Volume 1

Capítulo 3: Rebellion

 

   Havia um homem que Kurogane Shizuku amava. Ele esteve ao lado dela durante toda a sua infância e, em um mundo cheio de adultos assustadores, ele era o único que sorria gentilmente para ela. Ele era, é claro, seu irmão mais velho, Kurogane Ikki. A razão pela qual ela o beijou quando se reencontraram após quatro anos foi porque ela o amava.

   Ela nem sempre o viu sob uma luz romântica. Na verdade, até quatro anos atrás, seu amor por ele era um amor normal e familiar. Seus sentimentos só começaram a mudar quando ele saiu de casa.

   No entanto, não foi tão simples quanto perceber, depois que ele partiu, que ela o amava romanticamente o tempo todo. Quando Ikki fugiu, há quatro anos, ninguém se deu ao trabalho de procurá-lo. Nem seus pais, nem mesmo o irmão mais velho de Shizuku. Foi então que ela começou a perceber como Ikki havia sido tratado pelo resto da família. Mesmo antes de ele partir, todos fingiam que ele não existia.

   Quando se deu conta do que ele havia sido submetido, Shizuku sentiu nojo de quão voluntariamente ignorante ela tinha sido. Ela nunca havia notado a dor que Ikki carregava consigo por baixo dos sorrisos gentis que ele lhe mostrava. Como ela pôde falhar em entender o que ele estava passando até que ele tivesse ido embora? Ela passara mais tempo com ele do que qualquer outra pessoa.

   Sobrecarregada pelo arrependimento, Shizuku logo passou a ressentir sua família. Não apenas por terem ignorado Ikki sem nenhum motivo além de sua falta de talento como um Blazer, mas porque, mesmo depois de ele ter saído de casa e cortado todos os laços, eles ainda tentavam atrapalhar seu sonho apenas por sentirem que seria vergonhoso se alguém com o nome Kurogane se tornasse um Cavaleiro-Mago de Rank F. Era repugnante.

   Assim, Kurogane Shizuku tomou uma decisão. Não importava se era tabu. Se o pai, a mãe e o irmão de Ikki não lhe dariam o amor que ele merecia, que fosse. Ela, sozinha, daria a Ikki o amor que ele nunca recebeu; a ajuda deles era desnecessária. Ela lhe concederia o amor de um pai, de uma mãe, de um irmão, de uma irmã, de um amigo e de uma amante, tudo de uma vez. Ela o amaria mais do que qualquer pessoa já fora amada antes.

   Foi precisamente por causa dessa sua determinação distorcida, no entanto, que ela agora enfrentava um grande problema: Stella Vermillion, a garota que afirmava ser a serva do seu amado Ikki. Era óbvio para Shizuku que Stella tinha uma queda por ele.

   Ambas amavam o mesmo homem. Stella havia transformado sua promessa a Ikki em correntes que o prendiam a ela, e isso irritava Shizuku profundamente. Além disso, Stella percebeu a profundidade do amor de Shizuku por Ikki e estava fazendo tudo o que podia para atrapalhar o seu caminho.

   Hoje, as suspensões de ambas finalmente terminaram. Shizuku pensou em convidar Ikki para um cinema para comemorar, mas aquela "pedra no sapato" se meteu no meio e exigiu ir junto. Shizuku estava furiosa. Stella disse: “Eu ainda não conheço o Japão muito bem, então quero que você me mostre o lugar”, o que era um argumento perfeitamente sensato; então, naturalmente, Ikki concordou. Shizuku não suportava o fato de ele ser enganado tão facilmente por aquela mulher.

   Nada disso era culpa do Ikki, é claro. Ele era perfeito. A culpa era toda daquela víbora da Stella. Shizuku a faria pagar por roubar o seu irmão.

“Aquela maldita cadela”, ela murmurou ao sair do banho.

“Ora, ora. Vejo que você está de mau humor hoje de novo”, disse sua colega de quarto, Alisuin Nagi, enquanto passava um pente pelo cabelo molhado de Shizuku e começava a secá-lo. “Aconteceu algo entre você e a princesa novamente?”

“Sim”, Shizuku respondeu com uma voz desanimada, não se importando que Alisuin estivesse penteando seu cabelo.

   Shizuku tentava ser o mais educada possível com seu amado Ikki e até com Stella, mas perto de Alisuin, ela não se importava com a forma como falava. Ela também não parecia composta e graciosa no momento; estava estufando as bochechas e fazendo beicinho como uma criança mimada.

“Heh. Garotas apaixonadas certamente têm uma vida difícil”, disse Alisuin, sorrindo ao ver a expressão dela refletida no espelho. Alisuin sabia que ela estava apaixonada pelo irmão; ela mesma havia contado. Honestamente, porém, ela não tinha certeza de por que tinha feito isso.

   Nos anos desde que Ikki saíra de casa, ela passou a desgostar tanto de homens quanto de mulheres, tornando-se uma espécie de misantropa. Ela sempre fora desconfiada das pessoas, e essa desconfiança só piorou quando Ikki se foi. Ver pais que nem sequer amavam o próprio filho tornou difícil para ela acreditar que qualquer outra pessoa que conhecesse fosse, por padrão, alguém bom.

   E, no entanto, ela havia contado a Alisuin sobre seu amor pelo irmão, algo profundamente pessoal. Ela fizera isso apenas uma semana após conhecer sua nova colega de quarto.

     Suponho que eu apenas goste de conversar com Alice.

   Alisuin deixava Shizuku dizer o que quisesse, era uma ouvinte surpreendentemente boa e compartilhava de sua alegria quando ela estava feliz com algo. O melhor de tudo era que não bisbilhotava coisas que ela não queria contar. Shizuku tinha apenas irmãos mais velhos e, por isso, só podia especular, mas imaginava que, se tivesse uma irmã mais velha, ela seria alguém como Alisuin. Provavelmente era por isso que se sentia tão à vontade contando coisas que mantinha em segredo de todos os outros.

“Ei, Alice.”

“Sim?”

“É estranho estar apaixonada pelo seu próprio irmão?”

   No momento em que disse isso, Shizuku se arrependeu de fazer uma pergunta tão estúpida. É claro que era estranho. Ela não precisava que ninguém lhe dissesse isso. Mas ela se deixara mimar por Alisuin e, secretamente, esperava que recebesse uma resposta diferente.

“Se estivermos falando sobre o que é socialmente aceitável, então sim, é estranho. A maioria das pessoas chamaria isso de imoral. Mas tenho certeza de que você já sabe disso, não sabe, Shizuku? Se você o ama apesar disso, então acredito que esse seu amor é algo puro e belo.”

   Como Shizuku esperava, Alisuin percebeu imediatamente o que ela realmente queria ouvir.

“Desculpe por fazer uma pergunta tão hesitante, Alice.”

“Ah, não fique assim. Todo mundo precisa de palavras de incentivo de vez em quando. Se eu consegui tranquilizar sua mente, isso já é o suficiente. As palavras servem para apoiar os outros, não para insultá-los. Além disso, eu realmente acredito que o seu amor é algo maravilhoso do qual você não deveria se envergonhar, Shizuku. A maioria das pessoas nunca conseguiria ser tão devota a outra pessoa.”

“Obrigada. Mas não é que eu tenha vergonha dos meus sentimentos. Eu só me preocupo que o Onii-sama não vá aceitá-los.”

“Enquanto você perseverar, ele aceitará. No momento, ele ainda pensa em você como a irmã dele, e será bem difícil fazê-lo vê-la como uma mulher. Nesse aspecto, a princesa tem a vantagem, já que ela não precisa saltar um obstáculo tão alto.”

“Ngh...” A análise objetiva de Alisuin atingiu Shizuku em cheio.

   Na verdade, Shizuku não era uma pessoa tão distorcida assim. Ela sabia muito bem que seria difícil fazer Ikki aceitar seus sentimentos. Mas era precisamente por isso que ela sabia que teria de abandonar todas as noções de bom senso se quisesse abrir caminho à força para o coração dele.

   Por enquanto, seu plano era passar tanto tempo com ele que eventualmente seria capaz de sobrescrever a percepção que ele tinha dela como irmã pela de uma potencial namorada. Se ela não conseguisse isso agora — quando o intervalo de quatro anos desde o último encontro tornava mais difícil para ele avaliar como abordar o relacionamento deles —, então ela estaria condenada.

   No entanto, a abordagem de "força bruta" só funcionaria se Ikki realmente a achasse atraente. Ela também temia que seus avanços constantes pudessem estar irritando o irmão. Se fosse o caso, era possível que ele deixasse de amá-la até mesmo como irmã se ela fosse longe demais. Shizuku era constantemente atormentada por essas preocupações, a ponto de estar à beira das lágrimas todas as noites.

“Não fique tão desanimada. A princesa tem seus próprios obstáculos para superar, como o status social dela. Além disso, não existe homem vivo que não goste de uma mulher decidida. Especialmente uma tão fofa quanto você, Shizuku”, disse Alisuin com uma voz tranquilizadora.

     Não tenho tanta certeza...

   Como garota, Shizuku não entendia muito bem como os homens pensavam. Mas se Alisuin dizia que era assim que eles funcionavam, ela acreditaria. Pelo menos, Alice entendia os homens melhor do que ela.

“Obrigada, Alice. Me sinto melhor agora.”

“Sempre que precisar. Dito isso, acho que beijá-lo no momento em que o viu foi um tanto assertivo demais. Percebo que você teve que fazer isso para evitar que sua própria determinação vacilasse, mas agora, você deixou seu irmão em guarda.”

“Eu me arrependo disso...”

“Contanto que você entenda. Com os homens, é preciso ir com calma. Descasque as inibições deles uma a uma, lentamente. De qualquer forma, deixe o seu visual para o encontro de amanhã comigo. Vou escolher as roupas mais fofas que você já viu.”

“Obrigada. Enquanto você estiver comigo, Alice, não tem como eu perder para aquela mulher.”

   Se Stella estava determinada a usar sua promessa com Ikki para se infiltrar no coração dele, então Shizuku tiraria total vantagem de sua posição como irmãzinha. De jeito nenhum ela o entregaria. Ela era a única que podia entender a dor dele. A única que sabia quais injustiças ele havia sofrido na casa da família. Ela não podia deixá-lo sob os cuidados daquela mulher.

   Na verdade, Shizuku não confiava em mais ninguém para amar Ikki da maneira que ela amava. Ela estava convencida de que todos os outros no mundo só se importavam com si mesmos. Mas ela jamais trairia seu irmão. Ela nunca faria nada que o entristecesse. Ela ficaria ao lado dele não importa o que acontecesse, e seus sentimentos por ele jamais diminuiriam. Isso foi o que ela jurou a si mesma quando Ikki partiu, e era por isso que ela estava aqui agora.

     Aquela mulher jamais poderia ir tão longe pelo Onii-sama.

   Shizuku estivera deprimida desde que Stella arruinara seus planos para o encontro, mas seus olhos agora queimavam com desafio. As palavras de Alisuin lhe deram força, como sempre faziam.

“Eu consigo fazer isso”, disse ela resolutamente.

“Esse é o espírito. Certo, tudo pronto.”

   Alisuin desligou o secador ao terminar de pentear. Shizuku balançou a cabeça de leve, e seu cabelo prateado caiu perfeitamente ao redor dela. Alice era muito, muito melhor no cuidado com os cabelos do que ela jamais fora. Era por isso que Shizuku alegremente deixava que ela cuidasse de seu cabelo em vez de fazer ela mesma.

     Espero poder fazer algo para retribuir à Alice algum dia. Mas será que existe algo que eu possa fazer que ela não consiga?

   Shizuku inclinou a cabeça para o lado enquanto pensava. Depois de um tempo, ela finalmente teve uma ideia.

