atrás de você!”

   Ikki havia escapado apenas com um arranhão na testa porque amortecera o impacto com Celestial Counter. Se aquele homem de pedra acertasse Utakata em cheio, sua cabeça seria esmagada. No entanto, o vice-presidente não se virou nem tentou se esquivar, e o punho de pedra atingiu sua cabeça, pulverizando-a.

“Ah?!”

“Não!”

   Ikki e Stella encararam, chocados, enquanto a cabeça de Utakata era esmagada como um tomate. Seu corpo decapitado caiu na lama, imóvel.

“Que pena. Você caiu no meu truque de mágica.”

   Um segundo depois, Utakata — que Ikki acreditava estar morto — apareceu subitamente sobre o ombro do homem de pedra que o havia “matado”.

Aha ha, sempre quis pegar alguém com essa.”

“Mas que diabos?!” Stella olhou para cima, confusa, na direção do Utakata gargalhando.

   Ikki não gritou, mas estava tão atônito quanto ela. Ele tinha visto a cabeça de Utakata ser esmagada, visto fragmentos de crânio e pedaços de massa encefálica voarem em todas as direções. Todos os seus sentidos lhe diziam que aquilo realmente acontecera — e, ainda assim, Utakata estava sentado sobre o ombro do homem de pedra como se nada tivesse ocorrido. Ele devia ter usado seu poder de Blazer, e Ikki tinha uma suspeita de qual fosse.

“Seu Noble Art deve ter algo a ver com manipular o destino.”

“Acertou em cheio”, disse Utakata, assentindo.

   Havia diversas categorias de poderes de Blazer. O Ittou Shura de Ikki pertencia à categoria de fortalecimento corporal. Já o Dragon Breath de Stella fazia parte da categoria capaz de criar e manipular fenômenos naturais como calor, relâmpagos e afins. Depois havia a habilidade de Ayatsuji Ayase de reabrir feridas antigas, que se enquadrava na categoria que manipulava conceitos de alto nível.

   Entre as várias categorias de Blazer, aquela que podia interferir na lei natural de causa e efeito — no próprio destino — era a menor e mais rara. Poderes dessa categoria também eram, em geral, considerados os mais fortes.

“Meu Noble Art se chama Black Box, e ele me permite manipular o resultado de diversas ações”, explicou Utakata. “Por exemplo, posso fazer com que qualquer ataque contra mim fracasse.”

   De repente, Ikki se lembrou de quando conhecera Misogi Utakata — o famoso Fifty-Fifty — naquele restaurante onde Kuraudo o provocara. Utakata fora capaz de curar seu ferimento instantaneamente. Na época, Ikki não entendera que tipo de poder ele havia usado, mas agora tudo fazia sentido.

     Misogi-san simplesmente deve ter alterado o destino para que eu nunca tivesse me ferido em primeiro lugar.

   Um arrepio percorreu a espinha de Ikki. Ele já tinha visto muitos poderes de Blazer ao longo dos anos, mas nenhum tão absurdo quanto o de Utakata.

     Então é assim que é um Noble Art da categoria mais forte de poderes de Blazer.

[Almeranto: Roubado tá?]

   Ele não conseguia nem imaginar como lutaria contra algo daquele tipo. Ainda assim, no momento, era reconfortante ter alguém tão forte do lado deles. Com um poder tão insano quanto o dele, Utakata não teria dificuldade alguma em dar conta daquela horda de homens de pedra.

“Esse é um poder incrível! Com a sua ajuda, podemos derrotar esses monstros num instante, Senpai”, disse Stella, sorrindo radiante.

“Ah, desculpa, eu não posso ajudar”, respondeu Utakata, em tom neutro.

“Hã? P-Por quê?!”

“Minha Black Box só me permite interferir no resultado de algo se esse resultado puder existir teoricamente. O que isso significa é que, se houver nem que seja um por cento de chance de algo ter acontecido, eu posso transformar isso em cem por cento. Mas, por outro lado, eu não posso criar um resultado que não tenha nenhuma possibilidade de ocorrer. Por exemplo, se for fisicamente impossível para mim fazer alguma coisa, eu não posso simplesmente fazer isso acontecer magicamente. Posso transformar um por cento em cem por cento, mas não zero por cento em um por cento. Vocês esquisitos até podem conseguir quebrar essas pedras com suas espadas, mas normalmente esse tipo de coisa só é possível em mangá shounen. Uma pessoa comum não consegue cortar pedra com uma espada, sabia? Não tem como um garotinho fofo como eu sequer arranhar essas coisas.”

