Vida em Folhas Brasileira

Autor(a): Lucas Porto


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 2

Noredan

– Escuridão Incandescente –
02


Cidade de Revin.
Uma semana após o despertar.

Após dias exaustivos de caminhada, se orientando apenas pelos lapsos de memória que surgiam uma vez ou outra, Kishi conseguiu trilhar seu caminho até uma cidade de tamanho médio chamada Revin. Com casas altas de até dois andares, lojas e comerciantes ambulantes por todos os lados, aquela cidade brilhava em felicidade, orgulhosa por sua própria beleza. 

Notou assim que chegou que aquela cidade estava em algum tipo de comemoração, diversas pessoas caminhavam pela rua, rindo e conversando sobre assuntos supérfluos. Os vendedores de suas lojas gritavam anunciando seus produtos enquanto ele caminhava, com a postura ereta e rígida. 

Seus ouvidos e nariz foram preenchidos por uma diversidade de sons e cheiros que até então não havia presenciado. Na sua esquerda, um pequeno grupo de homens, cercados por uma multidão hipnotizada que sem revirar os olhos, fixou atentamente o olhar aos instrumentos que os mesmos tocavam. Biwas e sangens dançavam de mãos dadas aos yokobues formando uma linda melodia que fisgou a atenção de Kishi por um breve momento. 

Ele parou em frente a uma pequena loja de acessórios. Era chamativa e tinha um visual único, que acomodava o olhar de quem parasse para a apreciar. Seus olhos correram como crianças brincalhonas pelos produtos em destaque, algumas pulseiras e colares femininos, achou aquilo familiar por algum motivo. 

Um toque suave em suas costas gritou para que ele voltasse à realidade. Assim que se virou, viu uma jovem — que segundo sua própria intuição deveria ter em média 17 anos — com o  cabelo castanho escuro preso em um rabo de cavalo, usava roupas simples, mas bem alinhadas, deu um pequeno sorriso quando notou o susto de Kishi. 

— Posso ajudá-lo, senhor? 

— Ah não. Estava apenas as olhando, são lindas pulseiras. Está bem movimentado hoje não? 

— O senhor não sabe? Estamos celebrando o dia do nosso Deus, Hanbai. — explicou como se estivesse se dirigindo a uma criança. — O senhor não é daqui? 

— Na verdade. — Ele pensou cuidadosamente em suas palavras. — É vergonhoso, mas eu vim do litoral, sou de uma família de pescadores bem pobre. Gasto a maior parte do tempo tentando arranjar comida. Uma pena que não posso alimentá-los com minha ignorância. 

— Me… desculpe, não quis ofendê-lo. Estava apenas tentando dizer que...

— Não faz mal — Interrompeu ele com um sorriso. — Hanbai é bem amado por todos, ouvi um pouco de suas histórias e seus feitos. 

— Sim! Hanbai trouxe paz nos tempos de crise e acabou com a violência que cercava nosso país, espero que ele faça o mesmo com Hakuro e seus soldados. 

— Também espero… 

Kishi achou estranho esse nome, Hakuro, de quem se tratava? Hesitou em perguntar sobre. Se havia algo que ele aprendeu desde que despertou, era que fazer muitas perguntas o tornava alguém suspeito, tomava o maior cuidado possível durante suas conversas para que ninguém desconfiasse dele.

— Bem, preciso ir agora, com licença. — Antes que saísse da loja, a jovem segurou seu braço, ele se virou para ver do que se tratava e a viu lhe entregando uma pulseira. 

— Tome, é para você. 

— Não posso aceitar. 

— Não há problema, é uma pulseira da sorte que lhe trará boas energias durante seu trajeto. Por favor, aceite. 

Sem contestar, Kishi aceitou e agradeceu. Voltou a caminhar pela cidade e observou a pulseira em seu pulso. É realmente bonita. A peça central tinha um formato de pena — deve ser feita de algum metal barato para ser entregue assim a um estranho qualquer —, a lateral foi feita em macramê com o fio encerado nas cores marrom e azul escuro. 

