Volume 2
Capítulo 2: A Hora das Bruxas
“Vamos à piscina amanhã.”
Foi o que Ikki disse a Ayase ontem, ao final da sessão de treinamento. Ele acabara de registrar sua décima vitória consecutiva, mas não a estava convidando para a piscina apenas para se divertir.
Embora Ayase não tivesse notado, o treinamento constante havia cobrado um preço alto de seu corpo, e sinais de exaustão começavam a aparecer. Desde que ajustara sua postura, ela estava usando músculos que não utilizava ou treinava antes, e eles estavam atingindo seus limites. Portanto, Ikki decidira fazer de hoje um dia de descanso. Felizmente, a piscina era o lugar perfeito para descansar e se recuperar, sem deixar de realizar um treinamento valioso.
“Então, você vem também, Stella?”, Ikki perguntou, virando-se para Stella enquanto esperava por Ayase no portão principal. Ela usava um vestido branco que combinava perfeitamente com a vibe do verão.
“Obviamente. Se eu tirar os olhos de você, você vai começar a assediar sexualmente a Senpai de novo.”
“Eu nunca fiz isso, nem uma vez.”
“Mentiroso. Você está dizendo que é normal tocar nas coxas de outra garota?”
“Eu precisei fazer aquilo para corrigir a postura dela. Além disso, eu estava tão focado em garantir que não erraria nada e arruinaria as artes marciais dela para sempre que nem tive tempo para pensamentos impuros.”
Stella estivera irritada nos últimos dias, e Ikki não era tão lerdo a ponto de não perceber o porquê. Ela não gostava que ele estivesse passando tanto tempo com Ayase. Ele não a culpava; ele também ficaria incomodado se ela de repente ficasse super amigável com outro cara. Afinal, ela era sua namorada. Mas, embora entendesse os sentimentos de Stella, ele ainda precisava defender sua honra.
“Stella, eu prometo que não tenho nenhum interesse romântico na Ayatsuji-san”, explicou ele. “Por favor, acredite em mim. Eu realmente só a estou ensinando como um colega espadachim. Todo mundo passa por momentos em que precisa de alguém para lhe ensinar, para que possa ficar mais forte.”
Nunca houve ninguém para ensinar Ikki. Todos os adultos que deveriam ter sido seus mentores acabaram, em vez disso, ficando em seu caminho. Ele sabia melhor do que ninguém o quão doloroso era ter que superar obstáculos sozinho, e era por isso que queria estar lá para ajudar qualquer um que estivesse lutando de maneira semelhante.
“Estou ajudando a Ayatsuji-san porque quero ser capaz de ajudar as pessoas que precisam, não porque gosto dela. Eu juro pela minha alma. A... A única pessoa que eu amo é você, Stella.”
“Ikki...”
Stella corou e olhou para Ikki. Ele notou que ainda havia um pouco de incerteza nos olhos dela.
Em sua cabeça, Stella sabia que Ikki realmente não nutria sentimentos românticos por Ayase. O homem por quem ela se apaixonara não era um paquerador infiel. Ainda assim, ela não conseguia evitar a preocupação. Para todos os efeitos, o relacionamento deles só existia no papel. Eles não haviam feito nada, de fato, para significar que eram namorado e namorada.
Os lábios rosados de Stella tremeram, quase como se buscassem algo de Ikki.
Claro. Como pude ser tão impensado? Se eu puder provar que o que eu disse a ela naquela noite era verdade com ações e não apenas palavras, então talvez a Stella não fique tão preocupada. Eu...
Ikki se inclinou para perto, atraído pelos lábios de Stella.
“Desculpem o atraso! Levei uma eternidade para encontrar meu traje de banho!”
“Waaah?!” Ikki e Stella gritaram em uníssono, saltando para longe um do outro.
“Hum? Por que vocês dois parecem tão nervosos? Até parece que são um casal em um encontro secreto ou algo assim.”
Ela acertou em cheio!
Ayase era surpreendentemente perceptiva, e tanto Ikki quanto Stella começaram a suar frio.
“N-Não é nada! Certo, Ikki?!”
“Sim! Nós só ficamos surpresos, só isso!”
“Hum?”
Ayase lançou aos dois um olhar curioso. Parecia que ela não tinha realmente descoberto que os dois estavam namorando; fora apenas uma analogia. Ikki rapidamente mudou de assunto e conduziu as duas em direção à piscina.
Foi por pouco. — Se a notícia de que eles estavam namorando se espalhasse, seria um escândalo enorme. Ikki resolveu ser mais cuidadoso ao escolher a hora e o lugar certos para flertar com Stella. — Embora eu desejasse que a Ayatsuji-san tivesse chegado só um pouquinho mais tarde...
Aquela tinha sido a primeira vez que surgiu um clima realmente bom entre eles desde que começaram a namorar. Se Ayase tivesse demorado apenas um minuto a mais, Ikki poderia finalmente ter beijado Stella. Lamentando a oportunidade perdida, ele suspirou para si mesmo e balançou a cabeça.
◆
A Academia Hagun possuía um campus vasto, então, naturalmente, havia uma piscina nos terrenos da escola. Duas delas, na verdade — cada uma com cem metros de comprimento.
No entanto, a primeira estava fechada para limpeza, e a diretora da escola — a ex-terceira melhor lutadora do mundo no King of Knights, Shinguuji Kurono — havia reservado a segunda para uma palestra especial que daria hoje. Como resultado, Ikki e as garotas decidiram ir a uma piscina térmica coberta em uma academia de esportes próxima.
Ikki vestiu seu calção de natação básico preto e vermelho e esperou à beira da piscina pelas duas garotas. Alguns minutos depois, Ayase e Stella saíram do vestiário. Ayase usava um biquíni esportivo de duas peças com um design relativamente modesto, que combinava com sua personalidade tímida. Embora seu traje carecesse de apelo sexual, como Ayase praticava esgrima desde criança, ela tinha um físico tonificado que era bastante atraente.
Stella, por outro lado, usava um traje de banho muito mais chamativo. Era diferente daquele que ela usara ao lavar as costas de Ikki no banheiro; desta vez, ela vestia um biquíni de tiras preto. O traje altamente revelador mal cobria seus seios voluptuosos, que ameaçavam escapar da cobertura inadequada a cada passo que ela dava. Ele também acentuava seus quadris, que eram igualmente sedutores.
Ela tinha um tipo de corpo raramente visto entre os japoneses, o que fazia sua beleza se destacar ainda mais. Era honestamente desconcertante para Ikki como ela conseguia parecer tão macia, quando ele sabia, por experiência própria, que os músculos dela possuíam mais potência do que os de muitos fisiculturistas. Francamente, isso desafiava todas as leis da realidade.
Para completar, até a maneira como ela caminhava atraía os olhares. Provavelmente porque, como membro da família real, ela fora treinada para ter postura e andar adequados. Ela não pareceria fora de lugar desfilando na Paris Fashion Week.
Uau. A Stella é realmente linda.
Ikki soltou um suspiro de admiração, e não foi o único. Todos na piscina pararam para encarar a beldade estrangeira também. E, como Stella já havia sido entrevistada por vários veículos de comunicação, era possível que algumas pessoas ali a reconhecessem.
Stella ignorou os olhares dos espectadores e caminhou direto para Ikki.
“Desculpe a demora. Homens realmente se trocam rápido.”
Ikki sentiu todos se virarem imediatamente para encará-lo com raiva.
“O quê?! Não me diga que as duas gatas estão com aquele cara!”
“Você só pode estar brincando. Por que elas estão com aquele perdedor comum?”
“Você não sabe que a taxa de natalidade está caindo no país?! Deixe algumas garotas para o resto de nós!”
“Eu vou matar esse desgraçado!”
Espero não morrer em um acidente trágico de afogamento hoje, pensou Ikki, enquanto o suor frio escorria por sua testa. Enquanto isso, Stella olhava ao redor com curiosidade.
Ikki havia se acostumado tanto a viver com ela que esquecera que ela ainda era uma princesa. Aquela era, provavelmente, a primeira vez que ela frequentava uma piscina coberta comum usada por plebeus.
A piscina em que estavam tinha apenas cinquenta metros de comprimento, sendo ainda menor que as da escola. Havia cordas dividindo a área de lazer da área designada para natação de percurso. Ainda era início de junho, então não havia muita gente, mas também não estava deserta.
“Esta piscina é surpreendentemente grande”, refletiu Stella.
“Você não é uma princesa, Vermillion-san? Com certeza deve ter uma piscina ainda maior em sua casa”, disse Ayase.
“Não. Embora nosso banho seja mais ou menos deste tamanho.”
“Uau! Isso é que é realeza!”
“Bem, esse é o banho grande que nossos servos usam. O que eu e minha família usamos é menor. Não faz sentido ter um banho enorme para um número pequeno de pessoas, certo?”
Relembrando, Ikki percebeu que Stella nunca pareceu realmente incomodada pelas condições de vida na Academia Hagun. A única coisa que realmente a surpreendeu foi a existência de café solúvel. O Reino de Vermillion era uma nação relativamente pequena, então talvez até a realeza vivesse de forma modesta por lá.
“Estou feliz que não esteja muito cheio aqui, no entanto. Ouvi dizer que as instalações no Japão podem ficar tão cheias que as pessoas ficam espremidas como sardinhas”, disse Stella.
“Ainda não é exatamente a temporada de piscinas, então ainda está relativamente calmo”, explicou Ikki.
“Então acho que poderemos brincar o quanto quisermos!” Stella tirou animadamente uma bola de praia.
“Infelizmente, não viemos aqui para brincar.”
“Hã? Então por que você quis vir à piscina?”
“Eu poderia te perguntar a mesma coisa, Stella...”
“Mrr. E eu tive todo o trabalho de trazer esta bola.”

“Tudo bem, podemos brincar depois que o treino de hoje acabar. Mas, por enquanto, você pode guardar a bola?”
“Taaa bom. Mas é bom você brincar comigo depois.” Ela relutantemente entregou a bola para Ikki, que a colocou de lado.
Ela realmente veio aqui só para se divertir? Tenho quase certeza de que disse a ela que vínhamos treinar...
“A propósito, Kurogane-kun, que tipo de treinamento vamos fazer hoje? Nadar percursos?”
Ikki virou-se para Ayase e balançou a cabeça.
“Não. Honestamente, embora eu continue dizendo que isso é um treino, o programa de hoje é bem leve, então eu nem deveria chamar disso. Depois de dias praticando sua nova postura, seu corpo está exausto demais para qualquer coisa intensa.”
“O que vamos fazer, então?”
“Nada, na verdade.”
“Hã?”
“Apenas relaxar embaixo d'água como uma água-viva.”
“I-Isso conta como treinamento?”
