Volume 1
Capítulo 2: Uma Visitante de Casa
Era uma manhã fria de início de abril.
Duas figuras podiam ser vistas perto da entrada da Academia Hagun, que ostentava um campus vasto e extenso.
Um deles era Kurogane Ikki, que vestia um agasalho e parecia mal estar sem fôlego enquanto tomava um gole da bebida esportiva com a qual encheu sua garrafa.
A outra era Stella Vermillion, que também estava de agasalho, mas ela estava a uma boa distância atrás de Ikki e ofegando pesadamente.
Ela estava tentando alcançar o portão de entrada onde Ikki estava, que marcava a linha de chegada para a sessão de corrida do dia.
Para manter sua resistência, Ikki corria vinte quilômetros todas as manhãs.
Stella decidiu juntar-se a ele em sua rotina depois que se mudou para o quarto dele três dias atrás, e era por isso que ela também estava correndo.
No entanto, Ikki tinha um cronograma de treinamento extremamente exigente.
Ele sabia que sua mana era desesperadamente baixa, então tentava compensar isso fazendo o máximo de exercício físico que podia.
Ele alternava entre tiro e trote em seus vinte quilômetros, forçando seu sistema cardiovascular o máximo que conseguia.
Em seu primeiro dia, Stella desistiu na metade.
No segundo, ela vomitou.
Em seu terceiro dia, Ikki inicialmente diminuiu seu ritmo para acompanhar o dela, mas ela não permitiu que ele fizesse isso.
“Você não precisa me mimar!” ela gritou, parecendo pronta para morder a garganta dele se ele ousasse pegar leve com ela.
Ele voltou ao seu ritmo habitual e, desta vez, Stella conseguiu segui-lo até o fim, embora estivesse consideravelmente atrás dele.
Stella é realmente incrível, Ikki pensou enquanto a observava cambalear até o portão.
Apesar da vasta quantidade de talento mágico que Stella possuía, ela treinou sua aptidão física o suficiente para que ainda pudesse, de certa forma, acompanhar o rigoroso regime de treinamento de Ikki.
Ele percebia que ela não havia apenas confiado em seu talento; ela empenhou uma quantidade extraordinária de esforço para chegar onde estava agora.
“Haaah! Haaah! Eu consegui...” Stella arquejou ao alcançar Ikki.
“Muito bem.”
“I-Isso foi... nada.”
Era impressionante que Stella ainda estivesse tentando manter as aparências quando estava tão exausta que não conseguia sequer reunir energia para limpar o suor do rosto. Ikki esperou que a respiração dela desacelerasse um pouco e, em seguida, despejou um pouco de sua bebida esportiva na tampa em forma de copo da garrafa de água.
“Aqui, tome um pouco.”
Stella olhou para o copo hesitante.
“Espere... isso não é um beijo indireto...?”
“O que houve? Ah, erro meu. Acho que você não quer beber no mesmo copo que um cara usou, né?”
“E-Eu nunca disse que não queria! Se fosse para dizer algo, é o oposto.”
“Como é?”
“N-N-N-N-Não é nada! Só me entregue logo, seu idiota!”
O rosto de Stella já estava corado pelo exercício, mas ela ficou ainda mais vermelha enquanto virava a bebida esportiva.
Uau, ela até bebeu no mesmo lugar que eu.
Ela fizera isso tão rápido que Ikki nem teve tempo de avisá-la. Ele desviou o olhar, sentindo-se culpado e sem perceber que ela o fizera de propósito, e encarou os portões da escola. Havia um grande cartaz à frente deles informando aos alunos que a cerimônia de abertura seria realizada hoje.
“Finalmente chegou a hora do novo ano letivo.”
Este momento tinha muito significado para Ikki. No ano passado, ele não recebera nenhuma oportunidade de aprender, e o ano passou sem que ele pudesse frequentar uma única aula. Mas este ano seria diferente. Shinguuji Kurono era a diretora da Academia Hagun agora, e ela acreditava em dar a cada aluno uma chance justa. Ikki estava animado por finalmente ter a oportunidade pela qual esperou por tanto tempo.
“Você parece realmente feliz, Ikki”, disse Stella ao devolver a garrafa.
“Eu pareço? Bem, a verdade é que tem alguém que eu estou ansioso para ver.”
“É bom que esse alguém não seja uma garota.”
Hã? Por que ela parece tão hostil?
“E-Eu quero dizer, é uma garota, mas—”
“Adeus.”
“Espera! Calma aí! Guarde a Lævateinn e me escute! A garota é minha irmã mais nova!”
“Sua irmã? Parando para pensar, você mencionou ter uma irmã quando estávamos lutando.”
“Sim. Ouvi dizer que ela se matriculou aqui este ano também. Não falo com ela desde que saí de casa, quatro anos atrás, então estou animado por poder falar com ela de novo.”
Ikki ainda se lembrava de sua irmã de cabelos prateados andando atrás dele por onde quer que ele fosse, com seus rabos de cavalo duplos balançando a cada passo. Ela era uma chorona que se sentia solitária facilmente e estava sempre implorando por atenção. Mas, enquanto o pai, a mãe e os outros irmãos de Ikki o abandonaram depois que souberam que ele não tinha talento, ela continuou falando com ele normalmente.
Para Ikki, sua irmã, Kurogane Shizuku, era sua única família de verdade. Fazia quatro anos desde a última vez que a vira, então ele estava curioso para saber o quanto ela havia crescido.
“Mal posso esperar para vê-la.”
“Preciso perguntar por via das dúvidas, mas... sua irmã não é, por acaso, alguém que não tem laços de sangue com você ou algo assim, é?”
“Não, ela é minha irmã biológica. Por quê?”
“Então você está perdoado.”
Perdoado pelo quê?
Ikki não tinha ideia do que Stella estava falando, mas ele tinha a política de não se aprofundar muito em coisas que não entendia. Ele se voltou novamente para o cartaz da cerimônia de abertura, pensando nos dias que viriam. Muito em breve, as batalhas para determinar quem representaria a Academia Hagun no Festival de Batalha das Sete Estrelas começariam.
◆
“Uhul! Parabéns por terem sido aceitos na Academia Hagun, novos aluuunos!” A jovem mulher de pé no pódio de professores estourou um lança-confetes na direção dos estudantes, com um enorme sorriso no rosto. “Eu sou Oreki Yuuri, e serei a professora responsável pela turma 1-1. Esta é a minha primeira vez como professora orientadora, mas tenho certeza de que nos daremos muito bem! Na verdade, eu adoraria que todos vocês me chamassem de ‘Yuri-chan’! Não há necessidade de formalidades aqui!”
Ikki estivera se preparando mentalmente para os dias de luta que começariam em breve, então ficou surpreso por sua professora ser tão alegre e energética.
“Lidar com ela parece que será exaustivo”, murmurou Stella, que estava sentada no assento ao lado do de Ikki.
“Aha ha, eu sei o que você quer dizer. Mas ela é uma boa professora.”
“Você a conhece?”
“Um pouco, sim.”
“Er, como hoje é o primeiro dia de todos, não haverá aulas! Mas tenho uma coisa que preciso dizer a todos vocês sobre as partidas de seleção que vocês disputarão para decidir quem nos representará no Festival de Batalha das Sete Estrelas. Poderiam todos pegar seus manuais do aluno?”
Ikki tirou um pequeno tablet LCD do bolso do peito. Esses tablets, entregues aos alunos da Academia Hagun, serviam não apenas como identificação de identidade, mas também como carteiras e telefones portáteis. Eles podiam até se conectar à internet.
“Ótimo. Agora, se bem se lembram, a diretora mencionou em seu discurso de abertura que a classificação de suas habilidades desempenhava um papel em ser ou não escolhido para representar nossa escola nos anos anteriores. Mas este ano, esse sistema está sendo abolido! Agora determinaremos nossos representantes com base nos registros de combate de todos! Todos os alunos têm permissão para participar das partidas de seleção, e os seis detentores dos melhores registros serão escolhidos como nossos representantes! Vivaaaa a violência! O Comitê de Partidas de Seleção, que organiza e supervisiona as partidas, enviará e-mails para todos os seus terminais para informar em quais dias vocês lutarão. Certifiquem-se de conferir essa agenda e compareçam à sua partida no horário. Se você se atrasar, será registrado como desistência, então tomem cuidado!”
“Sensei,” disse Stella, levantando a mão.
“Não, não, não,” Oreki respondeu, balançando o dedo. “Você tem que me chamar de ‘Yuri-chan’”.
