Vol 2
Interlúdio 11
Daemon
Como delegado do Condado de Dolkness, Daemon era totalmente responsável pela administração do território. Hoje, ele trabalhava em seu escritório, como de costume, empenhando-se em cumprir seus deveres. Enquanto folheava diversos relatórios de seus subordinados, não pôde deixar de começar a relembrar o passado.
A família de Daemon servira a família Dolkness como funcionários públicos por gerações. Quando jovem, ele trabalhara como funcionário público de baixo escalão na Capital Real, a fim de se preparar para assumir o cargo de delegado no futuro. Ao retornar ao condado, pronto para usar suas habilidades para ajudar os habitantes do território Dolkness a prosperarem, surpreendeu-se ao constatar que o Condado de Dolkness começara a apresentar sinais de declínio.
Naquela época, um jovem conde havia acabado de assumir o território, pois seu pai, o antigo Conde Dolkness, falecera ainda jovem. Aparentemente, quase imediatamente após receber o título do pai, o jovem fugiu para a Capital Real e nunca mais foi visto. O superior de Daemon, que era o delegado na época, disse que era melhor que o jovem e libertino mestre não estivesse por perto.
Nos primeiros anos após a partida do conde para a capital real, as coisas no condado correram relativamente bem. Isso, em parte, se deu a vários anos consecutivos de colheitas abundantes.
“Mas as coisas ficaram difíceis depois disso…” Daemon murmurou para si mesmo, lembrando-se do homem que um dia fora seu superior.
Com os anos iniciais de fartura já no passado, o declínio do Condado de Dolkness logo se tornou inevitável. A situação chegou ao limite quando houve uma colheita recorde de baixa produção, o que levou os administradores do condado a negociarem freneticamente uma redução de impostos com diversas vilas. Eles também estavam ocupados utilizando suas reservas de alimentos para garantir que todos tivessem o que comer. Foi então que chegou um aviso da Capital Real, dizendo: “Os fundos que vocês costumam me enviar parecem ter diminuído. Enviem imediatamente o suficiente para igualar o valor do ano passado.”
O deputado ficou furioso com a mensagem do conde, especialmente porque o homem passava o tempo todo se divertindo na capital real, alheio ao que acontecia em seu condado. Enviou-lhe uma resposta lacônica, informando-o de que, naquele momento, não lhe era possível enviar a mesma quantia de dinheiro que nos anos anteriores, pois a colheita havia sido insuficiente.
O que retornou foi uma carta com apenas uma linha, informando que o deputado havia sido exonerado do cargo. Era apenas uma folha de papel, mas o peso da assinatura do conde era realmente significativo. Depois disso, o deputado caiu em desespero e se retirou, tanto do trabalho quanto da sociedade.
Logo depois, Daemon assumiu o lugar de seu superior. Agora que se tornara delegado, ele era repentinamente responsável por toda a administração do condado. Um após o outro, viu trabalhadores qualificados se demitirem, revoltados com as ações do conde, e eventualmente ele próprio se viu envolvido em falsificação para alterar as demonstrações financeiras do condado. Aproveitando-se do desinteresse do conde por seu condado, Daemon escondeu a receita tributária de anos de fartura e a guardou, usando essas economias para compensar os anos de colheitas escassas. O resultado foi uma pilha de demonstrações financeiras que davam a impressão de que os lucros do condado aumentavam a cada ano.
A realidade, porém, era mais sombria. Daemon não tinha conseguido disponibilizar o dinheiro necessário para a manutenção das estradas do condado ou para financiar projetos de controle de enchentes, e por mais frugal que fosse, a dívida do condado parecia aumentar a cada ano.
Recordando o desastre que havia sido sua vida por anos, Daemon suspirou. Agora que sua mente estava tão firmemente presa ao passado, ele não conseguia deixar de se lembrar da jovem Yumiella.
“Ah, eu nunca vou poder voltar atrás na forma como tratei a senhorita Yumiella naquela época…” ele murmurou para si mesmo.
Já haviam se passado alguns anos desde que Daemon se tornara o delegado do Condado de Dolkness, quando uma criada chegou da Capital Real, escoltando a filha do conde. Yumiella era tão jovem que ainda nem conseguia falar, mas já era capaz de se manter firme sobre os dois pés.
Assim que Yumiella se mudou para a mansão, passou a vagar por lá como uma boneca. Daemon tentou conversar com a garotinha de cabelos negros diversas vezes, mas sua expressão séria o incomodava. Por fim, ele a deixou em paz, confiando que as criadas lhe dariam ao menos o mínimo de cuidado necessário.
Talvez essa fosse a razão pela qual ele não havia notado as mudanças pelas quais a jovem passou nos anos seguintes. Ele recebera relatos de que ela estava saindo escondida da mansão, mas acabara decidindo deixá-la fazer o que quisesse, já que ela sempre voltava ilesa.
“As coisas provavelmente foram difíceis para ela…” Daemon murmurou, com culpa. “Talvez ela não tivesse chegado a tais extremos se eu estivesse do lado dela…”
Agora que sabia a verdade sobre o que havia acontecido, ele não conseguia parar de pensar em todos os detalhes que havia descoberto sobre o jeito de Yumiella de ganhar experiência. O arrependimento o invadiu.
“A senhorita Yumiella disse que aqueles dias foram divertidos para ela, mas isso não tem a menor chance de ser verdade…”
Ele estava errado, é claro — Yumiella havia aproveitado sua época, dedicando-se a viagens diárias para ganhar experiência. No entanto, alguém como Daemon jamais poderia compreender seu ponto de vista. Era muito diferente do das pessoas normais.
