Volume 2

Capítulo 3: Ayatsuji Ayase

 

   Na manhã de seu duelo com Ikki, Ayase acordou às 9 da manhã.

   Depois de seu encontro com ele, ela havia voltado para seu quarto e imediatamente caído no sono.

   O encontro, combinado com todas as preparações que ela precisara fazer antes do duelo, a havia deixado exausta.

   Enquanto ela saía atordoada de sua beliche, encontrou uma carta de sua colega de quarto na mesa de cabeceira.

   Dizia: “Você me disse para não vir ver sua partida, então não irei. Mas se houver algo te incomodando, saiba que você pode sempre vir até mim. Você tem parecido abatida recentemente, e estou ficando preocupada com você.”

“Eu realmente sou uma mulher horrível...”

   Não apenas ela havia traído seu maior benfeitor, mas também estivera preocupando sua colega de quarto.

“Você será honestamente feliz recuperando o que quer que tenha sido roubado de você se isso significar manchar seu orgulho desta forma?! Você será capaz de manter sua cabeça erguida depois que tudo terminar?!”

Tch...

   As palavras de Ikki ainda estavam ecoando em seus ouvidos.

   Ela estava em um estado mental terrível, embora tivesse uma partida importante se aproximando que ela não podia se dar ao luxo de perder.

   Ela precisava voltar à sua melhor condição o mais rápido possível ou acabaria perdendo para Ikki, apesar de suas preparações meticulosas.

   Decidindo usar seu tempo restante antes do duelo para se acalmar, ela começou a caminhar para um certo local.

 

 

   Ayase foi para a estação ao lado da Academia Hagun e andou de trem por cerca de quinze minutos.

   Ela desceu em uma estação próxima a um prédio branco puro que contrastava fortemente com o céu azul sem nuvens.

  A placa na frente do prédio dizia "Hospital Geral Shishido".

   Era o hospital de grande porte mais próximo da Academia Hagun.

   Seu destino era o quarto 515.

   Ela andou pelo hospital com facilidade e abriu a porta de correr daquele quarto.

   Lá dentro havia uma cama de solteiro e uma pequena cadeira dobrável sobre a qual estava sentada uma bela mulher de meia-idade.

   A senhora virou-se ao som da porta se abrindo e disse em uma voz surpresa: “Ora, se não é a Ayase-chan!”

“Olá, Tia Suzuka.”

“Bom dia. Por que você está aqui tão cedo? E a escola?”

“Eu não tenho que ir hoje. Os alunos não são obrigados a frequentar as aulas nos dias em que têm um duelo, então pensei em vir aqui no lugar.”

“Humm. Essa sua nova diretora com certeza é interessante, com as partidas de seleção e o novo sistema de colegas de quarto.”

   A tia de Ayase assentiu em aprovação enquanto Ayase explicava mais uma das novas políticas de Kurono.

   Ela se levantou e caminhou até a beira da cama.

“Nii-san, sua filhinha fofa veio visitar”, ela disse para o homem deitado na cama.

   Suas bochechas estavam encovadas e sua pele estava rachada.

   Seus braços eram mais finos que um graveto.

   Este homem que parecia mais uma múmia do que uma pessoa viva era o pai de Ayase, Ayatsuji Kaito.

“Olá, Pai”, disse Ayase enquanto caminhava para a beira da cama dele também.

   No entanto, Kaito não respondeu.

   Seus olhos estavam fechados, indicando que ele estava em um sono profundo, como estivera pelos últimos dois anos.

“Bem, eu vou descer até o café e deixar vocês dois terem um tempo sozinhos. Quanto tempo você planeja ficar, Ayase-chan?”

“Minha partida é à tarde, então sairei até o meio-dia.”

“Entendido, eu voltarei até lá. Vejo você mais tarde.”

   A tia de Ayase acenou para ela e saiu do quarto.

   Ela estava sempre alegre sempre que Ayase a via.

   Ayase desejava poder compartilhar um pouco dessa energia com seu pai.

     Não, isso não está certo. No passado, o Papai era muito mais—

“Ah... nh...

   De repente, um ruído baixo interrompeu seus pensamentos.

   Os lábios murchos de Kaito tremeram um pouco enquanto lutavam para formar o formato de uma palavra.

“Pai...”

   Ele estava sempre resmungando algo em seu sono.

   Não era nem remotamente claro o suficiente para ser compreendido adequadamente, mas, mesmo assim, Ayase sabia exatamente o que aqueles lábios estavam tentando transmitir.

“Sinto muito.”

“Ngh!”

   Ayase rangeu os dentes em frustração.

   Desde aquele dia, Kaito estivera pedindo desculpas a ela.

   Por não ser capaz de protegê-la.

   Por não ser capaz de confiar sua técnica final a ela.

   Sua consciência estava para sempre presa nos eventos daquele dia chuvoso.

 

 

“Lembre-se disso, Ayase. Não importa o que aconteça, nunca perca de vista sua honra e seu orgulho. Nossas espadas carregam o poder de matar pessoas. E seus poderes superam o que humanos normais são capazes. É exatamente por isso que, quando você os empunha, deve fazê-lo com honra e convicção. Sem isso, sua esgrima e seus poderes não são nada mais do que violência vil. Você deve sempre agir com decoro, proteger os fracos e punir o mal em todas as suas formas. Nunca deixe seu poder subir à cabeça e lute de forma justa contra qualquer oponente que enfrentar. Você deve se tornar uma cavaleira que possa manter a cabeça erguida e ter orgulho de si mesma.”

   Isso era o que o Último Samurai, Ayatsuji Kaito, sempre ensinara a Ayase.

   Ele fizera o melhor que pôde para incutir nela as responsabilidades carregadas por aqueles que possuíam grande poder.

   Em parte, era porque Ayase havia nascido uma Blazer que ele quisera lhe ensinar o caminho da espada.

   Não apenas técnicas de artes marciais, mas o próprio estilo de vida que os artistas marciais perseguiam.

   Sua esperança ao fazer isso era que ela dominasse adequadamente seus poderes e não se rebaixasse a se tornar uma tola arrogante que olhasse de cima para aqueles mais fracos que ela.

   Kaito estivera longe de ser gentil quando se tratava de ensinar sua filha.

   De fato, o treinamento de Ayase fora tão severo que, às vezes, ela sentira que era demais.

   Mas, mesmo assim, ela amava as virtudes que Kaito exaltava.

   A força honrosa que ele queria que Ayase possuísse era algo que ela desejara alcançar também.

   Ela amava quão digno seu pai parecia quando estava balançando sua espada.

   Mais do que qualquer outra coisa, ela amava a maneira como ele afagava sua cabeça e a cobria de elogios sempre que ela melhorava.

   O mundo inteiro dela fora apenas ela, seu pai e a dezena de discípulos que faziam parte de seu dojo.

   Não fora de forma alguma uma vida luxuosa, mas fora calorosa e cheia de felicidade.

   Ayase não desejara nada mais do que aquela vida continuasse para sempre.

   Mas aquele sonho fora reduzido a pó por apenas um homem naquele dia chuvoso, dois anos atrás.

 

 

   Havia dois meses que Ayase havia se matriculado na Academia Hagun, e a estação chuvosa estava apenas começando.

   Em um dia particularmente nublado, onde até o vento cheirava a chuva, Ayase decidiu ir para seu dojo após as aulas em vez de retornar para seu dormitório como de costume.

   Ela pegou seu guarda-chuva e saiu pelo portão da escola.

   Ela frequentemente retornava ao dojo para aprender esgrima, já que a escola não ensinava nenhuma arte marcial.

   Perto da época em que Ayase entrou no ensino fundamental, o médico de Kaito descobriu que ele sofria de uma condição cardíaca que não podia ser curada nem mesmo com a medicina moderna.

   Desde então, ele parara de lutar ativamente com espadas.

   A última vez que ele empunhara uma espada fora quando Ayase foi aceita na Academia Hagun.

   Ele quisera passar a técnica final que criara para ela.

   A essa altura, seu corpo havia se deteriorado ao ponto de ele não conseguir balançar uma espada mesmo que quisesse.

   No entanto, havia outros discípulos no dojo que haviam passado anos praticando o Estilo de Espada Ayatsuji.

   Embora fossem poucos em número, eles, assim como Ayase, vinham aprendendo desde jovens.

   Todos eram mestres esgrimistas por mérito próprio.

   O mais forte entre eles, Sugawara, ainda não chegava nem perto de ser tão forte quanto Kaito, mas era muito mais forte que Ayase.

   Três vezes por semana, Ayase voltava para casa para treinar com ele.

   Ela queria se tornar forte o suficiente para usar a técnica suprema que seu pai lhe ensinara o mais rápido possível, e era por isso que ainda treinava com tanta frequência.

   Mas naquele dia, quando ela passou pelos portões da frente de seu dojo, deparou-se com uma figura desconhecida que não pertencia ao seu pequeno mundo.

“Hã?”

   Este recém-chegado era um jovem alto com cabelo loiro tingido e um cigarro na boca.

   Seus olhos brilhavam como os de um lobo faminto, e ele vestia uma jaqueta do uniforme da Academia Donrou.

   Estava desabotoada para revelar seu peito nu, que ostentava uma tatuagem de caveira.

   Estava claro apenas por sua aparência que ele não tinha nada a ver com o mundo honrado das artes marciais.

   Ayase involuntariamente deu um passo para trás.

   Ela já ficava nervosa perto de rapazes, e este parecia particularmente intimidador.

Ha ha.” O jovem, Kurashiki Kuraudo, deu uma risadinha. “Vejo você mais tarde.”

   Com isso, ele girou sobre os calcanhares e desapareceu na cidade.

     Quem era aquele cara? O que alguém tão rude quanto ele estava fazendo na minha casa? — Além disso, o fato de ele estar vestindo um uniforme da Academia Donrou significava que ele era um Blazer.

   A maioria dos Blazers tinha zero interesse em esgrima tradicional.

     Talvez ele tenha vindo pedir informações? — Confusa, Ayase passou pela porta da frente de sua casa.

“Aquele pedaço de lixo!” ela ouviu alguém gritar enquanto caminhava em direção ao dojo.

   Era Sugawara, o discípulo principal de Kaito e seu amigo de longa data.

   Preocupada, Ayase acelerou o passo e correu para dentro do dojo.

   As pessoas não estavam praticando combate como normalmente estariam a essa hora do dia.

   Sugawara e os outros seis discípulos que haviam vindo hoje estavam todos rangendo os dentes, com expressões furiosas.

   Kaito estava sentado em seiza formal à frente do grupo, mergulhado em pensamentos.

“O que está acontecendo? O que aconteceu?”, Ayase perguntou a Sugawara.

“Este cara vestido como um bandido invadiu o dojo alguns minutos atrás e exigiu que duelássemos com ele, com a propriedade do dojo em jogo.”

“Então, ele é um daqueles 'esmagadores de dojos' de quem ouvi falar.”

“Sim. Mas o Sensei está com a saúde debilitada agora. Sem mencionar que praticantes do Estilo de Espada Ayatsuji são proibidos de se envolver em duelos onde se aposta coisas.”

   Ayase também sabia disso, é claro.

   O Estilo de Espada Ayatsuji existia para proteger as pessoas.

   Era o que Kaito sempre dizia.

   Suas técnicas não foram feitas para serem usadas em conflitos desnecessários ou para exibir a própria força.

