Volume 3
Capítulo 1: Lorelei vs. Raikiri
A batalha entre Lorelei e Raikiri, duas das Blazers mais fortes da escola, começou com uma calmaria inesperada.
“O-O que está acontecendo?! Nenhum dos lados está se movendo!”
Touka e Shizuku circulavam lentamente o ringue, mantendo uma distância fixa entre si. O kodachi prateado de Shizuku, Yoishigure, estava apontado para o chão, e ela não fazia menção de erguê-lo. Enquanto isso, o Device de Touka, uma katana chamada Narukami, ainda repousava em sua bainha preta envernizada. Um minuto havia se passado desde o início da batalha, e mesmo assim as duas ainda não haviam cruzado lâminas. Apesar disso, a atmosfera era extremamente tensa. Mais de cem pessoas tinham vindo assistir a esse confronto tão aguardado, e nenhuma delas ousava dizer uma única palavra enquanto observava com a respiração suspensa.
“Eu também não gostaria de fazer o primeiro movimento”, murmurou Stella em voz baixa para Ikki, que estava ao seu lado.
“As duas querem deixar que a oponente ataque primeiro para sentir como ela luta.” Foi Alisuin, e não Ikki, quem respondeu. “Ambas são Blazers Rank B, com alcance suficiente para atingir a outra a partir da borda da arena. Como já estão dentro do alcance efetivo uma da outra, não podem se dar ao luxo de agir de forma descuidada.”
“A Alice está certa, mas a Shizuku realmente não quer ser a primeira a avançar aqui. A Toudou-san pode atacar a qualquer distância, mas ela se destaca no combate de curto alcance”, acrescentou Ikki.
“Esse golpe característico dela que o anunciador mencionou é um ataque de curta distância?”
“Sim. E eles não estavam exagerando quanto à força desse ataque. A Noble Art dela, que também se chama Raikiri, usa eletromagnetismo para permitir que ela saque a lâmina à velocidade de um relâmpago. Inclusive, o apelido dela vem do nome dessa Noble Art.”
Ao canalizar eletricidade pela bainha e pela superfície da lâmina, Touka conseguia gerar um poderoso campo eletromagnético que acelerava seu saque para uma velocidade supersônica. Os reflexos humanos não eram rápidos o bastante para reagir a algo assim.
“A Toudou-san venceu todas as lutas em que teve a chance de usar Raikiri”, observou Ikki. “É um golpe garantido, certo de derrubar qualquer oponente.”
“Espere, mas ela perdeu nas semifinais do ano passado, não perdeu? Isso não significa que o campeão do ano passado conseguiu vencer o Raikiri dela?”, perguntou Stella.
“Não exatamente”, respondeu Ikki, balançando a cabeça. “O campeão do ano passado, o Moroboshi-kun, usa uma lança. Eu assisti às gravações da luta dele contra a Toudou-san, e ele permaneceu fora do alcance do Raikiri o tempo todo. Em outras palavras, até mesmo o atual campeão reinante tinha medo desse golpe. Não houve uma única pessoa que tenha derrotado a Toudou-san em um combate de curta distância até agora. Todos que se aproximaram foram abatidos por aquele corte veloz como um relâmpago. A Shizuku sabe disso também.”
“E é por isso que ela está mantendo a distância?”
“Isso mesmo. Ela provavelmente está planejando lutar o mais longe possível. Combates de longa distância são o forte dela, afinal. Não há motivo para ela encurtar a distância.”
Shizuku estava satisfeita em esperar que sua oponente fizesse o primeiro movimento. Por enquanto, porém, parecia que o tempo havia parado enquanto as duas continuavam a se circular lentamente.
“Mas as coisas vão esquentar rápido assim que a Toudou-san partir para a ofensiva.”
Alguns segundos depois de Ikki dizer isso, Touka finalmente fez seu movimento.
◆
Touka avançou em disparada, acelerando até a velocidade máxima em um instante. Com sua agilidade, ela conseguia fechar a distância de vinte metros em menos de um segundo. Mas, é claro, Shizuku não iria deixá-la se aproximar sem lutar. Ela vinha observando e aguardando o momento em que Touka atacaria e, por isso, conseguiu reagir imediatamente.
“Congele — Frost Field!”
O chão sob os pés de Shizuku congelou, e o gelo cobriu toda a arena antes que Touka sequer conseguisse dar um segundo passo. Naturalmente, se alguém corresse em velocidade máxima sobre um terreno tão escorregadio, acabaria escorregando. Touka seria forçada a desacelerar seu avanço, deixando Shizuku livre para bombardeá-la a uma distância segura, e então Shizuku apontou Yoishigure para Touka e criou três Water Prison Bubbles em rápida sucessão. Se alguma delas conseguisse cobrir a cabeça de Touka, ficaria presa até que ela desmaiasse por falta de oxigênio.
Com o chão tão escorregadio, seria extremamente difícil desviar das três bolhas. Touka não era uma Blazer comum, no entanto. Ela era uma das melhores cavaleiras estudantes do país. Imediatamente, percebeu que Shizuku estava tentando desacelerá-la e, em vez de frear, deixou-se escorregar, usando o solo sem atrito para aumentar ainda mais sua velocidade. Isso lhe permitiu passar em segurança por baixo das três Water Prison Bubbles. Em seguida, ela girou sobre o campo congelado como uma patinadora artística e desembainhou Narukami, disparando um crescente de relâmpago em direção ao pescoço de Shizuku, apesar de ainda estar a uma boa distância.
Touka não apenas havia evitado o ataque de Shizuku, como também conseguira contra-atacar ao mesmo tempo. No instante em que Shizuku transformara a arena em um campo de gelo, Touka traçara mentalmente tudo o que precisava fazer. Shizuku nunca havia lutado contra alguém capaz de analisar e reagir a mudanças repentinas com tanta rapidez no calor da batalha, mas desde o início ela sabia que Touka seria capaz de superar todas as suas expectativas.
Imediatamente, Shizuku invocou uma parede de água com trinta metros de largura, criando uma barreira para separá-la de Touka. Aquela era Pure Wave Lotus, sua Noble Art voltada para defesa. Desde o começo, ela sabia que uma única troca não seria suficiente para derrubar uma oponente tão poderosa quanto a famosa Raikiri. Além disso, ela sabia que Touka podia usar ataques de longo alcance, e era por isso que estava preparada para voltar à defensiva a qualquer momento.
O crescente de relâmpago que Touka havia lançado colidiu contra a barreira de água e evaporou parte dela, mas se dissipou antes de conseguir atravessá-la por completo. Shizuku, porém, não teve tempo algum para recuperar o fôlego.
“Ah!”
Touka também havia previsto que um único ataque não seria suficiente para derrubar Shizuku e, por isso, continuou lançando crescentes de relâmpago um após o outro contra a barreira de água. Sua ofensiva era implacável e carecia de qualquer elegância presente em seu contra-ataque inicial. Aquilo era uma demonstração de pura força bruta. Mas, embora lhe faltasse estilo, era, sem dúvida, a escolha correta.
No momento, Touka possuía uma vantagem crucial sobre Shizuku: ela conseguia usar suas técnicas muito mais rápido. Para impedir que sua barreira de água conduzisse eletricidade, Shizuku precisava garantir que cada gota estivesse livre de impurezas — uma operação delicada que exigia tempo e concentração. Enquanto isso, tudo o que Touka precisava fazer era imbuir sua lâmina com eletricidade e atacar. Não havia necessidade de ajustes minuciosos, então ela podia continuar golpeando sem parar.
Após apenas uma troca, Touka já havia percebido isso e começara a tirar pleno proveito dessa vantagem decisiva. Ela presumira que uma barragem de ataques elétricos seria a coisa mais difícil para Shizuku lidar naquele momento, e estava absolutamente certa. Shizuku não tinha escolha senão se concentrar exclusivamente na defesa, ou então correria o risco de ser dominada. No entanto, os ataques de Touka eram poderosos o bastante para que, mesmo enquanto Shizuku gastava toda a sua energia mantendo a Pure Wave Lotus, ela fosse lentamente sendo desgastada. Algumas dezenas de explosões de relâmpago bastaram para evaporar o restante da água que protegia Shizuku, deixando-a exposta. Touka imediatamente ergueu Narukami mais uma vez, preparando-se para desferir o golpe decisivo.
“Kh!”
Mas então, de repente, ela parou e olhou para baixo, para os próprios pés. Mãos feitas de água haviam surgido do chão congelado e se estendiam em direção às suas pernas. No instante em que a agarraram, congelaram, prendendo-a no lugar. Um segundo depois, uma sombra surgiu acima de sua cabeça. Ela ergueu o olhar às pressas, mas já era tarde demais. Um pilar de gelo descia em sua direção, e já estava a poucos centímetros de seu rosto.
Enquanto se defendia, Shizuku havia planejado seu próximo movimento. Touka podia ser capaz de ler situações e se adaptar rapidamente a elas, mas Shizuku se destacava por pensar dez passos à frente e se preparar para toda e qualquer eventualidade. De fato, ela havia levado Touka a acreditar que a velocidade era sua maior vantagem e, ao se concentrar na defesa, fizera-a pensar que defender-se era tudo o que ela podia fazer. Enquanto isso, vinha canalizando silenciosamente sua mana através do solo, criando aos poucos os braços que prenderiam Touka no lugar. Ao mesmo tempo, reunira todo o vapor que Touka havia gerado ao destruir sua Pure Wave Lotus e o transformara no pilar de gelo que agora despencava sobre ela.
Trabalhar em três feitiços altamente técnicos diferentes ao mesmo tempo era impossível para a maioria dos Blazers, mas não para Shizuku. Seu controle de mana era superior ao de alguns Blazers de Rank A. Nesse aspecto específico, ela era mais forte até mesmo do que Stella.
O pilar de gelo colidiu contra o chão, partindo a arena ao meio e fazendo rachaduras se espalharem até as arquibancadas. O próprio pilar, contudo, permanecia intacto, erguendo-se no centro da arena como uma lápide congelada. Ninguém que assistia à batalha achou que Touka pudesse se levantar depois daquilo. Shizuku, porém, achou. Ela conseguia perceber que Touka ainda não estava derrotada. A atmosfera continuava tão tensa quanto antes.