“Ah, sim. Ei, Alice. Você quer vir ao cinema comigo amanhã?”

“Tudo bem por você? Tem certeza de que me quer segurando vela no seu encontro?”

“Está tudo bem. No momento em que aquela mulher se envolveu, deixou de ser um encontro de verdade.”

“Heh heh. Justo. Então acho que vou aceitar o convite. Eu ando querendo conhecer esse seu irmão de quem você fala tão bem.”

     Que bom. Ela ficou feliz por eu ter convidado.

   Agora, tudo o que Shizuku precisava fazer era mandar uma mensagem para Ikki perguntando se estava tudo bem. Como ele estava trazendo a própria colega de quarto, ela duvidava que ele teria algum problema com isso.

“Estou bem ansiosa por amanhã agora. Se ele for realmente tão incrível quanto você diz, talvez eu mesma o devore.”

“Hã? O que você acabou de dizer? Desculpe, mas devo ter ouvido errado, então pode repetir? Quase pareceu que você estava com um desejo de morte.”

“Sinto muito, não achei que você levaria minha piada tão a sério. Por favor, guarde a Yoishigure. Eu não vou fazer nada.”

     É bom que você esteja apenas brincando, Alice. Pelo seu próprio bem.

   Se não estivesse, Shizuku teria que cortá-la, independentemente de quão úteis seus conselhos pudessem ter sido.

 

 

   Na manhã do tão aguardado encontro no cinema, Kurogane Ikki e Stella Vermillion esperavam do lado de fora do portão principal da Academia Hagun por Shizuku e Alisuin. Nenhum deles estava usando o uniforme escolar hoje; Ikki vestia algo casual, uma camiseta e jeans, e Stella usava uma blusa branca estilosa com um cardigã de cores vivas.

“Elas estão atrasadas. Por que estão demorando tanto?”, perguntou Stella.

“Se estivéssemos no mesmo dormitório, poderíamos ter saído todos juntos”, respondeu Ikki.

   Ikki e Stella estavam alojados no primeiro prédio de dormitórios da academia, enquanto Shizuku e Alisuin estavam no segundo. Os dois prédios ficavam em lados opostos do campus, com o prédio principal da escola entre eles, e por isso decidiram se encontrar no portão principal. No entanto, o horário marcado já havia passado há muito tempo, e Shizuku ainda não aparecera.

“Tenho certeza de que chegarão logo. Mas devo dizer, estou surpreso que você esteja tão animada para este filme, Stella.”

   Ikki relembrou o fervor com que Stella insistira que também iria quando Shizuku o convidou para ir ao cinema.

“Digo, eu não posso deixar você e a Shizuku sozinhos em um cinema escuro. É perigoso demais.”

“O que tem de tão perigoso nisso?”

“O fato de você não notar o perigo é o maior problema aqui! Você já esqueceu o que aconteceu no primeiro dia de aula?!”

“Ah, sim...” Ikki não conseguiria esquecer aquilo nem se quisesse. Tinha sido o seu primeiro beijo, afinal. “Mas ela me pediu desculpas no dia seguinte. Ela disse: ‘Fiquei tão emocionada ao te ver pela primeira vez em quatro anos que deixei a empolgação subir à cabeça. Sinto muito.’ Tenho certeza de que ela só me vê como irmão e não fará algo assim de novo. Aquele primeiro dia foi uma exceção. Eu ficarei bem.”

“Tenho quase certeza de que ela só recuou um pouco por causa do quão assustado você ficou...”

“Hã? O que você disse?”

“Eu disse que você é um siscon sem salvação.”

“N-Não sou não! Quero dizer, eu amo minha irmã, mas apenas como família! Ela é minha parente de sangue! Só porque não nos vemos há quatro anos não significa que eu vá subitamente me sentir atraído por ela!”

“Sério? Você não vai mais ficar deslumbrado pela beleza da Shizuku?”

“Não vou.”

   Desejar a própria irmã era errado.

     Eu absolutamente não posso deixar isso acontecer de novo.

   Era verdade que Ikki já havia cometido esse erro uma vez, mas o deprimia que Stella duvidasse tanto dele. Ele suspirou ao perceber o quão pouco confiável parecia. Justo então, Shizuku finalmente chegou.

“Desculpe o atraso, Onii-sama.”

“Ah, Shizu—”

“O que você estava fazendo que demorou...”

   Ikki e Stella pararam no meio da frase, de queixo caído.

“Levei mais tempo do que esperava para me arrumar.” Shizuku inclinou a cabeça em sinal de desculpas. Ela parecia dez vezes mais bonita que o habitual.

   Ela estava vestida com um traje gothic lolita que acentuava sua estatura pequena e seu cabelo prateado, fazendo-a parecer uma boneca. A roupa combinava com ela muito melhor do que o uniforme escolar. Enfatizava todos os seus encantos.

   No entanto, Shizuku sempre gostou desse tipo de roupa, mesmo quando criança, e Ikki estava acostumado a vê-la assim. Portanto, normalmente, vê-la em trajes tão nostálgicos deveria ter ajudado a reforçar a ideia de que ela era sua irmãzinha em sua mente, garantindo que ele não se sentisse acidentalmente atraído por ela de novo. Mas ela havia feito um truque de mágica extra para garantir que isso não acontecesse.

     E-Ela está linda...

   Ela parecia tão deslumbrante que os arredores pareciam sem cor em comparação. Ikki acabara de dizer que não ficaria atordoado pela beleza de Shizuku, mas estava, mais uma vez, cativado. Como resultado, levou alguns segundos para perceber por que ela parecia tão diferente hoje: ela estava maquiada.

   Havia sombra contornando suas pálpebras e ela usava batom. Também havia curvado os cílios, e o que quer que tivesse feito em seu cabelo fazia cada fio prateado parecer perfeito. Era isso que a fazia parecer estar literalmente brilhando.

   O mais impressionante em sua maquiagem era que ela realçava seus encantos naturais em vez de camuflá-los. Ikki foi forçado a vê-la não como sua irmã ou como uma criança, mas sim como uma mulher.

“I-Isso é trapaça! Não tem como uma amadora como você fazer uma transformação dessas sozinha! Você foi a um estilista?!” exclamou Stella.

“Eu não sou uma princesa rica como você. Não tenho dinheiro para isso. Minha colega de quarto fez para mim.”

“O quê?”

“É a mesma Alisuin-san que você disse que viria hoje?” perguntou Ikki, curioso.

   Shizuku havia dito a Ikki o nome de sua colega de quarto quando perguntou se poderia trazê-la. Ikki se lembrava dela descrevendo a colega como “uma irmã mais velha confiável”.

“Sim. Ela deve chegar a qualquer minuto.” Logo que Shizuku terminou de falar, sua colega de quarto chegou.

“Você precisa ir mais devagar, Shizuku. E se você tropeçar e estragar a maquiagem?”

   Ikki e Stella se viraram para olhar o recém-chegado.

“Hã?”

   As expressões de ambos endureceram como pedra. O maquiador de nível profissional, Alisuin, a quem Shizuku descrevera como uma “irmã mais velha”, parecia demais com um cara.

 

 

 

 

 



 

“Eheh heh, é um prazer conhecer vocês. Muito obrigada por me convidarem hoje. Sou a colega de quarto da Shizuku, Alisuin Nagi. Não gosto particularmente do meu nome, então, por favor, me chamem apenas de Alice.”

   O visual de Alisuin combinava com o de Shizuku no estilo — tons monocromáticos com uma estética visual-kei — o que caía muito bem em sua estatura alta e esguia. Alice removeu seu chapéu-coco e fez uma reverência antes de sorrir calorosamente para Stella e Ikki, estendendo a mão para um aperto.

“Hum, o-o prazer é nosso também.”

“Encantada em conhecê-la...”

   Os dois apertaram a mão de Alisuin desajeitadamente, incapazes de esconder a confusão.

“O-O que diabos está acontecendo aqui?”, sussurrou Stella para Ikki.

“Não me pergunte”, ele respondeu, também mantendo a voz baixa.

   Ambos presumiram que Alisuin era uma garota, mas aquela pessoa claramente parecia um homem. Um homem levemente afeminado, talvez, mas indubitavelmente um homem. Era mais alto que Ikki, provavelmente medindo mais de 180 centímetros.

“Mas a voz e o jeito são de uma garota. Isso é alguma piada japonesa especial? Eu deveria estar rindo?”

“Eu não faço a menor ideia.”

“Heh heh. Veja, Shizuku. Os dois estão atordoados pela minha beleza.”

“Isso é um jeito bem ousado de interpretar nossa reação!”, gritaram Stella e Ikki em uníssono.

“Hum, Alice-san?”, Ikki perguntou hesitante logo em seguida.

“Não há necessidade de honoríficos. Eu não gosto de formalidade.”

“Alice, então. Hum... você é um cross-dresser?”

“Não. Sou simplesmente uma mulher presa no corpo de um homem.”

“Qu-Qual é a diferença entre os dois, Stella?!”, sussurrou Ikki furiosamente, virando-se para sua companheira.

“Por que você está me perguntando?!”

“Estão surpresos?”, perguntou Shizuku, notando a confusão de Ikki e Stella.

   Ikki coçou a cabeça sem jeito e respondeu: “A-Aha ha ha. Sim, eu acho que sim. Eu sabia que pessoas como a Alice existiam, mas esta é a primeira vez que conheço uma, então não tenho muita certeza de como agir. Desculpe.”

“Eheh heh. Não precisa se desculpar. Estou acostumada. Mas saiba que a Shizuku não se incomodou nem um pouco.”

“O gênero de uma pessoa não importa muito para mim”, disse Shizuku de forma monótona, e Ikki ficou honestamente emocionado com a facilidade com que sua irmãzinha aceitava pessoas diferentes dela.

     Ela se tornou ainda mais madura do que eu no tempo em que passamos separados.

   Ele definitivamente queria se tornar mais parecido com ela e estar disposto a aceitar as pessoas pelo que eram.

“Eu não me importo se você é homem ou mulher. Eu odeio todas as pessoas igualmente”, acrescentou ela, e Ikki instantaneamente teve vontade de retirar tudo o que acabara de pensar.

     Alguém, por favor, cure o coração despedaçado da minha pobre irmã.

“Claro, você não vê pessoas como a Alice com frequência, mas ela quer que as pessoas a tratem como uma garota, então é isso que eu farei. Eu preferiria que você fizesse o mesmo, Onii-sama, Stella-san.”

“Vou dar o meu melhor...”, disse Ikki.

“Heh heh. Eu aprecio o sentimento, mas não precisa forçar. Não quero que as coisas fiquem estranhas entre nós.”

   Alisuin estava claramente muito acostumada com esse tratamento, pois ofereceu suavemente uma saída para Ikki.

“Bem, enfim, já estamos todos aqui, então vamos para o cinema”, disse Ikki, arquivando o assunto por enquanto.

“É”, concordou Stella. “Não faz sentido ficarmos aqui parados.”

“Ainda temos um tempo antes do filme começar, então podemos ir com calma, Onii-sama”, observou Shizuku, olhando para um relógio próximo. Ela então, habilmente, entrelaçou seu braço no de Ikki. Ela fazia isso com frequência quando eram crianças, mas Ikki ainda assim ficou surpreso.

“Opa!”

   Ela estava muito mais bonita do que o habitual hoje, o que tornava difícil para ele ficar tão perto dela. Sua resolução anterior de não se sentir atraído por ela já estava começando a ruir. Mas, antes que ele pudesse pedir para ela soltá-lo, ela disse: “Eheh heh. Faz tanto tempo desde a última vez que caminhamos de braços dados assim, Onii-sama.”

“É, sim... acho que faz.”