Estranhamente combinava com sua roupa atual; um sapato de couro simples, uma calça marrom clara e uma camisa azul clara. Não era o melhor dos visuais, mas foi o que seu dinheiro vindo dos impostos que cobrou enquanto estava disfarçado de guarda conseguiu comprar. 

Se aquele Deus existia ou não, Kishi realmente esperou que ele estivesse lhe guiando para algum caminho, de preferência, um que revelasse mais de suas memórias. 

 

 

— Então, essa lança é abençoada? — Seus olhos cintilantes devoravam a lança dourada cerimonial. 

—Sim, sim, sim! Essa lança era responsável pelo batismo de guerreiros quando saiam para guerrear, lhe trazendo sorte e proteção divina! Então, vai levar, vai levar, não é? 

Uma mão acariciava a outra seguindo o ritmo acelerado da respiração. Durante toda a festividade nenhum cliente foi fisgado por seus produtos, "ele é o primeiro", pensou o vendedor em aflição olhando o jovem inocente. Números e números escalaram sua cabeça pensando no melhor valor, caso enaltece-se o demais seria óbvio sua mentira, um valor abaixo do que o jovem acreditava seria desperdiçar a chance de mercantilizar.

Trajado por uma túnica marrom simples, desgastada e suja devido ao tempo, botas de couros e um cabelo ressecado como uma árvore no inverno, era óbvio que não possuía muito dinheiro. Suas roupas gritavam isso. O homem que o acompanhava, no entanto, tinha uma postura contrária. Bem vestido, com fios de cabelos negros como carvão e um olhar afiado como a pequena espada que carregava na cintura. 

Quando pensou em fazer uma oferta, o olhar daquele segundo homem rasgou seu pescoço amedrontado sua fala. O outro rapaz ainda olhava a lança cerimonial como uma criança vendo doces pela primeira vez.

— Podemos parar de gastar dinheiro atoa. Temos que ir. 

— Calma Winike, isso é uma festa, divirta-se! Olha como ela é bonita, tem até detalhes em dourado, eu posso levar não posso? 

— Você já gastou demais o nosso dinheiro com comida e bebidas, não precisa de outra lança. Vamos continuar a busca e...

— Obrigado rapaz, volte sempre! — respondeu o vendedor guardando o saco de moedas enquanto Olú sorria com sua nova lança. 

— Você poderia ao menos fingir que me houve… — Resmungou.

— Mas eu te ouço Wini, além do mais, os rapazes já estão verificando a área, não temos com o que se preocupar. Se não relaxar vai ficar com rugas. — O sorriso amarelo de Olú foi atingido em cheio pela raiva marrom dos olhos de Winike por causa da atitude infantil que ele estava tendo. 

Como sua primeira missão oficial Winike não conseguia esconder sua ansiedade. Quando recebeu a notícia que estava indo até Revin a manto de um assassinato e de uma busca por um Noredan sentiu que seu lorde havia reconhecido suas habilidades. Entretanto, sendo acompanhado por Olú, o general, que nem mesmo os membros da patente mais baixa respeitavam, começou a acreditar que havia sido mandado ali apenas para servir de babá. 

"Essa é uma missão perigosa", pensou, "a família Nyune opera fortemente nessa área por conta de seus devotos, tenho certeza que assim como as demais famílias, eles estão de olho nos movimentos da Lótus..." 

Uma gota de suor escorreu pelo corpo de Winike, apenas de imaginar ter que enfrentar as 10 Grandes Famílias suas pernas ficaram trêmulas e um arrepio correu pela espinha. Não tinha dúvidas que Lorde Hakuro estava correto, a corrupção já tomou conta demais desse país e se nenhuma das grandes famílias vai agir, então eles, a escória do povo, irão tomar uma atitude. Mesmo assim, pensar que sairiam com vida no final disso tudo, era ser otimista até demais.

— Aqui é um bom lugar pra se esconder. Não é uma cidade chamativa, é protegida pelos Nyune e durante toda a bagunça dessa festa você pode andar tranquilamente. Você já esteve em missões parecidas, onde acha que o alvo se escondeu Olú?