Quando soube que Yumiella estava assumindo o controle do Condado de Dolkness, Daemon foi tomado por culpa e medo. Diante de quão terrivelmente a tratara quando criança, seu iminente retorno lhe pareceu nitidamente ameaçador. Não que ele temesse ser punido — não, o que o assustava era que o condado que tanto se esforçara para proteger se tornasse vítima de sua vingança.
Não ajudou em nada o fato de os rumores sobre Yumiella que haviam chegado ao Condado de Dolkness serem todos aterrorizantes. Eram incrivelmente detalhados, descrevendo-a como uma garota cruel cuja expressão permanecia inalterada, não importando quão terríveis fossem as coisas que ela fazia, e como ela havia domado um dragão maligno, com cuja ajuda destruía todos os domínios que não lhe agradavam. Ele até ouvira dizer que ela era, na verdade, um monstro nascido nas profundezas de uma masmorra, que de alguma forma conseguiu assumir forma humana.
Diante dessa notícia, Daemon ficou profundamente apreensivo em relação ao encontro com Yumiella. Ele sabia que a pessoa de quem falavam aqueles rumores poderia destruir seu precioso condado com facilidade.
Alguém bateu à porta do escritório de Daemon, e ele sobressaltou-se na cadeira, seus pensamentos sobre o passado evaporando. Surpreso, o assistente ficou apenas olhando enquanto Patrick abria a porta e entrava.
“Ah, olá, senhor Patrick”, disse ele finalmente. “O que o traz aqui?”
“Eu estava pensando se você teria algum…” Uma ruga apareceu na testa de Patrick. “Há algo errado, Daemon? Você parece mais pálido que o normal.”
O delegado balançou a cabeça negativamente. “Peço desculpas, eu estava apenas relembrando um pouco o passado.”
“O passado?”
“Especificamente, eu estava pensando em todos os rumores que chegaram aqui da Capital Real a respeito da senhorita Yumiella. Eram todos absolutamente terríveis.”
Patrick soltou uma risada amarga, seus pensamentos vagando para sua parceira constantemente incompreendida. “Bem, com o jeito que a Yumiella fala e age…” ele murmurou, relembrando seu próprio passado com ela. “Quer dizer, lembra quando ela chegou? Foi horrível.”
“Bem… sim.”
Pelo que Yumiella dissera naquele primeiro dia, todos ficaram com a impressão de que ela jurara nunca os perdoar por nenhuma das transgressões cometidas no passado, ao mesmo tempo que os alertava de que a fuga era impossível. Mais tarde, Daemon perguntou-lhe sobre isso e descobriu que, na verdade, ela queria dizer que estava ansiosa para se dar bem com todos. Ele não tinha consciência disso na época, porém — ele até se preparou para tirar a própria vida. Foi uma grande surpresa para ele sentir as coisas melhorarem depois que a acompanhou até o escritório naquele dia.
Quando Daemon assumiu o cargo de delegado, substituindo seu antecessor, ele se preparou para a negatividade que certamente viria. Ele esperava suportar o ódio dos cidadãos do condado por causa dos altos impostos que foi forçado a impor, e esperava ser repreendido pelo conde pela baixa arrecadação de impostos do condado. Mesmo assim, ele continuou fazendo o seu melhor, impulsionado por um enorme senso de responsabilidade para com o condado. Embora soubesse o tempo todo que jamais seria agradecido pelo seu trabalho.
Foi por isso que o impactou profundamente quando Yumiella lhe ofereceu palavras tão gentis de gratidão por todos esses anos de serviço. Ele ficou comovido com a sensação de que ela poderia realmente fazer algo para melhorar o condado pelo qual ele tanto tinha carinho. E, até agora, essa sensação estava certíssima.
“Apesar de ela ter assustado a todos naquele momento, agora está claro para mim que a senhorita Yumiella é uma pessoa bondosa”, disse Daemon finalmente, esperando que Patrick concordasse.
“Com certeza”, disse Patrick, sorrindo para o homem mais velho.
“O único problema é…” Daemon parou de falar. “Não, deixa pra lá.”
Por mais gentil que fosse, Yumiella era definitivamente uma pessoa estranha. Daemon guardou esse pensamento para si, percebendo que Patrick provavelmente já sabia disso.
BOOOOM!
Os dois homens pararam, assimilando o som explosivo repentino que acabara de vir de fora da mansão. O ruído profundo e estrondoso reverberou pelo escritório.
“Desculpe”, disse Patrick com um suspiro. “Preciso ir.”
“Claro, tome cuidado”, respondeu Daemon.
Patrick desapareceu em instantes, saindo apressado da sala para capturar o culpado pela explosão.
“Fico pensando no que a senhorita Yumiella aprontou dessa vez”, disse Daemon com ironia. Ele não se mexeu da cadeira para descobrir, preferindo voltar às tarefas em que estava trabalhando. Achou melhor deixar a tarefa de consertar os erros da chefe para o namorado dela.
Havia muitas razões pelas quais Daemon trabalhava tanto. Ele se dedicava arduamente ao seu condado, pelo qual tinha tanto carinho, às pessoas que ali viviam e que estavam sob seus cuidados, e para se redimir perante sua chefe, a condessa, pela maneira cruel como a tratara no passado. Mas, embora estivesse preso ao trabalho, sem poder se ausentar por uma infinidade de motivos, Daemon também começara a se divertir recentemente.
“É maravilhoso ver o condado crescer de verdade”, murmurou ele, sorrindo para si mesmo.
Embora o progresso fosse lento, o condado de Dolkness estava melhorando.
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