Volume 2
Capítulo 4: Confroto! Worst One vs. Sword Eater
Tarde naquela noite, Ikki foi para a clareira na floresta que ele e os outros costumavam usar para treinar. Sob o pálido luar, ele materializou a Intetsu e começou a executar algumas formas. Não havia vento, então o único som era o de sua lâmina cortando o ar. Sua esgrima era bela; parecia quase tanto uma dança quanto uma forma de arte marcial. Após alguns minutos, no entanto, ele parou subitamente e se virou.
“É você, Stella?”, ele perguntou, limpando o suor da testa.
Stella saiu da sombra das árvores, seu cabelo cor de fogo claramente visível mesmo na luz fraca. Ela franziu a testa para Ikki e disse: “Você ainda está aqui? Se não parar logo, não dormirá o suficiente para o seu duelo de amanhã.”
O duelo de que ela falava era aquele para o qual ele planejava desafiar Kuraudo. Após a partida de Ikki contra Ayase, ela explicara a ele e a Stella o que acontecera dois anos atrás. Ela lhes contara tudo, entrando em detalhes dolorosos sobre como seu pai, Ayatsuji Kaito, fora derrotado.
Assim que soube da verdade, Ikki prometera desafiar Kuraudo para um duelo e tentar recuperar o dojo. A luta de amanhã provavelmente seria muito mais difícil do que sua partida contra Ayase fora. Consequentemente, seria melhor se Ikki fosse dormir cedo para estar em perfeitas condições para a batalha. Ikki entendia isso também, mas estava nervoso demais para dormir.
“Foi um choque tão grande assim?”, disse Stella, curiosa.
“Sim”, respondeu Ikki. “Kaito-san era alguém que eu realmente admirava.”
Nenhum dos adultos da família Kurogane estivera disposto a ajudar Ikki, então mestres espadachins famosos como Kaito foram seus verdadeiros professores, em certo sentido. Ikki assistira ao máximo de partidas deles que pudera e se dedicara a analisar seus movimentos e técnicas para que pudesse replicá-los. Eles foram o alicerce sobre o qual ele construíra sua própria esgrima.
Foi por isso que a história de Ayase o abalara tão profundamente. Embora Kaito pudesse estar enfraquecido devido à sua doença, ainda era inacreditável que ele tivesse sido derrotado de forma tão unilateral. Especialmente em um duelo onde o uso de magia fora proibido, tornando a esgrima a única coisa que importava.
“Kurashiki-kun deve ser um cara e tanto se conseguiu derrotá-lo”, refletiu Ikki.
“Está sentindo o nervosismo?”, perguntou Stella.
“Com quem estou prestes a enfrentar, é difícil não sentir.”
Kurashiki Kuraudo era o melhor lutador da Academia Donrou. Ele chegara até as quartas de final no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas do ano passado. Na verdade, ele era famoso o suficiente para que Ikki conseguisse desenterrar muitas informações sobre ele com apenas uma pesquisa superficial na internet.
Seu Device, Orochimaru, podia expandir e contrair livremente graças ao seu poder único, permitindo-lhe lutar de forma eficaz tanto a curta quanto a longa distância. Quando seus oponentes estavam longe, ele estendia sua espada na velocidade do raio e, mesmo que eles desviassem da estocada inicial, ele continuava a persegui-los até os cantos mais distantes do ringue. Se eles conseguissem encurtar a distância, ele encurtava a Orochimaru para o comprimento de uma espada curta e os sobrepujava com uma série de cortes rápidos. Isso não deixava pontos cegos em sua esgrima e permitia que ele atingisse os oponentes em qualquer alcance.
Embora essa habilidade, que ele apelidara de “Skull Serpent’s Blade”, não fosse particularmente chamativa, era bastante poderosa. Seria especialmente difícil para alguém como Ikki, que dependia principalmente da esgrima para vencer lutas, lidar com ela. Na verdade, fora isso que rendera a Kuraudo o apelido de “Sword Eater”. Ele era verdadeiramente a ruína dos esgrimistas em todos os lugares. Mas, mesmo assim, o fato de ele ter derrotado Kaito em um duelo onde a magia não fora permitida significava que havia mais nele do que apenas a Skull Serpent’s Blade.
“Embora eu ache que soubesse desde o início que isso não seria fácil”, disse Ikki com um dar de ombros. Quando vira Kuraudo pela primeira vez no restaurante, percebera imediatamente que o homem não era um Blazer comum. No entanto, não era isso que estava deixando Ikki tão nervoso. “Ei, Stella. Quando você ouviu a história da Ayatsuji-san, o que você pensou?”
“Senti pena dela, por ter sua vida arruinada por aquele cão raivoso.”
“Mas foi só isso? Eu—”
“Tudo bem, você não precisa dizer”, murmurou Stella. “Tenho quase certeza de que estava pensando a mesma coisa que você. É por isso que só senti pena dela — de mais ninguém.”
“Entendo. Acho que eu deveria saber que você descobriria também.” Ikki sorriu para ela. Deixava-o feliz que ela pudesse ler sua mente tão bem e que sentisse o mesmo.
“Mas você não se importa com qual é a verdade, não é, Ikki? Isso não muda o que você precisa fazer.”
“É, você tem toda a razão.”
Assentindo, Ikki voltou a praticar suas formas. Tanto seu corpo quanto sua mente estavam em perfeitas condições. Tudo o que restava era ver se seria o suficiente para vencer Kuraudo. Ganhando ou perdendo, no entanto, a verdade sobre o que aconteceu naquele dia, dois anos atrás, ficaria clara para Ayase amanhã.
◆
Após o término das aulas no dia seguinte, Ayase conduziu Ikki e Stella até sua antiga casa, o antigo Dojo Ayatsuji.
“Cara, este cenário realmente me traz recordações”, murmurou Ikki enquanto olhava para as casas de estilo antigo que ladeavam ambos os lados da estrada.
“Ah, sim, você não mencionou que veio ao nosso dojo uma vez, Kurogane-kun?”, perguntou Ayase.
“Sim. Um dos discípulos de Kaito-san me disse que eles não aceitavam desafios não oficiais e me expulsou.”
“Isso deve ter sido quando você ainda estava no ensino fundamental, então”, disse Stella. “Você me contou que fez todo o seu circuito de dojos por essa época.”
“Sim. Eu era uma criança bem selvagem naquela época. Viajei por todo o país visitando dojos e desafiando seus alunos para partidas.”
“Você nunca deixa de me surpreender, Kurogane-kun. Mas isso não era perigoso? Sinto que, se um estudante do fundamental tentasse desafiar um dojo, os artistas marciais pensariam que ele está sendo arrogante demais e tentariam lhe dar uma lição.”
“Isso realmente aconteceu comigo várias vezes. Todos os artistas marciais do dojo se juntavam contra mim e me batiam até quase a morte. Mas eu era quem estava sendo rude ao desafiá-los do nada daquele jeito, então não posso culpá-los. Além disso, é uma regra de ferro entre os artistas marciais que qualquer desafiante que esteja caçando dojos tem que aceitar quaisquer condições irracionais que o dojo estabeleça.”
Ikki sabia que o que estava fazendo era perigoso e, de fato, tivera mais de uma dúzia de encontros próximos com a morte durante sua turnê pelos dojos. Mas ele queria fazer o que pudesse para ficar mais forte, independentemente dos riscos. Ninguém estivera disposto a ajudá-lo em sua busca para se tornar um cavaleiro, então ele vivenciou o máximo que pôde e absorveu cada pedaço de informação útil daquelas experiências.
Eu não saí batendo em nenhum aluno para forçar o mestre do dojo a lutar comigo se eles recusassem no início, no entanto. Eu não estava tão desesperado.
Enquanto Ikki compartilhava mais contos de seu passado, Ayase guiou o grupo para fora da estrada principal em direção a um caminho degradado que cortava a floresta. No fim dele, havia uma casa grande cercada por um muro baixo.
“Esta... costumava ser a minha casa”, disse-lhes Ayase.
O prédio estava em tal estado de abandono que parecia ter sido deixado há décadas. Algumas telhas haviam sumido e muitas das que restavam estavam rachadas. Os pilares de madeira que sustentavam o portão frontal estavam enegrecidos pela podridão. O terreno ao redor do dojo estava repleto de latas vazias, bitucas de cigarro e embalagens de doces. O pior de tudo era que o muro branco que cercava o dojo havia sido sujado com grafites vulgares.
“Este é um grafite bem porcaria”, disse Ikki com um balançar de cabeça. “Já vi artistas de grafite que fazem mágica com tinta spray, mas isso aqui é apenas patético.”
“Sério? De tudo, é o grafite que te incomoda?”, perguntou Stella. “Embora isso realmente esteja horrível.”
Ayase mordeu o lábio, lutando para conter suas emoções. Era natural sentir fúria ao ver seu precioso lar sendo tratado daquela forma.
Eu tenho que recuperar o dojo para ela, não importa o quê, pensou Ikki. Com sua determinação agora mais forte do que nunca, ele tirou uma espada de madeira da bolsa que trouxera consigo.
“Kurogane-kun, como você planeja recuperar meu dojo apenas com isso?”
“Simples. Derrubando a porta da frente e desafiando-os por ele.”
Após ouvir a história de Ayase, Ikki ficara surpreso com o quão adequados haviam sido os métodos de Kuraudo. Embora tivesse sido quase criminoso atacar os alunos do dojo para forçar Kaito a aceitar seu desafio, ele lutara de forma justa sob as regras que Kaito estabelecera. Para o bem ou para o mal, Kaito concordara em apostar tudo em um único duelo, e Kuraudo vencera aquele duelo de forma limpa. Reclamar do resultado seria o mesmo que manchar o nome de Kaito.