“Y-Yuri-chan, então”.
“Sim? O que foi, Stella-chan?”
“Em quantas partidas de seleção teremos que lutar?”
“Não posso entrar em detalhes ainda, mas todos lutarão em pelo menos dez partidas. Assim que as coisas começarem, assumam que terão uma partida a cada três dias”.
Ikki soltou um pequeno suspiro de alívio ao ouvir aquilo. Ele só podia usar o Ittou Shura uma vez por dia, então, se fosse forçado a lutar batalhas consecutivas, estaria em apuros. Mas, embora isso fosse uma boa notícia para Ikki, o resto da classe não parecia satisfeito.
“Você está brincando comigo?”
“Cara, que saco. Isso significa que não terei tempo nenhum para sair com as pessoas”.
“Eu nem quero ir para o Festival de Batalha das Sete Estrelas, para começo de conversa”.
Os outros alunos pareciam decididamente infelizes com esse sistema. Era compreensível, considerando que a maioria dos estudantes não tinha interesse real no Festival de Batalha das Sete Estrelas. Os participantes lutavam com suas armas em forma real em vez de forma fantasma. Ferimentos eram comuns e, ocasionalmente, pessoas morriam.
Poucas pessoas eram tão determinadas a ficar mais fortes a ponto de estarem dispostas a participar de um evento tão perigoso. Na verdade, a maioria dos alunos estava muito mais preocupada em se graduar com segurança, tornar-se um Cavaleiro-Mago e encontrar algum emprego estável e bem remunerado.
“Haverá alguma penalidade por perdermos nossas lutas, ou por nos abstermos de lutar completamente?”, um dos alunos perguntou.
“Não. Não há penalidade, e não afetará suas notas se você perder. Elas receberão um pequeno aumento se você vencer, no entanto. E se você não quiser participar, você não precisa. Quando receber o e-mail do Comitê, apenas informe a eles que não está interessado no Festival de Batalha das Sete Estrelas e que gostaria de se retirar. Você será removido do grupo de lutadores e não terá mais nenhuma partida. No entanto...”
Oreki olhou para Ikki, então sorriu gentilmente e acrescentou: “Eu percebo que este novo sistema pode parecer incômodo para alguns, mas, pessoalmente, acho esplêndido que todos tenham uma oportunidade igual de conquistar seu lugar. Afinal, isso significa que cada um de vocês tem a oportunidade de se tornar o Soberano das Sete Estrelas se quiserem o suficiente. Eu gostaria que todos vocês estabelecessem isso como seu objetivo e participassem. Tenho certeza de que será uma experiência valiosa para cada um de vocês.”
Ikki inclinou a cabeça em agradecimento. Ele conhecera Oreki pela primeira vez quando estava fazendo o exame de admissão da Academia Hagun. Ela fora sua examinadora. Foi porque ela valorizou tanto as habilidades dele que ele fora aceito na escola.
Ao relembrar aquele dia, ele de repente se lembrou de algo.
Ah, eu quase esqueci. A Oreki-sensei não...
“Tudo bem, pessoal, vamos dar o nosso melhor este ano! Digam comigo! Nós vamos — Blaaaaaugh!”
...tem uma constituição muito fraca? — Ikki terminou seu pensamento exatamente quando Oreki começou a vomitar sangue.
“Y-Yuri-chaaaaaaaaan?!”
“Ah, não se preocupem, pessoal. Ela está bem”, disse Ikki, ajudando Oreki a se levantar. “Ela é apenas muito doente o tempo todo.”
“Isso soa como algo com que deveríamos nos preocupar! Ela não acabou de vomitar sangue?!”
“Cof, cof. Está tudo bem, crianças. Assim como o Kurogane-kun disse, eu estou bem.” Oreki sorriu debilmente para os outros alunos em uma tentativa de tranquilizá-los. “Eu tusso um litro de sangue por dia desde que era criança...”
“Isso não está nada bem!”
“Cof, cof! Bem, eu sobrevivi vinte anos assim, então não é grande coisa. Heh heh, impressionante, não é? Sou mais resistente do que pareço.”
“Por favor, não se orgulhe disso. Uh, eu vou levá-la para a enfermaria, então alguém poderia limpar aquela poça de sangue?”, Ikki disse, dirigindo-se à turma.
“Claro, eu cuido disso!”
A garota com cabelo loiro-pêssego que respondeu acenou para ele. Ele então passou o braço de Oreki sobre seu ombro e começou a carregá-la, meio que amparando-a, para a enfermaria. Enquanto caminhavam, Ikki perguntou de repente: “Oreki-sensei, o motivo de você estar agindo tão agitada hoje é porque queria parabenizar os novos alunos?”
“Cof! Cof! Sim. É o primeiro dia deles na escola, então eu queria que eles se sentissem orgulhosos de terem chegado aqui. É por isso que me esforcei tanto...”
Sim, eu imaginei. — Era exatamente o tipo de coisa que Oreki, que era bondosa ao extremo, faria.
“Oreki-sensei, não sei como dizer isso de um jeito gentil, mas...”
“O quê?”
“Acho que todos apenas acharam você vergonhosa.”
“Tristeza...”
Ikki sentiu-se mal por Oreki, mas foi precisamente por isso que ele lhe disse a verdade. Era para o próprio bem dela. Ela, como todas as pessoas, precisava agir de acordo com sua idade se quisesse ser respeitada.
◆
“A professora disse que todos estão liberados para ir para casa hoje”, anunciou Ikki ao retornar à sala de aula, transmitindo a mensagem de Oreki aos outros alunos.
Acho que vou procurar a Shizuku. Se um aluno repetente como eu ficar por aqui por muito tempo, só vou estragar o clima.
Ikki podia sentir os olhares dos outros alunos sobre ele. Como Oreki havia desmaiado, a turma não tinha chegado a fazer as apresentações, mas Ikki suspeitava que todos já tivessem ouvido que ele estava repetindo o ano. Ele percebia, pelos olhares que todos lhe dirigiam, que não sabiam como se aproximar dele.
Eu meio que tomei a frente ali atrás. Talvez eles não tenham gostado disso.
Pensando que aquilo poderia ter sido presunçoso de sua parte, Ikki levantou-se, pronto para sair. Enquanto o fazia, uma colega de classe de repente agarrou seu braço.
“Seeenpai!”
“Opa?!”
“O qu— O que você está fazendo, Ikki?!” Stella gritou.
“Por que você está me perguntando isso?! Hum, c-com licença, mas quem é você e o que você quer?”
“Ops. Eu estava tão animada por finalmente conseguir falar com você que esqueci meus modos.” A garota de óculos e cabelos loiro-pêssego — a mesma que se voluntariou para limpar a sala enquanto Ikki levava Oreki para a enfermaria — mostrou a língua como uma forma fofa de se desculpar. Ela soltou o braço dele e disse: “Meu nome é Kusakabe Kagami. Sou uma graaaande fã sua!”
“Eu tenho fãs?”
Blazers eram geralmente figuras bem conhecidas. Cavaleiros-Magos profissionais e cavaleiros aprendizes tendiam a receber muita atenção da imprensa, desde que fossem fortes como Stella. Todas as lutas do Festival de Batalha das Sete Estrelas eram, inclusive, transmitidas mundialmente via internet.
Muitas vezes, as pessoas se matriculavam em uma determinada escola porque se tornaram fãs de um dos alunos que já a frequentavam após assistirem a essas transmissões ao vivo. Mas Ikki não havia participado de nenhum evento de grande porte e, portanto, não deveria ter nenhum fã.
“Eu não acho que tenha feito nada para me tornar famoso... Você tem certeza de que sou a pessoa certa?”
“Qual é, Senpai, não se faça de bobo. Com certeza você não esqueceu disso.”
Ikki não tinha ideia do que Kagami estava falando até que ela puxou seu manual do aluno e lhe mostrou uma certa gravação. Ele definitivamente não havia esquecido, considerando que fazia apenas alguns dias desde aquele evento em particular.
“Essa é o nosso duelo, não é?!” Stella exclamou enquanto se aproximava para olhar a tela também.
“Espera, você e a Stella-chan não sabiam? Vocês dois nunca entram na internet, ou o quê?”
“Praticamente. Eu não sou bom com computadores...” Ikki respondeu.
“Eu também não passo nenhum tempo online. Na verdade, eu nem possuo um computador”, disse Stella.
“Bem, isso explica. De qualquer forma, Senpai, seu duelo com a Stella-chan foi postado online logo após terminar e causou um grande alvoroço. Praticamente todos na escola já devem ter visto a essa altura. Não é verdade, pessoal?” Kagami perguntou, voltando-se para os outros alunos. Todos assentiram em uníssono.
