Volume 3
Prólogo: O Desafio da Shizuku
Kurogane Shizuku estava relembrando sua infância. Não importava o que fizesse, ela nunca era repreendida. Quer batesse em outras crianças, roubasse — e às vezes quebrasse — os brinquedos delas, ou simplesmente se comportasse mal, ninguém jamais dizia uma palavra. Tudo porque ela havia demonstrado um talento excepcional como Blazer desde muito nova.
“Mil disculpas, Shizuku-chan.” Foi isso que a mãe da criança que ela estava intimidando disse a ela. A mulher chegou até a dar um tapa no próprio filho e forçá-lo a pedir desculpas. “Você também, peça desculpas!”
“Me desculpe…”, disse a criança entre dentes cerrados.
Shizuku sempre achou cenas assim patéticas. Tanto as crianças que se encolhiam diante de sua força quanto os adultos que veneravam tanto o seu poder a ponto de permitir aquilo a enojavam. No entanto, todas as pessoas ao seu redor eram assim. Curvavam-se diante de qualquer um mais forte que elas, despejando elogios vazios e bajulações falsas. Ela desprezava todos eles.
Com o tempo, passou a desprezar toda a humanidade. Não apenas isso — odiava o fato de também estar presa a ser humana. E descontava esse ódio e essa raiva naqueles mais fracos que ela. Ouvir os gritos dos fracos a distraía do próprio desprezo por si mesma.
Havia um garoto, porém, que não permitia que ela fizesse o que quisesse só porque era forte — seu irmão mais velho, Kurogane Ikki. Um dia, quando ela estava atormentando outra criança indefesa, ele se aproximou e lhe deu um tapa. “É errado intimidar os fracos!”, disse ele.
No começo, Shizuku nem chegou a processar o que havia acontecido. Seus pais nunca haviam sequer a repreendido, muito menos levantado a mão contra ela. Alguns segundos depois, porém, sua bochecha começou a arder, e lágrimas surgiram em seus olhos. Ao verem isso, os adultos ao redor empalideceram e começaram a gritar para que Ikki pedisse desculpas. E, quando ele se recusou, partiram para cima dele. Mesmo assim, ele permaneceu firme, insistindo que não tinha nada pelo que se desculpar.
Shizuku nunca havia conhecido alguém como ele antes. Alguém que confrontava a injustiça quando a via, independentemente de quão forte fosse a outra pessoa.
Embora a dor a tivesse surpreendido a ponto de fazê-la chorar, na verdade, ela havia ficado feliz. Durante toda a sua vida, estivera procurando alguém como Ikki. Alguém que pudesse respeitar como um igual, como um verdadeiro ser humano. Não importava que ele não a mimasse nem que fosse rígido com ela. Ela finalmente havia encontrado alguém que podia realmente admirar, e tinha certeza de que, se seguisse os passos dele, não cresceria para se tornar como os adultos patéticos ao seu redor.
Mas naquela época… eu não fiz absolutamente nada para te ajudar.
Ela não conseguiu melhorar a situação do irmão. Pior ainda, não fez nada para aliviar a solidão esmagadora que ele carregava.
◆
“Kurogane Shizuku-san, do primeiro ano. É hora da sua luta. Por favor, dirija-se à arena.”
Ao ouvir isso, Shizuku abriu os olhos lentamente. À sua frente havia um corredor pouco iluminado que levava até a arena. Ela começou a caminhar por ele, ainda imersa em lembranças do passado.
Só descobri o quão cruelmente o resto da nossa família te tratava depois que você foi embora, Onii-sama.
Quando Ikki fugiu de casa, ninguém se deu ao trabalho de procurá-lo. Todos agiram como se ele nunca tivesse existido. Foi apenas então que Shizuku percebeu quanta dor seu amado irmão mais velho vinha escondendo atrás daquele sorriso gentil.