   Ao ver o sorriso nostálgico de Shizuku, Ikki não conseguiu se obrigar a se afastar. Ali estava ela, buscando contato físico com seu irmão apenas como um irmão, e ele estava prestes a pedir que ela o soltasse só porque estava tendo dificuldade em vê-la apenas como irmã. É claro que ele não percebeu que era exatamente isso que Shizuku pretendia.

   Stella, no entanto, não estava disposta a deixar isso passar.

“Ei! O que você pensa que está fazendo?!”

“Estou simplesmente passando um tempo de qualidade me conectando com meu irmão. Nós costumávamos caminhar assim o tempo todo quando éramos crianças. Não é verdade, Onii-sama?”

“Ah, bem... Aha ha, acho que, tecnicamente, sim...”

“N-Nesse caso, eu também vou—”

“Achei que você diria isso, então trouxe algo para você. Aqui está sua coleira. Divirta-se criando laços com seu mestre da maneira apropriada.”

“Nossa, que atenciosa— Você achou que eu realmente aceitaria isso?!”

“Mas uma mera serva não tem permissão para caminhar lado a lado com seu mestre. Foi você quem se meteu no meu caminho, dizendo que, como serva dele, precisava colocá-lo nos eixos. Certamente você não vai negar ser a serva dele agora que é inconveniente para você. Ou é apenas a isso que as promessas da família real de Vermillion se resumem?”

“Ngh!”

“Bem, se você realmente quiser, suponho que poderia segurar a mão do Onii-sama. Ele tem duas, afinal. Mas não consigo imaginar nenhum motivo para você querer segurar a mão de um cara, a menos que tivesse sentimentos especiais por ele. Stella-san, será que você—”

“A-Absolutamente não! Eu só me tornei serva dele porque perdi para ele em um duelo! É só isso!”

   O orgulho de Stella não permitia que ela admitisse que havia se encurralado sozinha. Naturalmente, Shizuku estava tirando total vantagem disso.

“Então, suponho que você não precise segurar a mão dele”, disse ela, enxotando Stella com um gesto.

“Grr...”

“Venha, Onii-sama. Vamos indo.”

“O-Ok...”

“O que foi aquilo sobre não ficar deslumbrado pela beleza dela, seu siscon estúpido? Pervertido”, Stella disparou enquanto Ikki e Shizuku caminhavam de braços dados.

     Será que vou conseguir sobreviver a um dia inteiro com as duas juntas?, Ikki pensou preocupado.

 

 

   Havia um grande shopping center relativamente perto da Academia Hagun. O cinema para onde Ikki e os outros estavam indo, o Cinemaland, ficava no quarto andar — o último andar desse shopping. No entanto, o grupo não foi direto para lá. Como Shizuku havia dito antes, ainda faltava um tempo considerável para o filme começar.

   As únicas coisas no quarto andar eram o cinema e uma loja de presentes do próprio cinema. Por recomendação de Alisuin, os quatro decidiram primeiro passar o tempo na praça de alimentação.

“Mmm! Este crepe está delicioso!”, exclamou Stella, mordendo sua sobremesa.

   Alisuin havia recomendado aquele café específico, e ele provou ser um grande sucesso.

“Eu sempre evitei crepes porque pareciam desnecessariamente caros, mas este é muito bom”, disse Shizuku, saboreando seu próprio crepe.

“Viu? O café daqui não economiza no creme, por isso os crepes são deliciosos. Mas eu não recomendaria o sorvete deles. Se você quiser um sorvete bom, o Raskin-Bobbins no terceiro andar é melhor”, sugeriu Alisuin.

“Você certamente conhece muito bem esta área”, comentou Ikki.

“Eu investiguei as opções de comida por aqui com antecedência. Nós, garotas, amamos doces, então eu queria escolher os melhores lugares.”

“Se você quiser doces saborosos ou roupas da moda, a Alice é a melhor pessoa para perguntar. Se houver algo em particular que você esteja procurando, Stella-san, ela saberá.”

“Bem, não tenho certeza se conheço lojas que vendam roupas que a realeza usaria, mas posso definitivamente indicar todos os bons lugares de sobremesa. Na verdade, podemos visitar todos eles hoje, se você quiser.”

“Sério?! Isso soa ótimo! Quais outras lojas são boas?!”

“Há outro café neste shopping que faz um tiramisu divino...”

   Ikki observava de longe enquanto as garotas discutiam animadamente sobre os vários doces que queriam experimentar. Ele não se sentia muito à vontade interrompendo uma "conversa de garotas" como aquela. Também não ajudava o fato de ele não ser um grande fã de doces.

     A Alice parece estar se entrosando muito bem, no entanto.

   Até Stella, que tinha ficado perplexa no início, não parecia mais se importar tanto com o gênero de Alisuin. Ela já estava mais próxima de Alice do que de qualquer outro garoto da turma deles.

     Talvez seja mais fácil para as garotas aceitarem pessoas como a Alice? Embora eu ache que ele também é bem bonito, então seria popular com as garotas de qualquer jeito.

   Enquanto tomava seu café gelado em silêncio, Ikki notou que havia um pouco de chantilly na bochecha de Shizuku.

     Ih, rapaz. Seria um problema se isso estragasse a maquiagem dela.

   Ele tinha ficado surpreso com o quanto a maquiagem a deixou mais bonita, mas vê-la lambuzando o rosto com creme o lembrou de que ela ainda era sua irmãzinha, e seu nervosismo desapareceu. De certa forma, ele estava grato por ela ainda ser tão estabanada.

     Seria um desperdício deixá-la assim depois de todo o esforço que ela teve para se arrumar hoje.

“Shizuku, deixe-me ver seu rosto rapidinho.”

“Hmm? O que foi, Onii-sama?”

   Assim que Shizuku se virou, Ikki esticou o braço e limpou o creme do rosto dela com o dedo.

“Tinha um pouco de chantilly na sua bochecha. Você deveria comer com mais cuidado. Não quer estragar sua maquiagem, certo?”

   Ikki colocou o dedo sujo de creme na boca sem pensar duas vezes.

“Hrrrngh!”

   Shizuku corou intensamente e se escondeu atrás de Alisuin. Ela sempre teve o hábito de se esconder atrás das pessoas quando estava envergonhada, e Ikki ficou feliz por, pelo menos, essa parte dela não ter mudado.

“Ora, ora. Eu não sabia que você só era confiante na hora de tomar a iniciativa e desmoronava quando o jogo virava, Shizuku.”

“C-C-C-Cala a boca, Alice! E-Eu só fui pega de surpresa, é s-s-s-só isso!”

   Ikki sorriu gentilmente para Shizuku. “Era só um pouco de chantilly no rosto. Não é nada para ficar com vergonha.”

“Eu não acho que é por isso que ela está corando. Você é mais perigoso do que parece.”

“O que você quer dizer com isso?”

“Eheh heh. Não cabe a mim dizer.”

   Ikki lançou um olhar confuso para Alisuin, mas antes que pudesse perguntar mais nada, Stella começou a tossir logo ao seu lado.

“Você está bem, Stella? Não pegou um resfriado nem nada, pe—” Ao se virar, Ikki viu que Stella tinha chantilly suficiente no rosto para formar uma barba de Papai Noel.

“O que foi, Ikki? Você parece surpreso. Tem alguma coisa no meu rosto?”

“A única coisa surpresa aqui é o fato de você não ter notado!”

“S-Se tem algo grudado, você poderia limpar para mim como fez com a Shizuku?”

“Tem coisa demais para eu tirar com o dedo. Um segundo, vou buscar uma toalha.”

“Ah, espera!”

   Antes que Stella pudesse impedi-lo, Ikki saiu correndo e pediu uma toalha a uma garçonete.

“Err, Stella-san? Você é idiota?”, perguntou Shizuku, parecendo embasbacada.

“Ora, eu acho fofo o quão desajeitada ela é. Quase sinto vontade de torcer por ela também agora”, disse Alisuin com um sorriso.

“C-C-C-Cala a boca! Eu não fiz de propósito para o Ikki limpar meu rosto nem nada! Minha mão só escorregou! De verdade!”

 

 

   Depois que todos terminaram seus crepes, conversaram mais um pouco e, logo, chegou a hora do filme.

“Devemos começar a subir para o quarto andar”, disse Shizuku, e todos se levantaram.

   Foi só nesse momento que Stella finalmente perguntou: “A propósito, Ikki, que tipo de filme vamos assistir?”

“Na verdade, eu não sei.”

   Ele finalmente havia se reunido com sua irmã depois de quatro anos, então aceitou o convite para ir ao cinema sem se dar ao trabalho de descobrir qual filme iriam ver.

“O que você veio fazer aqui, então?”, perguntou Stella.

“Acho que você não tem o direito de me perguntar isso.”

“Eu estou aqui para ficar de olho em vocês dois, só isso. Então, Shizuku, que filme vamos ver?”

“Um filme de romance comum e antigo.”

“Eu sabia. Graças a Deus eu vim junto.” Stella já esperava por isso e soltou um pequeno suspiro. “E como se chama?”

Como me apaixonei pela minha irmã. Classificação: 15 anos.”

“Não tem nada de comum nisso!”

“É uma história de amor perfeitamente doce e pura. Contanto que você ignore que o casal são irmãos.”

“Não acredito que você está chamando uma premissa tão imoral de história de amor pura! Quanta audácia a sua, convidar seu próprio irmão de sangue para ver isso com você?! Eu sabia que você era maluca, mas não sabia que era tanto!”

“Eu não quero ser chamada de audaciosa por alguém que grita para toda a turma ouvir que é escrava de outra pessoa.”

   Shizuku tinha um ponto, mas Ikki ainda não queria particularmente ver esse filme com sua irmã.

“Sh-Shizuku, vamos escolher outro filme.”

“Aww. Mas por quê? O que há de errado com este?”

“Tudo”

     Como você não consegue ver o problema em assistir a um filme sobre se apaixonar pelo irmão quando você está indo ao cinema justamente com o seu irmão?

“D-De qualquer forma, não vamos assistir a esse, e ponto final!”

“Mrr. Se você insiste, Onii-sama, suponho que assistiremos a outro. O que parece bom?”

   Shizuku abriu a página inicial do Cinemaland em seu manual do aluno e mostrou a todos o que estava em cartaz.

“Oh, este parece legal!”, disse Stella. “Karuna, Princesa do Deserto. É um filme de animação sobre uma princesa que é sequestrada por um grupo de bandidos, mas acaba se apaixonando pelo líder deles. Parece muito romântico e—”

“Rejeitado”, disse Shizuku, cortando-a.

“Por quê?!”

“Eu não quero assistir a um filme sobre uma vadia qualquer que abre as pernas para o primeiro vigarista que aparece no caminho dela.”

“É melhor do que um filme nojento onde a garota dorme com o próprio irmão! Especialmente se esse aí ganhou uma classificação de 15 anos!”

“Santo Deus. Nesse ritmo, nunca vamos nos decidir por um filme”, disse Alisuin, balançando a cabeça. “Que tal entrarmos em um acordo e assistirmos a Paraíso Perdido dos Garotos? Também é para maiores de 15 anos, a propósito.”

“Que tipo de acordo é esse?!” Stella e Shizuku gritaram em uníssono. Apesar de todas as brigas, elas se davam surpreendentemente bem.

“Vocês, garotas, certamente são exigentes. Tudo o que resta é um filme de ação, eu suponho.”

“Este lugar não parece ter muitos filmes em exibição”, disse Ikki, entrando na discussão.

“Isso é porque é um cinema pequeno”, explicou Alisuin.

“Mas acho que todo mundo consegue aproveitar um filme de ação, então pode ser, né? O que vocês duas acham?”, Ikki perguntou, voltando-se para Stella e Shizuku.

“Mrr. É uma pena, mas se é isso que você quer assistir, Onii-sama, então suponho que possamos.”

“Tudo bem. Eu também gosto de filmes de ação, então acho que serve.”

