O Demônio Barista Brasileira

Autor(a): Helena Shirayuki


Volume 1

Capítulo 03: Alguém peculiar

— Que saco.

Pois é, lá estava eu tendo que dobrar aquelas roupas e colocar uma por uma na gaveta para que ficassem do mesmo jeito de antes. No final, o moleque bagunçou tudo depois de ter ficado putinho e, seja lá por qual razão, acabou sobrando pra mim. Hoje seria uma grande dia, sem sombra de dúvidas.

Quando finalmente ajeitei tudo, fechei a porta do armário e peguei minha mochila, indo para a sala, onde Liel estava totalmente estirado no sofá parecendo uma criança.

— Você vai vestido desse jeito?

Ele estava de cabeça pra baixo com os pés apoiados na parede, mas logo se sentou quando fiz a pergunta.

— De novo: algum problema quanto a isso? Você parece se incomodar com tudo o que eu faço.

— Não é que me incomode. Apenas fiz uma pergunta pois você não estava assim quando chegou.

O que queria dizer era que encontrar um garoto de cropped não é algo comum, quem dirá usar uma gargantilha de espinhos com um pentagrama. Nem mesmo a galera alternativa da faculdade se veste assim — exceto em ocasiões muito específicas. E lógico, não contabilizo os chifres ou outras características físicas do demônio, pois elas magicamente sumiram quando o encontrei ali.

— Que seja, tanto faz — complementei. — Vamos nessa? Não quero chegar atrasa.

— Tá. Simbora. — Ele se levantou, pegando a sua bolsa e me acompanhando até passarmos pela porta da frente.

Quando saímos, de cara já esbarramos em uma galera que estava passando pelos corredores. Assim como nós, muitos alunos não tinham aula nos sábados e estavam nos dormitórios apenas esperando dar o horário do almoço, o que justificava toda a multidão.

E óbvio, detestei encontrar toda essa galera. Se já não bastasse ter que passar por uma multidão, eu ainda chamava a atenção por andar ao lado de um gótico rebaixado. A situação ficou ainda pior depois que passamos pela recepção e colocamos os pés nas ruas, pois era mais fácil de atrair olhares.

Sendo sincera, estava bem incomodada, mas diferente de mim, o baixinho não parecia se incomodar. Não demorou muito para que ele percebesse minha aversão ao que estava acontecendo.

— Você parece neurada com alguma coisa. — Liel me encarou enquanto andava. Sua fala ainda mantinha o tom tedioso.

— Me pergunto como você sabe tanto dessas coisas.

— Sua cara feia diz muito sobre você. Tu é péssima em esconder.

E ele não estava errado. Já tinha perdido as contas de quantas pessoas afirmaram a mesma coisa. Eles sempre conhecem muito sobre mim sem esforço algum, mas nunca o contrário. Isso é bem frustrante.

A única maneira que tenho para me defender é quando entendo minimamente sobre o outro; conheço sua forma de se comunicar, agir e sentir. Se eu quisesse ter um pouco de paz e não ser infernizada pelo moleque, deveria me aproximar, mesmo que isso significasse entrar na onda dele e até ser humilhada.

— Liel, me diz: de que curso você é?

— Mas do nada essa pergunta? — desconfiou.

— É, ué. Nunca te vi aqui, então suponho que você seja um novato e eu tenho que te conhecer.

Ele hesitou, mas logo cedeu a resposta.

— Design. Design de moda. E você? É de qual?

— Da parte gráfica. Prefiro mais as artes digitais e edição de imagens pois acho que gostaria de seguir carreira com isso. Não tem um motivo em especial.

Agora fazia sentido ele ter sido colocado no mesmo dormitório que eu. Seria mais coerente se ele estivesse com um veterano do mesmo curso, mas isso não mudaria muita coisa. Conhecendo o pessoal daqui, seria bem capaz dele compartilhar quarto com alguém mal intencionado, o que seria bem problemático.

— E tem quanto tempo que você está nisso? — perguntou.

— Hm… se me lembro bem, acho que tem quase quatro anos.

— Tudo isso?! — Seus olhos se estufaram, surpreso. — Vocês passam tanto tempo assim numa faculdade?

— Sim, ué. Você não sabia disso?

Em que mundo esse garoto vive? Digo, ele é um demônio, seria muito fácil supor que ele não sabe dessas coisas por ser de uma realidade diferente da minha. Mas a questão é: ele aparenta conviver muito bem com humanos, trabalha numa cafeteria e aparenta ter o mínimo de conhecimento sobre o nosso mundo, mas por que tenho a impressão que ele não sabe de muita coisa? É muito estranho tudo isso.

— Na verdade, sim — afirmou. — É que demônios possuem um tipo de talento inato para absorver e aprender as coisas muito mais rapidamente. Não é à toa que apenas fui educado em casa.

— Nossa, sério? Com quem você morava antes?

— Ah, somente com… o meu pai.