“Esse é o Ikki para você”, disse Stella com um dar de ombros.
“Suponho que esse seja o método mais simples”, respondeu Ayase. “Mas, por favor, tome cuidado, Kurogane-kun. O Sword Eater é realmente forte. Papai pode não estar em sua melhor forma devido à doença, mas ele ainda era muito mais forte do que eu ou qualquer um dos outros alunos, e até ele perdeu para aquele homem.”
“Eu sei. Mesmo que ele não tivesse derrotado o Kaito-san, ele ainda é o melhor lutador da Academia Donrou. Não há como eu subestimar um cara assim.” Ikki respirou fundo. “Certo, vamos lá.”
Armando-se de coragem, ele se dirigiu ao portão principal do Dojo Ayatsuji. Havia cerca de cinco capangas parados em frente ao portão em ruínas, conversando sobre algo. Um deles era o mesmo sujeito de cabeça raspada que Ikki vira no restaurante na outra noite. Esses caras eram, sem dúvida, membros do bando de Kuraudo.
“Desculpe interromper, mas posso falar com vocês rapidinho?”, disse Ikki, aproximando-se deles.
“O que você quer?!”, um deles respondeu com uma voz rude.
Por que caras como esses sempre recorrem à intimidação com todos que veem?
“Espera, você não é o cara que vimos no restaurante?!” Ikki parecia ter deixado uma impressão no cara careca, pois ele o reconhecera imediatamente.
“Não brinca. Esse é o cara de quem você nos falou?”
“É. Mesmo depois que o Kuraudo esmagou a cabeça dele com uma garrafa de cerveja, o covarde de merda ficou lá sentado!”
“Ha ha ha! Ele parece bem fraco mesmo. O garoto está usando um uniforme da Hagun, mas ele é mesmo um Blazer?”
“Hum? Espera aí, aquela não é a Ayase-chan atrás dele? Uau, quem é a ruiva?! Ela é uma deusa!”
Um dos lacaios avistou Stella e começou a caminhar em direção a ela, com um sorriso vulgar espalhando-se pelo rosto. Ela o encarou como se fosse uma barata, e seu cabelo começou a brilhar, com pequenas faíscas disparando dele.
Ah-oh.
Antes que Stella pudesse transformar o rapaz em um cadáver carbonizado, Ikki o segurou pelo ombro. Embora tivesse feito isso por gentileza, os outros capangas cerraram os olhos para ele.
“Ei. Tira as mãos de mim, frouxo.”
“Eu só estava te poupando de uma viagem dolorosa ao hospital. Enfim, vim aqui para pedir um duelo ao Kurashiki-kun. Vocês podem me levar até ele?”
Ikki decidiu ir direto ao ponto antes que um deles acidentalmente irritasse demais a Stella e recebesse o que merecia. Os capangas olharam para Ikki em choque por alguns segundos e então caíram na gargalhada.
“Aha ha ha ha ha ha ha ha!”
“Você está falando sério, mano?”, um deles perguntou. “Um frouxo como você quer duelar com o Kuraudo?! Nem ferrando!”
“Você sequer sabe o significado da palavra ‘duelo’?”
“Gah ha ha ha! Cara, minha barriga está doendo de tanto rir.”
“Heh. Ei, moleque. Odeio te dar a notícia, mas o Kuraudo não está interessado em fracotes como você. Que tal se eu lutar com você no lugar dele? Inferno, se você conseguir me vencer, eu te levo até ele.”
“Uhu! Acaba com ele!”
Um dos rapazes havia invocado um Device que parecia um canivete suíço e estava cutucando provocativamente a bochecha de Ikki com o lado chato da lâmina.
Ah, esses caras também são da Donrou. Isso é conveniente, pensou Ikki. Ele então agarrou o pulso do capanga e deu-lhe um sorriso de gelar o sangue. “Fico feliz que você esteja facilitando as coisas para mim.”
◆
“De qualquer forma, aquele perdedor de cabelo castanho era tão persistente que eu arranquei as calças dele e as joguei na estrada.”
“Gya ha ha ha ha! Sério, cara?!”
“Não brinca! Gah ha ha!”
Um grupo de rapazes gargalhava enquanto se sentava no chão do que um dia fora o Dojo Ayatsuji. Como sempre, falavam sobre quem haviam espancado, quem haviam enganado e com quem haviam dormido.
Não acredito que eles não se cansam de falar da mesma merda todo santo dia, disse Kuraudo para si mesmo, entediado, enquanto relaxava no sofá que trouxera para o dojo e tragava um cigarro. Ele não sentia vontade de se juntar àquela conversa inútil. Eles eram bons colegas, mas ele realmente não entendia como achavam atividades tão mundanas tão empolgantes. — Eu queria que a Donrou começasse a fazer as partidas de seleção que a Hagun iniciou este ano. — Isso, pelo menos, daria um pouco de tempero ao seu dia a dia.
Suspirando, ele olhou para o céu do entardecer através de um buraco no telhado e soprou uma nuvem de fumaça em direção a ele. Dois anos se passaram desde que ele tomara aquele dojo.
Talvez já esteja na hora de eu vender este lugar e seguir em frente...
De repente, um de seus companheiros entrou no dojo e foi direto em sua direção. “Ei, Kuraudo”, disse o cara, com o rosto surpreendentemente pálido.
“O que foi? Está constipado ou algo assim?”
“Lembra daqueles caras que encontramos naquele restaurante outro dia? Sabe, os dois que estavam com a Ayase-chan?”
“Sim. O que tem eles?”
“Eu achei que já os tinha visto em algum lugar antes e, ontem, finalmente lembrei.”
Ele pegou seu manual do estudante e o mostrou a Kuraudo. Havia um tópico intitulado “A Princesa Carmesim, uma cavaleira Rank A, perde para o Rank F Worst One em uma reviravolta épica durante uma batalha simulada!” na tela, com um vídeo anexado. Naturalmente, era o vídeo do duelo de Ikki e Stella.
“Eu fui perguntar a um dos meus amigos na Hagun, e ele me disse que esse moleque na verdade derrotou a Runner’s High! Aparentemente, algumas pessoas estão chamando ele de ‘Mestre da Espada Sem Coroa’ ou algo do tipo. Então, er... eu estava pensando... será que a gente acidentalmente irritou uns cara seriamentes fortes?”
O amigo de Kuraudo começou a suar frio ao imaginar que tipo de retribuição poderia estar a caminho. No entanto, Kuraudo não parecia nem um pouco abalado.
“Heh.” Ele soltou uma risadinha enquanto assistia ao vídeo, seus lábios se curvando em um sorriso lupino. “Isso explica. Eu imaginei que aqueles dois não eram caras comuns, mas não percebi que eram tão fortes assim.”
A empolgação borbulhou dentro dele. De repente, ele estava cheio de energia e precisava de uma válvula de escape para liberá-la.
Isso parece que vai ser divertido.
Ele presumira que não encontraria nenhuma luta que realmente fizesse seu sangue ferver até o Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas, mas parecia que a Hagun tinha alguns novatos promissores. Agora que sabia disso, ele debatia se deveria ir direto para a Hagun e desafiá-los para uma luta ou usar Ayase como isca para atraí-los até ali. Mas, antes que pudesse tomar uma decisão, ouviu passos se aproximando do dojo.
“Hmm?” Os passos eram leves e rítmicos — o tipo de caminhada que alguém com a postura de um verdadeiro artista marcial faria. Quem quer que fosse, não era um de seus comparsas. “Ha. Parece que as coisas estão prestes a ficar interessantes.”
“Hã? Do que você está falando, Kuraudo?”
Os passos pararam e a porta do dojo deslizou, abrindo-se. O trio que entrou era exatamente quem Kuraudo esperava ver: Kurogane Ikki, Stella Vermillion e Ayatsuji Ayase.
“Desculpe pela visita repentina”, disse Ikki.
“Eca, até o lado de dentro é imundo. Não acredito que vocês vivem assim. Todos vocês cresceram em lixões ou algo do tipo?”, acrescentou Stella.
“Qu-Quem diabos são vocês?!”
“São os caras que vimos no restaurante!”
Kuraudo permaneceu sentado no sofá, ignorando o pânico de seus amigos. Seu olhar estava fixado unicamente em Ikki, que havia entrado no dojo com uma sacola plástica em uma mão e uma espada de madeira na outra.
“Que coincidência. Eu estava justamente pensando em fazer uma visita a você”, respondeu ele.
“Sério? Bem, fico feliz que não tenhamos nos desencontrado.” O tom de Ikki era leve. Ele não parecia nem um pouco intimidado pelo fato de estar no território de Kuraudo.
É, esse cara definitivamente tem culhão.
“Então, o que veio fazer aqui, covarde?”
“Certamente você é inteligente o suficiente para ser capaz de deduzir isso. Estou aqui para recuperar este dojo para a Ayatsuji-san.”
“Ha ha ha! Essa é boa. Cai fora. Não sei o que essa vadia te contou, mas eu ganhei este dojo de forma limpa em um duelo apropriado. Se você é um esgrimista de verdade, sabe o que isso significa, certo?”
“Com certeza. Não estou pedindo para você simplesmente entregá-lo.” Ikki caminhou até o sofá onde Kuraudo estava sentado. “Kurashiki-kun, eu desafio você para um duelo”, disse ele, apontando sua espada de madeira para Kuraudo.
“Então você está caçando dojos.”
“É a mesma coisa que você fez. Você não vai fugir de um desafio, vai?”