“Conta”, disse Ikki categoricamente. “Para começar, prender a respiração pelo maior tempo possível treina sua capacidade pulmonar. Em batalhas prolongadas, o lado com menor capacidade pulmonar terá seus músculos mudando para a respiração anaeróbica primeiro, o que levará inevitavelmente à derrota. A resistência é tão importante quanto a força para espadachins. Mas isso é apenas um benefício secundário deste exercício em particular.” Havia um objetivo muito mais importante que Ikki tinha em mente com o treino de hoje. “Assim que você tentar, vai entender. Quando você vai para debaixo d'água, consegue sentir seu corpo de forma mais aguçada.”
“Hã?”
Confusa, Ayase inclinou a cabeça para o lado. O gesto foi, na verdade, bem fofo.
“Quero que você flutue embaixo d'água com os olhos fechados e relaxe completamente. Não pense em fazer nada com seus músculos, não se preocupe em tentar processar nenhuma informação visual e apenas foque no som do seu próprio corpo.”
“Eu não entendo muito bem o que isso deve fazer, mas acho que vou tentar.”
Ayase ainda não entendia como Ikki achava que isso a ajudaria, mas não tinha motivos para duvidar dele. Ela respirou fundo e mergulhou.
Uma espadachim do calibre da Ayatsuji-san provavelmente vai descobrir o ponto deste exercício imediatamente.
Julgando pelo que Ikki sabia da capacidade pulmonar de Ayase, ele esperava que ela ficasse lá embaixo por três minutos inteiros na primeira tentativa.
“Vou colocar esta bola de praia de volta no armário para não atrapalhar.”
Ikki voltou para o vestiário, com a bola de praia na mão.
◆
No momento em que Ikki saiu, Stella viu-se extremamente entediada. Ela mal havia interagido com Ayase, e as duas tinham estilos de esgrima completamente diferentes. Não havia muito sobre o que conversarem. Mesmo que houvesse, ela não queria interromper o treinamento de Ayase com conversas fúteis.
Estou tão entediada...
Em uma tentativa de se ocupar, Stella decidiu tentar o mesmo treinamento que Ikki pedira para Ayase fazer. Ela respirou fundo e mergulhou.
Sua capacidade pulmonar era maior até que a de Ikki, então prender a respiração provou ser uma tarefa simples. Se quisesse, ela provavelmente poderia ficar debaixo d'água por dez minutos, o que beirava o nível de um recorde mundial.
Está quieto...
Embora não houvesse muitas pessoas na piscina, ainda havia outros por perto. Os sons de nadadores batendo as pernas e crianças espirrando água ecoavam pela área da piscina desde que Stella saíra do vestiário. Mas, sob a água, esses sons desapareceram. Além disso, seu campo de visão era apenas azul, fazendo parecer que o próprio mundo havia se tornado distante.
Stella fechou os olhos e, imediatamente, o som de seu próprio coração chegou aos seus ouvidos. Normalmente, havia ruído ambiente suficiente para que ela não conseguisse ouvir seus batimentos com tanta clareza. Ela conseguia sentir até o fluxo de sangue em suas veias e os sinais elétricos que seu cérebro enviava para o resto do corpo.
“Quando você está embaixo d'água, pode sentir seu corpo de forma mais aguçada.”
Era isso que Ikki queria dizer quando falou aquilo, embora Stella soubesse disso desde o início. Ela estava acostumada a focar sua atenção para dentro, nas sensações de seu próprio corpo. Fazer isso ajudava a moldar conscientemente o funcionamento do organismo para otimizá-lo para o que se desejava. Por exemplo, ao desferir um golpe de espada, havia um mundo de diferença entre apenas balançar os braços que seguravam a arma e estar ciente de tudo, desde a posição dos polegares até a forma como os sinais alcançavam os músculos do braço via cérebro e como os músculos se contraíam em resposta a esses sinais. O último levava, naturalmente, a um golpe muito mais rápido e potente.
Só era possível ter esse nível de controle refinado se você entendesse seu corpo em um nível incrivelmente profundo. Ayase ainda não possuía esse entendimento. Se possuísse, não estaria presa a posturas ineficientes esse tempo todo, já que teria percebido inatamente que aqueles movimentos não eram ideais.
Até agora, Ikki vinha ajustando a forma de Ayase para o que seria o ideal, dada a condição dela naquele dia. No entanto, a condição de uma pessoa mudava de dia para dia, até mesmo dentro de um único dia. Ela só seria capaz de fazer essas melhorias por conta própria quando conhecesse seu corpo bem o suficiente para realizar os ajustes minuciosos necessários sem a ajuda de Ikki.
Embora esse treinamento fosse absolutamente necessário para Ayase, Stella não precisava realmente dele a essa altura. Ela havia treinado tanto que conseguia fazer esses ajustes subconscientemente. Foi por isso que, mesmo quando fez aquele golpe relaxado outro dia para tentar fazer Ikki lhe dar conselhos, ela acabou ajustando instintivamente sua postura para torná-la o mais ideal possível.
Mas nem mesmo isso é o suficiente, pensou Stella, abrindo os olhos e olhando para a superfície da água. Ela acreditava ter treinado mais do que qualquer outra pessoa e levado seu corpo aos limites absolutos, mas Ikki provara que ela estava errada. O seu Ittou Shura era a cristalização do que realmente significava levar-se ao limite.
Stella ainda não conseguia fazer algo assim. Ela não tinha controle suficiente sobre seu corpo para espremer cada gota de força e lutar em seu desempenho máximo por um minuto inteiro. Era por isso que ela ficava para trás em relação a Ikki quando o assunto era técnica. Ela tinha mais capacidade pulmonar, mais poder explosivo e até mais força muscular do que Ikki, mas ainda assim perdera. Ikki simplesmente depositara mais esforço em cada momento de sua vida. Era só isso. A melhor maneira de descrever era que ele vivia sua vida como se estivesse debaixo d'água, mas muito mais profundo do que Stella estava agora. Apesar de estar em terra firme, ele mergulhara em um lugar tão profundo que nenhum som ou luz o alcançava.
Esse é o mundo em que o Ikki vive... — Se ela fosse capaz de alcançar esse reino, talvez conseguisse encontrar algo novo dentro de si.
Stella fechou os olhos lentamente outra vez. Mais uma vez, toda a luz desapareceu e o som de seu coração bateu contra seus ouvidos. A única coisa ali era ela mesma.
Em um mundo de escuridão silenciosa, Stella imaginou o contorno de seu próprio corpo. Mas apenas o contorno não era suficiente, então ela mergulhou ainda mais fundo. Ela se esforçou para alcançar o reino onde o Mestre da Espada Sem Coroa reinava. Sentindo-se aproximar, ela estendeu a mão em direção a ele.
“A propósito, Vermillion-san, você e o Kurogane-kun estão namorando?”
“Blagragh?!”
Ela engasgou com um bocado de água logo antes de conseguir alcançá-lo.
◆
“Cof, cof! Aii... meu nariz está ardendo.”
Stella apertou o nariz, com lágrimas escorrendo pelos olhos. Doía nela o quanto se sentia patética. Ela estava tentando alcançar um nível de concentração que superasse tudo, e ainda assim, não apenas ouviu uma voz acima da superfície, como permitiu que ela a distraísse. Não havia como alcançar o nível de Ikki desse jeito.
Digo, o Ikki consegue até desligar a audição e a visão se precisar. Na verdade, esse é o mínimo que você precisa ser capaz de fazer se quiser dominar algo como o Ittou Shura.
Stella foi lembrada, mais uma vez, de quão longe estava o objetivo que traçara para si mesma.
“E-Eu sinto muito, Vermillion-san. Você está bem?”
“S-Sim, estou bem.”
“Mas imagino que, se você ficou tão nervosa, então...”
“O-O-O-O que você está dizendo?! Não tem como a segunda princesa do Reino de Vermillion namorar um plebeu como ele!”
“Então vocês realmente não estão namorando?”
“Claro que não.”
“Então não seria um problema se o Kurogane-kun e eu começássemos a namorar, certo?”
“O quê?!” Stella soltou um grito agudo. “E-Espere aí! Eu achei que você só queria que o Ikki te ensinasse esgrima, Senpai! Você não disse que não estava interessada nele antes?!”
“Eu não estava, a princípio. Mas, veja bem, o Kurogane-kun é tão cavalheiro e legal. Ele até aceitou ensinar uma stalker como eu e, apesar de ser mais novo que eu, ele parece tão maduro. Ele também é um ótimo professor. Ele é cem por cento o meu tipo. Eu até tenho conseguido sustentar o olhar enquanto falo com ele ultimamente, então, se ele está solteiro, eu acho que eu—”
“V-Você não pode!” Stella gritou, incapaz de aguentar mais. “Absolutamente não! De jeito nenhum! O Ikki é meu namorado! Você não pode ficar com ele!”
Ela chapinhou na água como uma criança de cinco anos fazendo birra. Ela não queria ouvir mais nenhuma palavra e, para evitar isso, espalhou água com força suficiente para abafar a voz de Ayase.
“Eu sabia!” Ayase disse com um sorriso largo após ver o olhar banhado em lágrimas de Stella. Naquele momento, Stella percebeu que havia sido enganada.
D-Droga! Agora eu fiz besteira de vez!
“Vocês dois estavam se olhando com tanto carinho esta manhã que eu imaginei que fosse o caso.”
“Urgh... eu não sabia que você era uma garota tão astuta, Senpai. Achei que você fosse mais... distraída.”
“Alguém já te disse que você é muito rude, Vermillion-san?”
“A culpa é sua por me enganar. De qualquer forma, por favor, guarde segredo. Vai ser um problemão se isso vazar.”
“Não se preocupe, eu entendo. Você é bem famosa, afinal.”
“Espere, isso significa que tudo o que você disse antes era mentira?”
Ayase assentiu.
“Bem, eu realmente acho o Kurogane-kun uma pessoa maravilhosa, mas não tenho interesse romântico nele. Eu estaria traindo todo o esforço que ele teve ao me ensinar tão seriamente se eu não focasse apenas em melhorar minha esgrima. E, além disso, eu tive a sensação de que vocês dois estavam namorando esse tempo todo. Que inveja. Eu queria poder arrumar um namorado legal também.”
Ayase corou um pouco e cobriu as bochechas com as mãos, com os olhos brilhando. Stella ficou um tanto surpresa com a reação dela.
“E eu aqui pensando que você odiava homens, Senpai.”
“Isso não poderia estar mais longe da verdade. Eu amo rapazes.”
“Senpai, não diga isso tão alto. Tem pelo menos uns seis caras ao nosso redor que acabaram de ficar alertas.”
“De qualquer forma, eu não odeio homens, eu só sou tão consciente da presença deles que fico envergonhada facilmente. Minha colega de quarto até me chamou de pervertida depois de ouvir sobre as minhas fantasias.”