Confirmando a suspeita de Shizuku, houve um breve lampejo, e seu pilar de gelo foi cortado em dois. Bem debaixo dele estava a Raikiri, completamente ilesa. A luta havia sido tão feroz que a própria arena agora não passava de um amontoado de escombros, mas nenhuma das duas lutadoras apresentava sequer um arranhão. Até aquele momento, as duas Blazers de Rank B pareciam estar em pé de igualdade.
◆
“C-Caramba! Essa luta está insana! Aquela troca foi tão impressionante que eu esqueci completamente de comentar!” gritou a narradora, lembrando-se de sua função finalmente. Isso quebrou o silêncio que pairava sobre os espectadores, e eles começaram a conversar animadamente entre si.
“O-O que é isso com essas duas?! Elas são humanas mesmo?!”
“Nossa presidente do conselho estudantil é incrível demais!”
“Isso a gente já sabia, idiota! Ela chegou às semifinais no ano passado, lembra?! O que é realmente insano é essa caloura conseguindo acompanhar!”
“Lorelei conseguiu defender e atacar ao mesmo tempo, e ainda usou fintas enquanto fazia isso. Quantos movimentos à frente ela está lendo?!”
“Nem me fale! Mas a presidente do conselho conseguiu lidar com tudo!”
“Essas duas são monstros, eu tô falando! É surreal como Blazers de Rank B ficam quando levam a luta a sério!”
“Essa batalha definitivamente incendiou o público!” gritou a narradora. “E com razão! Isso aqui é uma luta em nível nacional! Francamente, eu não ficaria surpresa se qualquer uma dessas duas acabasse se tornando a Soberana das Sete Estrelas deste ano! O que é realmente incrível é que, apesar da troca feroz que acabamos de presenciar, ambos os lados estão completamente ilesos! Por enquanto, parecem perfeitamente equilibradas, mas para quem será que a deusa da vitória vai sorrir hoje?!”
“Boa, Shizuku!” Stella comemorou.
“Eu sabia que ela era forte, mas não fazia ideia de que fosse tão forte assim,” disse Alisuin, impressionada.
Nenhuma das duas esperava que Shizuku se saísse tão bem contra a lutadora mais forte da Hagun. Aquilo era uma prova irrefutável de que Shizuku possuía força suficiente para disputar de igual para igual com as melhores do país.
“Desse jeito, ela pode mesmo acabar vencendo!” exclamou Stella.
Embora estivesse sempre discutindo com Shizuku, Stella não odiava a garota. Pelo contrário, as duas compartilhavam um forte laço como garotas que amavam o mesmo garoto. Stella desejava a vitória de Shizuku do fundo do coração. E, considerando que Shizuku estava lutando tão bem contra uma usuária de relâmpago — o elemento contra o qual ela tinha a pior compatibilidade —, Stella começava a acreditar que a vitória era uma possibilidade real.
Mas, enquanto ela e Alisuin estavam esperançosas, a expressão de Ikki era sombria.
Em pé de igualdade, é? Não sei se é bem assim...
◆
“Essas duas realmente parecem estar em pé de igualdade, não acha, Kanata?”
“Sem dúvida, Vice-presidente.”
Misogi Utakata e Toutokubara Kanata observavam a luta do lado oposto das arquibancadas, em relação a Ikki e os outros.
“Nós realmente tivemos um grupo incrível de calouros este ano. Chega até a dar um pouco de medo pensar nisso. Se eles acabarem se tornando crianças-problema, vai ser nosso trabalho detê-los, sabia?” disse Utakata, estremecendo.
“Aha ha. É um tipo bom de preocupação. Significa que poderemos nos formar sabendo que Hagun ficará em boas mãos,” respondeu Kanata com uma risada graciosa. Ela inclinou o chapéu para Utakata e então voltou o olhar para a arena. “Mas estou surpresa que Lorelei consiga acompanhar a nossa princesa.”
“É. Elas definitivamente estão equilibradas. Eu não achava que nenhum dos calouros, além de Kurogane-kun e Stella-chan, fosse tão forte assim,” respondeu Utakata.
No entanto, nem ele nem Kanata pareciam nem um pouco preocupados. “Mas isso só vale enquanto estão lutando à longa distância.”
Era exatamente por isso que Ikki também parecia tão apreensivo. A troca anterior entre as duas havia deixado dolorosamente claro para ele quem tinha a vantagem naquela luta. Touka era invencível em combate de curta distância, e não havia nada no arsenal de Shizuku que pudesse mudar isso. Em outras palavras, a única chance de vitória de Shizuku era em uma batalha de longo alcance.
Mas apenas estar no mesmo nível que Touka à longa distância não era suficiente. Ela precisava ter, no mínimo, uma vantagem de sete a três, ou não teria nenhuma chance. No entanto, ela não havia causado dano algum em Touka durante todo o confronto prolongado, que ocorrera inteiramente à longa distância. Se Shizuku estava apenas equilibrada à longa distância e em desvantagem esmagadora no curto alcance, isso significava que a situação geral pendia a favor de Touka.
“Além disso, Touka ainda nem começou a lutar pra valer,” disse Utakata com um sorriso.
Shizuku era uma Blazer de Rank B, mas seu controle de mana era de nível Rank A. Era improvável que alguém tão habilidoso em feitiços de alta precisão e ataques cirúrgicos aparecesse mesmo no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Aquela era uma oportunidade rara para Touka ganhar experiência enfrentando esse tipo de oponente. Por esse motivo, ela ainda não estava tentando forçar um combate de curta distância e havia permitido que Shizuku lutasse à longa distância. Agora, ela já tinha uma compreensão muito melhor de como um Blazer de afinidade com água de primeira linha lutava.
“Touka deve estar feliz por poder enfrentar uma oponente tão habilidosa antes do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas.”
“De fato. Embora eu acredite que ela já tenha aprendido tudo o que podia. Além disso, se essa luta se prolongar demais, isso vai afetar o cronograma das próximas partidas, e isso não é algo que a presidente do conselho estudantil aprovaria.”
◆
Assim como Kanata havia dito, Touka logo fez sua jogada. O gelo grudado em suas pernas e ao redor de seus pés começou a derreter — ela estava usando o calor gerado por seus relâmpagos para dissipar o Frost Field de Shizuku. Quando o gelo desapareceu da arena, Touka apontou Narukami para Shizuku, deixando claro que estava pronta para encerrar a luta. Seu olhar penetrante fez a expressão de Shizuku se enrijecer.
Eu não entendo.
Enquanto Shizuku apontava Yoishigure de volta para Touka, uma grande dúvida permanecia em sua mente. Durante a última troca, Touka havia conseguido, de alguma forma, reagir a tempo de se proteger do pilar de gelo de Shizuku. — Como ela conseguiu fazer isso?
O controle de mana de Shizuku era muito superior ao de Touka. Nem mesmo Stella, uma Blazer Rank A, possuía um controle de mana tão refinado quanto o de Shizuku. Ela tinha certeza de que camuflara perfeitamente seu ataque surpresa. Não havia como Touka ter sido capaz de perceber o que ela estava fazendo com sua mana.
Além disso, o maior ponto cego de um ser humano era a área diretamente acima de si. Mesmo artistas marciais que possuíam um sexto sentido apurado e conseguiam perceber oponentes que se aproximavam por trás tinham muito mais dificuldade em notar algo vindo de cima. Era simplesmente assim que os humanos eram condicionados. E ainda assim, Touka notara o ataque surpresa a tempo de reagir e cortar diretamente através do pilar de gelo de Shizuku.
É como se... ela estivesse vendo algo que eu não consigo.
Shizuku forçava a mente desesperadamente para tentar descobrir o que era esse “algo”. Mas antes que pudesse fazê-lo, uma forte rajada de vento surgiu, e Touka estava subitamente bem à sua frente, com Narukami pronta para atacar.
“O qu—”
Shizuku arfou, surpresa. Apenas um segundo antes, Touka estava a dezenas de metros de distância, mas agora se encontrava dentro do alcance de ataque.
“Ngh!”
Sem permitir que a surpresa a paralisasse, Shizuku saltou imediatamente para trás, escapando por pouco do golpe horizontal de Touka. Ela girou no ar e apoiou a mão esquerda no chão. Um poderoso jato de água explodiu de sua palma, impulsionando-a ainda mais para trás e colocando-a a uma distância segura de Touka. Foi uma esquiva executada de forma magistral, mas, ao contrário de todas as ações anteriores de Shizuku, aquela não havia sido planejada com antecedência. Agora, Shizuku estava meio em pânico por dentro e à beira de perder a calma.
Eu não entendo como ela está fazendo isso!
Shizuku tinha certeza absoluta de que não tirara os olhos de Touka nem por um milissegundo sequer. Ainda assim, de alguma forma, Touka havia encurtado a distância entre as duas sem fazer o menor som.
“Oooh, essa foi por pouco! Kurogane vinha acompanhando os movimentos de Toudou até agora, então o que pode ter acontecido?! Para mim, pareceu que ela se desligou por um segundo!”
Eu me desliguei?
Shizuku franziu a testa ao ouvir a narradora. Não havia a menor chance de ela deixar sua concentração falhar durante uma luta. Ainda assim, as palavras da narradora deixavam claro que, para um observador externo, fora exatamente isso que parecera.
Touka havia se aproximado usando o mesmo avanço direto de antes, mas, de algum modo, Shizuku simplesmente não notara. — Não, isso não é possível.
De qualquer forma, Shizuku não podia deixar aquilo acontecer novamente. Ela aguçou ainda mais o foco, mantendo toda a sua atenção fixada apenas na oponente. Porém, mesmo com os olhos treinados em Touka, quando percebeu, Touka já estava mais uma vez bem à sua frente, brandindo Narukami contra ela.
“Aaaaah?!”
Dessa vez, Shizuku não teve tempo suficiente para esquivar, e Narukami abriu um profundo corte diagonal que ia do ombro até o quadril.