[Almeranto: Ikki e Stella são diferenciados kkkkkk.]

“Então o seu poder tem uma fraqueza”, observou Ikki.

“Óbvio. Se eu pudesse fazer literalmente qualquer coisa com ele, estaria participando das seletivas, mas infelizmente a Black Box só me permite escolher resultados que sejam teoricamente possíveis. Em outras palavras, ela não vale nada contra alguém que eu tenha zero por cento de chance de derrotar.”

   Utakata também era bastante frágil, o que significava que o escopo do que era impossível para ele era maior do que para uma pessoa comum. Foi por isso que ele optara por não participar das seletivas para o Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas.

“Espera, então por que você apareceu aqui?!” exclamou Stella. Era uma pergunta justa. Se Utakata não podia lutar, ele só atrapalharia.

“Para ajudar vocês, é claro”, respondeu o vice-presidente com um sorriso. “Só que não através de combate. Meu trabalho é guiar a pessoa que pode se livrar desses monstros até o lugar certo.” Ele saltou do ombro do homem de pedra e, olhando para uma pequena clareira um pouco mais acima na montanha, disse: “E agora, parece que ela chegou. Cuide do resto para mim, Touka.”

“Obrigada por me mostrar o caminho, Uta-kun.”

   Toudou Touka estava parada à beira das árvores, sua katana dourada eletricamente carregada em mãos.

“Toudou-san...”

“Eu esperava chegar mais cedo, mas fico feliz que vocês dois estejam a salvo.” Touka sorriu, aliviada ao ver que Ikki e Stella estavam ilesos. Porém, ao se voltar para os homens de pedra, sua expressão se tornou séria. “Agora podem ficar tranquilos. Eu cuidarei dessas marionetes.” Ela se abaixou, preparando-se para avançar contra a multidão de homens de pedra que cercava Ikki e os outros.

    Stella gritou apressadamente: “Espere, Touka-san! Espadas não conseguem cortar esses caras! É imprudente demais enfrentar todos sozinha! Eu vou ajudar—”

   Touka balançou a cabeça, interrompendo Stella.

“Não se preocupe. Eu sei qual é a fraqueza dessas marionetes.”

“Sério?!”

“Alguns Blazers conseguem passar fios de mana por objetos inorgânicos e manipulá-los para lutar. Blazers cujos Devices são coisas como um conjunto de fios de aço, na verdade, tendem a preferir essa tática. No entanto, quando se manipula múltiplas marionetes ao mesmo tempo dessa forma, é ineficiente demais controlá-las todas diretamente. O mais inteligente é criar uma marionete central que controle todas as outras e concentrar-se em controlar apenas essa unidade principal. Isso permite que o Blazer se esconda enquanto ataca seus inimigos unilateralmente.”

   Touka continuou sua explicação.

“Como desejam permanecer escondidos, é imperativo que deixem o menor número possível de fios que levem até sua localização. A desvantagem é que, se você derrotar a marionete central, o Blazer se torna incapaz de controlar qualquer uma das outras.”

   Táticas como essa não funcionavam em combates escolares, que eram travados em um ringue totalmente aberto. Por isso, a maioria dos cavaleiros estudantes tinha pouca razão para aprender essas técnicas ou maneiras de combatê-las. Contudo, enquanto ainda era uma Cavaleira-Estudante, Touka ocasionalmente fora convocada para lutar contra terroristas e outras organizações rebeldes ao lado de Toutokubara, devido ao seu talento e força excepcionais. Ikki e Stella não estavam familiarizados com esse estilo de combate, mas Touka já o havia visto muitas vezes antes e sabia como lidar com ele.

“Encontrei.”

   Após alguns segundos de observação, ela identificou o único homem de pedra que se movia levemente sempre que qualquer um dos outros se movia. Aquela era a marionete central, e assim que a localizou, ela disparou em sua direção, movendo-se tão rápido que parecia ter desaparecido.

   Essa era outra das Noble Arts de Touka, Volt Dash. Ela usava eletricidade para estimular seus músculos, forçando-os a expandir e contrair muito mais rápido do que normalmente conseguiriam. As marionetes de pedra foram incapazes de reagir ao seu ataque veloz como um relâmpago e apenas permaneceram ali enquanto ela desferia seu golpe supremo.

Raikiri!

   Sua lâmina envolta em plasma cortou a marionete central, partindo-a ao meio com facilidade. A onda de choque sônica que se seguiu pulverizou também os homens de pedra ao redor, e o balanço de sua espada liberou uma rajada massiva de vento que, por um segundo, soprou toda a chuva para longe.