“Certo, então está decidido. Felizmente, a próxima sessão começa em apenas alguns minutos”, disse Alisuin.

“A propósito, Alice, qual é o título desse filme de ação?”

“Gandhi: Libertação da Fúria.”

“Que tipo de filme é esse?!” Shizuku, Stella e Ikki exclamaram todos ao mesmo tempo.

   Todos olharam para o pôster do título, que mostrava um monge extremamente musculoso carregando uma metralhadora com prédios em chamas como pano de fundo. O slogan dizia: “Um tolo disse uma vez que o perdão é força. Eu sei agora que ele estava errado.” Certamente era um pôster chamativo.

   Apesar de quão estranho o filme parecia, era aquele que o grupo tinha decidido, então todos começaram a subir a escada rolante para o quarto andar.

   Ao chegarem ao terceiro andar, Ikki disse de repente: “Desculpe, pessoal. Eu preciso dar um pulinho no banheiro bem rápido. Vocês podem pegar meu ingresso para mim?”

“Eu acho que vou com você,” Alisuin disse, seguindo Ikki.

“Ok, vamos pegar os ingressos de vocês dois, então. Vocês podem nos pagar depois,” Shizuku respondeu.

“Certifique-se de voltar antes do filme começar. Não temos muito tempo sobrando,” Stella acrescentou.

“Sim, vamos nos apressar.”

“Ei, Shizuku! Reserve um assento para mim ao lado do Ikki!” Alisuin disse, sorrindo alegremente.

“Onii-sama, eu vou comprar ingressos para nós três.”

“Sinto muito! Eu estava brincando! Foi só uma piada!”

   Stella e Shizuku continuaram subindo a escada rolante enquanto Ikki e Alisuin se dirigiam para o banheiro masculino.

“Eba. Finalmente estamos sozinhos,” Alisuin disse com um sorriso largo.

“Hum, eu deveria estar feliz com isso?”

“Espere, você não disse que ia ao banheiro porque queria passar um tempo a sós comigo?”

“Não!”

“Heh heh. Eu sei. Estou apenas brincando. É engraçado ver suas reações.”

“Desculpe... eu ainda não sei realmente como devo agir perto de você, Alice. Eu nunca conheci ninguém como você antes.”

“Apenas pense em mim como uma garota normal.”

     Bom, isso não vai acontecer.

“Não se preocupe,” eles acrescentaram, “eu não curto heteros.”

“‘H-Heteros’?”

“Basicamente, eu não sou sexualmente atraída por você.”

“A-Ah, entendo. Isso é tranquilizador.”

“Mas é verdade que eu queria falar com você a sós. A Shizuku me contou muito sobre você, e eu quero descobrir que tipo de pessoa você é.”

“Digo o mesmo. Eu ouvi muito sobre você da Shizuku, então eu estava interessado em você também.”

“Oh? Ora, agora isso é inesperado. Nesse caso, que tal aprofundarmos nossos laços assistindo a Paraíso Perdido dos Garotos juntos?”

“Não esse tipo de interessado! Enfim, você provavelmente já notou, mas a Shizuku é super tímida. Ela não se abre para as pessoas facilmente, especialmente não para caras. Isso me fez imaginar que tipo de pessoa você era.”

“Mas eu sou uma garota.”

   Ikki encarou Alisuin.

“Não me dê esse olhar. Você está comprando briga?”

“Não exatamente...”

     Ele está falando sério? Eu honestamente não consigo dizer.

   Ikki estava tendo dificuldade para entender a pessoa conhecida como Alisuin. Ele decidiu que era melhor não bisbilhotar muito profundamente em coisas que não entendia, no entanto, e mudou de assunto.

“Então, o que a Shizuku disse sobre mim?”

“Isso é o nosso segredinho.” Alisuin pressionou um dedo esguio contra os lábios. A essa altura, Ikki decidiu que não valia a pena comentar sobre o gênero dela. “Dito isso, ela não teve nada além de elogios para você. A imagem de Kurogane Ikki que ela pintou foi a de uma pessoa verdadeiramente maravilhosa. Depois de conhecê-lo hoje, estou inclinada a concordar com a opinião dela sobre você. Mas é precisamente porque você é exatamente como eu imaginei que há algo sobre o qual estou curiosa. Tudo bem se eu perguntar algo pessoal?”

“Claro. O que você quer saber?”

“Você não pôde participar de nenhuma batalha no ano passado porque sua família interferiu, certo?”

“S-Sim. Eu fui proibido pela escola de lutar. Isso incluiu tanto as aulas quanto as batalhas simuladas.”

   Ikki ficou surpreso por Shizuku ter divulgado até mesmo isso para Alisuin. Um assunto familiar como esse não era algo sobre o qual ela falaria com qualquer um. No mínimo, enquanto ela ainda vivesse sob a proteção da família Kurogane, ela não contaria a ninguém em quem não confiasse consideravelmente.

“A diretora mudou a política da escola este ano, no entanto, então eu poderei participar agora,” ele acrescentou.

“Mas foi apenas um golpe de sorte que te salvou. E se a escola não tivesse substituído seu diretor? Ou se o novo diretor não tivesse sido simpático à sua causa?”

“Não teria feito diferença para mim. Eu ainda faria o que pudesse. Quando soube pela primeira vez que precisaria repetir um ano, eu não sabia que um novo diretor estava vindo.”

“Você não achou que era uma perda de tempo ficar?”

“De forma alguma. Eu imagino que você já saiba disso, Alice, mas todos os professores em uma escola de cavaleiros são Cavaleiros-Magos profissionais por direito próprio. Mesmo que eu não tivesse permissão para lutar, tenho certeza de que alguns deles seriam capazes de ter uma boa noção de quão forte eu sou. Além disso, toda escola de cavaleiros não quer nada mais do que produzir um aluno que venha a se tornar o Rei das Sete Estrelas. Tudo o que eu precisaria fazer era garantir que os professores percebessem que eu tinha o potencial para fazer isso. Contanto que eu me tornasse forte o suficiente para que eles me quisessem lá mais do que temiam minha família, seria a minha vitória. É por isso que eu estava disposto a continuar tentando, não importa quantos anos levasse.”

   Ikki estava ciente de que, no momento, o relacionamento da escola com a família Kurogane valia mais para eles do que ele. A única maneira de ele mudar as coisas seria se ele se tornasse tão valioso que a escola o escolhesse em vez de sua família. Essa era a lógica que o mantinha seguindo em frente, apesar dos obstáculos quase insuperáveis que sua família havia colocado em seu caminho.

“Ainda assim, sou muito grato à diretora,” ele continuou. “Afinal, se existe um caminho mais fácil disponível para mim, não há razão para acumular dificuldades extras.”

“Eu entendo perfeitamente.” Por um breve momento, uma expressão estranha passou pelo rosto de Alisuin. Ikki apenas vislumbrou, mas a reconheceu como piedade. “Ikki... você se acostumou demais com a dor.”

“Alice?”

“Eu só posso falar pela minha experiência, então não sei se o que eu vi se aplica a você, mas, na minha opinião, a força tem tudo a ver com resistência. Quanto mais dificuldades você puder suportar, mais forte você se tornará. É só isso. Mas conforme você empilha essas dificuldades sobre si mesmo, seu coração fica mais pesado. A menos que você possa liberar todo esse estresse acumulado em algum lugar, eventualmente, o fardo crescerá demais e você desmoronará sob ele. É por causa disso que, quando começa a se tornar demais, o coração clama. Raiva, tristeza, frustração — tudo isso vem do desejo de desabafar sua dor com os outros e fazer com que entendam o que você está passando. Às vezes, esses sentimentos se manifestam de formas pacíficas, enquanto outras vezes, eles saem em uma explosão violenta de emoção. Você, no entanto, teve que assumir tantos fardos que não consegue mais ouvir os clamores do seu coração.”

   Um silêncio pesado caiu entre os dois enquanto Ikki ponderava as palavras de Alisuin. Honestamente, ele não conseguia entender o que ela pretendia dizer nem um pouco.

“E-Eu não acho que isso seja verdade para mim,” ele finalmente disse.

   No mínimo, ele tinha certeza de que ainda sentia tristeza, frustração e coisas do tipo. Ele não estava alheio às suas próprias emoções. No entanto, Alisuin balançou a cabeça.

“Não, você definitivamente não consegue ouvi-los. Você não seria capaz de permanecer tão calmo se conseguisse. Você não seria capaz de dar aos outros sorrisos tão gentis.”

    Eu suponho que seja verdade que minha vida tem estado longe de ser um mar de rosas até agora. Mas acho que a Alice está pensando demais aqui.

   Apesar da expressão séria de Alisuin, Ikki só conseguiu sorrir sem jeito de volta para ela e dar de ombros.

     Suponho que seja impossível para minhas palavras o alcançarem agora, Alisuin pensou com um pequeno suspiro. Os dois haviam acabado de se conhecer naquele dia, afinal. Eles precisariam aprender mais um sobre o outro antes que as palavras dela tivessem qualquer peso. Mesmo assim, Alisuin sentiu-se compelida a dizê-las agora. No mínimo, ela queria plantar uma semente de autoconsciência em Ikki. Tanto porque ele era alguém com quem Shizuku se importava profundamente quanto porque, embora ela o conhecesse há pouquíssimo tempo, ela própria gostava deste homem.

   Dando a Ikki um sorriso encorajador, ela disse: “Algum dia, espero que você conheça alguém que ouça os apelos do seu coração que você se tornou incapaz de ouvir. Como sua amiga, eu realmente estou rezando pela sua felicidade.” Ela então beijou o rosário de prata pendurado em seu pescoço.

   Ikki não tinha certeza de como responder a outra pessoa rezando por sua felicidade.

     Eu deveria estar agradecendo a ele?

   Claro, isso não era importante agora, mas era tudo em que ele conseguia pensar.

   Para a própria surpresa de Ikki, no entanto, as palavras de Alisuin ressoaram em algum lugar dentro dele. E embora não houvesse mudança externa, ele sentiu como se tivesse chegado a uma compreensão mais profunda sobre si mesmo.

“Ah!”

   Nesse momento, a expressão de Alisuin endureceu, e ela começou a olhar ao redor, alarmada.

“Alice?”

“Ikki, siga-me.”

   Alisuin agarrou Ikki pelo braço e começou a correr.

“Hã?! O-O que está acontecendo?!”

“Eu explico depois! Apenas corra!”

   Ela o arrastou para dentro do banheiro para o qual já estavam indo.

     Talvez ele não consiga mais segurar?

   Mas no momento em que Ikki pensou isso, o som de vidro estilhaçando ecoou em seus ouvidos.

“Ngh?!”

   Um segundo depois, houve disparos de armas de fogo, seguidos imediatamente por gritos.

 

 

   Dois homens vestidos inteiramente de preto e usando máscaras de gás correram para dentro do banheiro onde Ikki e Alisuin estavam.

“Este banheiro masculino é o último lugar que resta. Eu vou verificar as cabines; você espera aqui,” disse um dos homens.

“Nós realmente temos que verificar cada uma delas? Isso parece um saco,” seu parceiro respondeu, parecendo irritado.

“E-Ei.”

   O irritado sacou uma carabina M4 e descarregou um pente inteiro contra as portas das cabines do banheiro antes que seu parceiro pudesse impedi-lo. Quando o tiroteio ensurdecedor cessou, todas as portas estavam crivadas de buracos. Ninguém dentro daquelas cabines teria saído ileso, mas não havia sangue escorrendo pelo chão do banheiro.

“Certo, parece que esta sala está limpa.”

“Não saia simplesmente atirando! Nossas ordens eram para fazer os civis de reféns!”

“Olha, eu só quero me soltar. Além disso, não tem sangue, o que significa que não havia ninguém aqui de qualquer forma. Então não tem problema. Gah ha ha ha.”