“Uau! Esse foi um golpe profundo! Kurogane nem sequer desviou do ataque de Toudou dessa vez! Será que ela ainda consegue continuar lutando depois disso?!”
Mas justamente quando todos pensaram que a luta havia terminado, o corpo de Shizuku se transformou em água e se desfez. Um segundo depois, a verdadeira Shizuku reapareceu a uma boa distância atrás de Touka.
“E-Esse foi um clone de água! Parece que Kurogane evitou o golpe de Toudou mais uma ve— Ou não!” A narradora se interrompeu ao observar Shizuku com mais atenção. De fato, havia sangue escorrendo de um corte em sua mão esquerda. “Parece que a mão esquerda dela foi atingida, então essa não foi uma esquiva perfeita dessa vez! Finalmente, o primeiro sangue foi derramado! O ferimento não é grave, mas parece que Toudou conseguiu acertar o primeiro golpe!”
“Ngh!”
Eu continuo não percebendo até ser tarde demais!
Shizuku segurou a mão ferida enquanto sua mente disparava. Ela não conseguia descobrir que tipo de truque Touka estava usando para desaparecer daquela forma. No entanto, uma coisa era certa.
Eu não consigo mais ler os movimentos dela!
De fato, estava claro até mesmo para os espectadores que as duas combatentes já não estavam mais em pé de igualdade.
◆
Assim que a balança pendeu a favor de Touka, a luta se transformou em um massacre unilateral. Shizuku foi obrigada a permanecer na defensiva, correndo pelo ringue para tentar se manter fora do alcance de Touka. Mas Touka era mais rápida e, como Shizuku sempre reagia tarde demais às suas aproximações, acabava recorrendo a esquivas desesperadas e arriscadas, que drenavam rapidamente sua estamina. Em pouco tempo, ela estava tão exausta que mal conseguia se manter de pé.
“O que está acontecendo aqui? No começo, as duas estavam equilibradas, mas agora a Lorelei está completamente presa na defensiva. O que poderia ter causado uma mudança tão drástica assim?!”
A narradora parecia tão confusa quanto Shizuku. Do ponto de vista externo, ela não conseguia enxergar o que tornava tão difícil para Shizuku acompanhar Touka e, por isso, não entendia por que ela estava sendo tão pressionada. Ainda assim, havia algo que era claro para todos que assistiam à luta: quem estava vencendo.
“Ela devia simplesmente desistir...”
“Era esperar demais achar que uma caloura venceria a presidente do conselho estudantil.”
“No começo até parecia que havia uma chance, mas agora isso está só triste de assistir.”
“O quê, você já vai embora?”
“Sim. Essa luta acabou. A presidente do conselho estudantil é forte demais.”
A empolgação inicial dos espectadores havia desaparecido. Eles se convenceram de que, não importava o quanto uma simples caloura se esforçasse, ela não conseguiria derrotar a Blazer mais forte da Academia Hagun. Como resultado, passaram a se sentir tolos por sequer terem pensado que Shizuku tinha alguma chance.
Stella, porém, se recusava a aceitar isso. Ela se virou para Ikki e perguntou:
“Ikki, o que aconteceu com a Shizuku?”
“O que você quer dizer?”
“Dá pra perceber só de olhar, não dá? Ela está reagindo muito mais devagar aos ataques da oponente de repente.”
“A Stella-chan está certa. Do nosso ponto de vista, a presidente está se movendo normalmente, mas parece que a Shizuku só consegue vê-la no último segundo”, acrescentou Alisuin.
Ikki também percebia isso, é claro. Mas ele conseguia enxergar um pouco mais fundo e entender o motivo daquilo estar acontecendo.
“Você está certa. A Shizuku não consegue vê-la.”
“Hã?”
“A Shizuku não consegue ver a Raikiri enquanto ela se move. Eu já vivi algo parecido uma vez, então sei o que está acontecendo aqui.” Antes de sua primeira luta, Ikki havia se encontrado com a Princesa Demônio, Saikyou Nene. “Naquela época, a Saikyou-sensei passou de estar a meio cômodo de distância para bem na minha frente sem que eu percebesse. Eu mantive meus olhos nela o tempo todo, mas mesmo assim fui pego de surpresa. Suspeito que a Raikiri esteja usando um tipo semelhante de técnica para alcançar o mesmo efeito.”
“Aha ha. Eu devia saber que você descobriria, Kurogane”, disse uma voz vinda de algumas fileiras acima deles. Quando Ikki ergueu o olhar, viu uma mulher baixa vestindo um quimono elegante e outra mais alta, usando um terno rígido, descendo em direção a eles.
“Yo. Quanto tempo.”
“Saikyou-sensei, Diretora, vocês precisam de algo de nós?” perguntou Alisuin.
“Não. A gente só acabou vendo vocês por acaso, então achamos que seria legal dar um oi”, respondeu Shinguuji Kurono. Ao que tudo indicava, as duas apenas tinham vindo assistir para ver como essa batalha entre Blazers Rank B iria se desenrolar.
Stella se virou para Nene e perguntou: “Nene-sensei, você disse que o Ikki entendeu, então isso quer dizer que ele está certo?”
“Isso mesmo”, Saikyou respondeu com um aceno de cabeça. “A Toudou está usando Stealth Step, um tipo especial de arte marcial que combina jogo de pés com técnicas de respiração para dificultar que o oponente a perceba. Aqui, deixa eu mostrar.”
“O qu—”
Saikyou passou de estar a uns bons cinco metros de distância de Stella para ficar bem na frente dela sem que Stella percebesse. Além disso, quando Stella olhou para baixo, viu que Saikyou estava apalpando seus seios.
“Waaah?!”
“Viu só? Enfim, uau, esses seus melões são de primeira. Tão grandes e macios.”
“Eeeek! O-o-o-o que você acha que está fazendo?!”
“Eu estava esperando que os meus ficassem maiores se eu apalpasse os seus.”
“Então apalpe os seus próprios!”
“Eu não tenho nada pra apalpar!”
“Não fica brava comigo por isso!”
Kurono ignorou a discussão entre Stella e Saikyou e se virou para Ikki. “Kurogane, você já terminou de analisar o Stealth Step, não é?”, disse ela.
“Mais ou menos”, Ikki respondeu, assentindo. “Se você me pedisse para reproduzir, acho que eu conseguiria.”
“Ei, Ikki, afinal, como funciona exatamente esse tal de Stealth Step?”, perguntou Stella, puxando Saikyou para longe dela.
“Os humanos não são feitos como máquinas. Eles não conseguem processar conscientemente todas as informações que veem ou ouvem. Se você tentasse prestar atenção literal a tudo o que seus sentidos captam, seu cérebro entraria em curto, então ele filtra o que considera menos importante e empurra isso para o subconsciente. Assim, você deixa de prestar atenção ativa a essas informações.”
Ikki continuou sua explicação.
“O Stealth Step usa um tipo especial de respiração arrítmica combinado com um padrão de movimento antinatural para fazer o cérebro do oponente classificar seus movimentos e sua presença como algo sem importância, enviando isso para o subconsciente. É por isso que a Shizuku não consegue ver a Toudou-san, mesmo parecendo que ela está totalmente à vista. Os olhos da Shizuku estão, de fato, vendo a Toudou-san, e o cérebro dela até registra essa informação, mas não a considera importante o bastante para prestar atenção. Só quando a Toudou-san chega perto demais é que os instintos de sobrevivência da Shizuku entram em ação e a alertam.”
“Correto em todos os pontos. Estou impressionada com o quão preciso foi na sua análise”, disse Kurono com um sorriso aprovador.
Essa era a razão pela qual Shizuku não conseguia acompanhar Touka, apesar de concentrar toda a sua atenção nela. Ao atrasar o início da investida por meio passo e variar o padrão de respiração, Touka escapava facilmente da percepção de Shizuku.
“Eu já tinha visto essa técnica antes”, disse Ikki, virando-se para Saikyou. O Stealth Step de Touka não era tão refinado quanto o de Saikyou havia sido, o que tornara a análise mais fácil para ele. “Mesmo assim, me surpreende existir uma estudante capaz de usar a mesma técnica que a famosa Princesa Demônio.”
“Toudou e Nene são discípulas do mesmo cavaleiro, então elas conhecem muitas das mesmas técnicas. Foi ele quem desenvolveu o Stealth Step a um nível em que se tornou eficaz até contra outros cavaleiros”, explicou Kurono.
“Sério? E quem foi que treinou as duas?”
“Nangou Torajirou.”
“‘ O Deus da Guerra’ Nangou?!” Ikki arfou, surpreso.
Nangou Torajirou, também conhecido como o Deus da Guerra, era outro dos Blazers mais fortes do Japão. Ele também era o rival de toda a vida de Kurogane Ryouma. Apesar de já ter passado dos noventa anos, ainda era um cavaleiro ativo. O homem era uma lenda viva.
“Elas o conheceram quando ele estava visitando um asilo e imploraram para que ele as treinasse, ou pelo menos é o que dizem.”
“Ei, Kuu-chan! Eu nunca implorei praquele velho rabugento por nada! E ele não é meu mestre!”
“Por que você está ficando tão nervosa? Além disso, você usa essas geta porque ele também usa. Não é segredo nenhum o quanto você o admira.”
“E-e-e-eu não comecei a usar isso por causa dele! Eu só ouvi dizer que andar com elas cura prisão de ventre!”
“Já vi propaganda assim antes, mas essas sandálias especiais realmente funcionam?”, perguntou Ikki.
Kurono apenas balançou a cabeça e disse: “Quando é que você vai admitir que ama aquele velho?” Então ela se virou para Ikki. “Enfim, se você já entendeu o que a Toudou está fazendo, então provavelmente já percebeu que sua irmã não tem chance de vencer.”
“O quê?!” Stella e Alisuin gritaram em uníssono. Ikki franziu a testa, mas não negou a afirmação de Kurono.
“Isso é verdade, Ikki?”, perguntou Stella após um longo silêncio. “Não existe mesmo nenhuma forma de derrotar o Stealth Step?”