É a primeira vez que ouço alguém admitir ser pervertida de forma tão aberta.
“Mas, ainda assim, isso é tão bom. Eu queria poder ter um romance turbulento e incrível como o seu...”
“Por que não tenta?”
“E-Eu não consigo! Digo, eu realmente quero, mas se uma garota tímida como eu saísse com um rapaz, eu morreria de vergonha. É por isso que tenho me limitado a mangás e novels de romance em vez disso.”
“Deve ser difícil ser tão tímida assim.”
“A propósito, isso significa que vocês fazem sexo e essas coisas quando estão sozinhos?”
“Bwugh?!” Stella tossiu, completamente pega de surpresa pela naturalidade com que Ayase soltou aquela pergunta. “De-de-de-de onde veio isso?!”
“Eu quero saber como são os casais de verdade!”
A maneira como Ayase avançava sobre Stella com olhos brilhantes lembrava uma certa repórter da classe delas. Todo esse tempo, Stella pensara que Ayase era apenas uma fissurada em esgrima que só se importava com o treino, mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Ela estava tão interessada em romance quanto qualquer garota da sua idade.
“Nós não fizemos nada desse tipo ainda! Supõe-se que você deve esperar até depois do casamento para isso!”
“Sério? Todas as garotas nos meus mangás shoujo não se deram ao trabalho de esperar, então achei que fosse o normal.”
“Espere, sério? S-s-s-sexo antes do casamento é o novo padrão?!”
“Você está perguntando para a garota errada. Eu nunca tive um namorado, então como eu saberia?”
Bom ponto.
“Enfim, o ponto é que você ainda não fez sexo com o Kurogane-kun, certo, Vermillion-san?”
Meu Deus, ela realmente não tem tato nenhum!
Agora que o segredo havia sido revelado, no entanto, não fazia sentido fazer rodeios. Se servisse para algo, Stella imaginou que se abrir com Ayase sobre seus medos poderia ajudá-la a encontrar alguma paz de espírito. Ela se abaixou até que apenas sua cabeça estivesse acima da água e disse em uma voz minúscula: “V-Você poderia dizer que sim. A verdade é que eu realmente quero levar nosso relacionamento ainda mais longe, mas...”
“Por que não diz isso ao Kurogane-kun, então?”
“Se eu conseguisse ser honesta com ele, não estaria sofrendo tanto com isso.”
“Bem, por que não consegue?”
“Digo, não é indecente a mulher pedir esse tipo de coisa?”
“É? Eu sinto que é natural querer beijar, fazer sexo e tudo mais com a pessoa que você ama. Na verdade, não seria menos saudável para o relacionamento de vocês se você não estivesse sexualmente interessada no Kurogane-kun?”
Agora que você mencionou...
Quando isso foi apontado objetivamente por uma terceira pessoa, Stella percebeu o quão tola estava sendo. Em retrospecto, fazia sentido que ela quisesse forjar um relacionamento mais profundo com o homem que amava. Nisso, não havia diferença entre homens e mulheres — exceto por uma coisa.
“Mas todo mundo quer levar essas coisas no seu próprio ritmo, e se eu for direta demais, talvez o Ikki pense que sou uma mulher sem-vergonha e comece a me odiar e—”
“Mesmo que assumamos que o Kurogane-kun queira levar as coisas mais devagar que você, você realmente acha que ele é o tipo de pessoa fútil que te odiaria simplesmente porque você está mais interessada em sexo do que ele?”
“C-Claro que não!”
“Então por que não ser honesta com ele?”
“Porque... Huh.”
Ayase tinha razão. Não havia razão para Stella não ser honesta com Ikki. Ela ficou pasma por não ter percebido isso antes.
Talvez seja isso que querem dizer quando dizem que o amor é cego.
Ayase lançou a Stella um olhar sério e disse: “Você deve valorizar o tempo que tem com a pessoa que ama. Todas as criaturas vivas morrem eventualmente, o que significa que, em algum momento, você terá que se despedir do Kurogane-kun.” Uma ponta de tristeza coloriu a expressão de Ayase enquanto ela dizia aquilo.
“Esta é a primeira vez que você realmente parece uma senpai mais velha e confiável”, disse Stella, profundamente impressionada.
“Além disso, é apenas a forma como me parece, mas tenho certeza de que o Kurogane-kun também quer levar o relacionamento de vocês para o próximo nível.”
“O que te faz dizer isso?”
“Você provavelmente não percebeu porque estava olhando em volta da piscina, mas quando o Kurogane-kun te viu de biquíni, ficou óbvio que ele estava tendo pensamentos impuros. Foi muito engraçado. Eu nunca o tinha visto fazer uma cara daquelas.”
“O quê?!”
Como eu pude perder isso?! Que erro crasso!
Enquanto Stella lamentava sua má sorte, Ikki retornou à piscina.
“Oh, já ficou sem fôlego, Ayatsuji-san?”, Ikki perguntou, percebendo que Ayase havia emergido.
“Não, eu só queria discutir uma coisa com a Vermillion-san.”
“Ah. E então, como foi o treino? Conseguiu sentir melhor o seu próprio corpo?”
“Sim. Eu entendo o propósito deste treinamento agora. É por isso que eu gostaria de focar sozinha por um tempo, se estiver tudo bem. Estarei ali se precisar de mim.”
“Por mim, tudo bem.”
“Ah, além disso, parece que a Vermillion-san tem algo importante que quer discutir com você.”
“O quêêê?!” Stella gritou, pega de surpresa.
Ayase se inclinou para perto e sussurrou no ouvido de Stella: “É a minha forma de me desculpar por monopolizar seu namorado nos últimos dias.” Ela piscou e nadou para um canto diferente da piscina.
Eu não preciso desse tipo de desculpa!
◆
Após Ayase se afastar nadando, Ikki e Stella se moveram para um banco vazio à beira da piscina.
“Então, o que era a coisa importante que você queria discutir?”, Ikki perguntou.
“Bem...” Stella olhou para baixo, seu rosto avermelhando.
Sua hesitação era compreensível. Embora Ayase tivesse lhe dado um motivo lógico e sólido para ser honesta com Ikki, sentimentos não operavam com base na lógica.
Por que Stella estivera preocupada que Ikki a odiaria se ela dissesse que queria levar o relacionamento adiante? Por que não havia percebido que era óbvio que Ikki não era o tipo de pessoa que a odiaria por isso? Agora que estava cara a cara com ele novamente, o motivo ficou claro para Stella. Era porque ela estava envergonhada, simples assim. Ela criava desculpas em sua mente para desviar os olhos desse fato simples, tudo enquanto desejava que Ikki tomasse a iniciativa em seu lugar.
Não tem como eu dizer algo tão embaraçoso quanto “Eu quero te beijar” para o Ikki!
“Stella?”
“Ah, d-desculpe! A coisa importante que eu queria discutir era...” Ayase havia cortado sua única rota de fuga, então ela tinha que dizer algo agora. “A-Ah, sim, é sobre o meu traje de banho! O que você achou dele?!”
“Você ficou muito bem nele. Combina perfeitamente com você”, disse Ikki, sem corar nem um pouco. Sua expressão era gentil como sempre, mas isso por si só pareceu estranho para Stella.
Ayase lhe dissera que Ikki estava praticamente babando por ela quando a viu pela primeira vez naquele biquíni. Não havia como ele conseguir manter a calma ao ser questionado diretamente sobre o que achava. Parecia que ele estava apenas dizendo a coisa mais segura possível para "sobreviver" à conversa.
“A verdade é que eu também tenho algo importante que quero discutir com você, Stella.”
“Você tem?”
Essa é uma surpresa. O que poderia ser? Ele quer saber o que eu acho do calção de banho dele também? Hmm, como eu deveria responder a isso?
Stella achava que Ikki ficava legal não importa o que estivesse vestindo, mas se ela seria capaz de dizer isso honestamente para ele era uma questão inteiramente diferente.
“Eu andei me perguntando... está tudo bem continuarmos agindo assim?”
“Hã?”
“Tenho pensado nisso o tempo todo. No último mês, não fizemos nada realmente romântico, e isso tem me incomodado.”
O coração de Stella parecia ter congelado. Aquelas eram as exatas palavras que ela temera ouvir. Só de imaginá-las já era aterrorizante, e agora, ela as ouvia da boca de Ikki na vida real.
Ao mesmo tempo, uma percepção fria a atingiu. — Eu sabia. Ele não está satisfeito com o nosso relacionamento meia-boca. Mas ele aguentou isso por um mês inteiro.
Acho que a paciência dele finalmente acabou. Eu mereço, no entanto.
Afinal, Ikki tinha Shizuku, além de uma bela nova discípula. Diabos, até Kusakabe e as outras garotas da classe dele sairiam com ele se ele pedisse. Havia dezenas de garotas apaixonadas por ele. Que motivo ele teria para continuar namorando uma garota que nem sequer o deixava tocá-la?
“Então, eu estava pensando que deveríamos ter uma conversa séria sobre o nosso relacionamento.”
Pare.
Stella sabia quais palavras viriam a seguir. “Talvez devêssemos voltar a ser como antes.” Mas ela não queria ouvi-las. Ela não suportaria deixar Ikki dizê-las. E assim, ela o interrompeu antes que ele pudesse terminar.
“N-Na verdade, a coisa que eu queria falar não era sobre o meu biquíni! Eu também queria falar sobre o nosso relacionamento!” Ela se virou, incapaz de olhar para o rosto dele. “E-Eu acho que é impossível uma princesa e um plebeu namorarem, afinal! Há muita coisa nos separando! Além disso, você provavelmente quer alguém como a Senpai, cujas coxas você pode apalpar, em vez de uma garota como eu, que nem deixa você segurar a mão dela!”
“O-O quê?! Espere, Stella, do que você está falando?!”
“E-Eu estou falando de t-t-terminar! Você não precisa de uma mulher que nem deixa você tocá-la, certo?!”
“Hã?!” O queixo de Ikki caiu em choque. Ele não fazia ideia de por que Stella estava dizendo aquelas coisas de repente. “Eu nunca pensei isso, nem uma vez! Por favor, acalme-se! Nós podemos conversar!”, ele exclamou, empalidecendo. Ele colocou gentilmente a mão no ombro de Stella para tentar virá-la para ele.
“Não me toque!” Stella gritou, afastando a mão dele com um tapa. Ao fazer isso, ele viu uma gota cintilante cair de sua bochecha.
Ela está chorando? De-de qualquer forma, preciso descobrir por que ela está dizendo do nada que deveríamos terminar.
Ikki tentou se acalmar, dizendo a si mesmo que, se ambos se exaltassem, nada de bom sairia daquilo. Infelizmente, nem mesmo o seu autocontrole era suficiente para aquela situação.
“Se eu fiz algo que te desagradou, por favor, me diga para que eu possa me desculpar. Eu estou implorando.”