 

 

   As marionetes não se reconstituíram, o que presumivelmente significava que seu mestre havia recuado no momento em que a marionete central foi derrotada.

“Uau...” Stella murmurou, fascinada. “É incrível como ela conseguiu descobrir a fraqueza do inimigo imediatamente, mas o que é realmente impressionante é o quanto ela fundiu bem seus poderes com sua esgrima.”

“Sem dúvida”, Ikki concordou com um aceno. Ele estava convencido de que aquele era o segredo por trás da força avassaladora dela.

   Touka conseguira aplicar as propriedades únicas de seus poderes de Blazer a todos os aspectos do seu estilo de combate. Relâmpagos naturalmente possuíam um imenso poder destrutivo, mas ela os utilizava para muito mais do que apenas ofensiva. Também usava impulsos elétricos para sobrecarregar seus músculos e ler os movimentos dos oponentes. Por causa disso, sua esgrima também conseguia brilhar. Ela empregava ativamente seus poderes em conjunto com as técnicas marciais que aprendera, cada elemento reforçando e potencializando o outro. Essa harmonia era algo que Ikki, que dependia quase inteiramente da técnica com a espada, não conseguia igualar. Ele duvidava que até mesmo Stella fosse capaz de usar seus poderes de Blazer de maneira tão sinérgica com sua esgrima.

   Stella também havia percebido isso e disse em voz baixa: “Foi um bom alerta. Acho que posso aprender muito com a Touka-san.” Sua expressão estava rígida, principalmente porque tinha consciência de que não era tão forte quanto Touka.

   A Princesa Carmesim, uma Blazer de Rank A, era mais fraca que a Raikiri, uma Blazer de Rank B. Claro, como sua classificação sugeria, Stella possuía um potencial latente muito maior. Em mais um ano, sem dúvida seria a mais forte das duas. Mas, se lutassem naquele momento, Touka venceria nove de cada dez vezes. Era um pensamento bastante sóbrio.

“Stella-san”, Touka chamou, virando-se para ela. “E-Eu ouvi dizer que você desmaiou! Como está se sentindo?!”

   Seu rosto pálido e a expressão preocupada deixavam claro que ela estivera genuinamente aflita com Stella o tempo todo. Era impressionante a rapidez com que ela se transformara da guerreira fria e composta, que havia cortado rocha pura com facilidade, em uma colega de classe preocupada.

“Oh, ah... estou bem. Acho que vou melhorar depois de uma noite de descanso”, Stella respondeu, tentando tranquilizá-la com um sorriso. No entanto, Touka encostou a testa na de Stella e imediatamente percebeu que ela estava mentindo.

“Você não está nada bem! Está ardendo em febre! Não pode ficar aqui na chuva — isso só vai piorar seu resfriado!”

“Não é como se eu pudesse estar em outro lugar. A cabana foi destruída”, Stella disse, apontando para a cabana achatada.

   Touka franziu a testa e perguntou: “Uta-kun, há outras cabanas por perto que possamos usar como abrigo?”

“Não. Mas há uma caverna ao norte daqui.”

“Vamos para lá por enquanto. Não queremos que o estado da Stella-san piore, e também precisamos dar uma olhada nos ferimentos do Kurogane-kun.” Touka pegou Stella nos braços. “Certo, Stella-san, vamos.”

“O quê?! E-Espera! Me põe no chão! Isso é constrangedor!”

“Nem pensar. Você está doente demais para andar.” O tom de Touka era gentil, mas firme, como o de uma mãe repreendendo uma criança.

   Quando ela começou a caminhar, Utakata se aproximou de Ikki e murmurou em voz baixa, o suficiente para que apenas ele ouvisse: “A Touka perdeu os dois pais para uma doença. É por isso que ela é tão rígida quando o assunto é fazer alguém descansar quando está doente. Se eu fosse você, não discutiria com ela quando está assim. Quando entra no modo mamãe, ela dá palmadas em quem não obedece.”

“Está falando por experiência própria, Vice-Presidente?”

“As bofetadas dela doem mais do que você imagina. Só isso que vou dizer.”

   Ikki entendeu o recado. Então é um sim.

   Touka também já havia agido como mãe do Utakata na sala do conselho estudantil, então Ikki concluiu que aquilo devia ser algo recorrente.

“Então, garoto, consegue andar sozinho? Ou precisa que eu te dê um ombro?”

