Volume 1

Capítulo 24: Natal

Natal

O tempo passou lentamente mas enquanto cada um se ocupava com suas obrigações, para André pareceu até divertido esperar o encontro de Natal enquanto fazia as decorações, Zita lhe explicou o significado por trás de cada elemento da decoração. Antes que percebessem era a noite de Natal.

Finalmente os 33 estavam reunidos, era uma verdadeira alegria, além deles, suas famílias também foram convidadas a participarem do banquete de Natal oferecido por Felipe e a Aliança Internacional, apesar de que convidar as famílias era parte da estratégia de Felipe de chamar atenção da imprensa e assim evitar qualquer ação contra os heróis por parte dos superiores da Aliança.

Comidas típicas, luzes e enfeites coloridos, árvore gigante com uma estrela no topo, presépio, músicas temáticas, pessoas se cumprimentando… Mas André estava mais preocupado em comer do que com formalidades, enquanto a maioria das pessoas trocava presentes ele experimentava os pratos típicos do feriado natalino, Zita chegou ao seu lado com seu sorriso animado e lhe entregou um embrulho.

— Feliz Natal! — Disse a ruiva enquanto entregava o presente — Esse ano eu deixo passar, mas no próximo eu quero meu presente…

André abriu o presente e viu um lindo par de luvas de couro preto, entalhado com as iniciais A.L., ele sorriu, talvez um primeiro sorriso sincero em anos, olhou no fundo dos lindos olhos de Zita e lhe entregou uma caixinha, que era minúscula.

— Para você! Feliz Natal! — Sua expressão não parecia ser a do mesmo cara que matou seis militares em segundos há apenas 40 dias.

Zita não esperava ganhar um presente, ela pegou a caixinha, muito surpresa e animada e abriu, e lá dentro tinha uma incrível… Pedra! Ela sorriu para André e agradeceu com um selinho.

— Sério? Uma pedra? — Perguntou uma menina de cabelos longos e azuis, chegando ao lado de Zita — Isso é tão pequeno que não serve nem de peso de papel.

Era Mirian, a Sacerdotisa do templo da água, ela tinha uma certa rivalidade idiota com Zita, devido às propriedades elementais de seus respectivos poderes, água e fogo, por isso acreditava que deveriam ser rivais, mas que Zita não se importava, era algo unilateral.

— Esse é um cristal da Montanha de Fogo, eu posso sentir o calor que ele emana! — Retrucou Zita — Uma joia dessas valeria milhões se fosse a leilão, o poder que tem aqui poderia abastecer de energia a maior cidade do planeta por quase um ano, se fizéssemos uma bomba com isso, seria possível afundar a América do Sul!

Mirian ficou de boca aberta com a explicação de Zita, ela não esperava que André possuísse algo assim, principalmente depois de passar algum tempo em coma no setor de pesquisa e desenvolvimento.

— Mas como você conseguiu esconder isso? — Perguntou Zita para André.

— Esse é o fragmento de um maior que usei no ritual para voltar, quando o grande explodiu, ele entrou no meu braço, e como eu estava impregnado de energia e ossos fragmentados, o pessoal da enfermaria não percebeu o que era, mas semana passada, o Felipe notou algo estranho na minha radiografia, aí tiramos com uma faca na cozinha…

Ao ouvir as palavras de André, Mirian cobriu o rosto com as mãos.

— Você continua um ogro! O Leste só lhe fez mal…

Enquanto Mirian saia, André mostrou a língua, fazendo Zita rir. Felipe aproveitou o momento para agir, se aproximou do jovem casal e em tom de segredo perguntou.

— Como está indo a reaproximação de André com os demais?

— Não muito bem… — Zita suspirou — A maioria deles evita conversar com ele mesmo que informalmente.

— Isso já era de se esperar, nunca me dei bem com a maioria deles. — Explicou André —Pelo menos os três que nunca tentaram me matar aceitaram conversar comigo, ainda que sejam justamente os que menos se importam com a guerra.

— Não se preocupe com isso, apenas se concentre em passar uma boa impressão. —Felipe piscou um olho, e sorrindo completou — E deixe o resto comigo.

— Estou mais preocupado com o que vem a seguir… — André passou a vista pelas pessoas presentes no local como se procurasse algo.

— Como assim? — Felipe perguntou como se já soubesse a resposta.

— Você disse: “Talvez em dois anos”… — André não completou a frase, apenas levantou uma sobrancelha indicando a Felipe que deveria adivinhar o significado da frase.

Felipe não respondeu, apenas sorriu, dando um leve tapa no ombro de André, como se afirmasse que ia dar tudo certo, Zita, que assistia a cena suspirou aliviada.

Zita aproveitou a presença de Felipe, para dar uma volta e cumprimentar os demais, sem precisar deixar André sozinho, já que ele não costumava se enturmar. Felipe por sua vez, aproveitou a saída de Zita e mudou o assunto da conversa.