   Como parte disso, os praticantes do Estilo de Espada Ayatsuji eram proibidos de participar de duelos privados.

“O Sensei rejeitou o desafio dele, mas...”

“Aquele babaca chamou o Sensei de um fracassado covarde e acabado! E então, ele até cuspiu na cara dele!”

“Aquele bandido maldito. Só porque ele tem superpoderes, ele acha que é melhor do que o resto de nós!”

   Os discípulos desabafaram sua raiva um após o outro.

   Todos eles vinham aprendendo com Kaito desde que eram jovens, então todos o admiravam como se ele fosse seu pai.

   Assistir ele sendo insultado daquela forma fora insuportável.

   Naturalmente, Ayase sentia o mesmo.

   Apenas ouvir que alguém havia cuspido em seu pai fazia seu sangue ferver.

“Merda. Ele deixou marcas de sapato por todo o dojo. Não acredito que ele nem se deu ao trabalho de tirá-los antes de entrar. Se o Sensei ainda estivesse com a saúde boa, ele teria dado àquele bosta estúpido uma lição que ele não esqueceria.”

“Você não deveria pensar assim, Nitta”, disse Kaito de repente, quebrando seu silêncio.

“Mesmo se eu não estivesse doente, não teria aceitado o desafio dele. O Estilo de Espada Ayatsuji existe para proteger as pessoas. Não balançamos nossas lâminas para exibir nossa força. Embora não vivamos mais em uma era onde é a espada que protege as pessoas, vocês nunca devem esquecer isso.”

“M-Minhas desculpas, senhor! Não cometerei esse erro novamente!” Nitta curvou-se para Kaito.

“Bom. Agora, como punição, quero ver mil golpes de prática de todos vocês!”

   Kaito bateu as mãos, dissipando a atmosfera sombria que se instalara sobre o dojo.

   Seus discípulos correram para suas posições e começaram a realizar seus golpes de prática.

“Tudo bem, Ayase-chan, vá se trocar”, disse Kaito então. “Vamos treinar você bem para que não se torne uma Blazer que se embriaga com o próprio poder como aquele cara.”

“Pode deixar!”

   Ayase deu um suspiro de alívio enquanto caminhava para o vestiário.

   Mas, ao fazer isso, o leve cheiro de fumaça de cigarro atingiu suas narinas.

   Ela foi lembrada de que Kuraudo havia profanado este dojo, envolvendo seus tentáculos em torno da vida cotidiana que ela tanto prezava.

   Parecia um mau agouro e, no dia seguinte, ela descobriu que sua premonição estava correta.

 

 

   Estava chovendo forte no dia seguinte também, enquanto Ayase fazia seu caminho para o dojo.

“Olá, pessoal! Hã?”

   Ao abrir a porta do dojo, ela descobriu que apenas seu pai, Kaito, estava lá.

“Todo mundo está atrasado, pai? Eu geralmente não sou a primeira a chegar.”

“Parece que sim. Mas esta é a primeira vez que todos eles se atrasam de uma vez.”

   Embora seus discípulos ocasionalmente tivessem se atrasado por vários motivos, eles nunca haviam se atrasado todos ao mesmo tempo assim. Mesmo assim, nem Kaito nem Ayase tinham qualquer razão para pensar que isso fosse mais do que uma coincidência.

“Tenho certeza de que eles aparecerão eventualmente. Até que apareçam, que tal eu te dar uma aula de treinamento personalizada? Já faz um tempo.”

“Eu adoraria. Mas nada de balançar sua espada, ok? Você ainda está doente.”

“Você é tão preocupada, Ayase. Não se preocupe, eu apenas observarei. Toda essa chuva tem feito meus ossos doerem de qualquer maneira.”

   Ayase posicionou-se na postura necessária para desferir o movimento supremo que Kaito lhe ensinara quando ela fora aceita na Academia Hagun.

   Ela segurou sua espada de madeira na altura dos olhos, afastou os pés, relaxou os ombros e baixou seu centro de gravidade.

   Então, ela fez o melhor que pôde para recriar os movimentos que vira seu pai fazer naquele dia.

   Lenta e firmemente, ela traçou um arco com sua espada.

“Pare”, disse Kaito em poucos segundos, estendendo a mão.

“É importante relaxar os ombros, mas você ainda precisa manter a energia fluindo através de seus braços. Aperte os pulsos, mas não os tensione demais. Você precisa manter sua postura o mais natural possível.”

“É-É realmente difícil de fazer.”

“Talvez, mas é o que você precisa fazer para usar esta técnica. Suponho que não tenho escolha, vou te mostrar um exemplo.”

   Kaito estendeu a mão em direção a uma das espadas de madeira penduradas no suporte na parede.

“Aham.”

“...”

“Aham!”

“Está bem, está bem, eu não vou balançar uma espada. Feliz agora?” Kaito levantou as mãos em sinal de rendição, incapaz de suportar o peso do olhar de julgamento de sua filha. “Meu Deus, você é igualzinha à sua mãe. Ela me encarava desse jeito também sempre que não queria que eu fizesse algo.”

“Eu aprendi esse olhar com ela, então é claro que é igual ao dela. Ela me disse para fazer isso sempre que você estivesse prestes a fazer alguma idiotice.”

“Não acredito que estou sendo dominado não apenas pela minha esposa, mas também pela minha filha.”

   Kaito suspirou e circulou por trás de Ayase. Ele estendeu os braços por trás das costas dela e cobriu as mãos dela, que ainda seguravam a espada de prática, com as suas próprias.

“Seus pulsos precisam estar angulados assim. A coisa importante a se lembrar sobre esta técnica é que você precisa manter uma postura ofensiva durante todo o tempo.”

   Enquanto explicava o funcionamento interno de sua técnica final, Kaito ajustava a postura de Ayase. Suas mãos eram ásperas, calejadas e longe de serem gentis.

     As mãos do papai são tão grandes. — No entanto, Ayase amava aquelas mãos ásperas dele. — Parando para pensar, faz eras que ele não me ensina desse jeito.

“Hee hee.” A percepção a deixou feliz, e ela sorriu.

“Do que você está rindo?”

“Nada de importante. É só que... você não me ensinava desse jeito há eras. Estou feliz que esteja de novo.” Ayase encostou-se no peito de Kaito, esfregando o rosto contra ele. Ela conseguia ouvir as batidas constantes do coração dele. “Seria bom se esses momentos pudessem durar para sempre”, ela sussurrou.

 

 

 

 

 

 

[Almeranto: Não vou mentir, essa imagem aqueceu meu coração, que belo momento entre pai e filha.]

   Kaito não disse nada. Ele não podia. Afinal, tanto ele quanto Ayase sabiam que ele não tinha muito tempo de vida restante. Embora seu coração ainda estivesse batendo por enquanto, ele estava lenta mas seguramente ficando mais fraco. Era por isso que ele tentara passar sua técnica final para ela antes mesmo de ela estar pronta para aprendê-la.

     Eu me pergunto quantos anos ele ainda tem.

   Ayase já havia se preparado mentalmente para a morte dele. Mas ela esperava fervorosamente que seus momentos finais fossem calorosos e pacíficos.

   Infelizmente, esse desejo estava prestes a ser cruelmente estilhaçado. A porta do dojo deslizou, abrindo-se, e Ayase e Kaito viraram-se para ver qual de seus discípulos fora o primeiro a chegar. Era Sugawara, o principal discípulo de Kaito.

“S-Sugawara-san?!”

   Ayase empalideceu ao vê-lo. Sua cabeça e seu torso estavam envoltos em bandagens, e ele parecia meio morto.

“O que aconteceu com você?!” Kaito gritou, correndo até ele.

   Com os olhos marejados, Sugawara caiu de joelhos e pressionou a cabeça contra o chão do dojo. “Sensei... sinto muito!”, ele engasgou entre soluços. Estava óbvio que algo sério havia acontecido.

“Levante a cabeça, Sugawara. Você claramente não sofreu esses ferimentos caindo da escada. O que aconteceu?”

“A-Aquele cara que apareceu ontem nos deu uma surra.”

“O quê?!”

“Ele emboscou nós sete no caminho de volta do dojo para casa ontem à noite. Ele simplesmente surgiu do nada e começou a balançar um mastro de madeira contra nós! Aquele cara é louco! Ele estava literalmente tentando esmagar nossas cabeças com aquela coisa! Não tivemos escolha, então revidamos, mas...” Sugawara tremeu. “Mas não tivemos a menor chance! Ele não estava usando seus poderes de Blazer nem mesmo protegendo seu corpo com mana, mas nós sete combinados ainda assim não conseguimos acertar um único golpe nele!”

   Ao ouvir aquilo, Ayase arquejou. Sugawara e os outros discípulos de Kaito vinham todos treinando esgrima desde que eram crianças. Apesar disso, eles não foram capazes de encostar um dedo em Kuraudo, mesmo sem ele usar seus poderes de Blazer.

Eu não sabia que ele era tão forte…

  “Mesmo com o senhor nos ensinando a espada por anos, Sensei, aquele pivete derrotou todos nós! Sinto muito por ter falhado com o senhor!”

“Você não tem nada pelo que se desculpar! Mais importante, e quanto aos outros?! Eles estão bem?!”

“A família do Nitta é rica, então ele foi tratado em uma cápsula, mas o resto de nós foi mandado para o hospital.”

   O uso de cápsulas iPS não era coberto pelo seguro de saúde, então custava uma pequena fortuna. Como resultado, todos, exceto Sugawara e Nitta, ainda estavam inconscientes no hospital. De acordo com os médicos, alguns dos discípulos haviam sido feridos tão gravemente que seus braços poderiam nunca se recuperar totalmente.

   Depois de explicar tudo aquilo, Sugawara olhou para Kaito. Com lágrimas escorrendo livremente de seus olhos, ele disse: “Sensei, nós permanecemos no Estilo de Espada Ayatsuji porque respeitávamos o senhor e queríamos nos tornar como o senhor. Mas... eu não quero dizer isso, mas... se fomos derrotados tão facilmente, qual foi o sentido de todos esses anos de treinamento?!”

“Ah...”

   Ayase estava completamente sem palavras. Sugawara não parecia mais o instrutor forte e confiável que ela conhecia. Seus olhos estavam nublados pelo medo e pelo desespero. Seu coração e sua alma haviam sido despedaçados tão profundamente que ele nunca se recuperaria.

“Sinto muito. Eu não acho que nenhum de nós será capaz de reunir coragem para empunhar uma espada novamente...”

   Sugawara tirou sete cartas de demissão de seu bolso, com as mãos tremendo. Assim como ele, os outros seis discípulos também tiveram seus corações e almas quebrados além de qualquer reparo.

     Isso é tão cruel... Por que ele faria algo assim? Como ele pôde fazer algo assim?

   Ayase estivera trilhando o caminho da esgrima junto com Sugawara e os outros seis discípulos desde que era criança. Ela não conseguia conceber por que alguém iria querer esmagar os espíritos deles dessa maneira.

Então, naquele momento, o homem insondável que perpetrara esta atrocidade apareceu na entrada do dojo.

“Ha ha, agora isso é uma piada.”

“O quê?!”

   O tempo de Kuraudo foi impecável. “Acho que intimidei vocês demais se estão desistindo da esgrima”, disse ele.

“A-Aaaaah!” No momento em que Sugawara o avistou, soltou um grito agudo e correu para o canto mais distante do dojo.