Ora, então agora é você quem está me provocando?
Ikki parecia uma pessoa completamente diferente em comparação a quando Kuraudo o vira no restaurante. Kuraudo não tinha ideia do que causara tal mudança de atitude em Ikki, mas era exatamente isso que ele estava procurando, independentemente do motivo. Ele agarrou a ponta da espada de madeira.
“Heh. Tudo bem, eu aceito seu desafio.” Ele apertou com tanta força que a ponta da espada se estilhaçou. “Mas, assim como quando eu tomei este dojo, você vai ter que cumprir as regras do dono do dojo. Quero que você vença meus trinta amigos aqui antes que eu permita que lute comigo. E você tem que fazer isso sozinho.”
“Por mim, tudo bem. Elas duas vieram aqui apenas para assistir, de qualquer forma. Além disso, é apenas educado seguir as regras do dono do dojo.”
“Ótimo, você conhece bem os costumes das artes marciais. Me dá um segundo, vou chamar o pessoal.” Kuraudo pegou seu manual do estudante e ligou para um de seus amigos que estava do lado de fora.
“Não precisa disso”, disse-lhe Ikki.
“Como é que é?”
“Eu imaginei que você me pediria para derrotar seus amigos primeiro, então já cuidei de todos que encontrei pelo caminho.”
Ikki virou a sacola plástica que carregava. Quase duas dezenas de manuais de estudante da Academia Donrou chocalharam no chão. Um deles estava tocando, o que significava que pertencia a quem quer que Kuraudo tivesse acabado de ligar.
“Restam apenas os sete que estão aqui dentro”, disse Ikki com um sorriso convencido, tentando propositalmente provocar Kuraudo.
“S-Seu desgraçado! Não nos subestime!”
“Vamos te despedaçar!”
Ao ouvirem que seus amigos haviam sido derrotados, o restante dos camaradas de Kuraudo materializaram seus Devices. Antes que pudessem agir, porém, Kuraudo os encarou e disse: “Recuem, todos vocês.”
“Tem certeza, Kuraudo?”
“N-Não há necessidade de ter medo desse cara! Nós damos conta dele!”
“Recuem. Vocês estão atrapalhando.”
“Eek!”
Os companheiros de Kuraudo empalideceram, aterrorizados pelo brilho feroz em seus olhos.
Todos esses caras juntos ainda não seriam suficientes para oferecer uma luta. Não há razão para perder tempo.
“Esqueça, vou mudar as regras. Vou te dar o duelo que você quer. Sem restrições, Devices e magia permitidos. O primeiro a morrer perde.” Kuraudo invocou seu Device, Orochimaru. Era uma espada branca como osso, com bordas serrilhadas que pareciam mais uma serra do que uma espada propriamente dita.
Normalmente, cavaleiros aprendizes não tinham permissão para usar seus poderes fora do campus. Havia, no entanto, algumas exceções. Se fossem pegos em algum tipo de incidente, podiam usar seus poderes para autodefesa e para ajudar os outros. Eles também podiam usar seus poderes para uma partida de dojo oficialmente sancionada. Esta, é claro, contava como o último caso, então Ikki não tinha motivos para recusar os termos de Kuraudo.
“Obrigado por aceitar meu duelo, Sword Eater.”
Ikki deixou cair sua espada de madeira quebrada e convocou a Intetsu ao seu lado. No momento em que o fez, Kuraudo sentiu arrepios subirem por seus braços.
Ah, sim, esse cara é de verdade. — Ele não sentia tanta empolgação desde sua partida contra o Último Samurai. — É por isso que eu amo lutar contra esgrimistas. Você simplesmente não consegue essa sensação de tensão lutando contra perdedores que dependem de seus poderes para tudo.
O olhar afiado de Ikki, sua postura praticada — tudo nele exalava uma aura poderosa e aterrorizante que fazia o sangue de Kuraudo ferver. Fora do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas, ele raramente conseguia desfrutar dessa sensação.
“Vamos começar o show!”, ele gritou, exultante. Então, saltou e avançou contra Ikki.
◆
Kuraudo fortaleceu suas pernas com mana e disparou em direção a Ikki na velocidade de um raio. Apesar de ser proficiente em qualquer distância, ele decidiu começar com uma luta de curta distância.
“Ha ha ha ha!”
Assim que se aproximou, ele desceu sua lâmina de serra com toda a força. Era um golpe aleatório e cheio de aberturas — o tipo de ataque que um amador faria. Bloqueá-lo deveria ter sido fácil para Ikki. O golpe de Kuraudo era tão desordenado, de fato, que parecia mais que ele estava brandindo um porrete do que empunhando uma espada adequadamente. E ainda assim...
Os ataques dele são muito afiados, apesar desses movimentos desleixados! — A Intetsu rangeu sob o estresse de bloquear cada um dos golpes descuidados, porém precisos e pesados de Kuraudo. Cada movimento sacudia Ikki da cabeça aos pés. — Há tanto poder em cada golpe! — Parecia que ele estava sendo espancado por um urso selvagem. Não havia estilo ou técnica nos ataques de Kuraudo, mas sua força bruta os tornava ameaçadores.
Mas sua falta de técnica o está tornando mais lento do que seria de outra forma!
Após bloquear três ataques, Ikki recuou alguns passos para desviar do corte horizontal de Kuraudo. A ponta da lâmina serrilhada passou zunindo a meras polegadas de seu nariz. Como Kuraudo estava brandindo sua espada com apenas uma das mãos, o erro no corte horizontal deixou seu torso totalmente exposto.
Agora!
A razão pela qual Ikki desviara do golpe de Kuraudo por apenas um fio de cabelo era para que pudesse contra-atacar rapidamente. Assim, no momento em que a abertura se apresentou, Ikki golpeou o peito de Kuraudo. Mas, para a surpresa de Ikki, a Intetsu encontrou aço frio e duro em vez de carne macia.
“O quê?!”
A tatuagem de caveira sorridente no peito de Kuraudo zombava da tentativa vã de Ikki de desferir o primeiro golpe. Embora o timing de Ikki tivesse sido absolutamente perfeito, Kuraudo ainda conseguira trazer sua espada de volta a tempo de bloquear o contra-ataque.
“Ha ha! Que pena, garoto”, provocou Kuraudo, colocando a língua para fora.
Era inacreditável que Kuraudo tivesse sido capaz de bloquear o contra-ataque perfeitamente cronometrado de Ikki. Tanto que o que ele fizera deveria ser impossível para os reflexos humanos normais. Em outras palavras, Kuraudo deve ter previsto que Ikki contra-atacaria exatamente daquela forma e se preparou para mover sua espada de volta antecipadamente.
Não, espere, isso também não está certo. Não me diga que... — Uma possibilidade extremamente inquietante cruzou a mente de Ikki.
“Haaah!”
Infelizmente, Kuraudo não lhe deu tempo para refletir mais sobre isso. Usando apenas a força de um braço, ele empurrou Intetsu para trás, levando Ikki junto. Ikki foi arremessado para trás a ponto de ficar agora dentro do alcance de uma lança, e não mais de uma katana. Normalmente, isso significaria que nenhum dos dois conseguiria alcançar o outro com sua espada, e ambos estariam se reagrupando para se preparar para a próxima troca de golpes — mas Kuraudo podia lutar em qualquer distância.
“Persiga ele! Skull Serpent’s Blade!”
O Sword Eater não era limitado pelo comprimento de sua espada, pois podia alterá-lo livremente. Orochimaru se estendeu para frente como uma serpente, avançando para perfurar o peito de Ikki.
“Ngh!”
Ikki bloqueou reflexivamente a estocada com Intetsu.
“Ha ha, ainda não terminei!”
Kuraudo retraiu sua lâmina e, em seguida, a golpeou lateralmente contra Ikki como um chicote. Nessa distância, ele podia pressionar Ikki de forma unilateral, que estava limitado pelo alcance de Intetsu. Isso significava que Ikki seria forçado a permanecer na defensiva.
“Urgh.”
Cada ataque do Sword Eater lascava Intetsu, fazendo faíscas voarem pelo ar. Não demorou muito para que os braços de Ikki começassem a ficar dormentes devido aos impactos repetidos.
“Isso aí! Acaba com ele, Kuraudo!”
“Transforma esse desgraçado em carne moída!”
Os amigos de Kuraudo começaram a torcer por ele. Enquanto isso, Ayase empalideceu ao perceber que Ikki não tinha escolha a não ser continuar se defendendo.
“Desse jeito, é só questão de tempo até o Sword Eater romper a guarda do Kurogane-kun! Ele precisa recuar!”
“Não adianta,” respondeu Stella. “Mesmo que o Ikki recuasse, aquele cara poderia simplesmente estender o Orochimaru ainda mais. Na verdade, quanto mais longe o Ikki ficar, pior vai ser pra ele.”
“Então o Kurogane-kun já está em desvantagem?”
“Sim. Mas ele não é o tipo de homem que deixa um probleminha desses detê-lo!”
Stella estava absolutamente certa. Afinal, ela entendia Ikki melhor do que ninguém.
Depois de bloquear mais alguns ataques, Ikki abaixou o corpo, concentrou sua energia nas pernas e saltou para frente. Kuraudo, porém, não iria deixá-lo se aproximar sem lutar. Aquela distância era ideal para ele, pois permitia atacar sem medo de um contra-ataque. Ele balançou Orochimaru em direção a Ikki, tentando detê-lo em seco.