“Não me culpe se o Bishou-san mandar te executar por isso.”

   Os dois homens saíram do banheiro a passos largos, um deles rindo. Tudo o que restou foi o cheiro de chumbo quente e a destruição que as balas haviam causado.

   Mas então, Ikki e Alisuin de repente colocaram as cabeças para fora da sombra projetada pelas luzes fluorescentes. A maneira como eles romperam a superfície dela fez parecer que tivessem mergulhado lá dentro.

“Ufa. Parece que eles foram embora,” Alisuin disse, saindo completamente da sombra. Ele tinha uma adaga cinza-escuro em sua mão. “Como você pode ver, minha Darkness Hermit tem uma habilidade bastante útil.”

“A habilidade de controlar sombras parece bem poderosa,” Ikki respondeu.

“Infelizmente, não ajuda muito em partidas, já que as arenas tendem a ser totalmente iluminadas e não têm obstáculos para projetar sombras.”

   Ikki havia percebido isso também. Parecia um poder mais adequado para um assassino do que para um cavaleiro, que deveria lutar de forma justa à luz do dia.

“A escola não vai ficar feliz se descobrirem que você usou seu Device fora das dependências da escola.”

“Considerando a situação, eu diria que foi justificado. De qualquer forma, ninguém saberá contanto que você fique quieto, Ikki.”

“Não se preocupe, eu não vou espalhar.”

   Alisuin estendeu sua mão livre em direção a Ikki, que ainda estava em grande parte submerso na sombra. Ele a pegou, e ela o puxou para fora.

“Obrigado. Você salvou minha vida.” Ikki estava grato a Alisuin não apenas por puxá-lo para fora, mas também por ajudá-lo a escapar da atenção do inimigo. “Quem eram aqueles caras?”

“Rebellion.”

“O quê?!” Ikki ficou surpreso tanto pela resposta quanto pelo fato de Alisuin tê-la dado imediatamente.

Rebellion era a organização criminosa mais famosa do mundo. Eles acreditavam que os Blazers eram o povo escolhido e que todos os outros humanos eram inferiores. Eles queriam destruir a sociedade atual, onde os Blazers deveriam proteger aqueles que não tinham poderes, e se tornarem os governantes de uma nova ordem mundial. Na busca por sua ideia distorcida de paraíso, eles já haviam tirado inúmeras vidas inocentes.

“Eu não esperava encontrar o grupo terrorista internacional mais famoso aqui, logo neste lugar. Mas como você pôde dizer que eram da Rebellion?

“Um incidente muito parecido com este aconteceu na minha antiga cidade natal. Eles estavam usando exatamente o mesmo equipamento naquela época. Enfim, estou preocupada com a Shizuku e a Stella-chan.”

“Eu também, mas há algo que precisamos fazer antes de procurá-las.”

   Ikki pegou seu manual do aluno e discou o número de contato de emergência que vinha inserido em cada manual por padrão. Um segundo depois, um rosto familiar apareceu na tela do dispositivo: a diretora da Academia Hagun, Shinguuji Kurono.

“Estou ciente da situação,” ela disse imediatamente, poupando Ikki do trabalho de explicar. Parecia que a operação da Rebellion era séria o suficiente para que aqueles fora do shopping já estivessem cientes dela.

“Ótimo. Isso vai nos poupar algum tempo. Por favor, permita que eu, Kurogane Ikki, Stella Vermillion, Kurogane Shizuku e Alisuin Nagi usem seus poderes de Blazer fora das dependências da escola.”

“Permissão concedida. Vocês estão livres para usar seus poderes.”

“E agora, toda aquela burocracia inútil está resolvida,” Alisuin disse com um sorriso.

“Diretora, você poderia nos dizer o que sabe da situação?” Ikki solicitou.

“A Rebellion está por trás do ataque. Eles têm cerca de vinte ou trinta membros no shopping, todos eles armados. Eles estão exigindo um valor de resgate pelos reféns, e parece que querem roubar tudo o que puderem do próprio shopping também. É uma de suas incursões habituais para conseguir mais fundos de guerra.”

“Já houve alguma vítima?”

“Há algumas pessoas que se machucaram no pânico inicial para fugir, mas ninguém está morto ou gravemente ferido. A julgar pelas filmagens das câmeras de segurança que nos foram fornecidas, a Rebellion fez cerca de cinquenta reféns. Eles estão mantendo todos na praça de alimentação.”

“Ela quer dizer a praça de alimentação onde estávamos agora pouco?” Alisuin perguntou, virando-se para Ikki.

“Sim. Aquela área grande e aberta.”

“Isso está dentro do alcance do meu Shadow Walk. Eu posso nos levar direto para lá.”

“Parece bom. Devemos ir para algum lugar onde não seremos vistos e avaliar as coisas. Tenho certeza de que Stella e Shizuku também estão sendo mantidas lá.”

   Ikki sabia que nenhuma das duas abandonaria os reféns. As chances eram grandes de que elas tivessem escondido o fato de serem Blazers e estivessem agora misturadas àquele grupo.

“Tenho certeza de que você já está ciente, mas a segurança dos reféns é nossa prioridade máxima. Não faça nada imprudente,” Kurono disse.

   Ikki assentiu, então desligou seu manual para que ele não tocasse em um momento inoportuno.

“Tudo bem. Vamos,” ele disse, virando-se para Alisuin.

“Deixe tudo comigo.”

   Ikki estendeu a mão para Alisuin, e ela a pegou. Um segundo depois, as sombras deles se transformaram em poças negras, e os dois pularam dentro.

   Ikki segurou o fôlego enquanto atravessava a passagem totalmente escura que Alisuin havia criado para eles. Shadow Walk era uma habilidade que conectava as sombras umas às outras, e a única pessoa que conseguia navegá-las era o portador da Darkness Hermit, Alisuin. Ela conduziu Ikki pela mão, garantindo que ele não se perdesse no labirinto de sombras.

“Chegamos,” Alisuin disse depois de um minuto, trazendo ambos para fora das sombras. Ela o levou para ao lado de um pilar no terceiro andar, que tinha uma visão perfeita da praça de alimentação abaixo.

   Os dois espiaram para baixo, em direção à praça de alimentação, e viram um grupo de reféns cercado por dez ou mais homens vestidos de preto, exatamente como Kurono havia dito.

“Ikki, olhe ali.” Alisuin apontou para onde Shizuku estava escondida em meio à multidão. “Eu não vejo a Stella-chan em lugar nenhum, no entanto.”

“Não, ela está ali. Aquela garota com o chapéu de abas largas ao lado da Shizuku. Ela provavelmente pegou aquilo para se disfarçar, já que é famosa.”

“Parando para pensar, ela estava nas manchetes dos jornais. De qualquer forma, isso parece bem arriscado.”

“Sim. Os membros da Rebellion estão perto demais dos reféns. Se avançarmos, eles podem conseguir matar alguns antes que possamos subjugá-los. Sem mencionar que não sabemos para onde o resto deles foi.”

“É verdade. Não sabemos o que os outros podem estar planejando. Por enquanto, acho que tudo o que podemos fazer é esperar.”

   Mesmo que os esquadrões da Rebellion se reunissem, ainda haveria muito menos terroristas do que reféns. Se eles tentassem fugir do shopping levando os reféns consigo, essa discrepância atrasaria consideravelmente o processo. A melhor chance de ataque de Ikki e Alisuin seria durante a tentativa de fuga.

   Ambos perceberam isso, e foi por isso que aceitaram apenas observar por enquanto. Mas a situação tomou um rumo súbito e inesperado.

“Não machuque a mamãeeee!”

“Kh?!”

   Um menino pequeno correu de repente em direção a um dos membros da Rebellion.

     Isso não é bom!

   Infelizmente, nem Ikki nem Alisuin podiam fazer nada para detê-lo, e ele empurrou sua casquinha de sorvete contra o soldado. Tudo o que ele conseguiu fazer, no entanto, foi manchar de branco as calças do homem. Em vez de ferir o terrorista, o “ataque” apenas o enfureceu.

“Seu pirralhooo!”

   O homem chutou impiedosamente o rosto do menino.

“Augh!”

“Shinji!”

   Uma mulher em seus vinte e poucos anos saiu do círculo de reféns e correu para o menino. Ela era presumivelmente a mãe dele. Sua barriga estava inchada, indicando que estava grávida, mas a velocidade com que correu tornava difícil acreditar que carregava outra vida dentro de si.

“Saia da frente, sua cadela!”

“Sinto muito! Sinto muito mesmo! Mas, por favor, perdoe-o! Ele é apenas um menino!”

“Ei! O que diabos você pensa que está fazendo?!” outro dos soldados gritou, aproximando-se para ver o que era a confusão.

“Este pirralho manchou minhas calças! Eu vou matar a porra desse garoto!”

“Se você é um adulto, aja como um, seu idiota! Quantas vezes eu tenho que te dizer para não ferir os reféns?! Se você quer fazer merda e ser massacrado pelo Bishou-san, não nos arraste junto! Aquele cara vai matar todos nós se você o irritar!”

“Ah, cala a boca! Temos um monte de reféns aqui! Quem se importa se matarmos um ou dois deles?!” O homem enfurecido sacudiu seu camarada para longe e apontou seu rifle para a criança.

“Nããão! Por favor, eu imploro!”

“Que pena! Esse pirralho manchou minha calça! Porcos como ele não deveriam nem ter permissão para tocar em membros de uma raça superior como nós! Ele recebe a pena de morte!”

   O homem puxou o gatilho sem hesitação. Enquanto a bala era disparada, a mulher, apesar de estar grávida, tentou cobrir o filho com o próprio corpo, mas fazer aquilo era inútil. Um tiro de um rifle de tão alta potência atravessaria direto por ela e mataria seu filho também.

Mas a bala nunca alcançou seu alvo. Stella havia aparecido entre os dois reféns e o soldado da Rebellion e a reduziu a cinzas.

 

 

“Eu deveria ser a única a ir. Eles vão descobrir minha identidade eventualmente, de qualquer forma. Mas não se preocupe. Como realeza, sou uma refém valiosa. Eles não vão me matar sem um bom motivo. Você apenas se esconda e se prepare para agir se a oportunidade se apresentar, Shizuku,” Stella tinha dito a Shizuku antes de saltar e derreter a bala do soldado. Sua aparição súbita pegou os soldados da Rebellion desprevenidos.

“Você é uma Blazer?!” um deles exclamou.

“Morra!”

   Eles começaram a atirar descontroladamente nela, mas a tempestade de chumbo não representava nenhum tipo de ameaça para alguém tão poderosa quanto Stella.

Empress Dress!” Ela se envolveu em um traje de chamas, que vaporizava as balas antes que pudessem alcançá-la.

“Aaaaahhh!” No entanto, os reféns imediatamente começaram a gritar quando ouviram a barragem de tiros.

   Como a M4 tinha um cano tão pequeno, não era muito precisa. Era inteiramente possível que uma bala perdida atingisse um dos reféns.

“Acalmem-se!” Stella gritou em uma voz de comando, alta o suficiente para ser ouvida mesmo acima dos disparos ensurdecedores.

“Gh?!”

   Os soldados que haviam saltado apressadamente em ação diante da aparição súbita de uma Blazer paralisaram e pararam de atirar. Eles pareciam crianças esperando para serem castigadas por se comportarem mal.

“Eu não pretendo lutar contra todos vocês aqui, então acalmem-se e escutem,” Stella disse, soltando interiormente um suspiro de alívio.

     Pelo menos todos pararam de entrar em pânico.

   Embora fosse apenas uma estudante de intercâmbio aqui, Stella era um membro da família real do Reino de Vermillion. Como resultado, ela estava bem informada sobre os objetivos e atividades da Rebellion. Ela também sabia como seus esquadrões de combate eram organizados.