“Ah, qual é. Eu não sou tão assustador assim, sou?” Kuraudo deu uma gargalhada enquanto observava Sugawara correr, então entrou no dojo ainda com seus sapatos.

“F-Fique longe de mim! Aaah!

“P-Pare com isso! Não consegue ver que está assustando ele?!”

   Ayase moveu-se protetoramente na frente de Sugawara, incapaz de ficar parada por mais tempo. Mas antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, Kaito colocou uma mão em seu ombro e deu um passo à frente, encarando o convidado indesejado.

“O que você quer?”, ele perguntou.

“A mesma coisa que ontem”, Kuraudo respondeu.

“Acredito que já recusei seu desafio.”

“Imaginei que obteria uma resposta diferente se voltasse hoje. Ha ha.

“Entendo, então você aleijou meus discípulos apenas para me provocar.”

“Sim. Embora eu não tenha conseguido chegar naquela garota ali ontem.”

“Por quê?”, Kaito perguntou simplesmente.

“Hã?”

“Por que você faria isso? Você é um Blazer, não é? Você deveria ter muitas oportunidades de se soltar no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas ou em quaisquer partidas que sua escola realize. Por que deseja tanto lutar comigo?”

“Que tipo de pergunta é essa, velhote? A aposentadoria entorpeceu seu espírito e sua lâmina?”

“Ah!” Os olhos de Kaito se arregalaram de surpresa.

“Ha, tanto faz. Eu te direi o motivo. É simples. Eu só quero exibir minha força. Para todos que chamarem minha atenção, tanto Blazers quanto pessoas comuns!”

   Kuraudo deu a Kaito um sorriso lupino, e Ayase não conseguiu mais conter sua raiva: “Você feriu tantas pessoas por um motivo tão estúpido?!”, ela gritou.

“‘Estúpido’? Não é nem um pouco estúpido. Eu só quero lutar com caras fortes e esmagá-los sob meu calcanhar. O que há de tão errado em ser honesto sobre como me sinto?”

“Dane-se isso!” Ayase não deixaria esse homem fazer o que queria. “Não importa quantas vezes você venha aqui! Nossa resposta não mudará! Um arruaceiro como você, que só quer se exibir, não é bem-vindo aqui! Você não merece ver nossa esgrima! Pai, vamos chamar a polícia!”

   No entanto, Kaito balançou a cabeça. “Não, temo que seja tarde demais para isso”, disse ele em uma voz suave. “O Dojo Ayatsuji aceitará seu desafio. Lutaremos com espadas de madeira, e o primeiro lado a desferir dois golpes válidos será o vencedor. O uso de magia não é permitido.”

   Para o choque de Ayase e Sugawara, ele aceitou o desafio de Kuraudo.

“P-Pai!”

“S-Sensei?!”

   Os dois empalideceram.

“Por favor, não faça isso, Sensei! Seu coração não será capaz de aguentar!”

“Isso mesmo, pai! Você não pode lutar em sua condição! Se você insiste absolutamente em aceitar o desafio dele, então eu lutarei no seu lugar!”

   Era esperado que Ayase tentasse dissuadir seu pai, mas até Sugawara, que estivera encolhido de medo há um segundo, reuniu coragem para tentar convencer Kaito a não lutar. No entanto, Kaito apenas sorriu e disse: “Agradeço a preocupação, vocês dois. Me deixa orgulhoso saber que tenho discípulos tão leais. Mas é precisamente por isso que eu tenho que fazer isto.”

   As palavras anteriores de Sugawara ecoaram na mente de Kaito. “Qual foi o sentido de todos esses anos de treinamento?!”

“Este jovem precisa pagar pelo que fez a vocês!”, gritou Kaito.

   Ele não podia confiar essa tarefa a mais ninguém. Era seu dever derrotar Kuraudo com suas próprias mãos. Ele encarou Kuraudo, seus olhos brilhando com uma determinação inabalável.

   Ao ver aquilo, Ayase ficou em silêncio. Ela sabia que nada do que dissesse alcançaria seu pai agora.

“Tudo bem”, ela disse eventualmente. “Se você vai ser assim tão teimoso, eu não vou te impedir. Eu servirei como árbitra e verei esta partida até o seu fim.”

“Obrigado.”

“É bom você vencer, pai...”, ela acrescentou, as palavras soando como uma prece.

“Ei. Se vocês terminaram de tagarelar, vamos começar esta festa. Estou cansado de esperar”, disse Kuraudo em uma voz brusca.

“Muito bem”, Ayase respondeu com a testa franzida. Ela jogou uma espada de madeira para Kuraudo.

Ha ha, que mulher violenta.”

“As regras são conforme meu pai delineou anteriormente. Vocês lutarão com espadas de madeira, e o primeiro a conseguir dois golpes válidos será o vencedor. Magia não é permitida. Entendido?”

“Não precisa me dizer duas vezes. Não há sentido se a partida não estiver em pé de igualdade.”

   Kuraudo sorriu abertamente, revelando seus dentes. Seu olhar estava focado apenas em Kaito. Enquanto isso, Kaito estava com os olhos fechados, provavelmente para ajudá-lo a se concentrar na batalha que viria.

   Assim que ficou claro que ambos os lados estavam prontos, Ayase deu um passo à frente e disse:

“Enfrentem seu oponente e... comecem!”

 

 

“Ha ha, aqui vou eu!”

   No momento em que Ayase deu o sinal, Kuraudo avançou contra Kaito. Ele desceu sua espada com uma velocidade escaldante, mirando o topo da cabeça de Kaito. Não havia técnica em seu golpe, e sua postura não fazia nada para ajudar a transferir o poder de sua investida para seu ataque. Ele estava confiando puramente na força de seus braços, como um amador faria.

   Ainda assim, seu golpe foi extremamente rápido, mesmo para os olhos treinados de Kaito. Ele percebeu imediatamente que bloqueá-lo de frente seria perigoso. Ele recuou, colocando-se fora do caminho do golpe. A espada de madeira passou a centímetros de seu nariz e atingiu o chão de tatame com força suficiente para quebrá-lo.

“Que força monstruosa!”, exclamou Ayase. Ela estava, sem surpresa, preocupada que um golpe tão poderoso tivesse acabado de passar raspando pelo crânio de seu pai.

   No entanto, Kaito manteve sua esquiva curta de propósito. Esquivar-se de golpes letais com a quantidade mínima de movimento era uma habilidade fundamental que os esgrimistas precisavam dominar. Ao manter-se próximo ao seu oponente, você se coloca em uma posição melhor para contra-atacar.

   Tendo desferido um golpe tão poderoso, Kuraudo não seria capaz de mudar imediatamente para uma postura defensiva. Isso deixou uma breve abertura da qual um mestre como Kaito poderia tirar proveito para desferir um golpe letal. Além disso, o Estilo de Espada Ayatsuji era especializado em contra-ataques. No momento em que a ponta da espada de Kuraudo tocou o chão, Kaito avançou meio passo.

“Hah!”

   Com um grito vigoroso, ele desceu sua espada, mirando a cabeça de Kuraudo da mesma forma que Kuraudo o havia visado um segundo atrás. E seu golpe foi muito mais elegante — e muito mais rápido — do que o de Kuraudo fora.

   A diferença entre seus ataques era impressionante. Embora a doença pudesse ter enfraquecido Kaito, estava claro que ele ainda retinha muito da habilidade prodigiosa que lhe rendera o apelido de “o Último Samurai”. Comparado a um amador como Kuraudo, seus golpes eram muito mais potentes. Kuraudo não seria capaz de desviar de um ataque tão polido. E, no entanto...

“Ha ha ha!”

   Kaito sentiu as palmas das mãos formigarem quando Kuraudo subiu rapidamente sua espada de madeira para desviar seu golpe. A força do bloqueio foi tão grande que os ossos em suas mãos estalaram.

“Você parece surpreso, velhote. Achou que esse ataque ia acertar?”, provocou Kuraudo.

“Sim. Eu não achei que você pudesse bloqueá-lo”, respondeu Kaito. Realmente fora uma surpresa que Kuraudo tivesse conseguido bloqueá-lo. Ele era um esgrimista experiente demais para deixar que isso o abalasse, no entanto.

     Ele tem bons instintos.

   Kuraudo previra que Kaito tentaria um contra-ataque e se preparou para isso. Foi assim que ele conseguiu reagir tão rapidamente. Mas isso dificilmente era um problema para Kaito. Ter um ataque bloqueado não era problema algum. Ele ainda tinha muitos truques na manga.

“Minha vez! Tome isso!”, gritou Kuraudo, descendo sua espada no mesmo arco de antes.

   Havia tanta força bruta nesse ataque que a espada de Kaito quebraria se ele tentasse bloqueá-la. Mesmo assim, ele escolheu encontrar a espada de seu inimigo com a sua própria. Não porque não tivesse tempo suficiente para se esquivar, mas porque Kuraudo o leria novamente se ele tentasse contra-atacar após uma esquiva.

   No momento em que as duas espadas colidiram, Kaito habilmente girou seu pulso antes que sua lâmina de madeira estilhaçasse, desviando grande parte da força por trás do golpe de Kuraudo para o lado. A postura de Kuraudo desmoronou quando sua lâmina foi repelida, deixando-o aberto mais uma vez.

   Bloqueios e esquivas eram métodos de defesa muito simplistas. Verdadeiros artistas marciais iam uma camada mais fundo e criavam técnicas defensivas mais sutis.

   O que Kaito fizera foi um parreio ao redirecionar a força do golpe de Kuraudo. Em vez de igualar a força de Kuraudo com a sua própria, ele simplesmente usara a força do garoto contra ele. Isso permitira que Kaito não apenas se protegesse, mas também colocasse Kuraudo em uma posição vulnerável. E, desta vez, ele não errou o alvo.

“Haaah!”

   Antes que Kuraudo pudesse reagir, Kaito golpeou o torso de Kuraudo com sua espada de madeira. Aquele foi, sem dúvida, um golpe válido.

“Golpe no torso! Um ponto para Kaito!”, exclamou Ayase. Mas suas palavras mal foram registradas por Kaito.

     O que é essa sensação?, ele pensou, ofegante. Havia algo estranho sobre o impacto que sentira em suas palmas quando sua espada atingiu o alvo. — Por que me sinto tão inquieto?

“Boa, Sensei! Se eu não soubesse, diria que sua doença está curada!”

“Pai, você é incrível! Eu não consigo acreditar!”

   Kaito sorriu para seus discípulos, escondendo a preocupação que sentia. Ele então se virou novamente para olhar para seu oponente. Kuraudo estava massageando as costelas enquanto se levantava.

Ha ha. Agora, isso é o que eu queria ver do Último Samurai. É a primeira vez que recebo um golpe tão pesado. Mas é só isso que você tem? Porque, se for, você está morto, velho.”

   Apesar de ter sido atingido, Kuraudo ainda estava ansioso para continuar. Ele encarou Kaito, seus olhos brilhando com uma sede voraz e insaciável.

“Claro que não. Estou apenas começando, pirralho”, respondeu Kaito.

“Bom. Então é hora de eu ir com tudo!”

   Kuraudo mais uma vez avançou contra Kaito em velocidade máxima. Seu terceiro golpe foi igual aos dois primeiros, um ataque vertical visando a cabeça de Kaito.

     Ele simplesmente não aprende! Ele tem bons fundamentos, mas é um amador quando se trata de esgrima!