“Não, existe sim. Você só precisa ser capaz de prestar atenção ao seu subconsciente. Mas isso é mais fácil de falar do que de fazer.”
Imagine que um homem esteja com uma arma apontada para sua testa, com o dedo no gatilho. Nessa situação, a maioria das pessoas ficaria focada na arma, no dedo do homem ou talvez em sua expressão facial. Afinal, essas seriam as coisas mais importantes para sobreviver. Nesse momento, uma pessoa comum conseguiria desviar sua atenção para observar que tipo de brincos o homem está usando, descobrir a marca deles e coisas do tipo? Obviamente não. Embora seus olhos possam até registrar os brincos, o cérebro excluiria essa informação da consciência por não ser relevante naquele instante. No entanto, para superar o Stealth Step, a pessoa precisava ser capaz de mudar deliberadamente o foco de atenção da arma para os brincos. Isso era o que significava prestar atenção ao próprio subconsciente.
[Alemeranto: Essa novel é um mar de conhecimento namoral kkkk. Parece que eu estou assistindo à uma aula em vez de uma novel de combate kkkkkk.]
“Shizuku está lutando pela própria vida lá embaixo”, continuou Ikki. “A única forma de ela conseguir desviar ativamente o foco da atenção do oponente seria se tivesse treinado até alcançar controle absoluto do próprio corpo.”
Ele ou Stella conseguiriam realizar algo assim, já que haviam passado anos praticando artes marciais e realmente possuíam controle total sobre seus corpos. Shizuku, por outro lado, passara a maior parte do tempo treinando o controle do mana, não do corpo. Quanto mais sentia que estava deixando algo escapar, mais tentava se concentrar na oponente. Isso só servia para estreitar ainda mais seu campo de visão, mantendo-a presa eternamente na técnica de Touka.
“Para ser sincero, eu não acho que a Shizuku tenha chance”, disse Ikki entre dentes cerrados.
“Não...”
Obviamente, Ikki não queria que Shizuku perdesse. Mas, infelizmente, estava dolorosamente claro para ele que existia um enorme abismo entre a força dela e a de Touka. De fato, Shizuku ainda não havia conseguido acertar sequer um golpe de raspão em Touka, apesar de a luta ter começado em longa distância. Se, no melhor dos casos, elas eram equivalentes em combate à distância, a derrota de Shizuku era inevitável, pois isso significava não apenas que ela não conseguia desferir um golpe decisivo em sua zona de conforto, mas também que não era capaz de impedir Touka de encurtar a distância entre as duas. E, quando isso acontecesse, Touka inevitavelmente entraria no alcance de utilizar Raikiri.
“Seria outra história se a Shizuku tivesse algum trunfo que permitisse contra-atacar o Raikiri da Toudou-san...”, Ikki deixou a frase morrer, sem coragem de dizer a verdade cruel. Ainda assim, Stella e Alisuin entenderam perfeitamente, mesmo sem ele concluir.
“Rrrgh!” Stella rosnou, frustrada. Até ela mesma achava estranho o quanto queria que Shizuku vencesse. Shizuku era sua rival, disputando o afeto de Ikki, e sempre atrapalhava quando Stella queria passar um tempo a sós com ele. Mas, ao mesmo tempo, Stella compreendia exatamente o que estava impulsionando Shizuku a lutar com tanta determinação. Ela sabia melhor do que ninguém o quão fortes eram os sentimentos de Shizuku por Ikki, porque sentia o mesmo. “Não desista, Shizuku!”
Stella sabia que não dava para resumir os sentimentos de Shizuku em apenas algumas palavras. Ainda assim, sentiu-se compelida a gritar palavras de incentivo para sua rival — que também era sua amiga.
◆
A voz de Stella cortou os murmúrios da multidão, alcançando os ouvidos de Shizuku. Pelo tom, estava claro que Stella desejava a vitória de Shizuku do fundo do coração.
Por que tinha que ser justamente você me incentivando?!
Shizuku fechou os dedos ensanguentados em um punho. Ergueu o olhar e encarou Stella, tentando ignorar os sentimentos mais positivos que começavam a emergir dentro de si. Se reconhecesse aquelas emoções, seu relacionamento com Stella mudaria de forma irreversível. Ainda assim, ela permitiu que o incentivo reacendesse seu espírito de luta, que estava prestes a se apagar.
Stella-san quase certamente chegaria ao Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Afinal, ela era a única Blazer Rank A da Academia Hagun. Isso significava que, ao menos no papel, era ainda mais forte do que a Raikiri que Shizuku enfrentava naquele momento. Não havia praticamente nenhuma chance de que perdesse sequer uma de suas lutas preliminares.
Além disso, como Ikki era forte o bastante para derrotar Stella, ele também, sem dúvida, chegaria ao Festival. Shizuku compreendia a verdadeira força de Ikki melhor do que qualquer outra pessoa, então sabia que ele não perderia. Pelo menos, não para ninguém daquela escola. Sendo assim, ela também não podia se dar ao luxo de perder.
Eu preciso vencer para ir até lá com eles! Para ficar lado a lado com eles!
Não importava o quão desesperadora fosse a situação, ela não podia desistir. Enquanto começava a curar seus ferimentos com magia, endireitou a postura e voltou a encarar Touka com determinação.
“Oh! Apesar de estar em clara desvantagem, parece que Kurogane ainda não desistiu! Ela está curando seus ferimentos e aparenta estar pronta para continuar! Será que encontrou alguma forma de derrotar a incomparável Raikiri?!”
Claro que não. Mas isso não vai me parar!
Shizuku não sabia qual truque Touka estava usando para se aproximar daquela forma, mas agora estava dolorosamente claro que ela não tinha capacidade de enxergá-la. Sendo assim, não havia sentido em continuar lutando de forma defensiva. Tampouco conseguiria transformar aquilo em uma batalha de longa distância, já que não era mais capaz de impedir as investidas de Touka. Se continuasse tentando manter distância, acabaria sendo desgastada pouco a pouco. Sua única esperança de vitória era partir para a ofensiva e levar a luta para o combate corpo a corpo por conta própria. É claro que ela sabia que a Raikiri jamais havia sido derrotada em curta distância, mas aquela era sua única chance.
Eu vou encontrar uma forma de superar a técnica suprema dela! Eu preciso!
Fortalecendo sua determinação, Shizuku apertou Yoishigure com força e se preparou para avançar. No entanto, no exato momento em que fez isso, Touka mais uma vez usou Stealth Step para se aproximar. Era quase como se tivesse percebido a intenção de Shizuku no instante em que ela tomara sua decisão. Ainda assim, ao mesmo tempo, Shizuku cravou Yoishigure no chão à sua frente.
“Blinding Midnight Sun!” entoou, e todo o gelo que ela havia espalhado pelo ringue transformou-se instantaneamente em vapor d’água, criando um campo de névoa que cobriu a arena como uma cortina de fumaça. Se ela não conseguia ver Touka, então sua melhor opção era impedir que Touka também pudesse vê-la.
Como seu campo de gelo não havia conseguido imobilizar Touka, ela mesma o vaporizara, criando uma neblina tão densa que ninguém conseguia enxergar mais do que um metro à frente. E, embora a cortina de fumaça também roubasse a visão de Shizuku, o vapor de água era como uma extensão de seu próprio corpo, permitindo-lhe sentir qualquer mudança dentro dele. Isso significava que ela conseguia perceber a posição de qualquer pessoa dentro da névoa pelo deslocamento do vapor.
Naquele momento, Touka estava parada, presumivelmente porque perdera de vista o alvo. Shizuku rapidamente se moveu, contornando-a por trás.
“Scarlet Water Blade”, disse ela em voz baixa.
O vapor d’água se reuniu ao redor da ponta da lâmina de Yoishigure, estendendo-a do comprimento de uma kodachi ao de uma katana. A lâmina comprimida de água girava em alta velocidade, concedendo-lhe um poder de corte avassalador.
As pessoas pensavam na água como algo macio e inofensivo, mas, com pressão e velocidade suficientes, ela se tornava mais afiada do que qualquer metal. De fato, a lâmina de água que Shizuku havia forjado era poderosa o bastante para cortar até mesmo diamante. Era fácil esquecer, mas o mundo inteiro havia sido moldado pela força da água corrente ao longo das eras. Não havia nada na terra que a água não pudesse cortar.
Acabou! — pensou Shizuku ao erguer sua lâmina de água meticulosamente criada e avançar contra Touka por trás.
Naquele instante, ela acreditava de verdade que a vitória era iminente. Não importava que Touka tivesse conseguido reagir ao seu primeiro ataque surpresa — embora Shizuku ainda não fizesse ideia de como ela havia feito isso —, porque Narukami não seria capaz de deter este golpe, mesmo que fosse percebido a tempo. Independentemente de quão resistente fosse a lâmina de Touka, ela não poderia suportar uma lâmina feita de líquido. E mesmo que pudesse, Shizuku usaria a natureza fluida da água para fazer sua lâmina atravessar a de Touka e atingi-la diretamente.
Confiante em suas habilidades, Shizuku entrou no alcance da lâmina de Touka.
“Hã?”
No instante em que o fez, viu que Touka a encarava diretamente através da névoa, com a mão firmemente agarrada ao punho de sua lâmina ainda embainhada. Relâmpagos serpenteavam pela bainha preta envernizada, e Shizuku soube qual destino a aguardava. Ela havia visto aquilo vezes o suficiente em gravações de combates para jamais esquecer o brilho intenso que anunciava a ruína de qualquer um tolo o bastante para desafiar a Raikiri em combate corpo a corpo.
“Raikiri!”
Houve uma explosão ofuscante de plasma quando o ar ao redor de Touka foi superaquecido. Shizuku sabia que apenas a derrota a aguardava, mas não parou. Com toda a força que tinha, ela desferiu um golpe descendente com sua lâmina de água comprimida contra Touka.