“Sim, eu vi o vídeo.”
“Toneladas de blogs têm escrito artigos sobre isso. As pessoas que não ouviram falar do seu duelo são definitivamente a minoria.”
“Eu vi esse vídeo também. Na verdade, eu queria te perguntar sobre o duelo, mas era difícil dizer qualquer coisa já que você é mais velho que a gente e tudo mais... Aha ha...”
Espere, é por isso que todos estavam me encarando?
“Desculpe se fiz vocês se sentirem desconfortáveis. Mas somos todos colegas de classe aqui, então sintam-se à vontade para falar comigo sobre qualquer coisa”, disse Ikki com um sorriso.
“Você fala sério?!” metade de seus colegas de classe gritou em uníssono.
“Opa?!”
De repente, todas as garotas da classe cercaram Ikki.
“Ainda bem! Fico feliz que você seja uma pessoa tão fácil de conversar, Kurogane-san!”
“Eu queria falar com você desde que vi aquela partida!”
“Eu também! Você foi tão legal!”
“Hum, Kurogane-senpai, você estaria disposto a me treinar? Eu quero melhorar minha esgrima e me tornar forte como você!”
“Ei, não é justo! Eu ia pedir para ele me treinar!”
“E-Esperem um pouco, pessoal. Eu disse que vocês podiam falar comigo sobre qualquer coisa, mas não se amontoem todos de uma vez, por favor.”
Ikki recuou da multidão de garotas que o cercava. Ele não estava acostumado a tanta atenção e também não estava interessado em flertar com um monte de mulheres diferentes. Ele preferiria muito mais gastar esse tempo treinando. Além disso, ele definitivamente nunca fora tão popular com garotas antes. Como resultado, ele não tinha certeza de como lidar com os olhares de admiração e respeito que todas estavam lhe dando.
“Heh heh, você está realmente tão surpreso com sua popularidade, Senpai? Só para você saber, você será o centro das atenções nesta escola por um tempo. De acordo com os dados que reuni, você é especialmente popular com as garotas!”, Kagami lhe disse.
“E-Espere, por quê?”
“Porque você é super forte. Todas as garotas que visam se tornar Cavaleiros-Magos amam caras fortes. Além disso, embora você seja tão forte, você recebeu o apelido de Worst One, o que o torna descolado e misterioso. O maior motivo, porém, é que você tem um rosto fofo.”
“E-Eu realmente não acho que isso seja verdade...”
“Você não tem ideia do quanto esse seu sorriso sem jeito mexe com nossos instintos maternais”, Kagami explicou, e todas as garotas assentiram em concordância.
E-Elas seriamente acham que eu sou fofo? Eu sei que não pareço tão viril assim, mas não tenho certeza de como me sentir sendo chamado de “fofo” por garotas mais novas que eu...
No fim das contas, se Ikki tivesse que escolher entre ser amado e ser odiado, ele preferiria ser amado. Ele apenas não tinha certeza se queria esse tipo específico de afeição. Enquanto ele lutava para pensar no que dizer, Kagami de repente agarrou seu braço novamente.
“K-Kagami-san?!”
“A propósito, Senpai, eu tenho um pedido para você, já que você é tão popular. Com certeza você está disposto a ouvir o apelo sincero de uma kohai fofa, certo?” Ela olhou para Ikki com olhos de cachorrinho carente.
“O-O que é? Eu não me importo em ajudar... assumindo que eu possa, é claro.”
“Eeeeba! Valeu mesmo! Então, o negócio é o seguinte: eu estava pensando em abrir um clube de jornalismo e queria escrever um artigo sobre você para colocar na primeira página da nossa edição de estreia! Eu estava pensando em intitular como ‘Que Reviravolta! Um Blazer Desconhecido Dominou Completamente a Tão Falada Super Novata!’”
Você não deveria dizer isso com a Stella bem ali, sabe. — Ikki olhou de relance para Stella, com suor frio brotando em sua testa.
“Ora, olhe só para você, Sr. Popular. Vá em frente, deixe que ela o entreviste, Senpai.”
Ela não parecia nem um pouco feliz. É compreensível, já que a maioria das pessoas ficaria bem irritada se ouvisse que alguém queria escrever um artigo sobre como elas foram derrotadas. De qualquer forma, porém, Ikki não teve coragem de concordar com o pedido de Kagami após ver a expressão de Stella.
“Desculpe, mas eu não sou muito bom com entrevistas, então...”
“Sem problemas. Eu vou te deixar à vontade.”
No entanto, Kagami não recuou. Na verdade, ela apertou o braço de Ikki ainda mais forte, pressionando-o contra seus seios.

“Uh... E-Ei, Kusakabe-san...”
“Não precisa ser tão formal. Apenas me chame de ‘Kagami’. Já somos praticamente amigos, afinal de contas.”
Eu te conheço há apenas cinco minutos. Acho que seria rude dizer isso, no entanto.
“Kagami-san, você poderia, por favor, me soltar? Eles estão pressionando contra mim.”
“Oh? A o que será que você está se referindo?”
Kagami deu a Ikki um olhar confuso, mas quando viu para onde ele estava olhando, tudo ficou claro. Após perceber a fonte do desconforto dele, ela sorriu maliciosamente e disse: “Nãão. Eu não vou soltar até você concordar em me deixar te entrevistar.”
Ela apertou ainda mais forte, sugando o braço de Ikki para o seu decote.
“Aaaaah?!”
“Eu quero saber tudo sobre você, Senpai,” Kagami sussurrou docemente no ouvido de Ikki. Ele sabia que tudo aquilo era uma armadilha para fazê-lo concordar com a entrevista, mas isso não significava que não estava funcionando.
E-Ela é tão fofa.
No fim das contas, Ikki ainda era um cara com desejos de um homem. É claro que ele estava feliz por ter uma garota fofa paparicando ele.
Mesmo sabendo que estava sendo usado, a expressão de Ikki relaxou enquanto ele era sobrecarregado pelos encantos de Kagami.
“Pare com isso, Ikki!” Stella deu um passo à frente e gritou, incapaz de assistir por mais tempo. Mas antes que pudesse lhe dar uma boa bronca, alguém a interrompeu.
“Ei, Senpai. Nós temos algo que queremos discutir com você também,” um dos garotos da sala disse, com a voz transbordando uma hostilidade desenfreada.
◆
Um grupo de cinco rapazes empurrou as garotas e parou na frente de Ikki.
“Parece que você é bem popular, Senpai”, disse o maior dos cinco em uma voz intimidadora. “Mas isso não significa que você pode agir como se fosse o dono do lugar. Isso aqui é uma sala de aula, então guarde seu flerte para outro lugar.”
Ele encarou Ikki. Era óbvio que ele não gostava da forma como Ikki estava monopolizando toda a atenção das garotas.
“Qual é o seu problema, Manabe? Está com inveja?”
“Não fique bravo com ele só porque você não é popular com as garotas, seu perdedor!” As garotas atacaram o cara chamado Manabe.
“O que foi que você disse, sua cadela?! Não ouse insultar o Ma-kun!” outro dos rapazes rosnou.
“Certo, vamos apenas nos acalmar, pessoal”, disse Ikki, estendendo as mãos em um gesto de paz. Embora isso não fosse culpa dele, ele era tecnicamente a causa, então sentiu que era seu dever resolver as coisas pacificamente. Ele se curvou para Manabe e disse: “Sinto muito se te irritei. Você está certo que eu não deveria ter causado tamanha comoção na sala de aula.”
“Hah. Não finja ser o bonzinho aqui. Todos sabemos que você é uma farsa.”
“O que exatamente você quer dizer com isso?”
“Você pode ter enganado essas vadias estúpidas, mas não me engana. Não tem como um Rank F vencer um Rank A. Aposto que você usou algum truque sujo para ganhar só para poder ficar popular.”
“Eu certamente não fiz isso. Suas acusações são desrespeitosas tanto para mim quanto para a Stella.”
“Você está mesmo tentando dizer que venceu um Rank A de forma justa? Me dê um tempo. Se você é realmente tão forte, então que tal tentar vencer todos nós, Senpai.”
Os cinco rapazes cercaram Ikki como hienas circulando sua presa. Todos eles, exceto Manabe, manifestaram seus Devices.
“Vocês ficaram malucos?! Se os professores descobrirem que vocês tiraram seus Devices na sala de aula, serão expulsos!” Kagami gritou.