   Kaito ficara genuinamente impressionado por Kuraudo ter conseguido bloquear seu primeiro contra-ataque. Era por isso que ver o garoto confiar em força bruta repetidamente o decepcionava. Kuraudo certamente tinha músculos mais tonificados e podia exibir muito mais força do que Kaito, mas isso sozinho não era uma ameaça para um esgrimista habilidoso.

     Vou acabar com isso aqui! — Kaito mudou novamente para uma postura de contra-ataque. Ele desviaria o golpe de Kuraudo exatamente como da última vez e poria um fim a este duelo.

   Ayase e Sugawara estavam igualmente convencidos de que Kaito seria capaz de terminar as coisas com este próximo ataque. Mas então, Kuraudo subitamente mudou a direção do movimento de sua espada, movendo-se tão rápido que seus braços eram apenas um borrão.

     O quê?!

   Um segundo depois, o som das costelas de Kaito quebrando ecoou por todo o dojo.

 

 

   Kaito caiu de joelhos enquanto a espada de Kuraudo o atingia em cheio. Embora tivesse sido um golpe grosseiro, era, no entanto, um acerto válido. Ayase, contudo, não conseguiu manter a calma o suficiente para anunciá-lo. Afinal, seu pai estava de joelhos e tossindo sangue. Uma quantidade terrível de sangue, para dizer o mínimo. Seus órgãos internos haviam sido claramente danificados.

   Ayase empalideceu e correu até Kaito. “Pai! Você está bem?!”, ela gritou.

“Fique para trás!”, ordenou Kaito, tossindo mais uma golfada de sangue. “Esta partida ainda não acabou! Se você não consegue permanecer como uma juíza imparcial, então saia do dojo!”

“Quem se importa com a—”

“Ayase!”, gritou Kaito, uma névoa de sangue borrifando de sua boca. Embora ele tivesse repreendido Ayase muitas vezes no passado, ela nunca o ouvira gritar daquela forma antes. Foi um grito violento que instilou medo em seu coração. “Este é o meu duelo! Não interfira!”

“P-Pai?!” Ayase estava atordoada pela raiva na voz dele.

“Não se preocupe! Eu... vou vencer isto!” Kaito levantou-se cambaleante, um fio de sangue ainda escorrendo pelo canto de sua boca. Seus olhos estavam focados unicamente em Kuraudo. Ardendo de paixão, ele tomou a iniciativa e avançou pela primeira vez. “Aqui vou eu, pirralhooo!”

Ha ha! Não importa quantas vezes você venha para cima de mim! Você nunca será capaz de me acertar!”, declarou Kuraudo enquanto subia sua espada, bloqueando o golpe de Kaito de frente.

   A batalha a partir daquele ponto foi horrivelmente unilateral. Kaito estava ferido demais para oferecer resistência. Além disso, ele não empunhava uma espada há anos. Ele estava fora de prática, e isso transparecia. A cada troca de golpes, ele era empurrado cada vez mais para trás. A esgrima de Kuraudo não possuía graça ou técnica, mas a pura violência em seus golpes estava sobrecarregando Kaito.

   Embora Kaito estivesse conseguindo repelir o ataque implacável de Kuraudo, ele era incapaz de lançar qualquer tipo de contra-ataque.

   Para piorar a situação, Kuraudo decidiu que finalizaria Kaito com o mesmo movimento que lhe garantira seu primeiro ponto: um corte diagonal no torso vindo de baixo.

   Kaito rapidamente assumiu uma postura defensiva, planejando desviá-lo, mas, como antes, Kuraudo mudou a trajetória de sua espada no último segundo.

   Com velocidade inumana, ele subiu sua espada e a desceu contra a cabeça de Kaito.

   Era inacreditável a rapidez com que ele conseguira passar de um corte diagonal baixo para um golpe vertical descendente.

   Sua velocidade era claramente sobre-humana, mas se havia algum truque especial nisso, ninguém que assistia conseguia descobrir o que era.

   Independentemente disso, a lâmina de Kuraudo desceu impiedosamente sobre o crânio desprotegido de Kaito.

“O quê?!”

   Desta vez, foi a vez de Kuraudo ficar surpreso.

   Embora estivesse mirando na cabeça do homem, Kaito conseguira se esquivar no último segundo, e sua espada atingiu a clavícula de Kaito em vez disso, estilhaçando-a.

   Aquilo não contava como um golpe válido, o que significava que o duelo ainda estava de pé.

“Você não pode chamar isso de um acerto adequado, pirralho!”

Ha ha ha! Pare de lutar, seu velhote! Você já está com um pé na cova!”

   Kuraudo chutou Kaito no estômago, colocando certa distância entre os dois. Ele então avançou novamente, balançando sua espada de madeira com abandono imprudente.

   Embora o último golpe não tivesse contado como um acerto válido, ele ainda drenara as forças de Kaito.

   Seus movimentos estavam lentos agora, carecendo da precisão nítida que tinham no início do duelo.

   Como resultado, a espada de Kuraudo atravessou a defesa de Kaito múltiplas vezes, quebrando mais de seus ossos e castigando seus órgãos. O chão do dojo estava coberto com o sangue dele.

   Mas, apesar de tudo, Kaito continuava a impedir que Kuraudo conseguisse outro acerto limpo.

   Ele estava coberto de feridas da cabeça aos pés, mas continuava a se levantar e a duelar com Kuraudo.

     Por quê?! — Ayase não conseguia entender por que seu pai estava fazendo isso.

   Sua derrota era inevitável. — Por que ele simplesmente não se rende?! Por que ele continua se levantando?!

“Pare... Por favor, apenas pare...”

   Ela só podia assistir impotente enquanto seu pai era espancado até se tornar uma massa sangrenta. A lâmina de madeira de Kuraudo estava escorregadia com o sangue de Kaito.

“Ha ha ha ha ha ha ha ha ha!”

   Ele ria maniacamente, banhando-se no sangue que estava derramando. Tudo o que Kaito podia fazer agora era suportar os golpes. Isso não podia mais ser chamado de duelo; era apenas um massacre unilateral.

   A visão de Ayase estava tão borrada de lágrimas que ela não conseguia distinguir que tipo de expressão Kaito tinha no rosto. Na verdade, ela nem tinha certeza se seu pai ainda estava consciente. — Eu tenho que parar isso. Tenho que parar este duelo agora ou o papai vai morrer! — Mas, embora soubesse disso, ela não conseguia se mexer. Mesmo quando o sangue de seu pai manchava suas roupas e um de seus dentes voava por ela, arranhando sua bochecha, a maneira como ele gritara com ela antes a deixara paralisada no lugar.

“Pare! Por favor, pare! Você pode ficar com o dojo, por favor, apenas pare de machucar meu pai!”, ela gritou. Isso era tudo o que podia fazer, já que suas pernas se recusavam a se mover.

   Infelizmente, suas palavras não alcançaram os dois combatentes que estavam trancados em uma luta mortal. Kaito se recusava a desistir, e Kuraudo continuava a cobri-lo de golpes.

“Hah!” De repente, Kaito desencadeou um último ataque desesperado. Ele levantou sua espada até o nível dos olhos e avançou contra Kuraudo. “Raaaaah!”

“Opa!”

   A expressão de Kuraudo endureceu ao sentir algo perigoso vindo do velho que deveria estar à beira da morte. Independentemente disso, ele manteve sua posição e desceu sua própria espada em uma tentativa de esmagar o crânio de Kaito antes que o ataque de Kaito atingisse o alvo.

   Kaito viu o golpe vindo, mas não diminuiu o passo nem um pouco. Ele manteve sua espada na mesma posição, avançando como um raio. Ele não pensou em defesa. À primeira vista, parecia uma investida tola e imprudente.

     Essa postura!

   Ayase sabia exatamente o que ele estava tentando fazer. Ele estava tentando desencadear a técnica final que passara a vida inteira desenvolvendo. Era sua única saída daquela situação desesperadora. Mas em seu estado deplorável, com o coração falhando, não havia como ele conseguir executá-la.

“Paaare!” Ayase gritou, sabendo que não adiantaria nada. Um segundo depois, a espada de madeira de Kuraudo atingiu a cabeça de Kaito com um impacto seco.

“Ah...” Aquele foi o segundo ponto válido. Assim que o golpe conectou, Kaito desabou no chão com um baque úmido. “Aaaaah!” Ayase correu até ele, gritando de forma incoerente. Ela chamou seu nome repetidamente, mas ele não respondeu. A única coisa que saía de sua boca era mais sangue. “N-Nãoooo!”

Hmph, que decepção. Achei que você daria mais trabalho.”

   Kuraudo soltou sua espada de madeira na frente de Ayase. Ela estava manchada de um vermelho escuro e cheia de lascas e rachaduras. Ao olhar para aquilo, o medo e a preocupação de Ayase se transformaram em uma fúria ardente. Kuraudo espancara seu pai tão brutalmente que a espada quase se despedaçara de tanto quebrar ossos.

“Seu monstroooo!”

   Ayase convocou Hizume ao seu lado e avançou contra Kuraudo. No entanto, Kuraudo agarrou o braço dela antes que ela pudesse desferir um único golpe e a ergueu no ar.

“Acalme-se, garota. Não estou interessado em lutar contra uma fracassada como você”, disse ele.

“Tire as mãos de mim! Me solte!”

“Além disso, você não tem algo mais importante para cuidar do que lutar comigo?”, perguntou Kuraudo, jogando Ayase sobre o corpo inerte de Kaito.

“Ngh!” Ao olhar para o pai novamente, Ayase lembrou-se de qual era sua prioridade. “Sugawara-san! Chame uma ambulância! Agora mesmo!”

“O-Ok!”

   As palavras de Ayase tiraram Sugawara de seu torpor, e ele rapidamente puxou o celular. Enquanto isso, Ayase voltou-se para o pai e tentou estabilizar sua condição o melhor que pôde. Kuraudo lançou aos dois um último olhar desinteressado e saiu do dojo.

“Tirem suas coisas daqui até amanhã. Este lugar me pertence agora, não se esqueçam disso”, disse ele enquanto partia.

   Ayase mordeu o lábio com força suficiente para sangrar, mas não disse nada. Justo então, Kaito soltou um suspiro rouco e disse: “Eu... sinto muito...”

“Pai!”

   Kaito continuou murmurando desculpas suavemente, mas seus olhos permaneceram fechados.

 

 

   Naquele dia, há dois anos, Ayase havia perdido tudo. Kuraudo tomara o dojo e, desde então, ela não vira os outros discípulos de seu pai sequer uma vez. Kaito também caíra em coma devido aos ferimentos e não dava sinais de que acordaria. Sua consciência ainda estava presa no dia infernal de sua derrota. Enquanto dormia, ele continuava a murmurar "sinto muito" repetidamente. Ele não fora capaz de proteger seus discípulos, e o Estilo de Espada Ayatsuji que pretendia passar para Ayase fora roubado dele junto com seu dojo.

     Papai pode não chegar ao fim do ano...

   O médico dissera isso a Ayase. Ela estava preparada para a morte dele desde o momento em que soube que sua condição cardíaca era terminal, mas não podia suportar deixá-lo partir enquanto ele ainda estivesse preso em um pesadelo eterno. Essa era a única coisa que ela se recusava a deixar acontecer.