“Você é quem está desagradado comigo!”
“Isso não é verdade! O que te fez pensar isso?! Eu nunca disse nada parecido!”
“Você não precisa dizer! Eu consigo perceber!”
“Pois você está errada! Agora acalme-se!”
“Eu estou calma!”
“Não, não está! Por que você acha que eu te odeio?! A única razão para você pensar isso seria se você me odiasse!”
Ikki estava tão abalado que começava a disparar coisas ilógicas também. Considerando que Stella mencionara o término completamente do nada, era compreensível. Seus sentimentos por ela eram fortes demais. Àquela altura, os dois estavam praticamente berrando um com o outro.
“D-De jeito nenhum! Eu te amo, Ikki!”
“Pois eu te amo mais!”
“Mentira! Eu definitivamente te amo mais! Quando eu te perguntei o que achava do meu biquíni, você só deu uma resposta segura! Aposto que você nem se sente mais atraído por uma garota fria como eu, porque eu não deixo você me tocar! Aposto que, quando a Senpai disse que você estava me secando quando viu meu biquíni, era na verdade para ela que você estava olhando!”
“O quê?! Isso é besteira! Pare de falar bobagens ou eu vou ficar bravo de verdade!”
“Você já está bravo!”
“Porque você continua fazendo acusações sem fundamento! Eu jamais olharia para outra garota quando a garota que eu amo está usando um traje de banho tão fofo!”
“Então por que você me deu impressões tão sem sal?!”
“É verdade que eu não fui honesto quando você perguntou, mas isso é... é porque eu não podia ser! Você acha que eu poderia dizer que você está tão sexy que eu não consigo desviar o olhar?! Você provavelmente me odiaria se descobrisse o quão pervertido eu sou! Além disso, olha quem fala! Você vive dizendo que me ama, mas não me deixou tocar em um fio de cabelo da sua cabeça o mês inteiro!”
“É porque eu estava pensando a mesma coisa que você! Se a garota diz que quer beijar e fazer coisas safadas, ela é uma oferecida! Eu não queria que você ficasse decepcionado comigo, Ikki!”
“Então por que estamos brigando por causa disso?!”
“Eu não sei!”
Finalmente, os dois perceberam que não tinham motivo algum para estarem discutindo.
“Espere...”, disseram ambos em uníssono.
“Com licença, vocês dois. Há outras pessoas aqui, então poderiam deixar o flerte para algum lugar mais privado?”, o salva-vidas solicitou, conseguindo finalmente uma oportunidade para falar.
[Almeranto: Kkkkkkkkk, deve ter sido um grande incômodo para os outros terem que assistirem esses dois.]
“Ah!” os dois exclamaram em uníssono, corando até a ponta das orelhas. Ao olharem ao redor, viram que o salva-vidas estava sorrindo para eles, enquanto o restante das pessoas na piscina os encarava como se fossem animais em um zoológico.
“S-Sinto muitíssimo!”
“Minhas desculpas!”
Os dois correram para o outro lado do recinto, onde ficava a piscina infantil. Essa seção estava deserta, já que a maioria dos pais não trazia as crianças pequenas até mais tarde no verão.
Havia uma fonte no meio da piscina infantil que disparava água em formato de guarda-chuva, e Stella e Ikki se esconderam atrás da cortina de água que ela jorrava. Isso não apenas tornava mais difícil para os outros os verem, mas também abafava o som, para que as pessoas não pudessem ouvi-los tão facilmente.
Apenas os dois saberiam o que fariam dentro daquela fonte. No entanto, estarem sozinhos os deixou ainda mais envergonhados.
“Ikki, não olhe para mim agora...”
“Certo. Eu também não quero que você veja meu rosto agora, então isso funciona perfeitamente...”
Agora que haviam se acalmado um pouco, estava começando a cair a ficha de quão ridícula tinha sido a discussão anterior. Nada mudaria se ficassem parados ali desajeitadamente para sempre, então Ikki reuniu coragem e chamou Stella.
“Hum, Stella?”
“O que foi?”
“Que tal se nós dois disséssemos a coisa que mais queremos fazer um com o outro ao mesmo tempo?”
“Tudo bem.”
E embora a discussão tivesse sido ridícula, não fora inútil. Afinal, ensinara aos dois o quanto eles se desejavam.
““Eu quero te beijar””, disseram simultaneamente.
Após um momento de silêncio, eles caíram na gargalhada e finalmente se viraram para se olhar. O constrangimento havia sumido agora, e Stella fechou os olhos lentamente, esperando ansiosamente que Ikki a beijasse.

Havia ainda lágrimas presas aos cílios dela, e Ikki as limpou suavemente antes de envolver as bochechas de Stella com as mãos. Ela ficou levemente rígida ao contato, os cílios tremendo em uma pequena apreensão. Mas ela não se afastou. Em vez disso, forçou-se a relaxar, entregando-se ao toque dele.
Movido pela coragem dela, Ikki inclinou-se e a beijou. Foi um beijo rápido, no qual seus lábios mal se tocaram, mas deixou ambos corando furiosamente. Mesmo que mal pudesse ser chamado de beijo, era, no entanto, um beijo real e genuíno na boca.
As pessoas beijavam amigos e familiares nas bochechas, mas só beijavam seus amantes na boca. Finalmente, os dois haviam cruzado essa linha e se tornado um casal de verdade. Ikki provara a Stella que sua confissão de um mês atrás não tinha sido apenas palavras.
“Ei, Ikki?”
“Sim?”
“Você odeia garotas pervertidas que imploram para serem beijadas?”
“Não existe um homem vivo que odiaria esse tipo de garota. Na verdade, eu é que deveria te perguntar isso. Você odeia caras que estão sempre tendo pensamentos impuros quando olham para você?”
“Eu odeio. A menos que seja você, Ikki.”
Agora que haviam dado o primeiro passo, não havia mais necessidade de se conterem. Eles se beijaram novamente, de forma muito mais apaixonada desta vez.
“Mmm...”
Embora não tivessem ido ao ponto de entrelaçarem suas línguas, o desejo que sentiam um pelo outro foi claramente transmitido. E assim, apesar de seu início tumultuado, hoje foi um dia que eles jamais esqueceriam.
◆
Quando os três saíram da piscina, o sol já começava a se pôr. Como não comiam nada desde a manhã, decidiram jantar na cidade antes de voltarem para os dormitórios. Ikki perguntou se havia algo específico que queriam comer, mas, como nenhuma delas tinha preferência, ele as levou a um restaurante familiar próximo.
Felizmente, todos conseguiram encontrar algo que gostavam no cardápio. Ikki pediu um kitsune udon grande, Ayase escolheu o combinado de salmão, e Stella pediu três porções de bife e quatro de vegetais grelhados.
“V-Você realmente come muito, Vermillion-san”, comentou Ayase, encarando os sete pratos à frente de Stella.
“Olha, eu preciso comer tudo isso ou não terei energia suficiente”, respondeu Stella de forma um pouco defensiva, sem parar de comer nem por um segundo.
“Fico impressionada que você continue tão magra apesar de tudo o que come. Não faz sentido algum.”
Ayase observava maravilhada enquanto Stella devorava a comida com uma velocidade surpreendente. Na verdade, ela realmente precisava de todas aquelas calorias para manter seu corpo altamente tonificado funcionando em desempenho máximo.
Após alguns minutos, Ayase sorriu e disse: “Sabe, você não parece realmente uma princesa, Vermillion-san.”
“Mastiga, mastiga. O que quer dizer com isso?”
“Não digo no mau sentido. É só que você é muito fácil de conversar, e a maneira como come é igual à nossa. Eu achei que a realeza tivesse modos à mesa super sofisticados ou algo assim.”
“Eu aprendi, de fato, a comer adequadamente em ambientes formais, mas este é apenas um restaurante comum.”
Stella olhou ao redor. Era hora do jantar, então o lugar estava bem cheio. O som de talheres batendo nos pratos, garçons anotando pedidos e crianças rindo ou reclamando preenchia o ar. Como Stella dissera, aquele era um restaurante casual onde não era necessário comer com polidez excessiva. Na verdade, usar etiquetas de gala ali só a faria se destacar ainda mais.
“Dominar verdadeiramente uma habilidade significa saber a hora e o lugar certos para usá-la. Isso se aplica tanto aos modos à mesa quanto à esgrima”, explicou ela.
“Ha ha, você me pegou nessa.” Ayase sorriu, apesar de Stella ter apontado sua imaturidade. “Eu aprendi muito hoje. Não, nos últimos dias. Desde que comecei a treinar com vocês, cresci demais. Ainda não sou forte o suficiente para usar a técnica que meu pai me passou, mas sinto que cheguei muito mais perto do nível dele. Muito obrigada por tudo, Kurogane-kun.”
“É tudo graças ao seu próprio trabalho duro, Ayatsuji-san. As percepções que te dei são coisas que você teria percebido sozinha eventualmente, e tenho certeza de que seria capaz de usar a técnica final de seu pai mesmo sem a minha ajuda. Eu apenas te dei um pequeno empurrão, só isso.”
“Talvez, mas era importante que eu aprendesse tudo isso agora, e não mais tarde.”
“Porque as partidas de seleção estão acontecendo agora?”
“Sim. Eu sou do terceiro ano, o que significa que esta é minha última chance de participar do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Eu preciso passar pelas partidas de seleção, não importa o que aconteça. Preciso de mais força agora para poder chegar ao Festival e recuperar o que foi roubado de mim.”
Hum? — Ikki notou que havia uma fúria latente queimando nos olhos de Ayase. Uma raiva tão feroz que era quase palpável. E combinada a essa raiva, havia um ódio profundo direcionado a algo — ou alguém. — O que diabos aconteceu com ela? — Antes que ele pudesse perguntar, um homem caminhou até parar atrás dele.
“Ha ha. É você mesma, Ayase. Achei que reconheceria esse rosto.”
“Ah?!” Os olhos de Ayase se arregalaram em choque.
Ikki se virou para ver melhor o homem. Ele era alto — provavelmente 180 cm. Seu cabelo era tingido e ele usava óculos escuros estilosos que não conseguiam esconder seu olhar penetrante. Embora Ikki e os outros estivessem sentados na área para não fumantes, ele tinha um cigarro na boca e vestia um casaco vermelho chamativo. Não usava camisa por baixo do casaco, então todos podiam ver a tatuagem de um crânio sorridente em seu peito. Ikki o reconheceu como o mesmo homem mal-educado que vira rindo alto na área de fumantes quando entraram.
“Aha ha, pensar que eu te encontraria aqui. Que coincidência. Sentimos sua falta, já que você não tem aparecido ultimamente.”
“Ei, Kuraudo, com quem você está falando?”
“Depressa. Eu quero ir ao fliperama.”