“Cale-se, piranha! Se não quiser se machucar, saia do nosso caminho!” Manabe retrucou, e seus quatro seguidores brandiram seus Devices. Estava claro por suas expressões sanguinárias que eles também não os haviam manifestado em forma fantasma.
No entanto, Ikki permaneceu calmo como sempre.
“Kusakabe-san está certa. Lutar aqui é contra as regras da escola. Enquanto ainda somos cavaleiros aprendizes, a escola à qual pertencemos decide quando e onde temos permissão para usar nossos poderes. Se você insiste em lutar comigo, vamos para um campo de treinamento. Eu lutarei de bom grado com você até o anoitecer.”
Esta era a forma de Ikki mostrar gentileza para com Manabe e os outros. Francamente, ele não tinha motivo para lutar contra eles, e não ganharia nada ao fazê-lo. Em vez de lidar com esses caras, ele apenas queria ir procurar sua irmã. O único motivo pelo qual ele concordou em lutar com eles foi porque pensou que estaria prestando um serviço aos seus calouros ao ajudá-los com seu treinamento.
“Seu filho da puta...”
Manabe estava tão irritado agora que veias saltavam em sua testa. Apesar das melhores tentativas de Ikki de ser civilizado, ele havia feito as declarações erradas sem perceber. Manabe e os outros não estavam realmente procurando por um duelo, ou treino, ou nada do tipo. Eles queriam aterrorizar o cara que pensavam ter trapaceado rumo a uma vitória apenas para se tornar popular com as garotas e fazê-lo implorar por misericórdia. Portanto, Ikki dizendo que estaria disposto a lutar com eles em um campo de treinamento apenas acrescentou insulto à injúria.
“Não fique convencido, seu pedaço de merda! Você é apenas um fracassado que teve que repetir o ano! Peguem ele!”
Eu disse a coisa errada? — Ikki pensou, inclinando a cabeça para um lado. Infelizmente, era tarde demais para resolver as coisas pacificamente. Os quatro rapazes avançaram contra Ikki, com seus Devices erguidos, enquanto as garotas gritavam e corriam para sair do caminho.
Ikki soltou um suspiro cansado. Agora que as coisas tinham chegado a este ponto, ele não tinha escolha a não ser usar a força.
“Senpai! Eu direi aos professores que você agiu apenas em legítima defesa, então dê uma lição nesses caras!” Kagami gritou, incentivando Ikki. Embora Ikki estivesse grato pelo apoio dela, ele não precisaria que ela testemunhasse por ele.
“Não, não há necessidade disso.” Ele simplesmente não permitiria que isso se transformasse em uma verdadeira batalha entre Blazers empunhando Devices.
“Hyah!”
Ikki mudou todo o seu foco para seus globos oculares. Ele não tinha necessidade de enxergar cores agora, pois essa informação era desnecessária. Para esse fim, ele desligou a capacidade de seus olhos de processar cores.
O mundo tornou-se monocromático, e Ikki transferiu a energia mental que seus olhos e cérebro vinham usando para ver cores para aprimorar sua visão cinética. Tudo ao seu redor de repente pareceu estar se movendo em câmera lenta.
O que Ikki estava fazendo não exigia superpoderes especiais. Era um simples aumento de sua concentração que qualquer humano poderia fazer com treinamento e determinação suficientes. Quando colocados em situações extremas, os humanos tendiam a ativar esse poder subconscientemente, e tudo o que Ikki fizera fora trazer esse poder para sob seu controle. É claro que, no caso dele, a habilidade de fazer isso era uma necessidade inerente. Sem ela, ele jamais teria sido capaz de desenvolver uma técnica que o permitisse usar toda a energia de seu corpo ao longo de um minuto.
Neste mundo monocromático de movimentos lentos, Ikki examinou os arredores e analisou a situação. Seus oponentes vinham em sua direção de quatro direções diferentes.
O mais rápido é o cara com a katana que está vindo pela frente.
Ikki projetou a mão direita para frente e usou as costas da mão para empurrar a lâmina de seu inimigo para o lado. Ele não colocou muita força nisso, usando apenas o necessário para afastar uma cortina, mas foi o suficiente.
“O qu—” O garoto com a katana arquejou enquanto sua lâmina passava inofensivamente ao lado de Ikki. Ikki então o derrubou com a ponta do pé.
“Waaah!”
Incapaz de manter o equilíbrio após ter sua perna de apoio varrida por baixo dele, o garoto com a katana colidiu com o garoto de espada longa que vinha em direção a Ikki por trás. Os dois se chocaram contra uma mesa próxima e caíram no chão em um amontoado emaranhado.
“Seu desgraçaaado!”
“Mooorra!”
Os dois rapazes de cada lado de Ikki vieram contra ele em seguida. Um deles empunhava uma clava de ferro, e o outro um machado. Ambos miravam na cabeça de Ikki, o que os tornava fáceis de lidar.
“Hup.”
Ikki dobrou os joelhos e se abaixou. Um segundo depois, houve o estrondo de metal contra metal enquanto as armas dos dois rapazes colidiam. Ambos haviam golpeado com força total, então o recuo foi imenso.
“Gyaaah!”
Eles gritaram de dor enquanto a força dos golpes um do outro percorria seus braços, entorpecendo-os. Isso deixava apenas o líder deles.
“M-Maldição!”
A confiança anterior de Manabe havia desaparecido, e ele parecia claramente abalado após ter assistido seus quatro camaradas serem derrotados com facilidade consumada. Em pânico, ele invocou seu próprio Device, um revólver de grosso calibre. Era um tipo raro de Device de se ver vindo de um Blazer que vivia no Extremo Oriente.
Manabe apontou a arma para Ikki e puxou o gatilho. No entanto, no tempo que levou para o cão descer, Ikki fez seu movimento. Ele pegou uma borracha de uma mesa próxima e a petelecou direto para cima com o polegar. Ela ricocheteou no teto e caiu no espaço entre o cão do revólver e a espoleta, impedindo-o de disparar.
Manabe soltou um grito sem palavras enquanto encarava seu Device agora inútil. Enquanto isso, Ikki avançou e bateu as mãos bem na frente do rosto de Manabe. A ideia era assustar o rapaz; Ikki não tinha intenção de atacá-lo de fato.
“Eek!”
Felizmente, a tática de intimidação funcionou. Manabe desmoronou no chão, olhando para Ikki com medo nos olhos. Ikki, um Blazer Rank F, acabara de derrotar cinco Blazers armados com seus Devices usando apenas as mãos vazias. E ele nem sequer havia suado para fazer isso.
Manabe e os outros haviam perdido a vontade de lutar, e Ikki não via razão para atormentá-los ainda mais. Como prometido, ele não permitiu que uma batalha real eclodisse.
Esboçando para os cinco o sorriso sem jeito que Kusakabe dissera despertar o instinto maternal de todas as garotas, ele disse: “Estaremos na mesma classe por um ano inteiro, então vamos tentar nos dar bem, ok?”
Manabe assentiu inexpressivamente, com medo demais para dizer qualquer coisa.
Ele e seus amigos não foram os únicos que ficaram atordoados pela demonstração de força de Ikki. O restante da classe também estava sem palavras. Afinal, eles acabaram de assistir Ikki derrubar cinco Blazers com as próprias mãos.
“Ei, uh, Stella? É impressão minha ou o clima está meio tenso?”
“Certamente está. É o que acontece quando você faz uma exibição de força tão esmagadora.”
“‘Exibição de força esmagadora’? Mas eu me contive o máximo possível para garantir que ninguém se machucasse.”
“E foi isso que aconteceu quando você se conteve o máximo possível. Você pode realmente culpar o resto da classe por estar chocado?”
Stella soltou um suspiro exasperado. Antes que pudesse dizer mais qualquer coisa, porém, o som de alguém aplaudindo do lado de fora da sala de aula a distraiu. Ela e Ikki se viraram para ver uma garota pequena com cabelo curto prateado e olhos verde-jade parada junto à porta da sala. Havia algo efêmero nela, mas isso apenas a tornava mais bonita. Seus belos lábios rosados formaram o desenho de um sorriso.
“Essa foi uma demonstração de força verdadeiramente esplêndida. Aqueles fracotes nunca tiveram chance, Onii-sama.”
A voz da garota tinha uma qualidade melódica e musical. Mas foi o que ela disse que chamou a atenção de Ikki: “Onii-sama.”
“É você...?”