   Ela desafiara o novo dono do dojo, Kuraudo, para duelos inúmeras vezes nos últimos dois anos, a fim de recuperar o dojo que seu pai arriscara a vida para tentar proteger. No entanto, era impossível para ela derrotar alguém para quem até seu pai havia perdido. Não que ela tivesse tido a chance de tentar. Kuraudo tratara Ayase como um camundongo com o qual ele brincava, encontrando desculpas para recusar seus desafios e impondo condições irracionais para que ela pudesse lutar com ele. No início, ele se divertia exibindo para seus amigos como eram feias as exigências desesperadas dela por um duelo, tornando-a motivo de piada. Eventualmente, porém, ele ficara entediado e, agora, simplesmente a mandava embora de imediato. A única maneira de Ayase conseguir uma chance de lutar contra Kuraudo era se ela participasse do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas e o enfrentasse lá.

   Como tanto ela quanto Kuraudo eram alunos do terceiro ano, restava apenas um Festival para lutarem. Além disso, havia a possibilidade de seu pai nem sobreviver para ver o ano seguinte, então este seria sua última chance. Se ela falhasse em vencer Kuraudo, seu pai estaria para sempre preso na escuridão de sua derrota.

   Ela se recusava a deixá-lo morrer assim. Era por isso que faria o que fosse preciso para vencer e conquistar sua vaga como uma das representantes da Academia Hagun. Resultados eram tudo o que importava. Ela sabia que o que estava fazendo não era certo, mas também não acreditava que fosse errado. Se alguém fraco precisasse vencer alguém forte a todo custo, não poderia se dar ao luxo de lutar de forma justa e honesta. Era cruel, mas essa era a realidade.

“Vou recuperar meu dojo, não importa o quê. Mesmo que isso signifique que o Kurogane-kun me odeie pelo resto da vida” — disse Ayase ao seu pai em coma. Tudo o que ela queria era fazer com que ele não precisasse mais se desculpar.

   Enquanto olhava para Kaito, ela reafirmou sua determinação. O caminho que escolhera não era justo, mas ela não hesitaria mais. Não importava se isso custasse sua dignidade — sua honra como cavaleira. Ela venceria a qualquer custo e teria seu dojo de volta. Isso era tudo o que importava para Ayatsuji Ayase.

 

 

“Desculpem pela espera, pessoal! Finalmente chegou a hora da primeira partida no sexto campo de treinamento! Eu sou Isogai, do terceiro ano do clube de transmissão, e serei a seu locutora para esta partida! Também temos a professora regente da classe 1-1, Oreki Yuuri, aqui para fornecer uma análise mais profunda! Você parece surpreendentemente enérgica hoje, Oreki-sensei!”

“É apenas a primeira partida, então ainda tenho um pouco de resistência em mim. Na terceira partida, eu serei a Yuri-chan de rosto pálido que todos conhecem e amam, tossindo sangue por todo lado. Não se preocupem, crianças, eu trouxe algumas bolsas de transfusão de sangue extras para me ajudarem a passar o dia!”

“Acho que isso significa que as partidas de hoje serão bem sangrentas, hein? Ok, chega de piadas ruins, vamos apresentar nossos combatentes!”, gritou a locutora animadamente.

“Vindo do canto azul está o Rank F de quem todos têm falado, o calouro Kurogane Ikki! Até agora, ele ostenta um recorde perfeito de dez vitórias!”

   Ikki havia construído uma base de fãs considerável entre um subconjunto de alunas, e elas explodiram em vivas enquanto o Worst One fazia sua entrada.

“Uau! Isso é muito incentivo! Parece que o Kurogane se tornou bem popular!”, disse a locutora.

“Ele certamente tem muitas fãs femininas”, acrescentou Oreki.

“Ele tem uma verdadeira história de superação a seu favor, considerando que ainda é Rank F apesar de ser tão forte. Consigo ver por que ele construiu uma base de fãs!”

“Tendo passado um tempo com ele como sua professora, a popularidade dele não me surpreende de verdade.”

“Apenas algumas semanas atrás, ele era um desistente sem nome que teve que repetir um ano, mas agora que a administração da Academia Hagun mudou, o Worst One finalmente recebeu uma chance de mostrar sua força real! Com o quão aguçados são seus sentidos de combate, não seria um grande choque se ele acabasse sendo um dos representantes da nossa escola para o Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas! Mas chega de Kurogane! Vindo do canto vermelho, temos sua oponente, outra combatente que acumulou dez vitórias seguidas — a Rank D do terceiro ano, Ayatsuji Ayase!”

   Ayase apareceu alguns segundos depois de Ikki, seu longo cabelo preto fluindo ao vento.

“Em uma estranha reviravolta do destino, ela também é treinada em esgrima, assim como Kurogane”, continuou a locutora. “Na verdade, ela venceu todas as suas partidas até agora apenas com a força de sua esgrima! De acordo com Kusakabe Kagami-san, do clube de jornal da Academia Hagun, ela até teve lições de esgrima com Kurogane! Em outras palavras, a partida de hoje será uma batalha entre mestre e discípula! Será que a aluna conseguirá superar seu mestre na batalha que está por vir, ou Kurogane emergirá vitorioso mais uma vez?!”

Cof, cof. A batalha de hoje será difícil para Ayatsuji-san”, disse Oreki.

“De fato. Diferente de Kurogane, que foi confrontado com oponentes perigosos como o Hunter ou Runner’s High, Ayatsuji apenas lutou contra cavaleiros de Rank E até agora. Suas dez vitórias consecutivas devem-se, pelo menos em parte, ao fato de que ela teve sorte o suficiente para ter lutado apenas contra oponentes fracos.”

“Que tipo de Blazer ela é?”

“Infelizmente, temos muito pouca informação sobre Ayatsuji. Ela não participou de nenhuma partida oficial nos últimos dois anos e, como mencionei anteriormente, ela derrotou todos os seus oponentes anteriores nas eliminatórias apenas com esgrima, então não vimos quais são as habilidades de Blazer dela. Talvez esse trunfo oculto seja o que a permitirá superar Kurogane! Pois bem, parece que ambos os lutadores alcançaram suas posições iniciais!”

   Ayase e Ikki estavam parados no centro da arena de cem metros de largura, a cerca de vinte metros de distância um do outro.

   Como o locutor havia mencionado, os dois haviam passado algum tempo treinando juntos.

   Mas os dois não estavam olhando um para o outro como se fossem bons amigos.

     Essa é uma expressão bem arrepiante, Ayase refletiu enquanto olhava Ikki nos olhos.

   De fato, Ikki parecia mais sombrio e mais agourento do que ela jamais o vira.

   Ele estava obviamente zangado com ela.

   Afinal, esse tipo de truque sujo era considerado um ato inacreditavelmente vergonhoso entre artistas marciais.

   No entanto, Ayase não se arrependia de suas ações.

   Ela havia resolvido seguir por este caminho não importa o custo.

     Se houver algo, isso pode funcionar a meu favor.

   Ikki não teve tempo suficiente para regenerar toda a sua mana, o que significava que ele não seria capaz de usar o Ittou Shura. Além disso, estava claro que ele estava mais tenso do que o normal, provavelmente porque estava deixando suas emoções nublarem seu julgamento. Até Ayase conseguia notar que a postura dele estava um pouco fora do lugar.

   Se ele estivesse com muita raiva para manter a calma, não seria capaz de lutar com a eficiência máxima. Como Ikki era muito mais forte que ela, ela tinha que fazer tudo em seu poder para diminuir essa lacuna de alguma forma.

   Sendo esse o caso, o fato de Ikki estar zangado funcionava para ela. Especialmente porque ela havia montado uma armadilha para ele nesta arena. Ela viera aqui à meia-noite antes da partida para prepará-la.

     Se ele perdeu a calma, ele pode realmente cair na minha armadilha.

“Tudo bem, pessoal, digam comigo! Vamos em frente!”

 

 

   O sinal sonoro indicando o início da batalha disparou, e Ikki imediatamente disparou em direção a Ayase. Ele manteve o corpo baixo e usou a força de todos os seus músculos para impulsioná-lo, não apenas as pernas.

   Ayase percebia que ele estava tentando encerrar aquilo o mais rápido possível. Ela nem sequer havia levantado a Hizume, o que significava que não seria capaz de bloquear o primeiro golpe dele.

   Mas isso só seria verdade se ela tratasse aquilo como uma batalha entre esgrimistas comuns. Os dois eram Blazers!

“Você caiu nessa!”, gritou Ayase, e a Hizume começou a brilhar em vermelho.

   Um segundo depois, o sangue jorrou de vários cortes que surgiram subitamente no corpo de Ikki.

“Gaaah!”, Ikki gritou de dor e desacelerou consideravelmente.

“O-O-O-O que diabos foi isso?!”, exclamou a locutora. “Kurogane foi subitamente fatiado em tiras! Como Ayatsuji fez aquilo?!”

“I-Ikki-kun?!”, gritou uma das fãs de Ikki, preocupada.

“O quê?! Como o Worst One foi cortado desse jeito?!”, perguntou outro espectador chocado.

   Ninguém que assistia foi capaz de descobrir o que exatamente Ayase havia feito.

   No entanto, estava claro que não teria sido possível sem os poderes de um Blazer, o que significava que devia ter sido uma Noble Art.

     Minha habilidade me permite reabrir qualquer corte que eu tenha feito com a Hizume.

   Isso significava que até o menor arranhão poderia se tornar um corte profundo até o osso através da aplicação repetida de seu poder.

   E isso era apenas o que ele fazia com as pessoas.

   A habilidade de Ayase funcionava em qualquer coisa, incluindo o próprio ar.

   Qualquer corte que ela fizesse no ar vazio poderia ser reaberto sempre que ela quisesse, criando um pequeno vácuo que cortava qualquer coisa que ocupasse aquele espaço naquele momento.

   Ela apelidara esta Noble Art de “Windscar”.

   Antes de seu encontro com Ikki, ela viera aqui e fizera um monte de golpes vazios com a Hizume por todo o sexto campo de treinamento, transformando-o em um campo minado.

     Eu fiz mais de cem cicatrizes por toda a arena. Não importa o quão bom você seja em ver através das pessoas, Kurogane-kun! Você não será capaz de parar ataques que não pode ver! E olhe, você já caiu na minha armadilha uma vez.

   Isso era, claro, contra as regras das partidas de seleção.

   Teria sido aceitável se ela tivesse montado esse campo minado durante a partida, mas preparar armadilhas de antemão não era permitido.

   Mesmo assim, como seus cortes de vácuo eram invisíveis, era extremamente difícil para qualquer um descobrir o que ela estava fazendo.

   Ela estivera preocupada que uma Blazer habilidosa como Oreki pudesse ser capaz de ver através de seu truque, mas, até agora, ela não havia tentado parar a partida.

     Eu posso me safar com isso!, Ayase comemorou consigo mesma.

   Se ela tivesse conseguido enganar Oreki, estava confiante de que ninguém perceberia que ela estava trapaceando.

   Os cortes feitos pelos vácuos da Windscar eram um subproduto de seu poder, não um resultado direto dele. Isso significava que ela não podia aprofundar cortes feitos por eles.

   Além disso, os cortes em si eram bastante rasos, já que os vácuos não eram muito grandes. No entanto, se ela desferisse sequer um único golpe de raspão em Ikki com a Hizume, sua vitória estaria garantida.

   Desde que ela tivesse um corte de qualquer tipo para trabalhar, ela poderia continuar reabrindo-o até que atingisse o osso, tornando-o uma lesão debilitante. O plano de Ayase era desgastar Ikki com a Windscar e, então, desferir um único golpe direto nele com a Hizume.