   Utakata sabia que Ikki ficava completamente exausto depois de usar Ittou Shura. Ainda assim, Ikki balançou a cabeça.

“Por enquanto, estou bem.”

“Então me siga.”

   Com isso, o vice-presidente conduziu todos até a caverna que havia avistado anteriormente.

 

 

“Heh heh heh. Eu só estava planejando mandar meu novo brinquedo para um teste, mas acho que fui um pouco descuidado demais. Paciência”, disse um homem alto com um suspiro, enquanto descansava em um sofá em uma sala envolta em escuridão. Ainda era meio-dia, mas as persianas estavam fechadas e as luzes apagadas. “Acho que foi pedir demais esperar que meros fantoches conseguissem enfrentar a famosa Raikiri.

“Deus, que fedor é esse aqui dentro. Você queimou o braço?”, disse alguém, aproximando-se por trás do sofá em que o homem estava sentado e olhando para ele.

“Queimei feio, sim.” O homem arregaçou a manga do braço esquerdo. Quando Touka cortara a marionete central, a eletricidade de sua lâmina percorrera o fio de aço que ele usava para controlá-lo e chamuscara sua carne. As queimaduras eram tão severas que nem mesmo uma cápsula de iPS seria capaz de curá-las completamente. Ainda assim, o homem parecia estranhamente satisfeito. “Meu braço esquerdo já era”, disse ele com um sorriso.

“Isso é o que você ganha por agir antes da hora, idiota.”

“É, acho que sim. Heh heh heh.

“Sou apenas um convidado, então não sei quais são os planos do exército, mas você é um membro de verdade. Não deveria ser mais cuidadoso, com o evento principal tão próximo?”

“Você tem toda razão, mas eu fico tão entediado esperando. E eu odeio ficar entediado. Afinal, eu sou o Jester. Preciso estar sempre sorrindo, não importa o quê. Um verdadeiro bobo da corte consegue continuar sorrindo tanto quando pratica boas ações quanto quando pratica más.”

“Como sempre, não faço a menor ideia do que você está falando.”

Heh heh heh, tudo bem. Ninguém gosta de um bobo da corte que fala coisas sensatas.” O homem alto que insistia em se chamar de Jester fez alguns movimentos com os dedos da mão direita. No instante seguinte, seu braço esquerdo carbonizado caiu como se tivesse sido decepado por uma lâmina. Devido à gravidade das queimaduras, não havia sangue escorrendo do corte. “Ei, quer isso? Está bem passado”, disse ele, estendendo o braço para a pessoa atrás dele.

“Não, obrigado. Por que você não deixa o nosso gato comer?”

Heh heh heh. Melhor chamá-la de ‘Sphinx’, como ela quer, ou ela começa a chorar de novo.”

“Você pode colar asas em um gato, mas isso não faz dele uma esfinge.”

   O homem de um braço só suspirou e balançou a cabeça. “Ah, aliás, a Princesa Carmesin pela qual você é tão obcecado estava lá também. Ela parecia bem pálida. Está doente ou algo assim?”, perguntou.

“Como eu vou saber?”

“Minha nossa. Não está preocupado? Achei que você tivesse vindo aqui para encontrá-la.”

“Vim. É por isso que estou ouvindo você tagarelar agora. Mas se ela não conseguir chegar ao Festival por causa de um mero resfriado, isso só significa que a Princesa Carmesin não é tudo isso que dizem.”

   O autoproclamado palhaço percebeu que seu interlocutor não estava mentindo, o que apenas confirmou que os dois não eram compatíveis nem um pouco.

     Ora essa. Não tem a menor graça provocar gente certinha.

“Vamos lá. Não precisa ser tão frio. Hoje em dia, os caras precisam ser mais atenciosos ou nunca vão fazer sucesso com as garotas.”

“Se quer ensaiar suas piadas, palhaço, faça isso na frente de um espelho”, o outro homem disparou antes de sair da sala.

   O palhaço no sofá o observou ir embora e então soltou mais um suspiro.

“Que sujeito certinho. Ele devia aprender a ser mais como o irmãozinho dele.”

 

 

   Para desagrado geral, a chuva continuou por mais três horas após a batalha contra os bonecos homens-de-pedra. Como resultado, já era pôr do sol quando Ikki e os outros puderam começar a descer a montanha. Era impressionante a rapidez com que as nuvens desapareceram assim que a chuva cessou, e, em questão de minutos, Ikki e os demais contemplavam um céu limpo tingido de vermelho. As mudanças climáticas no Japão estavam se tornando cada vez mais extremas.