É claro que não havia necessidade de perguntar. O rosto dela, a voz e até o penteado estavam diferentes, mas havia apenas uma pessoa no mundo que chamava Ikki de “Onii-sama”. Dentro da grande mansão Kurogane, houve apenas uma pessoa cuja presença o deixava à vontade: sua irmã mais nova, que sempre o seguia por onde quer que ele fosse.
“Shizuku...”
“Sim. Faz muito tempo, Onii-sama.”
◆
“Shizuku!” Radiante por ver sua irmã pela primeira vez em quatro anos, Ikki correu e pegou a mão de Shizuku. “Nossa, é você mesma! Faz tanto tempo! Você cresceu tanto! Eu nem te reconheci!”
“Faz quatro anos, afinal. Seria mais estranho se eu não tivesse mudado.”
“Aha ha, sim, acho que sim! Mas estou muito feliz em te ver de novo! Eu não achei que você viria me procurar, no entanto! Eu estava prestes a ir atrás de você quando toda essa confusão começou. Enfim, desculpe, isso não é importante agora. Você apareceu tão de repente que eu fiquei empolgado.”
Havia tantas coisas sobre as quais Ikki queria conversar com Shizuku. Ele queria se desculpar por ter deixado a casa da família tão de repente e contar a ela sobre tudo o que havia acontecido desde então. Ele também queria dizer o quanto estava feliz em vê-la novamente. Mas ele tinha tanto a dizer que começou a se atrapalhar com as palavras.
“Ei, Ikki, ela é sua irmã? Aquela de quem você me falou hoje de manhã?”
“Ah, sim! É ela! Deixe-me apresentá-la.”
A pergunta de Stella ajudou Ikki a organizar seus pensamentos e a se acalmar o suficiente para falar normalmente de novo. Mas, assim que Ikki se voltou para Stella, Shizuku puxou sua manga, fazendo-o virar-se de volta.
“Onii-sama, eu senti tanto a sua falta...”
Ela colocou uma mão na bochecha de Ikki e, em seguida, pressionou ternamente seus lábios contra os dele.

“Mmpf!” Ikki exclamou de surpresa.
“Mas o queeeeeee?!” Stella e o resto dos colegas de classe de Ikki gritaram.
(Stella) “I-Ikki?! O-O que diabos você está fazendo?!”
“E-E-E-Eu também não sei o que está acontecendo!” De fato, Ikki estava mais chocado do que qualquer um pelo fato de sua irmã tê-lo beijado de repente. Ele afastou Shizuku de si e gritou: “Shizuku, o-o que você está fazendo?!”
“Não é óbvio? Estou te beijando.”
“Isso eu percebi! É por isso que estou surtando! O que eu quero dizer é: por que você me beijou?!”
“Beijos são um sinal de afeto. Até mesmo amantes, com seus laços rasos e frágeis, fazem isso o tempo todo. Então é natural que irmãos, que compartilham a mesma carne e sangue, que são mantidos unidos por laços mais fortes que o aço, façam o mesmo. Se tanto, seria incomum não o fazerem. Além disso, ouvi dizer que estrangeiros se beijam como forma de saudação o tempo todo.”
“E-Espere, isso é verdade? Eu sou o estranho aqui, Stella?”
“Definitivamente não! Não se deixe levar pelas mentiras dela! Além disso, nem os europeus se cumprimentam com beijos na boca! E nenhum deles beija seus irmãos! Algum de vocês beija seus irmãos?!” Stella perguntou, voltando-se para o resto da classe.
“Não.”
“Eu com certeza não.”
“Sinceramente, só de pensar nisso me dá vontade de vomitar.”
“Hã. Shizuku, acho que você é a estranha aqui, de acordo com a opinião popular.”
“Eheh heh. Não vejo problema aqui, Onii-sama. Os outros têm seus próprios costumes, e nós temos os nossos. Imagino que todos aqui simplesmente tenham um relacionamento tenso com seus irmãos. Verdadeiramente, vivemos em tempos tristes. No entanto, nós somos diferentes, Onii-sama. Na verdade, um beijo sozinho não é suficiente para expressar o quanto ansiei para te ver nestes últimos quatro anos. Mesmo sexo seria apenas a ponta do iceberg.”
[Almeranto: Mano… Essa foi minha reação. Se pra ela sexo é só a ponta, o que seria o resto do conteúdo?]
“Mas nem ferrando que seria!” todos os alunos da classe de Ikki gritaram em uníssono.
“V-Você não pode simplesmente dizer isso, Shizuku! Garotas não deveriam sair por aí falando palavras como ‘s-sexo’ assim...”
“Heh heh, eu estava apenas brincando. Você fica tão fofo quando está corado, Onii-sama.”
Ikki começou a suar frio enquanto Shizuku sorria sedutoramente para ele.
Qu-Quem é essa garota?
A Shizuku de que Ikki se lembrava era uma menina tímida que ficava envergonhada facilmente. Como diabos ela tinha se tornado isso?
“De qualquer forma, deixe essas preocupações triviais para trás, Onii-sama. Eu quero me conectar com você em um nível muito mais profundo.” Shizuku mais uma vez envolveu o pescoço de Ikki com seus braços. Seus olhos verde-jade estiveram fixos nele, e apenas nele, durante todo este tempo. “Temos que compensar os quatro anos de tempo perdido.”
“Uh...”
Ela aproximou seus lábios rosados dos de Ikki, planejando beijá-lo novamente.
Ikki sabia que isso estava errado. Ele sabia que não era assim que irmãos deveriam agir. Mas ele não conseguia se mexer. O olhar de Shizuku o mantinha preso no lugar, incapaz de fazer qualquer coisa.
“Paaaara!” Pouco antes de seus lábios se tocarem pela segunda vez, Stella separou os dois. “Terra chamando Ikki! Por que você está entrando no clima também?! Recobre o juízo!”
“D-Desculpe! Obrigado, Stella! Você salvou minha vida!” Ikki disse, parecendo aliviado.
“O que você pensa que está fazendo?” Shizuku disse, tirando os olhos de Ikki pela primeira vez desde que entrou na sala de aula. Parecia que ela só agora tinha registrado a existência de Stella.
“Isso é o que eu quero saber! O que você pensa que está fazendo com o Ikki?!”
“Você está se referindo ao beijo?”
“C-Claro que estou! Ao que mais eu estaria me referindo?!”
“E eu aqui pensando que você teria algo que valesse a pena dizer.” Shizuku suspirou. “Sou livre para fazer o que bem entender com o meu irmão mais velho.”
“Ikki! Sua irmã é maluca de pedra! Eu achei que você tivesse dito que ela era normal!”
“Olha, eu estou tão surpreso quanto você. Na verdade, estou até com um pouco de medo dela agora...”
“Percebo que você continua tentando interferir no meu tempo de qualidade com o Onii-sama. Você deve ser a Princesa Stella de quem todos estão falando, certo? Por que você se importa tanto com a forma como nós, plebeus, expressamos o amor familiar?”
“Ninguém no mundo expressa amor familiar com um beijo profundo como aquele!”
“Como eu disse, não sei como são as outras famílias, mas é assim que fazemos as coisas.”
“Nenhuma família com bom senso faria algo tão louco!”
“Que garota irritante. Escute bem. Mesmo se assumirmos que há mérito no seu argumento e que seja estranho eu beijar meu irmão, por que você se importa se somos um par estranho de irmãos? Isso não tem nada a ver com você.”
“Urk.”
“Isso é entre mim e o Onii-sama. Uma princesa de algum país europeu atrasado deveria manter o nariz fora dos nossos assuntos.”
“Ngh...”
Stella hesitou, sem saber como contra-argumentar. Era verdade que ela, tecnicamente, não tinha o direito de interferir. Colocar Shizuku nos eixos era dever do Ikki, já que ele era o irmão dela e tudo mais. Certamente não era problema dela. Mas ela não conseguia simplesmente ficar calada.
“Onii-sama, se ficarmos aqui, parece que essa princesa intrometida vai continuar atrapalhando. Vamos para algum lugar mais calmo para aproveitar nosso reencontro.”
Estava claro que Shizuku via Ikki como algo mais do que apenas um irmão; nesse caso, Stella absolutamente não podia permitir que os dois ficassem sozinhos. Ela firmou sua determinação e murmurou: “Isso tem a ver comigo, sim.” Ela percebia que estava corando. “Tem tudo a ver comigo, e eu não quero você beijando o Ikki!”
“Hã?!” Ikki virou-se para Stella surpreso. Afinal, ela acabara de declarar que não queria Ikki beijando outra mulher.
Será que isso significa... que a Stella tem...