A espada serpentina desceu sobre Ikki, suas presas mirando diretamente seu crânio, mas ele simplesmente se abaixou ainda mais e manteve a velocidade. Ele parecia mais estar rastejando pelo chão do que correndo, e só conseguia manter uma postura tão baixa sem perder velocidade graças ao seu núcleo muscular excepcionalmente bem treinado. Orochimaru passou inofensivamente sobre a cabeça de Ikki, e ele reduziu rapidamente a distância entre si e Kuraudo.
“Ele conseguiu!” exclamou Ayase, cerrando os punhos com empolgação.
“Ha ha!”
O Sword Eater riu em resposta. Ele não era fraco a ponto de deixar um oponente se aproximar apenas por ter desviado de um único ataque. A ponta de Orochimaru se torceu como a cabeça de uma serpente e começou a se mover em direção às costas desprotegidas de Ikki.
“E-E-Ele também consegue mudar a direção em que alonga a espada?!” gritou Ayase.
De fato, o que tornava o poder de Kuraudo verdadeiramente assustador não era o fato de ele poder expandir e contrair Orochimaru livremente, mas sim que ele também podia manipular livremente os movimentos da lâmina. Em suas mãos, a espada se tornava uma serpente viva, capaz de atacar de qualquer ângulo, a qualquer momento.
Kuraudo tinha certeza de que Ikki acreditava ter desviado com segurança do ataque e não estava prestando atenção à retaguarda. Foi por isso que o choque foi tão grande quando Ikki o leu perfeitamente.
“Eu imaginei que você pudesse tentar algo assim, Kurashiki-kun.”
“O quê?!”
Com um passo lateral preciso, Ikki desviou da estocada direcionada às suas costas. Como sempre, Ikki não estava apenas se defendendo quando ficou preso fora de seu alcance ideal. Ele não era o tipo de cavaleiro que simplesmente se limitava a defender. Sempre que Ikki entrava na defensiva, isso servia a um propósito maior.
Enquanto se defendia, ele havia observado os padrões de ataque de Kuraudo, os tipos de ataques em sequência que ele gostava de usar, e assim por diante. Ele analisara tudo o que havia para saber sobre o homem conhecido como Kurashiki Kuraudo usando sua Perfect Vision. As habilidades de observação de Ikki eram poderosas o bastante para analisar o Hunter, que havia sido literalmente invisível, então analisar uma besta selvagem como Kuraudo fora uma tarefa simples.
Para seu contra-ataque, Ikki escolheu uma estocada — o ataque mais rápido possível que se pode executar com uma katana. Ele mirou diretamente o coração de Kuraudo, que por acaso ficava exatamente no centro da testa do crânio tatuado. Como o desvio de Ikki o havia pego de surpresa, Kuraudo estava completamente exposto. Seria impossível reagir rápido o bastante para trazer Orochimaru de volta ou desviar. Ikki estava confiante de que seu golpe acertaria desta vez.
E, ainda assim, no instante imediatamente antes de Intetsu fazer contato, a tatuagem de crânio desapareceu de seu campo de visão.
Huh?!
Ikki não conseguia compreender por que havia perdido o oponente de vista de repente. — Será que o Kurashiki-kun realmente desapareceu? Não, não é isso.
O coração de Ikki começou a disparar, e seus instintos o alertaram de que ele estava em extremo perigo. — Ele está abaixo de mim! Seu sexto sentido lhe indicara onde o oponente estava escondido, permitindo-lhe deduzir que Kuraudo devia ter se jogado no chão no último segundo para desviar de sua estocada.
Kuraudo abriu um sorriso ao ver Intetsu atravessar o ar vazio e golpeou Orochimaru de baixo para cima, a partir do chão.
“Haaaaah!”
“Ngh!”
Ikki mal conseguiu abaixar Intetsu a tempo de bloquear o golpe ascendente. Foi um bloqueio ruim, que não dispersou adequadamente a força do ataque de Kuraudo, e Ikki fez uma careta quando seu ombro quase se deslocou. Mas mais do que a dor, o que realmente o incomodou foi o que essa troca lhe ensinara sobre Kuraudo.
Eu temia que fosse esse o caso!
Kuraudo voltou a ficar de pé e, mais uma vez, bombardeou Ikki com uma enxurrada de golpes. Desta vez, porém, a respiração de Ikki estava fora de ritmo por causa da estocada anterior. Ele não podia se dar ao luxo de fazer movimentos arriscados, então decidiu se concentrar na defesa até recuperar o controle da respiração. Ele ergueu Intetsu acima da cabeça para bloquear o golpe descendente de Kuraudo, mas, no instante anterior ao choque das duas espadas, a lâmina de Kuraudo ficou borrada — e desapareceu.
Merda!
Ikki saltou para trás com toda a força que tinha, sem se importar que isso arruinasse sua postura. Um segundo depois, Orochimaru cortou horizontalmente o espaço onde Ikki estava parado um instante antes.
“Gah!”
Ikki quase caiu no chão devido ao quão desajeitado fora seu recuo, cambaleando para trás enquanto tentava recuperar o equilíbrio.
Stella e Ayase prenderam a respiração ao ver Ikki se recompor. Seu uniforme havia sido rasgado na altura do estômago. Como ele já havia saltado para trás, a força do golpe de Kuraudo apenas o empurrou ainda mais para longe. Se ele não tivesse recuado naquele exato momento, suas vísceras estariam espalhadas pelo chão do dojo agora.
“Ha ha, estou impressionado por você ter conseguido desviar disso logo na primeira vez que viu,” disse Kuraudo.
“O-O que foi que ele acabou de fazer?” murmurou Stella.
“Kurogane-kun...” disse Ayase, com a voz carregada de preocupação.
“Essa foi por pouco!”
“Você quase pegou ele, Kuraudo!”
“Mas mesmo assim, esse fracote não é páreo pra você, né?!”
“Acaba com esse desgraçado!”
De um lado da plateia, havia confusão; do outro, euforia. Pelas reações de ambos os grupos, ficava claro qual lutador tinha a vantagem esmagadora. Ainda assim, Ikki não estava nem um pouco preocupado com o que aquela plateia barulhenta pensava.
“Agora eu entendi. Isso explica tudo.”
Havia algo muito mais importante pesando em sua mente. Ele considerara essa possibilidade desde o momento em que Kuraudo bloqueou seu primeiro contra-ataque perfeitamente cronometrado. E, infelizmente, parecia que o pior cenário possível era exatamente o que ele estava enfrentando.
“Foi isso que te permitiu derrotar o Ultimo Samurai, não foi?” disse ele em voz baixa.
◆
“Quando ouvi os detalhes do seu duelo com Kaito-san pela Ayatsuji-san, havia algo que não fazia sentido para mim. Por que Kaito-san foi derrotado de forma tão unilateral? Claro, a doença dele pode tê-lo enfraquecido, mas ele ainda era o mesmo Ultimo Samurai cuja esgrima era lendária. Não consigo imaginar que ele perderia de maneira tão esmagadora lutando sob regras que lhe permitiam usar essa esgrima em sua máxima capacidade. Tinha que haver um motivo para você ter conseguido dominá-lo daquele jeito.”
Desde o início, Ikki havia deduzido que esse “algo” precisava ser o maior fator por trás da força de Kuraudo, e não qualquer um de seus poderes de Blazer.
“E agora, eu sei exatamente qual é esse motivo.”
Esse fator era a explicação de como Kuraudo conseguira desviar e bloquear ataques aos quais não deveria ser capaz de reagir, e de como era capaz de mudar o ângulo e a direção de seus próprios ataques tão rapidamente. Ele possuía outro poder sobrenatural além de suas habilidades de Blazer.
“Qual é o motivo?! Ele trapaceou?!” gritou Ayase, inclinando-se para frente. Ela também não conseguia entender como seu pai havia perdido de forma tão avassaladora. Estava convencida de que Kuraudo tinha recorrido a algum truque sujo, mas Ikki balançou a cabeça em negação.
“Não, ele não trapaceou. Isso não é nenhum truque sorrateiro.”
“Ha ha, parece que você realmente descobriu. Vá em frente, diga. Eu te digo se estiver certo,” disse Kuraudo, com um sorriso.
“O motivo de Kurashiki-kun ser tão forte são os reflexos dele.”
“Os... reflexos?” repetiu Ayase.
“Você está falando dos mesmos reflexos que todos nós temos, certo, Ikki?” perguntou Stella.
“Metade sim, metade não. Tecnicamente, sim, estou falando dos mesmos reflexos com os quais todo ser humano nasce. Mas lembrem-se: as pessoas têm tempos de reação diferentes, o que afeta a rapidez com que esses reflexos entram em ação. Leva tempo para alguém perceber algo, compreender o que percebeu e então agir com base nisso. Para pessoas comuns, esse tempo de reação gira em torno de 0,3 segundos. Se você for, digamos, um velocista olímpico, pode ter treinado esse tempo para algo em torno de 0,15 segundos. De modo geral, porém, não importa o quanto você treine, não dá para reduzir o tempo de reação abaixo de 0,1 segundo. Pelo menos, é assim para pessoas normais. Mas, se observarmos o quão rápido Kurashiki-kun consegue alternar do ataque para a defesa, o tempo de reação dele é de cerca de 0,05 segundos.”
Stella e Ayase engasgaram de surpresa. Ikki e Stella, que haviam treinado como se suas vidas dependessem disso, ainda assim tinham tempos de reação de 0,13 segundos. Em outras palavras, o tempo de reação de Kuraudo era verdadeiramente sobre-humano. No intervalo em que Ikki conseguia se comprometer conscientemente com uma única ação, Kuraudo conseguia se comprometer com duas ou três.