     Contanto que eu consiga fazer isso, eu vencerei!

   A questão era: quando ela deveria partir para o golpe decisivo? Ikki era um esgrimista soberbo. Tendo estudado sob sua tutela por alguns dias, Ayase entendia isso melhor do que ninguém. Se ela julgasse mal o seu tempo, ela seria a pessoa a ser cortada.

   Seu ataque surpresa anterior conseguira parar Ikki em seu avanço, mas não o enfraquecera de fato em nenhum sentido significativo. Sua postura era firme, e ele estava pronto para contra-atacar qualquer coisa que ela lançasse contra ele.

     Ainda não. Eu não serei capaz de vencê-lo em uma troca de golpes ainda. Além disso, se eu não fizer um movimento, o Kurogane-kun definitivamente irá se afastar.

   A investida dele fora interrompida e ele fora retalhado. Ele provavelmente queria recuar e se reorientar.

“Oho, parece que o Kurogane está recuando! Imagino que ele queira se reagrupar e descobrir o segredo por trás dos golpes mágicos de Ayatsuji antes de se comprometer com outro ataque!”, explicou a locutora.

     Peguei você!

“Gah?!”

“O que foi isso?! Desta vez, Kurogane foi cortado por trás! Qual é exatamente o poder de Blazer de Ayatsuji?!”

   Ayase havia moldado perfeitamente uma prisão de golpes fantasmagóricos que ela poderia transformar em vácuos a qualquer momento. Não importava para onde Ikki fosse, ele estava preso.

   Após ser cortado por trás, Ikki caiu sobre um joelho. Aquela era a abertura que Ayase estava procurando.

     Agora é a minha chance! — Ela não tinha certeza se teria uma oportunidade como essa novamente, então imediatamente avançou.

“Kurogane está de joelhos! E parece que Ayatsuji está pressionando o ataque! Isso não está parecendo bom! Kurogane não será capaz de fazer uso de sua esgrima se não estiver de pé!”

   Ayase poderia ter apenas usado sua prisão de golpes fantasmagóricos para desgastar Ikki lentamente até que ele estivesse completamente exausto. Foi o medo que a impulsionou a tentar encerrar a partida tão rapidamente.

     O Kurogane-kun conseguiu vencer o Hunter, afinal.

   Ikki não apenas vencera Kirihara, mas o fizera apesar de estar gravemente ferido e sem realmente ver através da Area Invisible do Hunter. Até o fim, Ikki fora incapaz de ver Kirihara, mas ainda assim descobrira onde Kirihara estava se escondendo e o derrotara. Seus poderes de observação eram verdadeiramente terríveis.

   Ayase não se surpreenderia se ele conseguisse descobrir a localização de suas armadilhas Windscar apenas observando-a.

   Normalmente, algo assim seria impossível, mas ela não duvidava de Ikki. Ele era exatamente esse tipo de cara. Embora uma batalha prolongada inicialmente parecesse favorecer Ayase, se Ikki conseguisse controlar suas emoções, era ela quem estaria em perigo. A verdadeira força de Ikki não residia em sua esgrima soberba ou habilidades físicas aprimoradas, mas em seus poderes de observação divinos e sua inabalável força mental.

     É por isso que eu preciso acertar um golpe nele agora! Tudo bem mesmo se for apenas um arranhão, mas esta é a minha única chance de pegá-lo!

“Haaaaah!”

“Ayatsuji está indo para matar! Olhem para essa chuva feroz de golpes! Kurogane está bloqueando-os por enquanto, mas parece que isso é tudo o que ele consegue fazer enquanto está de joelhos! Será que ele conseguirá suportar este ataque, ou Ayatsuji conseguirá sobrepujá-lo?!”

   Isogai continuava narrando lance a lance.

“Uau! Mesmo com seu posicionamento desvantajoso, parece que os bloqueios de Kurogane estão ficando cada vez mais firmes! Intetsu é uma fortaleza inexpugnável, não deixando passar um único dos golpes de Ayatsuji!”

     Ngh!

   Tudo o que Ayase precisava era de um único arranhão, mas nenhum de seus ataques conseguia alcançar Ikki. Apesar de estar sobre um joelho, Ikki conseguia repelir os golpes dela com apenas alguns movimentos destros de seu pulso. Ela conseguia ver por que o apelido “Rei da Espada Sem Coroa” estava lentamente se tornando popular; a esgrima dele era realmente algo de outro mundo. Mesmo enquanto defendia a enxurrada de golpes de Ayase, ele conseguiu encontrar uma abertura e se levantar.

“Hah!”

“Uau! Depois de suportar o ataque feroz de Ayatsuji, Kurogane está de pé novamente! E agora, ele está partindo para a ofensiva!”

   Ikki ergueu a Intetsu alto e desferiu um golpe com toda a sua força. Foi um corte surpreendentemente desordenado que confiava mais no poder do que na sutileza, mas Ikki tinha um motivo para começar com um ataque tão básico.

   A locutora poderia acreditar nisso, mas este não era um contra-ataque. Ter que bloquear enquanto estava de joelhos havia bagunçado seu ritmo interno e, agora que recuperara o equilíbrio, esse ataque visava dar a ele algum espaço para respirar e recuperar seu ritmo. Era lento, mas também era pesado. Se Ayase esquivasse, isso daria espaço a ele, e se ela tentasse bloquear, ele seria capaz de rebatê-la e garantir distância. De qualquer forma, funcionaria para ele.

   No entanto, Ayase foi capaz de enxergar através do plano dele.

     Não tão rápido!

   Se Ikki ainda não recuperara seu ritmo, aquela era a oportunidade perfeita para ela conseguir seu único acerto. O estilo de espada Ayatsuji era especializado em contra-ataques, e contra-atacar um golpe desleixado era o que Ayase fazia de melhor.

   Se o Kurogane-kun estivesse no auge, eu não seria capaz de contra-atacar nenhum de seus ataques. Mas este golpe não tem técnica por trás! — Normalmente, os cortes de Ikki eram polidos e controlados demais para serem contra-atacados. Tentar fazê-lo apenas levaria Ayase a ser atingida. Este, porém, não passava de uma ameaça vazia que Ikki estava lançando para colocar certa distância entre eles. Claro, havia força por trás do golpe em si, mas não era nem um pouco intimidante. — Eu posso contra-atacar algo assim!

   Ayase segurou a Hizume em um ângulo e parou habilmente o golpe poderoso de Ikki. Enquanto a Intetsu deslizava por sua lâmina angulada, ela concentrou sua força nos dedos dos pés e se impulsionou para frente. Ikki foi desequilibrado, já que toda a sua força havia sido redirecionada, e Ayase balançou a Hizume contra o flanco exposto dele.

     Você é meu! — Mas, para sua surpresa, Ayase sentiu a Hizume colidir com algo duro e inflexível em vez de carne macia. — Ele bloqueou isso?! Mas como?! — Ela havia redirecionado a Intetsu para fora, o que significava que Ikki não deveria ter sido capaz de trazê-la de volta a tempo de bloquear. Olhando para baixo, ela viu que Ikki havia bloqueado não com a lâmina de sua espada, mas sim com o punho dela.

“Que movimento! Ayatsuji pensou que havia conseguido contra-atacar o golpe de Kurogane, mas ele bloqueou o contra-ataque dela com o punho da espada! Isso é que é raciocinar rápido!”, gritou o locutor.

“Kurogane-kun fez algo semelhante quando lutou contra Stella-chan”, observou Oreki. “Se você não puder bloquear com a lâmina, bloqueie com o punho. A defesa de camada dupla de Kurogane-kun é excepcionalmente difícil de romper.”

     Argh! Eu esqueci totalmente que o Kurogane-kun podia realizar bloqueios não ortodoxos como esses! — Ayase queria gritar. O foco de Ikki era inabalável. — Mas espere, como ele pode estar tão focado se ele se perdeu na raiva? A menos que—

“Ah!”

   Ayase relanceou o rosto de Ikki e arquejou. Não havia um traço da fúria que ele demonstrara inicialmente. Ele estava olhando para ela com olhos calmos e controlados, analisando cuidadosamente cada movimento dela e não deixando passar sequer um tique.

     Ele apenas pareceu zangado no início para me atrair?!

   Um calafrio percorreu a espinha de Ayase. Ela imediatamente saltou para trás, colocando uma boa distância entre ela e Ikki. Ela esperava um ataque imediato de Ikki, mas ele não fez menção de persegui-la. Ele apenas ficou parado ali, silenciosamente, observando-a.

     Eu o li errado? De qualquer forma, preciso repensar meus planos. — Ela ainda tinha muitas armadilhas Windscar montadas. Embora não quisesse arrastar essa luta, apressar as coisas poderia levá-la à derrota. Isso exigia uma abordagem mais cautelosa.

“Graças a Deus”, disse Ikki de repente, soltando um suspiro de alívio.

“Hã?” Ayase não tinha ideia do que ele estava se referindo. — Ele está feliz por eu ter colocado distância entre nós novamente?

“Eu estou feliz de ver que você é exatamente o tipo de pessoa que pensei que você fosse, Ayatsuji-san”

   Ikki sorriu, e a mente de Ayase ficou em branco.

 

 

   Ao ouvir as palavras de Ikki, Oreki Yuuri, a professora que estava analisando e oficiando sua partida, sorriu.

   Ela o chamara no início do dia letivo para ouvir por que ele havia danificado a propriedade da escola.

“Sensei, durante a partida que a senhora vai oficiar, minha oponente vai trapacear”, ele começou dizendo.

“Bwuuurgh?!” Ela cuspiu seu café, engasgando tão forte que provocou em si mesma um sangramento nasal. “Hm, o quê?! Vou dar um jeito nesse sangramento, mas enquanto isso, por favor, explique o que você quer dizer!”

   Ikki prosseguiu explicando tudo o que Ayase lhe dissera na noite anterior, e que ela tentara se matar pulando do telhado, então Ikki fora forçado a usar o Ittou Shura e danificar o prédio da escola para salvá-la.

“V-Você está falando sério?”, perguntou Oreki. Se o que Ikki dissera fosse verdade, ela era obrigada a punir Ayase. A garota não seria expulsa por suas ações, mas definitivamente seria desclassificada de participar de qualquer outra partida de seleção. “M-Mas como você sabe que ela vai tentar trapacear durante a partida?”

“Quando ela cortou a cerca, ela não balançou a espada de verdade, mas eu ainda ouvi o som de dois golpes de espada. Com base nisso, embora eu não tenha certeza de como exatamente ela faz isso, acho seguro assumir que o poder da Ayatsuji-san tem algo a ver com ser capaz de criar golpes livremente em qualquer lugar, ou talvez recriar golpes antigos. Nesse caso, ela quase certamente montou múltiplas armadilhas no sexto campo de treinamento onde lutaremos. Ela tentou suicídio apenas para selar o meu Ittou Shura, então ela definitivamente vai tentar tudo o que puder para vencer durante a partida também.”

“É verdade que alguém que chegaria a tais extremos não jogará limpo em uma partida, mas, hmm... Se ela realmente tentou suicídio apenas para prejudicar suas chances na próxima partida, isso é um assunto sério.”

“Mas apenas a minha palavra não é prova, é isso?”