Depois de conhecer a verdade, ela passou a desprezar a família Kurogane — a própria família. Ao mesmo tempo, decidiu que, se ninguém mais fosse amar seu irmão, ela o cobriria de tanto amor que ele não precisaria de mais ninguém. Mas, para fazer isso, precisava se tornar mais forte.
Ela ainda dependia demais dele. Até que fosse forte o suficiente para se colocar como igual e apoiá-lo tanto quanto ele sempre a apoiara, não seria capaz de impedi-lo caso ele decidisse partir novamente. E, se isso acontecesse, ele ficaria completamente sozinho outra vez.
Para evitar esse futuro, Shizuku precisava ficar mais forte. Mais cedo ou mais tarde, o mundo acabaria reconhecendo Ikki. Ela sabia o quão forte ele era, então sabia que era apenas uma questão de tempo. Por isso, treinou o máximo que pôde, querendo ser forte o bastante para estar ao lado dele quando esse momento chegasse. Como resultado, havia alcançado o Rank B. Mas ainda não era suficiente. Ikki almejava se tornar o campeão do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Se quisesse ser sua igual, precisava se tornar muito mais forte.
“É hora de apresentar os combatentes da décima segunda luta do dia! No canto azul, temos a irmã mais nova de Kurogane Ikki e a caloura mais famosa da escola depois da Princesa Carmesim! Ela venceu todas as quinze lutas até agora e provou para toda a academia que afinidade elemental não é tudo quando se trata de um duelo! Uma salva de palmas para Kurogane Shizuku, também conhecida como Lorelei! Será que ela usará seu controle de mana excepcional para arrastar mais um oponente às profundezas, ou será que sua sequência invicta termina aqui?!”
Aplausos estrondosos tomaram o ambiente quando Shizuku entrou na arena. No entanto, ela mal ouviu os gritos ensurdecedores. Toda a sua atenção estava voltada para a pessoa que entrava pelo lado oposto.
“E no canto vermelho, temos a própria presidente do conselho estudantil e a atual Blazer mais bem ranqueada da escola! No ano passado, ela chegou às semifinais do Sete Estrelas! Sua derrota foi para Moroboshi, da Academia Bukyoku, que acabou se tornando o capeão do torneio! Ela passou o último ano treinando mais duro do que nunca e, é claro, também ostenta uma sequência perfeita de vitórias nas seletivas deste ano! Seu golpe característico invencível é mais rápido que um relâmpago e capaz de cortar aço! Será que a nossa famosa Raikiri, Toudou Touka, derrotará a oponente de hoje em um instante, ou este será o dia em que ela finalmente cairá do trono?!”
Toudou Touka parou a cerca de vinte metros à frente de Shizuku, seus longos cabelos castanhos ondulando ao vento. Mesmo à distância, Shizuku conseguia perceber que Touka era de um calibre completamente diferente dos adversários que enfrentara até então.

Sim, ela definitivamente está em outro nível.
Apenas estar perto de Touka era tão opressivo que Shizuku achava difícil respirar. Arrepios subiram por seus braços, e o olhar penetrante de Touka foi o suficiente para fazê-la suar frio. Perspicaz como Shizuku era, ela conseguia perceber que Touka era, sem dúvida alguma, mais forte do que ela. Mas isso só fazia seu espírito de luta arder com ainda mais intensidade. Desde que se matriculara na Academia Hagun, ela vinha ansiando por uma chance de realmente se testar. E agora, finalmente, estava diante de uma oponente que a levaria ao seu limite.
Vamos ver o quão forte uma das quatro melhores estudantes do país realmente é.
Nos últimos cinco anos, Shizuku treinara incansavelmente, esforçando-se para alcançar seu amado irmão. Chegara o momento de ela descobrir até onde seu amor por ele poderia levá-la.
Com esta batalha, eu vou superar meus limites!
Nesse instante, o anunciador gritou: “Que a batalha comece!”, e o sinal sonoro que marcava o início da luta ecoou.
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