“É graças aos reflexos sobre-humanos dele que Kurashiki-kun consegue desviar de ataques que consideraríamos impossíveis de evitar,” continuou Ikki. “E também é assim que ele consegue executar aquelas fintas insanas, mudando a trajetória do golpe muito mais rápido do que qualquer pessoa normal conseguiria. É por isso que a espada dele parece desaparecer de vez em quando.”
“Ha ha ha ha ha ha ha ha ha! Bingo!” exclamou Kuraudo. Não havia técnica em sua esgrima — apenas velocidade bruta e violência. Ainda assim, só isso já era suficiente para permitir que o Sword Eater esmagasse todos que surgissem em seu caminho.
[Almeranto: Se esse cara já é assim sem ter habilidades de esgrima, imagina se a esgrima dele fosse nivel Ikki, o mano ia ser imbatível.]
O tempo de reação de uma pessoa determinava a velocidade de cada um de seus movimentos. Como resultado, simplesmente ter um tempo de reação mais rápido do que o de todos os outros dava a Kuraudo a capacidade de destruir qualquer espadachim, não importava o quanto ele tivesse treinado ou o quão refinada fosse sua técnica. Até mesmo o ataque surpresa mais bem planejado ainda era lento o suficiente para que Kuraudo reagisse depois de vê-lo. Por outro lado, não importava o quão desleixados fossem os golpes de Kuraudo — ele podia simplesmente mudar a direção do ataque assim que visse o oponente começar a se defender. Era como jogar pedra, papel e tesoura contra alguém que sempre jogava depois de você.
Essa era a verdadeira força do Sword Eater. Técnica, experiência, fintas — nada disso tinha significado diante de seu dom natural. Kuraudo não apenas possuía reflexos sobre-humanos, como também tinha os músculos necessários para tirar proveito deles, o que lhe permitia atacar e defender tão rápido quanto conseguia reagir. Essa velocidade foi o que deu origem à técnica que ele batizara de Marginal Counter.
“Você é a primeira pessoa que consegue enxergar através do meu Marginal Counter depois de vê-lo só uma vez! Estou honestamente impressionado, Worst One. Você é realmente um cara incrível. Mas mesmo tendo entendido, você não pode fazer nada contra isso, pode?!”
A expressão de Ikki se fechou. Kuraudo estava certo ao dizer que sua Perfect Vision era inútil contra alguém que o superava em tempo de reação. Até mesmo Ittou Shura apenas ampliava suas capacidades físicas; não aumentava a velocidade com que os sinais elétricos iam e vinham de seu cérebro, nem acelerava o poder de processamento da mente. Não havia nada que Ikki pudesse fazer para atravessar o Marginal Counter de Kuraudo.
“Ha ha, parece que eu estava certo. Isso porque meu Marginal Counter não é realmente uma técnica. É só uma característica especial com a qual eu nasci. Não existe um método secreto para derrotá-la. E além disso, isso nem é o mais rápido que eu consigo ir com ela!” Kuraudo avançou, golpeando Ikki tão rápido que parecia que dois cortes vinham ao mesmo tempo. “Twin Fangs!”
Com apenas sua espada na mão direita, Kuraudo conseguiu desferir dois cortes horizontais em Ikki — um pela direita e outro pela esquerda — quase ao mesmo tempo. Logicamente, seria impossível bloquear ambos os ataques a menos que Ikki estivesse empunhando duas espadas. Se ele bloqueasse um, Kuraudo simplesmente viraria a lâmina imediatamente para o outro lado e o cortaria.
Só havia uma coisa que Ikki podia fazer. Ele recuou em um passo para trás, esperando evitar completamente ambos os ataques. Enquanto estivesse fora do alcance, não importava o quão rápidos os golpes fossem — eles ainda errariam. Mas, é claro, o Sword Eater possuía o poder de ajustar livremente o comprimento de sua espada.
“Esse mesmo truque não vai funcionar comigo de novo!” gritou Kuraudo, estendendo Orochimaru até que ela pudesse alcançar Ikki mais uma vez. Não importava o quanto Ikki corresse, ele não conseguiria escapar da lâmina serrilhada.
Os dois cortes convergiram, visando partir Ikki ao meio. No entanto, instantes antes de alcançá-lo, Ikki agiu. Houve um estrondo metálico alto e uma chuva de faíscas infundidas de mana quando ele bloqueou o golpe vindo da direita. Mas isso, naturalmente, significava que o golpe vindo da esquerda o atingiria antes que pudesse reagir. Ele seria cortado de qualquer forma. Ainda assim, não houve nenhum jorro de sangue quando a espada serrilhada de Kuraudo alcançou Ikki pelo lado esquerdo. Em vez disso, outra chuva de faíscas surgiu — Ikki havia bloqueado aquele golpe também.
“O quê?!” Confuso, Kuraudo olhou para a espada nas mãos de Ikki. “Seu desgraçado...” murmurou, compreendendo imediatamente o que o oponente havia feito.
Ikki não estava segurando Intetsu pelo punho, mas pela base da lâmina. Isso havia encurtado seu alcance, porém, em troca, aumentara drasticamente a velocidade com que ele podia manejá-la.
“Entendi, ele está usando a Intetsu como um kodachi em vez de uma katana! Boa, Ikki!” Stella comemorou.
“O Kurogane-kun também sabe usar técnicas de kodachi?!” Ayase perguntou.
“O Device da Shizuku é um kodachi, e ele é bom o bastante para ensiná-la esgrima, então é claro que sabe!” Stella conhecia bem o quanto Ikki detestava dar instruções equivocadas. Isso significava que, se ele se dispusera a ensinar kodachi à Shizuku, era porque dominava a arma de verdade.
De fato, Ikki havia treinado em todo tipo de arte marcial, não apenas esgrima. Ele também praticara arco e flecha e combate corpo a corpo. Se algo parecia minimamente útil para ajudá-lo a ficar mais forte, ele se dedicava completamente a aprender. Usara cada segundo livre que tinha para treinar tudo o que fosse possível. Afinal, ele sabia melhor do que ninguém o quão fraco era.
Além disso, Ikki fazia questão de memorizar absolutamente tudo o que aprendia, para poder usar aquelas técnicas sempre que necessário. Foi esse nível de dedicação e treino que desenvolveu sua capacidade de observação a ponto de conseguir localizar o Hunter apenas pelo ângulo e pela força com que suas flechas invisíveis o atingiam. E foi essa quantidade absurda de treinamento que tornou possível bloquear a sequência de ataques absurdamente rápidos de Kuraudo. Diferente de uma katana apropriada, um kodachi tinha alcance muito menor e, portanto, um poder ofensivo reduzido. No entanto, por poder ser manobrado com extrema rapidez, possuía uma força defensiva excelente. Ao reduzir o tempo necessário para mover Intetsu de um ponto a outro, Ikki conseguiu acompanhar o tempo de reação desumano de Kuraudo.
“Você não é o único que consegue manipular o próprio alcance, Kurashiki-kun”, disse Ikki com um sorriso. Depois de bloquear os dois cortes de Kuraudo, ele avançou para o contra-ataque.
“Ha ha ha.”
Kuraudo sorriu ao ver Ikki continuar lutando, apesar da diferença esmagadora de velocidade entre os dois. Trocar de estilo de espada no meio da batalha era algo que um cavaleiro dependente de poderes mágicos jamais teria pensado em fazer, e Kuraudo ficou genuinamente impressionado com a determinação e a adaptabilidade de Ikki.
Mas isso não vai ser suficiente para vencer, garoto. Nem de longe.
Embora mudar para uma empunhadura de kodachi tivesse sido uma boa decisão, isso não era o bastante para superar o tempo de reação sobre-humano de Kuraudo. — Eu vou te mostrar a diferença entre nós!
Kuraudo havia chegado às quartas de final do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas do ano anterior. Isso significava que ele estava entre os oito cavaleiros mais fortes do país. A única coisa que aprendera ao lutar contra os monstros daquele palco era que força não tinha nada a ver com técnica refinada ou com a determinação de lutar pelos amigos. Não — a verdadeira força vinha de algo muito mais simples e muito mais feio: poder puro, violento e esmagador.
“Haaaaaaah!”
“O quê?!”
Não foi apenas Ikki quem ficou chocado — até Stella e Ayase, que assistiam à luta à distância, ficaram atônitas. Enquanto Ikki avançava, Kuraudo disparou quatro cortes consecutivos ao mesmo tempo.
Ele consegue ir ainda mais rápido?!
Ikki não estava preparado para aquilo. Ainda assim, conseguiu bloquear os golpes direcionados ao pescoço e à axila esquerda. Os outros dois, porém, atingiram o alvo, rasgando seu peito em forma de cruz.
“Gaaaaah!”
“Ikki!”
“Kurogane-kun!”
“Está tudo bem! Eu ainda consigo continuar!” Ikki gritou entre dentes cerrados. Uma quantidade absurda de sangue jorrava dos cortes, que haviam alcançado até o esterno. Mesmo assim, ele permaneceu de pé à força de pura determinação, recusando-se a cair de joelhos. Durante todo o tempo, manteve o olhar firmemente fixo em seu oponente.
“Hmph. Você usou a força dos meus cortes para recuar o suficiente e evitar um ferimento fatal. Você é um bastardozinho esperto. Mas esses truques não vão mais te salvar!” Kuraudo estendeu a Orochimaru ensanguentada como um chicote. Sem conceder sequer um segundo para que o Ikki gravemente ferido se recuperasse, ele lançou uma sequência implacável de golpes a uma distância segura, fora do alcance de qualquer contra-ataque. “Você não pode fazer nada a essa distância, o que significa que eu posso te retalhar o quanto quiser!”