Ao mesmo tempo, Touka liberou sua Raikiri, e apenas a velocidade de sua lâmina foi suficiente para vaporizar a lâmina de água de Shizuku. Então, como todos os outros que tiveram o infortúnio de enfrentar a famosa Raikiri de Touka, Shizuku caiu no chão, derrotada.
[Almeranto: Que batalha amigos, mas fico triste pela Shizuku, realmente não queria que ela perdesse.]
◆
O Raikiri de Touka foi tão rápida que superou até a velocidade do som. A força da onda de choque criada pelo seu golpe varreu a névoa que Shizuku havia criado e fez as arquibancadas rangerem e estremecerem. O vento foi tão violento que alguns estudantes tiveram dificuldade para se manter de pé. Mas Ikki não se moveu, nem fechou os olhos diante do vendaval desenfreado. Ele manteve o olhar fixo apenas em sua irmã, observando solenemente enquanto ela caía no chão.
“O que foi esse ataque?! Kurogane caiu! E esse é o sinal do árbitro de que a partida está oficialmente encerrada! Kurogane lutou bravamente, mas no fim não conseguiu superar a muralha que é uma das quatro melhores cavaleiras do país! A vencedora desta batalha entre cavaleiros de Rank B é a nossa presidente do conselho estudantil, Raikiri Toudou Touka!”, gritou a locutora, empolgada.
Era verdade que Shizuku havia lutado muito bem, especialmente no início. Poucos outros estudantes teriam conseguido pressionar Touka daquele jeito. No entanto, no fim das contas, foi uma derrota esmagadora, já que ela não conseguiu sequer arranhar sua oponente. Mesmo assim, Ikki estava orgulhoso dela.
“Ei, Ikki.”
“Não se preocupe, Alice. Eu estou vendo.”
Ikki e Alisuin olhavam para a mão direita de Shizuku. Ela estava enrolada no tornozelo de Touka, e Shizuku não havia soltado mesmo depois de perder a consciência. Apesar de ter sido completamente dominada, ela não desistira — nem mesmo no último instante.
“Foi uma luta incrível, Shizuku”, disse Ikki em voz baixa. Shizuku tinha plena consciência da diferença de força entre ela e sua oponente, e mesmo assim continuara lutando. — Você ficou muito mais forte.
Essa batalha fez Ikki perceber com clareza as dificuldades que Shizuku deve ter enfrentado e as provações que superou ao longo desses últimos quatro anos. Ela havia crescido de uma garotinha que seguia Ikki para todo lado e se tornado uma cavaleira magnífica.
Alguns segundos depois, Ikki se virou para olhar a vencedora, que caminhava lentamente para fora da arena, com seus cabelos castanhos esvoaçando ao vento.
Ela é uma Blazer absurda.
O ataque final de Shizuku esteve longe de ser imprudente. Primeiro, ela usara Blinding Midnight Sun para roubar a visão de sua oponente e, em seguida, ativara sua Noble Art mais poderosa, Scarlet Water Blade, tentando enfrentar Touka no combate de curta distância. Ela esgotara cada último fragmento de força e astúcia para tentar superar a Raikiri. Sua estratégia também havia sido boa. Infelizmente, Touka fora forte o bastante para reagir a todas as armadilhas de Shizuku e derrotá-la de frente. Em cada ponto decisivo, ela conseguira encontrar uma forma de contra-atacar os planos de Shizuku.
Depois de enfrentar o Sword Eater, Ikki estava dolorosamente ciente de que todos os melhores lutadores do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas eram assim. Cada um dos Blazers que haviam avançado naquele torneio era um monstro. Eles transcendiam o senso comum e desafiavam todas as normas. Mas era exatamente isso que tornava o objetivo de se tornar o Soberano das Sete Estrelas algo tão digno de ser almejado.
Raikiri Toudou Touka… eu adoraria cruzar espadas com você algum dia.
◆
Shizuku abriu os olhos lentamente, piscando para afastar a escuridão da inconsciência. A última coisa de que se lembrava era de ter visto o clarão ofuscante que acompanhara o Raikiri de Touka. Quando sua visão finalmente se ajustou, porém, percebeu que estava encarando o teto branco e estéril da enfermaria.
“Você finalmente acordou, Shizuku.”
Ela se virou na direção da voz e viu sua companheira de quarto, sempre confiável.
“Alice...” Shizuku se ergueu devagar até ficar sentada. Ao olhar ao redor, percebeu que seu irmão e Stella também estavam ali. — Ah, entendo. — Foi então que Shizuku se deu conta de que havia sido derrotada. “Eu perdi, não foi?”
Um silêncio pesado tomou conta do quarto. Ikki e os outros sabiam o quão vazias soariam palavras de consolo como “Não se preocupe com isso” ou “Você deu o seu melhor”. Afinal, todos ali conheciam em primeira mão o gosto amargo da derrota. Não havia palavras capazes de animar alguém que havia dado tudo de si em um duelo e ainda assim perdido.
“Shizuku, eu, ah...” Stella começou, incapaz de suportar o silêncio por mais tempo.
“Desculpa”, Shizuku respondeu antes que ela pudesse continuar. “Vocês poderiam me deixar sozinha por um tempo? Estou cansada.”
Ela abaixou a cabeça, tornando impossível para os outros verem sua expressão. Não queria ver ninguém nem ouvir nada do que tinham a dizer. Não agora. Ela realmente queria ficar sozinha.
“Claro. Vamos, Stella.”
“Tá bem...”
Ikki percebeu que Shizuku não tinha vontade de conversar e conduziu Stella para fora do quarto. Ela lhe foi grata por isso. Agora, não haveria ninguém para vê-la chorar. Ela não queria que seu amado irmão ou Stella a vissem demonstrar tamanha fraqueza. Ela tinha seu orgulho a proteger. E, ainda assim...
“Por que você ainda está aqui?”
Por algum motivo, Alisuin não havia saído. Ela apenas permanecia sentada ali, sorrindo suavemente.
“Quem sabe?”
“Eu disse que queria ficar sozinha.”
“Eu ouvi.”
“Então sai—”
Antes que Shizuku pudesse terminar, Alisuin a envolveu gentilmente em um abraço.
Hã?
“O que você está fazendo, Alice?”
“Você deu o seu melhor”, Alisuin sussurrou ao ouvido de Shizuku. “Seu irmão assistiu à sua luta até o fim. Ele disse que foi uma luta incrível.” Ela passou a mão de leve pelos cabelos prateados de Shizuku. “Eu não sou alguém que você precise proteger, nem sou sua rival. Você não precisa fingir ser forte quando está comigo.”
Shizuku deixou escapar um pequeno soluço. A gentileza de Alisuin fez transbordar os sentimentos que ela vinha mantendo desesperadamente contidos. E, uma vez que as lágrimas começaram a cair, elas não pararam.
Eu odeio isso. Eu odeio isso, eu odeio isso, eu odeio isso. Eu odeio isso!
Ela havia dado tudo o que tinha, mas, ainda assim, fora incapaz de tornar seu sonho realidade. Era devastador. A dor esmagadora escapou em um grito sufocado, e ela agarrou a camisa de Alisuin com tanta força que suas unhas cravaram na pele da companheira de quarto. Mesmo assim, Alisuin não a soltou. Ela sabia que era a única pessoa diante da qual aquela garota orgulhosa e determinada podia extravasar sua tristeza.
E assim, Alisuin continuou abraçando Shizuku até que seus soluços cessaram e suas lágrimas finalmente secaram.
◆
“Shizuku parecia realmente abatida...”, murmurou Stella enquanto ela e Ikki deixavam a enfermaria.
“E dá pra culpá-la? Isso basicamente garante que ela não vai para o Festival.”
Ikki havia ouvido de Oreki que os seis primeiros colocados que se tornariam os representantes da escola no Festival provavelmente teriam todos campanhas invictas. Uma única derrota já significava que você não era forte o bastante para lutar no torneio mais prestigiado do país.
“Mas ela não tem do que se envergonhar”, acrescentou Ikki. Ele ainda se lembrava de como, mesmo no final, Shizuku havia se agarrado ao tornozelo de Touka. Sua determinação fora realmente algo digno de se ver.
“Essas preliminares são realmente cruéis, considerando que você não pode perder nem uma única luta.”
“É... Isso vale pra gente também.”
Todos estavam lutando sob as mesmas condições. Shizuku, Ikki, Stella e todos os outros estudantes da escola. Qualquer um que quisesse participar do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas não podia se dar ao luxo de sofrer uma única derrota. Esse era o critério que a nova diretora da escola, Shinguuji Kurono, havia estabelecido. Ela estava determinada a fazer a Academia Hagun conquistar o trono do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas, e isso, por mais severo que fosse, era a melhor forma de encontrar os candidatos mais promissores. Colocar os melhores da escola para lutar entre si significava que alguns não conseguiriam avançar, mas também garantia que o lutador mais forte da escola certamente estaria entre os representantes. No fim das contas, só podia haver um campeão, então era uma abordagem sensata.
“Não restam muitas lutas, mas precisamos manter o foco se quisermos vencer todas”, disse Ikki.
“Você tem razão.” Stella se virou para Ikki, os olhos ardendo com uma determinação feroz. “Não importa o que aconteça, eu não vou perder. Vou lutar até chegar à final do Festival para que possamos ter nossa revanche. E desta vez, eu vou vencer.”
Saber que Stella estava tão animada quanto ele para a revanche encheu Ikki de alegria. Também o confortou perceber que ela ainda se lembrava da promessa que haviam feito naquela noite.
“Estou ansioso pela nossa revanche. Mas espero que saiba que eu não vou cair facilmente.”
“Heheh. É melhor não mesmo. E você também não tem permissão pra perder pra ninguém além de mim.”
Stella sorriu, e Ikki retribuiu o sorriso. Quanto mais ele a conhecia, mais seu amor por ela crescia. Da mesma forma, ele queria que ela gostasse cada vez mais dele, e isso servia como motivação para continuar evoluindo e ficando mais forte. Era graças a ela que ele conseguia continuar se superando. Ela era a rival perfeita e a mulher perfeita. Ele queria ser alguém digno dela. Conhecê-la fora a melhor coisa que já tinha acontecido em sua vida.