   Com base em seus ideais, seria de se supor que a Rebellion era uma organização composta inteiramente por Blazers, mas a maioria de seus membros era o que se conhecia como Aspirantes — não-Blazers que, apesar disso, acreditavam na nova ordem mundial que a Rebellion queria criar. Os Blazers na organização eram chamados de Apóstolos, e havia muito menos deles. Essencialmente, isso significava que um pequeno número de Blazers comandava um exército composto principalmente por não-Blazers.

   Stella podia dizer que os membros da Rebellion aqui eram todos Aspirantes. Em outras palavras, o Apóstolo que liderava este grupo estava com o destacamento que tinha ido vasculhar o shopping.

     Um esquadrão deste tamanho não deveria ter mais do que um Apóstolo designado a ele. Eu queria esperar até que eles se mostrassem antes de agir, mas...

   Revelar-se significava abrir mão da iniciativa para o Blazer adversário. No entanto, a situação exigia que ela agisse, então ela agiu.

   Ela encarou os soldados da Rebellion e disse: “Deixem-me negociar com o seu líder em nome desses reféns.”

“N-Não aja de forma tão arrogante, garota! Quem você pensa que é?!”

   Parecia que os soldados ainda não a tinham reconhecido. Ela tirou o chapéu de abas largas que havia pegado logo quando a confusão começou.

“Eu sou—”

“Ora, ora, ora. Eu não achei que teríamos alguém da realeza em nosso meio.”

   Antes que Stella pudesse se anunciar, alguém a interrompeu. Ela se virou e viu um homem com uma tatuagem no rosto caminhando em sua direção, os outros dez soldados da Rebellion seguindo atrás dele.

   O homem sorriu, sua tatuagem se contorcendo em uma forma grotesca. “Se não é a segunda princesa de Vermillion. Hee hee hee.”

“Um casaco preto bordado em ouro... Esse é o uniforme de um Apóstolo. Presumo que você seja o líder desses tolos?”

“Hee hee hee, você certamente fez sua pesquisa. Isso mesmo. Eu sou Bishou. É um prazer conhecê-la, Princesa.” Bishou curvou-se respeitosamente para Stella, então se virou para encarar o esquadrão de homens que estivera guardando os reféns. “Ei! O que vocês, idiotas, estão fazendo?! Quão difícil é apenas fazer o que eu digo?!”

“Eep!”

“Eu disse para não causarem cena, não disse? Eu disse para não ferirem os reféns, não disse?!”

“N-Nós tentamos impedir o Yakin, mas ele não ouvia!”

“Então, você é o responsável, hein, Yakin?”

“E-Eu posso explicar! Aquele pirralho ali sujou minha calça, então—”

“Hã?! Não perca a calma por algo tão— Na verdade, espere.” Bishou ficou em silêncio enquanto mergulhava em pensamentos. Após alguns segundos, ele de repente deu uma risadinha.

“Hee hee hee.”

“B-Bishou-san?”

“Yakin, eu te entendo. Ter sua calça arruinada deve ter sido um saco.” A atitude de Bishou deu uma guinada de cento e oitenta graus, e ele deu um tapinha no ombro de seu subordinado. “Mas não se preocupe. É nosso trabalho, como o povo escolhido, cuidar de vocês, cidadãos honorários.”

   Bishou tirou uma pistola do bolso e a apontou para o menino.

“O-O que você pensa que está fazendo?!” Stella gritou.

“Ora, isso deve ser óbvio, Princesa. O pirralho precisa encarar as consequências de suas ações. Todo mundo tem que aprender em algum momento que você não pode simplesmente fazer o que quer e não pagar por isso.”

“Eu achei que você não fosse ferir os reféns!”

“Apenas se eles não fizessem alvoroço. Mas esse pirralho certamente fez. Claro, ele é só uma criança, mas isso não muda o fato de que o que ele fez é um pecado. Ele manchou a honra de um de nossos cidadãos honorários aqui. Ele precisa ser punido por isso. E a punição para um crime tão sério é a morte. Somente a punição pode levar à redenção — esse é o meu lema.”

   Bishou apertou o dedo no gatilho.

“Ah!” Stella não hesitou. Ela percebeu que ele estava falando sério sobre atirar. Assim, ela convocou a Lævateinn e avançou contra Bishou. “Haaaaah!”

   Bishou riu em resposta.

     Ele estava me atraindo?

   Mesmo que estivesse, não importava. Stella o cortaria antes que ele fosse capaz de manifestar seu Device. No momento, a única coisa com que ele estava armado era uma única pistola. Aquela pistola não poderia esperar parar o poder de sua Lævateinn.

   Ela golpeou para baixo com todas as suas forças, pretendendo cortar Bishou junto com sua pistola. Mas, para seu total espanto, Bishou ergueu sua mão esquerda livre e bloqueou a espada dela apenas com os dedos indicador e médio.

“O quê?!”

Hee hee hee. Que pena. Você é rápida. Forte também. Consigo ver por que você é Rank A. Mas, infelizmente para você, o mundo é muito maior do que você imagina.”

   Stella estava sem palavras. Nenhuma pessoa normal poderia bloquear seu golpe de força total apenas com os dedos. Sua espada deveria ter fatiado direto e clivado todo o braço dele em dois.

   Na remota hipótese de seus dedos possuírem força sobre-humana e ele pudesse bloquear a espada dela com as mãos nuas, as chamas saindo da Lævateinn deveriam ter queimado o braço dele até o osso. E, no entanto, ele parecia não ser afetado tanto pelo peso quanto pelo calor da lâmina de Stella.

     Como isso está acontecendo?

   Antes que ela pudesse decifrar o mistério, Bishou desferiu seu punho contra o estômago de Stella.

“Gah!”

   A força do golpe deixou Stella de joelhos. O ataque de Bishou tinha sido poderoso o suficiente para drenar a estamina dela, mesmo através da poderosa defesa que era seu Empress Dress.

     Como...? Ele não parecia um Blazer tão forte!

   Piscando para afastar as lágrimas de dor, Stella olhou para cima e avistou a resposta para sua pergunta nas mãos de Bishou.

“Esses aneis!”

   Ele estava usando anéis que brilhavam em um carmesim intenso em cada um de seus dedos médios. À primeira vista, pareciam meros acessórios, mas Stella percebeu que eles eram o seu Device.

“Como você pode ver, meu Device vem em um par. Estes são meus Anéis do Julgamento, Crime e Castigo. O anel na minha mão esquerda interpreta qualquer tentativa de me causar dano como um crime e absorve sua força. Então, com o anel na minha mão direita, essa força é convertida em mana, que eu posso usar para administrar o castigo aos meus inimigos. Hee hee hee. Quanto mais forte meu inimigo, mais forte eu me torno.”

“Entendo. Então aquele soco tinha toda a minha força por trás dele.”

   Stella compreendeu agora por que aquilo a fizera cair de joelhos.

“Você não deveria avançar até entender do que seu oponente é capaz, Princesa. Hee hee hee.

“Você foi quem... forçou minha mão.”

Hee hee hee. Desculpe por isso. Eu não podia me dar ao luxo de arriscar, visto que estava enfrentando a Princesa Carmesim. Você entende. Mas devo dizer, você é realmente nobre, Princesa. Você poderia ter ficado escondida, mas se revelou apenas para proteger este pirralho. Você é o modelo perfeito de realeza — uma verdadeira governante e tudo mais. Por respeito à sua coragem, vou lhe dar a chance de poupar a vida deste pirralho.”

“O que você quer?”

“Oh, nada de especial. Todo mundo está familiarizado com este método de expiação. Se você fez algo ruim, apenas peça desculpas. Tudo o que peço é que você faça isso no lugar do pirralho. Mas você tem que se despir e se ajoelhar aos meus pés para mostrar sua sinceridade. Bwa ha ha ha ha!

 

 

“Rgh!”

   Ikki, que estava assistindo a tudo do andar de cima, estava fervendo de raiva. Ele queria pular agora mesmo e fatiar Bishou em pedaços.

     Mas eu não posso!

   Se ele saltasse para a briga, os reféns poderiam se machucar no combate corpo a corpo que se seguiria. Isso precisava ser evitado a todo custo.

Hee hee. Eu não vou te forçar, é claro. Um mero plebeu como eu não ousaria dar ordens à realeza. Então, se você não quiser pedir desculpas, apenas diga não. O pirralho será quem vai pagar se você o fizer, no entanto.”

     Seu lixo! — Ikki mordeu o lábio com força suficiente para tirar sangue, mal conseguindo suprimir sua fúria.

   Bishou sabia que Stella não recusaria, e por isso estava propositalmente dando a ela a opção. Ele apenas queria humilhá-la o máximo possível. E exatamente como Ikki esperava, ela, de fato, concordou.

“Muito bem,” Stella disse entre dentes, desmaterializando a Lævateinn. “Mas em troca, prometa-me que você não encostará um dedo nos reféns.”

“Claro. Sou um homem de palavra. Eu não vou machucá-los, contanto que a polícia pague o resgate que exigimos e nos garanta passagem segura.”

“É bom que não.”

   Stella levantou-se lentamente, com as pernas tremendo. Ela ainda não havia se recuperado totalmente daquele soco. No entanto, suas mãos, que estavam cerradas em punhos, tremiam por um motivo completamente diferente. Ikki sabia que ela devia estar se sentindo humilhada.

Bwa ha ha! Não acredito que vamos ver o show de strip-tease de uma princesa!”

“Isso aí! Mandou bem, Bishou-san!”

“Vamos! Fique pelada! Ha ha ha ha ha!”

   O rosto de Stella avermelhou diante da perspectiva de mostrar sua pele nua para esses desgraçados, mas ela, apesar disso, começou a tirar suas roupas lentamente. Ela começou com seu cardigã, expondo seus ombros esguios. Em seguida, deixou cair sua saia, revelando suas pernas enfeitiçantes. E, finalmente, desabotoou sua blusa de baixo para cima, deixando o estômago à mostra. Quando tudo foi dito e feito, ela ficou vestindo nada além de sua roupa íntima de renda branca.



 

 

 

 

“Uau! Os peitos dela são enormes! Ela é realmente só uma estudante do ensino médio?!”

“Puta merda!”

“Bishou-san, posso tirar algumas fotos?!”

“Calem a boca, seus punheteiros de um tiro só. O show de verdade começa agora. Hee hee hee.

“Khhh!”

   Stella tremia enquanto os homens a cobiçavam abertamente. Foi então que Ikki notou que lágrimas escorriam por suas bochechas. Ao ver aquilo, ele finalmente perdeu o controle. Ele não conseguia mais suportar ficar sentado sem fazer nada.

     Stella!

“Acalme-se.”

   No entanto, Ikki não pulou e atacou Bishou. Na verdade, ele não conseguiu.

“Guh.”

   Seu corpo não se movia. Parecia que algo o estava prendendo no lugar. Ele olhou para baixo e viu que Alisuin havia fincado seu Device, Darkness Hermit, na sombra dele. Ele havia sido atingido pela Noble Art: Shadow Bind, que prendia uma pessoa no lugar enquanto sua sombra estivesse perfurada pela Darkness Hermit.

“Você precisa manter a calma, Ikki. Certamente você percebe o que acontecerá se você avançar agora.”

“Mas... se eu não for agora, a Stella vai—”

“Está tudo bem. Eu tenho um plano,” Alisuin explicou, e Ikki olhou para ela em choque. “Neste exato momento, a Shizuku está preparando o terreno, então me dê apenas mais alguns segundos.”

“Ela está?”

“Sim. Ela está usando secretamente sua mana para moldar uma barreira de água ao redor dos reféns.”

   Ikki olhou de volta para o salão principal e forçou os olhos, tentando enxergar o fluxo de mana.