◆
Na primeira vez em que Ikki conseguiu passar pela Skull Serpent’s Blade de Kuraudo, Ayase havia se enchido de alegria. Quando ele bloqueou Twin Fangs usando técnicas de kodachi, ela teve certeza de que a vitória estava a poucos instantes de distância. Mas, todas as vezes, o Sword Eater conseguia frustrar sua ofensiva e empurrá-lo de volta para um canto. Era como assistir a um pesadelo. Kuraudo continuava respondendo a cada surpresa que Ikki jogava contra ele.
Todos na Academia Hagun acreditavam que Ikki tinha vaga garantida como um dos representantes da escola no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Ele havia conseguido até derrotar a Princesa Carmesin em um duelo sem sofrer sequer um arranhão. Sem dúvida alguma, ele era o lutador de curto alcance mais forte que Ayase já havia conhecido.
Mas ele não conseguiu fazer absolutamente nada em combate corpo a corpo nessa luta!
A Perfect Vision de Ikki era inútil contra o Marginal Counter de Kuraudo. Nem mesmo Ittou Shura ajudaria, já que Kuraudo ainda seria capaz de reagir a qualquer movimento que Ikki fizesse enquanto a técnica estivesse ativa. Na verdade, isso só pioraria as coisas, pois poderia deixar Kuraudo em alerta e fazê-lo se concentrar ainda mais na defesa.
Ittou Shura era a manifestação pura da determinação e da força de vontade de Ikki — uma técnica que consumia tudo o que ele tinha para romper uma situação sem esperança. Mas isso significava que ele não podia cancelá-la no meio nem ajustá-la para ser mais fraca e durar mais tempo. Se Kuraudo se concentrasse apenas na defesa, Ikki teria enorme dificuldade em romper sua guarda em apenas um minuto. Afinal, não importava o quanto seus ataques se tornassem poderosos enquanto Ittou Shura estivesse ativa: Kuraudo ainda reagiria três vezes mais rápido e desviaria de tudo o que Ikki lançasse contra ele.
Não há nada que o Kurogane-kun possa fazer…
Mesmo agora, Ikki mal conseguia se defender do bombardeio incessante de ataques de Kuraudo, enquanto a poça de sangue a seus pés continuava a crescer. Ayase engoliu em seco ao ver Kuraudo espancá-lo sem piedade.
Esse homem é realmente absurdamente forte! Então é isso que significa estar entre os oito melhores lutadores do país?! Eu subestimei o verdadeiro poder do Sword Eater! Será que todos os melhores lutadores do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas são monstros como ele?!
Ayase não conseguia enxergar nenhuma possibilidade de Ikki vencer aquela luta. A força bruta de Kuraudo era suficiente para esmagar quaisquer técnicas ou habilidades que Ikki tentasse usar.
Enquanto assistia, alguns dos ataques de Kuraudo começaram a acertar Ikki de raspão, ferindo-o ainda mais. Ikki vinha mal conseguindo acompanhar o Twin Fangs usando técnicas de kodachi, mas a perda de sangue e o cansaço começavam a diminuir a velocidade de sua espada. O único ponto positivo era que, naquela distância, uma Orochimaru estendida se movia devagar demais para que Kuraudo lançasse quatro golpes ao mesmo tempo. Mesmo assim, os braços e as coxas de Ikki iam sendo lentamente retalhados.
Nesse ritmo…
Ayase se lembrou de como seu pai, mesmo depois de ter sido espancado até ficar coberto de sangue, havia se recusado a recuar até finalmente desabar. Ikki estava exatamente na mesma situação agora.
“Não!”
Ela não suportava ver aquilo acontecer novamente.
“Vermillion-san, você precisa parar a luta! Desse jeito, o Kurogane-kun vai ficar permanentemente aleijado… ou pior!”
“Se eu parar a luta, você não poderá recuperar o seu dojô.”
“Tudo bem! A segurança do Kurogane-kun é mais importante para mim!”
“Entendo. Mas eu não vou parar a luta.”
Stella cruzou os braços e observou com indiferença aparente enquanto seu namorado era lentamente dilacerado diante de seus olhos.
“Por quê?! O Kurogane-kun é seu namorado, não é?! Você o ama, não ama?! Você vê algum jeito de ele virar isso ou algo assim?!”
“Não vejo. Se eu estivesse lutando contra aquele bastardo do crânio, eu simplesmente o esmagaria com poder de fogo bruto. Mas o Ikki não pode fazer isso. Ele não tem nenhum meio de atacar a longa distância. E, já que ele não consegue igualar a velocidade de reação do oponente no combate corpo a corpo, eu realmente não consigo pensar em nenhuma forma de ele dar a volta por cima. Para ser sincera, estou chocada com o quão forte aquele bastardo do crânio é.”
A voz de Stella estava calma. Mas, olhando com mais atenção, Ayase percebeu pequenas manchas vermelhas no uniforme branco dela. Stella apertava os próprios braços com tanta força que as unhas chegavam a ferir a pele. Na verdade, ela estava usando cada grama de força de vontade que possuía para conter o impulso de correr até Ikki naquele exato instante.
“Parece que ele realmente é digno de estar entre os melhores lutadores do país”, Stella acrescentou. “Admito, ele é bem forte. Se isso continuar assim, o Ikki vai perder.”
“Eu não entendo. Se você sabe disso, por que não vai pará-los?!” Ayase gritou.
“Como eu poderia?”
“O que você quer dizer com isso?!”
“É só olhar o quanto o Ikki está se divertindo.”
“Hã?”
Confusa, Ayase virou-se para olhar Ikki. O que viu a deixou em choque.
Ele está sorrindo?!
Apesar de estar coberto de sangue e mal conseguir se manter em pé, havia um sorriso no rosto de Ikki. Não era o sorriso gentil e tranquilizador que ele sempre mostrava para Ayase e os outros. Seus dentes estavam à mostra em um sorriso selvagem, quase bestial.
“Pensando bem, ele sorriu desse jeito quando eu usei a Karsalitio Salamandra também”, Stella lembrou.
“Por quê? Mesmo podendo morrer, mesmo estando coberto de sangue… por que ele está sorrindo daquele jeito?”
“Porque ele está se divertindo, obviamente.”
Ayase não conseguia compreender o estado mental de Ikki. Não conseguia porque nunca havia passado por uma luta tão extrema, onde a vida e a morte estavam em jogo. Stella já havia passado. E Ayase percebeu que seu pai, Kaito, provavelmente também.
“Ei, Senpai”, Stella disse de forma casual. “Quando eu e o Ikki ouvimos a sua história sobre o que aconteceu, teve uma coisa que não fez sentido para nós.”
“O quê?”
“O Ultimo Samurai realmente ficou tomado pelo arrependimento quando perdeu para aquele bastardo do crânio?”
“Hã?! O que você está dizendo?!” Ayase protestou exaltada. “Claro que ficou! Se aquele monstro nunca tivesse aparecido, poderíamos ter continuado vivendo nossas vidas pacíficas e felizes! Meu pai não teria entrado em coma, não teríamos perdido o dojô, e os discípulos dele não teriam tido o espírito destruído! Aquele homem arruinou nossas vidas! É óbvio que meu pai se arrepende de não ter conseguido derrotá-lo!”
“Isso é apenas a forma como você enxerga as coisas, Senpai.”
“O qu—”
“Pense bem. Seu pai era o espadachim mais habilidoso do mundo. As pessoas o chamavam de Último Samurai. Você acha que um artista marcial desse nível ficaria satisfeito em definhar lentamente, doente demais para sequer empunhar uma espada direito? Será que aqueles dias realmente eram tão plenos a ponto de ele desejar que durassem para sempre? Se eu estivesse no lugar dele, eu definitivamente não conseguiria viver assim.”
“Ah...”
“É verdade que a forma como aquele bastardo do crânio forçou seu pai a lutar foi desprezível. Mas eu suspeito que seu pai tenha ficado feliz por existir alguém que quisesse tanto desafiá-lo a ponto de ir tão longe. Especialmente se a alternativa fosse simplesmente ficar sentado esperando até que a doença o levasse.”
Não, isso não pode ser verdade. O papai estava sempre sorrindo quando estava conosco. Ele encontrava muito significado em transmitir suas técnicas aos discípulos e—
“Este é o meu duelo! Não interfira!”
“Ah!”
Ayase arfou quando as palavras de seu pai atravessaram sua mente, e a compreensão finalmente a atingiu. Ela sempre se perguntara por que seu pai ficara tão furioso quando ela tentara intervir e parar a luta, e agora entendia. Também entendia por que ele continuara lutando mesmo sabendo que a derrota era inevitável e que tudo o que o aguardava era mais dor.
Finalmente, ela compreendia os verdadeiros sentimentos de Kaito.
Por muito tempo, ela havia se convencido de que seu pai fora forçado a aceitar um duelo que não queria e, então, caíra em coma cheio de arrependimento por não ter conseguido proteger seus alunos, sua filha e seu dojô. Mas isso não era verdade. Embora ele certamente tivesse lutado para proteger tudo isso, esse não fora o único motivo que o impulsionara a lutar.
No calor do momento, o que lhe dera forças para continuar lutando contra todas as probabilidades não fora algo tão nobre quanto amor, honra ou virtude. Não — era algo muito mais simples, muito mais bruto. Ele apenas queria continuar lutando contra o inimigo poderoso à sua frente. Queria derrotar aquele oponente que parecia absolutamente impossível de superar. Era esse desejo violento, porém inocente, que o empurrava adiante. Afinal, aquela era a luta que Kaito estivera esperando. Ele acreditava que era muito melhor lutar com tudo o que lhe restava e consumir o que sobrava de sua vida em um único instante glorioso do que definhar lentamente por causa da doença.