“Hmm? Opa, aquela é a Ayase-chan, não é?”
“Nós não tínhamos visto você faz um tempo, então estávamos ficando preocupados com você. Gya ha ha.”
“Ei, o grande Kuraudo está falando com você. Não o ignore simplesmente!”
“Você acha que é melhor do que ele, hein?”
Os dez ou mais rapazes com quem ele estava sentado caminharam até lá também, aglomerando-se ao redor da mesa de Ikki. Todos eles pareciam gângsteres. Embora parecesse que eram conhecidos de Ayase, ela estava deliberadamente não olhando para nenhum deles. Em vez disso, ela estava olhando para baixo para o seu prato, mordendo o lábio.
Vendo o óbvio sofrimento dela, Ikki decidiu agir.
“Com licença, mas vocês estão incomodando nossa amiga. Poderiam, por favor, sair?”
“Hã? Quem diabos você pensa que é?!”
“Cale a boca ou eu vou te matar!”
Os companheiros de Kuraudo começaram a encarar Ikki com raiva, mas Ikki os ignorou. Ele estava ciente de que havia apenas uma pessoa ali que importava e, por isso, manteve seu olhar fixo firmemente em Kuraudo.
Kuraudo lançou a Ikki um olhar curioso, então perguntou algo inesperado. “Você é um espadachim?”
“Você consegue perceber?”
“Ha. Sim, com certeza consigo. Tem algo diferente em você.” Ele caminhou até a mesa vizinha e pegou um copo vazio e uma garrafa de cerveja. “Mal aí, mano. Não quis interromper sua refeição. Só achei que poderíamos bater um papo, já que não a vejo faz um tempo.” Kuraudo encheu o copo com cerveja e o deslizou para Ikki. “Aqui, aceite isso como um sinal do meu pedido de desculpas.”
“Ah, obrigado.”
Na verdade, Ikki queria apontar que a cerveja não era dele para compartilhar, mas decidiu evitar irritá-lo e causar uma cena. Conforme ele estendeu a mão em direção ao copo, no entanto, Kuraudo esmagou a garrafa contra a cabeça dele.
“Ikki!”
“Kurogane-kun!”
A garrafa de cerveja estilhaçou-se, fazendo cacos de vidro voarem para todos os lados. Tinha sido um golpe poderoso o suficiente para que a cabeça de Ikki caísse sobre a mesa.
“Ha ha ha! Se você é um espadachim, então não deveria baixar sua guarda, seu idiota!”
“Aha ha! Boa, Kuraudo!”
“Você é o melhor, cara!”
“É melhor tomar cuidado! Irrite o Kuraudo e ele te mata!”
Todos os seguidores de Kuraudo comemoraram, enquanto os clientes próximos começaram a gritar. Enquanto isso, Kuraudo jogou a garrafa quebrada de lado.
“Não há nada que eu ame mais do que detonar espadachins como você. Qual é? vamos duelar. Eu sei que você possui um Device também!”
Enquanto dizia isso, Kuraudo invocou uma espada branca como osso que tinha dentes serrilhados como uma serra. Era um Device. O emblema em seu casaco significava que fazia parte do uniforme da Academia Donrou. Donrou, assim como a Hagun, era uma escola de treinamento de Cavaleiros-Magos em Tóquio, o que significava que Kuraudo, assim como Ikki, era um Blazer.
“Seu bastardo! Eu vou queimar você até não sobrar nada!” Stella gritou, seu cabelo carmesim brilhando como uma labareda enquanto ela concentrava sua mana e erguia sua mão para invocar a Lævateinn.
“Não faça isso, Stella”, disse Ikki, segurando o braço dela. Ele se levantou, agindo como se nada tivesse acontecido. “Não vale a pena causar uma cena por causa disso. A mão dele apenas escorregou um pouco, tenho certeza.” Ele sorriu para Stella enquanto um fio de sangue escorria pelo seu rosto.
“O-O que você está dizendo?!”
“Além disso, tudo o que me aconteceu foi um pequeno corte e minhas roupas ficarem molhadas. Não há razão para começar uma briga por causa disso.”
Ikki fez o seu melhor para acalmar Stella. Se a escola descobrisse que Stella havia materializado seu Device e lutado sem permissão, eles quase certamente a expulsariam. Era por isso que ele estava tentando acalmar as coisas.
“Bwa ha ha ha ha ha ha ha ha!”
Os caras ao redor de Kuraudo caíram na gargalhada, pensando erroneamente que Ikki era um covarde por tentar evitar um confronto.
“Meu Deus, que tipo de perdedor tenta levar na brincadeira uma garrafa de cerveja sendo esmagada na sua cabeça?!”
“Parece que você é assustador demais para ele, Kuraudo!”
“Gya ha ha. Agora, isso é patético!”
“Ha ha ha, eu nunca vi um espadachim que fosse tão covarde antes. Onde estão as suas bolas, cara?”, Kuraudo disse com um sorriso de desprezo. Ikki não respondeu, no entanto. Ele apenas manteve seu sorriso neutro, esperando que tudo aquilo passasse. Então, Kuraudo cuspiu nele.
“Grr!”
Stella estava ainda mais furiosa agora, mas Ikki segurou o braço dela com firmeza, impedindo-a de pular em Kuraudo.
“Que tédio”, Kuraudo suspirou ao ver que até aquilo falhara em provocar uma reação em Ikki. “Terminei de perder tempo com um covarde como ele. Vamos, pessoal. Vamos embora.” Ele girou sobre os calcanhares e começou a se dirigir para a saída.
“Até mais, perdedor!”
“Você não está feliz que o Kuraudo não intimida os fracos?”
“É, sorte sua ser um frouxo. Aha ha ha ha.”
Depois que eles saíram, o gerente da loja correu apressadamente até a mesa de Ikki e começou a se desculpar profusamente com os três.
“Sinto muitíssimo! O senhor está bem?! Vou ligar para uma ambulância imediatamente!”
“Não se preocupe, não é nada sério. Poderia apenas me trazer um kit de primeiros socorros, se por acaso tiver um?”
“C-Claro! Imediatamente, senhor!”
O gerente correu para o depósito para pegar o kit de primeiros socorros. Enquanto isso, a equipe de garçons se desculpava com todos os outros clientes pela confusão. Por sua vez, Ikki estava apenas feliz por ter conseguido resolver as coisas sem causar uma cena. Ele limpou o cuspe de Kuraudo com um guardanapo.
“Você parece um peixe-balão, Stella”, ele disse, olhando para ela. Ela estava fazendo um bico tão grande que suas bochechas estavam infladas com o dobro do tamanho normal.
“É errado ficar brava?! Aqueles bastardos disseram o que bem entenderam e foram embora! Além disso, por que você deixou aquele lixo te atingir para começo de conversa?!”
“Eu imaginei que ele poderia ficar furioso se eu esquivasse. Se começássemos a lutar aqui, teríamos grandes problemas com a escola.”
“Isso é... verdade, mas você poderia ter lidado com aqueles caras mesmo sem a Intetsu, não poderia?”
“Não tenho tanta certeza.”
“Sério?”
“Aquele cara no meio com a tatuagem de caveira é bem forte. Enfrentá-lo desarmado seria difícil.”
“Ah, com certeza seria. Afinal, ele chegou às quartas de final do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas no ano passado.”
“Hã?!”
Ikki e Stella se viraram surpresos em direção ao jovem rapaz que subitamente se juntara à conversa deles. O motivo de estarem tão atônitos era que ele havia aparecido bem em cima da mesa deles, sem aviso prévio. Não houve som para sinalizar sua aproximação, e nenhum deles tinha visto ou sentido alguém se aproximando também. O garoto tinha cabelos grisalhos e opacos, cacheados, com olhos dourados igualmente sem brilho. Embora parecesse jovem o suficiente para estar no jardim de infância, ele usava o uniforme da Academia Hagun. Ele lançou a Ikki um sorriso insincero.
“Aha ha. Cara, você tem uma má sorte séria”, disse ele. “Pensar que você atrairia logo o olhar do Sword Eater, Kurashiki Kuraudo. Ele é o famoso cão raivoso da Academia Donrou, que arruma briga com quem quer, quando quer. Mas você tomou a decisão certa, Worst One.”
“Eheh heh, de fato. Essa foi uma decisão sábia da sua parte.”
Uma mulher alta aproximou-se e, ao contrário do garoto, ela fez questão absoluta de que sua aproximação fosse notada por Ikki e pelos outros. Ela carregava uma sombrinha, embora estivessem em um ambiente fechado, e usava um chapéu de abas largas. O chapéu cobria seus olhos, mas seu queixo bem desenhado e seus longos cabelos loiros e ondulados deixavam claro que o restante de suas feições também era belo. Ela também vestia um vestido de gala branco puro que não pareceria fora de lugar em um casamento real.
Apesar de sua aparência graciosa, Ikki e Stella sentiram arrepios na pele apenas ao olharem para ela. Ela não vestia nada além de branco, mas, para ambos, seu vestido parecia estar encharcado de sangue. O motivo era que o cheiro de sangue estava fortemente impregnado nela. Nenhuma quantidade de perfume conseguia mascará-lo. Ikki percebeu num relance que ela não era uma garota comum.
Ela é o que há de mais real.
“Se tivessem começado a lutar aqui, seríamos obrigados a subjugá-los e reportá-los à escola”, disse a garota em uma voz elegante. Era estranho ouvir um tom tão suave vindo de uma garota que fedia tão fortemente a sangue e morte.
Instantaneamente em guarda, Stella virou-se para Ikki e perguntou: “Ikki, quem são esses caras?”
“Membros do conselho estudantil da Academia Hagun. Aquele é o vice-presidente, Misogi Utakata-san, e aquela é a tesoureira, Toutokubara Kanata-san.”
“Você é a Toutokubara?!”
Até mesmo Stella, que não prestava muita atenção às fofocas da escola, já tinha ouvido falar sobre Toutokubara Kanata. A Scharlach Frau era uma Cavaleira-Maga Rank B e considerada a segunda Blazer mais forte da Academia Hagun. Seu poder esmagador era tão famoso que, apesar de ser uma estudante, ela era frequentemente convocada por várias agências para participar de operações reais com eles. Ela fizera parte de ataques para destruir bases da Rebellion e também derrubara várias outras organizações criminosas.
“Acho que podemos pular as apresentações”, disse Utakata. “Cara, você realmente nos poupou de muitos problemas, Kurogane-kun. O Sword Eater já instigou toneladas de pessoas a duelos não oficiais, destruiu metade dos dojos da cidade e, de modo geral, causou um monte de problemas. Lidar com o rastro de uma de suas fúrias teria sido um pé no saco. Obrigado por nos economizar o tempo e o esforço de lidar com ele. Nós realmente subestimamos você.”