“Afinal, o Ikki é meu mestre! Não posso deixar o mundo pensar que ele é um pervertido incurável com complexo de irmã!”
“Esse é o seu motivo?!”
“Fala sério, esse é o escândalo do século!” Kagami gritou animada. “Tenho que mudar nossa primeira manchete o mais rápido possível! ‘Luta em Meus Braços! Uma Princesa Imperial Foi Trancada em Seu Quarto por Setenta e Duas Horas pelo Seu Colega de Quarto e Submetida a Todo Tipo de Atos Obscenos Indescritíveis!’”
“Espera, o Kurogane-san é esse tipo de cara? Ele parece tão gentil, no entanto.”
“Uau. Talvez ele seja um daqueles super playboys que só fingem ser bonzinhos.”
“E ele forçou a princesa a ser sua serva? Caramba. Ele tem uns fetiches bem pesados.”
Ah, não. A Stella só está piorando as coisas.
“E-Espera, Stella! Você tem certeza de que quer dizer tudo isso na frente das outras pessoas?!”
“É-É a verdade, não é?! Nós apostamos nossas vidas inteiras naquele duelo, e você me venceu. Quer eu goste ou não, isso significa que eu pertenço a você em corpo e alma! Nós basicamente nos tornamos um só! É por isso que tudo o que você faz importa para mim! Além disso, é dever de uma serva manter seu mestre no caminho certo!”
“Eu já te disse que podemos simplesmente descartar essa promessa!”
“Não! Meu orgulho como realeza não permitiria! Além do mais, você já me deu sua primeira ordem, não deu? ‘Durma no mesmo espaço que eu’.”
“Que tipo de pessoa você está tentando fazer eu parecer?! Eu não usei palavras tão imorais!”
“Mas foi basicamente o que você disse, não foi?!”
Quero dizer, sim, mas...
“Isso é verdade?”, Shizuku perguntou, com a voz fria como gelo.
Ikki virou-se silenciosamente para Shizuku, tremendo um pouco.
“O que ela disse é verdade?”
A expressão dela estava completamente desprovida de calor.
Caramba, ela dá medo...
“Responda-me, Onii-sama. O que ela disse é verdade?”, ela perguntou pela terceira vez.
Ikki queria dizer que não era. Ele sabia que, se não negasse a afirmação de Stella, a situação só pioraria. No entanto, Stella estava dizendo a verdade, e Ikki não era de mentir.
“B-Bem, a Stella está distorcendo a nuance do que eu disse para fazer parecer muito mais maligno do que foi, mas ela está basicamente dizendo a verdade, sim.”
Ele era honesto demais para o seu próprio bem. Infelizmente, são os honestos que sempre sofrem na vida.
“Entendo... Então é verdade... Heh. Heh heh heh.”
“Shizuku?”
“Seu mentiroso.”
Os lábios de Shizuku se curvaram em um sorriso.
“Gah?!”
Era o sorriso mais apavorante que Ikki já vira.
“Por que você mentiria para mim, Onii-sama? Eu sei que você nunca faria nada que me deixasse triste. Você nunca diria nada que pudesse me machucar. Eu te conheço.”
“Hum, Sh-Shizuku-san?”
“Ah, agora eu entendi. Aquela mulher deve estar te chantageando de alguma forma. Você só está mentindo porque não quer me preocupar. É claro que é por isso. Pensando logicamente, essa é a única explicação razoável.”
“Espere. Escute-me, Shizuku.”
“Onii-sama, pobrezinho. É por isso que eu era contra você deixar a casa da família. Você é tão descolado que eu sabia que outras mulheres se sentiriam atraídas por você. E olhe só, esse monstro de peitos estúpido seduziu você.”
“Eu imploro, Shizuku. Apenas se acalme e me escute.”
“Está tudo bem, Onii-sama. Eu sei que a culpa não é sua. Você é simplesmente maravilhoso demais. Tanto que todo mundo te deseja. A culpa é toda dessa mulher. A culpa é toda desta mulher! A culpa é toda desta mulher! Mas não se preocupe. Eu vou libertar você dela agora mesmo. Salpique, Yoishigure!”
“E-Espere um segundo, Shizuku! Isso é uma má ideia! Guarde essa arma e me escute! Eu não estou sendo chantageado, e— Ei, você está me ouvindo?!”
Shizuku havia invocado seu Device, uma kodachi chamada Yoishigure, fazendo Ikki empalidecer.
“Ora, ora. É claro que estou te ouvindo, Onii-sama. Eu nunca perderia sequer uma de suas palavras. Isso é mais impossível do que o mundo subitamente girar ao contrário. Aha ha ha ha, você é tão bobinho, Onii-sama. Está tudo bem. Eu não vou perder. É verdade que sou apenas Rank B, mas meu elemento é a água — o maior inimigo do fogo. Mas obrigada por se preocupar comigo. Eu te amo, Onii-sama.”
“Você claramente não está ouvindo! Estamos apenas falando sozinhos agora!”
“Sirva à minha vontade, Lævateinn.”
“Espere, por que você também está se preparando para lutar, Stella?!”
“Sinto muito, mas ao contrário de você, Ikki, eu não sou legal o suficiente para ter misericórdia de quem invocou seu Device. Se é uma luta que ela quer, é uma luta que ela terá.”
Estava claro que nem Shizuku nem Stella estavam prestando qualquer atenção real a Ikki. Seus olhares estavam firmemente travados um no outro. Nada do que Ikki dissesse poderia impedi-las. Cada uma sabia que precisava derrotar a mulher à sua frente, ou perderiam Ikki.
“Pessoal, sigam-me para o corredor. Se ficarem aqui, vocês vão morrer,” disse Kagami, liderando a evacuação. Ela se adaptou à situação rapidamente, como uma boa jornalista deve fazer.
Enquanto a sala de aula esvaziava, Stella e Shizuku continuavam se encarando.
“Devo dizer, seu Device é bem minúsculo. Muito parecido com o seu peito,” disse Stella.
“E o seu Device é tão chamativo e deselegante quanto essas suas tetas inutilmente enormes. Combina perfeitamente com você.”
“Ah, não há nada mais deplorável do que as palavras invejosas dos desprovidos. Mas tudo bem, eu te perdoo. Afinal, meu coração é tão grande quanto o meu peito.”
“Gorda.”
Essa acabou sendo a gota d'água que fez a Stella explodir.
Ai, ai. Não há mais nada que eu possa fazer.
Sabendo que a tragédia agora era inevitável, Ikki deu de ombros em sinal de derrota e saiu para o corredor.
“Você está morta!”
A batalha das garotas acabou reduzindo a sala de aula a pedaços.
◆
Naturalmente, a destruição de uma sala de aula inteira não passou despercebida pelos professores. Após uma breve discussão, decidiram que as duas partes responsáveis seriam suspensas e confinadas aos seus quartos por uma semana.
Ninguém esperava que as duas melhores calouras da escola fossem suspensas logo no primeiro dia. Um escândalo desse tamanho rendeu ótimas fofocas, e Kagami decidiu que as suspensões de Stella e Shizuku seriam a manchete da primeira página de seu jornal. Ikki ficou aliviado por ela ter engavetado a ideia de entrevistá-lo por ora — especialmente considerando o título provisório que ela tinha bolado para aquele artigo —, mas ele tinha um problema muito maior agora.
“Ela não era assim antes...” ele murmurou, ainda sem superar o choque de descobrir que tipo de pessoa Shizuku havia se tornado. Ele estava de volta ao seu quarto à noite e não parava de suspirar.
A Shizuku de que ele se lembrava era uma menina tímida, que se envergonhava facilmente. Ela seguia Ikki por toda parte e se escondia no momento em que qualquer coisa minimamente assustadora acontecia. Mas ela havia se transformado, tornando-se o que ele só poderia chamar de uma sedutora.
“Você não pareceu se importar, no entanto, Ikki”, disse Stella, ainda de péssimo humor. “Na verdade, parecia que você estava gostando.”
“Isso não é verdade.”
“É sim. Se eu não tivesse parado ela, você teria deixado que ela te beijasse de novo.”
“Hrk.” Era verdade que, se Stella não tivesse intervindo, Ikki teria sido beijado novamente. “E-Eu não conseguia me mexer. Não era como se eu quisesse ser beijado de novo. Eu só estava tão impressionado com o quão madura a Shizuku se tornou que eu...”
“Ah, entendi, então você estava tão cativado pelo quão bonita sua irmã ficou nos quatro anos em que você não a viu que não conseguiu se mexer.”