“Bom, é melhor irmos treinar para não perdermos antes mesmo de podermos lutar um contra o outro”, disse Ikki com um sorriso.
“Por mim, ótimo. Sinceramente, depois de assistir à luta da Shizuku, estou tão cheia de energia que preciso descarregar isso.”
“Ha ha, imaginei. Vamos lá.”
Ikki olhou para cima e para baixo no corredor para se certificar de que não havia mais ninguém por perto, então segurou a mão de Stella e entrelaçou seus dedos aos dela. Ela apertou sua mão de leve, e os dois começaram a caminhar em direção ao local de treino de sempre.
Desde aquele dia na piscina, eles vinham aos poucos se acostumando com a intimidade física. A essa altura, aproveitavam toda oportunidade possível para dar as mãos e sentir o calor um do outro. Ambos adoravam a sensação de entrelaçar os dedos. Mas a forma de intimidade física que mais amavam era, claro, o beijo.
Depois de terem se aberto um com o outro na piscina, eles passaram a agir mais como um casal de verdade, em vez de dois adolescentes desajeitados nutrindo uma queda um pelo outro. Ainda assim, Stella não estava satisfeita com o estado atual das coisas. Não era que ela odiasse o que já tinham; ela apenas queria se aproximar ainda mais de Ikki. Queria levar o relacionamento deles para o próximo nível — embora, como sempre, quisesse que fosse Ikki a tomar a iniciativa. E quanto mais tempo passavam juntos, de mãos dadas e se beijando, mais forte esse desejo se tornava. Principalmente quando se despediam com um beijo de boa noite. O momento em que seus lábios se separavam e eles iam dormir era a parte mais triste do dia para Stella. Na verdade, apenas na noite anterior, ela deixara escapar um pequeno gemido de desejo quando terminaram de se beijar, surpreendendo Ikki.
Nossa, aquilo foi constrangedor. — Ela nem sabia que era capaz de emitir um som daquele tipo e, imediatamente depois, mergulhou na cama e se escondeu debaixo das cobertas. Mesmo assim, levara horas até que sua excitação diminuísse e seus batimentos cardíacos se acalmassem. — Será que eu sou mesmo uma garota tão tarada assim?
Só de se lembrar do som que fizera, seu rosto corava. O problema era que, mesmo que Ikki pedisse para fazer sexo com ela, ela teria de dizer não. Afinal, ela era a segunda princesa do Reino Vermillion. Ao mesmo tempo, porém, ambos tinham quinze anos. Legalmente, eram adultos, já que, de acordo com a Federação Internacional de Cavaleiros-Magos — da qual o Japão fazia parte —, quinze anos era a maioridade para Blazers. Os dois poderiam se casar quando quisessem. Como adultos legais, eles tinham esse direito.
E se, por acaso… Ikki realmente me pedisse em casamento… — Se ele olhasse Stella nos olhos e pedisse que ela fosse sua esposa, ela não tinha certeza do que diria. Usaria o fato de ser da realeza como desculpa para fugir? Ou seria honesta consigo mesma e diria sim? A Stella de um mês atrás teria rejeitado Ikki sem pensar duas vezes. Mas agora, ela já não tinha tanta certeza. — Se Ikki realmente quiser se casar comigo, então eu—
“O que foi, Stella? Seu rosto está super vermelho.”
“B-Bwuh?! N-Não é nada!”
“Não tem como não ser nada. Olha o quão vermelha você está. Pegou um resfriado ou algo assim? Um segundo, deixa eu ver sua temperatura.”
Preocupado, Ikki encostou a testa na de Stella. Enquanto isso, Stella gritava por dentro.
O-O-O-O rosto dele está tão perto!
“E-E-E-Eu estou bem! Sério! Eu prometo, então tira o rosto daí!”
Stella empurrou Ikki para longe, envergonhada consigo mesma. Não conseguia acreditar que estivera tendo pensamentos tão indecentes quanto sexo em plena luz do dia, ainda por cima dentro da escola.
Nada de pensar coisas obscenas até eu estar na cama. — Claro, a parte sensata dela sabia que pensar nisso na cama não era muito melhor, mas ela ignorou essa voz em sua cabeça.
Foi então que os dois ouviram passos prestes a dobrar a esquina do corredor por onde caminhavam. Eles rapidamente soltaram as mãos, pois ambos sabiam que seria um escândalo enorme se se espalhasse a notícia de que Stella, uma princesa, estava em um relacionamento. Stella estava preparada para lidar com jornalistas enlouquecidos a perseguindo dia e noite, mas, como casal, eles haviam decidido manter o relacionamento em segredo pelo menos até o fim do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas, para que pudessem se concentrar no torneio sem distrações. No entanto, o que surgiu na esquina não foi uma pessoa, mas um retângulo branco do tamanho de uma pessoa.
“Nnngh… Hrgh…”
Olhando melhor, os dois perceberam que o retângulo branco era, na verdade, uma enorme pilha de documentos que alguém carregava. Era impossível dizer quem era essa pessoa, pois os papéis escondiam tudo, exceto mãos e pernas. O máximo que conseguiam distinguir era que se tratava de uma garota.
“E-Ela parece que vai cair a qualquer momento”, murmurou Stella.
“É… Acho melhor ajudarmos.” Ikki se virou para a garota. “Com licença, você gostaria de ajuda para carregar isso tudo?”
“Hweh?!” A garota ficou tão surpresa com a voz de Ikki que seu corpo enrijeceu, e ela acabou tropeçando nos próprios pés. “Eeeek!”
“Whoa?!”
Ao cair, a torre de papéis desabou inteira sobre Ikki.
“Agh, que bagunça”, disse Stella, balançando a cabeça.
“Ai, meu Deus! E-Eu sinto muito! Eu não achei que teria alguém bem na minha frente!”
“Não precisa se desculpar. A culpa foi minha por ter te assustado”, disse Ikki, abaixando-se e começando a juntar os papéis que haviam se espalhado pelo chão. Stella e a outra garota fizeram o mesmo. Quando já tinham recolhido a maior parte, Ikki se virou novamente para a garota que havia tropeçado — e acabou tendo uma visão direta de sua roupa íntima.
“Bwuh?!”

“Oh, não... Onde estão meus óculos?”
Ao que parecia, a saia dela havia virado quando ela caiu, e ela não tinha percebido. A garota engatinhava pelo chão de quatro, murmurando algo sobre os óculos. A cada vez que se arrastava para a frente, seu quadril balançava, chamando ainda mais atenção para si.
“S-Sua saia! Sua saia virou!” Stella gritou, alertando-a.
“Hã? Waaah!” Finalmente, a garota percebeu que estava balançando o traseiro bem na frente do rosto de Ikki e rapidamente ajeitou a saia para baixo. “E-Eu sinto muito por você ter visto isso!”
“E-Está tudo bem... Aha ha.”
“Ikki, você viu a calcinha dela?”
“Você acreditaria em mim se eu dissesse que não?”
“Você acha que eu acreditaria?”
“Definitivamente não... Hmm?” Suspirando, Ikki olhou ao redor e avistou um par de óculos que provavelmente pertencia à garota. — Devem ser esses que ela está procurando, pensou, então os apanhou e os entregou a ela. “U-Um, é isso que você estava procurando?”
“Oh, sim! Muito obrigada! Sem eles, eu mal consigo enxergar o que está bem na frente do meu rosto.” A garota se virou para Ikki e inclinou a cabeça em agradecimento. Só então ele e Stella finalmente conseguiram ver bem o rosto dela.
“Hã?”
“Não pode ser!”
Os dois enrijeceram de surpresa.
“V-Você é...”
Eles reconheceram aquela garota de cabelos castanhos trançados.
“Toudou Touka, a Raikiri?!”
Ela era a cavaleira mais forte de toda a Hagun — a mesma garota que havia acabado de derrotar Shizuku em uma luta.
“Hã? Ah, sim, sou eu mesma. Vocês precisavam de alguma coisa comigo?”
◆
“Ei, Prez!”
“Boa tarde, Mishima-san.”
“Parabéns pela vitória na sua luta, presidente do conselho estudantil!”
“Obrigada, Sayama-kun.”
“Oi, presidente Toudou! Muito obrigada por me ajudar a encontrar minha carteira na semana passada! Desculpa ter feito você perder o dia inteiro com isso.”
“Não se preocupe com isso, Itagaki-san. Além do mais, quem encontrou foi o Uta-kun — eu não ajudei em nada. Mas tente não perdê-la de novo, tudo bem?”
A cada poucos passos, outro estudante se aproximava para cumprimentar Touka, e ela respondia a todos. Incrivelmente, ela se lembrava do nome de cada um deles também. Ikki e Stella vinham logo atrás, carregando parte dos documentos que ela estava tentando levar sozinha.
“Você é realmente popular, Touka-san”, Stella comentou, dizendo exatamente o que pensava.
Touka sorriu de forma tímida e respondeu: “Eu só faço o que qualquer presidente de conselho estudantil deveria fazer, mas acho que isso acabou me deixando popular. Enfim, muito obrigada pela ajuda, vocês dois. Vocês realmente me salvaram.”
“Não precisa agradecer. Aquela pilha de papéis era grande demais para uma pessoa só carregar.”
“Aha ha… Eu tentei levar tudo de uma vez porque não queria fazer várias viagens, mas acho que eram papéis demais mesmo. Não vou cometer esse erro de novo.” Touka colocou a língua para fora, como quem diz “que boba”, em um gesto muito fofo. Tão fofo, aliás, que era difícil acreditar que aquela fosse a mesma monstruosidade que havia dominado Shizuku menos de uma hora antes. “Mas eu não imaginava que encontraria justamente vocês dois. Eu sei bastante sobre você pelos jornais, Stella-san, e também já ouvi muitos rumores sobre você, Kurogane Ikki-san, mas… acho que agora não é o melhor momento para nos conhecermos, né?”