“Com certeza subestimamos. Agora consigo ver por que a Renren-san perdeu para você. Sua avaliação da situação — e do Sword Eater — foi perfeita. E passei a entender por que a Princesa Demônio o tem em tão alta conta. A avaliação dela foi mais precisa do que eu imaginava.”
“Aha ha, pode falar isso de novo. Enfim, se importa de me deixar dar uma olhada no seu ferimento? Eu posso curá-lo para você”, ofereceu Utakata.
“Tudo bem, obrigado”, respondeu Ikki. “Eu consigo cuidar disso sozinho.”
“Não precisa ser tímido. Apenas deixe seu senpai cuidar de tudo. Dor, dor, vá emboooora.” Enquanto dizia isso, Utakata tocou a parte de trás da cabeça de Ikki. “Pronto, tudo curado.”
A pele de Ikki se costurou de volta em um instante, e o pequeno sangramento interno causado pelo golpe de Kuraudo também foi curado.
“Uau...”
Ikki piscou três vezes, maravilhado. O ferimento tinha sido superficial, já que ele ajustara sua posição levemente para garantir que a força fosse dispersada uniformemente pelo crânio. Mas, ainda assim, a velocidade com que Utakata conseguira curá-lo era inacreditável. No que dizia respeito ao controle de mana, Shizuku era tão habilidosa quanto a maioria dos Blazers Rank A, mas até ela teria levado mais tempo para curar aquela lesão.
Parece mais que ele fez o ferimento em si desaparecer do que propriamente curá-lo. — No mínimo, Utakata usara mais do que uma simples técnica de cura para remendar Ikki.
O apelido de Misogi Utakata era Fifty-Fifty, mas Ikki honestamente não fazia ideia de quais eram suas habilidades como Blazer. De qualquer forma, claramente havia mais nele do que os olhos podiam ver.
“Aha ha ha. Você não precisa direcionar esses seus poderes assustadores de observação para mim. Eu não vou participar das partidas de seleção.”
“Ah, desculpe. Eu não quis ser rude. Você até curou meu corte por mim.”
“Aha ha, sem problemas. Essa é a mentalidade certa para um cavaleiro ter. Na verdade, é tranquilizador saber que temos jovens como vocês para carregar o prestígio da escola no futuro. Enfim, você já está todo curado agora, então vamos embora. Vamos indo, Kanata.”
“Como desejar, Vice-Presidente.”
“Não fiquem na rua até muito tarde, ouviram?”
Utakata e Kanata saíram do restaurante, e Ikki soltou um longo suspiro enquanto observava o pôr do sol pela janela. — É por isso que chamam o crepúsculo de a hora das bruxas? — Eles haviam cruzado com pessoas muito importantes, uma após a outra, em um curto intervalo de tempo. No entanto, algo estava corroendo Ikki, algo mais importante do que todas as pessoas que ele acabara de conhecer.
“Ei, Ayatsuji-san.”
“Ah!” Parecia que ela esperava que Ikki lhe perguntasse sobre as pessoas de antes, e ela imediatamente desviou o olhar. Mas Ikki não recuou.
“Qual é a sua relação com aqueles homens de aparência arruaceira?” Kuraudo e os outros conheciam Ayase pelo nome, e ela não era uma cavaleira habilidosa o suficiente para que fizessem entrevistas de TV com ela como faziam com Stella. Estava óbvio que ela tinha algum tipo de história com Kuraudo, e provavelmente não era nada bom. A expressão dela deixava isso bem claro. “Se você não quiser responder, eu não vou te forçar. Mas a forma como você reagiu quando eles disseram seu nome me deixou preocupado. Se você estiver em algum tipo de problema, eu talvez possa te ajudar.” Como amigo de Ayase, Ikki queria ajudá-la.
Após um momento de hesitação, Ayase abriu a boca para responder. “O negócio é que—”
Justo naquele momento, os manuais do aluno de Ayase e de Ikki apitaram ao mesmo tempo, informando que haviam recebido um e-mail. Irritado pelo péssimo timing, Ikki, apesar de tudo, checou sua caixa de entrada. O e-mail era do Comitê de Partidas de Seleção do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Considerando que Ayase recebera uma notificação no mesmo instante, ele teve o pressentimento de que já sabia quem seria seu próximo oponente.
Seu palpite provou-se correto. “Kurogane Ikki-sama, seu oponente na décima primeira partida de seleção será Ayatsuji Ayase-sama da classe 3-1”, dizia o e-mail.
Este é o pior momento possível.
Ele não tinha dúvidas de que Ayase também recebera um e-mail dizendo que lutaria contra ele. De fato, o sangue sumiu do rosto de Ayase enquanto ela lia o que recebera.
“Hum, desculpe! Minha colega de quarto precisa de algo urgente, então vou ajudá-la!”, disse ela ao terminar a leitura.
Ikki nem precisou ler sua expressão facial para saber que aquilo era uma mentira. Ela provavelmente apenas achou constrangedor estar com ele agora que sabia que iriam duelar.
“Claro, sem problemas. Vejo você amanhã.”
Ikki decidiu não pressioná-la mais. Embora ainda estivesse curioso sobre a relação de Ayase com Kuraudo, não valia a pena deixá-la desconfortável apenas para descobrir. Ele perguntaria novamente depois que ela tivesse algum tempo para processar seus sentimentos.
“Sim, vejo você amanhã...”
Ela deixou dinheiro suficiente sobre a mesa para pagar seu pedido e então saiu correndo do restaurante.
“Ela parecia muito pálida. Eu me pergunto o que aconteceu”, disse Stella, curiosa. Ikki silenciosamente mostrou a ela o e-mail que recebera. “Oh, cara...”
“Suponho que é isso que chamam de destino. Eu gostaria de ter evitado lutar contra ela, se possível, no entanto.”
“Parando para pensar, a Senpai mencionou que precisava entrar no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas para recuperar algo que lhe fora roubado, certo?”
“Sim.”
“Você não vai perder de propósito apenas para ajudá-la, vai?”
“Eu realmente pareço o tipo de pessoa que faria isso?”
Stella sorriu e balançou a cabeça, aliviada.
“Não. Acho que eu nem precisava ter perguntado.”
Ela sabia muito bem que Ikki não era esse tipo de homem. Independentemente de quem enfrentasse, fosse a própria Stella ou até mesmo Shizuku, Ikki lutaria de forma justa, dando o seu máximo. Era a coisa certa a se fazer como cavaleiro. Mas, ainda assim, era lamentável que ele tivesse que enfrentar logo a Ayase em sua próxima partida.
Eu sei que ela disse: “Vejo você amanhã”, mas não acho que a Ayatsuji-san virá para nossas sessões de treino por um tempo.
Como Ikki temera, ele não viu Ayase no dia seguinte.
◆
“Cara, aquele sujeito foi uma piada.”
“Eu não consigo acreditar que existam fracotes como ele por aí que ainda se chamam de espadachins.”
“Né? Loucura que ele não disse nada mesmo depois que o Kuraudo cuspiu nele. Que perdedor.”
“Falou tudo, Misato. Mas acho que não lutar com o Kuraudo provavelmente foi a escolha mais esperta.”
“Kah ha ha, verdade. Quando você sabe que não pode vencer, é melhor nem lutar!”
Os marginais gargalhavam uns para os outros enquanto fumavam em seu ponto de encontro habitual, um dojo que estava em um estado horrendo. Eles ainda estavam falando sobre o garoto que Kuraudo havia provocado no restaurante familiar mais cedo.
“Ha ha, vocês realmente acham que ele é tão fraco assim?”, Kuraudo perguntou de seu posto um pouco mais afastado dos outros. Ele olhou para a lua através de um buraco no telhado e deu um gole no saquê que tinha consigo.
“Claro que achamos. Não tem como aquele frouxo te vencer, Kuraudo!”
“É, ele nem vale a pena lutar. Inferno, se você quiser, nós cuidaremos dele para você.”
“Gya ha ha! Vamos lá, não intimidem os fracos. Além disso, se exagerarmos, os tiras vão vir atrás da gente de novo.”
Os seguidores de Kuraudo começaram a gargalhar novamente, mas ele não se juntou a eles.
“Heh.” Ele lançou a eles um olhar desdenhoso, então voltou a olhar para a lua.
Idiotas. Vocês não entendem nada.
Ele pensou no olhar que Ikki lhe dera. Não havia medo nenhum em seus olhos. Apenas uma calma gélida. Tudo o que Ikki estivera pensando era em como passar por aquilo com o mínimo de confusão.
Kuraudo sabia que Ikki também havia recebido seu ataque de propósito. Um homem que pudesse lhe dar um olhar tão penetrante não poderia possivelmente ter falhado em ver aquele ataque chegando.
“Você é um cara e tanto. Acho que provocações baratas não serão suficientes para te deixar no clima. Heh.”
Bem, tanto faz. Um cara forte assim certamente aparecerá no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Vou guardar o prazer de esmagá-lo para lá.
Kuraudo virou o resto de seu saquê de um só gole. Seu sangue estava fervendo agora que ele encontrara outro oponente digno depois de tanto tempo.
◆
Três dias haviam se passado desde a confusão no restaurante familiar. Ikki não tinha visto Ayase nem uma única vez desde então, e a partida deles estava marcada para amanhã.
“No fim, a Senpai nunca apareceu”, Stella suspirou, lamentando a ausência de Ayase.
“Oh? E eu aqui pensando que você acharia isso agradável, Stella-san. Afinal, você estava com tanta inveja da atenção que o Onii-sama estava dando à Ayatsuji-senpai”, disse Shizuku com uma sobrancelha erguida.
“Ah, cale a boca. Isso pode ser verdade, mas ainda é solitário sem ela por perto.”
“Você realmente é uma mulher egoísta... Embora, de certa forma, essa seja uma das suas forças”, Shizuku acrescentou em voz baixa.
“O que você disse?!”
“Eu disse que suas coxas são gordas demais.”
“Elas não são!”
Ikki observava as duas discutirem, girando distraidamente seu manual do aluno nas mãos. — Não consigo dizer se elas deveriam ser boas amigas ou rivais amargas. — Enquanto refletia sobre a natureza do relacionamento delas, ele notou Alisuin caminhando em sua direção.
“Ela não respondeu a nenhuma das suas mensagens?”, ela perguntou, olhando para o manual de Ikki.
“Não.”
“Sério?”
Ikki olhou para Alisuin. Embora ela estivesse sorrindo, havia um olhar investigativo em seus olhos.
“Por que você está tão suspeito dela?”
“É natural, você não acha? Embora não saibamos todos os detalhes da situação dela, sabemos qual é o objetivo dela. Ela quer participar do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. Isso significa que ela não pode se dar ao luxo de perder para você na partida de amanhã.”