“Espere aí, eu não disse isso!” Ikki ainda pensava em Shizuku como nada mais do que sua irmãzinha. Ele nem sequer queria vê-la como outra coisa, e especialmente não como uma mulher. Mas então ele a vira pela primeira vez em quatro anos, e ela havia crescido muito. Além disso, o olhar apaixonado e febril que ela direcionou a ele tornou difícil resistir ao seu fascínio. No momento em que percebeu isso, ele soube que não podia mentir para si mesmo, muito menos para Stella. “Mas... você pode estar certa.”
“Seu siscon.”
“Geh.”
“Pervertido.”
“Eu não consigo nem negar.”
O que há de errado comigo? Talvez eu esteja apenas carente? Com certeza, faz quatro anos que não a vejo, mas isso não significa que eu deveria me sentir atraído pela minha própria irmã de sangue.
“Onde você vai?” Stella perguntou quando Ikki subitamente se levantou.
“Preciso tomar um banho e esfriar a cabeça um pouco.”
Os eventos de hoje causaram danos mentais severos a Ikki. Ele decidiu que deveria apenas se limpar e ir para a cama.
◆
“Eu não acredito nele...”
Stella franziu o rosto enquanto observava Ikki ir em direção ao banheiro.
O que você quer dizer com “você pode estar certa”? Você deveria negar essas acusações!
“Ele até me disse que eu era bonita...”
Irritava Stella profundamente que as atenções de Ikki estivessem sendo roubadas pela própria irmãzinha dele, de todas as pessoas.
Além disso, ele até disse que queria dividir o quarto comigo e me conhecer melhor, então como é que ele ainda não tomou uma atitude?!
Stella estava pronta para ele a qualquer momento. Na verdade, ela acordava antes de Ikki todas as manhãs e garantia que seu cabelo não estivesse bagunçado. E todas as noites, ela se preparava mentalmente para que Ikki seguisse a antiga tradição japonesa do yobai e se juntasse a ela em sua cama.
[Almeranto: Yobai foi uma tradição de namoro e cortejo no Japão rural, particularmente comum até o início do século XX. Envolvia homens entrando secretamente no quarto de mulheres solteiras à noite para relações sexuais consensuais, servindo muitas vezes como um método informal de cortejo que levava ao casamento.]
Isso não significa que eu queira que ele faça coisas obscenas comigo nem nada do tipo, claro! Absolutamente não! Se ele tentar, eu o chuto para fora! Uma princesa solteira como eu jamais faria algo tão impróprio! Mas...
Ela estava farta de Ikki não fazer avanço nenhum.
“Você disse a uma garota solteira que ela era bonita! E que queria conhecê-la melhor!”
Você não pode simplesmente dizer essas coisas e depois não fazer mais nada!
Ikki estava literalmente deixando Stella "na mão". Já passava da hora de ela exigir uma explicação. Especialmente porque ele havia selado os lábios com a irmã hoje e admitido que talvez a achasse atraente.
“Ah, caramba! Ikki, seu idiota! Siscons como você deveriam apenas morrer!”
Stella socou o travesseiro repetidamente, com lágrimas brotando nos olhos.
E se o Ikki não estiver interessado em mim como mulher? E se eu não for o tipo dele? E se ele gostar de garotas esguias e pequenas como a Shizuku?
Se essa última parte fosse verdade, Stella estava em apuros. Ela não era muito alta, mas definitivamente tinha curvas. Até agora, ela tinha orgulho de seu corpo, mas se Ikki fosse tão siscon a ponto de se tornar um lolicon também, ela nunca seria o tipo dele. Essa era a única coisa que ela não podia deixar acontecer.
“Certo.”
Stella então fortaleceu sua determinação e fez uma senhora decisão.
◆
“Seu siscon.”
“Eu me pergunto se ela me odeia agora...” Ikki suspirou para si mesmo, afundando na banheira enquanto pensava no que Stella havia dito.
“Pervertido.”
“Ughhh...”
Não existe cara no mundo que não ficaria deprimido se uma garota mais nova o chamasse de pervertido. Era excepcionalmente doloroso porque tinha sido a Stella quem o chamou assim.
Como cavaleiro, Ikki respeitava Stella Vermillion imensamente. Apesar de seu talento imenso, ela não deixou que isso subisse à cabeça e continuou a treinar incansavelmente para alcançar alturas ainda maiores. Se ele tivesse nascido com tanto talento inato quanto ela, não tinha certeza se seria capaz de se esforçar nem metade do que ela se esforçava.
Ele também a achava uma mulher atraente, e era precisamente por isso que estava tão desanimado. Ele admirava Stella tanto como cavaleiro quanto como homem, então não queria que ela pensasse que ele era um esquisitão. Ele precisava limpar seu nome o mais rápido possível.
“Talvez eu devesse ter uma conversa séria com a Shizuku amanhã...”
Querer que Stella tivesse uma impressão melhor dele era uma parte disso, mas também, Shizuku não era mais uma criança. Ele tinha que garantir que ela entendesse que não podia fazer aquele tipo de coisa com o próprio irmão. Como irmão mais velho, era dever de Ikki colocá-la nos eixos.
Além disso, ela tinha crescido e se tornado uma garota tão fofa. Seria um desperdício se ela perdesse a chance de conseguir um bom namorado porque estava desejando o próprio irmão.
No momento em que Ikki tomou sua decisão, a porta do banheiro deslizou.
“E-Eu estou entrando, ok?”
Stella entrou, vestindo nada além de um traje de banho.
“...Hã?”
Algo estava terrivelmente errado naquela situação. Ikki ficou completamente embasbacado; era como se tivesse encontrado uma baleia em um lago de jardim.
Espera, eu sei. A Stella usando um traje de banho é o que é estranho aqui. Afinal, isso é um banheiro. Não faz sentido usar traje de banho em um banheiro. Se você está com vergonha de estar nua, deveria apenas enrolar uma toalha—
“Espera, espera, espera, espera, espera! O que diabos eu estou pensando?! Quero dizer, o traje de banho também é estranho, mas esse não é o problema aqui! Por que você está no banheiro, Stella?! O que diabos está acontecendo— Ack?!”
Ikki ficou tão perturbado que escorregou do seu banco e caiu no chão.
“Qu-Qual é o problema? Certamente não é tão surpreendente assim.”
“Sim, é! Sério, o que está acontecendo aqui?! Por que você entrou no banheiro enquanto eu estou tomando banho, e por que você está usando um traje de banho?!”
“V-Você não consegue perceber?”
“Absolutamente não!”
“E-Eu pensei que poderia lavar o seu corpo para você...”
A cabeça de Ikki começou a girar. Ele não conseguia distinguir se o calor havia subido à cabeça e ele estava tendo alucinações ou se aquilo era real.
A Stella está se oferecendo para me esfregar? Ha ha ha, isso não pode estar acontecendo. O que é isso, uma visual novel?
“Desculpe, Stella, acho que fiquei tempo demais no banho e o calor está me fazendo ouvir coisas. Você pode repetir o que acabou de dizer?”
“Quero dizer... eu sou sua serva e tudo mais, certo? É meu... dever te limpar. Sim, é isso.”
“Entendo. As servas realmente têm uma vida difícil, hein?”
Espere, o quê?!
“E-Espera um segundo! Eu nunca te pedi para fazer isso!”
“Uma verdadeira serva faz até as coisas que não lhe pedem! O-O Hideyoshi não aqueceu os sapatos do Nobunaga para ele mesmo quando não lhe pediram?! Isso é a mesma coisa!”
[Almeranto: A lenda conta que, em um dia gelado de inverno, Hideyoshi, para garantir que Nobunaga não calçasse sandálias de palha (zouri) frias ao sair, colocou-as dentro de suas vestes, junto ao peito, para mantê-las aquecidas.]
“Como é que isso é a mesma coisa?!”
“Não importa! Este é o meu dever como sua serva, então anda logo e senta aí!”
“Eu não posso deixar você fazer algo assim, Stella! Além disso, nem mesmo as servas vão tão longe pelos seus mestres! Primeiro a Shizuku, e agora você?! Como é que todas as garotas ao meu redor estão tão dispostas a jogar fora sua castidade?!”
“Olha, eu disse que vou fazer isso, então eu vou fazer! Agora sente-se! Senão...” O cabelo de Stella começou a brilhar, e o banheiro começou a esquentar drasticamente. “...Eu vou te cozinhar vivo!”
Ikki sabia que ela não estava brincando.
◆
Stella, uma princesa do Reino de Vermillion, ajoelhou-se ao lado de Ikki — que não vestia nada além de uma toalha em volta da cintura — e começou a esfregar o corpo dele.