Agora eu entendo. O motivo de você continuar dizendo “me desculpe” não é por estar se desculpando conosco.
Ayase finalmente compreendeu que, na verdade, Kaito estava se desculpando com Kuraudo.
Apesar das motivações impuras e dos métodos questionáveis de Kuraudo, ele havia considerado Kaito — um homem doente, que não tinha muito tempo de vida — um oponente digno, alguém que ele desejava enfrentar a qualquer custo. No entanto, o coração de Kaito falhara antes que ele pudesse demonstrar todo o poder do Estilo de Espadas Ayatsuji àquele jovem, e por isso ele se desculpava por não ter correspondido às expectativas de Kuraudo.
Eu não acredito em você, pai. Essas podem ter sido suas últimas palavras, e você as usou para se desculpar com o homem que arruinou nossas vidas? — Ayase sempre acreditara que seu pai era um homem maduro e sensato. Mas, no fim das contas, ele era na verdade um enorme poço de ego, alguém que odiava tanto perder que vencer era mais importante para ele do que a própria família. — Mas acho que isso também significa que você estava feliz no final, não é?
De repente, um forte estrondo ecoou pelo dojô quando as lâminas de Ikki e Kuraudo se chocaram com muito mais força do que antes.
◆
O silêncio se seguiu ao choque estrondosamente alto, enquanto ambos abaixavam suas espadas. Ikki arfava pesadamente, exausto tanto por defender-se do ataque implacável de Kuraudo quanto pela perda de sangue causada por seus inúmeros ferimentos. No entanto, ele não era o único sem fôlego.
“Haaah, haaah, haaaaah.”
Embora Kuraudo não tivesse sofrido nenhum ferimento, seu rosto estava avermelhado e ele arfava tão pesadamente quanto Ikki. Bastou um instante para Stella perceber por que Kuraudo, que aparentemente tinha a vantagem, parecia tão esgotado quanto o oponente.
“Agora entendi! Essa é a fraqueza do Marginal Counter!”
“O–O que você quer dizer com isso, Vermillion-san?!”
“Observe bem o rosto daquele bastardo do crânio.”
Ayase obedeceu e concentrou a atenção no rosto de Kuraudo. Sua testa estava encharcada de suor, a ponto de ele escorrer pelas bochechas.
“Oh! Isso consome muito mais stamina!” disse ela, finalmente compreendendo.
“Exatamente. É simples quando se pensa a respeito. Como o Marginal Counter permite que ele reaja mais rápido que uma pessoa comum, ele realiza mais ações do que o normal no mesmo intervalo de tempo. Isso significa que a stamina dele se esgota mais rápido. Ikki percebeu isso imediatamente e deixou-se ferir de propósito para drenar a energia do oponente.”
Kuraudo chegara à mesma conclusão e cerrou os dentes, frustrado. — Maldito espertinho… Achei que estivesse lutando nos meus termos, mas você me pegou direitinho, seu desgraçado.
Mesmo gravemente ferido e longe demais para alcançar o adversário com sua lâmina, Ikki ainda assim enxergara a fraqueza do Marginal Counter e decidira enfrentar Kuraudo em uma batalha de resistência. Como Stella dissera antes, Ikki nunca se contentava apenas em se defender. Ele sempre buscava uma forma de desgastar o oponente enquanto defendia, e tinha inúmeros truques na manga para isso.
Esse garoto é coisa séria. — Um arrepio percorreu a espinha de Kuraudo.
Enquanto isso, Ayase estava radiante.
“O Kurogane-kun é incrível! Não acredito que ele encontrou uma forma de lutar
mesmo sem conseguir alcançar o adversário! Talvez ele realmente consiga
vencer!”
Ela ergueu o punho no ar, mas Stella balançou a cabeça, com uma expressão
sombria.
“Não tenho tanta certeza.”
“O quê? Por quê?”
“O mais provável é que Ikki tenha transformado isso numa batalha de desgaste porque não tinha outra opção. Ele escolheu essa estratégia porque percebeu que não podia vencer o Marginal Counter em combate corpo a corpo. Afinal, bloquear todos aqueles ataques também drenou a stamina dele, ainda mais estando ferido. Em vez de ele ter vencido a luta, é mais correto dizer que agora está tudo empatado.” Considerando o quão desesperadora era a situação de Ikki, o fato de ele ter conseguido igualar o combate já era um feito extraordinário. No entanto, isso significava que nenhum dos dois tinha uma vantagem decisiva.
“Não dá para dizer com certeza quem vai vencer, mas tenho convicção de que isso será decidido no próximo ataque”, afirmou Stella com confiança.
“Porra… você é mais resistente que uma barata”, cuspiu Kuraudo, tentando
recuperar o fôlego.
“Haaah, haaah… Desculpa. Eu só odeio perder. Além disso, faz muito tempo
desde a última vez que lutei tão sério contra outro espadachim. Não tem como eu
deixar um duelo tão divertido acabar tão rápido”, respondeu Ikki com um sorriso.
“Ha ha. Você chama isso de divertido? Ha ha ha ha ha. Cara, você é
completamente maluco.”
“Não quero ouvir isso justamente de você.”
“Ha. Bem, desculpa estragar a sua diversão, mas este duelo já durou tempo demais!”
Kuraudo respirou fundo e endireitou as costas. Erguendo Orochimaru bem alto, ele disse: “Vou acabar com isso no próximo ataque.”
“Eu estava pensando que já estava na hora de encerrarmos isso também”, Ikki respondeu, o sorriso se alargando ainda mais, mesmo depois de Kuraudo ter declarado que iria matá-lo. Ele ergueu Intetsu até a altura dos olhos e a manteve estendida à sua frente, a ponta apontada para Kuraudo. Ambos se preparavam para o golpe final.
“Mas antes, posso te perguntar uma coisa?”, Ikki perguntou de repente. Havia algo que ele absolutamente precisava saber antes que aquela batalha terminasse.
“O quê?”
“O mestre da espada que nós dois admiramos também estava sorrindo assim no final?”
Kuraudo pareceu surpreso por um segundo, mas então sorriu também e disse: “Ha. Você ainda precisa perguntar? É claro que ele estava adorando! Aquele foi um duelo para entrar para a história! Ele é o maldito Ultimo Samruai, não algum fracote!”
Ikki esperava fervorosamente que esse fosse o caso. “Entendo. Obrigado”, ele respondeu.
Enquanto dizia isso, ele avançou contra Kuraudo.
◆
O sangue escorria das incontáveis feridas de Ikki enquanto ele saltava para a frente. Cada centímetro de seu uniforme branco estava tingido de vermelho, e ele mal tinha forças para continuar lutando. Apesar disso, aquela investida foi tão rápida quanto a anterior.
Esse cara é realmente fora do comum!
Kuraudo não pôde deixar de ficar impressionado. Por respeito, decidiu enfrentar Ikki de frente com tudo o que tinha. Ele encurtou Orochimaru até o comprimento de uma espada curta, sacrificando alcance por velocidade para atingir Ikki com o ataque mais rápido que conseguia executar. Aquela era sua técnica suprema, uma série de golpes tão rápidos que apenas alguém capaz de usar Marginal Counter poderia desferi-los.
“Yamata no Orochi!”
Ele golpeou Orochimaru contra Ikki de oito direções diferentes, com tanta velocidade que parecia que todos os cortes estavam acontecendo simultaneamente.
A lâmina branca como osso parecia uma serpente de oito cabeças enquanto avançava sobre Ikki. Ele não havia conseguido se defender de quatro golpes ao mesmo tempo, então era lógico imaginar que oito o obliterariam. E, ainda assim, ele não diminuiu o ritmo nem um pouco. Avançou de cabeça contra as presas da serpente, sua lâmina ainda mantida à altura dos olhos, a ponta firmemente apontada para Kuraudo. À primeira vista, parecia suicídio, avançar sem sequer tentar bloquear os golpes.
Não, espera! Esse cara está...
Kuraudo percebeu que havia algo especial na postura de Ikki. Além disso, o olhar penetrante nos olhos de Ikki fez um arrepio percorrer sua espinha.
Kuraudo só havia sentido aquela sensação uma única vez antes — no exato final de seu duelo com Ayatsuji Kaito. Embora estivesse à beira da morte, Kaito havia tentado algo. Ele havia assumido a mesma postura em que Ikki se encontrava agora, fazendo parecer que tinha abandonado completamente qualquer pensamento de defesa. Até hoje, Kuraudo ainda não tinha certeza do que o Ultimo Samurai estava tentando fazer, mas seus instintos o haviam alertado de que ele estava em perigo. Ele se sentira intimidado por aquele velho com um pé na cova, que parecia mal conseguir se mover.
E agora, mais uma vez, seus instintos lhe diziam que precisava se afastar.
Ainda assim, ele se recusou a recuar.
Venha com tudo! — Graças ao tempo de reação aprimorado que Marginal Counter lhe concedia, ele poderia mudar para a defesa se quisesse. Mas, ousadamente, continuou pressionando o ataque.
Nem ferrando que eu vou parar agora!
Era exatamente isso que Kuraudo vinha querendo ver pelos últimos dois anos. A continuação do duelo que havia sido tragicamente interrompido. Era possível que Kaito se recuperasse ou que Ayase aprimorasse sua esgrima a ponto de valer a pena lutar contra ela no lugar de seu pai, e ele havia esperado naquele dojô agarrando-se a essas tênues esperanças. Então, agora que Ikki finalmente estava lhe dando aquilo que ele tanto desejara, não havia a menor chance de ele arregassar.