Apenas seis pessoas seriam escolhidas como representantes para lutar no Festival. Ikki ouvira de sua professora, Oreki, que haveria no máximo vinte partidas de seleção para cada aluno. Com uma contagem de partidas tão baixa, não seria surpreendente que mais de algumas pessoas saíssem das eliminatórias com registros perfeitos. Em outras palavras, até mesmo uma única derrota significava que você estava fora da disputa.
“No entanto, tenho certeza de que ela sabe muito bem que não tem chance contra você em uma luta justa”, continuou Alisuin. “Não tem como ela não notar a diferença de habilidade entre vocês dois depois de aprender com você. Nesse caso, ela certamente tentará algo desonesto para vencer. Estou errada?”
“Afiada como sempre, vejo.”
Ikki deu de ombros e jogou seu manual do aluno para Alisuin. Uma mensagem de Ayatsuji Ayase estava exibida nele. Dizia: “Kurogane-kun, tenho algo importante que preciso discutir com você a sós. Tem algo com que preciso da sua ajuda. Você poderia me encontrar amanhã às 3 da manhã no telhado do prédio principal da escola?”
“Eu recebi isso esta manhã”, ele explicou.
“Com certeza parece algum tipo de armadilha.”
“Ha ha, eu sei, não é? Mas definitivamente não é uma armadilha.”
“O que te dá tanta certeza?”
“Eu confio na Ayatsuji-san. Ela não é o tipo de pessoa que faria um truque tão covarde. Embora tenhamos passado apenas alguns dias juntos, eu a entendo o suficiente para saber isso sobre ela.”
Pelo que Ikki podia notar, Ayase era uma crente fervorosa no trabalho duro e tão correta quanto alguém poderia ser.
“Além disso”, ele continuou, “ela me disse que gostava das minhas mãos.” Alguém que estivesse disposto a trapacear para vencer uma partida nunca faria um elogio tão sincero. Ayase não era o tipo de pessoa que cuspiria no trabalho duro dos outros, e Ikki duvidava que ela jogaria fora seu orgulho como cavaleira apenas para alcançar a vitória.
“Eu vou encontrá-la.”
Ayase era amiga de Ikki, e ela precisava de sua ajuda. Ele não podia recusar o convite dela. Se ele era o único em quem ela podia confiar, então ele precisava estar lá por ela.
“Você é ofuscantemente brilhante, sabia disso?”, Alisuin disse com um sorriso amargo. Embora Ikki estivesse sentado bem ao lado dela, naquele momento, ela sentiu como se ele estivesse em algum lugar muito além do seu alcance.
“Eu sou?”
“Sim. Às vezes, sinto inveja de como a Shizuku e a Stella-chan conseguem demonstrar tão abertamente o amor delas por aqueles que lhes são próximos, e de quanta confiança você deposita nos outros, Ikki. Isso me lembra de quão feio é o meu próprio coração. Eu há muito tempo perdi a habilidade de ter uma fé tão inabalável nas pessoas.”
Alisuin balançou a cabeça levemente e então disse em uma voz mais severa: “Mas é porque eu sou tão distorcida que há coisas que só eu consigo notar. Eu percebo que não cabe a mim te dizer o que fazer, mas acho que você deve estar preparado para cortar os laços com a Ayatsuji-senpai inteiramente. Não há como saber o que se esconde sob a fachada externa de uma pessoa. Se você ficar abalado demais com o que acontecer, acabará perdendo uma batalha que poderia ter vencido facilmente. Exatamente como o que quase aconteceu na sua batalha contra o Hunter.”
“Parando para pensar, você foi quem me avisou antes daquela batalha também, Alice. Não se preocupe, no entanto. Eu já sei o que é mais importante para mim, e nada pode abalar minha determinação de alcançar meu objetivo.” Enquanto dizia isso, Ikki olhou para Stella. Ele havia prometido duelar com ela novamente nas finais do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas. “Eu nunca quebrarei minha promessa a ela, não importa o que aconteça.”
“Heh. Vejo que você não precisava dos meus conselhos. Minhas desculpas por trazer à tona um tópico tão desagradável, então.”
“Eu não me importo, e não foi nada desagradável. Embora eu suponha que a única coisa que me incomodou foi que eu tenho essa amiga maravilhosa que está sempre me dando ótimos conselhos em momentos críticos, como agora ou antes da minha batalha com o Kirihara-kun, e você disse que ela tinha um coração feio. Eu não vou aceitar isso, Alice.”
Alisuin pareceu momentaneamente pega de surpresa, mas então sorriu e disse em uma voz brincalhona: “Aha ha. Se você continuar dizendo coisas tão legais para mim, eu posso acabar me apaixonando de verdade por você.”
“Por favor, não brinque com isso.”
Como Alisuin estava propositalmente tentando manter uma fachada alegre, Ikki decidiu não investigar mais os assuntos dela. Ele percebia que ela não diria mais nada sobre o tópico de qualquer maneira. Sendo esse o caso, ele decidiu que era melhor focar na pessoa que ele poderia ajudar agora.
Enquanto o sol começava a se pôr, Ikki olhou para o telhado do prédio da escola. Ela queria encontrá-lo lá às 3 da manhã.
Será que serei capaz de dar a ela a ajuda de que precisa?
◆
Dez minutos antes do horário marcado, Ikki saiu silenciosamente da cama e deixou o quarto, fazendo o melhor que podia para não acordar Stella. Ele atravessou o corredor deserto e seguiu para o lado de fora. Usando a luz da lua para guiá-lo, dirigiu-se ao prédio principal da escola e foi direto para a janela que havia destrancado mais cedo naquele dia. Ao chegar lá, ele rastejou pela janela, seus calcanhares batendo ruidosamente no chão ao aterrissar.
Era sinistro ver este prédio, normalmente tão movimentado, tão deserto. Ele subiu vários lances de escada e então abriu a pesada porta de ferro que levava ao telhado. A lua branca e pálida estava bastante brilhante esta noite, permitindo que Ikki visse toda a extensão do telhado de concreto cinza e monótono. Ele era cercado por uma cerca de arame sem graça. Uma rajada de vento passou — uma que era surpreendentemente fria, considerando que o verão estava logo ali.
Ayatsuji Ayase estava de pé na outra extremidade do telhado, com as costas apoiadas na cerca. Ela vestia um yukata simples.
“Ei. Não te vejo desde que fomos à piscina, Ayatsuji-san.”
“É... Me desculpe por faltar às nossas sessões de treino, mesmo eu sendo quem pediu para você me ensinar.”
Hum?
Ikki notou que havia algo errado na maneira como Ayase estava agindo. Ela olhava diretamente para ele, mas seus olhos pareciam vazios, como se fossem contas de vidro sem sentimento. Recentemente, ela vinha conseguindo sustentar o olhar de Ikki com mais frequência sem corar, mas mesmo no dia em que foram à piscina, sempre que a conversa morria e seus olhos se encontravam, ela ainda desviava o olhar sem jeito. Ikki imaginara que era natural para alguém que não estava acostumada com homens agir daquela forma. Era precisamente por isso que ele achava estranho que ela fosse capaz de encarar o seu olhar tão facilmente agora.

[Almeranto: Esse olhar é de alguém que planeja algo não muito agradável.]
Não era algo tão estranho que valesse a pena apontar, no entanto, então Ikki decidiu não mencionar. Afinal, não era sobre isso que ele viera discutir.
“Está tudo bem. Deve ter sido estranho saber que estaríamos duelaríamos um contra o outro em seguida.”
“Obrigada por não ficar bravo. Além disso, obrigada por vir sozinho como eu pedi. Mas você tem certeza de que deveria estar saindo sozinho à noite para encontrar uma garota quando você já tem uma namorada?”
“Ah, você sabia? Bem, apenas não conte à Stella. Ela teria um ataque se descobrisse.”
Ikki deu de ombros e começou a caminhar em direção a Ayase. “Então, sobre o que você queria falar comigo?”
Ayase ficou em silêncio. Ikki não conseguia dizer se ela estava tendo dificuldade em colocar o que queria dizer em palavras ou se era por algum outro motivo. Seus olhos vítreos não revelavam nada, tornando impossível para ele ler seus pensamentos. Mas ficar ali parado sem dizer nada não resolveria nada.
“Se você está tendo dificuldade em dizer por si mesma, se importa se eu te perguntar algo em vez disso?” Ikki mudou de tática, mas Ayase permaneceu quieta. Ele decidiu interpretar o silêncio dela como um sim e limpou a garganta antes de perguntar: “Você mencionou antes que algo importante havia sido roubado de você. Foi o Kurashiki Kuraudo quem roubou isso de você?”
Ikki não perdeu o brilho de surpresa que brilhou nos olhos de Ayase por um segundo.
“O que te faz pensar isso?”
“Apenas um palpite baseado no que eu vi. Quando estávamos comendo, você tinha um olhar assassino nos olhos quando disse que recuperaria o que lhe fora roubado. E você tinha aquela mesma expressão assassina quando o Sword Eater apareceu.”
Naquela ocasião, Ayase estivera mordendo o lábio e olhando para baixo para a mesa, mas o ódio em sua expressão fora o mesmo de quando dissera a Ikki e Stella que recuperaria o que lhe fora tirado.
“Você também mencionou que precisa entrar no Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas para recuperar essa coisa roubada”, continuou Ikki. “O que significa que quem quer que tenha roubado isso de você é provavelmente um cavaleiro que estará lá este ano. O Sword Eater chegou aos oito melhores do ano passado. A menos que você tenha um sistema de seleção estranho como o que a Academia Hagun está fazendo este ano, os representantes de cada escola geralmente são aqueles que tiveram um bom desempenho no ano anterior. Juntando essas duas coisas, é altamente provável que o Sword Eater tenha roubado algo de você, e que você queira duelar com ele para recuperar. Estou certo?”
Embora ele tenha formulado como uma pergunta, Ikki já estava certo de que havia feito a dedução correta.
“Heh. Você realmente consegue ver através de qualquer um, Kurogane-kun. Agora que você já descobriu tudo isso, não há muito sentido em esconder”, respondeu Ayase, provando que Ikki de fato estava correto. “Veja bem, a razão pela qual eu te chamei aqui hoje foi porque eu queria te perguntar uma coisa.”
“Prossiga.”
“Eu ouvi da Vermillion-san no vestiário que você prometeu duelar com ela novamente nas finais do Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas.”
“Eu prometi. Bem, assumindo que nós dois consigamos chegar tão longe. Mas nós juramos lutar de verdade novamente algum dia.”
“Se, antes de chegar às finais, você se encontrasse contra um oponente que simplesmente não pudesse vencer de jeito nenhum, o que você faria?”
“Hã?” Ikki inclinou a cabeça, sem ter certeza de por que Ayase estava perguntando tudo isso. — O que minha promessa com a Stella tem a ver com ela?