Naturalmente, Touka se referia ao fato de que ela havia acabado de derrotar a irmã mais nova de Ikki. No entanto, Ikki balançou a cabeça e disse:
“Eu não guardo ressentimento nenhum contra você. A Shizuku lutou com tudo o que tinha, e você respondeu de frente, de forma justa e honesta. Na verdade, eu sou grato a você por ter levado os sentimentos da minha irmã tão a sério. Então não precisa se sentir mal. É assim que as lutas funcionam.”
Ikki não estava mentindo. Ele realmente era grato a Touka. Stella, por outro lado, franziu a testa e disse:
“Eu concordo com o Ikki, mas tem uma coisa que está me deixando curiosa.”
Desde que se encontraram no corredor, havia uma pergunta martelando em sua cabeça.
“Touka-san. Pelo que você disse, você mal consegue enxergar sem os óculos. Então por que não estava usando eles durante a luta?” Na verdade, Stella estava preocupada com a possibilidade de Touka ter lutado com uma desvantagem. “Você não pegou leve com ela, né?”
“V-Você entendeu tudo errado!”
“Hã?”
“Q-Quer dizer… o que eu quis dizer é que você entendeu tudo errado.” Touka se corrigiu apressadamente, corando, mas já era tarde. A pergunta de Stella a pegara de surpresa, fazendo com que seu sotaque do interior escapasse por um instante. Ela pigarreou de forma constrangida e completou: “Se for o caso, eu precisei levar a Shizuku-san mais a sério do que qualquer outro oponente. Ela era forte demais para eu lutar usando meus óculos. Se eu não tivesse limitado minha visão para aguçar os outros sentidos, eu não teria conseguido vencê-la.”
“O que você quer dizer com isso?” Stella perguntou.
“Quando eu bloqueio a visão, fica mais fácil para mim sentir os sinais elétricos que percorrem o corpo das pessoas. É algo que eu consigo fazer porque meus poderes de Blazer são baseados em eletricidade”, explicou Touka.
Os seres humanos eram máquinas biológicas extremamente complexas. Todas as suas ações eram controladas por impulsos elétricos enviados do cérebro para o resto do corpo. Qualquer pessoa capaz de sentir e interpretar esses impulsos poderia prever cada movimento do oponente. Não só isso, como também poderia ler os sinais enviados aos músculos que controlam o movimento dos olhos, permitindo prever para onde o oponente iria olhar no segundo seguinte. Esses sinais elétricos também determinavam quando e em que quantidade as diversas glândulas do corpo secretavam hormônios, o que tornava possível determinar o estado físico e mental de uma pessoa apenas lendo esses impulsos.
“Os sinais do corpo não mentem, então, ao lê-los, eu consigo saber quais são as verdadeiras intenções do meu oponente. Isso também me permite interpretar o estado mental dele e quais ações ele espera que eu tome. Ao tirar meus óculos, eu consigo observar meu adversário muito melhor do que se estivesse realmente olhando para ele, já que basicamente posso ler seus pensamentos ao analisar esses impulsos elétricos. Foi assim que consegui enxergar através dos ataques surpresa da Shizuku-san.”
“Entendo. Isso explica muita coisa”, Stella murmurou, pensativa.
“Esse é outro dos meus Noble Arts, o Reverse Sight”, Touka continuou. “Ele é um pouco parecido com a Perfect Vision do Worst One-san. Mas no seu caso, a habilidade é fruto de uma capacidade de observação extraordinária, enquanto eu só estou pegando carona, usando meus poderes para facilitar as coisas. De qualquer forma, eu não peguei leve com a Shizuku-san.”
“É, eu entendo. Desculpa por ter duvidado de você.”
“Eheh heh. Não se preocupe com isso.”
“Então por que você está com essa cara de feliz?”
“É que é reconfortante ver o quanto você se importa com seus amigos, Stella-san.”
Stella ficou vermelha até as pontas das orelhas. “O quê?! E-eu não sou amiga dela!”, gritou.
“É mesmo? Para mim, vocês pareceram bem próximas.”
“Elas são amigas, sim. Melhores amigas, inclusive”, Ikki interferiu.
“A-Até você, Ikki!? Para de me zoar!” Stella saiu batendo o pé, passando pelos dois emburrada.
Espera… ela sabe onde fica a sala do conselho estudantil? Não sabe, né? Provavelmente vamos encontrá-la esperando por nós na próxima esquina.
Em vez de ir atrás dela, Ikki se virou para Touka e perguntou:
“Você tem certeza de que devia ter nos contado tudo isso?”
“Como assim?”
“Quero dizer, foi mesmo uma boa ideia nos contar sobre seus poderes? As lutas de seleção estão quase no fim, mas ainda existe a chance de acabarmos nos enfrentando.”
“Oh, eu não me importo. Mesmo que você saiba como o meu Reverse Sight funciona, ainda assim não vai conseguir me vencer.”
Ikki deixou escapar um leve suspiro. Até um segundo atrás, Touka sorria de forma gentil, como uma estudante comum do ensino médio. Agora, porém, havia um brilho feroz em seus olhos, dando ao sorriso um ar quase selvagem. Mais uma vez, ele foi lembrado de que aquela garota de fala mansa era a temida Raikiri. Ela tinha confiança absoluta na própria força, mas, mais importante ainda, ardia de desejo de desafiar aqueles que eram mais fortes do que ela. Assim como ele e Stella, ela transbordava ambição.
Ha ha ha… Ao ver aquele sorriso, um único pensamento atravessou a mente de Ikki.
Tenho a sensação de que vamos nos dar muito bem. E, além disso, agora ele queria enfrentá-la mais do que nunca.
◆
Após mais cinco minutos de caminhada, Ikki e os outros chegaram à sala do conselho estudantil.
“Ufa, isso demorou uma eternidade. Eu não sabia que a sala do conselho estudantil ficava tão longe assim”, Stella disse.
“Muito obrigada pela ajuda de vocês dois. Por favor, entrem e tomem um chá antes de irem embora. A Toutokubara-san encontrou ontem umas folhas maravilhosas. Vocês simplesmente precisam experimentar.”
“Acho que eu tenho tempo. E você, Stella?”
“Eu vou também. Já estava ficando com sede, então um chá parece perfeito.”
“Então eu vou apresent— Bwaugh?!”
Touka abriu a porta, deu apenas um passo para dentro e tropeçou em algum objeto pesado colocado logo na entrada da sala. Ela caiu de cara no chão, exibindo a calcinha para Ikki e Stella mais uma vez. De algum jeito, a saia dela sempre acabava subindo toda vez que caía.
“Ei, Ikki, você acha que a gente conseguiria cobrar uma taxa de empresas de publicidade para colocar anúncios na calcinha dessa garota, considerando o quanto ela fica à mostra?”, Stella perguntou.
“Não é algo em que eu já tenha pensado, mas talvez funcionasse”, Ikki respondeu.
“Ai… Quem foi que botô isso aqui?”, Touka voltou a usar seu sotaque do interior enquanto se levantava e olhava ao redor da sala do conselho estudantil. Quando ela percebeu a extensão completa da bagunça, seu rosto empalideceu. “M-Mas que diabos é isso?!”, ela gritou.
Todas as estantes da sala estavam vazias, com seus conteúdos espalhados pelo chão. Todas as gavetas também estavam abertas, com objetos jogados de qualquer jeito. Não havia o menor cuidado com a organização do ambiente.
Os outros membros do conselho estudantil estavam todos presentes e pareciam perfeitamente à vontade em meio ao caos. O secretário, Saijou Ikazuchi, anotava calmamente a ata do dia com uma caligrafia impecavelmente bonita. Ao lado dele, a tesoureira, Toutokubara Kanata, bebia chá enquanto conferia as contas. No entanto, eles eram os únicos dois trabalhando.
O vice-presidente, Misogi Utakata, estava jogando videogame. Enquanto isso, a chefe de assuntos gerais, Tomaru Renren, assistia a ele jogar enquanto se divertia com um exercitador de peito. Ela vestia apenas uma regata e uma calcinha.

“Ah, vocês finalmente voltaram, presidente. E aí?” disse Renren, acenando para Touka.
“Ahaha, você é mesmo desastrada, Touka. Como é que você consegue tropeçar em tudo?” perguntou Utakata.
Touka lançou um olhar furioso para os dois e gritou: “Quantas vezes eu tenho que dizer pra vocês guardarem esses malditos halteres depois de terminar o treino, Tomaru-san?! É perigoso deixar essas coisas jogadas assim! E você, Uta-kun, quando terminar de ler um mangá, coloque de volta na estante onde ele estava! Olha quantos livros estão espalhados pelo chão! Como vocês conseguiram deixar a sala tão bagunçada em apenas um dia que eu fiquei fora?!”
“Não é injusto decidir que a culpa é só nossa?! E se outra pessoa fosse a responsável, hein?!” retrucou Renren.
“Você é a única que treina na sala do conselho estudantil, Tomaru-san! E os únicos relaxados que não colocam os livros de volta no lugar quando terminam de ler são você e o Uta-kun!”
“Eu só fui tomado por uma vontade repentina de maratonar Kurouni Renshin, Dragon Orb e Dunk Shot, tá? Dá um trabalho voltar pra pegar cada volume, então eu trouxe todos de uma vez. E quando terminei, deu vontade de brincar um pouco no SNES. Tive que vasculhar todas as gavetas pra achar, porque estava escondido em algum canto. Ah, mas a Kanata e o Ikazuchi fizeram todo o trabalho enquanto você estava fora, então não estamos atrasados nem nada!” disse Utakata, sorrindo.
“Não fique todo feliz por jogar todo o seu trabalho nas costas dos outros! Eu juro que vocês dois vão—”
“Presidente, desculpe interromper, mas seus convidados estão encarando.”
“O quê—” Touka voltou a si e se virou para Stella e Ikki. Os dois olhavam para a sala do conselho estudantil bagunçada com expressões rígidas. “O-Oho ho ho. Por favor, me deem só um segundo.” Ela lhes deu um sorriso fraco, empurrou-os de volta para o corredor e bateu a porta com força.
“Me ajudem a limpar isso aqui, seus inúteis! Desliga esse jogo antes que eu quebre esse SNES no meio, Uta-kun!”