“Eu não vejo nada.”

“Claro que não vê. Shizuku é Rank B e não é tão forte quanto a Stella, mas ela tem um controle de mana melhor do que qualquer outra pessoa no nosso ano. Na verdade, o controle dela provavelmente supera o de alguns Rank As.”

“Ah!” Ikki olhou novamente para Alisuin com surpresa.

   O controle de mana era um atributo que media o quão bem uma pessoa conseguia manipular sua Aura. Aqueles que possuíam um controle extraordinário conseguiam fazer com apenas duas ou três unidades de mana o que outros Blazers precisariam de dez ou mais para realizar. Além disso, podiam mascarar o uso de sua mana, tornando difícil para seus inimigos discernirem o que estavam fazendo.

   Kurogane Shizuku era uma Blazer que se destacava no controle de mana acima de tudo.

“Se alguém no nível da Shizuku quiser esconder o que está fazendo, ninguém será capaz de detectar sua mana.”

“Então como você tem tanta certeza de que ela está criando uma barreira?”

   Alisuin mostrou silenciosamente a Ikki seu manual do aluno. Ela o havia colocado no modo silencioso, mas não o desligou. A tela mostrava uma mensagem que ela recebera de Shizuku.

“Esou eriindo uma barreia, darei um sinql qundo etiver prnto.”

   Era curta e direta, e também cheia de erros de digitação. Ela provavelmente escreveu o mais rápido que pôde enquanto tentava manter o que estava fazendo oculto de todos os outros. Apesar dos erros, porém, a mensagem era clara.

     Shizuku!

   Ikki quase pulou de alegria. Um segundo depois, Shizuku deu a todos o sinal.

Pure Wave Lotus!”

   Uma barreira de água surgiu subitamente entre os reféns e os soldados da Rebellion, permitindo que Ikki entrasse em ação.

 

 

“O quê?!” Bishou gritou enquanto a cúpula aquosa terminava de se formar ao redor dos reféns.

   Apenas um Blazer poderia ter feito algo assim, o que significava que deveria haver outro cavaleiro aqui além de Stella.

“Seus merdinhas! Vocês realmente têm um desejo de morte, não têm?! Acabem com os reféns, todos vocês!”

   Seguindo a ordem de Bishou, todos os Aspirantes começaram a atirar contra a barreira de água.

   Os reféns gritaram e caíram no chão em resposta, cobrindo suas cabeças com as mãos.

   Mas nenhuma das balas passou pela barreira de cachoeira em cascata que era a Noble Art de Shizuku, Pure Wave Lotus.

   Era conhecimento comum que, se alguém caísse em um corpo de água de uma grande altura, a água parecia tão dura quanto concreto.

   A causa desse fenômeno era a surpreendente resistência da água ao impacto.

   Assim, se algo tão rápido quanto uma bala atingisse um corpo sólido de água, a força reativa igual e oposta iria pulverizá-lo.

   E isso era algo que a água normal poderia fazer.

   Esta água, no entanto, estava reforçada com a magia de Shizuku, tornando-a muito mais resistente.

   Não havia como um material macio como o chumbo perfurar a barreira dela.

   Além disso, Shizuku não foi a única que começou a se mover.

“Hah!”

   No momento em que a barreira subiu, Ikki ativou o Ittou Shura.

   Ele pulou do andar de cima e foi direto em direção a Bishou.

Tch! Você tinha amigos lá em cima também?!”

   No entanto, Bishou era um terrorista veterano que lutou em inúmeros campos de batalha mortais.

   Ele imediatamente percebeu o ataque surpresa de Ikki e preparou-se para interceptá-lo erguendo sua mão esquerda.

   Aquela era a mão que ele usou para bloquear a Lævateinn apenas alguns momentos atrás — aquela na qual ele usava o Crime, o anel que podia absorver qualquer ataque.

   A natureza de sua habilidade permitia que ele neutralizasse até mesmo golpes de abalar a terra como os que Stella podia desferir.

   Comparado a Stella, porém, a única coisa que Ikki tinha a seu favor era a velocidade.

   Seus golpes eram muito mais fracos, o que significava que não seriam capazes de sobrecarregar os poderes de absorção do Crime.

   Bishou absorveria a força do golpe de Ikki e a lançaria de volta contra ele usando seu Anel do Julgamento.

   No entanto, esse plano só funcionaria se Bishou conseguisse bloquear com sucesso o ataque de Ikki com sua mão esquerda.

“Hã?”

   Bishou olhou em choque enquanto seu braço esquerdo subitamente saía voando.

   Um jato de sangue jorrou do toco, manchando o chão do shopping.

   Bishou só conseguia neutralizar ataques que conseguia ver e reagir.

   Mas Ikki havia balançado a Intetsu tão rapidamente que Bishou não fora capaz de acompanhá-la com seus olhos, muito menos se defender.

   Este corte de alta velocidade, que superava a visão cinética de qualquer humano, era uma das sete técnicas originais que Kurogane Ikki havia desenvolvido.

“Sétimo Estilo de Espada: Thunderclap!”

 

 

“Eu cuidarei dos capangas. Enquanto isso, você subjuga esse macaco vulgar, Ikki.”

   Aquele era o plano de batalha que Alisuin havia transmitido a Ikki, e ele de fato havia conseguido subjugar Bishou.

   Ele usara o Thunderclap para decepar o braço esquerdo de Bishou — e seu anel Crime junto com ele — e, com seu golpe reverso, ele decepara o braço direito de Bishou também.

   Independentemente de quais outros poderes o Device de Bishou pudesse conter, ele estava impotente se aquele Device estivesse separado de seu corpo.

“Gyaaah! Meu braaaço! Seu desgraçado!”

“Ah, cala a boca.”

“Eek!” A fúria de Bishou desapareceu no momento em que ele viu a expressão de Ikki.

“Eu me contive, sabe. Considerando o que você fez com a Stella, você merece ter suas pernas cortadas também. Você terá todos eles de volta de qualquer maneira assim que te colocarem em uma cápsula iPS.”

“Urk.”

   Ikki lançou a Bishou um olhar tão frio quanto gelo, então olhou para os reféns.

   Todos eles estavam bem, o que significava que o plano tinha sido um sucesso.

“Bom trabalho,” Alisuin disse, aproximando-se e dando um tapinha no ombro de Ikki.

“Você terminou do seu lado, Alice?”

“Eles já tinham sido cuidados no momento em que cheguei aqui. Aquela garota realmente é incrível.”

     Humm?

   Ikki lançou a Alisuin um olhar confuso, então percebeu que todos os soldados da Rebellion estavam deitados no chão.

   Parada em meio aos seus corpos prostrados estava uma única figura.

“Stella...”

   Seu cabelo flamejante espalhava-se atrás dela, e ela estava vestida com um vestido de chamas.

   Ela segurava a Lævateinn em suas mãos, a espada flamejante brilhando intensamente.

   Apesar do dano físico e emocional que havia suportado, no momento em que a luta estourou, ela imediatamente saltou para a ação e ceifou os soldados da Rebellion.

   Ela cuidou deles tão rapidamente que Alisuin nem sequer chegou a tempo de ajudar.

   Aquela tinha sido a escolha ideal considerando a situação, mas o que era verdadeiramente surpreendente era que ela ainda tivesse tanta força sobrando depois de levar o soco de Bishou, que fora potencializado por sua própria mana.

   Ikki conseguia ver por que Alisuin estava tão impressionada.

“Eu vou deixar as pessoas lá fora saberem qual é a situação. Você, vá até ela,” Alisuin disse suavemente para Ikki.

“Obrigado.”

     Ela definitivamente está se forçando!

“Stella!”

   Ikki correu até Stella e a abraçou enquanto ela se virava.

Fwah?! O-O que você está fazendo?!”

   Stella foi pega de surpresa pelo abraço repentino, mas Ikki não se importou.

   Ele a segurou firme, escondendo sua pele exposta de quaisquer espectadores.

Ele não poderia deixar essa garota brava e galante ser humilhada ainda mais.

“Sinto muito... Se eu tivesse vindo antes, você não teria tido que ser humilhada assim.”

“Ikki!”

   Os sentimentos de Ikki chegaram até Stella, e ela entregou-se ao seu abraço caloroso.

   No momento em que ela relaxou, seu corpo inteiro começou a tremer.

   Ikki propositalmente evitou olhar para o rosto dela, mas não afrouxou o aperto nem um pouco.

“Onii-sama,” Shizuku disse, caminhando em direção aos dois.

“Obrigado, Shizuku. Se você não tivesse erguido aquela barreira, estaríamos impotentes. Alguém se machucou?”

“Claro que não. Eu nunca cometeria um erro desses.” Shizuku franziu o cenho, ofendida por Ikki sequer fazer tal pergunta. Ela então estendeu a mão para Stella.

   Seguradas nela estavam todas as roupas descartadas de Stella. “Eu as juntei para você. Certamente você não está planejando andar por aí de roupa íntima para sempre?”

“O-Obrigada. Embora eu esteja surpresa por você estar sendo gentil comigo.”

“Que rude. Quem você acha que salvou sua pele? Honestamente, quão imprudente você tem que ser, saltando sem um plano em mente?”

“Geh...”

   Stella desviou o olhar, incapaz de encarar o olhar severo de Shizuku.

“Mas... eu respeito o que você fez,” Shizuku acrescentou, sua expressão suavizando.

“Hã?”

“Eu não teria sido capaz de salvar aquela mãe ou seu filho. Agora eu sei que existem outras pessoas no mundo que estão dispostas a arriscar suas vidas por completos estranhos.”

“N-Não foi nada de especial, sério. Além disso, é apenas graças à sua barreira que fomos capazes de resolver as coisas sem baixas. Você mesma é bem incrível.”

   Ambas, Shizuku e Stella, desviaram o olhar, incapazes de manter o contato visual. Elas estiveram atacando o pescoço uma da outra até agora, então provavelmente achavam estranho elogiar uma à outra. Mesmo assim, era inegável que se respeitavam um pouco mais agora.

     Espero que isso leve as duas a se darem melho—

“Ah, isso me lembra. Você consegue usar técnicas de cura, Shizuku?”

“Claro que consigo. Não me diga que você se machucou naquela troca anterior, não é, Onii-sama?”

“Não, eu estou bem. Eu estava esperando que você pudesse curá-lo.” Ikki apontou para Bishou. Ele estava sangrando pesadamente o suficiente para morrer de perda de sangue se o deixassem sozinho.

   Os seres humanos eram feitos principalmente de água, então os únicos Blazers que podiam usar habilidades de cura eram aqueles que possuíam habilidades de água de alto nível.

“Você não precisa colar os braços dele de volta,” Ikki continuou, “apenas pare o sangramento. Não podemos permitir que ele tente gracinha.”

“Entendido. Nós não gostaríamos que você se tornasse um assassino, Onii-sama.”

“Ele deve estar impotente agora, mas tome cuidado de qualquer mo—”

“Ninguém se mova!”

“O quê?!”

 

 

   Um grito agudo perfurou o ar. Ele viera do meio do grupo de reféns.

   Ikki e os outros se viraram e viram um jovem em uma camiseta vermelha segurando uma pistola contra a têmpora de uma senhora idosa.

“A-Ajude-meee!”

“Fiquem exatamente onde estão, seus pirralhos! Movam-se, e eu estouro os miolos desta velha!”

“Merda! Um deles se disfarçou como refém?!”

Hya ha ha ha ha ha ha! Vocês, idiotas, não eram os únicos se escondendo entre os reféns!”

“Bishou...”

   O sorriso no rosto de Bishou deixava claro que ele achava que tinha vencido. A única coisa em sua mente agora era como ele iria torturar essas crianças por fazerem dele um bobo.

“Ei, você! A nanica no vestido goth-loli!”