— Bem... Não faço ideia. — Winike suspirou, Olú não passava de um garoto idiota. — Ei, olha!
Olú correu até uma parede onde estava um cartaz. Winike se aproximou para ler: 

Competição de Luta Crepúsculo — que nome idiota —, hoje à noite, com uma recompensa de 1.000 moedas de prata.

Uma competição no mesmo dia de uma festa religiosa? Isso era tão estranho, ele não conhecia direito os costumes daquele povo, nasceu na capital e foi criado a maior parte do tempo lá, mas sabia que Hanbai era um deus que detestava a luta e derramamento de sangue, isso não seria uma ofensa? Winike se sentia cada vez mais confuso à medida que pensava e tentava entender aquilo.

— Nós vamos... Não é

— Não.

— Mas-

— Já disse que não.

— Minha patente é mais alta então a gente vai!

— General Olú...

— O quê?

— Não faça um escândalo, as pessoas estão olhando.

Quando Olú olhou ao redor percebeu que algumas pessoas que passavam por perto riam dele, uma criança no corpo de um adulto, pensavam. Suas bochechas começaram a se sentir mal pela pressão de serem julgadas por tantas pessoas e ficaram vermelhas. Winike apenas olhou para seu general e com toda sua autoridade, ordenou que fossem se encontrar com o restante do grupo no sul da cidade conforme o combinado. De cabeça baixa Olú não contestou e seguiu Winike sabendo que aquilo provavelmente iria se espalhar dentre os demais membros e sua reputação como general seria manchada, mais uma vez.

 

 

Seguindo as instruções que conseguiu durante suas conversas, Kishi chegou ao centro da cidade, havia mais pessoas ali, todas conversando e rindo alegremente. Também havia um forte odor de carne, provavelmente de porco, vários vendedores fritavam a carne em uma demonstração pública de suas habilidades o que deixava todos com água na boca. 

A festa era acolhedora, sem dúvidas, mas ele não tinha tempo para festejar. Quanto mais rápido conseguisse informações mais rápido poderia achar o velho que aparece constantemente em suas memórias. Seus olhos correram a multidão e pararam de frente a um cartaz preso a uma parede. 
Uma competição de luta. O cartaz explicava algumas regras, onde aconteceria e a hora. Seria de noite. Por mais que não tivesse a intenção de participar sabia que poderia achar mais informações. Entretanto sua mente foi perturbada pela dúvida; "Uma competição de luta no mesmo dia de um festival religioso? Curioso".

Finalmente o dia sucumbiu perante a escuridão da noite.

A lua vitoriosa brilhou forte em alegria, e em seguida, olhou para Kishi. De novo aquele incomodo.

Chegou no local onde aconteceria o campeonato. Aquela região, a norte, era bem mais pobre que o restante da cidade, haviam casas abandonadas, moradores de rua aglomerados frente a uma pequena fogueira para se aquecer. O cheiro de mijo, o som de pessoas gemendo de frio e dor ofenderam os sentidos de Kishi que nem sequer acreditava que aquela era a mesma cidade de hoje cedo.

Não teve dificuldades em se orientar. Várias pessoas ao redor de um círculo branco desenhado no chão gritavam e comemoravam, eles amavam aquele evento, os enchia de adrenalina, uma boa forma de se entorpecer da realidade suja que eles viviam.

No meio do círculo, em cima de uma caixa de madeira, um homem baixo e com um cabelo quadrado que se alinhava perfeitamente ao formato do seu rosto, começou a gritar e falar bem alto e todos se calaram para ouvir.

— Boa noite senhoras e senhores. Uma vez mais honramos nosso querido deus Hanbai. — Uma série de uivos desapontados ecoaram da plateia. — Ele que baniu o ferro pecaminoso de nossas vidas, que pisoteou aqueles com pensamentos diferentes. Nós demonstramos aqui, a  nossa fúria e raiva, que nosso sangue podre o incomode, que está agora, em mais uma de suas festas baratas comendo e bebendo a nossas custas.