   Enquanto caminhavam de volta ao alojamento, Stella, que descansava nas costas de Ikki, virou-se para Touka e perguntou: “Ei, Touka-san, não deveríamos estar perseguindo o cara que estava controlando aqueles bonecos de pedra?”

   Como haviam recuado para uma caverna próxima depois de destruir os bonecos, não tinham conseguido ir atrás do agressor que atacara Ikki e Stella. Stella não gostava de deixar as coisas assim, e, para ser justo, Ikki, Touka e Utakata também não. No fim das contas, embora tivessem descoberto a verdadeira identidade do gigante, não haviam resolvido o problema subjacente.

“Eu adoraria capturá-lo se pudéssemos, mas não acho que isso seja possível”, respondeu Touka com o cenho franzido.

“Por quê?”

“Quando destruí o boneco central, enviei a eletricidade de Raikiri pelo fio que o conectava ao mestre dos bonecos para medir a distância entre nós, e é longe demais.”

“Estamos falando de quanto, exatamente?”

“Pelo menos cem quilômetros, possivelmente mais.”

   Stella engasgou de surpresa e começou a tossir várias vezes. Era uma distância suficiente para que o culpado talvez nem estivesse na região metropolitana de Tóquio. Não é de se admirar que Touka-san nem tenha tentado persegui-lo.

“Bom, eu não esperava isso. Blazers que usam fios de aço realmente conseguem controlar bonecos a uma distância tão grande?”

“Normalmente, não. Em uma das vezes em que fui convocada para ajudar os Cavaleiros-Magos oficiais, trabalhei em equipe com um usuário de fio de aço Rank B, e a distância máxima em que ele conseguia controlar seus bonecos de forma eficaz era quinhentos metros.” Ficava claro, pelo exemplo comparativo de Touka, que quem quer que tivesse criado aqueles bonecos de pedra não era um mestre de marionetes comum. Sua expressão tornou-se sombria, e ela acrescentou: “Se for assim, talvez tenhamos tido sorte de não precisar confrontar o verdadeiro mentor.”

“Nesse caso, é definitivamente mais sensato manter distância por enquanto”, disse Ikki, assentindo. Seria perigoso demais desafiar um inimigo tão letal sem um plano. Ainda assim, Stella não estava satisfeita com a facilidade com que todos estavam recuando.

“Mesmo assim, parece errado ir embora sem descobrir nada sobre quem estamos enfrentando.”

“Toutokubara-san já relatou tudo à diretora. Se ela achar que é um problema sério o suficiente, tenho certeza de que tomará providências pessoalmente. Além disso, deixei o culpado com um presente de despedida bem doloroso, então não acho que ele volte a esta área.”

   Toudou-san disse isso como se fosse a coisa mais normal do mundo. Se era insano alguém conseguir controlar bonecos a cem quilômetros de distância, era igualmente insano que Touka tivesse conseguido enviar um choque elétrico de volta ao mestre dos bonecos pela mesma distância.

   A partir daí, a conversa mudou para assuntos menos sérios, e os quatro desceram a encosta da montanha conversando amigavelmente. Partes do caminho estavam escorregadias por causa da lama, mas Ikki e os outros eram cavaleiros habilidosos o bastante para que o terreno irregular não representasse problema. Ikki havia conseguido descansar o suficiente na caverna para se recuperar em grande parte da exaustão causada por Ittou Shura. Como resultado, conseguiu atravessar os trechos lamacentos sem dificuldade, mesmo carregando Stella nas costas. Mantiveram um bom ritmo e conseguiram chegar ao alojamento antes que o sol se pusesse por completo.

“Ah, lá estão eles! Ei! Bem-vindos de volta, pessoal!”, gritou Renren, acenando para Ikki e os outros. Ela e Saijou estavam esperando do lado de fora do alojamento o retorno de todos. “Ouvi dizer que você pegou um resfriado, Stella-chan. Que situação complicada.”

“Desculpem por atrasar vocês. É a primeira vez que fico doente, então não percebi que estava resfriada até já ser tarde demais.”

“Normalmente, as pessoas se sentem péssimas quando estão doentes, mas acho que você tem tanta energia que nem notou. Quando estávamos jogando badminton, você bateu na peteca com tanta força que arrancou um pedaço do chão. Acho que ter energia demais também tem suas desvantagens, né?”

“Não sei dizer se você está me elogiando ou me insultando.”