“‘N-Nanica’?!”

“Sim, isso mesmo, você. Eu ouvi que você pode curar pessoas. Venha aqui e conserte meus braços! Hee hee hee. Se você não o fizer, então teremos apenas que...”

   A velha senhora soltou um guincho de terror enquanto Bishou interrompia a fala e olhava para ela. A arma ainda estava pressionada contra sua têmpora.

     Droga!

   Ikki rangeu os dentes. O Ittou Shura ainda estava ativo, mas a esta distância, era possível que o soldado da Rebellion puxasse o gatilho antes que Ikki pudesse detê-lo.

“Venha logo para cá, sua vadia!”

“Onii-sama...”

“Não temos escolha. Faça o que ele diz por—”

“Não, não há necessidade disso.”

   A voz de um homem ecoou dentro das cabeças de todos, interrompendo Ikki. Parecia que ele estava falando diretamente nas mentes de todos. Um segundo depois, houve um som suave de farfalhar, e incontáveis feixes de luz azul dispararam por Ikki.

“Aaaugh!”

“Gyaaah!”

   Eles perfuraram Bishou e o soldado que estava mantendo a mulher como refém, tornando-os incapacitados.

“O quê?! O que acabou de acontecer?!” Stella gritou, surpresa.

     Aquele não é...?

   Ikki reconheceu tanto a voz quanto a habilidade que o dono da voz acabara de usar.

Heh. Santo Deus. Vocês acabaram precisando da minha ajuda, afinal. Eu não queria realmente me intrometer, no entanto, já que não gosto de roubar o brilho de outras pessoas.”

   O ar na frente de Ikki começou a brilhar e, logo depois, seções do ar começaram a rachar e descascar como escamas. Um único garoto apareceu do espaço que desmoronava. Ele segurava um Device em forma de arco em suas mãos e parecia ter por volta da mesma idade que Ikki e os outros.

“Como? Como eu nem sequer senti sua presença?” Alisuin murmurou. Ela havia sentido o ataque de Bishou com antecedência, mas tinha ignorado completamente a existência deste garoto. Mas aquele era precisamente o poder dele, então era natural que ela não o tivesse notado.

   Ikki, por outro lado, não estava surpreso. Afinal, aquele garoto era seu ex-colega de classe.

“A quanto tempo, Kirihara-kun.”

   Este garoto era Kirihara Shizuya. No ano anterior, ele havia sido o melhor aluno do primeiro ano da Academia Hagun, além de um dos cavaleiros escolhidos para representar a escola no Festival de Batalha das Sete Estrelas.

“Certamente faz tempo, Kurogane Ikki-kun.” Kirihara sorriu levemente e acrescentou: “Eu não sabia que você ainda estava matriculado aqui.” Ele lançou a Ikki um olhar condescendente.

“Mrr.”

   Stella e Shizuku, ambas se viraram para franzir o cenho para Kirihara. Elas não podiam realmente insultá-lo, no entanto, já que Kirihara acabara de salvar a pele delas.

“Kirihara-kuuun! Eu estava com taaanto meoodo!”

   Sete garotas surgiram do meio da multidão de reféns, empurraram Ikki e os outros para fora do caminho e correram até Kirihara. Eram todas namoradas dele, que tinham vindo ao shopping com ele.

“Sinto muito que vocês tenham passado por uma provação tão assustadora por causa da fraqueza dos meus kohai. Mas não se preocupem. Está tudo bem agora.”

“Nós sabíamos que você nos salvaria, Kirihara-kun!”

Aaahn. Você foi tão legal, Kirihara-samaaa. Cavaleiros são tãooo fortes.”

“Eu não gosto desse cara,” Stella murmurou enquanto observava o bando de garotas bajulando Kirihara.

“Acho que esta é a primeira vez que concordo com você,” Shizuku respondeu.

   Alguns segundos depois, a polícia, que havia sido avisada por Alisuin, correu para a praça de alimentação. Eles começaram a proteger os reféns e a levar os soldados da Rebellion sob custódia imediatamente. A situação foi resolvida em pouco tempo, e a paz retornou ao shopping.

“Ugh.”

Nesse momento, Ikki cambaleou quando a fadiga decorrente do uso do Ittou Shura o atingiu.

“Onii-sama!”

“Ikki, você está bem?!”

“S-Sim, estou bem. Só preciso descansar um pouco e poderei andar de novo.”

“Você deveria se sentar.”

   Alisuin conduziu Ikki a um banco próximo. Enquanto o fazia, o oficial de polícia encarregado aproximou-se dos quatro.

“Com licença, mas vocês quatro são os alunos que resolveram este incidente, certo? Vou precisar colher seus depoimentos, então poderiam me acompanhar até a delegacia?”

“Ora, você veio em uma hora péssima. Eu gostaria de deixar o Ikki descansar primeiro, se possível, então —”

   Alisuin virou-se para Kirihara, que ainda estava cercado por suas sete namoradas.

“Eu já limpei a bunda de vocês. Não sou obrigado a lidar com assuntos chatos de polícia também.”

   Kirihara estava claramente desinteressado em ajudar mais. Ele voltou-se para as garotas ao seu redor e começou a falar sobre onde deveriam ir para relaxar após aquela provação angustiante.

“Está tudo bem, Alice. Devo conseguir me recuperar um pouco se descansar no carro da polícia.”

“Ikki, você não precisa se forçar.”

“Não se preocupe. Não é como se eu estivesse ferido ou algo assim, então...” Ikki forçou-se a ficar de pé, a exaustão transparecendo em seu rosto. Ele então virou-se para Kirihara e curvou-se para ele. “Obrigado por sua ajuda, Kirihara-kun.”

“Não há necessidade de me agradecer. É o dever dos fortes ajudar os fracos.”

   Stella e Shizuku franziram o cenho novamente, mas sua prioridade máxima era levar Ikki para algum lugar onde pudesse descansar, não discutir com este playboy. Para esse fim, Stella ofereceu seu ombro a Ikki e o guiou lentamente até o carro da polícia. Enquanto partiam, no entanto, Kirihara decidiu disparar um último golpe de despedida.

“Devo dizer, Kurogane-kun, estou surpreso que você ainda esteja tentando se tornar um cavaleiro com essa sua força patética.”

   Stella não aguentou mais.

“Dá para parar de uma vez?!”

“Está tudo bem, Stella.”

“Não, não está! Eu não vou ficar quieta e deixar ele pisar em você!” Stella apontou para Kirihara e gritou: “Você tem falado com muita arrogância, mas o Ikki é muito mais forte que você! Como alguém que lutou contra ele, eu tenho certeza disso! Você não seria capaz nem de tocá-lo em uma luta!”

   Stella só foi capaz de dizer aquilo porque não sabia quais eram os poderes de Kirihara. Ela também não sabia sobre a parede inacreditavelmente enorme que o separava de Ikki. Mas ele, é claro, sabia.

“Aha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha!”

Para ele, as afirmações de Stella eram risíveis.

“O-O que é tão engraçado?!”

“Oh, apenas o fato de você achar que este cavaleiro fracassado é mais forte do que eu! Aha ha ha ha! Meu Deus, minha barriga dói. Parece que o Kurogane-kun se fez parecer bem legal, então suponho que vou iluminá-la com a verdade: ele é um covarde que teve medo demais para lutar comigo no passado.”

“O quê?”

   Era inconcebível para Stella que Ikki algum dia fugisse de um desafio. Ela se voltou para Ikki e, para seu choque, ele não negou a acusação de Kirihara. Ele apenas encarou Kirihara silenciosamente, com sua expressão ilegível.

   Apesar disso, o Ikki que Stella conhecia nunca recuaria de uma luta, então ela se voltou novamente para Kirihara e gritou: “Mentiroso! Isso não é possível!”

Heh heh heh. Por que você está tão confiante de que ele é mais forte do que eu, afinal, Vermillion-kun?”

“Não é óbvio? Ele é o único cavaleiro que já me superou!”

“Nesse caso, deveríamos fazer uma aposta, Vermillion-kun?”

“Que tipo de aposta?”

   Kirihara virou-se de Stella para Ikki.

“Sobre se você está certa ou não. A verdade é que haverá uma oportunidade para determinar sem sombra de dúvida quem é o mais forte muito em breve. Kurogane-kun, você desligou seu manual do aluno, certo? Você deveria ligá-lo de volta.”

   Após um momento, Ikki ligou o tablet sem dizer uma palavra. Um segundo depois, ele recebeu um novo e-mail em sua caixa de entrada. O remetente parecia ser o Comitê de Partidas de Seleção do Festival de Batalha das Sete Estrelas. Dizia: “Kurogane Ikki-sama, seu primeiro oponente na partida de seleção será Kirihara Shizuya-sama, da classe 2-3.”

“Ah!”

“Isso mesmo, seu primeiro oponente sou eu, um dos representantes do ano passado no Festival de Batalha das Sete Estrelas. Kirihara Shizuya, o Hunter. De qualquer forma, já que duelaremos em breve, poderemos ver se a Vermillion-kun está certa ou não. Se, por algum milagre, você conseguir me vencer, eu retirarei tudo o que disse e pedirei desculpas por insultá-lo. Mas se eu vencer, a Vermillion-kun terá que se tornar uma das minhas namoradas.”

“Espere, Kirihara-kun, não seja rid—”

   Antes que Ikki pudesse dizer qualquer outra coisa, Stella deu um passo à frente e declarou: “Por mim, tudo bem. Eu aceito essa aposta.”

“O que você está fazendo, Stella?!” Ikki não conseguia acreditar em seus ouvidos. “Não morda a isca! Essa aposta é sem sentido! Eu nem sequer quero que o Kirihara-kun me peça desculpas!”

“Você pode não querer, mas eu quero. Eu não vou tolerar que as pessoas chamem o cavaleiro que me superou de fraco!”

   Não era da natureza de Stella recuar quando desafiada. E assim, ela aceitou a aposta de Kirihara, apesar dos avisos de Ikki.

“Então está decidido. Heh. Vitórias fáceis normalmente me entediam, mas agora, estou ansioso por isso. Vejo você no campo de duelo, Kurogane-kun. Tenho certeza de que você já sabe disso, mas você não pode me enfrentar com essa sua Aura insignificante. Melhor se preparar para provar uma derrota esmagadora. Essas partidas de seleção não são batalhas simuladas, você sabe. São duelos de verdade. Tente não ser morto. Aha ha ha.

   Kirihara afastou-se com seu bando de garotas, totalmente confiante de que sairia vitorioso. Stella, Shizuku e Alisuin franziram o cenho para as costas dele enquanto ele se retirava.

“Hmm. Ele tem um rosto bonito, mas sua personalidade o estraga,” Alisuin murmurou.

“Eu o odeio,” Shizuku disse francamente.

“Hmph. Aposto que o Ikki vai limpar o chão com ele. Afinal, ele conseguiu me vencer. Não é verdade, Ikki?”

   Stella virou-se expectantemente de volta para Ikki.

“Eu não tenho tanta certeza... Ele é provavelmente o pior oponente para eu enfrentar.”

“Ikki?”

   Diferente de Stella, Ikki sabia qual era a Noble Art de Kirihara, e era por isso que ele não conseguia dizer com confiança que venceria. Ele sabia o quão grande seria o desafio para superar as habilidades de Kirihara.

Pouco tempo depois, Stella, Shizuku e Alisuin também foram notificadas de quem seriam seus primeiros oponentes. As três teriam suas primeiras partidas na segunda-feira, enquanto a batalha de Ikki contra Kirihara ocorreria na terça-feira.

   Esta seria a primeira batalha oficial de Ikki, e seria muito diferente das batalhas simuladas das quais ele havia participado até então. Nesta luta, ele estaria literalmente colocando sua vida em jogo.






 

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