Todos ergueram as mãos e gritaram fervorosos, xingamentos a Hanbai era ouvido de todos os lados. As pessoas se espremeram mais, todas querendo ter uma visão melhor do círculo e dos astros principais. 

Todos se calaram quando um homem alto de ombros largos, uma montanha de puro músculo adentrou o círculo e ficou parado ao lado do apresentador. Deu um enorme sorriso e endureceu os braços. Suas veias saltaram.

— Uma salva de palmas a Balar, o campeão do último torneio. Conforme as regras ele não irá participar desta vez, mas, se algum homem sente ressentimento de sua derrota perante a Balar, dê um passo à frente e se vingue.

Todos ficaram quietos. Nenhum lutador se apresentou para o combate, era de se imaginar, aquele homem era uma muralha viva. Kishi começou a se questionar se aquilo não era perda de tempo e ameaçou se retirar. Antes que se conformasse com a decisão, percebeu o grande cinto dourado que estava ao redor da cintura de Balar. Vitória surge da honra era o que estava escrito, aquelas palavras ecoaram na sua cabeça, tão familiar... Com esforço, sua mente resgatou uma lembrança.

Um Kishi criança limpava o chão enquanto resmungava, queria brincar e não fazer tarefas domésticas, “isso é coisa de menina. Eu já sou um homem grande e forte.” murmurou. Quando olhou para uma prateleira em sua frente, nela estava, bem no topo, o mesmo cinto que agora Balar usava. Um troféu de um homem de verdade. As palavras "A vitória surge da honra" persuadiram o pequeno Kishi que começou a saltar tentando pegar o cinto.

Foi interrompido, no entanto, pelas palavras do velho homem.

— Kishi. Se você tem tanta energia para pular, gaste fazendo sua tarefa — trovejou cada sílaba com força. — E Acho que você não está com a altura adequada para usa-lo. — Sua risada alta e forte constrangeu o jovem e imaturo Kishi, desistindo de alcançar o tão exuberante cinto.

Ainda assim, um homem não deve ficar calado quando insultado, o pequeno Kishi abriu sua boca para contestar o velho-

Sua lembrança foi interrompida. 

Alguém o empurrou.

Na mesma velocidade que surgiu a memória desapareceu. Ele deu dois passos para frente por conta do empurrão, o que fez todos olharem para ele.

Balar desfez seu sorriso, olhando da cabeça aos pés para aquele homem magro, achou uma calúnia ser desafiado por um pé de frango. O apresentador de cabeça quadrada ergueu sua sobrancelha. Não reconheceu aquele participante.

— Bem, temos um homem corajoso aqui. Um aplauso senhora e senhores! — Todos aplaudiram.

— Desculpa, foi um engano eu-

— Sem engano rapaz — retrucou Balar. — Eles querem um espetáculo e nós vamos dá-lo!

Kishi definitivamente não queria lutar, a última vez que lutou um homem saiu morto, estava assustado com essa possibilidade. Ao mesmo tempo sabia que não iam o deixar partir, o olhar da plateia demonstrava seu anseio por sangue e carnificina, uma sensação tão desconfortável, quase como ser encarado por uma alcateia de lobos.

Infelizmente para Kishi, Balar não tinha quaisquer preocupações com o espetáculo.

Ele partiu para cima de Kishi, o mesmo não teve tempo de reagir, tomou um soco potente na boca e foi arremessado ao chão. Todos ao redor gritaram e assobiaram, a adrenalina foi sentida por todos que ficaram eufóricos. Kishi começou a se levantar e foi agarrado por Balar, com a cabeça tonta pela potência do ataque, ele novamente ficou sem reação quando Balar o levantou e o jogou novamente ao chão finalizando com um chute na barriga que fez Kishi se distanciar do mesmo.

Todos comemoraram a vitória de Balar, o Grande.

Kishi colocou a mão na cabeça e viu o mundo diante de seus olhos desacelerar, a tontura estava passando, mas uma sensação estranha estava lhe invadindo. Perigo. Ameaça. Seu corpo entendia que o risco era real. Enquanto sua mente se controlava para ser racional.