“Basicamente. Eu confio em você, Kurogane-kun, mas uma acusação verbal sozinha não é o suficiente para cancelar uma partida. Obrigada por me contar, no entanto. Vou ficar de olho durante a luta. Se eu a pegar trapaceando, suspenderei a partida imediatamente. Então não se preocupe. Você apenas—”

“Na verdade, eu queria pedir para a senhora fazer o oposto. Não pare a partida mesmo que a pegue trapaceando.”

   Oreki ficou tão chocada que o sangue começou a jorrar de seu nariz mais uma vez. A perda de sangue foi o suficiente para deixá-la tonta, e ela cambaleou um pouco enquanto se levantava e pegava mais lenços para estancar o nariz.

“O que diabos você está dizendo, Kurogane-kun? Se você não quer que eu pare a partida, por que me contou tudo isso?”

 

 

 

 

 

 

“Quero dizer, a senhora me perguntou por que eu danifiquei o prédio da escola, então eu tive que explicar a situação. Além disso, conhecendo a senhora, Oreki-sensei, mesmo se eu não tivesse dito nada, provavelmente teria notado a Ayatsuji-san trapaceando. E então a senhora teria interrompido a partida. Eu não quero que faça isso.”

“Mas por quê?! Se ela for desclassificada por trapacear, será a sua vitória! Com certeza você já percebeu a esta altura o quão importante é acumular o máximo de vitórias possível.”

“Eu percebi. Pelo que parece, apenas aqueles que permanecerem invictos serão escolhidos como representantes para o Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas.”

“Isso mesmo. Vou ser direta, esse é basicamente o critério do diretor. Você realmente quer que eu não interrompa a partida apesar disso?”

“Sim. Por favor, Sensei.”

   Oreki não entendia o que estava passando pela cabeça de Ikki. Ele ansiava pela vitória mais do que qualquer outra pessoa. Ela o conhecia desde que ele fizera o exame de admissão da Academia Hagun. Na verdade, ela fora sua examinadora.

   Ikki era o candidato mais motivado que ela já vira. Doía em seu coração saber que ele perdera um ano por causa do quão desprezíveis eram os adultos ao redor dele.

   E agora que ele finalmente recebera uma chance justa, ela esperava que ele fizesse tudo em seu poder para acumular o máximo de vitórias possível. No entanto, ali estava ele, curvando a cabeça e pedindo a ela para não desclassificar sua oponente, apesar do fato de que ela estava prestes a cometer o maior pecado que um cavaleiro poderia cometer.

“Você pode ao menos me dizer o porquê?”

“Porque eu quero acreditar.”

“Acreditar em quê?”

“Desde que me encontrei com a Ayatsuji-san ontem à noite, estive pensando. Eu poderia fazer o que o Alice me aconselhou e cortar todos os laços com ela. Eu poderia deixar que ela fosse desclassificada por trapacear e garantir minha vitória. Mas não tenho certeza se essa é a coisa certa a se fazer. Mesmo depois de pensar sobre isso todo esse tempo, ainda não tenho certeza, mas há uma coisa que percebi.”

“E o que é?”

“Eu não quero que este seja o fim da nossa amizade. Sendo esse o caso, a única coisa que posso fazer é continuar acreditando nela até o fim. Acreditar que esta não é quem ela realmente é, e que ela foi levada a medidas tão drásticas por um bom motivo.”

   Ikki vira o deleite puro e infantil no rosto de Ayase quando ela chegara um pouco mais perto de dominar a esgrima de seu pai. Ele se lembrava de como ela dissera que gostava de suas mãos ásperas e calejadas. Ele se recusava a aceitar que tudo aquilo tivesse sido uma mentira.

“É por isso que decidi confiar que a verdadeira ela não é o lado que vi ontem à noite, mas a pessoa que conheci nos últimos dias.”

   Pessoas desesperadas faziam coisas desesperadas. Ao agirem assim, elas frequentemente perdiam a noção de si mesmas. Ikki havia experimentado isso pessoalmente, então ele entendia muito bem.

   Quando as pessoas ficavam presas nessa rotina, a única coisa que poderia tirá-las de lá era a ajuda de um terceiro — alguém que se importasse com elas. Se Ayase estava se sentindo tão desesperada e impotente quanto Ikki estivera quando Stella o salvou, então ela definitivamente também não conseguia ouvir os gritos de seu próprio coração.

“Eu quero ajudá-la. Então, por favor, Sensei. Dê-me uma última chance de determinar por mim mesmo quem ela realmente é.”

     Puxa. Você não pode se chamar de cavaleiro se recusar um pedido como esse.

   Ser sempre sincero, mesmo com seus oponentes, era o que um cavaleiro ideal deveria se esforçar para fazer. Oreki também acreditava nisso, e foi por isso que concedeu o pedido de Ikki.

   Ela havia, de fato, percebido exatamente como Ayase trapaceara no momento em que Ayase usara sua primeira Windscar, mas não pedira para a partida ser interrompida.

   Ela decidira confiar o destino da garota às mãos de seu amigo, Kurogane Ikki. Assim, ela assistia em silêncio, sabendo que interferir significaria desdenhar da determinação de seu orgulhoso aluno.

     Certifique-se de salvar sua amiga, Kurogane-kun.

[Almeranto: Quando eu chego nessa parte, as vezes penso: E se ele não tivesse essa conversa com Oreki e realmente tivesse cortados os laços com Ayase? — Provavelmente ela seria desclassificada na hora e perderia tudo. Seu orgulho como cavaleira, seus amigos, sua razão e o pior: seu pai. Dá até um arrepio pensar nisso. Ela ia se corroer completamente. Ainda bem que o Ikki é o Ikki.]

 

 

   Desde o início, tudo estava indo de acordo com o plano de Ikki. Ele sabia que Ayase havia montado armadilhas por toda a arena, e também sabia que ela tentaria encerrar as coisas rapidamente porque tinha medo de um duelo longo e prolongado. Ele propositalmente se lançou nas armadilhas dela para atraí-la para o ataque, tudo para que pudesse se comunicar com ela através da esgrima.

     Eu deveria ter feito isso desde o começo.

   Ikki não conseguia acreditar no quão estúpido havia sido. Ele era tão lerdo que levou um mês inteiro para perceber o que sua namorada estava pensando. Era uma total tolice acreditar que ele poderia ter entendido Ayase apenas conversando com ela.

   No fim, era através da espada que ele se comunicava melhor. Era apenas através da espada que ele conseguia enxergar a verdadeira natureza de uma pessoa. E agora, ele havia vislumbrado a de Ayase.

“Graças a Deus. Fico feliz em ver que você é exatamente o tipo de pessoa que eu pensei que fosse, Ayatsuji-san.”

“O que você quer dizer com isso?”

“Quero dizer que você não consegue evitar se sentir culpada depois de fazer algo que considera errado.”

“E eu aqui pensando que você finalmente tinha aprendido. Aha ha ha. Não acredito que você diria isso depois de eu ter te retalhado tanto. Existe uma coisa como ser gentil demais para o seu próprio bem. Você sabe disso, certo?” Ayase deu a Ikki o mesmo sorriso frio e desdenhoso que dera no telhado na noite anterior.

“Estou dizendo isso porque é verdade.” Aquele sorriso falso não conseguiu abalar Ikki. Afinal, a esgrima de uma pessoa não mentia. “Seus ataques, seu trabalho de pés, seu ritmo e até sua respiração estão todos bagunçados. Esqueça o que eu te ensinei, você não está nem fazendo uso das técnicas que aprendeu antes de me conhecer. Até o seu precioso contra-ataque foi inacreditavelmente desleixado. É por isso que consegui bloqueá-lo tão facilmente. Não importa o quanto você tente agir como se fosse má o tempo todo, você não pode me enganar. Você é honesta até a medula.”

   Ikki continuou.

“Mente, corpo e técnica. Você precisa dominar os três para se tornar um verdadeiro esgrimista. Com sua mente em tal desordem, você não consegue manifestar nem metade da sua força real. Ayatsuji-san, você é uma pessoa mais honrada do que percebe.”

“I-Isso não é verdade!” — A voz de Ayase subiu alguns oitavos. — “Eu não estou hesitando nem um pouco! Eu percebi há dois anos que não importa o quão honradamente você lute, se você perder, você ainda perde tudo! Honra e dignidade não têm sentido se você não tem a força para protegê-las! Seus ideais não têm sentido se você não consegue produzir resultados! É por isso que eu vou vencer a todo custo e recuperar o que foi roubado de mim!”

   Para Ikki, parecia que ela estava tentando convencer a si mesma mais do que tentava convencê-lo. Em seu desespero, ela havia fechado os ouvidos para os gritos de seu próprio coração. O que ela estava fazendo não era diferente do que ele mesmo fizera ao lutar contra Kirihara.

“Nesse caso, só há uma coisa para eu fazer.” Era o trabalho de Ikki abrir os ouvidos dela e deixá-la ouvir esses gritos. Ele apontou a Intetsu para Ayase e declarou: “Usando tudo o que tenho, eu irei restaurar a sua honra!”

 

 

“Parece que Kurogane está se preparando para avançar novamente!” — gritou a locutora. — “Ele não parece mais ter medo daqueles golpes invisíveis! Será que ele descobriu o truque por trás deles?! Ou ele apenas acha que pode encerrar esta partida rápido o suficiente para que isso não importe?!”

   Ayase imediatamente deu mais alguns passos para trás para aumentar a distância entre eles. Mas, embora parecesse exteriormente calma, seus pensamentos eram uma bagunça.

     Eu não acredito de verdade no que estou dizendo? Há! Até parece! — Ayase se recusava a acreditar que aquilo fosse verdade. — Eu tenho que ir muito longe para recuperar o meu dojo e deixar o papai em paz! Minha determinação não vai vacilar! Não importa o que o Kurogane-kun diga, não estou enganando a mim mesma! Na verdade, ele provavelmente só está dizendo isso para mexer comigo! — Ayase continuava dizendo isso a si mesma para evitar ter que pensar profundamente sobre seus sentimentos.

     Além disso, mesmo que uma parte de mim ache que isso é errado, eu ainda preciso vencer!

   Havia agora trinta metros separando Ayase e Ikki. Armadilhas Windscar haviam sido montadas ao longo de toda essa extensão. Ayase já tinha uma boa ideia da velocidade máxima de corrida de Ikki e estava pronta para ativar o próximo conjunto para atingir seus pontos vitais.

“Aqui vou eu, Ayatsuji-san” — disse Ikki, então inclinou-se para frente e começou a disparar.

     Agora!

   Imediatamente, Ayase usou a Hizume para ativar as Windscars que deixara bem à frente de onde Ikki estava. Os vácuos criados por seus golpes fantasmas estavam preparados para cortar o pescoço dele.

“O qu—”

   Mas para a surpresa de Ayase, Ikki moveu-se muito mais rápido do que ela previra, passando por suas Windscars antes que os vácuos pudessem se formar. Sua velocidade estava no mesmo nível de quando ele usava o Ittou Shura.

“Essa velocidade nunca deixa de me surpreender! Parece que Kurogane finalmente ativou seu trunfo, o Ittou Shura!”, anunciou Isogai.

     M-Mas como?! Eu o vi usar isso ontem à noite!

“Não, isso não é o Ittou Shura”, explicou Oreki, seu comentário ajudando a esclarecer a confusão de Ayase.

“Hã? O que a senhora quer dizer, Oreki-sensei?”

“Ele está simplesmente usando mana para se impulsionar para frente, como todo mundo faz.”

     Eu esqueci disso!