     Ok, você definitivamente não deveria ter tanta energia estando doente. E também, desde quando você joga badminton como se fosse tênis? — pensou Ikki, balançando a cabeça. Nesse ritmo, não ficaria surpreso se Stella conseguisse vencer todas as suas lutas classificatórias mesmo doente.

“Imagino que deva ter sido bastante estressante lidar ao mesmo tempo com uma parceira doente e um ataque de golem”, disse Saijou, colocando a mão no ombro de Ikki.

Ha ha ha. Eu sou bem azarado, então já estou acostumado a desastres vindo um atrás do outro.”

“Ouvi dizer que você se feriu. Está tudo bem agora?”

“Tenho só um galo na cabeça, mas nada além disso. Vou ficar bem.”

“Entendo.” Ao dizer isso, Saijou tirou um frasco do bolso e o entregou a Ikki.

“O que é isso?”

“Eu venho de uma família de médicos, e essa é uma das nossas pomadas secretas. Se você passar um pouco sobre o hematoma, deve sarar rapidinho”, explicou Saijou com um sorriso, fazendo um joinha para Ikki.

“Ah, que legal. Obrigado. Vou usar sim”, disse Ikki, retribuindo o sorriso de Saijou.

“Gaaay”, comentou Utakata com um sorriso provocador.

“Espera, é por isso que você nunca dá em cima de mim mesmo quando eu estou só de roupa íntima na sala do conselho estudantil?!” exclamou Renren.

“N-N-N-N-Não sejam ridículos, vocês dois! Eles são só bons amigos, isso é tudo! Provavelmente, pelo menos!”, disse Touka.

“Por que você parece tão insegura quanto a isso, Touka-san?”, perguntou Stella.

   Ikki esfregou as têmporas, exasperado, mas o sorriso de Saijou não vacilou enquanto ele dizia: “Desculpe. Os membros do conselho estudantil são sempre assim. Mas, bem, na maior parte do tempo, são boas pessoas.”

Aha ha ha, entendo.”

     Estou impressionado com a sua força mental, Saijou-san. Deve ser difícil lidar com esse pessoal todos os dias.

Haaah. Toda essa caminhada me deixou cansado. Com fome também. Ei, Touka, vamos fazer um churrasco antes de voltar”, sugeriu Utakata.

“Oh, gostei da ideia! Não consegui comer muito no almoço, então uma boa porção de carne parece perfeita!”, disse Stella, animando-se.

“Isso aí! Churrasco!”, exclamou Renren também.

   No entanto, Touka balançou a cabeça e disse: “De jeito nenhum. Stella-san ainda está doente. Vou levá-la ao médico.”

Awww”, choramingaram Stella, Utakata e Renren em uníssono.

“Mas olha, Stella-chan já está bem melhor. Um churrasquinho não vai fazer mal”, insistiu Renren.

“É, eu estou totalmente bem agora.”

“Viu? Até ela diz que está bem. Não faz parte do trabalho do conselho estudantil respeitar a autonomia dos alunos?”

“Pode argumentar o quanto quiser, mas não é não”, repreendeu Touka. “Se você não leva um resfriado a sério, ele pode virar algo muito pior. E Stella-san ainda tem lutas pela frente.”

Mrr...” resmungou Stella, e um segundo depois seu estômago roncou também. Ao que parecia, seu apetite realmente havia voltado. Ela também não estava tão febril quanto estivera na cabana. Conhecendo Stella, era perfeitamente possível que tivesse superado o resfriado no intervalo de poucas horas. Sua vitalidade era absurda.

“Toudou-san, concordo que devemos levar Stella ao médico, mas, já que ela está com fome agora, talvez seja melhor comermos primeiro. Um resfriado também pode piorar se você não mantiver as forças, afinal.”

“Ikki, meu herói!”

“É isso aí, o que o Kurogane-kun disse! Pessoas doentes também precisam comer!”

“Suponho que vocês tenham razão, mas não sei se carne especificamente é o que alguém doente deveria estar comendo... Oh, muito bem. Vamos levar Stella ao médico, pegar algum remédio e depois podemos ir a um rodízio de churrasco. Se comermos antes, a clínica vai fechar.”

“Uhuu! Carne!”, comemorou Renren. “Você é a melhor, Touka!”

“Misogi-senpai, vamos ao Jujuen!”, propôs Stella.

“Por mim, ótimo! Vou fazer a reserva!”, respondeu Utakata.

“Espera, parem!”, gritou Touka. “Lá não é rodízio!”