— Você pode me explicar como diabos aprendeu aquela língua tão complicada? Eu tentei ler as suas anotações mas estou sentindo muitas dificuldades, não existe um padrão, é complexo demais, se não fosse o meu poder seria impossível.

— Foi simples! — Respondeu André — Eu olhei os símbolos e entendi os seus significados…

— Isso não faz nenhum sentido! — Reclamou Felipe — Desde que eu peguei o livro, mesmo que você tenha escondido a chave de decodificação dos símbolos, ainda não consegui traduzir nem metade, essa língua morta é complicada…

— É língua dos mortos… — Corrigiu André — Somente poucos podem ler, mesmo com o código base, o único motivo para você conseguir traduzir é a sua inteligência divina.

Felipe esfregou as têmporas, já faziam 40 dias que ele estava tentando traduzir o livro de capa vermelha para ter acesso às informações que André coletou, seria muito perigoso se André apenas lhe contasse tudo, uma vez que ambos estavam sob total vigilância, aquela era sim a melhor forma.

— Observei que muito do que você conseguiu está incompleto. — Continuou Felipe.

— A maioria das inscrições data entre 2.500 e 5.000 anos! — Respondeu André — Já acho muito termos conseguido isso tudo.

— Mas se o que você descobriu sobre os deuses for a público, teremos uma terceira guerra para nos preocupar… — Sussurrou Felipe.

— Estou mais preocupado com a tal Era do Caos que está profetizada a suceder a Era dos Reis…

A conversa dos dois foi interrompida pela chegada de um dos convidados, que se aproximou de Felipe e André com ar de intimidade.

— Coé sumanos! Só o toddy? Parem de liga torta e bora dá um balo! (Tradução: Boa noite meus amigos! Tudo bem? Que tal se vocês se animassem um pouco e andássemos pelo local interagindo com as pessoas?)

— Quê? — André demonstrou que não entendeu nada.

Era Gledson o “Herói das Sombras”, um dos poucos que nunca tinha tentado nada contra André. Ele vestia uma camisa de time de futebol da terceira divisão, bermudão de praia, sandálias maiores que seu pé, bigode fino, cabelo chavoso… um verdadeiro malaco.

Felipe riu um pouco da reação de André, ele não esperava que a comunicação fosse fácil, mesmo que Gledson tivesse sido enviado para o Escritório da Coréia do Sul, seus hábitos da periferia ainda permaneciam.

André se demonstrou interessado em conhecer um pouco mais da cultura e do dialeto originais de Gledson, e topou segui-lo pelo ambiente, ou como dizia o malaco, “dá um balo”.

O verdadeiro objetivo de André era demonstrar aos demais que ele estava confiante de suas intenções e convencê-los a retornarem ao outro mundo para impedir a “Era do Caos”. Zita achou muito engraçado ver André indo atrás de Gledson, imitando seu jeito peculiar de caminhar e cumprimentar as pessoas.

Felipe seguia os dois pelo salão se divertindo com as reações dos convidados, enquanto Zita conversava com outras duas garotas em um canto, uma era Ewá, alta, negra, belos cabelos cacheados organizados em um penteado ao estilo afro, vestia um traje colorido, a outra garota era Catarina, loirinha, pele sapecada, baixinha, parecia ter não mais do que 17 anos, vestia um macacão rosa incompatível com a sua verdadeira idade, 25.

— Menina, que furdunço é esse que estão espalhando de que tú tava de chamego com o André dentro da Divisão de Inteligência? — Perguntou Catarina.

— Só estávamos matando a saudade… — Respondeu Zita com um sorriso dissimulado — O resto é inveja da oposição.

— Mas vocês já tinham se pegado umas vezes no outro mundo, não foi? — Instigou Ewá.

Zita não disse que sim nem que não, apenas deu um sorriso dissimulado e olhou para onde Gledson, André e Felipe estavam, por alguns instantes seus pensamentos se prenderam às lembranças do passado, até que viu Felipe se aproximar cochichar algo para André.

Por mais que ela não pudesse ouvir, os movimentos dos lábios de Felipe revelaram suas palavras.

— Tudo preparado para a invasão!

Zita tremeu com a possibilidade de ter entendido algo que não devia, enquanto via André confirmar para Felipe com a cabeça involuntariamente caminhou até os dois, ao se aproximar deles ela ainda pôde ouvir Felipe dizer:

— Recomendo que vão para a cama cedo, aproveitem bem o resto da noite, a partir de amanhã, a velha rotina retornará.

André olhou a ruiva nos olhos, aproximou-se dela, e colando seu rosto no de Zita, disse baixinho:

— Prepare-se, amanhã teremos uma declaração de guerra…



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