Seu corpo cedia aos instintos que eram enaltecidos pelo Noredan.

Se levantou dessa vez mais sério. Os aplausos cessaram e todos ficaram boquiabertos. Balar se virou para Kishi, surpreso, mas ainda confiante, deu passos curtos em sua direção.

— Quanta fibra garoto, eu gosto de pessoas assim. Infelizmente você é uma galinha assustada e eu o lobo mau. Se você chorar e implorar eu te deixo fugir ainda com seus dentes intactos. — Assim que terminou de falar ergueu o braço esquerdo para acertar outro golpe.

Dessa vez Kishi reagiu, jogou seu corpo para a direita e deu um soco na barriga de Balar. Ele não sentiu nada. Balar tentou acertar Kishi com as costas do seu braço direito e mais uma vez atingiu o ar. E Kishi. Após se esquivar dando um grande pulo, acertou um soco na cara de Balar. Agora ele sentiu.

Balar se irritou. Segurou o braço esquerdo de Kishi usando sua mão direita e o jogou com força, Kishi voou por todo o campo e atingiu o outro lado do chão da arena.

Suas costas rasparam o chão áspero na aterrissagem. Xingou. A diferença de força era inegável. Quando se levantou viu Balar correndo em sua direção com os braços abertos, quis acreditar que ele vinha ao dar um abraço como pedido de desculpas. Mas logo notou que se recebesse um abraço desses provavelmente teria seus ossos esmagados. "Dispenso a cortesia babaca".

Kishi correu na direção de Balar, quando quase colidiram, no último instante, Kishi saltou na direção do chão e rodou por consequência desviando do abraço de Balar que quase acertou um membro da plateia que estava assistindo.

Balar voltou mais uma vez sua atenção para Kishi que se movimentou com velocidade. Correu e deu um pulo em sua direção acertando os dois pés no peito do inimigo. Por um descuido, Balar perdeu o equilíbrio e caiu para fora da arena quase esmagando as pessoas que estavam atrás dele.

Engano, porém, o pensamento infantil de Kishi que acreditou ter vencido. Balar se ergueu de pressa e veio na direção de Kishi que se encontrava caído no chão após o último movimento. Seus braços começaram a sufocar o pescoço de Kishi que não tinha força o suficiente para tirar aquele gorila de cima de si.

Socos e mais socos atingiram sua face, a consciência começou a se dissipar pelo horizonte.
A derrota iminente apareceu junto ao pavor de estar preso, encarcerado e com o inimigo à sua frente.
E ele não podia fazer nada perante aquela força.

Mas isso foi no passado.

“Eu não sou tão fraco.”

O soco que voou na direção do rosto de Kishi foi parado por apenas uma de suas mãos. Balar se espantou. O sangue que saia do rosto de Kishi começou a regredir para dentro voltando a sua forma original. Juntos a eles os olhos deram lugar a uma escuridão imensurável.

Balar sentiu sua mão sendo esmagada. Berrou de dor. Tentou desesperadamente tirar sua mão dali, e quando olhou de novo para a criatura deitada ao chão teve seu rosto atingido por um soco que acabou com seu maxilar.

Nocaute.

Kishi se levantou.

A plateia incrédula ficou em silêncio, pasma. 

— Te...Temos um vencedor! — gritou o apresentador, palmas e mais palmas agonizaram os ouvidos de Kishi que se retirou irritado dali, sem olhar para ninguém.

Já mais longe dali, Kishi apoiou as costas em uma parede e olhou para as estrelas. Sua respiração gritava por socorro. A gota de suor correu de sua testa até sua bochecha, deu as mãos a uma outra, sua amiga, e juntas pularam do queixo até o chão.

O céu estrelado tentou ajudar Kishi, mas as pequenas estrelas não sabiam o que dizer e então se calaram. A Lua. Sorriu. Um sorriso falso com doses de ironia, a xingaria se pudesse.
Colocou a mão sobre seu olho, que agora voltava ao seu estado original. Enquanto a segunda mente descansava nos confins de sua alma, a primeira trouxe uma memória, não tão antiga, que lhe explicou muitas coisas.