     O conselho estudantil realmente é animado, pensou Ikki, sorrindo ao ver os membros discutindo. Depois de alguns segundos, porém, percebeu que faltava alguém. “Espera, onde está a Toutokubara-san?”

“Aparentemente temos um visitante, então a Kanata-senpai foi atendê-lo”, respondeu Renren.

“Ah, isso me lembra”, acrescentou Saijou. “Kurogane, alguém veio te procurar mais cedo.”

“Sério?”

“Sim. Ele passou na escola primeiro e veio até aqui depois que a diretora disse onde você estava.”

   Ikki lançou um olhar confuso a Saijou. Não conseguia imaginar quem viria até Okutama só para vê-lo.

“Saijou-san, essa pessoa disse quem era?”

“Ah, sim, acho que foi...” Saijou vasculhou a memória por alguns segundos. “Ah, lembrei agora. Ele disse que se chamava Akaza.”

Gah.”

   Ao ouvir aquilo, Ikki enrijeceu. Um segundo depois, uma voz o chamou.

“Oh, aí está você. Estou esperando há séculos.”

Ao se virar, Ikki viu Toutokubara Kanata ao lado do visitante que ela estava atendendo.

“Quanto tempo, Ikki-kun. Geh heh heh.

   Ikki conhecia aquele homem corpulento de meia-idade vestindo um terno vermelho chamativo. Já o encontrara muitas vezes antes, quando ainda morava na casa dos pais.

“Ikki, quem é esse velho?”, sussurrou Stella. Ela havia percebido que Ikki ficara tenso.

   Ikki colocou Stella gentilmente no chão e respondeu: “Ele é Akaza Mamoru-san. O chefe de uma das famílias secundárias do clã Kurogane.”

Tch!

   Isso foi mais do que suficiente para Stella perceber que aquele sujeito era problema. Ela lançou a Akaza um olhar feroz, como um gato tentando intimidar um intruso. Seu olhar era tão intenso que Kanata piscou surpresa e perguntou:

“Hum, tem algo errado?”

   Akaza, porém, parecia completamente despreocupado.

Geh heh heh. Não precisa ficar tão brava, senhorita. Eu também não gosto disso. Quem diria que eu teria de vir até Okutama por causa desse inútil imprestável”, disse ele, com um sorriso provocador. Seu tom desdenhoso deixou claro para o resto do conselho estudantil que aquele homem não era amigo de Ikki — mesmo que não soubessem o contexto completo que Stella conhecia. E, naturalmente, Touka não estava disposta a deixar aquela grosseria passar.

“Você veio até aqui só para insultá-lo?!”, ela exclamou. “Onde estão suas maneiras?!”

   Ela também lançou um olhar cortante a Akaza, mas, em resposta, ele apenas fez uma reverência.

“Ah, você deve ser a famosa Raikiri-san. Boa tarde. Ou boa noite, suponho, já que ficou bastante tarde. Ouvi dizer que precisou correr para socorrer o Ikki-kun. Como membro da família Kurogane, devo dizer que sinto profundamente que ele não tenha sido sequer capaz de concluir a missão que lhe foi atribuída.”

“Eu não quero que você se desculpe co—”

“Ele realmente é um desperdício inútil, do começo ao fim.”

   Embora estivesse se dirigindo a Touka, Akaza não lhe dava a menor atenção. Na verdade, estava apenas usando-a como pretexto para insultar Ikki ainda mais. Touka ficou tão chocada com aquela hostilidade descarada que não soube o que dizer. Os outros membros do conselho estudantil também estavam atônitos.

   Após alguns segundos de silêncio, Akaza ergueu-se da reverência e disse:

Ugh, esse interior está infestado de mosquitos. Vamos acabar logo com isso, Ikki-kun. Geh heh heh. Vim hoje em nome da Federação dos Cavaleiros-Magos. Como presidente do Comitê de Ética da filial japonesa, tenho notícias importantes para você.”

   Apesar do sorriso, havia um brilho sinistro em seus olhos. Ficava claro que qualquer assunto que o Comitê de Ética tivesse com Ikki não seria nada bom. Mas, se estava sendo convocado, não havia muito que pudesse fazer além de ouvir.

“O que eles poderiam querer comigo?”

Geh heh heh. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Aqui, dê uma olhada na manchete do jornal desta noite.”

   Akaza entregou um maço de recortes de jornal a Ikki. Ele não fazia ideia de como aquilo poderia estar relacionado à situação, mas, ao olhar para o primeiro deles, tudo ficou claro. Ali, na primeira página, havia uma foto de Ikki e Stella se beijando diante de algumas árvores.