Quando ele citou sobre a figura paterna, senti um incômodo pela maneira que Liel se expressou. Sua hesitação na fala, acompanhada do tom aparentemente triste me deixaram com uma pulga atrás da orelha. Além disso, tive a impressão de ter visto sua feição meio cabisbaixa, mas não tinha certeza e creio que seja coisa da minha cabeça.

— Entendi. Então você é daqui mesmo? Pensei que você morava no inferno ou em algum mundo desconhecido.

— Em tese, deveria ser assim. Mas aconteceu umas coisas envolvendo minha mãe e…

Agora pude ter certeza. Ficou estampando na cara dele um visível incômodo, como se estivessem tocando em uma ferida sua ao falar “pai” e “mãe”. Tinha sido descuidada em perguntar depois do primeiro sinal que ele deu.

Depois que parei de fazer meus questionamentos, ambos ficamos em silêncio por um tempo. Não fazia ideia do que dizer, mas para minha sorte, o moleque retomou a conversa, fingindo que nada havia acontecido e voltando a fazer a mesma expressão tediosa de sempre.

— Mas e você? Só vai perguntar sobre mim ou vai dizer algo também?

— Se você não perguntar nada, fica difícil eu te dar alguma resposta, diabo.

— Eu já te falei que é…!

No momento que ele ia falar, um grupo de meninas passou correndo do nosso lado. Por sorte, o puxei para perto antes que dissesse qualquer coisa.

— Faça o favor de olhar em volta se não quiserem que te descubram, idiota — alertei.

— Não me diga o que fazer.

Após dois minutos de caminha, finalmente chegamos na universidade. Quando passamos pelo grande portão da frente, fomos seguindo pelos corredores até chegar no centro dos edifícios, que é onde fica o restaurante universitário. De longe, já conseguia ver a enorme fila que havia se formado e dava uma volta no lugar. O calculo na minha cabeça de quanto tempo demoraria para comer meu maldito almoço estava bem extenso.

E bem, ficamos lá esperando. Passou-se cinco, depois dez, depois quinze, e no final, totalizou 20 minutos que estávamos ali andando a passos de tartaruga sem nem ter certeza se a comida de hoje seria boa. Só havia uma entrada naquele salão, sem contar que a entrega de fichas era absurdamente lerda. Estou no ensino superior e ainda enfrento os mesmos problemas da época de escola? Que merda de vida.

— Essa fila não anda? — Liel estava tão impaciente quanto eu. Não era a primeira vez que tinha perguntado.

— Se fosse em meio de semana, ela ia parar lá no outro quarteirão. Melhor não reclamar pois hoje estamos mais do que no lucro.

— Mas por que toda essa gente está aqui? O que tem de tão especial nesse lugar?

— É apenas um bando de esfomeado querendo um prato de pedreiro por alguns centavos. Como a maioria é estudante e não tem uma renda alta, a universidade disponibiliza a compra das fichas a troco de bala, então todo mundo vem almoçar e jantar aqui.

— Ah, tá. Agora faz sentido. Essa é nova pra mim.

Coitado, mal chegou e já está presenciando o caos do RU (restaurante universitário). Estudantes de primeira viagem são engraçados.

Mas bem, depois de tanta espera, conseguimos passar pela entrada e logo compramos nossas fichas. Quando adentrei no refeitório, de longe senti o aroma do frango frito que pairava no ambiente fechado. O cheiro era como um tempero no ar; me deixava mais ansiosa para matar a fome que sentia naquele momento.

Meu plano era colocar de tudo um pouco nas bandejas de metal e já ir para algumas das mesas, mas o Liel — de novo — deu uma de frescurento com comida e demorou séculos para decidir o que colocar no prato. Ele olhava de perto e cheirava tudo, como se tentasse decifrar se a comida seria do agrado do seu paladar. Era tão metódico que, por um momento, achei que ele fosse da vigilância sanitária.

Terminou que fiquei sem paciência pra tanta baitolagem, então o puxei para os lugares vagos que tinha achado. Após nos sentarmos, comecei a degustar minha comida na maior tranquilidade, isso enquanto o demônio ficava observando sem nem beliscar o próprio almoço. Eventualmente, isso começou a me incomodar.

— Uh… Garoto, você tá olhando demais. Tu não come muito pelo visto, né? — falei de boca cheia.

— Bem, demônios não precisam se alimentar o tempo todo. Não é à toa que consigo passar muitas horas sem comer e até que é melhor desse jeito.

— Tem certeza disso? Digo, você sabe mais de si do que eu, mas da forma que você tá olhando pro frango parece até que tu tá morrendo de fome.

Por um momento, ele virou o rosto, mais uma vez não dando continuidade ao assunto. Perguntei se ele estava bem, mas o demônio desconversou. Não sei ao certo o que esse cara tem, mas não é a primeira vez que isso acontece e já começou a ficar estranho.