Uma versão dele com uma idade próxima da atual. O arrogante rapaz entrou no torneio. Trazendo consigo um cinto dourado, proclamou que aquele que o derrotasse ficaria com o prémio.

A arrogância foi sagaz, e ela mesma derrubou o rapaz que perdeu perante a experiência e sabedoria dos outros participantes.

O cansaço tomou conta dele. Sem ferimentos, no entanto sentia que não tinha energia o suficiente para fazer nada. Trocou olhares com o sono, quase sucumbiu à tentação de se deitar e dormir ali mesmo. Conseguiu recuperar a consciência. Ficar ali não seria seguro.

De repente, seus olhos perceberam um movimento estranho vindo de um beco perto dali. Assim que a figura percebeu que ele havia o notado correu em disparada. E ele sem pestanejar foi logo em seguida.
O vulto era rápido, a pessoa usava um capuz que escondia suas feições, mas Kishi notou que aquela pessoa era menor que ele. A pessoa adentrou um beco.

Sem saída.

Estava encurralado.

Com cuidado, Kishi deu passos curtos na direção da pessoa. Nesse instante, a pessoa se virou com destreza, sua percepção astuta notou algo brilhando na mão esquerda daquele indivíduo e logo deduziu que se tratava de uma faca.

Quando se deu por fé, ele estava sendo pressionado contra a parede. A faca beijando seu pescoço. O cansaço cobrou de seus reflexos que o colocaram naquela situação, sem movimentos para contra atacar, a figura encapuzada soltou uma risada em tom de deboche, era óbvio quem estava no comando agora.

O vento soprou forte impressionado com a velocidade em que o conflito havia sido resolvido, por consequência, o capuz que escondia a face do inimigo se abaixou revelando um rosto fino e delicado com gotas de suor e um pouco de sujeira.

O cabelo solto em brasa comemorou a vitória dançando com o vento. Os olhos azuis em volto de um mar branco espionava a alma de Kishi o causando uma sensação de desconforto que o fez engolir seco.

— Qual o problema, não está acostumado a ter uma mulher lhe pressionando contra a parede? Ou a perder de forma tão rápida?

Não soube como responder, e mesmo se soubesse, era provável que a faca atravessasse seu pescoço. Fechou os olhos e controlou a respiração, começou a formular uma saída em sua cabeça.
A garota inexperiente acreditou que aquele gesto fosse uma confirmação de sua vitória e deu mais um sorriso.

— Você vai responder todas as minhas perguntas, se gritar eu corto sua garganta.

Quando abriu os olhos, sua pupila havia sido deixada de lado e tomada pelo vazio. Os olhos negros assustaram a moça que hesitou por alguns segundos, segundos esses que viraram contra ela. Ele segurou o pescoço dela e rodou o corpo dos dois invertendo os papéis.

Agora era ela que estava presa.

— Qual o problema? Não está acostumada com a sua cabeça sendo arrancada do seu pescoço?

A força que ele possuía naquele instante a fez parecer ser um pedaço de papel, só precisava de um movimento para que todos os ossos quebrarem. Ele se divertiu com aquilo, logo a morte surgiria para concluir seu trabalho e levar a alma da pequena moça.

Não, isto está errado.

Kishi se afastou soltando a moça e deixando seus pulmões serem preenchidos pelo ar. Se assustou com a ideia da morte, mesmo sem saber ao certo. Seus olhos foram sumindo junto ao calafrio que percorreu seu corpo.

Ofegante a moça agradeceu ter se livrado daquela situação. Seus olhos voltaram a encarar os olhos de Kishi que ainda estava pasmo. Começou a procurar sua arma, a faca tinha caído no chão a poucos metros de onde ela se encontrava. Quando ele percebeu sua intenção, se colocou na frente da arma impedindo o progresso dela.