 

 

   O queixo de Stella caiu ao ver a foto.

“Ikki, c-como...?”

   O cenário ao fundo era, sem dúvida, a clareira onde Ikki e Stella sempre iam treinar. E, em primeiro plano, os dois estavam claramente se beijando. Aquela mesma imagem estampava a primeira página de todos os jornais do maço. Em outras palavras, o relacionamento dos dois havia sido vazado por alguém da escola, desencadeando exatamente o escândalo que tanto temiam.

“É uma boa foto, não é? Captura perfeitamente o rosto dos dois. As câmeras noturnas modernas conseguem tirar imagens de ótima qualidade mesmo com pouca luz. Geh heh heh. Talvez vocês não tenham percebido, já que estão no meio do nada, mas Tóquio inteira está em alvoroço agora. Não é apropriado se comportar de forma tão íntima com uma hóspede de honra do Estado, Ikki-kun.”

“E-Espera um segundo!”, gritou Stella, começando a folhear freneticamente os artigos. “Isso é um absurdo! Quem escreveu essa calúnia nojenta?!”

   Ela apontou para as manchetes, que variavam entre “O Homem que Roubou a Castidade da Princesa”, “Rei Vermillion Indignado” e “Isso é um Incidente Internacional?!”. Para piorar, todos os textos retratavam Ikki como um canalha. Alegavam que ele era um delinquente que só trouxera problemas para a própria família e que se envolvera com dezenas de mulheres. Chegavam até a afirmar que ele estava traindo Stella. Nada daquilo era verdade. Mas isso não impediria o público de acreditar — especialmente porque a família Kurogane havia corroborado as acusações falsas de que Ikki era um filho problemático.

   Ainda sorrindo, Akaza voltou-se para Stella.

“Oh, garanto que não é calúnia alguma, minha querida princesa. Cada palavra desses artigos é verdadeira. Você apenas foi enganada pelo Ikki-kun. Mas não se preocupe. Ninguém a culparia por isso. Ele é astuto, afinal. Eu o conheço desde criança e, embora me doa falar mal de um parente, posso afirmar que ele sempre foi um delinquente imprestável. Roubava em lojas, se metia em brigas e até chantageava pessoas. Veja, aqui estão depoimentos de todos que ele prejudicou. Geh heh heh.”

“Isso é tudo mentira! O Ikki não é o tipo de homem que faria essas coisas, e qualquer um que saiba ao menos uma única coisa sobre ele perceberia isso imediatamente!”

Geh heh heh. Bem, independentemente do que você pense, princesa, esses artigos já foram publicados, e o público acredita neles. Já recebemos inúmeras reclamações exigindo que o status de cavaleiro de Ikki seja revogado. Como resultado, fomos obrigados a abrir uma investigação emergencial para apurar o caso. A audiência avaliará se Ikki-kun possui ou não as qualificações necessárias para ser um Cavaleiro-Mago adequado. Caso se decida que não, o Comitê de Ética solicitará à sede que revogue seu título de cavaleiro e o exile da Federação dos Cavaleiros-Magos. Vim buscá-lo para essa audiência.”

   Ao ouvir aquilo, Stella teve cem por cento de certeza de que aquele escândalo fora fabricado pela família Kurogane para, mais uma vez, atrapalhar o caminho de Ikki. Estavam tentando usar o relacionamento dele com ela como pretexto para apagá-lo do registro de cavaleiros. A investigação obviamente o declararia inapto para ser cavaleiro, e um pedido formal de expulsão seria enviado à sede da Federação. Eles estavam determinados a eliminar Ikki porque o consideravam uma mancha na honra da família Kurogane.

“Esta é uma convocação oficial, Ikki-kun. Geh heh heh. Se você se recusar a vir pacificamente, sua situação só vai piorar. Você não faria algo tão tolo, faria? Geh heh heh.

   Akaza colocou as mãos nos ombros de Ikki e o encarou diretamente nos olhos. Por um instante, o silêncio pairou no ar.

“Tudo bem, eu vou”, disse Ikki por fim, assentindo com a cabeça. A determinação serena em seu olhar deixava claro que ele estava preparado para enfrentar aquela conspiração de frente. Ainda assim, Stella tinha certeza de que as provações que o aguardavam seriam mais severas do que qualquer uma que ele já tivesse enfrentado.

 

 

— Almeranto: Esse Akaza é um desgraçado nessa obra cara, velho gordo maldito. Enfim, vamos para uma das partes mais tensas a seguir.

 

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