Desde que ele chegou, pelo menor tempo de conversa que tivemos, ele nunca tinha demonstrado esse receio em me responder. Se ele tivesse gritado comigo, me dado um soco ou até me xingado, seria mais do que compreensível, mas não era o caso. Não havia catalogado esse conjunto de reações no meu mapa mental sobre ele, muito menos esperava que algo do tipo fosse acontecer.

Liel ainda tentou continuar o papo após toda essa situação, mas ele gaguejava e gesticulava tanto que não conseguia entender um “a” que saía de sua boca. Tentei de tudo para ver se o compreendia, mas ele logo foi interrompido quando alguém gritou pelo meu nome.

— Marcy!

A voz era familiar. Em meio às mesas espalhadas pelo refeitório, avistei Aspen e Alex, ambos acenando. Eles logo se aproximaram, com sorrisos em seus rostos com aparente alegria em me encontrar. Nem parece que esses sínicos me que viram hoje mais cedo.

Depois de cumprimentá-los, conversamos um pouco, isso até ambos perceberem a presença do menino na mesa e o fitarem com os olhos esbugalhados como se nunca tivessem o visto. O demônio, que claramente não entendeu o que estava acontecendo, franziu as sobrancelhas, confuso.

— Liel, você aqui? — indagou o loiro, que logo se sentou ao meu lado. — Você e a Marcy começaram a andar juntos, agora? Pensei que vocês se odiassem.

Encarei o loirinho. Demorei para sacar, mas aparentemente tanto ele quanto seu namorado estavam fingindo um teatrinho. Por qual razão, eu não sei, mas ele estavam.

Cof. — O menino limpou a garganta, e sua feição mudou num instante. — Sendo sincero, eu só ando com ela por pena. A bixinha assusta todo mundo com essa cara de cu.

Por motivos que desconheço, Aspen e Alex deram uma risadinha. Não, não teve graça alguma nessa afirmação; conhecendo o humor desses dois, ou eles estavam dando tudo de si na encenação, ou tinham enlouquecido e virado parentes do Coringa.

— Não entendi por que vocês estão rindo — pontuei.

— Assim… Não tem como te defender. Sinto muito — afirmou Aspen.

Ok, Marcy. Estava bom demais para ser verdade e você, hora ou outra, voltaria a ser saco de pancadas; não se iluda por meros momentos. Foi só os loucos que chamo de “amigos” chegarem que fui colocada pra passar vergonha. Que demônio babaca, viu?

Após isso, entre piadinhas e conversas, os três ficaram dialogando de maneira razoável — o que era estranho, considerando o temperamento do Liel. Desde que tudo começou, apenas fiquei observando no meu canto sem dar muita atenção; pretendia não falar nada e apenas terminar de comer, mas logo me arrastaram pra conversa.

— Ei, amiga. Tenho novas pra ti.

— Uhum… — Fingi interesse. — Conte.

— Tava esses dias conversando com um pessoa lá da época de escola. Como faz muito tempo que não vejo eles, estávamos pensando em sair hoje a noite pro shopping. Talvez comer uma pizza ou ver um filme, sabe? O que você diz?

Poderia até cogitar, mas estava muito cansada por causa do estresse semanal. Se fosse apenas eu e os dois patetas, seria uma coisa, só que iriam pessoas que não fazia ideia de quem poderia ser. Caso não seja meu antigo grupinho de bobões, prefiro ficar em casa.

— Cara, não tô muito afim. Talvez na próxima.

Notei a decepção no rosto de Aspen do outro lado da mesa. Alex, diferente dele, me puxou para perto e começou a sussurrar.

— Então. Tava pensando em levar o Liel com a gente.

— O que? Você é maluco? Já basta as piadinhas dele aqui, quem dirá se tiver mais pessoas por perto.

— Mulher, relaxa. Você está com nós. Te garanto que a galera que vai estar lá é de boa. Inclusive, tem uma pessoa que ficaria muito feliz em te ver se você fosse.

Me interessei quando ele afirmou isso, pois já conseguia filtrar melhor quem poderia aparecer nesse rolê. A questão aqui que me impedia de ir era apenas o garoto. Na verdade, o meu “não” já estava engatilhado havia séculos.

— Tá, eu entendi. Mas por que chamar o moleque, caralho?

— Faz parte do plano. Se você ver como ele se comporta, vai ser mais fácil de lidar com essa babaquice dele. Confia em mim e no Aspen, vai dar tudo certo.

Continuava com vontade de recusar, mas a insistência — não somente dele — foi tanta que acabei cedendo. Quando confirmei que iria com eles, o barbudo vibrou de alegria por estar saindo comigo mais uma vez. Sempre que isso acontecia, o homem ficava radiante de felicidade. É algo fofo.

Depois de queimar todos os meus neurônios restantes e terminar de comer, finalmente me levantei e peguei a minha mochila, já no ponto de sair. Antes disso, me virei para eles, que ainda estavam sentado na mesa, e perguntei:

— Tá. O rolê vai ser que horas?

 



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