Ela recuou dois passos e fechou os punhos ficando em posição de combate. Kishi analisou a postura torta de suas pernas e os braços que estavam muito levantados. "Ao menos o olhar está afiado", concluiu mentalmente. Um sorriso sincero surgiu, sentiu que aquilo era familiar de algum modo.

— Do que está rindo? Não tá me levando a sério por acaso?

— Sua postura está errada.

— O quê?

— Se ficar dessa maneira até o vento vai te derrubar.

— ... — O silêncio constrangedor se impregnou. Kishi soltou outra risada e a moça ficou vermelha, ela tinha quase certeza que estava correta, cogitou a ideia de seus treinos não terem valido de nada.

Foi a vez de Kishi se preparar. Abandonou a postura relaxada e copiou a adversária. Ela ficou com raiva de ser caçoada daquela forma. Partiu para o ataque, sua série de socos foram redirecionados pelas mãos de Kishi que parecia se divertir.

Ele se abaixou inesperadamente e o soco que vinha na sua direção atingiu a parede final do beco, o que fez a jovem xingar alto enquanto reclamava da dor. Quando se virou para procurar por Kishi foi surpreendida por ele que apontava a faca para seu rosto.

— Quando...

— Silêncio. Qual seu objetivo, afinal, é o Noredan?

— Eu fiquei surpresa com seu combate, aquele estilo de luta era tão familiar que eu achei que fosse... Noredan? É isso que você é? É algum tipo de poder?

A empolgação daquelas perguntas deixou ele confuso. Como ficou tão calma mesmo sendo ameaçada por uma faca? Os olhos da garota brilharam por um instante como se estivesse feliz em conhecê-lo. Uma criança sem dúvidas.

— Eu não disse que podia fazer perguntas. — Seu sorriso sumiu em instantes. — Qual é o seu nome?

— É... Alissa.

— Você disse que reconheceu meu estilo de combate. Como?

— É muito similar ao renso, mas um pouco diferente. Você venceu o Balar com poucos golpes, aquilo foi incrível! E nem está com nenhum arranhão, seria difícil não chamar atenção.

Ele não contestou, Alissa tinha total razão em suas afirmações. Lutar naquele campeonato só lhe trouxe problemas, provável que guardas ficassem sabendo da história e fossem investigar. Outros guerreiros também podiam surgir e ele não tinha ideia de para onde ir.

— Você não é um dos homens de Hakuro. Por que você me falou da minha postura e não só me matou logo? Já sei, nós podemos fazer um acordo; eu conheço essa cidade melhor que todo mundo, eu posso te ajudar a se esconder, só vou querer um pequeno favorzinho que não vai ser problema pra você e-

— Ei! — interrompeu a fazendo ficar quieta. — Informação demais, eu não concordei com nada e quem é esse tal de Hakuro?

— Você não o conhece? Ele é o pior homem de todos, líder da revolução e quem comanda atualmente a Lótus Negra, onde você esteve nos últimos 4 anos?

Quando Alissa mencionou o nome da Lótus Negra ele se lembrou do guarda que havia encontrado logo após despertar no deserto. Seriam alguém do mesmo grupo? Rivais? O nome ao menos era parecido.

Ele olhou mais uma vez para ela, parecia ser alguém inocente, caso contrário teria tomado mais cuidado em vez de dar um monte de informações para ele. A encarou mais um pouco e soltou um longo suspiro.

— Me dê um motivo para eu confiar em você.

— Um dos generais da Lótus está aqui.

— Como sabe disso?

— Só vou te dizer se aceitar o meu acordo — propôs com outro sorriso convencido em seu rosto. Kishi suspirou.

— Está bem. Eu aceito.

— Uhuu! — Alissa deu um pulinho de animação, ele se perguntou como ela conseguia alternar tão rapidamente de humor em questões de instantes. — Eu me chamo Alissa Flow, é um prazer trabalhar com você Senhor Noredan. — Estendeu a mão como forma de oficializar o acordo.

— É Kishi. — Estendeu a mão e apertou a dela. — Kishi Sanju.



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