“E-Espera, Touka! Eu não salvei desde ontem à noite, e eu só— Waaaaah! Nãããão! Meu progreessooo!”
“Quantas vezes eu tenho que dizer? Só uma hora de videogame por dia! Inacreditável! Eu tiro os olhos de vocês por um segundo e isso é o que acontece! E você, Tomaru-san, vista alguma roupa decente! Tem garotos na sala do conselho estudantil!”
“Mas tá tão quentiiiinho. A culpa é sua por quebrar o ar-condicionado, presidente.”
“É realmente impressionante como os aparelhos eletrônicos entram em curto-circuito no momento em que ela encosta neles.”
“O-Olha, eu sinto muito por isso, mas isso não significa que você possa ficar andando pela sala do conselho só de roupa íntima! Você está dando um péssimo exemplo para os outros alunos!”
“Mas você vive dormindo de roupa íntima nos dormitórios!” protestou Renren.
“Ahaha, ela é assim mesmo. A menos que tenha alguém para tentar dar o exemplo, ela vira uma relaxada completa,” disse Utakata, com um sorriso malicioso.
“I-I-I-Isso não é importante agora! A-Apenas me ajudem a limpar! Qualquer coisa que ainda estiver no chão daqui a cinco minutos vai direto pro lixo!”
“O quê?! Tá bom, tá bom!”
“Vamos, anda!”
Por alguns minutos, Ikki e Stella puderam ouvir uma cacofonia de barulhos enquanto as coisas eram recolhidas e colocadas em seus devidos lugares. Enquanto esperavam, Stella se virou para Ikki e comentou:
“A Touka-san é meio que uma mãe.”
“Ela realmente tem uma vida difícil, tendo que lidar com todas essas crianças problemáticas.”
Os dois decidiram ser o mais prestativos possível com Touka para aliviar um pouco o fardo dela enquanto estivessem ali. Também decidiram não comentar o fato de que Touka os havia enxotado para o corredor antes mesmo de lhes dar a chance de largar a enorme pilha de documentos que estavam carregando para ela.
Finalmente, o barulho cessou e a porta da sala do conselho estudantil se abriu.
“Haaah, haaah... D-Desculpem a espera, vocês dois. Podem entrar,” disse Touka, com o rosto visivelmente exausto.
“O-Obrigado.”
Talvez eu não devesse ter aceitado o convite dela para tomar chá… — pensou Ikki consigo mesmo enquanto entrava na sala do conselho estudantil.
Para sua surpresa, a sala agora estava completamente impecável. Todos os livros haviam voltado para as estantes, e o chão estava tão bem polido que refletia a luz. Ele não tinha reparado quando a sala estava uma bagunça, mas todos os móveis eram antigos, dando ao ambiente inteiro a aparência e a sensação de um salão particular em um antigo castelo de estilo ocidental.
No começo, Ikki ficou impressionado por Touka ter conseguido limpar tudo tão rápido, mas então seu olhar atento percebeu como ela havia feito isso. Aquele armário específico está um pouco estufado. Saijou também estava parado bem na frente dele, com uma expressão tensa que deixava claro que ele estava fazendo bastante força contra a porta. Vou fingir que não vi isso. Como dizem, é melhor não cutucar vespeiro.
Ikki e Stella obedientemente deixaram Touka conduzi-los até o sofá no centro da sala e então se sentaram de frente para os outros membros do conselho estudantil. Assim que se acomodaram, Renren sorriu animada para Ikki e disse:
“E aí, Kurogane-kun. Não te vejo desde a nossa luta. Parece que você continua invicto, hein?”
“Sim. Por enquanto estou conseguindo me manter,” respondeu Ikki.
Kanata se virou para Stella e ergueu levemente o chapéu, permitindo que Stella visse seus olhos pela primeira vez.
“E nós nos vimos pela última vez naquele restaurante familiar, não foi, Stella-san?” disse ela.
“Foi,” respondeu Stella. “Mas eu nunca imaginei que acabaria na sala do conselho estudantil.”
“Toutokubara-san, por favor, prepare um pouco de chá para os nossos convidados,” pediu Touka.
“Com prazer.”
“Ah, eu também quero um pouco, Kanata,” disse Utakata.
“Kanata-senpai, pode pegar madeleines pra mim também?” acrescentou Renren.
“Vocês duas não vão ganhar nenhum lanche hoje como punição por terem deixado a sala do conselho estudantil naquele estado.”
“N-Nããão!”
“Isso é muita maldade, Touka! Qual é o sentido de vir para a sala do conselho estudantil se não podemos comer o lanche da tarde?!”
“Vocês deveriam vir aqui para trabalhar!”
Pelo diálogo, ficava claro que aquele era o funcionamento normal do conselho estudantil.
Saijou, que ainda estava lutando para manter a bagunça escondida com segurança dentro do armário, virou-se para Touka e disse:
“Mas devo dizer que estou impressionado, presidente. Não achei que você encontraria ajudantes tão rápido. Ainda mais pessoas tão confiáveis. Kurogane-san e Stella-san vão reforçar bastante o nosso poder de combate.”
O quê?
Ikki e Stella inclinaram a cabeça ao mesmo tempo, confusos, olhando para Touka. Ela certamente não havia mencionado nada sobre precisar de ajuda.
“Hã?” Touka também lançou a Saijou um olhar questionador, tão perdida quanto eles.
Saijou franziu a testa e disse:
“Hmm, não foi por isso que você os trouxe aqui? Eu imaginei que não haveria outro motivo para convidá-los à sala do conselho estudantil.”
“Espera, você já esqueceu o pedido do diretor, Touka?” perguntou Utakata.
“O Kurono-san pediu pra gente—aaah!”
Touka empalideceu ao se lembrar do que Utakata estava falando.
“Minha nossa, você realmente esqueceu? Eu também pensei que tivesse trazido esses dois para ajudar,” disse Kanata.
“É que… eu estava tão focada na minha luta com a Shizuku-san que acabei esquecendo...”
“Ei, afinal, com o que exatamente vocês precisam de ajuda?” perguntou Stella a Touka, que agora segurava a cabeça entre as mãos.
“O diretor Shinguuji encarregou o conselho estudantil de cuidar de um certo assunto há alguns dias. Existe um alojamento em Okutama onde todos os representantes do Festival de Artes de Espada das Sete Estrelas de Hagun ficam antes do torneio para treinar por alguns dias. E, recentemente, surgiram relatos de um indivíduo suspeito rondando a área,” explicou Toutokubara enquanto servia chá nas xícaras de todos.
“Parece um problema bem sério,” disse Ikki.
“É sim. Por isso o diretor nos pediu para patrulhar a área e garantir que esteja segura. Os professores estão ocupados demais administrando as lutas classificatórias no momento, então somos os únicos disponíveis. Infelizmente, o alojamento fica no meio de uma montanha densamente arborizada, e não temos membros suficientes no conselho estudantil para vasculhar a região sozinhos.”
“Entendo. Então é por isso que vocês estão procurando voluntários.” Afinal, os estudantes também estavam ocupados se preparando para suas próprias lutas classificatórias, então seria difícil encontrar alguém forte que ainda tivesse tempo livre. “Vocês têm algum detalhe sobre esse ‘indivíduo suspeito’?”
“Bem, sim, mas...” Toutokubara hesitou. Depois de alguns segundos, balançou a cabeça e disse: “Supostamente, é um gigante de quatro metros de altura.”
“O quê?!”
“U-Um gigante?!”
“Sim. Mas não estou falando de um dos Titãs daquele anime popular.”
“Ah, ei, eu conheço essa referência,” disse Ikki.
“Também não estou falando do Gigante de Aço.”
“Essa eu conheço também. Estou até surpreso que você conheça todas essas referências, Toutokubara-san.”
“G-Gigantes realmente existem?!” perguntou Stella, com os olhos brilhando de empolgação infantil.
“Eu não sabia que você era fã dessas coisas, Stella,” disse Ikki, surpreso.
“Q-Quero dizer, estamos falando de um gigante! Eles são tipo o Pé-Grande! Criptídeos que ninguém nunca viu de verdade! Isso não é empolgante?!”
Ao ver a reação de Stella, Renren abriu um sorriso radiante e disse:
“Ah, você também é fã de criptídeos, Stella-chan?!”
“Com certeza! Eu aprendi japonês assistindo a DVDs antigos de Aventureiro & Explorador Kawaguchi Hiroshi!”
Essa é uma forma completamente insana de uma princesa aprender um idioma estrangeiro, pensou Ikki, sentindo um arrepio.
“Stella-chan, minha companheira de armas!”
“Vocês sabem que esses vídeos são—”
“Vice-presidente, não destrua os sonhos delas,” disse Kanata, interrompendo Utakata.
“Ei, Ikki, vamos ajudar o conselho estudantil! A Touka-san parece que está precisando de ajuda, e eu quero ver esse gigante com meus próprios olhos!” disse Stella, virando seus olhos cintilantes para Ikki.
Da parte dele, Ikki não tinha o menor interesse em encontrar um gigante, mas foi graças à existência das lutas classificatórias que ele sequer teve a chance de se tornar um cavaleiro de verdade. O conselho estudantil tinha feito muito para tornar aquilo possível, então ele queria retribuir, se pudesse. Assim, concordou sem hesitar.
“Claro. Ficaremos felizes em ajudar.”
“S-Sério?!” Touka se animou ao ouvir isso.
“Aquele alojamento existe para o bem dos estudantes, certo? Então é justo que ajudemos a mantê-lo seguro.”
“Muito obrigada! Vocês são uns verdadeiros salvadores!”
Touka estendeu a mão para apertar a de Ikki. Mas, antes que pudesse fazê-lo, Stella se colocou à frente dele e apertou a mão de Touka no lugar.
“Vamos dar o nosso melhor para ajudar,” disse Stella, sorrindo.
“Hã? Ah, um, ótimo. Obrigada mais uma vez.”
E assim, Ikki e Stella se tornaram parte da expedição do conselho estudantil a Okutama, que aconteceria no fim de semana seguinte.

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