Como as coisas chegaram a este ponto? Sinto que estou perdendo o juízo. Ou talvez eu já o tenha perdido e isso seja apenas uma alucinação.
Se fosse o caso, Ikki preferiria que fosse apenas isso.
“É bom você cumprir sua promessa, ok? Esta é a única vez que vou permitir esse tipo de absurdo. A partir de amanhã, isso para”, disse Ikki, tentando parecer assertivo.
“E-Eu vou. S-Só para você saber, eu não estou fazendo isso porque quero, também. É apenas porque perdi para você e me tornei sua serva.”
Se você não quer fazer isso, pode simplesmente parar.
Mas Ikki sabia que era inútil dizer qualquer coisa. Ele já tinha dito a Stella que ela não precisava fazer aquilo, mas ela foi irredutível. Segundo ela, isso era algo que considerava uma parte essencial de ser a serva de Ikki, e ela não recuaria até que ele a deixasse lavá-lo pelo menos uma vez.
Ele não tinha ideia do porquê de ela estar sendo tão teimosa quanto a isso, mas como o orgulho dela como realeza estava, de alguma forma, em jogo, ele não podia dizer muita coisa. Especialmente porque ele foi quem venceu o duelo e esmagou o orgulho dela pela primeira vez.
Enfim, é só por hoje. Só tenho que passar por isso e depois estarei livre.
Apesar do que Ikki repetia para si mesmo, ele não conseguia evitar lançar olhares para Stella em seu maiô. Sabia que não devia, mas suas emoções mais primitivas o dominavam. Ele fingia desviar o olhar enquanto a observava sempre que podia. Ela estava mostrando ainda mais pele do que quando a vira de roupa íntima no dia em que se conheceram.
Ikki já a achava linda, e agora, conseguia apreciar melhor sua figura. Ela tinha um pescoço longo e esguio e uma cintura fina, mas seus quadris eram razoavelmente largos e suas pernas brancas tinham um formato perfeito. Mas eram seus seios que mais chamavam sua atenção. Eram tão grandes que mal cabiam no top do biquíni. Seus seios já eram proeminentes mesmo sob o uniforme escolar mais discreto, mas de biquíni, balançavam um pouco a cada movimento. O sangue lhe subia à cabeça sempre que os via.
Eu não consigo... aguentar isso por muito mais tempo...
Ikki não conseguia desviar o olhar nem fechar os olhos. Ele era melhor em se controlar do que a maioria dos garotos da sua idade, mas ainda era um garoto saudável de dezesseis anos.
Ele não conseguia evitar ter pensamentos indecentes sobre a linda garota bem ao seu lado. E assim, grato por Stella ainda não ter percebido, ele continuou a lançar olhares furtivos para o corpo perfeitamente esculpido dela.
Stella é realmente linda...
Ela era, claro, uma garota muito atraente, mas seu corpo também era ideal para uma cavaleira.
Seus músculos definidos não diminuíam sua beleza feminina, e Ikki podia perceber que havia muita força concentrada naquele corpo pequeno.
Ele sabia que ela devia ter passado por um treinamento extremamente árduo para conseguir um corpo tão forte. Teria sido preciso uma força de vontade de ferro para continuar treinando tão duro apesar de ter talento suficiente para tornar o treinamento desnecessário. Seu corpo era um símbolo físico de sua determinação inabalável e espírito indomável.
Verdadeiramente... deslumbrante...
Esta foi a primeira vez que Ikki viu o corpo de uma mulher tão bonito.
Também foi a primeira vez que sentiu vontade de tocar um. Claro, ele sabia que Stella nunca permitiria isso — ou pelo menos era o que ele pensava.
Ele ficou me encarando o tempo todo... Na verdade, Stella percebeu imediatamente que Ikki não parava de olhar para ela.
As mulheres eram muito mais sensíveis aos olhares dos homens do que eles imaginavam. Era como um sexto sentido que elas possuíam. E esse sexto sentido havia informado a Stella que Ikki estava completamente cativado por ela.
“Ufa...”
O calor do olhar dele era o suficiente para fazê-la sentir calor também. Ela podia sentir enquanto ele olhava do seu pescoço para a clavícula, seus seios, seu estômago e suas coxas. Era como se ele estivesse acariciando-a gentilmente com os olhos.
É tão constrangedor... não consigo pensar direito...
No entanto, Stella não disse para Ikki parar. Na verdade, ela estava aliviada. Isso era a prova de que Ikki achava o corpo dela atraente. Pelo menos, atraente o suficiente para ele ficar encarando. Da mesma forma que o coração dela falhava uma batida quando examinava o corpo dele, ele também ficava excitado ao observar o dela. Isso a deixava inacreditavelmente feliz.
Eu ainda não perdi para a irmã dele.
“Ok, vou lavar suas costas agora.”
Stella terminou de esfregar o torso de Ikki e deu a volta para as costas dele. Ela não estava pronta para lavar a parte inferior do corpo dele ainda. Era cedo demais para isso.
“O-Ok. Hum, obrigado.”
Ikki também não comentou o fato de Stella ter pulado a parte inferior. Diabos, se ela tivesse pedido para ele remover a toalha, ele teria atravessado a parede e fugido em velocidade máxima.
Tudo o que resta são minhas costas. Depois disso, terá acabado.
Como ele não conseguia mais ver o corpo de Stella, era muito mais fácil de lidar. Dava um pouco de coceira sempre que ela raspava em suas costas, mas ainda era melhor do que quando ela estava acariciando seu peito e estômago. Ele conseguia aguentar isso. Ele poderia superar essa estranha provação em que se encontrava. E então, poderia esquecer tudo para sempre.
Ikki jamais falaria sobre o que aconteceu hoje, nem mesmo pensaria a respeito. Os eventos desta noite seriam selados nas profundezas de suas memórias, para nunca mais serem recordados. No entanto, no exato momento em que ele resolveu fazer isso, outra provação se apresentou a ele.
“Ei, Ikki”, disse Stella com uma voz baixa.
“Sim?”
“Hum, tem uma coisa que eu queria te perguntar, se estiver tudo bem...”
“Claro. O que houve?”
“Você... gosta dos seios das garotas?”
Ikki sentiu como se tivesse levado uma martelada na cabeça.
“O qu— Por que você perguntaria u-u-u-uma coisa dessas do nada?!”
“É que... você ficou encarando os meus o tempo todo.”
Aaaaah! Ela sabia! Ela sabia que eu estava olhando para ela! Meu Deus. Eu quero me enfiar em um buraco e morrer. Eu preciso desaparecer para sempre.
“D-Desculpe! Eu sei que não deveria estar olhando, mas...”
“V-Você não precisa pedir desculpas. Eu só quero saber.”
Ela queria saber a resposta para sua pergunta: Ikki gostava de seios? Mas Ikki preferiria cometer haraquiri a responder aquilo. Não havia nada mais constrangedor do que admitir seus fetiches para uma garota que você estava cobiçando com os olhos.
Isso é cruel demais. Qual deus eu irritei para que isso acontecesse comigo?
Ele agonizou sobre o que dizer por um bom tempo, mas, no fim, sabia que não havia escapatória.
“Eu gosto...”, ele conseguiu balbuciar a custo.
“...Entendo.”
“...”
“......”
......... P-Por favor, diga alguma coisa!
“Então, hum, Stella?”
Incapaz de suportar o silêncio por mais tempo, Ikki finalmente falou. No instante em que o fez, dois objetos, cada um muito mais macio e muito maior do que uma esponja, pressionaram-se contra as costas dele.
“Hrrrmpf?!”
A sensação fez o cérebro de Ikki entrar em curto-circuito. Embora suas costas fossem um ponto cego, o que significava que ele não tinha como ver o que estava acontecendo atrás de si, ele soube apenas por aquele toque o que estava sendo esmagado contra as suas costas naquele momento.
“S-Stella, você acabou de—”
“Hnnngh!”
No momento em que Ikki se dirigiu a ela, Stella saltou de pé e saiu correndo do banheiro. Ele vislumbrou o rosto dela enquanto ela saía, e percebeu que ela estava corada até a ponta das orelhas.
“O-O que diabos foi issoooo?!”
Todas as garotas são assim tão impossíveis de entender, ou são apenas a Shizuku e a Stella?
Ikki não conseguia compreender uma única coisa que havia acontecido naquele dia. De qualquer forma, ele sabia com certeza que jamais esqueceria a sensação que acabara de sentir.

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