   Naquele momento, Ayase percebeu o quão raso seu plano fora. Ao expelir mana do corpo, um Blazer podia acelerar a velocidades desumanas. Era uma forma muito básica de fortalecimento corporal que quase todos os Blazers podiam fazer por padrão, incluindo Ayase.

“Kurogane-kun tem uma reserva de mana excepcionalmente pequena, então ele normalmente não usa mana para propulsão. Ele ficaria sem nada após um ou dois usos se fizesse isso. Mas só porque ele não usa essa técnica não significa que não consiga. Parece que, por algum motivo, ele não pode usar o Ittou Shura agora, então decidiu usar a pouca mana que tem para aceleração.”

   Exatamente como Oreki dissera, havia uma diferença entre “não fazer” e “não conseguir”. Ikki raramente usava técnicas que envolvsem mana porque sua reserva de mana era muito baixa. No entanto, como ele não havia recuperado mana suficiente para usar o Ittou Shura novamente, não havia razão para ele conservar o pouco que havia recuperado, então ele a usou para se acelerar. Isso estava permitindo que ele fosse tão rápido quanto quando usava o Ittou Shura, embora apenas por esta única vez.

     Eu estive tão focada no Ittou Shura que esqueci que ele podia usar mana em outras coisas!

   Devido ao erro fatal de Ayase, Ikki já havia encurtado a distância entre eles o suficiente para que ela não conseguisse ativar nenhuma de suas Windscars a tempo. Ele havia enxergado através dela.

     Mas ainda não acabou! — Ikki estava agora em alcance de ataque, o que significava que ela seria forçada a cruzar espadas com ele, possivelmente por mais de um embate. Contanto que ela conseguisse sobreviver a um golpe, porém, seria capaz de ampliar a distância entre eles novamente. E, desta vez, ele não seria capaz de surpreendê-la porque estaria sem mana. Tudo o que ela tinha que fazer era bloquear o ataque dele, ou pelo menos amortecê-lo o suficiente para que não a incapacitasse. Se eu conseguir apenas aguentar firme, então serei capaz de dar a volta por cima!

   Com um grito de batalha vigoroso, Ayase desceu a Hizume contra Ikki, esperando forçar uma resposta. Mas, para sua surpresa, sua lâmina cortou o ar vazio.

“O quê?!” Ela tinha certeza de que Ikki estava bem à sua frente e, no entanto, sua espada passou inofensivamente diante dele. — Eu julguei mal a distância entre nós? Não, isso não pode estar certo. Ele definitivamente estava no alcance!

   Enquanto ela observava, o Ikki que ela pensou ter cortado desapareceu em uma névoa nebulosa, e outro Ikki apareceu atrás dele. Ayase não conseguia compreender o que estava vendo, e sua mente ficou completamente em branco. Sua confusão era compreensível, já que Ikki usara uma das sete técnicas originais que ele mesmo desenvolvera. Ao usar um trabalho de pés excepcionalmente avançado, ele criara uma pós-imagem que parecia estar correndo à frente dele, em vez de atrás.

“Quarto Estilo de Espada: Flicker Mirage.”

   Ayase estava indefesa após errar seu ataque, e Ikki rapidamente moveu a Intetsu para cima contra ela.

 

 

“Ele fez de novooo! É um golpe limpo de Kurogane!”, declarou a locutora, e os espectadores explodiram em vivas. “Ayatsuji está de joelhos! Mas esperem, ela não está sangrando! Será que Kurogane...”

Cof, cof. Sim, ele mudou seu Device para a forma fantasma no momento em que a cortou.”

“Então tudo o que ele fez foi drenar a energia dela e não desferir um golpe final de fato?”

“Correto.”

“Mas por que ele faria isso? Ele tem algum credo sobre não ferir mulheres ou algo assim?”

“Definitivamente não. Ele não hesitou em me cortar quando lutamos uma vez anteriormente. Suspeito que ele estava visando drenar a estamina dela desde o início. O objetivo dele nesta batalha é mais do que apenas a vitória, afinal.”

   Oreki murmurou a última frase baixo o suficiente para não ser captada pelo microfone. Ela olhou para o ringue e observou Ayase colocar as mãos no chão e tentar se levantar novamente.

   Tremendo, Ayase olhou furiosa para Ikki e perguntou: “O que você está tramando?”

“O que quer dizer?”

“Não se faça de idiota! Por que você não me cortou?!”

“Porque eu não precisei. Você já não consegue mais lutar.”

     Você está tentando me humilhar para se vingar de mim?!

   Furiosa, Ayase colocou tanta força em seus braços e pernas quanto pôde. Como ela havia sido cortada por um Device em forma fantasma, seu corpo estava ileso. Era verdade que ela perdera parte de sua estamina, mas ela treinava esgrima desde jovem. Ela tinha muito mais estamina do que o Cavaleiro-Mago comum e, de fato, conseguia acompanhar Ikki e Stella em suas corridas matinais. Um pouco de exaustão não seria o suficiente para tirá-la desta luta.

“Hã?”

   Apesar de ainda ter muita energia sobrando, ela não conseguia direcionar nada disso para seus músculos.

“Por que...” Se ela não se levantasse, se não vencesse esta partida, perderia tudo de vez. Embora o destino de seu pai dependesse dela, ela não conseguia reunir forças para ficar de pé novamente.

     Eu me importo tão pouco assim com o meu pai?

   Não importa o quanto ela se repreendesse, não conseguia reacender sua determinação para continuar lutando. Naquele momento, ela percebeu que, lá no fundo, sentia repulsa pela ideia de continuar aquela partida vergonhosa por mais tempo. O cerne de seu ser estava se rebelando contra as ações que ela tomara para armar aquela luta injusta.

     Entendo... Então é assim que eu me sinto de verdade...

   Quando as pessoas eram acuadas contra a parede, apenas aquelas que acreditavam em algo conseguiam encontrar forças para continuar. Até agora, Ayase fora capaz de se pressionar facilmente sempre que as coisas pareciam difíceis. Não importa o quão rigoroso o treinamento de seu pai se tornasse, ela continuava brandindo sua espada até que suas mãos estivessem em carne viva e sangrentas. Ela fora capaz de fazer isso porque tinha orgulho do que o Estilo de Espada Ayatsuji representava e acreditava nos ideais que ele defendia. Isso, por sua vez, dera a ela a força para acreditar em si mesma. Mas agora que ela agira contra esses ideais, o alicerce que sustentava sua determinação havia desmoronado.

“Você tem razão, Kurogane-kun.” — Ela realmente não tinha forças para se levantar. — “Eu perdi.”

 

 

“Uau! Parece que Ayatsuji está jogando a toalha! É o fim da partida! Kurogane acumulou mais uma vitória, somando onze vitórias consecutivas! Ele derrotou grandes nomes para chegar até aqui, como o Hunter e Runner’s High! É quase garantido que ele será um de nossos representantes para o Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas agora!”

   Ayase sorriu tristemente enquanto olhava para a multidão que vibrava.

“Eu sou tão patética. Eu não tive o que era necessário para jogar fora meus princípios, mas também não tive a determinação de me manter fiel a eles”, disse ela. Ela não suportava o quão medíocre havia sido em relação a tudo.

“Isso não é verdade, de forma alguma”, afirmou Ikki com firmeza.

“Hã?”

“É verdade que você cometeu erros e, por um tempo, perdeu a noção de si mesma. Mas, ao final de tudo, você ainda não tinha jogado esses princípios fora. Isso não é um defeito, é algo de que se orgulhar.” Ele estendeu a mão para Ayase. “Ayatsuji-san, por favor, me diga: o que foi que o Sword Eater roubou de você? O que a levou a medidas tão drásticas?”

“O que você vai fazer quando descobrir?”

“Eu vou recuperar o que quer que tenha sido para você.”

   Não havia o menor traço de hesitação na voz de Ikki. Ayase sabia, sem sombra de dúvida, que se ela lhe contasse, ele lutaria contra Kuraudo em seu nome. E foi precisamente porque percebeu isso que ela não podia contar.

“Não. Isso não tem nada a ver com você, Kurogane-kun.”

   Ela não podia deixar Ikki lutar contra aquele monstro. Ela não queria ver o garoto gentil que já tinha feito tanto por ela se machucar por sua causa. Especialmente não quando ela tinha sido tão indecisa.

     Já é ruim o suficiente que o papai tenha tido que sofrer nas mãos dele. Não quero que isso aconteça com mais ninguém. — Ayase franziu os lábios, deixando claro que não seria convencida.

“Tudo bem”, disse Ikki, “então eu apenas investigarei por conta própria.”

“Hã?”

“Eu vou seguir você dia e noite e perguntar a todos que tenham a menor conexão com você o que eles sabem.”

“N-Não seja ridículo.”

“Eu vou descobrir por mim mesmo e, então, roubarei tudo de volta para você. Já que você me perseguiu antes, é justo que eu a persiga de volta. Você não tem nenhuma reclamação sobre isso, certo?”

     Não há nada de justo nisso! Você só vai estar me ajudando de novo!

“Por que...” A voz de Ayase tremeu, e lágrimas começaram a brotar de seus olhos. “Eu traí você, Kurogane-kun. Eu fiz algo horrível com você, então por quê? Por que você ainda está tentando me ajudar?”

   Ikki olhou-a nos olhos e disse simplesmente: “Se uma amiga minha está chorando, eu preciso de um motivo para querer ajudá-la?”

   Ayase arquejou de surpresa. Naquele momento, Ikki a lembrou muito de seu pai, Kaito, o Último Samurai. Kaito ostentara exatamente a mesma expressão quando se levantara para lutar pelo bem de seus discípulos feridos. E, assim como Kaito, Ikki não desembainhava sua espada se alguém o insultasse ou cuspisse em seu rosto. No entanto, se alguém machucasse aqueles que lhe eram próximos, ele não hesitaria.

     Como eu pude esquecer?

   Em algum momento, Ayase perdera de vista o fato de que era por isso que admirava tanto o seu pai e por que treinara tão arduamente para se tornar mais parecida com ele. Ela olhou para as próprias mãos. Estavam cobertas de calos ásperos e não eram, de forma alguma, bonitas. Eram as mãos rudes de um esgrimista — as mesmas mãos de seu pai e de Ikki.

     É verdade. Eu empunhei a espada porque queria ser uma esgrimista legal como o meu pai.

   Ela estivera tão compenetrada em tentar recuperar seu dojo que esquecera por que começara a praticar naquele dojo, em primeiro lugar. O poder de Kuraudo fora tão esmagador que ela se convencera de que precisava fazer o que fosse necessário para vencer. Mas agora, ela finalmente se lembrara daquilo em que acreditava, e fechou as mãos em punhos. Ela havia tomado sua decisão.

“Kurogane-kun... por favor, me ajude!”

   Aquele não era o momento para dar as costas aos ensinamentos de seu pai, às suas crenças, e fingir que era a heroína trágica de alguma novela. Se ela realmente queria seu dojo de volta, precisava pedir ajuda ao seu amigo forte e gentil demais, e confiar que ele sairia vitorioso. Assim, Ayase aceitou a mão estendida de Ikki.

“Era exatamente isso que eu queria ouvir”, disse Ikki com um sorriso, e então deu um aperto firme na mão dela.

[Almeranto: CI-NE-MA! Que final de capítulo meus amigos! Ikki mais uma vez representando aqui, ele é o GOAT da parada, não tem jeito.]





 

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