Depois de pensar sobre isso por alguns segundos, Ikki percebeu que Ayase havia perguntado porque ela estava atualmente exatamente nesse tipo de situação. Ikki precisava continuar vencendo para cumprir sua promessa, mas Ayase também precisava vencer, não importa o que acontecesse, para recuperar o que lhe fora tirado. Seus motivos para lutar eram diferentes, mas o desejo inabalável de vencer era o mesmo.
Acho que ela quer saber que tipo de mentalidade eu tenho ao enfrentar partidas difíceis, então? — Embora Ikki não tivesse certeza do que exatamente Ayase esperava ganhar com sua resposta, isso não mudava qual seria essa resposta.
“Eu lutaria de forma justa e honesta com todas as minhas forças”, disse ele com firmeza.
“Mesmo sabendo que você não tem esperança de vencer?”
“Você não pode dizer com certeza que é inútil até que realmente lute. Além disso, mesmo que eu esteja condenado a perder, tudo o que posso fazer é lutar com tudo o que tenho.”
Durante sua luta contra o Hunter, Ikki estivera prestes a admitir a derrota. Com a ajuda de Stella, no entanto, ele fora capaz de se lembrar do motivo pelo qual estava lutando. As feridas que vinham com uma derrota eram certamente dolorosas, mas elas eventualmente cicatrizariam e Ikki seria capaz de lutar novamente. No entanto, as feridas que vinham de perder para si mesmo duravam a vida inteira. Então, mesmo que Ikki soubesse que sua derrota era certa, ele iria para a batalha com a cabeça erguida e lutaria até o fim amargo. Dessa forma, ele poderia se orgulhar do que fizera. Graças a Stella, ele nunca mais perderia esse fato de vista.
“Eu não acho que isso seja verdade”, disse Ayase em uma voz tão fria quanto o gelo. “A retidão não vale nada se não produzir resultados.”
“Hã?”, Ikki respondeu, pego de surpresa. Ele não esperava que logo Ayase defendesse a vitória a qualquer custo.
Por que você diria isso? — Isso era tão diferente do tipo de pessoa que ele assumira que ela fosse que ele ficou sem palavras. Para piorar as coisas, ele notou que ela estava zombando dele. Ele nunca a vira fazer uma expressão tão depreciativa.
Duas perguntas vieram à mente de Ikki. — Esta é realmente a Ayase? Ou esta é a verdadeira Ayase?
Ainda zombando, Ayase disse: “Se quer saber a minha opinião, acho que você deveria encontrar uma maneira de derrubar seu oponente, não importa quais truques sujos sejam necessários!”
“Ah!”
Ela invocou uma lâmina carmesim brilhante em sua mão direita. Um segundo depois, o som de dois cortes rápidos ecoaram naquela noite.
◆
“O qu—”
No momento em que ouviu aqueles cortes, Ikki ficou em guarda. Estava óbvio que Ayase havia usado seu poder para decepar algo. A questão era: o quê? Ikki aguçou sua visão e focou no que o rodeava. Ele isolou cores e sons, permitindo que seu cérebro se concentrasse apenas na visão.
Levou apenas um momento para descobrir o que havia sido cortado. A seção da cerca onde Ayase estivera encostada começou a inclinar para trás, significando que ela havia cortado aquela parte da cerca. No entanto, houve o som de dois cortes quando ela desferiu apenas um golpe. O poder dela devia ter algo a ver com isso.
O que ela está planejando? Por que ela simplesmente cortou aquela parte da cerca?
Confuso, Ikki observou enquanto algo ainda mais inacreditável acontecia.
Ayase caiu para trás junto com o pedaço cortado da cerca. O prédio da escola tinha quatro andares, e ela estava caindo de cabeça.
“O quê?!”
Embora Ikki estivesse completamente estupefato, ele não deixou que seu choque o impedisse de agir. Ele não conseguia entender o que Ayase estava tentando fazer e não tinha certeza se aquilo fora intencional ou se os poderes dela haviam, de alguma forma, saído de controle, mas nada disso era importante agora. Ele imediatamente ativou o Ittou Shura, e seu corpo foi envolto em um brilho azul pálido. Então, ele avançou em direção ao buraco na cerca e saltou da borda do telhado.
Assim que avistou Ayase, ele começou a correr pela parede para alcançá-la mais rápido. Com a ajuda do Ittou Shura, ele foi facilmente capaz de alcançá-la antes que ela atingisse o chão. Ele agarrou a mão direita dela e a puxou para perto.
Certo, eu a peguei! Mas o que eu faço agora?!
No ritmo em que estavam indo, eles atingiriam o chão em mais um ou dois segundos. Como ele havia acelerado até se mover mais rápido do que a velocidade de uma queda livre ao correr pela parede, era tarde demais para parar agora. Ele gastou um segundo precioso considerando suas opções, então avistou algo pelo canto do olho — o lago no pátio onde Ayase quase se afogara alguns dias atrás. Estava a cerca de trinta metros de distância deles. Era uma longa distância para cobrir, mas era a única esperança deles, então Ikki forçou uma torção no ar e chutou a parede com todas as suas forças.
“Raaaaah!”
A força de seu chute criou enormes rachaduras que percorreram toda a extensão do prédio de quatro andares, e algumas das janelas próximas se estilhaçaram. Foi como se a escola tivesse sido atingida por uma bola de demolição. Felizmente, isso proveu impulso suficiente para propelir Ikki e Ayase até o lago, e os dois caíram nele com um enorme estrondo de água.
“Pwah! Hah, hah, haaah!”
Aquela tinha sido a situação mais perigosa da vida de Ikki. Se ele tivesse sido sequer um milissegundo mais lento, Ayase teria morrido. Seu corpo ainda tremia pelo terror puro que havia acabado de experimentar, sabendo que mesmo um único passo em falso teria sido fatal. Seu corpo inteiro parecia gelado, e não era por causa da água.
No entanto, não era apenas medo que estava fazendo Ikki tremer agora. Ele também estava furioso. Enquanto puxava Ayase para fora do lago, ele gritou: “O-O que diabos você pensa que está fazendo?! Se eu não tivesse te pegado, você teria morrido!”
Era incomum ver Ikki tão irritado. No entanto, Ayase apenas riu.
“Aha ha ha ha ha! Está tudo bem. Afinal de cada, eu sabia que você me salvaria, Kurogane-kun.”
“O quê?!”
Ayase empurrou a mão de Ikki para longe dela e se levantou. Ela olhou para ele de cima e disse com um sorriso: “E agora você gastou o seu Ittou Shura.”
Merda.
“Aquele era o seu plano o tempo todo?! Me forçar a usar o Ittou Shura?!”
“Sim.”
“V-Você arriscou sua vida por isso?!”
“Eu te disse, vou fazer o que for preciso para vencer. Se aquela tivesse sido a sua resposta também, eu pensei que poderia suborná-lo para perder. Mas imaginei que não seria. Você não é esse tipo de pessoa, Kurogane-kun. Você é justo até demais. Então, esta era a única opção que eu tinha. Eu já sou mais fraca que você quando se trata de esgrima, então não teria como te vencer se você usasse seu trunfo em nosso duelo. Por isso, eu tinha que encontrar algum jeito de selá-lo.”
Ayase continuou falando.
“Ouvi dizer que você só pode usar o Ittou Shura uma vez por dia, e nosso duelo é em dez horas. Você não será capaz de se recuperar o suficiente para usá-lo novamente a tempo. Agora, eu tenho uma chance de vitória. Posso não ser nem de longe uma esgrimista tão boa quanto você, mas com meus poderes de Blazer, talvez eu consiga te vencer se você não tiver o seu trunfo.”
Ikki rangeu os dentes em frustração. Ayase estava absolutamente correta; o Ittou Shura consumia cada gota de força que ele possuía. Em outras palavras, drenava toda a sua mana. Agora que ele havia usado tudo, não seria capaz de ativar o Ittou Shura novamente até que sua mana se regenerasse. Esta era, certamente, a melhor maneira de selar seu movimento supremo.
Será que julguei mal a Ayatsuji-san? Estive errado sobre ela o tempo todo?
Ikki pensara que Ayase era uma pessoa honesta que valorizava o trabalho duro. Mas ela acabara de trapacear para obter vantagem para o duelo que se aproximava, o que era um dos maiores tabus para um cavaleiro. Aquela era a verdadeira versão dela? Teria sido tudo fingimento quando ela dissera a Ikki que tinha orgulho da esgrima de seu pai, e quando ficara radiante por ter começado a se aproximar do nível de habilidade dele?
“Sabe, quando vi suas palmas pela primeira vez, Ayatsuji-san, eu fiquei feliz. Tinha sido encorajador saber que havia outro esgrimista nesta escola.”
“Eu realmente te agradeço por me treinar. Agora, serei capaz de usar a força que você me deu para derrotá-lo.”
“Eu tinha certeza... de que você não era o tipo de pessoa que faria algo assim.”
“Você me superestimou. Não me culpe por ter uma versão idealizada de mim na sua cabeça.”
“Ngh! Ayatsuji-san, eu não sei o que o Sword Eater tirou de você, mas o que você fez é um insulto não apenas a mim, mas à Stella, à Shizuku e a todos os outros cavaleiros que estão tentando chegar ao Festival de Artes da Espada das Sete Estrelas também! Você será honestamente feliz recuperando o que quer que tenha sido roubado se isso significar manchar seu orgulho dessa forma?! Você será capaz de manter sua cabeça erguida depois que tudo terminar?!”
“Isso não tem nada a ver com você, Kurogane-kun.” Ayase cortou Ikki friamente e virou as costas para ele. "Não importa o que você diga. Eu vou derrotar você em nosso duelo. Eu preciso.”
Com essas palavras de despedida, ela caminhou para a escuridão da noite. Embora ela não tivesse ido muito longe, parecia estar a milhas de distância para Ikki. E, antes de muito tempo, ela já estava longe o suficiente para que ele não pudesse mais ver nem mesmo sua silhueta.
“Não há como saber o que se esconde sob a fachada externa de uma pessoa. Se você ficar abalado demais com o que acontecer, acabará perdendo uma batalha que poderia ter vencido facilmente.”
Ikki relembrou o aviso de Alisuin. Ela estava certa. Se Ikki se deixasse abalar por aquilo, sua esgrima ficaria cega. Nesse caso, ele precisava aceitar que sua amizade com Ayase havia acabado. Ele precisava seguir em frente e esquecer tudo sobre ela.
Mas será que essa é realmente a decisão certa?
“Ngh.”
Ikki caiu de joelhos, sem saber se era porque o recuo do Ittou Shura estava finalmente o atingindo ou por causa do quão traído ele se sentia.
"Maldiçããão!", ele gritou, socando o punho contra o gramado.
— Almeranto: Caramba… Que final de capítulo, eu realmente fico no puro ódio da Ayase aqui.

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