“Valeu a pena esperar dois anos por isso!”
Os dois cavaleiros se chocaram, cruzando um pelo outro no impacto.

◆
O sangue jorrou do torso de Kuraudo com força suficiente para manchar o teto do dojô. Ele havia sido cortado do ombro direito até o quadril esquerdo, profundo o bastante para que o osso aparecesse através do talho. Ikki, por sua vez, estava ileso. Deveria ter sido impossível para ele ter esquivado ou bloqueado todos os golpes de Yamata no Orochi, mas seus únicos ferimentos eram aqueles que já havia sofrido antes.
Na verdade, Ikki não havia bloqueado nem se esquivado de nenhum deles. E, ainda assim, de alguma forma, Orochimaru não o havia cortado. Apenas Ayase entendia o motivo.
I-Isso foi...
Ela já tinha visto aquela técnica uma vez antes. Era a técnica suprema do Estilo de Esgrima Ayatsuji, que Kaito lhe mostrara no dia em que ela fora aceita na Academia Hagun. Conforme ele pedira, ela o atacara com toda a força, e embora tivesse certeza de que Hizume o havia atravessado, ele saíra ileso. Não houvera nenhuma resistência em seus braços, como se tivesse cortado uma pétala de flor em vez de uma pessoa.
Depois disso, Kaito explicara a técnica a ela. O Estilo de Esgrima Ayatsuji focava em contra-ataques, mas aparar o ataque de um inimigo diminuía a velocidade da resposta. Era preciso mudar de uma postura defensiva para uma postura ofensiva, e isso levava tempo. Kaito vinha buscando uma forma de lançar um contra-ataque imediato, e aquela técnica fora o resultado de seus esforços. Você mantinha uma postura ofensiva o tempo todo e aparava os ataques do oponente com o próprio corpo, em vez da espada.
Essa era a verdadeira natureza da técnica suprema do Estilo de Esgrima Ayatsuji. Ao refinar o foco a ponto de conseguir perceber tudo ao redor, uma pessoa podia usar o jogo de pés e pequenas mudanças de postura e posicionamento para aparar ataques sem o uso da lâmina.
“Aquela é a técnica suprema do Estilo de Esgrima Ayatsuji, Celestial Counter!”
Mas por que o Kurogane-kun sabe usar isso? Papai disse que eu fui a única pessoa a quem ele mostrou—
“Oh.”
Ayase de repente se lembrou do que Ikki havia dito enquanto comiam no restaurante. “É tudo graças ao seu próprio esforço, Ayatsuji-san. As percepções que eu te dei são coisas que você acabaria percebendo sozinha mais cedo ou mais tarde, e tenho certeza de que você seria capaz de usar a técnica final do seu pai mesmo sem a minha ajuda.”
Ele não era o tipo de pessoa que fazia afirmações infundadas. Como alguém que havia estudado sob sua orientação por um tempo, ela entendia isso muito bem.
“Não me diga que ele já tinha descoberto qual era a técnica desde a época em que começou a me ensinar!”, Ayase exclamou, surpresa.
“Esse é o poder do Blade Steal dele”, Stella disse simplesmente.
“Hã?”
“É como o Ikki chama a habilidade dele de ler o estilo de luta do oponente e copiar suas técnicas. Ele fez isso comigo também.”
De fato, embora Ayase nunca tivesse usado a técnica final de Kaito na frente de Ikki, ele ainda assim conseguira discernir do que se tratava. Ayase seguira os ensinamentos de seu pai com tanta fidelidade que ele fora capaz de enxergar o ápice de habilidade que ela um dia alcançaria.
Stella sorriu ao olhar para Ikki. Era por isso que ela o admirava tanto. Apesar de já ser forte, ele nunca estava satisfeito. Ele buscava maneiras de se tornar mais forte o tempo todo, transformando até encontros fortuitos em oportunidades. Era essa sede incessante de evolução que levara as pessoas a chamar Kurogane Ikki de Another One.
“Caramba, vou ter que me esforçar ainda mais para conseguir acompanhar você”, Stella disse em voz baixa, a voz cheia de admiração.
“Graaaaah!”
Kuraudo de repente soltou um rugido, travando os joelhos e se impedindo de desabar. Ele estava ferido de forma tão grave que era surpreendente conseguir permanecer de pé, e estava claro que se mantinha apenas pela força de vontade. Havia uma poça de sangue ainda maior a seus pés do que à de Ikki, mas ele se recusava a cair e aceitar a derrota.
Não acredito que ele ainda esteja de pé, Ikki pensou, olhando para Kuraudo com admiração.
“Entendo. Então era isso que aquele velho estava tentando fazer”, Kuraudo murmurou.
Observando melhor, Ikki percebeu que não havia mais espírito de luta nos olhos dele. “Ha ha. Esse é um golpe e tanto.” Ele sorriu com nostalgia, lembrando-se do duelo que havia travado com Kaito dois anos antes. Então, endireitou as costas e se virou para Ikki. “Qual é o seu nome, Worst One?”
“Kurogane Ikki.”
“Kurogane, é? Vamos terminar isso no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas” Com isso, ele girou sobre o calcanhar e começou a se dirigir à porta. Parecia que ele realmente tinha terminado de lutar por enquanto.
Quando chegou à entrada, Ikki perguntou: “Kurashiki-kun, e quanto ao dojô?”
“É seu. Não preciso mais esperar aqui”, Kuraudo respondeu, fazendo um gesto displicente com a mão.
“E-Espere, Kuraudo!”, disse um de seus seguidores, correndo atrás dele.
“Vamos, seus idiotas! Estamos indo embora!”, ele ordenou.
“O-Ok!”
O restante saiu apressado atrás de Kuraudo. Assim que todos deixaram o dojô, um deles gritou: “Uau! Você tá bem, Kuraudo?!”
“Caralho, ele apagou!”, exclamou outro.
“Alguém chama uma ambulância!”
“Isso vai demorar demais! Eu levo ele de carro de volta pra escola!”
“Fica com a gente, Kuraudo!”
Ikki guardou Intetsu, balançando a cabeça, e soltou um pequeno suspiro. “Acho que ele não quis parecer fraco na frente do oponente. Que cara teimoso.”
“Como se você pudesse falar alguma coisa”, disse Stella, varrendo as pernas dele.
“Bwah! O-O que foi isso, Stella?!”
“Se você também não tem forças nem para ficar de pé, então pare de bancar o descolado.”
“Urk.” Ikki estava de fato tão exausto que não conseguia sequer se levantar, muito menos andar. Ele desviou o olhar de forma constrangida, incapaz de rebater Stella. “Então você percebeu...”
“Claro que percebi. Quem você acha que eu sou? De qualquer forma, por que você sempre tem que apanhar tanto toda vez que luta?! Se tinha uma técnica dessas na manga, devia ter usado antes!”
“Você está pedindo o impossível. Aquela era a técnica mais forte do Last Samurai. Não tem como eu conseguir usá-la perfeitamente na primeira vez, ainda mais no meio de um duelo. Eu precisava cansar o Kurashiki-kun o suficiente para que os golpes dele ficassem um pouco mais lentos, ou eu teria sido retalhado.”
“Então você deveria ao menos ter lutado de um jeito que não envolvesse se machucar tanto assim. Aff...” Suspirando, Stella entregou sua bolsa a Ayase. “Senpai, eu trouxe um kit de primeiros socorros, então pode cuidar do Ikki para mim? Você passou a vida inteira em um dojô, então provavelmente sabe usar isso melhor do que eu. Enquanto isso, vou chamar um professor para vir nos buscar. Não dá para levar esse cara de trem quando ele está coberto de sangue e mal consegue ficar de pé.”
“O-O-Ok!”
Ayase pegou a bolsa e começou a tirar bandagens e desinfetante. Ela trabalhou rapidamente enquanto Stella caminhou até um canto do dojô e pegou seu manual estudantil para usar a função de telefone.
“Obrigada, Kurogane-kun”, Ayase disse, apertando a mão de Ikki com gratidão. “Graças a você, eu pude aprender sobre os verdadeiros sentimentos do meu pai. Eu achava que o conhecia melhor do que ninguém, mas, ao que parece, eu não o entendia nem um pouco.”
“Isso não é verdade”, Ikki disse, balançando a cabeça.
“Sério?”
“A única razão de eu ter conseguido vencer hoje foi o quanto você memorizou fielmente os ensinamentos do seu pai. Duvido que exista alguém no mundo que conheça o Kaito-san melhor do que você. Você é, sem dúvida alguma, a verdadeira sucessora do Ultimo Samurai.”
Será que isso é mesmo verdade? — Embora Ayase não tivesse certeza, no mínimo ela queria acreditar que fosse. Assim, após um breve silêncio, ela disse: “Nesse caso, eu preciso ficar muito mais forte, caso contrário não vou conseguir me chamar de verdade de sucessora do papai. Se nada mais, preciso me tornar forte o bastante para derrotar o Sword Eater sozinha.”
Não havia hesitação na voz de Ayase. Quando ela estava perdida, Ikki a ajudara a encontrar seu caminho. E agora, ela nunca mais perderia de vista o que era mais importante para ela. Ikki se sentiu reconfortado pelo olhar em seus olhos e lhe deu um sorriso gentil.
“Eu aguardo por esse dia.”
Do fundo do coração, ele desejava que o futuro que Ayase almejava se tornasse realidade.

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